quinta-feira, 9 de junho de 2016

"Educar para empreender"

Confesso que tenho as maiores dificuldades em perceber essa ideia ou agregado de ideias que se apresenta (ou se impõe) como "empreendedorismo". E muito menos percebo a sua pertinência no currículo escolar. Vários especialistas no assunto tentaram explicar-me mas as suas palavras não me fizeram qualquer sentido. Também já estudei e não adiantou.

Problema meu, certamente, pois vejo as pessoas a falarem do assunto com um enorme à-vontade, dando a ideia de que os males do mundo acabarão se for dada possibilidade aos meninos, desde muito pequeninos, de desenvolverem projectos direccionados para o desenvolvimento de competências disto e daquilo e que essa abordagem deve acompanhar a sua escolaridade numa "perspectiva de educação ao longo da vida". Desta maneira, toda a gente deixará de ter problemas e acabará por ser muito feliz, como, aliás, as fotografias e vídeos que se referem ao "empreendedorismo" mostram.

Fiquei hoje a saber que o "empreendedorismo" não é uma característica inata, algo para que uns têm propensão e outros não; pode ser adquirida.

A Europa aposta nisso - pois se é para a felicidade de todos - e conta com os sistemas de ensino para levarem a cabo reformas educativas profundas. O que já estava instalado no nosso não basta, há que ir mais além.

Para tanto foi lançado o projeto Youth Start - Entrepreneurial Challenges (aqui), ao qual Portugal já aderiu.

Procurei informação na internet relativa a Portugal  e encontrei a PEEP - Plataforma para a Educação do Empreendedorismo em Portugal - que é "uma organização não-governamental para o desenvolvimento na qual participam indivíduos, organizações de educação, empresas, entidades governamentais e da sociedade civil".

[Vale a pena ver a lista de parceiros - aqui)

Trata-se, afirma-se aqui do "maior projeto europeu em educação em empreendedorismo que promove programas de aprendizagem prática e experiencial a um nível da escolaridade obrigatória, desde o ensino básico ao secundário, através do desenvolvimento de um programa inovador, transferível e escalável, construído em colaboração com os Ministérios da Educação e autoridades públicas da Áustria, Eslovénia, Luxemburgo e Portugal."

Continuo a citar: "foi desenhado para ser flexível na sua aplicação e inclui programas intensivos e extensivos, possibilitando a professores de várias disciplinas e de diferentes tipos de escola utilizarem os módulos (...) com os seus alunos."Como não podia deixar de ser a ele estão associados os "games": BGame: Jogos Inovadores de Gestão Estratégica como metodologia de ensino para uma educação empresarial e de empreendedorismo'

"O principal grupo-alvo deste projeto com 3 anos de duração serão os jovens alunos com idades compreendidas entre os 13 e os 17 anos, através de duas intervenções de larga escala. Adicionalmente, serão implementados estudos de caso com crianças entre o 8 e os 11 anos de idade. Estes estudos de caso incorporarão turmas com apenas um professor nas escolas básicas do 1.º Ciclo, e turmas do segundo ciclo do ensino básico com mais do que um professor."

Além de ser um projecto de educação é também um projecto de investigação. "com o objetivo de avaliar a eficácia do programas será aplicada uma metodologia randomizada de ensaio controlado, utilizando um desenho quasi-experimental com uma abordagem ex-ante e ex-post em três etapas...

E, há a formação de professores, evidentemente. Precisamos de ter professores bem preparados para ensinar "empreendedorismo" (será que nesta área é permitido usar a palavra "ensino"?).

Para apoiar tudo isto, existe pelo menos uma publicação da Eurydice (Comissão Europeia) - Entrepreneurship Education at School in Europe, 2016 Edition - onde vi dois capítulos directamente relacionados com o meu campo de trabalho: School Curriculum e Teacher Education and Support Chapter, mas ficarão para uma próxima incursão, pois o "empreendedorismo" é um tema que, vá lá saber-se porquê, cansa-me muito.

3 comentários:

  1. O "empreendedorismo" é o fenómeno de uma sociedade onde a liberdade permite a livre iniciativa de concretização de ideias. Estamos muito longe disso!!! Estamos perante mera ideologia!

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  2. É importante saber o que faz um empreendedor e se é possível "fazer" um empreendedor. Dizer, por exemplo, como já ouvi em jornadas de empreendedorismo, que o empreendedor não se faz, nasce, é dizer às pessoas que não estão ali a fazer nada.
    Quando olhamos para exemplos de empreendedores, ou que são convidados e apresentados como tal que, pouco depois, foram à falência, seria muito positivo para a causa do empreendedorismo convidá-los e apresentá-los novamente, nas jornadas do empreendedorismo.
    Por outro lado, o próprio conceito de empreendedor, nunca ou raramente é abordado, tendendo a ser confundido, simplesmente, com alguém que se tornou "empresário de sucesso", baseados numa imagem que se tem e não, propriamente, em auditorias contabilísticas e avaliações sociais.
    O empreendedor, para o dito empreendedorismo, é um estereótipo "sui generis" que, de alguma forma "pedagógica", pretende legitimar e sobrevalorizar o mundo empresarial.
    Aliás, o empreendedorismo é mais uma iniciativa de caráter empresarial. Quanto aos ingredientes ideológicos, o empreendedorismo só é viável em ambientes favoráveis, como tudo na vida.
    Não obstante, se pudermos ver no empreendedorismo uma cultura de formação e de informação e de concorrência de esforços e de meios para "promover a facilidade" a quem quer abrir negócios ou concretizar uma ideia empresarial, isso parece-me ótimo.

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  3. essa conversa é um completo disparate , está ao nível das crianças índigo.
    têm assim umas palavras fetiche , que no fundo não significam nada . não creio que o onassis ou o nabeiro ou o ortega e tantos outros fura vidas mais medianos tivessem tido aulas de "banha da cobra " na escola :)

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