quarta-feira, 7 de novembro de 2007

A molécula da vida


Cientistas da Nasa anunciaram ontem a descoberta de mais um planeta, o quinto, no sistema solar mais parecido com o nosso já encontrado.

O novo planeta é muito maior que a Terra - com uma massa equivalente a 45 vezes a da Terra, o que torna provável que seja um planeta gigante de gás ou gigante gasoso, como Saturno -, mas a uma distância similar do seu sol, a estrela 55 Cancri, explicou a astrónoma Debra Fischer, da Universidade Estadual de São Francisco. A 55 Cancri fica a cerca de 41 anos-luz (1 ano-luz=9,5 x 1012 km) da Terra, na constelação de Câncer. O planeta recém-descoberto é o quarto a contar da 55 Cancri e completa uma órbita em 260 dias. A sua localização coloca-o na «zona habitável», a zona onde a temperatura permite a existência de água no estado líquido.

Este é o primeiro sistema com cinco planetas descoberto e é possível que exista vida em planetas ou luas ainda não detectados.

«A estrela é muito parecida com o nosso próprio sol. Tem à volta da mesma massa e idade que o nosso sol», disse Fischer aos jornalistas.«É um sistema que parece estar repleto de planetas». «Todos os planetas gigantes de gás no nosso sistema solar têm luas de grandes dimensões. Se existir uma lua orbitando este novo, massivo planeta, pode ter água líquida acumulada numa superfície rochosa».

Mais detalhes sobre esta excitante descoberta podem ser encontradas na página da NASA.

Modem USB de banda larga


A Sony Ericsson anunciou ontem que estará disponível no início de 2008 o primeiro modem USB de banda larga, tão fácil de usar como uma memória USB.

O Sony Ericsson MD300 é um modem portátil de banda larga com uma interface muito fácil de utilizar, que se liga a qualquer porta USB e se instala e configura sózinho (para clientes Microsoft, estando disponíveis para download e instalação drivers Macintosh).

O MD300 vem equipado com suporte para redes Quad-band GSM/GPRS/EDGE e Triple-band HSDPA/UMTS, o que permite utilização praticamente em todo o mundo.

Adesivo sem cola inspirado em insectos


Cientistas do grupo de Biomateriais Evolucionistas do Max Planck Institute for Metals Research, em Stuttgart, e do laboratório de Robótica Biologicamente Inspirada da Universidade Case Western Reserve, desenharam uma fita sem cola, duas vezes mais adesiva que as actualmente disponíveis, inspirando-se em patas de insectos.

As propriedades do novo adesivo, que cola mesmo superfícies com pó, pode ser lavado com água e sabão e reutilizado múltiplas vezes, são devidas à sua superfície microestruturada, que imita patas de insectos, como a deste escaravelho da família Chrysomelidae (a mesma a que pertence o escaravelho da batata).

Os cientistas examinaram as patas de mais de 300 insectos para chegar a este produto que adere praticamente a todas as superfícies, inclusive vidro e superfícies irregulares ou com fendas.

Os cientistas usaram a nova fita nas «patas» do robot Mini-WhegsTM, e conseguiram que este robot de 120 g escalasse paredes de vidro. Para além dos robots, este material pode encontrar aplicações na manipulação de superfícies lisas como lentes ópticas ou CDs, bem como para colar ou proteger superfícies de vidro. Mudando a microetrutura e forma da superfície, será possível optimizar estes adesivos para outro tipo de aplicações.

O trabalho dos cientistas foi publicado online na revista «Bioinspiration & Biomimetics»: «Insects did it first: a micropatterned adhesive tape for robotic applications», e aparecerá na forma escrita no número de Dezembro desta revista.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

"O caminho das duas verdades"

Jacob Bronowski (1908-1974) matemático e filósofo polaco, aluno de Cambridge, professor em diversas academias de mérito, divulgador entusiasta de ciência, senhor de uma prosa clara, perspicaz e envolvente.

Vale a pena ler uma passagem dum pequeno livro intitulado Magia, Ciência e Civilização, onde disserta sobre essa questão antiga que é a verdade no quadro da fé e no quadro da lógica.

“[A] cena famosa, ocorrida em 1666, num jardim de uma casa de campo, quando Newton era rapaz, foi quase casual (...) calcular o que aconteceria se a força da gravitação chegasse à Lua (...). Deu-se, em seguida, o salto muito mais ousado, em Newton, de que ela chegava ao Sol e ia mais além dele.
Ora isto era uma especulação claramente nova, mas não inteiramente nova. Porque, em 1618-1619, mais ano menos ano, Kepler publicara um livro verdadeiramente extraordinário chamado Somnium, que era uma viagem imaginária à Lua — tema assaz favorito da ficção científica em todo o século XVII. Mas Kepler foi o primeiro homem que disse que quando se viaja daqui para a Lua, a gravidade nos acompanha durante todo o percurso, mas haverá um momento em que a gravidade da terra cessará e revelará a gravidade da Lua. É uma coisa esplêndida ter-se disto isto há trezentos e cinquenta anos — especialmente se se considerar que os homens levaram quase trezentos e cinquenta anos para experimentar um fenómeno de que este engraçado astrologozinho, que vivia pacatamente de escrever livros sobre astronomia, já tinha falado em 1618 ou acerca disso.
Se lerdes o Somnium, vereis que Kepler diz que há um ponto em que a gravidade diminui, e então faz um cálculo e o cálculo está errado. O cálculo estava errado porque ele pensava que a força da gravidade variava na função inversa da distância, e não na razão inversa do quadrado da distância [o que Newton viria a esclarecer] (...).
Constitui um quebra-cabeças saber como é que Kepler chegou a esta noção. O livro só apareceu depois da sua morte, quando o seu filho o publicou. Causou a sua mãe problemas relacionados com bruxaria, porque o clero local acreditava que o livro descrevia uma autêntica viagem à Lua — o que, há trezentos e cinquenta anos, era considerado ignominioso e não, como hoje, heróico.
Não é muito claro onde é que Kepler topou com esta noção, porque ela era muito avançada para a sua época — cerca de cinquenta anos à frente de Newton e da sua época. Mas parece provável que ele tivesse andado a ler alguns escritores neoplatónicos, que na altura estavam na moda. Entre esses neoplatónicos ele leu Nicolau de Cusa, que disse algo sobre o facto de que as massas dos corpos deveriam atrair-se umas às outras. Ora Nicolau de Cusa colheu esta noção num escritor do século V chamado Dionísio de Aeropagite, e Dionísio disse que de certeza as massas dos corpos se atraem umas às outras porque todo o Universo está repleto do amor de Deus: por esta razão, cada massa está cheia de amor por todas as outras massas, e por esta razão todas as massas estão cheias de amor umas pelas outras (...)
Quando Kepler leu Nicolau de Cusa, quando Nicolau de Cusa leu Dionísio de Aeropagite, ambos acreditaram que essa pessoa existia realmente. Bem, não existia. O homem que escreveu aquele trecho sobre o amor de Deus foi um impostor do século V que pretendia ter vivido muito antes da época em que de facto viveu, a fim de que os seus escritos pudessem ser aceites pela igreja como fazendo parte da lei dos pais da igreja (...) o problema da sociedade anterior a Copérnico, Kepler e outros, era o de que o que se dizia não tinha que ser verdadeiro desde que fosse religioso. Ora isto parece ser uma coisa muito desagradável de dizer, e não é minha intenção ultrajar as sensibilidades religiosas de ninguém, mas havia naquela época uma maneira de pensar que os próprios praticantes apelidavam de o «caminho das duas verdades» — havia uma verdade pela fé e uma verdade pela lógica. É óbvio que Aquino procurava combinar as duas mas desde a época de Aquino, desde 1250, até cerca de 1500-1550, surgiram muitos documentos que tinham sido escritos como história da igreja e que não passavam de falsificações, e todavia as pessoas que os escreveram não pensavam que isto pudesse de algum modo ultrajar a dignidade da igreja (…) (páginas 16-20).
Quando Newton publicou os Principia, em 1687, foi uma sensação — não só entre os cientistas mas também entre as pessoas pensantes, que reconheceram de imediato que o Mundo tinha sido reorganizado. Alexandre Pope (...) disse: «A natureza e as leis da natureza jazem ocultas em noite. Deus disse: faça-o Newton e tudo se fez luz». E era isso que as pessoas sentiam realmente; Bentley, o Mestre de Trinity, o maior figurão da igreja de Inglaterra daquela época, disse que foi por isso que tinha pedido a Newton autorização para pregar sobre a lei da gravitação como o derradeiro e supremo exemplo da lei divina” (página 15).

