quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

“Quem erra, paga”, disse ele

A tendência de alguns políticos (mas não só políticos) fazerem questão de se apresentar com habilitações académicas que forjam ou inventam não é nova, nem conhece fronteiras.
Fotografia publicada aqui
Em tempos mais recentes, depois de dois alemães terem caído em desgraça por "pecados" de curriculum vitae, é a vez de um italiano.

Este, jornalista voluntarioso, tinha acabado de fundar um partido muito renovador e punha nos seus discursos a tónica num ponto que cai bastante bem nos tempos que correm: o combate à corrupção.

Mas (ele devia saber) o estrelato prega partidas: um amigo de andanças políticas, ao que parece com pergaminhos académicos verdadeiros, denunciou os falsos do seu líder. Falsos, mas, há que reconhecer, arrojados: duas licenciaturas (duas licenciaturas é preferível a uma, e três preferível a duas, etc.) e uma pós-graduação (aqui foi parco, duas pós-graduações sofisticariam mais a sua apresentação). A cereja em cima do bolo, era um certificado "obtido" nos Estados Unidos da América, o centro do conhecimento, da investigação...

Ao que li, uma vez confrontado com as evidências disse: “é uma regra seca: quem erra, paga". Sim, em alguns casos, é isso que acontece.

O pequeno livro do filósofo

Pensar sobre os grandes problemas da filosofia é uma arte reservada a poucos. Certo? Errado. Você é um filósofo em potência. Não acredita? Então experimente.

Pensar é uma actividade natural. Todos pensamos no dia-a-dia. Ser um filósofo é só uma questão de pensar de forma sistemática, clara e consequente. Não dói nada. É de graça. Ou quase.

O Pequeno Livro do Filósofo oferece sugestões práticas para pensadores intrépidos, tímidos ou pura e simplesmente indecisos.

E não julgue que para ser um filósofo é preciso assumir um ar grave e profundo. Na verdade, alguns dos pensamentos dos grandes filósofos não eram graves nem profundos e toda a gente acreditou neles à mesma só porque tinham fama de ser graves e profundos.

Por isso, descontraia-se. Pense. Com alegria. Vai ver que não se arrepende. E não faz mal se não resolver todos os problemas da filosofia. Até hoje, ninguém fez tal coisa.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Informação basista e informação profissional

Há algum tempo, estive numa sessão sobre ciência em que interveio uma jovem e muito assertiva jornalista. Registei, com espanto, o facto de ela ter dito, com grande naturalidade, que o jornalismo do presente é substancialmente diferente do do passado, pois agora todo e qualquer cidadão tem à sua disposição meios de registo que lhe permitem captar imagem e sons, comentá-los e disponibilizá-los no momento. O jornalismo já era, na sua óptica, exercido por todos nós. E esse será o futuro.

Apanhada de surpresa nada comentei, até porque o assunto em debate era outro, mas retive as perguntas que gostaria de lhe ter posto: o que leva uma jornalista em início de carreira afirmar que a sua profissão é dispensável? O que a faz pensar que o jornalismo que sai da lavra de um jornalista credenciado tem a mesma validade que registos e apontamentos dispersos e circunstanciais de uma pessoa comum? Que noção tem da responsabilidade social do jornalista e do papel fundamental que desempenha nas democracias?

Numa recente conferência sobre o futuro do jornalismo, Miguel Sousa Tavares explicou claramente o que essa jovem jornalista deveria ter em conta (ver aqui). Será que entenderia?

AINDA O "TOMAR NO..."

Francisco José Viegas, decerto com razão e também com coragem, usou o vernáculo para com um fiscal das finanças. José Vítor Malheiros, na sua crónica ontem no "Público", chama a atenção para uma evidência: Viegas teria tido ainda mais razão e coragem se tivesse aplicado o vernáculo ao secretário de Estado a quem se dirigia e que ele conhece do governo onde participou. Ou mesmo ao ministro da pasta.

O QUE MAIS NOS PODERÁ ACONTECER?

Estava o país mergulhado em desgraça e, pior, na expectativa de mais desgraça, quando o ministro Miguel Relvas resolve, interrompido em Gaia pelo cântico "Grândola Vila Morena", cantar também. Quer dizer, achou uma boa ideia boicotar-se a si próprio. Que mais nos poderá acontecer?

NÓS E OS CHINS

Meu artigo no "Público" de hoje (na imagem o jesuíta Matteo Ricci):


O português Jorge Álvares foi o primeiro europeu a desembarcar na China, em 1513, faz agora 500 anos. Partindo de Malaca, que tinha sido conquistada por Afonso Albuquerque em 1511, dirigiu-se, com fins comerciais, para Norte até alcançar a foz do Rio das Pérolas.

De facto, a terra não era nova. Desde Marco Polo que a Europa sabia das maravilhas da China. Mas só a conquista de Malaca tinha assegurado aos ocidentais uma rota marítima para a China. Os portugueses encontraram, no que chamaram “terra dos chins”, uma civilização avançadíssima. E, dada essa desigualdade, o intercâmbio entre os portugueses e os chineses não correu bem nas primeiras quatro décadas de contacto. O desconhecimento luso dos usos e costumes chins era tremendo. Passados quatro anos da chegada de Jorge Álvares, uma missão capitaneada por Fernão Peres de Andrade levando a bordo o embaixador Tomé Pires, um ex-boticário, entrava em Cantão com o intuito de entregar uma mensagem de D. Manuel ao imperador da China, estabelecendo relações diplomáticas e abrindo portas ao comércio. Mas essa primeira missão portuguesa na China falhou redondamente: não só demorou a chegar a Pequim, tolhida por todo o tipo de obstruções, como acabou por não ser recebida. A corte imperial da dinastia Ming não achou adequada a carta do monarca português. Os membros da missão foram presos, alguns mesmo executados, uma vez regressados a Cantão.

Os navegadores portugueses, ao entrar pela primeira vez em Cantão, tinham disparado uma salva num gesto ao mesmo tempo de saudação e intimidação. Os chins estranharam a primeira e não se deixaram impressionar pela segunda. Não era costume na China, onde a pólvora e o canhão tinham sido inventados, cumprimentar aos tiros. Os portugueses, que vinham de Malaca, um protectorado chinês, depressa perceberam que no Império do Meio não podiam, como tinham feito noutros sítios da Ásia, entrar a ferro e fogo. A artilharia portuguesa podia até ultrapassar a chinesa, mas os chins tinham bons navios e boa pontaria, para além da sua superioridade numérica (as duas primeiras batalhas navais foram por isso favoráveis aos chineses). Além disso, o comércio que os portugueses buscavam estava na China bem regulamentado, incluindo os tributos ao imperador. Os portugueses teriam de cumprir as regras se queriam transaccionar ali e, para seu infortúnio, não estavam sequer inscritos nos livros antigos de comércio que os mandarins mantinham. Era um encontro de civilizações em que os extraterrestres eram inferiores aos indígenas.

