domingo, 16 de fevereiro de 2014

PARA UMA HISTÓRIA DA PALEONTOLOGIA – 3. A primeira metade do século XIX

Texto que continua este e este.
Mary Anning (1799-1847). 
Pintura de autor desconhecido.
Figura grande da paleontologia, a inglesa Mary Anning (1799-1847), coleccionadora e comerciante de fósseis, ficou bem conhecida entre a comunidade de geólogos e paleontólogos, pelas suas importantes descobertas no Jurássico inferior marinho no litoral de Lyme Regis, no condado de Dorset. O seu trabalho como amadora foi reconhecido como de grande importância no desenvolvimento da paleontologia dos vertebrados marinhos.

Em finais do século XVIII e começos do XIX, a recolha fósseis, como curiosidades da natureza, estava em voga como um passatempo, entre uma burguesia erudita, atitude que acabou por caminhar no sentido da investigação científica nos domínios da paleontologia, da geologia e da biologia. Autodidacta de muito saber, contactando professores universitários e outros especialistas e consultando os seus trabalhos escritos, Mary tornou-se uma referência, como paleontóloga, a par dos melhores do seu tempo.

Entre os seus achados de maior relevo, hoje expostos no Museu de História Natural de Londres, contam-se o primeiro esqueleto fóssil conhecido de um ictiossáurio, o primeiro de pterossáurio (localizado fora da Alemanha) e os dois primeiros de plesiossáurio.
Plesiossáurio (réptil marinho) desenhado e descrito pela mão de Mary Anning, em 1824
Esqueleto de Plesiossáurio (Rhomaleosaurus cramptoni
no Museu de História Natural de Londres, junto do retrato da sua descobridora.
Mary Anning foi sensível à ocorrência de gastrólitos e de outros achados (então conhecidos por “pedras de bezoar”) que continham, no seu interior ossos de peixes e escamas. Estudados por Buckland, este concluiu que tais achados eram excrementos fossilizados, a que deu o nome de coprólitos. No seu tempo, em Inglaterra, era interdito às mulheres votar, ocupar cargos públicos ou frequentar a universidade e, neste contexto social, os membros da Sociedade Geológica de Londres, todos eles homens e cidadãos influentes, não permitiam a entrada de mulheres no seu seio nem, sequer, para assistir às suas reuniões. Assim, a sua condição feminina e o facto de não possuir habilitações académicas não lhe permitiram participar plenamente na comunidade científica britânica, toda ela masculina e anglicana.

Embora internacionalmente bem conhecida e respeitada, não foi aceite como membro da referida Sociedade, o mesmo sucedendo às suas contribuições científicas que, assim, não puderam ser publicadasfora. Não obstante esta segregação, foram muitos os que com ela contactaram, com propósitos científicos, com destaque para uma panóplia de grandes nomes da paleontologia e da geologia, como De la Beche, William Buckland, William Conybeare, Richard Owen, Louis Agassiz, Roderick Murchison, Charles Lyell, Adam Sedgwick, Charles Darwin e Gideon Mantell.

Gideon Mantell
Uma outra personalidade com história no domínio da paleontologia, como amador, foi o inglês Gideon Algernon Mantell (1790-1852).

Enquanto adolescente e animado por grande interesse pela geologia e pela paleontologia, Mantell explorou o terreno na área da sua residência, no condado de Sussex, recolhendo e coleccionando os fósseis que encontrava. Já como médico, grande parte do seu tempo de descanso foi ocupado na prcura, colheita e estudo dos fósseis diversos, nas camadas de cré do Cretácico superior desta mesma região, numa actividade cujos resultados publicou em livro e lhe abriu as portas com membro da Sociedade Lineana de Londres. Mas a sua actividade como paleontólogo não parou. E foi assim que, em 1820, ele e a sua mulher encontraram, numa pedreira perto Cuckfield, no Cretácico inferior do mesmo condado, os primeiros restos ósseos de dinossáurios (posteriormente descritos como Iguanodon e Hylaeosaurus) que o colocaram na história da paleontologia. Em comemoração destaa descobertas e da contribuição deste achado para a paleontologia, foi erguido, em 2000, um monumento em memória de Mantell no relvado de Green Whiteman, em Cuckfield.