Referência completa da obra citada:
- Bronowski, J. (s.d). Ciência, magia e civilização. Lisboa: Edições 70.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

GRANDES ERROS: COMO TUDO COMEÇOU

O título "Como Tudo Começou" é o mesmo de um livro que mão anónima me ofereceu, deixando-o no meu cacifo sem marca nenhuma que identificasse o doador. Uma vez que costumo agradecer os livros que me oferecem, só me resta agradecer este por este meio. O livro da autoria de Adauto Lourenço tem por subtítulo "Uma Introdução ao Criacionismo" (tenho uma boa colecção de livros de erros e pseudociência e este não destoa lá), a editora (brasileira) é a Fiel e a data é 2007 (acabou de sair). A edição é de luxo: em "papel couché" e ricamente ilustrada. Sobre o conteúdo julgo que o subtítulo é esclarecedor. Só não é clara a razão por que os criacionistas gostam tanto do anonimato. Ou talvez haja uma boa razão: porque receiam o ridículo.

The meaning of life - II


No post anterior, abordei uma das questões que me suscitou a leitura da recente alocução de Bento XVI em que este disserta sobre ética/moral, nomeadamente sobre medicamentos que constituem uma «opção claramente imoral», o que devem ser as «normas éticas fundamentais» e sobre o dever dos farmacêuticos católicos de advertirem outrem sobre as «implicações éticas» de opções consideradas imorais pelo Vaticano.

Pessoalmente, considero que a ética deve ser exclusivamente filosófica, puramente racional e cientificamente informada. Uma ética que não se consiga separar da religião - ou da ideologia política - não será mais do que um conjunto de costumes, dogmas, crenças religiosas e/ou atitudes populares convertido em prescrições autoritárias que, se formalizada no direito como muitos reinvidicam, corresponde a uma perversão grave dos princípios que supostamente regem a nossa sociedade.

Em relação a opções «claramente imorais», o problema é que muitas opções assim consideradas por Bento XVI - usar preservativo como forma de prevenção da SIDA, por exemplo -, não o são para mim e para a esmagadora maioria das pessoas, que, tal como eu, consideram imoral e anti-ética a postura do Vaticano em relação ao preservativo.

Outras opções que a Igreja católica considera imorais são na realidade amorais, isto é, a moral só começa quando os nossos comportamentos afectam outros agentes moralmente relevantes. Quando não interagimos com nenhum outro agente moral, nenhum dos nossos actos tem qualquer relevância moral.

Sobre o que devem ser «normas éticas fundamentais» na investigação de novos medicamentos, a blogosfera norte-americana está repleta das consequências das crenças da Animal Liberation Front (ALF), que cometeu mais um «acto deplorável e ilegal de vandalismo extremo» como protesto pelo uso de animais em ciência, neste caso na investigação dos mecanismos subjacentes à dependência de nicotina, metanfetaminas e outras drogas. No caso concreto do Vaticano, suponho que estas normas éticas fundamentais se refiram a tratamentos ou vacinas desenvolvidas ou obtidas a partir de linhas de células embrionárias ou fetais. Mas pelo menos em relação a vacinas «imorais», existe já um documento que confirma não ser obrigatória a obrigação moral de evitar colaboração material passiva com um «crime» (ser vacinado com uma vacina«imoral») se existir um inconveniente grave.

No que diz respeito a questões de saúde, acho extremamente preocupante que se considere legítimo que os cuidados médicos ou farmacêuticos devam ser subjugados a considerações religiosas ou que alguém considere que é seu direito definir o que são medicamentos desenvolvidos de forma irresponsável.

Como é óbvio, considero que é direito de qualquer crente recusar para si um tratamento ou medicamento que considere «imoral», desde que essa recusa não tenha implicações em saúde pública ou outras referentes a terceiros. Reconheço ainda o direito à crença de serem os pharmakos os feitiços modernos com que os «bruxos» actuais, os Illuminati que controlam o mundo, afastam o mundo de Jesus. Mas parece-me igualmente óbvio que ninguém pode impor aos outros as suas crenças, nomeadamente não pode exigir que se deixe de vender na farmácias medicamentos que considerem imorais, feitiçaria ou anti-religião.

Finalmente, sobre o direito/dever de advertência de outrem sobre as «implicações éticas» de opções consideradas imorais por uma qualquer religião, conto a minha experiência pessoal.

Há exactamente 25 anos vivi o pior período da minha vida quando descobri que a minha filha mais velha tinha um problema de saúde muito grave. O 9º piso da Neurocirurgia do hospital de Santa Maria, onde se situava a UCI, a SO e a sala pediátrica, estava em obras, de forma que ficámos ambas numa enfermaria comum. Um padre que visitava os doentes, certamente com as melhores intenções, resolveu dar-me apoio (não solicitado) naquela hora tão difícil. Rapidamente se apercebeu que não me poderia dar qualquer tipo de conforto, mas ficou horrorizado com as implicações éticas e morais (para ele) das minhas opções: a minha filha de 18 meses não era baptizada.

Naquela altura em que o Vaticano ainda não tinha abolido o limbo, tal era completamente inaceitável para o padre de que não recordo nem o nome nem a cara, apenas o total desrespeito por mim, pela minha dor e pelo meu estado (entretanto descobrira estar grávida da minha filha mais nova). Recordo a total insensibilidade com que me avisou que não tinha direito a não a baptizar, que o tumor da minha filha era castigo do meu ateísmo, que se não me arrependesse ou pelo menos não a baptizasse, o filho que carregava no meu ventre teria igual destino. Nem o desplante com que me informou, quando soube que a mais velha tinha sobrevivido à intervenção, que o tinha de agradecer a Deus que me dera uma segunda oportunidade de arrependimento.

Estou certa que o padre em questão era em outras circunstâncias uma excelente pessoa, que confortou muitos dos pacientes católicos que se acumulavam nas enfermarias do hospital. Mas nem todos os pacientes ou acompanhantes partilhavam as suas crenças ou comungavam da sua «moral». Para o padre, a minha opção em não baptizar a minha filha era «claramente imoral» e ele exerceu o que considerava seu dever e direito informando-me «sobre as implicações éticas» dessa opção. Para mim, toda a actuação do padre foi claramente imoral e claramente desumana.

Contrariamente ao que pensam os muitos que querem impor uma moral baseada na fé, uma moral religiosa não é uma moral universal. Uma moral universal resulta directamente de princípios que todos aceitam, o que está muito longe de ser verdade em relação a qualquer religião. Impor uma moral religiosa é assim imoral, precisamente porque é um código privado de moralidade, que resulta directamente de uma teologia/crenças que nem todos partilham. Pior, provoca atitudes desumanas em pessoas que de outro modo não teriam tais atitudes.

domingo, 4 de novembro de 2007

O MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO

Pertenci ao grande grupo de portugueses que acalentou a esperança de que a actual Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, arrumasse a casa. O Ministério bem precisava. Mas hoje tudo leva a crer que foi a casa que a arrumou a ela.

Racismo e hipocrisia

Chamo hipocrisia, no sentido que quero usar, ao que Sartre chamava má-fé: o auto-engano intelectual, que consiste em mentir a nós próprios. O objectivo é, presumo, manter uma imagem ampliada de nós mesmos, para podermos continuar com a crença de que somos gente fixe. O resultado, observo, é idiotia em doses maciças. Nenhum de nós é perfeito e andar a fingir o contrário não é uma atitude sábia porque provoca um esforço inglório e constante para distorcer toda a realidade de modo a poder sustentar o insustentável.