João de Barros, na sua 3.ª Década da Ásia (Lisboa, 1563) conta como os chineses viam os estrangeiros: “E bem como os gregos, em respeito de si, todalas outras nações haviam por bárbaras, assi os chins dizem que eles tem dous olhos de entendimento acerca de todalas cousas, nós, os da Europa, depois que nos comunicaram, temos um olho, e todalas outras nações são cegas.” Acrescenta: “E verdadeiramente quem vir o modo de sua religião (...) os estudos gerais onde se aprende toda ciência natural e moral, a maneira de dar os graus de cada ua ciência destas, e as cautelas que tem pera não haver subornações e terem impressão de letra muito mais antiga que nós, e sobre isso o governo de sua república, a mecânica de toda obra de metal, de barro, de pau, de pano, de seda, haverá que neste gentio estão todalas cousas de que são louvados gregos e latinos.” A visão do cronista é a de um dos lados. Quem ler os livros chineses logo percebe que o contraste era ainda mais nítido visto do outro lado. Os portugueses eram considerados piratas sanguinários que traficavam pessoas além de mercadorias, e foram, ainda que erroneamente, acusados de canibalismo (correu até o boato que comiam criancinhas!). O historiador Fok Kai Cheong, que investigou fontes chinesas, transcreve um texto coevo: “Os Feringis [os Portugueses] são os mais cruéis dos bandidos. Devem, pura e simplesmente, ser afastados” (Estudos sobre a Instalação dos Portugueses em Macau, Gradiva, 1996)

As relações haveriam, porém, de se normalizar com a cedência de Macau em 1557, como interposto comercial, sem quebrar as normas do império. Através de Macau a faceta humanista e científica da civilização ocidental haveria de chegar à China. Exemplo de um encontro feliz de civilizações foi a chegada a Macau, em 1582, e a Pequim, em 1601, do jesuíta italiano Matteo Ricci, que após ter estudado em Coimbra partiu de Lisboa para o Oriente, onde escreveu dicionários e tratados e traçou mapas. Os jesuítas portugueses tornaram-se peritos da corte imperial, dada a clara supremacia da astronomia ocidental. Só no século XVII, graças à sua influência apareceria na China um globo esférico para representar a Terra, como mostra a exposição “360º. Ciência Descoberta”, comissariada por Henrique Leitão, que está quase a abrir na Gulbenkian.

NOTA: O autor não cumpre o Novo Acordo Ortográfico.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A marcha implacável da desordem


Roger Penrose explica em "Ciclos do tempo" que acaba de sair na colecção Ciência Aberta da Gradiva a famosa segunda lei da termodinâmica, que para C.P. Snow é tão ou mais importante como bagagem cultural que a obra de Shakespeare. Um extracto:


"A segunda lei da termodinâmica — o que é esta lei? Qual é o seu papel central no comportamento físico? E de que modo representa genuinamente um mistério profundo? Nas secções seguintes deste livro tentaremos entender a natureza enigmática deste mistério e como podemos percorrer um longo caminho de modo a resolvê‑lo.

Este percurso levar‑nos‑á a áreas inexploradas da cosmologia, e a questões que estou convencido que apenas podem ser resolvidas com uma perspectiva radicalmente nova da história do nosso universo. Mas trataremos estes assuntos mais tarde. De momento vamos restringir a nossa atenção à tarefa de entender melhor o que representa esta lei omnipresente.

Normalmente quando pensamos numa «lei da física» pensamos nalgum tipo de afirmação sobre a igualdade de duas coisas diferentes. A segunda lei de Newton, por exemplo, relaciona a taxa de variação do momento de uma partícula (o momento é a massa multiplicada pela velocidade) com a força total que actua na partícula. Outro exemplo, a lei da conservação da energia, assegura que a energia total de um sistema isolado num determinado momento é igual à sua energia em qualquer outro momento. De igual modo, as leis da conservação da carga eléctrica, do momento linear e do momento angular, correspondem cada uma a uma igualdade para a carga eléctrica total, o momento linear total e o momento angular total. A famosa lei de Einstein E = mc2 assegura que a energia de um sistema é sempre igual à sua massa multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz. Ainda outro exemplo, a terceira lei de Newton, assegura que a força exercida por um corpo A num corpo B em qualquer momento é sempre igual e oposta às forças que actuam em A devido a B. E assim sucessivamente para muitas outras leis físicas.

Trata‑se sempre de igualdades — e isto também se aplica ao que se chama primeira lei da termodinâmica, que é na realidade apenas a lei da conservação da energia, mas agora num contexto termodinâmico. Dizemos «termodinâmico» porque agora é tida em conta a energia da agitação térmica, isto é, a energia dos movimentos aleatórios das partículas constituintes. Esta energia é a energia de calor de um sistema, e definimos a temperatura do sistema como esta energia por grau de liberdade (como veremos de novo mais tarde). Por exemplo, quando a fricção da resistência do ar abranda um projéctil, a lei da conservação da energia total (isto é, a primeira lei da termodinâmica) não é violada — apesar da perda de energia cinética, devido ao abrandamento do projéctil — porque as moléculas do ar, e as do projéctil, ficam ligeiramente mais energéticas nos seus movimentos aleatórios com o aquecimento provocado pela fricção.

Contudo, a segunda lei da termodinâmica não é uma igualdade, mas uma desigualdade, que garante apenas que uma certa propriedade chamada entropia de um sistema isolado — que é uma medida da desordem do sistema, ou «aleatoriedade» — é maior (ou pelo menos não é menor) mais tarde do que foi anteriormente. Em paralelo com esta aparente fraqueza do enunciado da lei, veremos que também há algo de vago e uma certa subjectividade na própria definição de entropia de um sistema. Além do mais, na maior parte das formulações, somos levados a concluir que há momentos ocasionais ou excepcionais em que a entropia de facto (mas temporariamente) diminui com o tempo (numa flutuação), apesar de a tendência geral ser o aumento da entropia.

