sexta-feira, 3 de abril de 2015

IN MEMORIAM DE JOSÉ SILVA LOPES


“As carreiras são entre nós matéria importante, visto estarmos num país de carreiristas no qual todos buscam uma calha que lhes permita deslizar sem atrito” (João Lobo Antunes).

Foi  hoje amplamente noticiado o falecimento de José Silva Lopes, antigo ministro das Finanças e do Plano, do III Governo Constitucional. Neste mesmo dia, o  Prémio Nobel da Economia (2008)  Paulo Krugman, que esteve no Banco de Portugal, vindo do Massachusetsss Institute of Technology,  depois de escrever que “o mundo perdeu um grande homem, bom e incrivelmente simpático”, declarou que  “algumas das suas ideias lhe deram pistas para os  seus primeiros trabalhos académicos” (“Jornal de Negócios”, 3.Abril.2015).

Numa carta, por mim subscrita,  publicada no Público (10/11/2004), intitulada “A preocupação de Silva Lopes com a educação”,  longe portanto do diploma de Miguel Relvas, e outros quejandos que não param de aumentar, dei conta , quase diria de forma premonitória, de uma   entrevista televisiva deste notável homem público em que lamentava o estado da educação: “É um desastre completo. Nem daqui a 30 ou 40 anos nos livramos dos erros que andamos a fazer hoje”. Ao ser interpelado se tal se ficava a dever ao pouco investimento feito neste sector, não hesita em responder com um vigoroso não. Aduzindo, a título de exemplo, o facto de “sobretudo no fim da carreira, termos alguns dos professores primários mais bem pagos da Europa”. Ora, tal só é possível com a cobertura de um injusto Estatuto da Carreira Docente que iguala desiguais fazendo com que todos os professores atinjam o topo da carreira [através, por vezes, de caricatos cursos de complemento de habilitações] sem ter em conta a respectiva formação académica, que vai desde um curso médio a uma licenciatura universitária, quer se destine à docência do 1.º ciclo do ensino básico ou até do ensino secundário. É só uma questão de tempo de serviço!

E não hesita em prosseguir, Silva Lopes: “Nunca ninguém me explicou por que é que não há concursos verdadeiros para professores, por que é que se utilizam as notas das universidades, venham elas de uma escola boa e exigente ou de uma universidade manhosa e perdulária nas notas”. Esta verdadeira aberração, muito se amplia se contabilizarmos, outrossim, os docentes oriundos do ensino politécnico a concorrerem, igualmente, em vantajosa  condição, para a docência do 2.º ciclo do básico com os saídos da universidade. Mas basta de seguir a “‘política do avestruz” no que respeita à formação dos alunos!

Há que encarar os factos de frente e sem sofismas para acabar com o escândalo de uma percentagem de crianças terminar o 1.º ciclo do básico sem saber ler, escrever ou contar (o chamado LEC), vítimas inocentes de um sistema educativo permissivo, e sem respeitabilidade, que distribui, a eito e sem jeito, diplomas com simples finalidades estatísticas para uso da União Europeia e de um país em que “se ensina pouco, se educa menos e se exige quase nada”, em denúncia pública da Associação Comercial do Porto, anos atrás. E isto para não falar dos inúmeros ignorantes, diplomados por uma desregrada massificação do próprio ensino superior”.

E porque, na voz do povo,  “a esperança é a última coisa a morrer”, esperançoso me quero de que fortes ventos de mudança afastem para longe as plúmbeas nuvens que têm pairado e, pior do que isso, feito chover copiosamente disparates sobre o sistema educativo nacional. E, como tal, ,  os bons fados nos afastem da denúncia de Ramalho Ortigão (1836-1915) quando se queixou amargamente da educação do seu tempo, dizendo ser “uma burla atroz”. E porque más fadas atravessaram fronteiras, em idos tempos, o filósofo alemão Nietzche (1844-1900), contemporâneo da Ramalhal figura, não se mostra menos pessimista relativamente à educação do seu torrão natal. Escreveu ele: “E assim cheguei até vós, ó homens de hoje, e ao país da educação. E o que me aconteceu? Não obstante toda a minha ansiedade, tive de rir. Nunca os meus olhos tinham contemplado algo tão manchado e heterogéneo”.