Em parte, o que me motivou a escrever contra algumas reacções às declarações de Watson foi precisamente a minha perplexidade perante o que me parece uma atitude hipócrita. Vejamos: uma besta qualquer faz uma declaração pretensamente falsa, empiricamente, e toda a gente fica histérica, no nosso país. Hum. Mas nunca vi um jornalista negro ou uma deputada negra; tive uma única colega negra enquanto estudei na faculdade; no nosso país, praticamente só os filhos dos médicos, arquitectos, advogados e professores universitários cursam medicina — e quase nenhuns destes são negros; não há praticamente professoras e professores negros ou de outras etnias no ensino secundário ou básico — mas não faltam na construção civil. Perante este factos — estes sim, verdadeiramente abomináveis — como justificar tanta histeria perante as declarações de Watson?

Resposta: hipocrisia.

Com uma reacção histérica apropriada podemos dar um ar de alegado pensamento progressista, que fica sempre bem, numa área que na verdade não implica qualquer tipo de trabalho real para mudar seja o que for numa sociedade profundamente racista: a sociedade portuguesa. Há leis específicas que protejam as pessoas, em Portugal, da discriminação com base na raça (além da Constituição, que não é de grande ajuda se não houver leis específicas no código civil)? Há algumas políticas de apoio aos estudantes e trabalhadores negros, que os estimulem a ir mais longe? O que está a acontecer aos filhos dos negros, dos ciganos e dos membros de outras etnias? Têm protecção contra a discriminação? São estimulados a estudar e a ir mais longe? Ou são vistos apenas como futuros traficantes de droga, ladrões e trabalhadores da construção civil?

E quanto ao "eduquês"? Não é uma forma disfarçada de profundo e odioso racismo, ao declarar que os negros só podem interessar-se por música rap, por exemplo, mas não por física quântica? E o "eduquês" não é a política oficial do Ministério Pimba da Educação, desde há algumas décadas?

Perante tudo isto a malta fica indignada com o que uma besta qualquer disse num jornal estrangeiro? Haja paciência. Fazendo minhas as palavras de Hume, lançai à fogueira a vossa indignação perante as declarações de Watson, pois não podem conter senão ilusão e hipocrisia.

Definição de Definição

O post da Palmira fez-me ver que os cientistas não sabem muito bem do que estão a falar quando falam de definições. Nomeadamente, aceitam sem saber o preconceito positivista de que todas as definições são meramente nominais. Este preconceito é hoje em dia dificilmente aceitável em filosofia, dados os desenvolvimentos recentes em metafísica (sim, há desenvolvimentos em filosofia). De modo que aqui fica uma versão ligeiramente adaptada do artigo que escrevi para a Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos sobre o tema da definição. No meu livro A Natureza da Filosofia e o seu Ensino encontra-se igualmente um capítulo sobre o tema.


Definir algo é especificar a natureza de algo. Chama-se definiendum ao que se quer definir e definiens ao que a define. Por exemplo, pode-se definir o ouro (definiendum) como o elemento cujo peso atómico é 79 (definiens). E pode-se definir a palavra «solteiro» como «não casado». Chama-se «real» ao primeiro tipo de definição e «nominal» ao segundo.


Há três tipos principais de definições nominais: as lexicais, as estipulativas e as de precisão.


Nas definições lexicais ou de dicionário dá-se apenas conta do significado preciso que uma dada palavra realmente tem. Estas definições podem ser equivalentes a definições reais. Por exemplo, definir a palavra «água» como «líquido incolor, sem cheiro nem sabor, que se encontra nos rios e na chuva» é equivalente a definir a própria água porque muitas vezes o modo formal é equivalente ao modo material.


Usa-se uma definição estipulativa quando se introduz um termo novo (como «Dasein»), ou quando se quer usar um termo corrente numa acepção especial (como «paradigma», na filosofia da ciência de Thomas Kuhn). Uma forma falaciosa de argumentação consiste em presumir que uma definição capta sempre algo, como se a definição de «flogisto» implicasse a existência de flogisto. Outra, consiste em simular definir uma noção da qual depende a plausibilidade de uma ideia, mas fazê-lo de modo tão vago que impede qualquer avaliação crítica dessa ideia.


Usa-se uma definição de precisão quando se pretende tornar o discurso mais preciso, dando um significado particular a um termo que pode ser entendido de modos diferentes («liberdade», por exemplo). Uma forma falaciosa de o fazer é usar uma definição que não capta aspectos fundamentais da noção em causa, o que permite criar a ilusão de que se resolveu o problema em discussão.


Os tipos fundamentais de definições são os seguintes:




Nas definições explícitas define-se algo por meio de condições necessárias e suficientes ou (o que é equivalente) através do esquema «definiendum é definiens». Por exemplo, «Algo é um ser humano se, e só se, é um animal racional» ou «O ser humano é um animal racional».


Nas definições implícitas define-se algo sem recorrer a condições necessárias e suficientes. Por exemplo, ensina-se as cores às crianças por definição implícita ostensiva: apontando para exemplos concretos de objectos coloridos. A incapacidade para definir explicitamente algo não significa que não se sabe do que se está a falar, pois a maior parte das pessoas não sabe definir explicitamente as cores, mas não se pode dizer que não conhecem as cores. Contudo, a procura de definições explícitas de noções centrais é uma parte importante da filosofia e da ciência; a definição de conhecimento, arte, verdade e bem, por exemplo, tem constituído parte importante respectivamente da epistemologia, da estética, da metafísica e da ética.


As definições implícitas contextuais podem ser tão precisas e rigorosas quanto as definições explícitas. Um sistema axiomático para a aritmética, por exemplo, nunca define a soma explicitamente, mas o sistema no seu todo define correctamente esta operação.


As definições analíticas são as mais fortes de entre as explícitas, no sentido em que toda a definição analítica correcta é uma definição essencialista correcta (mas não vice-versa), e toda a definição essencialista correcta é uma definição extensional correcta (mas não vice-versa).


As definições analíticas captam o significado do termo a definir, resultando numa frase analítica. Por exemplo, a definição «Um solteiro é uma pessoa não casada» é uma frase analítica. As definições analíticas são expressões de sinonímia. Estas definições são nominais; contudo, dadas as críticas recentes à definição metafísica de analiticidade, é defensável que são igualmente reais.


As definições essencialistas procedem em termos de condições metafisicamente necessárias e suficientes. Por exemplo, a definição «A água é H2O» é essencialista porque, em todos os mundos possíveis, uma condição necessária e suficiente para algo ser água é ser H2O (ou seja, a água é necessariamente H2O). Esta definição não é analítica porque o significado da palavra «água» não é «H2O» (mesmo as pessoas que não sabem que a água é H2O sabem o significado da palavra «água»).


As definições extensionais procedem em termos de condições necessárias e suficientes. Por exemplo, a definição «Uma criatura com rins é uma criatura com coração» é uma definição extensional porque todas as criaturas que têm rins têm coração, e vice-versa. Mas noutros mundos possíveis poderá haver criaturas com rins que não têm coração, e por isso esta definição não é essencialista (logo, também não é analítica).


As definições explícitas podem falhar por 1) serem excessivamente restritas (não incluírem tudo o que deviam), 2) serem excessivamente amplas (incluírem o que não deviam) e 3) incorrerem no erro 1 e 2 simultaneamente. Por exemplo: «A filosofia é o estudo do Homem» é uma definição excessivamente restrita de filosofia, pois exclui disciplinas filosóficas como a lógica e a metafísica, entre outras; «O Homem é um bípede sem penas» é uma definição excessivamente ampla, pois inclui na categoria de Homem bípedes como os cangurus; «O Homem é um animal racional» é excessivamente ampla (poderá haver animais racionais noutras partes da galáxia, e eles não serão seres humanos) e é excessivamente restrita (alguns bebés humanos nascem sem cérebro, pelo que não podem ser racionais, mas são apesar disso seres humanos).

The meaning of life


O post Beyond Belief 2007 originou um debate muito interessante no espaço devotado à participação dos nossos leitores, especialmente interessante para mim porque trouxe a lume alguns temas destacados na revista Seed e outros que aquecem o debate nos blogs de ciência norte-americanos.

Uma das nossas leitoras referiu uma recente alocução de Bento XVI no 25º Congresso Internacional dos Farmacêuticos Católicos, em que o Papa apelou aos participantes para serem objectores de consciência em relação a medicamentos que «têm por objectivo opções claramente imorais». Bento XVI inclui nessa categoria medicamentos que não respeitem todo o ser «desde a sua concepção até sua morte natural» e medicamentos desenvolvidos de forma irresponsável, isto é, sem respeitar o que Bento XVI considera serem «normas éticas fundamentais».