Contudo, em contraste com a aparente imprecisão inerente à segunda lei (como me referirei a ela a partir de agora), esta tem uma universalidade que vai muito além de qualquer sistema particular de regras específicas de dinâmica. Aplica‑se igualmente bem, por exemplo, à teoria da relatividade e à teoria de Newton, e também aos campos contínuos da teoria de Maxwell do electromagnetismo (que estudaremos um pouco em §2.6, §3.1 e §3.2, e em bastante mais pormenor no apêndice A1), do mesmo modo que a teorias de partículas discretas. Aplica‑se também a teorias dinâmicas hipotéticas que acreditamos não terem relevância para o universo que habitamos, apesar de ser mais pertinente quando aplicada a dinâmicas realistas, como a mecânica newtoniana, que têm evolução determinística e são reversíveis no tempo, de modo que, para cada evolução válida para o futuro, inverter a direcção do tempo dá‑nos uma outra evolução igualmente válida de acordo com a dinâmica.

Pondo as coisas em termos familiares, se tivermos um filme com alguma acção de acordo com leis da dinâmica — como as leis de Newton —, que são reversíveis no tempo, a situação representada quando o filme é visto de trás para a frente também está de acordo com as leis da dinâmica.

O leitor provavelmente estará confuso com isto, porque enquanto um filme de um ovo a rolar de uma mesa, a cair ao chão e a partir‑se representaria um processo dinâmico permitido, o filme de trás para a frente — com o ovo partido espalhado no chão a juntar‑se milagrosamente a partir dos pedaços de casca, com a gema e a clara a juntarem‑se e a serem rodeadas pela casca, e depois a saltar por si para o tampo da mesa — não é um acontecimento que esperemos ver alguma vez num processo físico real (figura 1.1). Contudo, a dinâmica newtoniana de cada molécula individual, com a sua reacção de aceleração (de acordo com a segunda lei de Newton) a todas a forças que actuam na molécula, e as reacções elásticas envolvidas em todas as colisões entre partículas, é completamente reversível no tempo. Este seria também o caso para o comportamento mais pormenorizado de partículas relativistas e quânticas, de acordo com os princípios usuais da física moderna — apesar de haver algumas subtilezas na física de buracos negros em relatividade geral, e também em mecânica quântica, nas quais não quero entrar em pormenor por enquanto."

Roger Penrose

Que análise faz da cultura em Portugal?

Joana Emídio Marques, numa entrevista publicada na página 56 do Diário de Notícias de 15 de Fevereiro, perguntou ao escritor e literato Vasco Graça Moura "Que análise faz da cultura em Portugal?". A resposta é a seguinte:
"O que me preocupa mais é a situação de formação dos mais jovens. É preciso recolocá-los em contacto com a herança cultural e literária do País e da Europa. Estamos a pagar um preço muito alto por termos deixado que numa geração inteira degradasse profundamente esta relação com a língua, a cultura, a literatura."

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

It's For Your Own Good!

It's For Your Own Good!
http://www.nybooks.com/articles/archives/2013/mar/07/its-your-own-good/

Until now, we have lacked a serious philosophical discussion of whether and how recent behavioral findings undermine Mill's harm principle and thus open the way toward paternalism. Sarah Conly's illuminating book Against Autonomy provides such a discussion.

(via Instapaper)

O Tempo Aprazado



Novo texto de Ângelo Alves (na foto Ingeborg Bachmann):
                                                       
«A Terra é azul e eu não vi Deus»
                                Yuri Gagarin, em 1962

O cosmonauta soviético, Alexis A. Leonov, foi o primeiro homem a flutuar no espaço, decorria o ano de 1965. Culminou num estrondoso sucesso a missão Voskhod 2, isto apesar de Leonov  ter passado por um enorme susto: após dez minutos no vácuo, ao retornar à nave, o seu fato insuflou de tal modo que o cosmonauta não conseguiu entrar nela; só aliviando a pressão interior conseguiu.

  Quando regressou à Terra, narrou desta forma o que viu:
A Terra está cercada por um invólucro cinza. Não é muito bonito, mas quando a gente olha para a Terra do lado do Sol, ela parece uma bola da árvore de natal de cor esmeralda. É interessante que o mar negro é realmente o mar mais escuro, enquanto que o báltico é cinzento e o mar das caraíbas é azul - esmeralda. Tudo depende da superfície do fundo e da profundidade.
…
A Terra era pequena, azul-clara, e tão tristemente só... nosso lar que deve ser defendido como uma relíquia santa. A Terra era absolutamente redonda. Eu acredito que nunca soube o que a palavra redonda significava até ver a Terra do espaço.
   As observações de Leonov não deixaram indiferente a escritora e poetisa austríaca Ingeborg Bachmann. No seu romance Malina (de 1971), a esposa de Malina - uma mulher adúltera -  tem, a páginas tantas, com o marido o seguinte diálogo:
Malina: Então só raramente é que estou vivo para ti?
Eu: Mas tu vives. Vives mesmo sempre, e sobretudo também me dás provas disso. Que provas me dão os outros? Nenhumas.
Malina: “O céu é de um negro profundo.”
Eu: Podia descobrir-se a razão de ser dessa frase. Ela soa como se aquele que a escreveu estivesse vivo. É, no fim de contas, uma surpresa.
Malina: “O céu é de um negro profundo quase inconcebível. As estrelas são imensamente luminosas, mas não cintilam, por causa da ausência de atmosfera.”
Eu: O gosto da precisão!
Malina: “O sol é um disco ardente impresso no veludo negro do céu. Apoderou-se de mim a imensidão do espaço cósmico, essa vastidão inconcebível…”
Eu: Quem é esse místico?
Malina: Alexis Leonov, que esteve dez minutos no cosmos.
Eu: Nada mau. Mas veludo, pergunto-me se eu teria escolhido a palavra veludo. O homem é poeta nas horas vagas?
Malina: Não, pinta nos seus momentos perdidos. Hesitou por muito tempo se deveria ser pintor ou cosmonauta.
Eu: Hesitação bem natural. Mas, nesse caso, fala do cosmos como um romântico…
 Malina: Os homens não mudam muito. Desde que uma coisa seja imensa, insondável, de um negro profundo, ei-los logo perturbados. Quer eles caminhem pela floresta, ou através do cosmos, erram com o seu próprio mistério no seio de um outro mistério.´
Eu: E isso passa à posteridade! Imagine-se só o desenvolvimento de tudo isso! Mais tarde, Leonov receberá uma datcha, cultivará rosas, e com o passar dos anos as pessoas sorrirão docemente ao ouvi-lo evocar a Voskhod 2. Avozinho Leonov, conte-nos alguma coisa desses primeiros minutos no espaço! Era uma vez uma lua onde toda a gente queria ir, e a lua encontrava-se muito distante e inóspita, mas um belo dia chegou Alexis, e eis que…
Malina: É bastante estranho que ele não tenha visto o Ural, porque foi no preciso momento em que ele foi derrubado ao sair da cabine.
Eu: Era fatal. É quase sempre assim no preciso momento em que se quer descobrir ou agarrar qualquer coisa, o Ural ou a palavra certa para o designar, um pensamento ou a as palavras para o exprimir, que se é derrubado. Exactamente como no caso do nosso avozinho, quando exploro esse espaço infinito que existe, por seu lado, em mim, há sempre alguma coisa que me escapa. Poucas coisas mudaram depois desse velho tempo dos primeiros passos no espaço.
Para Ingeborg Bachmann, escritora céptica, apocalíptica, de um existencialismo acerbo, a Terra pouco mudou ao longo da história. Essa ténue mudança ocorreu no sentido da desumanização, da sombra, como o cosmonauta russo viu pela primeira vez o céu. Para descrever a desumanização da terra, Bachmann estabelece um paralelo, carregado de simbolismo, entre o cosmos e o homem. Como cita um personagem, num dos seus contos de “Trinta Anos”: “Não é costume do céu erguer a cabeça”; e, em “Malina”, a esposa chega a dizer profeticamente “… a poesia deixará de ser e os homens, os homens terão olhos negros, é de suas próprias mãos que virá a destruição, a peste…em breve será o fim”. O universo ficcional da escritora é constituído de relações tensas, rebeldia, agressividade, crimes, prostituição, e, quase sempre, tem como epílogo a tragédia. Influenciada por Thomas Bernhard, nomeadamente pela ideia de que para termos um mundo puro este tem que ser destruído - sem que restem vestígios - , a sua escrita perde em cor e ganha em qualidade.

