domingo, 16 de julho de 2023

UM DIÁLOGO ENTRE EINSTEIN E FREUD QUE DEVERIA ESTAR NA MENTE DOS EDUCADORES

Finda a Primeira Grande Guerra, foi criada, em 1919, a Liga (ou Sociedade) das Nações, para que, por via da cooperação entre os povos, "nunca mais" acontecesse uma tão grande tragédia. Entenderam os seus membros que os intelectuais poderiam contribuir para tal propósito e, assim, constituíram, em 1922, a Comissão Internacional de Cooperação Intelectual e, nesse contexto, em 1925, em Paris, o Instituto Internacional de Cooperação Intelectual (IIIC).

Fotografia de uma reunião plenária do IIIC em 1920, ao fundo está Albert Einstein (aqui)

Em 1931, o IIIC convidou Albert Einstein para dialogar com quem entendesse sobre a possibilidade da paz. Escolheu Sigmund Freud, não porque estivesse rendido à psicanálise mas porque via o médico como o melhor interlocutor para abordar o mistério da natureza humana. A carta que escreveu a Freud e a carta que este lhe retribuiu foram publicadas em 1933 num pequeno livro que saiu em alemão, inglês e francês.

As cartas podem ser lidas, em inglês, no sítio oficial da UNESCO, sucessora das ditas organizações, a partir das ligações disponibilizadas.

Em Portugal foram divulgadas em pelos menos três livros, que integra, a par, outras peças de grande interesse: um, de 2007, é das Publicações Europa-América; outro, de 2018, é da Edições 70; e outro, de 2017, é da Cultura Editora. Deixei este para último porque é o que aqui sigo. 

Felipe Pathé Duarte, Licenciado em Filosofia pela Universidade de Coimbra, especialista em geopolítica e segurança internacional, seguindo a estrutura das peças de teatro, faz preceder as missivas de um ensaio com o sugestivo título: "A natureza da guerra em três atos". 

Contextualiza e explica os textos; recua e avança tanto no tempo como no espaço, justificando a sua universalidade e intemporalidade; deixa referências bibliográficas centrais para quem queira saber mais. Em suma, torna vivo um diálogo que poderia sair da escrita de duas outras personagens da mesma craveira.

Deixo, de seguida, um breve apontamento sobre as ditas cartas.

Em 30 de Junho de 1932, Einstein perguntou muito directamente a Freud “Existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça da guerra? (...). Será possível controlar a evolução mental do homem de forma a torná-lo imune às psicoses do ódio e da destruição?”.

Desafia o interlocutor a explicar, tendo em conta o seu conhecimento da mente humana, se se pode afastar dela os piores sentimentos, sempre ligados à vontade de poder, aqueles que incompreensivelmente conduzem ao sacrifício da própria vida. Não se limitando à questão, avança uma proposta: criar uma instância internacional capaz de gerir os conflitos que surjam entre países e regiões.

A longa resposta de Freud, em Setembro de 1932, é que os homens, tal como os outros animais, tendem a resolver os conflitos por via da violência. São os elementos civilizacionais que podem estabelecer uma ordem alternativa. Explica que no ser humano se debatem duas tensões: as de morte e destruição e as de vida e preservação. É nestas últimas que a sociedade precisa de se concentrar, reforçando as relações humanas, valorizando a cultura.

Einstein põe a tónica na construção de uma maneira de viver "simples e calma", pois é ela que "traz mais felicidade do que a procura do sucesso num desassossego constante"; Freud afirma que "tudo o que promove o desenvolvimento da cultura também trabalha contra a guerra". Ambos põem a tónica no reforço e promoção daquilo que, como espécie, conseguimos construir de melhor.

Como se sabe, o mundo cairia em breve na Segunda Guerra Mundial e também a seguir a ela se afirmou "nunca mais". As organizações acima mencionadas reformularam-se dando origem a outras; intelectuais foram desafiados a resolver o enigma: como é possível o pior do ser humano despontar onde a cultura é mais refinada? Valerá ela de alguma coisa no propósito de pacificação? Feitas as contas, nas quais se inclui a realidade presente, seremos tentados a dizer que não. Ainda assim, precisamos de ter em mente o repto de Einstein e de Freud: não deixar de perguntar e fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para "trabalhar contra a guerra".

Tal como eles, continuo a pensar que a educação é uma possibilidade poderosa, ainda que não seja a única. Por isso, o diálogo que travaram deveria ser lido e ponderado pelos educadores.

sexta-feira, 14 de julho de 2023

A "INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER" E MAIS ALÉM

Arrisco dizer que o nome do escritor checo Milan Kundera se associa, imediatamente, a um livro: A insustentável leveza do ser. Outros dele virão à nossa mente, mas depois deste. É um livro magnífico: num cenário de totalitarismo, faz fluir a realidade e comprime-a, trata o compromisso a par do desprendimento, anda entre a pequena alegria e a profunda tristeza. Enfim, trata da vida e o título diz muito dela.

Foi este livro que me levou a outros do ainda jovem escritor que, pela persistência no exercício da liberdade, se exilou em Paris. A vida não é aqui foi um deles, um livro em que a prosa e a poesia se tocam de modo muito particular.
"Só o verdadeiro poeta sabe como é triste viver na casa dos espelhos da poesia. Do outro lado do vidro, há o crepitar do tiroteio, e o coração anseia pela partida (...). Mas atenção! Assim que os poetas atravessarem por engano os limites da casa dos espelhos, deparam-se com a morte, porque não sabem disparar, e se disparam, atingem a própria cabeça" (página 271 da edição portuguesa, indicada ao lado).