Esta alocução, para além de me deixar dúvidas sobre o que seja «morte natural» - os avanços da ciência permitiram desde há décadas, especialmente desde a descoberta da penincilina, que, felizmente, cada vez menos pessoas morram de forma «natural» -, levanta muitas outras questões, algumas das quais abordarei num próximo post.

A questão fundamental que pretendo abordar agora tem a ver com o sentido da vida, cujo «respeito» está subjacente a todo o discurso de Bento XVI, e que é discutido de forma muito original no artigo na Seed que deu título ao post - também inspirado no filme homónimo dos Monty Phyton.

No artigo, Radu Popa, geobiólogo e autor do livro «Between Probability and Necessity: Searching for the Definition and Origin of Life», refere que não há uma definição de vida com a qual todos os cientistas concordem. Para Popa, é «absolutamente inadmíssivel» que o «objecto mais importante» de uma ciência não tenha definição.

Uma opinião diversa tem a filósofa Carol Cleland, que trabalha com o Instituto de Astrobiologia da NASA e que considera que os cientistas devem deixar de procurar uma definição de vida e devem sim construir uma teoria da vida, tal como os químicos o fizeram em relação aos elementos e os físicos ao electromagnetismo. Para Carol, definições dizem respeito a linguagem e conceitos, não têm a ver com conhecimento verdadeiro.

A posição de Carol sobre o tema foi apresentada ao público científico em geral na conferência «The Nature of Life», organizada em 2001 pela American Association for the Advancement of Science, AAAS - que publica a revista científica de maior impacto, a Science -, e de certa forma revolucionou a comunidade científica.

A maioria dos cientistas concordava em termos gerais que a vida era um sistema químico auto-sustentado capaz de evolução e que é a origem deste sistema evolutivo que marca a origem da vida. A partir daí, os compostos químicos organizaram-se em células, em espécies e em linhagens que sobreviveram e se alteraram ao longo de milhões de anos. Como refere Gerald Joyce do Scripps Research Institute em La Jolla, Califórnia:

«A história começou a ser escrita em moléculas. E é por isso que a biologia é diferente da química».

Mas química de facto é diferente da biologia noutro sentido que Carol e Christopher Chyba, um astrónomo de Princeton que se doutorou com Carl Sagan, apontam de forma acutilante. Para ambos, quando as pessoas tentam definir vida, escolhem algumas características de seres vivos e fazem dessas características a verdadeira essência da vida. O que também para ambos é errado já que «Não queremos saber o que a palavra vida significa para nós. Queremos saber o que é a vida».

Neste sentido, consideram que os cientistas que hoje em dia tentam definir vida, incorrem nos mesmos erros em que caíram os alquimistas da Idade Média. Estes tentavam definir as substâncias pelas suas propriedades, sem qualquer compreensão da química subjacente. Assim, por exemplo, a água era definida de acordo com as suas características, nomeadamente a propriedade de dissolver determinados sólidos. Nem o gelo nem o vapor de água eram água para os alquimistas. Por outro lado, consideravam ser água uma série de substâncias que hoje sabemos não terem nada a ver com água, como sejam a «água forte» ou acqua fortis, na realidade ácido nítrico, a mistura de ácidos cloridrico e nítrico a que chamaram acqua regia - por ser capaz de dissolver metais nobres como o ouro - ou mesmo a acqua vitae ou acqua ardens, as bebidas destiladas que consideravam capazes de prolongar a vida dos que as consumiam.

Mas mesmo que os alquimistas procurassem uma melhor definição de água, o conhecimento disponível não lhes permitiria sair dos erros em que incorriam, o que foi apenas possível com o nascimento da química. De acordo com Carol, este exemplo frisa porque considera que se deve estabelecer uma teoria da vida e se deve abandonar a procura de uma definição. De facto, dizer que «água é H2O não é uma definição. É uma descoberta».

Tudo isto recordou-me o Tractatus Logico Philosophicus de Ludwig Wittgenstein, «Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo», nomeadamente no que diz respeito aos limites da linguagem do quotidiano nos termos «natural» e «vida».

Em relação a estas palavras, certamente que a sua compreensão é limitada pelos pré-conceitos que fazem muitos pensar que o que estas palavras significam para eles corresponde de facto ao que «vida» e «natural» são. O que em princípio não teria problemas se essas pessoas não achassem que todos deveriam acatar as suas definições como a verdade acabada sobre o tema e não apelassem à desobediência civil para as impor.

Van Rensselaer Potter, que introduziu em 1971 o neologismo bioética - no livro Bioethics: bridge to the future -, pretendia com a conjugação «'bio' para representar o conhecimento biológico, a ciência dos sistemas vivos, e 'ética' para representar o conhecimento dos sistemas de valores humanos» estimular o diálogo entre as ciências exactas, as ciências sociais e a filosofia. Diálogo que considerava essencial para «ajudar a humanidade no sentido de uma participação racional e cautelosa no processo da evolução biológica e cultural».

Na realidade, os progressos científicos e tecnológicos muito rápidos que se verificaram a partir de meados do século passado, tão rápidos que não permearam a sociedade, introduziram uma série de problemas novos, nomeadamente no que se refere às ciências da vida, em que a falta deste debate permitiu que se instalassem formas veladas de Inquisição que ensombram não só o desenvolvimento da própria ciência como o desenvolvimento ético da nossa sociedade.

O parágrafo final do artigo da Seed, cuja leitura volto a recomendar aos nossos leitores, lança esperança em relação ao reatar do debate das duas ciências, fulcral para responder aos que pretendem entravar esse desenvolvimento:

«A ciência e a filosofia separaram-se no iluminismo, mas hoje, à medida que os biólogos vão penetrando cada vez mais profundamente no que é fundamental na vida, os filósofos têm revelado terem coisas importantes a dizer sobre o que os biólogos encontram. Agora, à medida que a biologia entra numa nova era e incorpora cada vez mais os princípios da física e da filosofia, podemos estar no limiar de uma confluência que nos permitirá finalmente fazer sentido do todo e não apenas das partes».

sábado, 3 de novembro de 2007

O mais pequeno rádio do mundo

Cortesia da imagem: Zettl Research Group, Lawrence Berkeley National Laboratory e UCBerkeley.

Esta imagem, obtida com com um microscópio electrónico de transmissão* (TEM - Transmission Electron Microscope) mostra um único nanotubo de carbono montado numa base de tungsténio que funciona como um eléctrodo (as ondas não fazem parte da imagem original). O nanotubo representado tem menos de um micrómetro de comprimento e tem apenas 10 nanómetros de largura (cerca de 10 000 vezes mais fino que um cabelo humano). Quando o nanotubo recebe uma onda de rádio de frequência específica, começa a vibrar. O campo eléctrico aplicado ao nanotubo faz com este emita electrões, que podem ser usados para detectar as vibrações do nanotubo, isto é, ouvir rádio.

Há 15 dias, a 18 de Outubro, a revista «Nano Letters» apresentava a descrição do primeiro AM demodulador, funcional, à escala nano, desenvolvido por dois cientistas da UCIrvine. Na mesma revista, foi publicado online dia 31 de Outubro a descrição do primeiro «Nanotube radio», em que todos os componentes essenciais de um rádio se resumem ao nanotubo da figura. Os autores, que disponibilizam na página do grupo vídeos e ficheiros áudio muito interessantes, demonstraram que este rádio permite receber com sucesso música e voz humana. Layla de Eric Clapton foi a primeira canção ouvida num nano dispositivo.

Embora ouvir música transmitida por um nano rádio seja certamente excitante, pelo menos na primeira vez, a tecnologia terá muito provavelmente outras aplicações. Como refere Bruce Kramer, um dos autores:

«A aplicação de um receptor de rádio com menos de 50 milionésimos de uma polegada (2.54 cm) de comprimento e um milionésimo de polegada de diâmetro permite o controle rádio de praticamente tudo, desde um receptor único numa célula viva a um vasto conjunto implantado numa asa de avião».