Ingeborg Bachamann faleceu em Roma, em 1973, vítima de queimaduras provocadas por um incêndio no hotel onde estava hospedada. Este facto permanece envolto (também ele)  até à data, em trevas, uma vez que a escritora desejava morrer em Roma e, especula-se que o incêndio ocorreu devido a um cigarro. Quem diria que esta autora, tão saturniana, acabasse por falecer após um fogo? O seu nome permanece, todavia, como um dos grandes da literatura austríaca da segunda metade do século vinte, a par do misantropo Thomas Bernhard e da controversa Elfriede Jelinek, de que eu tanto gosto. Quanto a A. Leonov continua a levar uma vida “sexfull” ou, talvez, “successfull”.

Deixo-vos com um dos poemas da “Invocação da Ursa Maior”, traduzido por João Barrento que mostra bem o cepticismo de Bachmann:


“Sombras Rosas Sombras”

Sob um céu estranho
sombras rosas
sombras
numa terra estranha
entre rosas e sombras
numa água estranha
a minha sombra

O povo do meu país vai por álea de jardim, em noite de luar, e, como um Narciso nocturno, vê sua sombra espinhosa num fontanário, ou num lago. Talvez isto mude para azul celeste, talvez chegue a ver o meu país como Gagarin viu, do espaço, a Terra. Quando este “Tempo Atrasado”, este “Tempo Aprazado” dá lugar a um Tempo mais humano? O coração dos homens-com-qualidades permanece constantemente atrasado em relação ao seu tempo. Não, eu não me queimo! 

Ângelo Alves

O NOVO MUSEU NACIONAL DE MACHADO DE CASTRO



O novo Museu Nacional de Machado de Castro, em Coimbra, visto pela ESECTV- Televisão da Escola Superior de Educação de Coimbra.

Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa

Texto, imperdível, de Teolinda Gersão, datado de 11/06/2012, que recebemos de Regina Gouveia:

 Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso, confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas, mas as ideias são todas deles. Aqui ficam, e espero que vocês também se divirtam. E depois de rirmos espero que nós, adultos, façamos alguma coisa para libertar as crianças disto.

 Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa

 Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: no ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, “em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito. “O Quim está na retrete” : “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. “Bonita” é uma característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.

 No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar, etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum,o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). 0E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: “Algumas árvores secaram”, “algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.

 No ano passado, se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.

 No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?

 A professora também anda aflita. Pelo vistos, no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)

 Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens,ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.

 E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve redação.O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impôr a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.

 E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: “Ó João, onde está a tua gramática?” Respondo:“Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.”

 João Abelhudo, 8º ano, turma C (c de c…r…o, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática).

 Teolinda Gersão

A BIODIVERSIDADE E O ECOSSISTEMA POLÍTICO


Texto da bióloga Helena Freitas saído no PÙBLICO:

Animada pelo recente aniversário de Charles Darwin (12 de Fevereiro), buscando na natureza uma interpretação racional de alguns comportamentos sociais ou societais, um exercício a que a biologia nos conduz facilmente, não me proponho escrever sobre biodiversidade, mas não resisto a elaborar sobre alguns argumentos que o estudo da diversidade biológica distingue, estabelecendo uma analogia que pode parecer provocadora, mas que não deixa de ter uma base racional sobre a qual vale a pena reflectir. Numa descrição muito genérica, entende-se por biodiversidade ou diversidade biológica, os milhões de plantas, animais e microrganismos, os genes que contêm e os ecossistemas que constroem. A sua importância é defendida por muitos, por razões variadas, prevalecendo os argumentos de natureza ecológica, que valorizam o papel da biodiversidade para o Homem e para as demais formas de vida. São também deste âmbito os argumentos de natureza estritamente funcional, admitindo-se que a biodiversidade é um garante do equilíbrio dos ecossistemas que suportam a vida tal como a conhecemos. Seja como for, a biodiversidade que hoje temos o privilégio de contemplar, e que nos faz justificadamente orgulhosos de um planeta abençoado, resulta de um processo evolutivo complexo e longo, tendo o Homem participado num dos seus mais recentes capítulos.

