sábado, 21 de maio de 2016

Alunos em salas-montras


As "salas de aula do futuro", decorrem, ao que tenho lido, de uma ideia importada de Bruxelas que, em rigor, é mais um pacote ideológico recheado.

A par da instalação de uma parafernália tecnológica em espaços descontraídos e garridos, que não se querem em nada parecidos com as salas de aulas "tradicionais", usa-se toda uma retórica cujo tom anda entre a crença e a promessa.

Vejamos, afirma-se que os alunos que estejam nestas salas, onde o ambiente é informal e lúdico, melhorarão os resultados académicos e isto porque:
- o centro deixou de ser o professor para passar a ser os alunos;
- as aprendizagens são contextualizadas nas suas vivências;
- e assentam na resolução de problemas decorrentes dessas vivências;
- o trabalho é "verdadeiramente interdisciplinar";
- usam-se métodos como o inquiry-based learning ou o invertid ou flipped classroom;
- as actividades são práticas, as que eles preferem;
- todo o trabalho é "verdadeiramente interdisciplinar"
- e cooperativo;
- e, claro, os games que não faltem;
- ...

Tudo isto aumenta a motivação para o estudo e para o esforço pessoal, logo, "potencia as aprendizagens significativas" e reforça a autonomia.

À parte o facto de esta retórica, ao contrário do que se faz crer, ser muito antiga, é de uma vacuidade deslumbrante: cada expressão pode apontar num sentido ou no sentido contrário, dependendo das perspectivas. Não obstante, nela se destacam diversas relações de causa-efeito, organizadas em cadeia mas cuja ordem varia de texto para texto.

O conjunto não poderia contrariar mais a atitude científica, que deveria conduzir sempre o ensino, sobretudo, como é o caso, se se trata de alunos com "deficits de aprendizagem" e "um elevado nível de retenções no ensino básico".

Mas, já nem vou por aí, pois esta é uma circunstância instalada e da qual, lamentavelmente, parece não haver uma saída. O que ainda me surpreendeu foi o que se segue.

Estas salas são remodeladas e equipadas por diversas empresas, que se encontram devidamente identificadas:
"Do mobiliário ao equipamento informático, da conceção estética aos sensores, o equipamento e recursos necessários serão colocados à disposição do projeto pelas diversas empresas parceiras"
A contrapartida é, pasme-se, tornar a sala
"como uma montra das novas tecnologias ao serviço do ensino e da aprendizagem, que possa ser testada em contexto de ensino por alunos e professores, retirando daí os ensinamentos práticos que advêm da utilização destas novas tecnologias. 
"passará, assim, a constituir uma montra para estes produtos e equipamentos, podendo por isso ser visitada por potenciais clientes nacionais e estrangeiros, nos termos do acordo assinado pelas instituições envolvidas".
Tal enormidade acontece em escolas públicas, a quem confiamos as nossas crianças e jovens, escolas que têm obrigação de levar os alunos a aprender conhecimentos disciplinares e valores fundamentais, entre os quais se conta a dignidade. Pagamos impostos para isso.

Os nossos alunos não são cobaias de experiências, que, ainda por cima, têm tudo para correrem mal, nem são instrumentos em cenários destinados à apreciação de clientes.

Estas salas, que estão a disseminar-se pelo país, são instaladas sobretudo em escolas localizadas em meios sociais fragilizados, frequentadas por alunos de famílias de "estrato social médio-baixo. Ou seja, em meios onde o deslumbramento com as novas tecnologias de informação e comunicação é ainda uma realidade e a capacidade crítica é limitada.

Sobre o assunto pode encontrar-se informação aqui.

5 comentários:

  1. Talvez o ponto crítico de uma escola esteja na sua aptidão para fazer um aluno, os alunos, acreditarem que podem aprender a fazer algo pelo qual serão reconhecidos e valorizados. Se desse modo se sentirem promovidos e na medida em que o sentirem, a escola fará "milagres".

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  2. Estranho que num blogue desta natureza e com a seriedade que se lhe reconhece, alguém faça um comentário sobre um espaço que desconhece, que nunca visitou e que nunca fez um esforço por conhecer.
    Reconheço neste comentário algo que não estranho nos comentários das noticias dos jornais, mas vindo de uma bloguer na Universidade de Coimbra, deixa-me extraordinariamente desconfortável pelo conteúdo do mesmo.