Este nano rádio surge exactamente 120 anos depois da publicação nos Annalen der Physik de um dos seus mais famosos artigos, tanto quanto aqueles publicados por Max Planck e Einstein uns anos depois e que revolucionaram a Física e o mundo. E apenas 11 anos após Kroto, Smalley e Curl terem sido laureados com o Nobel da Química pela descoberta dos fullerenos, família de compostos que inclui nanotubos de carbono.

No artigo de 1887, Heinrich Rudolf Hertz confirma a existência das ondas electromagnéticas propostas quinze anos antes por James Clerk Maxwell e descreve o primeiro oscilador capaz de transmitir uma onda electromagnética. Este dispositivo, que utilizava uma bobina de Ruhmkorff, permitiu a Hertz descobrir as ondas de rádio (e o efeito fotoeléctrico, mas essa é outra história). É incrível o progresso que a transmissão e a recepção das ondas hertzianas conheceu nestes escassos 120 anos, progresso possível devido aos igualmente incríveis desenvolvimentos da química e física dos fullerenos!

*Quando queremos olhar para objectos pequenos usamos um microscópio. Num microscópio, a luz incide sobre o objecto e é difractada em várias direcções; a lente colecta os raios difractados e reconstitui a imagem. Mas não se conseguem ver detalhes que sejam menores que o comprimento de onda da radiação utilizada para os ver.

A luz visível tem comprimento de onda entre 400-700 nm, o que significa que não podemos usar microscópios ópticos para ver algo de dimensões menores que algumas centenas de nanómetros.

Existem várias técnicas disponíveis para «ver» o muito pequeno, o TEM é apenas uma delas, em que se utiliza um feixe de electrões acelerados - a diversas velocidades, ou seja, comprimento de onda variável -, o que faz com se utilizem lentes electromagnéticas na reconstrução da imagem. Se quisermos olhar para moléculas, isto é, «ver» com resolução atómica, necessitamos de luz de comprimento onda na gama dos raios-x.

Não é possível construir um microscópio de raios-X para olhar para moléculas porque não existem lentes de raios-X. Podemos no entanto simular uma lente de raios-X num computador. Numa experiência de difracção de raios-X, a reconstituição da imagem é feita com o auxílio de programas. A radiação difractada por um objecto é a transformada de Fourier desse objecto ou a imagem desse objecto no espaço de Fourier ou espaço recíproco. A reconstituição da imagem reside na passagem para o espaço real, o que implica inverter esta transformada de Fourier. A lente simulada no computador consiste num conjunto de programas que calculam a inversa da transformada de Fourier a partir das imagens de difracção obtidas.

HISTÓRIA DOS BALÕES

Agora que se aproxima o Dia Nacional da Cultura Científica, celebrado em mais um aniversário do nascimento de Rómulo de Carvalho, recupero uma minha recensão do seu livro "História dos Balões", publicada em tempos na "Gazeta de Física" (fiz ligeiras modificações). O livro é recomendado pelo Plano Nacional de Leitura para o 8º ano de Português.


Pertenço a uma geração de gente que era nova (quer dizer, mais nova) quando a colecção «Ciência para Gente Nova» da falecida editora Atlântida de Coimbra, era praticamente a única colecção portuguesa de divulgação de ciência. Aqueles livros, pequenos mas muito motivadores, valiam mais do que os manuais de física e química dos liceus (o livro do Dr. Teixeira, lembram-se?), que tentávamos decifrar. Naqueles livrinhos para gente nova percebíamos tudo. O autor, como era bem manifesto, esforçava-se para que não só percebêssemos como gostássemos de ter percebido. A ciência não parecia acabada, em afirmações rígidas, mas sim vestida num contexto histórico, de descoberta, de tentativa e erro. Hoje em dia, a casa onde era a livraria Atlântida na baixa coimbrã passou a ser uma casa de pronta a vestir e o papel da editora de divulgação científica foi tomada por outras editoras, como a Gradiva. A escola antiga, com os laboratórios repletos de balanças, já tem sensores e computadores. Está tudo mais moderno. Até nós deixámos de ser a gente nova que éramos. Mas aqueles livrinhos, pese embora a poeira dos anos, mantêm-se modernos, vivos como estão na nossa memória.

Foi Rómulo de Carvalho não só o autor como o responsável pela longevidade dessas publicações para gente nova. O seu estilo, a sua sensibilidade, a sua alegria de saber sobrevivem às perturbações do tempo. Pois, para grande regozijo nosso e proveito da gente nova, a editora Relógio de Água, está a reeditar a colecção «Ciência para Gente Nova». Apareceu já a «História dos Balões», que quero justamente publicitar. O autor, num prefácio pequeno mas justificativo, explica que a ideia da reedição daquele “texto datado” não é dele mas do editor. Mas datado é tudo o que acontece e deixa marcas e só não têm data aquelas coisas que ou não acontecem ou, esquecidas, não deixam marca. Queremos dizer-lhe que não só comprámos (na altura, pedimos emprestado o exemplar da biblioteca do liceu) como voltámos a ler. O livro tem a data de hoje. A «História dos Balões» contém um relato resumido da «Passarola» do luso-brasileiro Bartolomeu de Gusmão. Esse acontecimento de há trezentos anos faz parte, pela sua importância, dos almanaques mais actuais. Só para dar um exemplo, no livro Guiness dos Recordes (edição de 1993) lá vem: o primeiro voo de balão de ar quente, ainda que não tripulado e mal concluído, foi português. Realizou-se na Casa das Índias, no Terreiro do Paço, em Lisboa, no dia 5 de Agosto do ano de 1709. Tal facto pode-nos orgulhar bem mais do que a proeza de um tal bombeiro Vieira que aqui há anos bateu um recorde qualquer de andar muito tempo de bicicleta. Rómulo de Carvalho explica como é que o acontecimento da Passarola foi visto na Áustria: a rainha portuguesa da época, a esposa de D. João V, era austríaca, tendo uma princesa austríaca imaginado logo a rainha a visitar os Alpes de balão. Rómulo de Caravalho conta-nos, com humor evidente, como é que um diplomata português ridicularizou o invento: havia o perigo de os mouros, de posse de balões, invadirem facilmente o Algarve. Uma estampa sugere que o Padre Gusmão julgava, ingenuamente, que o balão subiria melhor se tivesse magnetes para atrair um fundo metálico... Não é delicioso? Gusmão, que foi doutor da Universidade de Coimbra, não conseguiu mais e melhor do que aquela proeza pioneira de mostrar que algo mais pesado do que o ar podia subir no ar. Morreu relativamente novo em Toledo, onde está sepultado. Eu não saberia isso se não tivesse lido a «História dos Balões» em novo e relido agora.

Depois lá vem a odisseia dos irmãos Montgolfier e o resto da história dos balões. As ilustrações fazem lembrar os livros de Júlio Verne, de entre os quais um se intitula precisamente «Cinco Semanas em Balão». Os intérpretes principais têm direito ao nome em maiúsculas para lhes fixarmos facilmente os nomes. O princípio dos balões, baseado em Arquimedes, está lá bem explicado, com números e tudo. Trata-se, portanto, de um livro curioso com pormenores sobre a história dos balões e balonistas para quem tenha a chama da curiosidade bem acesa.

Há, porém, uma outra coisa de que discordamos no prefácio do autor. Então, caro Doutor Rómulo de Carvalho, a história dos balões já teve um fim? Que o autor não quisesse ou pudesse actualizar essa história, está no seu pleno direito, mas proezas recentes como por exemplo a travessia do Pacífico num balão de ar quente, em tempo recorde, não fazem mais do que continuar essa história. Isto para não já falar dos instrumentos meteorológicos que são colocados a grande altitude a bordo de balões, ou do balão astronáutico que está planeado para explorar Marte. De resto, só agora é que o balonismo se está a transformar num desporto acessível ao comum dos cidadãos, embora ainda seja perigoso. Para os muito novos, a Gradiva lançou uma «Ciência com Balões», que ensina mil e um truques com balões de soprar. Os balões são moderníssimos!

- Rómulo de Carvalho, "História dos Balões", Relógio de Água, 1991.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Beyond Belief 2007

Termina hoje o II Beyond Belief, que se realiza no Salk Institute em San Diego, cidade que acolherá a partir de amanhã cerca de 30 000 neurocientistas que participarão no Neuroscience 2007.