Um dos argumentos mais utilizados na defesa da biodiversidade, apoia-se na importância dos serviços prestados à humanidade pelos ecossistemas. Com efeito, os ecossistemas ou os habitats mais diversos, isto é, aqueles em que é maior a diversidade de espécies, são de forma geral os mais produtivos, entre muitas outras razões porque, ao reunirem distintas espécies, integram também distintas competências e capacidades que, no conjunto, favorecem uma melhor utilização dos recursos disponíveis, e desempenham melhor as tarefas colectivas, resultando daqui uma maior produção e um consequente benefício para o próprio ecossistema. Por outro lado, um maior número de espécies, permite responder às situações de instabilidade, ou à cadência cada vez mais imprevisível dos fenómenos biofísicos. Numa linguagem simples e sugestiva, podemos dizer que estão melhor preparados para as crises sistémicas, como aquela que vem vivendo a economia, porque a sua resiliência é maior. A diversidade de espécies corresponde a uma diversidade de atributos funcionais e suas respostas, sendo portanto mais sensato assegurar um nível de resiliência óptimo para cada tipologia de ecossistema. Dizemos, por isso, que a biodiversidade aumenta a resistência às doenças e a capacidade de adaptação a condições variáveis.

De destacar é também o papel comprovado da biodiversidade na prevenção e  controlo das espécies infestantes (apropriadamente chamadas espécies daninhas). Os dados que resultam da análise dos sistemas naturais, indicam claramente que os ecossistemas mais ricos em espécies são menos susceptíveis à invasão e proliferação de ervas daninhas. Numa analogia societal, a natureza ensina que a diversidade que podemos e devemos promover no ecossistema politico só pode ser favorável à promoção das boas práticas, à inclusão de novos valores, à eliminação das situações que nos indignam, ou à redundância das funções indesejadas, como a prevalência de elementos que contribuem para a perturbação excessiva ou corrupção deste ecossistema.

Analogia equivalente se pode estabelecer para os grupos funcionais, ou seja, entregar o exclusivo da interpretação da democracia a alguns grupos funcionais, em sentido figurado aos partidos, acabará sempre por diminuir as competências do ecossistema politico, uma vez que os grupos estabelecidos têm tendência a optimizar as características que lhe conferem o protagonismo individual, optando pela uniformização em detrimento da variabilidade, e pela competição em prejuízo da cooperação. O tímido mas consistente despertar da diversidade de pessoas e grupos a que assistimos na nossa democracia, pode ser encarado como um sinal de grande vitalidade e progresso do ecossistema político, incorporando novos valores e preparando os alicerces de uma ética global para os novos tempos.

Helena Freitas, in Público, 16.2.2013

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Observações sobre a origem dos raios cósmicos

Publicado primeiramente na imprensa regional:


Os raios cósmicos são constituídos por partículas subatómicas que se deslocam através do espaço a velocidades muito próximas da velocidade da luz. Cerca de 90% deles são protões e atingem a Terra constantemente.

Foram descobertos entre 1911 e 1913 pelo físico austríaco Victor Franz Hess por medições efectuadas com contadores de radiação (contadores Geiger) colocados em balões atmosféricos. Hess verificou que a crescente ionização observada a grandes altitudes era devida à acção de uma radiação desconhecida provinda do espaço. Chamou a estas radiações “raios cósmicos” e viria a ganhar o prémio Nobel da Física em 1936 por esta descoberta.


Desde então os astrofísicos postularam que a origem desta radiação viria do que resta das explosões de estrelas no final das suas vidas, ou seja, dos remanescentes de supernovas. Contudo, na viagem através das galáxias estas partículas carregadas dos raios cósmicos sofrem desvios causados pelos campos magnéticos dos astros. Estes desvios nas trajectórias fazem com que seja praticamente impossível detectar a sua origem e assim dificultam a sua associação com um remanescente de supernova específica.

Agora, foram publicados dois artigos na revista Science que demonstram que os remanescentes de duas supernovas emitiram e aceleraram raios cósmicos, resolvendo um mistério centenário.

Um dos artigos foi publicado na edição de 15 de Fevereiro da revista Science (2013; 339 (6121): 807) e relata as observações do remanescente de supernova IC 443 efectuadas pelo Telescópio Espacial Fermi da NASA.


O outro artigo, da autoria de uma equipa de astrónomos europeus, foi publicado na edição avançada online da Science no dia 14 de Fevereiro (Science,2013), e foi o primeiro estudo a utilizar um espetrógrafo de campo integral, instalado no Very Large Telescope, no Chile, do Observatório Europeu do Sul, para analisar os restos da supernova SN 1006.


Refira-se a propósito que esta supernova brilhante foi observada no ano de 1006 (d.C.) em vários lugares da Terra como uma nova estrela no céu, muitas vezes mais brilhante do que o planeta Vénus e podendo mesmo ter rivalizado com a luminosidade da Lua cheia. Vários registos em textos árabes, chineses, suíços e inclusive em petróglifos encontrados no Arizona (Estados Unidos da América do Norte) retratam este acontecimento astronómico que deve ter causado muita perplexidade.

Assim, e pela primeira vez, as observações sugerem que a presença de partículas muito rápidas no gás da remanescente de supernova podem ser as percursoras dos raios cósmicos.

António Piedade

Créditos imagens:
Supernova IC 443 (NASA/DOE/Fermi LAT Collaboration, NOAO/AURA/NSF, JPL- Caltech/UCLA)
Supernova SN 1006 (Radio: NRAO/AUI/NSF/GBT/VLA/Dyer, Maddalena & Cornwell, X-ray: Chandra X-ray Observatory; NASA/CXC/Rutgers/G. Cassam-Chenaï, J. Hughes et al., Visible light: 0.9-metre Curtis Schmidt optical telescope; NOAO/AURA/NSF/CTIO/Middlebury College/F. Winkler and Digitized Sky Survey)

THE ROLE OF ANALOGY IN ARGUMENTATIVE DISCOURSE

Informação recebida no De Rerum Natura.

O grupo de investigação "Teaching logic & argumentation", da unidade de investigação "Linguagem, interpretação e filosofia", pertencente à Fundação para a Ciência e a Tecnologia, organiza um colóquio internacional sobre THE ROLE OF ANALOGY IN ARGUMENTATIVE DISCOURSE, que terá lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra em 3-4 de Maio de 2013.

O argumento por analogia é um dos mais utilizados na nossa vida em sociedade, na literatura, nos media, e particularmente no debate político. De certa maneira, é transversal em relação a todos campos do conhecimento, aí incluindo a ciência, a filosofia e o direito. É também um dos argumentos mais poderosos, semanticamente falando, porque torna a contra-argumentação mais complexa e difícil. Em termos políticos, normalmente estabelece uma comparação entre uma dada situação mais ou menos problemática e em discussão, e uma outra - por vezes muito diferente - que não faz parte da agenda da discussão propriamente dita, para daí inferir uma tese que, por essa razão, aparentemente se impõe com uma maior razoabilidade do que aquela que decorreria se a argumentação fosse confinada apenas à situação original. Mas nisso consiste justamente a sua grande fraqueza de modo geral, quando analisado em detalhe. O argumento pode ser falacioso.

