quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Relendo Cristóvão de Aguiar

Texto de João Boavida, que esperemos marque o retorno do autor ao De Rerum Natura.


1. Voltei a ler Raiz comovida, agora reeditada pela Afrontamento, no 1.º volume das Obras Completas de Cristóvão de Aguiar. A obra apareceu nos finais de 70, em três tomos: A semente e a seiva, 1979, (Prémio Ricardo Malheiros), Vindima de fogo (1979), e O fruto e o sonho (80).

Soube-me bem tornar a lê-la. A esta distância de quase 40 anos a obra não envelheceu nada, continua viva e com todas as suas qualidades. Pelo menos para aqueles que conheceram aquele Portugal, e aquele tempo, que se criaram a amá-lo e a sofrê-lo, com tudo o que implicava de ambientes, pessoas, situações, mentalidades, carências, injustiças, desequilíbrios sociais, misérias e grandezas. É um retrato magnífico da sociedade portuguesa da primeira metade do século XX, uma autêntica aguarela, como se costuma dizer, rica, colorida, picaresca, mas realista e cheia de humanidade e graça. E com a especificidade açoriana – na linguagem, nas paisagens, nos ambientes sociais - a dar-lhe um toque muito particular e a acrescentar-lhe o interesse, sem deixar de retratar todo o Portugal de então.

Com uma estrutura aberta, numa sequência de memórias de lugares, de pessoas e situações, uma criança recorda as suas vivências e vai muito para trás relatando casos contados por familiares seus, histórias da vila e das famílias, ligações, relações, ódios e afetos. E tudo isto através de uma escrita de grande qualidade, conseguindo misturar ingredientes que não é comum vermos tão bem sintetizados numa só obra. É de facto, como disse o Medeiros Ferreira, uma «homenagem à língua portuguesa»; mas é mais do que isso, é uma homenagem ao povo açoriano e, em termos mais vastos, a todo o povo português, pois sentimo-lo ali igual ao açoriano das mais variadas e sempre autênticas maneiras.

Não sei se haverá outra obra em Portugal, dentro do género, que nos mostre tão bem o Portugal de então. E se nos restringirmos aos Açores, certamente que não encontramos outra. Fala-se, por exemplo, de Mau tempo no canal, como um dos melhores romances do século XX. É uma opinião discutível, claro, embora se trate, sem dúvida, de uma das grandes obras literárias do nosso século XX.

Tendo em conta que os dois autores são açorianos, que emergem da mesma realidade cultural e sem grande diferença temporal, a comparação é inevitável. E embora este tipo de comparações possa ser fonte de equívocos e de possíveis injustiças, Raiz comovida é um retrato mais rico, mais realista e mais próximo do povo açoriano que Mau tempo no canal. A obra de Nemésio retrata sobretudo a burguesia endinheirada e uma ou outra família com fumos de aristocracia, enquanto que a de Cristóvão de Aguiar vive do povo, dos artesãos, dos pescadores, dos trabalhadores rurais. Pode-se talvez falar duma densidade maior das personagens – sobretudo dessa personagem notável que é Margarida Dulmo – mas a própria estrutura e enredo do romance de Nemésio favorecem esta dimensão psicológica, que o livro de Cristóvão de Aguiar capta talvez menos pela própria estrutura e textura.

 Se outro mérito não tivesse, a obra constitui um vastíssimo e variadíssimo quadro social e cultural, uma montra dos usos, costumes, mentalidades, falas, expressões, relações familiares, artes, ofícios, crenças, moralidade, sexualidade, repressão, formas de educação, manhas e artimanhas, enfim, histórias de muitas formas e feitios, que nos proporcionam um enorme prazer na leitura e uma informação sobre os Açores que nenhum outro meio consegue.