Reconstituição do esqueleto de Iguanodon, imaginado como um lagarto gigante, desenhada por Gideon Mantell.
Configuração de Iguanodon imaginada por Hammatt Billings, em 1842, numa ilustração exposta no Museu Robert Merry, de Boston
Esqueleto de Iguanodon, no Museu de Bruxelas, numa gravura de finais do século XIX
Um outro vulto da paleontologia inglesa, Henry Thomas De la Beche (1796-1855), conviveu de muito perto com Mary Anning, tendo-se tornado o seu grande defensor. Foi um incansável coleccionador e notável ilustrador de fósseis, tendo colaborado com William Conybeare e Mary Anning, num trabalho inovador sobre os achados de ictiossáurios, plesiossáurios, pterossáurios e outros fósseis do Jurássico inferior de Dorset. Pioneiro na ilustração geológica e paleontológica, De la Beche publicou, em 1830, “Sections and views, illustrative of geological phaenomena”, uma série de desenhos e pinturas representativas da vida e das paisagens do passado geológico. “Duria Antiquior” é uma reconstituição da vida desse tempo (baseada, como se disse atrás, nos trabalhos de Mary Anning), numa aguarela sua que ficou na história por ser a primeira entre as várias que concebeu.

Duria Antiquior, de Henry De la Beche, 1830
Um seu conterrâneo, o reverendo William Buckland (1784-1856), decano de Westminster e, ao mesmo tempo geólogo e paleontólogo de grande prestígio, estudou os ossos fósseis de vertebrados retirados da gruta de Kirkdale, no Yorkshire, tendo concluído que esta tinha sido habitada por hienas em “tempos antediluvianos”, e que conservava ainda os restos fossilizados das suas presas. 
Cartoon desenhado por William Conybeare, em 1882, representando Buckland a entrar na gruta de Kirkdale
Não obstante a sua condição de obediência à Fé, a conclusão a que chegou ia contra a crença religiosa, segundo a qual esses animais teriam sido trazidos das regiões tropicais pelas águas do Dilúvio. Esta sua conclusão era reforçada pela presença de excrementos fossilizados (coprólitos) próprios de um animal que ingeria ossos. Com este trabalho ele foi pioneiro na utilização deste tipo de icnofósseis. Apesar da severa crítica de alguns dos seus pares, este estudo de Buckland foi reconhecido como um modelo de grande rigor científico, passível de reconstituir um episódio da pré-história da Terra, o que lhe valeu a Medalha Copley, da Royal Society, em 1822. Casado com Mary Morland, coleccionadora e ilustradora de fósseis, Buckland viajou pela Europa, onde visitou importantes sítios geológicos e conheceu geólogos famosos, entre os quais, o francês Georges Cuvier. Com a colaboração deste conceituado naturalista, Buckland escreveu, em 1824, o primeiro relato completo de um fóssil de dinossáurio carnívoro, que encontrou em formações do Jurássico, na pedreira de Stonesfield, a que deu o nome de Megalosaurus.

Ilustração da mandíbula inferior direita de Megalosaurus, apresentada por Buckland em 1824.
Megalosurus, tal como era imaginado em 1859
As suas palestras sobre geologia e paleontologia tornaram-se populares. Entretanto, como colaborador do Museu Ashmolean, organizou importantes colecções com materiais que colhera nos muitos lugares por onde andou. Ainda em Inglaterra, o atrás referido William Daniel Conybeare (1787-1857) foi um dos mais distintos geólogos e paleontólogos do seu tempo. Tendo tomado ordens sacras em 1814, tornou-se pároco de Wardington, perto de Banbury, no condado de Oxfordshire, e leitor em Brislington, nos arredores de Bristol, sendo um dos fundadores, em 1822, do Instituto Filosófico Bristol. Foi vigário de Axminster e, depois, deão de Llandaff, no País de Gales. Atraído para a geologia, ao seguir as palestras de John Kidd (1755-1851), Conybeare ficou na história da paleontologia pelos inovadores estudos que realizou, na década de 1820, sobre os fósseis de répteis marinhos, nomeadamente ictiossáurios e plesiossáurios, publicados pela Sociedade Geológica de Londres, de que foi um dos primeiros e mais activos membros.