O debate do ano passado foi memorável, como referi gostei muito da intervenção de Neil deGrasse Tyson e, pelos relatos de PZ Myers, a qualidade mantém-se este ano. Será especialmente interessante ver a intervenção de David Sloan Wilson e o debate que se seguiu com Daniel Dennett, autores de dois livros sobre religião, evolução e intencionalidade recomendados pelo Desidério. Wilson, recordo, esteve recentemente em Portugal onde abriu as «Conferências sobre religião e evolução» da Fundação Calouste Gulbenkian.

Os vídeos estarão brevemente disponíveis na Science Network, mas enquanto isso não acontece, vale a pena (re)ver e ouvir Ann Druyan, co-fundadora do Cosmo Studios e esposa de Carl Sagan, na sessão do ano passado em resposta a Darren Schreiber, um cientista cristão, que argumentava ser a religião mais tolerante do desconhecido que a ciência.

«Penso que a ciência tem tolerância em relação ao desconhecido de uma forma que a religião não tem. A minha crítica não é em relação aos que procuram Deus, a minha crítica é em relação àqueles que acham que o conhecimento em relação a Deus é completo. E são essas pessoas que tornam tanta da nossa existência neste planeta um inferno, porque pensam ter o direito de matar outras pessoas, de magoá-las por causa do que acreditam ser a vontade de Deus. Isso é uma coisa muito destrutiva.

Portanto a ciência, toda a metodologia da ciência, passa por dizer que não são permitidas essas verdades absolutas que a religião pretende ter, que não temos as respostas a essas perguntas e, para além disso, o pouco que pensamos saber, se alguém provar estar errado, dar-nos-á o prémio maior. Isso faz parte da metodologia, faz parte do próprio sistema.

Sim, para responder ao que Joan disse antes, cientistas fazem coisas horríveis. Cientistas têm preconceitos. Religiosos fazem coisas horríveis e têm preconceitos. Mas absolutamente intrínseco a todo o método científico está o mecanismo de correcção de erros, que nos diz que nunca devemos esquecer disso. Esse mecanismo não está presente de todo na religião.

Falando em humildade! É o facto de fazermos ciência, de podermos conseguir olhar para a pequeníssima Terra na apresentação de Carolyn, que é humildade: isso é humildade.

O que nos fez a ciência espiritualmente, é que tem sido a única coisa que conheço que nos impele a deixar a nossa necessidade infantil de centralidade. Essa centralidade está presente, é a essência de tantas fórmulas religiosas: de onde viemos e porque existimos. É um sinal de saúde mental podermos suportar a ideia de que este planeta esteve perfeitamente bem quase 4.5 biliões de anos sem nós, que a evolução cósmica se deu por 13.5 biliões de anos até nós aparecermos.

Há quanto tempo temos a ciência? Há quanto tempo observamos sistematicamente a natureza? Nem sequer 400 anos. No entanto a ciência leva-nos para fora do Sistema Solar. A ciência permite-nos abandonar aquele espírito narcisista que nos impele a considerarmo-nos o centro de tudo. Por isso, no que diz respeito à humildade, no que diz respeito à tolerância pela ambiguidade e pelo desconhecido, penso que a ciência adora o desconhecido e penso que os cientistas são os que se sentem mais confortáveis face ao desconhecido. E é onde vivem. Esta é a grande força da ciência, por isso respeitosamente discordo.»

Ler os outros: Sornas e viagens espaciais

No Ciência ao Natural, Luís Azevedo Rodrigues brinda-nos com um artigo a não perder sobre hibernação, em que nos explica porque poderá ser útil compreendermos os mecanismos fisiológicos subjacentes. Talvez não seja necessário emular o Cercartetus nanus, que um estudo, a ser publicado em Novembro, refere ser capaz de hibernar mais de um ano (367 dias), mas certamente que eventuais voos espaciais de longa duração seriam mais fáceis se fosse possível reduzir a actividade fisiológica dos astronautas.

Laser anti vírus e bactérias

Uma equipa que inclui pai e filho, na Universidade Estadual do Arizona e no Instituto Médico John Hopkins em Baltimore, respectivamente, publicou ontem no «Journal of Physics: Condensed Matter» um artigo em que mostram ser possível fazer o tuning de um laser de infravermelho (IV) para distinguir (e matar) organismos invasores, como vírus ou bactérias, de células humanas.

A interacção entre a radiação electromagnética e a matéria dá-se de forma diferente consoante o comprimento de onda da radiação incidente. Uma vez que os estados de uma espécie química estão quantificados, ela só pode alterar a sua energia por saltos quânticos e há absorção de radiação apenas quando a energia dessa radiação é exactamente igual à diferença de energia entre dois estados possíveis para a espécie química em questão.

Para além da energia electrónica, também a rotação e vibração de uma molécula estão quantificadas. A diferença de energia entre estados rotacionais corresponde à zona das microondas e a excitação rotacional é a base do funcionamento do electrodoméstico ubíquo nos nossos lares. O microondas que utilizamos tem uma antena sintonizada para a molécula de água e quando ligamos o microondas pomos as moléculas de água a rodar mais depressa. Já a radiação no infravermelho, também chamada radiação quente, excita as vibrações das moléculas.

O trabalho descrito usa uma técnica diferente de excitação vibracional, denominada Impulsive Stimulated Raman Scattering (ISRS), que os autores já tinham mostrado ser eficaz para desactivar vírus quando usavam um laser azul (radiação visível).

Agora, os autores excitaram selectiva e letalmente proteínas da superfície viral ou bacteriana, destruindo-as com pulsos de laser de IV com duração de femtosegundos - um femtosegundo corresponde a 1x10-15 s, ou um milésimo do milionésimo do milionésimo do segundo.

Os físicos mostraram que é possível controlar o pulso do laser para evitar danificar as células humanas, muito provavelmente porque as proteínas na membrana celular e no envelope viral ou na parede celular bacteriana apresentam estrutura diferente.

K. T. Tsen, da Universidade Estadual do Arizona, afirmou que «Embora não seja claro de momento porque razão há uma diferença tão grande na intensidade do laser necessária para desactivação entre células humanas e microorganismos como bactérias ou vírus, a investigação sugere que a ISRS estará pronta para ser usada em desinfecção e pode dar origem a tratamentos contra alguns dos piores, muitas vezes resistentes a fármacos, patógenos virais e bacterianos».

Isto é, embora a técnica esteja longe de ser passível de aplicação directa no homem, pode para já revelar-se muito útil na desinfecção de materiais - nomeadamente eliminando microorganismos multiresistentes -, incluindo materiais biológicos como o sangue, evitando propagação de doenças através de sangue contaminado.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

A FÍSICA, A METAFÍSICA E A POESIA


Pré-publicação do meu prefácio ao livro “Metafísica [Poética]”, de Vicente Ferreira da Silva, que vai sair em breve na editora Papiro do Porto.

Pedem a um físico umas palavras sobre metafísica e poesia, ou melhor, sobre esta “Metafísica [Poética]” de Vicente Ferreira da Silva, doutorando na Universidade do Minho.

Que tem um físico a dizer sobre metafísica? De facto, Física e Metafísica têm “física” em comum. Mas Aristóteles (384-322 a.C.), o grande físico e metafísico de Estagira (Grécia), usou o termo física (que significa natureza), mas não metafísica (à qual chamou filosofia primeira). Os escritos de Física (ou filosofia natural) englobam os livros “Do Céu” e “Mecânica”. Os escritos de Metafísica vêm a seguir no “Corpus aristotelicum”: Metafísica significa não “para além da Física”, como pensaram alguns escolásticos medievais, mas sim “depois da Física”. Foi Andrónico de Rodes o organizador das obras de Aristóteles o responsável pela designação de Metafísica. A “Poética”, incluindo a tragédia e a poesia épica, aparece só por último.