6 comentários:

  1. Senhor Rui Baptista:
    O seu post merecia uma análise mais exaustiva, mas como é Páscoa, tempo de compreensão para com os outros, por aqui me fico.
    Deixo-lhe, portanto, apenas um comentário geral: que saudades do tempo em que a educação em Portugal era de excelência, se recrutavam professores com base em concursos verdadeiros, especialmente nos antigos territórios portugueses de África (mas também muitos no Continente, tive alguns professores desses), em que em muitos casos as mulheres dos oficiais militares portugueses, apenas com o 5.º ano do liceu, tinham lugar assegurado).
    Como resultado desta brilhante educação, exportámos mais de 2 milhões de portugueses, todos licenciados, mestrados e doutorados, para os países europeus (França, Bélgica, Alemanha, etc.)
    Lembra-se?
    Nada como o que se passa hoje, que saem milhares de analfabetos para trabalhar na Noruega (há anos que este país tem o Programa Anual de Recrutamento de 1000 Engenheiros), Alemanha, França, Suíça e Inglaterra, etc., como enfermeiros, médicos, engenheiros, analistas económicos, biólogos, farmacêuticos, etc.
    Coitados... mas daqueles países, nem sabem em que se meteram, nem com que ignorantes e preguiçosos se meteram.

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    1. As "excepções" da exportação de" dois milhões de portugueses , todos licenciados, mestrados e doutorados" (sic.) por si apresentadas não confirmam a regra de uma Educação brilhante que permita dados estatísticos deste jaez.

      Mas já que estamos a falar de professores (?), lembro-lhe, a propósito, o recrutamento de indivíduos sem o liceal terminado para darem aulas nos liceus, pós 25 de Abril. Como nos avisa o povo, quando a fartura é muita o pobre desconfia.

      E eu para além destes dois milhões, desconfio que um individuo licenciado pelo politécnico habilitado, simultaneamente, para ministrar Matemática e Ciências da Natureza, tenha a mesma competência de um licenciado universitário preparado, unicamente, para ensinar Matemática. E pior do que isso que aquele, em concursos, unicamente, por ter mais um valor de diploma, passe à frente deste.

      Enfim, como escreveu António Vieira: "Quando se olha com simpatia para o rato preto até o rato preto nos parece um cisne branco; quando se olha com antipatia para o cisne branco até o cisne branco nos parece um rato preto". Uma feliz Páscoa!

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    2. Senhor Rui Baptista:
      Não percebeu a minha ironia.
      Nos anos 60 emigraram mais de 2 milhões de portugueses para França (para a agricultura, a construção civil e os serviços domésticos), Bélgica (para as minas de carvão e a construção civil), Alemanha (para as fábricas e a construção civil) e Suíça (para a hotelaria, a construção civil e os serviços domésticos).
      Como sabe, fruto da excelente educação que o país tinha, era tudo licenciado, mestrado e doutorado.
      A expansão que o nosso ensino teve no pós-25 de Abril, passámos de poucas centenas de milhar de alunos no secundário para a ordem de quase 2 milhões, foi fruto de um devaneio, não de uma necessidade.
      Deixo-lhe alguns números até ao 25 de Abril:
      Ensino técnico:
      1930 – 18.375 alunos
      1945 – 47.109
      1960 – 105.153
      1975 – 123.044.
      Ensino liceal:
      1930 – 19.268 alunos
      1945 – 43.638
      1960 – 111.821
      1975 – 612.371.
      (Fonte: António Nóvoa in Fernando Rosas / J.M. Brandão de Brito, Dicionário do Estado Novo, p. 301 e p. 307. Dados retirados das Estatísticas Nacionais, segundo se refere na obra).
      Se quiser passar para o sistema científico, aqui ficam alguns números respigados em vários artigos saídos na imprensa:
      «Portugal foi o país da UE que nos últimos vinte anos mais progrediu nas diferentes áreas da ciência. Os números falam por si. A despesa em investigação em % do PIB em 1995 foi 0.5 e em 2010, 1.6. Em 1990, havia 8000 investigadores, em 2010, 46.256, o que correspondia a 8.3 investigadores
      (continua)