Alcide d'Orbigny
Anos mais tarde, em França, o naturalista Alcide Charles Victor Marie Dessalines d'Orbigny (1802-1857), de projecção mundial na área da paleontologia e da estratigrafia, foi ainda zoólogo com obra reconhecida no domínio dos invertebrados. Estudou no Museu de História Natural de Paris com Georges Cuvier e viajou durante sete anos pelo continente sul-americano em missão deste Museu, reunindo uma colecção de mais de uma dezena de milhares de exemplares zoológicos e paleontológicos, cujo estudo foi publicado em La Relation du Voyage dans l'Amérique Méridionale pendant les annés 1826 à 1833, em sete volumes e dois atlas.

O naturalista inglês Charles Darwin, seu contemporâneo, classificou esta obra como um dos grandes monumentos da ciência. Regressado a Paris, d'Orbigny estudou pormenorizadamente a fauna fóssil do Jurássico e do Cretácico de França e a sua distribuição estratigráfica pelos andares Toarciano, Caloviano, Oxfordiano, Kimeridgiano, Aptiano, Albiano e Cenomaniano. Este volumoso trabalho, no qual descreveu cerca de 3000 espécies e figurou 1000 estampas, foi publicado entre 1840 e 1858, em oito volumes, sob o título La Paléontologie Française. No seu Prodrome de Paléontologie Stratigraphique, em três volumes, editado em 1849, descreveu milhares de espécies, com anotações sobre as respectivas posições estratigráficas.

Ao estudar a fauna marinha, d´Orbigny interessou-se especialmente por um grupo de organismos minúsculos a que deu o nome de foraminíferos. Seguidor de Cuvier, seu mestre, não aderiu às ideias evolucionistas de Lamarck. Permanecendo fiel ao catastrofismo, defendeu a ocorrência de múltiplas criações ao longo do tempo geológico, terminadas por cataclismos. A “Colecção d’Orbigny”, com cerca de 100.000 exemplares, é um dos mais valiosos patrimónios do Museu de História Natural de Paris. Entre esta colecção merece destaque a representação dos briozoários actuais e fósseis, com milhares de exemplares, fruto de uma muito especial atenção que deu a este grupo de invertebrados.

Em 1853, o Museu onde sempre trabalhou, criou a primeira cadeira de Paleontologia, cuja regência lhe entregou, em reconhecimento da sua volumosa e valiosa obra. Quando D. Pedro V de Portugal visitou Paris, d’Orbigny ofereceu-lhe, entre outros materiais, uma magnífica colecção de fósseis que, depois, o monarca mandou entregar no Museu de Mineralogia e Geologia da Escola Politécnica de Lisboa. Médico inglês, destacado na Índia, Hugh Falconer (1808-1865) é lembrado por ter descoberto o primeiro fóssil de um símio.

Os seus conhecimentos de geologia e paleontologia levaram-no a interessar-se pelos Montes Siwalik, no Nepal, e a descobrir aí importantes jazidas fossilíferas de mamíferos do Neogénico. Regressado a Inglaterra, continuou a fazer as suas investigações geológicas e paleontológicas e a preparar réplicas destinadas aos principais museus da Europa. Falconer defendeu que, ao longo do tempo geológico, se verificou a existência de longos períodos de invariabilidade da evolução das espécies, alternando com curtos períodos de rápida mudança evolutiva.

Esta visão antecipou de um século a Teoria do Equilíbrio Pontuado, proposta em 1972 pelos paleontólogos Niles Eldredge (1943-) e Stephen Jay Gould (1941-2002), que, no pensamento destes norte-americanos, se afirma que a maior parte das populações de organismos de reprodução sexuada experimentam pouca mudança ao longo do tempo geológico e que, quando ocorrem mudanças evolutivas, no fenótipo, elas se dão de forma rara e localizada, em eventos rápidos de especiação.

A. Galopim de Carvalho

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