A Metafísica procura tradicionalmente responder a questões perenes como: o que é o real? O que é o ser? O que são as coisas? O que é a mudança? Mas também procura responder à eterna questão: o que é Deus (no tempo de Aristóteles, era no plural: o que são os deuses)? E procura também, ao procurar saber tudo isso, saber como se pode saber. Hoje em dia a metafísica é uma parte fundamental da filosofia: trata a matéria e a mente, os objectos concretos e as suas propriedades, os objectos abstractos e a matemática, a identidade e a mudança, o espaço e o tempo, a necessidade e a possibilidade, o determinismo e o livre arbítrio, a cosmologia e a cosmogonia, além, evidentemente, das questões teológicas. A relação com a física é, como se pode ver pelos exemplos, múltipla e extensa. Pois não são, por exemplo, a matéria, o espaço e o tempo, a cosmologia assuntos da Física? Não foi o físico de origem alemã Albert Einstein quem juntou todos estes assuntos num só, mudando a nossa visão do mundo (a matéria curva o espaço e o tempo, permitindo explicar a cosmologia)? A distinção entre física e metafísica nem sempre é fácil, tendo, além de Einstein, vários físicos imitado Aristóteles ao tratar tanto uma como outra. Mas atente-se no “distinguo”: a metafísica vem depois da física e não antes.

E que tem um físico a dizer sobre a poética? Pois que gostou de ler esta “Metafísica [Poética]”. A “Poética” de Vicente Ferreira da Silva é Metafísica antes de ser Poética. Ou melhor é Metafísica-Poética. Reforçando essa ideia o autor invoca logo à porta do seu livro o poeta idealista alemão Novalis (1772-1801), o pseudónimo por que é conhecido Georg Philipp Friedrich, Freiherr (Barão) von Hardenberg: “A Filosofia é a teoria da poesia”. O idealismo da arte poética de Novalis é, evidentemente, uma posição metafísica: na já referida oposição mente-matéria, a escola do chamado “idealismo alemão”, onde pontificam os filósofos-poetas Johann Wolfgang von Goethe e Friedrich von Schiller, dão clara preferência à mente. Nessa escola entroncam os filósofos também alemães Friedrich von Schelling e Georg Hegel, contemporâneos de Novalis, a cujo patrocínio Vicente Ferreira da Silva se alberga na portaria de dois dos seus poemas. Fica assim claro quais são as influências principais do autor destes poemas em verso branco, que são por vezes aforismos filosóficos. Os versos dele lêem-se quase como filosofia, embora o grafismo nos lembre que é poética.

Quase todos os temas da actual metafísica, separados ou poeticamente juntos, perpassam pelos poemas de Ferreira da Silva. Por exemplo, em “Evolução” é o tema heraclitiano da mudança no espaço e no tempo, que está de resto presente em quase todo o livro:

”E nenhuma existência é igual
Porque o tempo não se repete
Nem o espaço é o mesmo”.


Outro exemplo: os temas da matéria e do espírito surgem aliado ao das possibilidades, em “Limitações”:

“Ao Homem tudo é possível!
Excepto ultrapassar os limites da sua própria natureza.
Apenas o faz incompletamente,
Por ser matéria e espírito.”


No poemas “(I)Material” (repare-se na ambiguidade do título, que reflecte o facto de as grandes questões metafísicas não terem resposta), a escolha entre matéria e e espírito (não) é resolvida do seguinte modo poético:

“Matéria ou Espírito?
Que ténue dilema!”


Sobre o livre arbítrio, o poeta, em “Consciência (III)”, é menos ambíguo (e o meu eu, embora livre para discordar, concorda):

“O Eu é liberdade”.


O homem é parte do cosmos. Assim, o tema da possibilidade humana é integrado, em “Fluidez”, numa perspectiva mais vasta, onde assoma o determinismo darwinista:

”Nada é impossibilidade.
Tudo é possibilidade.
Tudo é evolução”
.

O poeta junta explicitamente o homem e o cosmos (o homem é em si mesmo um cosmos, que sempre se desejou imagem do cosmos!), ao falar, em “Meditação sobre a Morte (II)”, dos limites de um e de outro:

“O Universo não é infinito
O Homem também não”.


Mas o homem aspira ao infinito. E, num dos poemas de que mais gosto - “(Des) Conhecimento” (de novo a ambiguidade no título)– o poeta afirma uma atitude optimista face ao saber, que paradoxalmente está mais próxima do iluminismo do que do romantismo alemão:

“Então,
deveremos ousar
desvendar
os criptogramas
do infinitamente grande
e do infinitamente pequeno?”
(...)
Sem conhecer seremos infinito?”


Essa ideia de aspiração ao saber vem reforçada em “Ascensão”, outro poema de que gosto:

“Ascender!
Eis a essência.
Ou a necessidade!”


Se a metafísica está aqui intimamente associada à poética (uma tradição que em Portugal foi superiormente cultivada por Antero de Quental), a física também aparece. O poeta metafísico saberá que a física está antes da metafísica. E não deixa de ser curioso que ele, em “Estética”, coloque a ciência entre a arte e a religião:

“Arte,
ciência e religião
são grandezas numa dimensão superior”.


As relações entre ciência e religião levar-nos-iam longe e este prefácio já vai longo... O melhor é dar a palavra ao poeta, porque os poetas são os mestres das palavras.

Vicente Ferreira da Silva é, como o leitor já entendeu e estará desejoso por confirmar, um novo mestre das palavras, uma voz original na moderna poesia portuguesa. Diz-me quem citas, dir-te-ei quem és. Vicente Ferreira da Silva, num dos últimos poemas deste livro cita Ferreira da Silva. Mas não, não é auto-referência. O poeta é homónimo do filósofo brasileiro (1916-1963, faleceu precocemente num acidente rodoviário) a quem já chamaram “Sologaenger” dada a originalidade do seu percurso filosófico. O primeiro livro do filósofo brasileiro, escrito aos 22 anos, “Ensaios Filosóficos”, faz, curiosamente, referência a Novalis. Será só coincidência que o jovem Ferreira da Silva faça agora e aqui o mesmo?

Química Forense: o algodão não engana

A transmissão entre nós da série CSI, embora baralhando alguns espectadores que não sabem distinguir o que é real do que é ficção, teve o mérito de despertar o interesse de muitos para a química forense, que não passa de química analítica pura e dura. Omnipresentes em todos os episódios, estão os sprays sortidos que acompanham Gil Grissom e a sua equipa de detectives químicos a todos os locais de crime.

Um dos sprays que resulta muito bem em televisão é a solução de luminol utilizada para detectar vestígios de sangue, mais concretamente vestígios de iões ferro (da hemoglobina) que catalisam a reacção de oxidação de luminol. As próximas séries poderão contar com mais um destes sprays «mágicos» desenvolvido pelo cientista Joseph Almog, que contribuiu inúmeras armas para a luta contra o crime, como sejam o Genipin, o Ferroprint ou o Ferrotrace.

O Genipin é um derivado de um composto extraído do fruto da Gardenia jasminoides, a espécie nativa do sul da China e Japão que homenageia o botânico escocês Alexander Garden (1730-1791) e que Pierre Poivre introduziu na Maurícia, nomeadamente no Jardim Botânico de Pamplemousses. É igualmente um poderoso agente revelador de impressões digitais, que fluorescem brilhantemente no azul, especialmente se iluminadas com luz amarela, e que compete com a famosa exposição a super cola em que o vapor de etil-cianoacrilato libertado polimeriza por acção de lactato de sódio ou alanina, os principais componentes dos resíduos de impressões digitais.

Ferrotrace e Ferroprint, são o nome de outros sprays contendo piridildifenil triazina (PDT), que se pulverizados sobre as mãos de alguém que tenha estado em contacto recente com armas de fogo revela o crime com uma cor violeta.

O novo spray desenvolvido pelo cientista do departamento de Química Forense da Hebrew University em Israel, detecta nitrato de ureia, um explosivo caseiro muito utilizado por terroristas sortidos. Este derivado do cinamaldeído ou aldeído cinâmico - o composto que confere à canela o seu sabor e cheiro característicos - reage com o explosivo tornando possível a detecção de quantidades vestigiais de nitrato de ureia em qualquer superfície.

Na imagem, um algodão embebido na solução de para-dimetilaminocinamaldeído fica vermelho após contacto com o explosivo.

Preservação de anfíbios: uma luz ao fundo do túnel?


Como referi há um mês
, 2008 será o Ano Internacional da Rã, uma medida que visa alertar para a necessidade de medidas que evitem a extinção dos anfíbios, dos quais cerca de um terço das espécies conhecidas estava ameaçado em 2006.