      Agora

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    3. por mil ativos (a média da UE é 6 e a da OCDE, 8), a maior taxa de crescimento da Europa. Em 1990 realizaram-se 337 doutoramentos e em 2010, 1660. Quanto à produção científica referenciada internacionalmente no Science Citation Index, em 2000 somava 2602 artigos e em 2010, 8224. As patentes submetidas à European Patent Office foram 8 em 1990 e 165 em 2009. O crescimento do número de investigadores gerou uma dinâmica no setor privado, onde a integração de investigadores foi igualmente galopante: passaram de 4.014 em 2005 para 10.841 em 2009.
      O significado mais óbvio destes números é que eles mostram o caminho que Portugal estava a tomar para fugir à fatalidade de sermos um fornecedor de mão-de-obra barata. À medida que o sistema nacional de ciência se ampliava e os avanços científicos eram paulatinamente transferidos para a indústria e serviços, alterava-se a especialização internacional da nossa economia de modo a aproximá-la da que é típica dos países mais desenvolvidos. A mão-de-obra altamente qualificada manteria a vantagem comparativa do país já que, apesar de bem paga, seria mais barata que a correspondente noutros países europeus.
      Este esforço deu um salto qualitativo a partir de 2000 com a criação dos laboratórios associados (LA). Os LA resultaram da conversão de alguns dos melhores centros de investigação (com classificação excelente), aos quais foram dadas melhores condições para se expandirem, contratando investigadores exclusivamente dedicados à investigação e criando estruturas administrativas que lhes permitissem colaborar com outras instituições, celebrar contratos ou concorrer a financiamentos europeus. Isto permitiria ainda acabar com a situação perversa de Portugal, um dos países menos desenvolvidos da Europa, contribuir com mais dinheiro para os fundos de ciência da UE do que aquele que os seus investigadores obtinham em projetos. Pode discutir-se se outros centros mereciam ter sido convertidos em LA (situação que pode corrigir-se a qualquer momento, e aliás conduziu, ao longo dos últimos 12 anos, ao alargamento do leque inicial), mas o que não pode pôr-se em causa é o êxito da aposta nesta inovação do sistema científico e tecnológico nacional. Foram até agora criados 26 LAs. Integram 28% do total dos investigadores doutorados; entre 2007 e 2012, obtiveram 88% dos (continua)