Mais informações aqui.

O ESTUDO DAS ROCHAS MAGMÁTICAS EM PORTUGAL (1)

Texto do Professor Galopim de Carvalho, que o De Rerum Natura muito agradece.


Gaspar Frutuoso (1522-1591)

Muito antes do conhecimento das rochas ocupar lugar de ciência, é interessante lembrar as observações e descrições vulcanológicas levadas a cabo nos Açores, no século XVI, pelo português Gaspar Frutuoso (1522-1591). Nomeado vigário da Igreja Matriz, na Ribeira Grande, S. Miguel, em 1565, este estudioso deixou-nos essas importantes memórias na sua obra, “Saudades da Terra”, em seis volumes, publicada em 1966 pelo Instituto Cultural de Ponta Delgada.

Entre os mais antigos estudos neste domínio, relativos ao território nacional, merece destaque o trabalho do alemão Johan Reinhard Blüm, levado a cabo com recurso ao microscópio polarizante e apresentado em 1861, no qual aparece a primeira referência ao sienito nefelínico de Monchique, logo aí considerado como um tipo petrográfico novo para a ciência e, como tal, designado por foiaíto [1], em referência ao pico da Foia, um dos dois cumes daquela serra algarvia. Só cerca de um quarto de século depois, em 1885, foi criada em Coimbra, na então Faculdade de Filosofia, a cadeira de Mineralogia e Petrologia, sendo a primeira vez que o termo petrologia figura nos nossos curricula de ensino superior.

É a partir desta data que se manifestam em Portugal os primeiros sinais de preocupação pelo estudo petrográfico das rochas magmáticas ou ígneas. Tal atitude foi consequência da orientação definida e assegurada pela velha Comissão Geológica do Reino, criada em 1849, organismo cujas designações oficiais foram mudando ao longo do tempo, até se transformarem no actual Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), depois de passar por outras como Serviços Geológicos de Portugal (SGP) e Instituto Geológico e Mineiro (IGM). Foram seus impulsionadores grandes geólogos como Carlos Ribeiro (1813-1882), Nery Delgado (1835-1908) e Paul Choffat (1849-1919), sendo deste último que partiram as iniciativas com vista ao primeiro estudo petrográfico das rochas magmáticas do território nacional. Só muito mais tarde, a petrografia das rochas metamórficas, primeiro, e a das rochas sedimentares, depois, passou a utilizar sistematicamente a microscopia com luz polarizada.

De nacionalidade suíça, Paul Choffat, geólogo francófono radicado em Portugal, para além do notável e volumoso trabalho que nos deixou nos domínios da estratigrafia e da paleontologia dos terrenos mesozóicos das orlas ocidental e algarvia, interessou-se por variados temas entre os quais alguns associados ao magmatismo, sendo da sua autoria, por exemplo, o primeiro estudo sobre o maciço subvulcânico [2]   de Sintra, além de variadas observações geológicas, muitas ainda de grande actualidade, em rochas filoneanas e outras intrusões de pequena profundidade (habitualmente referidas por hipabissais) de natureza básica, provenientes da Estremadura. Pela importância de que se revestiram, alguns dos seus trabalhos foram publicados muitos anos depois do seu falecimento.

Da colaboração que estabeleceu como o insigne petrógrafo espanhol, José Macpherson (1839-1902), muitas foram as rochas estudadas ao microscópio petrográfico, entre as quais ofitos [3] e teschenitos [4] associados aos vales tifónicos [5] situados entre Leiria e Sesimbra, e muitas outras do maciço antigo das regiões de Évora e Beja. Na altura, leccionava em Coimbra o lente António Gonçalves Guimarães (1850-1919) que, nas suas aulas, a partir de 1884, seguiu o livro de A. von Lasaulx, “Elemente der Petrographie” (1875), obra pioneira da petrografia.

Além do “Tratado Elementar de Mineralogia” (1883), e de outros dos seus trabalhos, o professor da Universidade de Coimbra, António José Gonçalves Guimarães (1885-1919), director do gabinete de Mineralogia e Geologia no Museu de História Natural desta Universidade, deixou-nos “Elementos de Geologia” (1895), um texto de nível intermédio entre o ensino secundário e o universitário, versando, entre outros aspectos, a petrologia e o vulcanismo.

Como primeiro trabalho de petrografia microscópica da autoria de um português, merece referência o estudo realizado em 1887, na Sorbonne, pelo micaelense, Engº. Pacheco Canto e Castro, sob a orientação do Prof. Ferdinand Fouqué. Trata-se do estudo microscópico, em lâmina delgada, de um traquito da Ilha [6] de São Miguel, com cuidadosas descrições de minerais como aegirina, arfvedsonite e azorite (ou açorite, uma variedade de zircão).

Este pioneiro da petrografia portuguesa regressou à pátria, mas não lhe foram dados aqui nem estímulo, nem condições para prosseguir, acabando por regressar à sua ilha, onde fez vida como professor de liceu. Pela mesma altura, em 1888, o petrógrafo alemão Karl Alfred Osann estudava e descrevia o sanidinito [7] da mesma ilha açoriana. Na mesma época, o Prof. Alfredo Bensaúde (1856-1941), fundador do Instituto Superior Técnico, engenheiro de minas com formação na escola alemã de Gottingen, além de mineralogista, enveredou pela petrografia, sendo de salientar o estudo que realizou, em superfície polida, do meteorito férrico (siderito) de Ponte de Lima, achado em S. Julião de Moreira, em 1877, tornando-se assim o pioneiro entre nós da metalografia por microscopia em luz polarizada reflectida.

São da última década do século XIX, os estudos petrográficos levados a cabo pelo Engº. Rego de Lima, igualmente na Sorbonne, sob a orientação do mesmo Prof. Fouqué. Este petrógrafo português dedicou particular atenção às rochas ígneas do Alentejo, tão variadas quanto o granito horneblêndico de Montemor-o-Novo, o gabro olivínico de Ferreira do Alentejo, a diabase [8] da Mina da Caveira, Grândola, o pórfiro [9] de Degolados (Campo Maior), o microssienito de Sines, entre outros. Entretanto, os petrógrafos alemães M. Hunter e K. Rosenbusch identificaram, no maciço subvulcânico de Monchique, um outro tipo de rocha, novo para a ciência, a que deram o nome de monchiquito [10], uma variedade de lamprófiro [11] cujo nome, aceite pela comunidade científica internacional, se afirmou e se tem mantido, não obstante as sucessivas sistemáticas que entretanto têm sido propostas.

