segunda-feira, 13 de junho de 2016

A CHAVE DAS BIBLIOTECAS


Em 1834, no rescaldo da Guerra Civil e da Revolução Liberal, o governo português, pela pena de Joaquim António Aguiar, o "Mata Frades",   mandou encerrar as casas de ordens religiosas que, em grande número (cerca de 500), estavam espalhados pelo país. AS respectivas bibliotecas foram então desactivadas, Uma quantidade enorme de livros foi, em muitos casos, mudada de sítio. Por exemplo, a multissecular biblioteca do Mosteiro de Santa Cruz foi em grande parte transferida para a Biblioteca Pública Municipal do Porto, onde trabalhava como 2.º bibliotecário  o então desconhecido Alexandre Herculano. Só não foram os grandes livros de coro,que eram  demasiado pesados para poderem ir nos carros de bois... Devido a essa reorganização, muitos livros perderam-se. E outros perder-se-iam depois disso, por incúria. Um verdadeiro desastre.

É, por isso, muito oportuno e assaz louvável o trabalho de reconstituição dos acervos das bibliotecas de instituições religiosas, feita através do levantamento dos catálogos e inventários, por Luana Giurgevich e por Henrique Leitão, os dois historiadores da Universidade de Lisboa com créditos na história do livro, em particular o segundo na história do livro científico (preparou exposições sobre os livros “Aula da Esfera”, a escola internacional de matemática que os Jesuítas mantiveram largos largos anos no Colégio de  S. Antão, onde é hoje o Hospital de S. José). O pesado volume de 863 páginas (o peso reflecte o número das bibliotecas...) acaba de ser publicado pela  Secretariado Nacional para os Bens da Igreja, como o n.º 1 da colecção “Fontes para o estudo dos Bens Culturais da Igreja”, dirigida por Sandra Saldanha. O título é em latim- “Clavis Bibliothecarum” (Chaves da Biblioteca) -  e o subtítulo explica o conteúdo - “Catálogos e Inventários de livrarias de instituições religiosas em Portugal até 1834”. Há dois prefácios: um  de D. Pio Alves, bispo auxiliar do Porto e Presidente da Comissão Episcopal de Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais e outro  de Noel Golvers, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lovaina e membro da Academia Internacional da História da Ciência.

A obra é o resultado de um trabalho aturado e minucioso de pesquisas de fontes impressas e manuscritas. Os leitores dizem que deve estar incompleto, mas parece bastante completo. Aqui está a chave para a história cultural do país antes de 1834, pois ela não pode ser concebida sem olhar para o papel da Igreja. Giurgevich e Leitão apresentam uma espécie de ”top ten” das bibliotecas religiosas nacionais. Havia em Portugal cerca de uma dezena de bibliotecas de grande porte (isto é, com mais de 20.000 volumes), incluindo a Biblioteca do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra (ca. 36.000 volumes), da Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, o Convento de Nossa Senhora de Jesus de Lisboa (ca. 32.000), da Ordem dos Frades Menores ou Franciscanos,  o Convento de Nossa Senhora da Graça de Lisboa (ca. 30.000), da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, e o Convento de Nossa Senhora e Santo António de Mafra (ca. 28.400),  da Ordem dos Cónegos Regrantes de S. Agostinho (como o de Santa Cruz, em Coimbra), e o Convento de Nossa Senhora das Necessidades (ca. 28.000), da Ordem dos Oratorianos, e cerca de 30 bibliotecas de grande porte (isto é, contendo entre 5000 e 20.000 volumes), incluindo o do já referido Colégio de Santo Antão de Lisboa (ca. 11.600), da Ordem dos Jesuítas,  a Casa Professa de S. Roque (13.000), em Lisboa, também dos Jesuítas,  e o Mosteiro de São Martinho de Tibães,  da Ordem dos Beneditinos (ca. 9000).

Ora aqui está um volume que facilita muito o trabalho dos historiadores, não apenas os que queiram estudar a história da igreja, mas também os que queiram estudar a história das letras, das artes e das ciências, quer dizer e em geral, a história da cultura e das mentalidades. Fazer a história do livro é fazer a história da cultura: ao saber o que se lia, passamos também a ver o que se sabia e o que se transmitia. 

1 comentário:

  1. Permita-me acrescentar q o livro pode ser adquirido na Loja Online dos Bens Culturais da Igreja: https://www.bensculturais.com/loja?page=shop.product_details&flypage=flypage.tpl&product_id=96&category_id=11

    Há ainda os seguintes recursos na net:
    - Blogue mantido pelos autores: http://clavisbibliothecarum.blogspot.pt/
    - Página da BN com acesso em formato digital dos documentos referidos na obra: http://clavisbibliothecarum.bnportugal.pt/

    Acrescento q no dia 29 deste mês terá lugar na Biblioteca Geral da Univ. de Coimbra a primeira de um ciclo de conferências sobre a 'Clavis Bibliothecarum', aberta a todos os interessados: https://www.bensculturais.com/snbci-noticias/794-clavis-bibliothecarum

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