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  2. (continuação)
    financiamentos europeus do 7.º programa-quadro (122 milhões de euros)
    conseguidos pela totalidade dos centros de investigação. A renovação do pessoal científico, tornada possível pelos LA, explica que a maioria dos seus investigadores esteja abaixo dos 45 anos de idade, enquanto nos outros centros a maioria está acima dos 50 anos.
    O orçamento de 2013 deveria testemunhar a determinação de o país continuar a investir na investigação científica. Sendo objetivamente os LA a alavanca mais dinâmica desse investimento, resulta incompreensível que o próximo orçamento da FCT assuma uma atitude hostil em relação aos LA, expressa em duas medidas. Por um lado, enquanto a FCT sofre um corte ligeiro de 4,4% (aliás compensado pelo aumento dos fundos comunitários), os LA sofrem um corte médio de 30%, o que, nalguns casos, os torna insustentáveis. Por outro lado, apesar de os LA terem o seu estatuto renovado até 2020 (com avaliações intercalares), fala-se agora de uma outra “refundação” de todas as instituições científicas a partir de 2014 que pode comprometer esse estatuto. Tudo isto cria instabilidade que compromete um dos investimentos mais reprodutivos que o país realizou nos últimos vinte anos. Não esqueçamos que, dos 1200 investigadores contratados ao abrigo do Compromisso com a Ciência, 41% são estrangeiros. A fuga de cérebros já começou. A FCT está a tempo de evitar o pior, até porque não se trata de ir buscar mais dinheiro ao orçamento. Trata-se apenas de o distribuir com critérios de eficiência.»
    Como pode verificar, tudo isto é fruto da miséria em que se tornou o nosso Ensino no pós 25 de Abril.
    Antes é que era bom, por isso antes emigrou aquela massa de diplomados (analfabetos ou perto disso) e hoje emigram dezenas de milhar de analfabetos (com diploma). A agora é de novo ironia.
    Afinal, quem olha para o rato preto e vê um cisne branco parece ser o senhor, pois eu jamais ignorei os inúmeros problemas que continuamos a ter.
    Mas também não ignoro que os últimos 40 anos foram aqueles em que em tão pouco tempo se fez tanto comparativamente com a nossa história até aí.
    E é isso que o senhor (e a maioria dos seus «compagnos de route» do De Rerum Natura) ignoram ou deturpam sistematicamente. Confundem problemas actuais com resultados finais comparativos.
    Quanto ao seu «parti pris» contra o Ensino Politécnico, prefiro nem me meter em ódios caseiros.

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    1. Agradeço os dados estatísticos enviados (embora, segundo George Canning: “Posso demonstrar qualquer coisa mediante estatísticas excepto a verdade”) que pretendem estabelecer uma comparação entre os ensinos secundário e superior antes e pós/25 de Abril.

      Mas (há sempre um mas!) desse mirífico tempo educativo pós/25 de Abril não comunga o académico e sociólogo Vasco Pulido Valente: “A educação, objeto de tanto palavrório, passa moeda falsa: promete o mundo e não dá saber ou trabalho”. Assim é na verdade: a saída em catadupa de licenciados, sem emprego no torrão natal, faz com que o erário público invista na sua formação em prol da economia estrangeira.

      Mas detenhamo-nos, por momentos, na formação de professores do antigo ensino básico, diplomados por escolas médias, que por pós de perlimpimpim, se licenciaram, em escolas privadas enquanto o diabo esfrega um olho ( e os sindicalistas que deste facto beneficiaram bem sabem do que falo). Detenhamo-nos, também, sobre as "novas oportunidades" que atribuíram diplomas de equivalência até ao 12.º ano em escassíssimos anos sob o lema: “Ai que prazer/Não cumprir um dever,/ter um livro para ler/e não o fazer!/Ler é maçada, /Estudar é nada” (Fernando Pessoa). Detenhamo-nos, outrossim, sobre os actuais números de emigrantes de “mala de cartão” que hoje, a exemplo do passado, continuam a demandar fronteiras fora de portas sem o anátema que lhes recaía durante o Estado Novo.

      Para abreviar razões, o estado a que o estado da Educação chegou se fica a dever ao facto de determinados sindicatos terem tomado as rédeas do respectivo processo (em benefício próprio porque, como nos diz o ditado: “Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é tolo ou não sabe da arte”) perante a estupefacção dos professores mais habilitados e a inoperância ou mesmo cobardia dos titulares da 5 de Outubro. Entrementes, professores “profissionalizavam-se” como sindicalistas a tempo inteiro e sem limites temporais de exercício de cargos directivos.

      Creia que, apesar de tudo, não me escusarei em continuar este diálogo que pode aclarar muitas situações que permanecem na penumbra da opinião pública. Uma opinião pública que não pode continuar intoxicada por “uma prática de vida que tem como única direcção a conveniência” (Eça). Ambos, em simples dever de cidadania, temos essa obrigação. Eu cumprirei a minha parte!

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