O ano de 1897 constitui um outro marco no conhecimento da petrografia ígnea do território português. Foi nesse ano que surgiu a publicação do primeiro estudo minucioso do referido maciço de Monchique, ocorrência magmática importante e ainda hoje célebre no quadro da petrografia mundial. Esta monografia , [12] da autoria dos alemães K. Kraatz-Koschlau e V. Hachman, oferece descrições pormenorizadas e notavelmente correctas não só do sienito nefelínico (foiaíto), principal constituinte do corpo intrusivo, como dos diversos tipos petrográficos representados nos numerosos e variados filões que o atravessam e, ainda, da corneana pelítica gerada no contacto com os metassedimentos do Carbónico da Zona Sul-Portuguesa.
A. Galopim de Carvalho

Notas
[1] Foiaíto – Sienito com abundante nefelina (variedade eleolite), feldspato potássico e horneblenda, explorado como pedra de construção em alvenarias, cantarias, pavimentos, etc.
[2] Maciço subvulcânico – Corpo magmático que não chegou a atingir a superfície. Tendo arrefecido e solidificado a pequena profundidade, não chegou a gerar vulcanismo.
[3] Ofito – Rocha hipabissal afim do basalto, descrita como dolerito, com textura ofítica; na qual os cristais de augite são penetrados por “agulhas” de plagioclase. O termo alude ao facto de, em superfície, esta rocha lembrar a pele da cobra.
[4] Teschenito – Plutonito afim de um gabro feldspatóidico com analcima (zeólito), descrito em Teschen, no Sul da Polónia, em 1861.
[5] Vale tifónico – Vale aberto na sequência da ascensão (dita diapírica) de um domo ou diapiro salino.    
[6] Traquito – Equivalente vulcânico, microgranular e/ou vítreo, do sienito. O nome, proposto em 1813, radica no grego trachys, que significa áspero.
[7] Sanidinito – Rocha ígnea, granular fina, essencialmente formada por sanidina, um feldspato potássico de alta temperatura, trazido da profundidade, associado a actividade vulcânica explosiva.
[8] Diabase – Termo proposto por Brongniart, em 1807, entretanto, caído em desuso. Foi usado entre nós para referir uma rocha filoniana básica do Paleozóico, em oposição a dolerito, atribuído ao mesmo tipo de rochas, mas mais modernas, do Mesozóico e do Cenozóico. Também foi o nome dado ao dolerito alterado, de cor verde.
[9] Pórfiro – Antiga designação já usada por gregos e romanos e com tendência a desaparecer na nomenclatura petrográfica. Nos primórdios da petrografia científica (2.ª metade do séc. XIX) foi apresentado como uma rocha composta por uma pasta afanítica vermelha, tida como semelhante ao jaspe, envolvente de cristais (fenoclastos) dispersos de quartzo e feldspato. Actualmente o termo refere uma rocha hipabissal, com fenocristais de várias espécies minerais, félsicos (claros) ou máficos (escuros), envolvidos numa matriz mais fina. O termo radica no grego, porphyreos, nome da concha de um molusco de onde se extrai a púrpura, corante vermelho desde sempre usado em tinturaria. Assim, este mesmo nome foi dado à rocha de forte coloração vermelha com fenocristais esbranquiçados de feldspato, oriunda do Egipto e usada como pedra ornamental celebrizada pelo túmulo de Napoleão, nos Invalides, Paris, por isso também conhecida por “pórfiro vermelho antigo” e por “pórfiro imperial”.
[10] Monchiquito - Lamprófiro com plagioclase, titanaugite, barkevicite, olivina e titanomagnetite, numa matriz analcímica.
[11] Lamprófiro – Grupo de rochas magmáticas filonianas, geralmente porfíricas, ricas em minerais máficos (biotite, anfíbola castanha) e, por isso, escuras (melanocratas).
[12] Maciço de Monchique - Pela sua importância esta obra foi traduzida para português, em 1967, por A. Ribeiro dos Santos e publicada sob o título «O sienito eleolítico da serra de Monchique, suas rochas filoneanas e de contacto», pelo Centro de Estudos Geológicos do Instituto de Alta Cultura, sediado na Faculdade de Ciências de Lisboa.
[13] Corneana pelítica – Rocha metamórfica formada no contacto de uma intrusão magmática, no geral um plutonito com rochas pelíticas (xisto, ardósia). É uma rocha muito dura, de granularidade fina e homogénea. Em esquírolas muito delgadas tem a translucência do corno (horn, em inglês) e, daí, o seu nome.

AS SALAS DE CINEMA AGONIZANTES

Nova crónica da escritora Cristina Carvalho:


Sabe-se que, brevemente, vão fechar não sei quantas salas de cinema em todo o país Portugal.

É natural.

Fechariam com crise ou sem crise. A população cinéfila, antes muitos, já pouco sai de casa com intenção de ir ao cinema. Nas lojas, melhorou a qualidade dos sofás; os tecidos que os forram são grossos e espessos o suficiente para aguentar sem manchas e absorver as babas de quem adormece ao som de todos os Canhões de Navarone; as televisões são grandes, espalmadas, com muito boas colunas de som; os leitores de dêvêdês baratíssimos, os próprios dêvêdês oferecidos ao domingo com o jornal preferido, o dia está ventoso, a noite é de chuva, a lareira acende-se com as pinhas, gravetos e aparas comprados a peso de ouro lá no supermercado do bairro, mais as acendalhas e o fole que sopra, sopra, sopra sonhos de luxo e bem-estar e enquanto as brasas espevitam, a vida consome-se na contemplação das pequenas chamas que mal aquecem, o menino dorme lá na sua caminha e os pais, sossegados, vendo o filme na têvê, a mulher mais a lágrima a escorrer, que triste o África Minha, o pai desbravando as séries, são polícias e ladrões, médicos e charlatães e, se for Verão, é exactamente a mesma coisa, a diferença está apenas na t-shirt em vez do camisolão.

O tempo das idas ao cinema antecipadas pelo jantar fora em restaurante e a seguir o grande ritual cinéfio, terminou. As grandes salas de Lisboa, o Monumental, o São Jorge, o Éden, até mesmo o Condes foram, há muito, transformadas em minúsculas saletas com vinte assentos cada uma para render mais. O mistério das combinações de renda a espreitar por fora do melhor vestido, a costura das meias de seda ao correr da perna, a frescura do cheiro das águas-de-colónia das mães e das tias e das madrinhas aguardando em casa o regresso dos esposos com os bilhetes na carteira, já no vestíbulo, prontas a sair e a deixar o seu rasto de bem-estar domingueiro, tudo isso terminou há muito! E uma pessoa quase que nem via o filme, era tanta a ansiedade pelo intervalo que tardava, pela marcha nos corredores do foyer mais a garrafinha d’água das Pedras para aclimatar as fervuras, que o filme pouco interessava.