O fungo Batrachochytrium dendrobatidis, causador da quitridiomicose, tem sido associado à extinção e ao declínio de espécies de anfíbios em várias regiões do mundo. Um grupo de investigação da Nova Zelândia declarou ontem ter encontrado uma possível cura para a doença, o cloramfenicol, um antibiótico de largo espectro hoje em dia utilizado apenas para tratar conjuntivites bacterianas.

Os cientistas decidiram publicitar a sua descoberta mesmo antes da publicação da mesma numa revista científica, dada a gravidade da situação que levou o presidente da Associação Mundial de Zoos e Aquários (WAZA) a compará-la à «extinção que dizimou os dinossauros do planeta».

Os cientistas banharam exemplares de duas espécies, Litoria ewingii e L. raniformis, numa solução do antibiótico e verificaram que não só os conseguiam curar completamente da quitrídia como o tratamento os tornava resistentes a novas infecções.

«Normalmente não esperamos que os antibióticos façam alguma coisa aos fungos. Mas fazem. Não percebemos porque razão o fazem, mas o que é certo é que isso acontece», comentou Russell Poulter, um dos cientistas que colaborou no projecto. Acrescentando que «tem a vantagem de ser incrivelmente barato».

Embora seja de facto barato, parece pouco provável que o tratamento agora descoberto possa ser utilizado fora de instalações veterinárias ou de investigação. De facto, o cloroanfenicol é uma substância completamente banida em todas as circunstâncias que possam resultar na sua ingestão pelo homem já que causa anemia aplástica, uma doença caracterizada por pancitopenia (déficite de glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas).

Por outro lado, Ana Carolina Carnaval, do Museu de Zoologia de Vertebrados da UCBerkeley e co-autora de um artigo sobre a rã-de-corredeira, Hylodes magalhaesi -uma espécie cujo habitat é a mata atlântica brasileira -, acredita que o fungo não é por si só responsável pelas extinções e declínio de populações observadas. De acordo com a cientista (artigo em formato pdf na revista Amphibian and Reptile Conservation), foi detectada quitridiomicose em populações que não estão em declínio, pelo que pensa tratar-se de um caso de sinergia entre a micose e outros factores, nomeadamente aumento de poluição, alterações climáticas, perda de habitat e demais alterações ambientais, opinião partilhada por outros herpetólogos.

O desaparecimento de anfíbios foi discutido pela primeira vez há quase 20 anos,no I Congresso Mundial de Herpetologia, realizado em Inglaterra, em 1989. Foram estabelecidas várias iniciativas que visam perceber as causas e dimensão desta catástrofe, como, por exemplo, a Avaliação Global de Anfíbios (GAA) ou a Rede de Análise de Anfíbios Neotropicais Ameaçados (Rana). Desde então, dezenas de espécies desapareceram e muitas mais encontram-se à beira da extinção (relatório de 2005 em formato pdf). A destruição de habitats é certamente uma causa não despicienda. Por esse motivo, mais que antibióticos, para salvar os anfíbios urge conservar esses habitats, principalmente os locais de reprodução.

O ATRASO PORTUGUÊS

O livro "Histórias da Luz e das Cores" de Luís Miguel Bernardo (Editora da Universidade do Porto, 2007) de que já aqui falei dá alguns bons exemplos do nosso atraso científico-tecnológico no século XIX.

Em 1876 Joaquim da Silva Albuquerque fazia provas para catedrático na Academia Politécnica do Porto e dizia:

"A perfeição do carácter científico que oferece a astronomia, da qual result a sua primazia entre as outras ciências naturais, procede de ser o seu objecto circunscrito a fenómenos geométricos e mecânicos, únicos conhecimentos que relativamente aos corpos celestes podemos explorar."

Pois. Mas a análise espectral de Kirchhoff e Bunsen já se usava desde 1860 para estudar as riscas do Sol...

Pouco depois, em 1894, Baltazar Ozório no seu livro "Função Chimica da Luz" previu o registo fotográfico das imagens do espectroscópio:

"O espectroscópio não disse talvez tudo, quanto a meu ver, dele se pode esperar. Se o associarmos à fotografia, então creio que serão muitas e inesperadas as suas revelações, tantos e etão singulares são os fenómenos que nos revelam as substãncias que a luz impressiona, tão variados e tão imprevistos."

A ideia parece boa. Mas é tardia. Esse tipo de fotografia já se fazia desde 1890 graças aos trabalhos de H. C. Vogel!

Mas há pior. A meio do século, quando já se discutiam as vantagens da iluminação eléctrica relativamente à iluminação a gás e se mostravam modernos sistemas de uma e de outra, dois fabricantes portugueses de velas de cera apresentavam os seus exemplares na Exposição Universal de Paris de 1855. Oliveira Pimentel, que foi reitor da Universidade de Coimbra, elogia no seu "Relatório sobre a Exposição" as velas expostas (as velas do Sr. Teixeira de Melo, de Lisboa, e do Sr. Santos, de Portimão, "que os não desonram"), mas comenta a respeito das velas portuguesas em geral:

"A fabricação das velas de cera no interior do reino é cada vez mais imperfeita em todos os seus pontos; o branqueamento, a forma e as torcidas chegam a ser ignóbeis, de sorte que estamos a este respeito quase selvagens."

O HOMEM INVISÍVEL




















Platão não será propriamente um autor de ficção científica mas em “A República”, linhas 359c-360d) introduziu um dos grandes temas da ficção científica: o homem invisível. Conta a história de um antepassado do rei Giges (c. 687-651 a.C.) da Lídia (uma região da Anatólia), que encontrou um anel mágico que o tornava invisível quando o colocava no dedo. Com o anel consegue entrar no palácio real, seduz a mulher do soberano e mata este para lhe tomar o lugar. Platão discute o tema, pela boca de Glauco, da justiça: “ninguém é justo por sua vontade, mas constrangido, por entender que a justiça não é um bem para si individualmente, uma vez que, cada um julga que lhe é possível cometer injustiças, comete-as” (estou a usar a tradução, publicada pela Gulbenkian, de Maria Helena da Rocha Pereira). O homem invisível julga-se impune.

O tema entrou na ficção científica com o escritor socialista Herbert George Wells (poucos sabem que passou em Sintra largo tempo e que escreveu sobre Portugal), que em 1897 publicou “The Invisible Man” (saiu uma tradução portuguesa em 1909 saída em "A Editora" de Lisboa e várias posteriores). Agora há um cientista que, em vez de um anel mágico, possui uma fórmula que produz num material um índice de refracção igual ao do ar, tornando o material invisível, e experimenta-a em si próprio. A história de Wells originou um filme que se tornou um clássico, “The Invisible Man”, de James Whale, 1933, e, embora a história tenha sido recriada, vários outros como um filme série B famoso por ser muito barato e muito mau, “The Amazing Transparent Man”, de Edgar Ulmer, 1960, e, mais modernamente, “The Hollow Man”, de Paul Verhoeven (o realizador holandês, o mesmo de "Desafio Total" e "Call Girls", tem como formação de base uma licenciatura em física e matemática na Universidade de Leiden), 2000. Curioso é que, tal como em Platão, os homens invisíveis se julgam impunes.

O tema entrou também na banda desenhada e na literatura juvenil. A rapariga do "Quarteto Fantástico" fica mulher invisível quando a nave em que voa o grupo é atingida por raios cósmicos (já no filme de 1960 a causa da invisibilidade era radiação). Os feiticeiros de Harry Potter dispõem de uma capa mágica que lhes confere invisibilidade.

Mas a ciência pode ser tão rica como a ficção. Em 2006 o prestigiado físico inglês John Pendry do Imperial College de Londres juntamente com colegas norte-americanos publicou na “Science” um trabalho em que anuncia a possibilidade real de invisibilidade usando metamateriais com propriedades ópticas especiais. O objecto ainda não foi feito mas quem sabe se um dia este tópico da ficção científica não vai mesmo tornar-se realidade...

A OPOSIÇÃO COMO CONDIÇÃO DE REGRESSO DA ESPERANÇA

Após ter explorado alguma informação para escrever o texto anterior, que, devo dizer, me impressionou pela linearidade, pela falta de aprofu...