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  3. Um post sobre a "surpresa" e o "pasmo" de uma pessoa... e que tal apresentar argumentos? Em que estudos científicos se baseia para fazer estas críticas? Ah... a intenção será tão somente associar as Salas de Aula do Futuro à Escola Pública e aos impostos que a financiam? Curioso o timing... vindo de uma pedagoga... de coimbra...
    E já agora, se os alunos não são cobaias de experiências, como justifica o programa e as metas curriculares de nuno crato, que a dra ajudou a pôr no terreno? Isso já não foi experimentalismo?

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  4. Prezado Leitor Carlos Cunha
    Agradecendo o seu comentário, noto que não me pronunciei sobre o tipo de esforço que fiz para conhecer o espaço em causa, nem explico se o visitei. Este facto não permite inferir se lá estive ou se não. Mas, no caso, nem é isso que está em causa, o que está em causa é o que consta no extracto que cito e que me parece ser suficientemente importante para merecer alguma atenção.
    Cordialmente,
    MHD

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  5. Quem está agarrado a um modelo, dentro de uma caixa fechada, dificilmente sairá cá para fora!! Vindo de uma pedagoga, este texto ainda me causa mais perplexidade. Gostaria de comentar apenas os primeiros parágrafos, pois tudo o que se segue são meros preconceitos e ideias que me parecem sustentar outro pacote ideológico:
    1. Começo por "Ao que tenho lido"...bem...quando apenas se lê e não se conhece o terreno, é difícil formar ideias concretas e bem estruturadas, tudo acabando por se resumir a preconceitos e superficialidades;
    2. "A ideia foi importada de Bruxelas", pois a European Schoolnet trabalha há vários anos no terreno, em inúmeros projetos de implementação de pedagogias inovadoras, cenários de aprendizagem e utilização da tecnologia na sala de aula, projetos como o Etwinning, iTec, Future Classroom Lab, Creative Classrooms Lab e o mais recente, o Co-Lab permitiram elaborar estudos nestas áreas. Um dos que tive a oportunidade de trabalhar (Creative Classrooms Lab) teve a coordenação da University of Wolverhampton. Não...não foi nenhuma empresa que encomendou o estudo! Creio que seria interessante fazer uma leitura sobre estes projetos, caso não possa visitar a EUN ou falar com muitas pessoas (também académicos) portuguesas e de outros países que estão envolvidas nestas iniciativas. Se quiser eu dou-lhe o contacto da Diana Banister que esteve a cargo do projeto acima referido;
    3. Quanto à "parafernália tecnológica" de que fala, esse tipo de discurso só evidencia o profundo desconhecimento que tem destes espaços de aprendizagem e dos projetos que têm estado na sua origem. A tecnologia é a ferramenta de suporte à pedagogia e não o centro deste tipo de salas de aula. Nunca, em qualquer projeto relacionado com os Laboratórios de Aprendizagem se coloca a tecnologia a montante do processo ensino-aprendizagem. A tecnologia rodeia-nos, permite investigar, permite simular, permite explorar, permite organizar, permite colaborar e mais importante de tudo, permite criar e partilhar...conceitos que se enquadram sem dúvida nessas pedagogias que não sendo novas, ainda são uma realidade muito pouco frequente nas nossas escolas (e menos ainda nas universidades).

    Como Professor e Diretor Pedagógico num colégio com um Laboratório de Aprendizagens Diferenciadas (nome manifestamente melhor do que sala de aula do futuro) e diretamente envolvido nesta iniciativa de que tenta falar, mas sobre a qual pouco conhecimento revela, gostaria de convidá-la a visitar algumas destas salas e ver como os alunos nelas aprendem e trabalham. Depois, podemos debater acerca de aspetos positivos e aspetos negativos (que também há...mas não aqueles que tenta destacar neste texto) que estas abordagem envolvem.


    E por fim...deixava aqui algumas questões:
    1- Será que sabe realmente o que é um Laboratório de Aprendizagem?
    2 - Será que já esteve numa destas salas (que volto a referir não gosto de chamar do futuro, pois gera este tipo de reações)?
    3- Será que já alguma vez falou com alguém ou esteve na mesma sala que as pessoas que têm trabalhado nos projetos mencionados?
    4- Será que vive no nosso mundo, com crianças reais e com pessoas do séc. XXI?
    5 - Por último...mas também muito importante...será que pediu autorização ao Carlos Cunha ou à sua escola para colocar o link da sala de aula do futuro em Setúbal no seu blogue!!

    Gostava que o discurso na educação se pudesse elevar um pouco mais e que nos deixássemos desta abordagem terrorista, talvez adequada aos líderes partidários (que pouco sabem de educação) mas pouco compreensível em professores, pedagogos ou investigadores na área da educação.

    Cumprimentos,
    Rui Lima

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