2. Mas, para lá disso, que é muito, tem ainda um mérito literário inquestionável. Ponho-me a pensar nos neorrealistas, entre os quais a obra de Cristóvão de Aguiar pode ser integrada - um neorrealismo tardio, é certo, mas, de qualquer modo, dentro da sua tradição - e dificilmente encontro um autor que tenha conseguido fazer tanto e tão bem com uma só obra; ou mesmo com três, já que se trata de uma trilogia. Os nossos neorrealistas mais considerados (por exemplo, Carlos de Oliveira, Cardoso Pires, Alves Redol) escrevem dum modo muito diferente, e embora com algumas obras de grande qualidade, qualquer deles esta longe de ter produzido uma riqueza colorida e múltipla como esta obra consegue.

Por outro lado, repito, a obra tem uma qualidade que não cede ao longo de todos os livros, uma originalidade de sintaxe - sem desconstruir sintaticamente - uma riqueza linguística única, e um sem número de achados de primeira, (De contente, «o senhor padre não cabia nos paramentos», ou «os luteranos recolheram as redes e partiram com elas vazia de almas e de peixes», p. 405; «os olhos colavam-se às montras das lojas que se sucediam como pevides de melancia», p. 277, etc., etc.). E algumas descrições de antologia, como a ida à cidade, com o pai, para comprar ferro, no pós-guerra, pp. 274 – 280, ou a aparição do Inferno ao pobre do Luz Cruz, pp. 241 – 244).

Talvez um pouco gongórica aqui e além. Mas também isto tem que ser contextualizado e relativizado, porque faz parte da amálgama lexical, social, cultural e até paisagística que, de algum modo, a solicita. E talvez até exija, pois a obra é sobretudo descrição, oralidade, colorido e não propriamente o jogo verbal e o arrebique desnecessário de que o gongorismo tanto gosta. Ou seja, a base coloquial das histórias, sequenciais e entrecruzadas, implica uma certa repetição, e até, por vezes, alguma redundância, que estranhamos talvez, afeiçoados que estamos hoje à concisão dos referidos Cardoso Pires e Carlos de Oliveira. Mas todas as obras são unidades sistémicas, definem a sua coerência e organizam-se em função disso. Importante é saber se conseguem mantê-la, ou não. Ora, também a este nível, Raiz comovida é irrepreensível. E se pensarmos na obra de alguns dos nossos maiores (Aquilino Ribeiro, Tomaz de Figueiredo, até mesmo Camilo Castelo Branco) encontramos gongorismos bem mais assumidos e desenvolvidos, e nem por isso as consideramos menos.

3. Por outro lado, ao relê-lo, tive várias vezes a sensação de uma injustiça. E, chegado ao fim, essa sensação reforçou-se. A obra teve o seu sucesso, ao tempo, é certo, mas o facto de manter a sua qualidade intacta ao fim de todos estes anos, mostra que ela tem todas as condições para se transformar num clássico. Ou melhor, já é um clássico, e estou certo de que o será cada vez mais. E a injustiça está precisamente aqui, não se compreendendo, portanto, o silêncio que se fez sobre ela, e que continua a fazer-se, quando é certo que a sua reedição, com a qualidade que agora tem, devia ser motivo para muito maior projeção e divulgação. É estranho que nada se diga sobre esta obra quando tanto se diz sobre outras que, dentro de alguns anos, provavelmente ninguém lerá. Há mistérios na nossa vida intelectual e literária que são difíceis de entender. Ou que talvez se entendam se desprezarmos a qualidade literária – único critério que de facto interessa mas à qual nem todos chegam – e pensarmos em mesquinhices paróquias de natureza político-partidária.

O plano da edição das Obras Completas de Cristóvão de Aguiar, cujo 2.º volume – Amor ilhéu, saiu juntamente com o primeiro, vai continuar, com a promessa de uma edição de 13 volumes. Esperemos que o projeto vá até ao fim com a qualidade destes dois primeiros, e que possa beneficiar da divulgação que merece, porque, como diz Mário Mesquita na contra-capa deste primeiro volume, «Cristóvão de Aguiar é um dos principais responsáveis pela afirmação cultural dos Açores após o 25 de Abril». E mais do isso, a sua prosa é de uma qualidade, de uma vivacidade e duma riqueza que constitui, ou deveria constituir, uma referência entre os nossos bons escritores do século XX.

João Boavida

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