Tudo mudou.

Também nas salas de cinema se namorava muito. Ali no escurinho do cinema  eram maravilhosos encontros! As mãos que se cruzavam nos colos dos namorados, pernas acima, pernas abaixo, o ecrã todo turvo e mais um beijo e outro beijo, qual era a história? qual era a história? Ninguém se lembra! E para quê? Para quê tudo isso agora? Dos cento e cinquenta canais disponíveis na televisão, há setenta e dois só de filmes e mais filmes e também a internet e o youtube e todos os daunlôdes de todos os filmes do mundo, de hoje e de sempre pelo preço mais que simbólico do aluguer da caixinha preta, a dita box.

É que uma pessoa está muito mais à vontade! podes comer pipocas e batatas fritas sem receio do barulho,  podes ir à casa de banho quando é preciso sem esperar pelo intervalo, podes dar os beijos e abraços sem refrear qualquer ímpeto e nas melhores posições, interrompes o filme na altura certa, voltas com ele atrás e com ele para a frente, e à frente e atrás e atrás e à frente e as vezes que forem precisas e as vezes que te apetecer e agora em câmara lenta ou então muito depressa, mmmuuuuito depressa mesmo, com som, sem som, às claras ou às escuras.

Tudo muito bom e confortável e diferente! Bom, melhor que bom! Fantástico!

Eu nem sei é como é que ainda há uma sala ou outra a passar filmes!...

CRISTINA CARVALHO

sábado, 16 de fevereiro de 2013

SOBRE A REDE DE CÁLCULO CIENTÍFICO NACIONAL

Notícia do Canal Superior, sobre a recente integração da FCCN na FCT, contendo declarações minhas: 

 "O Conselho de Ministros aprovou ontem a nova estrutura da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, que fica encarregue pela gestão do domínio.pt e pela Internet do Ensino Superior. O Canal Superior falou com o Professor Carlos Fiolhais, ex-diretor do Centro de Física Computacional da Universidade de Coimbra, sobre o assunto.

 Para Carlos Fiolhais, professor de Física da Universidade de Coimbra, com a extinção da Fundação para a Computação Científica Nacional - até aqui encarregue das tarefas agora absorvidas pela FCT -, a computação científica nacional não fica em risco. «Eu não assinei um abaixo-assinado que circula contra o governo por causa dessa questão, que não é importante comparada com outras. O subfinanciamento da ciência, a falta de suficiente articulação entre Ensino Superior e investigação e a pouca penetração da ciência no tecido económico são questões para mim bem mais preocupantes».

 Isto não invalida que o cientista critique a forma como o Governo conduziu o processo de redução das fundações: «A preocupação de reduzir custos obscureceu o raciocínio», considera.

 De qualquer forma, Carlos Fiolhais prefere esperar para ver: «O ministro da Educação e Ciência diz que se trata de uma reorganização sem malefícios para o funcionamento da rede nacional e há quem discorde (embora sem concretizar bem onde estarão as eventuais perdas). Ver-se-á quem tem razão. Espero, para benefício de todos, que seja o ministro».

As vozes discordantes alegam uma futura degradação dos serviços prestados atualmente pela FCCN, mas Carlos Fiolhais discorda: «A FCT não é um bom exemplo de organização, mas a FCCN também não era. Talvez seja mais fácil organizar uma Fundação do que duas. A gestão do domínio .pt na Internet vai ser feita por uma entidade privada e não pelo Governo, o que seria uma intromissão do Governo numa esfera que não é a dele». Quanto às comunicações digitais, o Professor da Universidade de Coimbra espera «que tudo continue a funcionar como até agora e mesmo melhor».

 O físico espera que a medida possa ter consequências positivas na área: «Portugal, em cálculo científico, está ainda a léguas de países europeus e pode até ser que a fusão da estrutura pública de comunicações com a estrutura pública de investigação permita que entremos, a sério, em domínios como o da computação distribuída, isto é, o uso comum para fins de cálculo científico do conjunto dos mais potentes computadores da rede (em Coimbra temos um desses supercomputadores)», o Milipeia.

 O ex-diretor do Centro de Física Computacional da U.Coimbra deixa, no entanto, o aviso: «Oxalá nada se perca. Se se perder, serei o primeiro a criticar.»"

 David Pinheiro Silva

NOVOS LIVROS DA GRADIVA



Ciclos de Tempo
Uma Visão Nova e Extraordinária do Universo

Roger Penrose
Neste livro, o conhecido autor Roger Penrose analisa as questões que se encontram na fronteira da cosmologia do nosso tempo: o que havia antes do Big Bang e o que estará para lá dos buracos negros. Para tal, propõe um modelo cosmológico novo do universo no qual a expansão acelerada do nosso mundo pode ser interpretada como o big bang de um novo mundo... A análise rigorosa de sempre, com os cálculos mais complexos fornecidos em apêndice de leitura facultativa. Um livro que quem gosta de saber os últimos desenvolvimentos da cosmologia não vai querer perder.
«Ciência Aberta», n.º 198, 356 pp., €20,00 . €18,00



O Colonialismo nunca Existiu!
Colonização, racismo e violência: manual de interpretação

Gabriel Mithá Ribeiro
Investigador na área da história e da sociologia do conhecimento, Gabriel Mithá Ribeiro procura neste livro articular teoria, metodologia e referências a fenómenos sociais concretos com significados relevantes: colonização europeia, racismo e violência. Trata-se de uma obra que constitui um contributo para a renovação do pensamento dominante na opinião pública e se destina ao grande público, assim como a historiadores, sociólogos, filósofos, psicólogos sociais, especialistas em ciência política ou em relações internacionais, jornalistas, etc. Um texto claro, rigoroso e conciso sobre a recomposição permanente das sociedades e a necessidade de as analisar enquanto tal.
«Trajectos», n.º 93, 160 pp., €14,80 . €13,32 


HUMOR: METEORITO 3


A EDUCAÇÃO DURANTE O ESTADO NOVO (2)

Segundo texto de uma série de doze, retirados do livro Antes dos Cravos  doo Professor António Galopim de Carvalho (em continuação do anter...