Esta nota deve-se, como o leitor terá percebido, ao recente falecimento de Kundera. A sua vida foi (felizmente) aqui.

quinta-feira, 13 de julho de 2023

O MEU VIZINHO JOSÉ MATOSO

Por Eugénio Lisboa

Durante alguns meses, o historiador José Matoso, já então coberto de justa glória, mas tendo deixado de escrever, devido à Parkinson, que o afligia, já em estado de algum avanço, foi meu vizinho, aqui em S. Pedro do Estoril. O seu apartamento ficava do outro lado da rua, mesmo em frente ao meu. Mas onde coincidíamos era no restaurante, com frente para o mar, a dois passos dos nossos apartamentos. Nele oficiava (e ainda oficia) o Sr. Soares, sempre atencioso, cavalheiresco e amistoso, mas discreto. Uma verdadeira mais valia para o burgo e, em especial, para os seus assíduos clientes.

Da primeira vez que lá vi José Matoso, logo o reconheci: a sua figura austera mas não inamistosa era inconfundível. Fiquei num dilema: gostaria de lhe falar, por todas as razões, mas até para lhe dar as boas vindas de vizinho. Mas fui sempre tímido, no que diz respeito a aproximar-me de gente famosa, não fosse isso parecer-se com incómoda bajulação. Mas José Matoso, na sua grande simplicidade, facilitou-me as coisas: foi ele quem se aproximou de mim, perguntando se podíamos almoçar à mesma mesa. Disse-lhe que seria, para mim, um privilégio. Mostrou conhecer-me e eu nem precisei de dizer que o conhecia… E começámos a nossa conversa, que se prolongou por inúmeros almoços, até que um dia ele desapareceu – levado, disseram-me, por um familiar, para ser melhor cuidado. 

José Matoso recortou, no período do nosso convívio, a figura inesquecível de um homem de uma simplicidade natural, que nenhum prestígio pessoal seria capaz de corromper. Para ele, ser simples e humilde, era como respirar. Embora evidenciasse, por essa altura, uma certa dificuldade em articular, com clareza, as palavras, prosseguia, com galhardo empenho, a conversa. Quando queria saber ou compreender, perguntava, com aquela inocência pura das crianças. Nunca o vi puxar pelos galões do seu imenso valor e prestígio, como grande historiador. Era um sábio que não sabia ser uma prima-dona. Infundia respeito sem infundir distância. O seu modo de falar, sereno, suavemente probatório, recordava-me o grande Físico Niels Bohr, o qual avisava que tudo quanto ele dissesse devia ser tido como uma pergunta e não como uma afirmação.

Quando José Matoso me questionava sobre qualquer livro, eu confesso que receava sempre dar-lhe uma resposta demasiado assertiva, mesmo quando me apetecia muito fazê-lo. A trapacice sempre me induziu mau sangue, mas, diante da serenidade budista daquele sábio, sentia-me inibido. 

Ao saber agora do seu falecimento, há muito esperado, senti, como em poucos casos, que se tratava de uma perda. Ficam as obras, os discípulos e os sempre necessários opositores. Um enorme legado.

Eugénio Lisboa

terça-feira, 11 de julho de 2023

ULYSSES DE JOYCE EM DUAS CRÓNICAS

Por Eugénio Lisboa 

Duas curtas crónicas, antes publicadas na revista LER, que agora juntei numa só, sobre o tão academicamente badalado James Joyce.

I

Como quase toda a gente – há excepções! – tenho-me enganado. Mais precisamente, tenho-me deixado enganar. O que nem chega a ser grave: dizia alguém que o homem que não comete erros também, de uma maneira geral, não comete coisa nenhuma.

Estou, como não é evidente, a falar de Joyce. 

Para ser franco, achei-o sempre um bocado sobre o “ftirioso” (de phthirus pubis, isto é, “chato”). Uma das maiores estopadas da minha vida foi assistir, num cinema de Londres, em fim de tarde de inverno, à exibição do filme Ulisses, de Joseph Strick, baseado na obra do mesmo nome, de Joyce. Éramos quatro – eu, minha mulher, o meu amigo Carlos Adrião Rodrigues e a mulher: fizemos, os quatro, uma das grandes sonecas da nossa vida. O filme, como o tão alardeado livro que lhe esteve na origem, era soberana e ultrajantemente chato (de phthirus pubis, recorde-se). 

Mas quando eu era novo, era tímido: quem era eu, para me opor a todos os veneráveis escritores e eruditos que promoviam Joyce como um dos três ou quatro indiscutíveis GRANDES do século XX? (De SEMPRE!). Como diria o Eça, curvei o espinhaço. Não gostava, mas não me atrevia. Não dizia que não nem que sim (era cauteloso mas não mentiroso): calava-me, com ar hipocritamente respeitoso: Joyce, claro!

Depois, um dia, achei que era melhor deixar-me de hipocrisias e adoptar o franc parler tão caro ao meu grande Stendhal. Pus-me a “testar” os meus amigos: quando, timidamente, circunvolutamente, se punham a entaramelar o que não pensavam de Joyce, eu interrompia-os de cofre com um “Que grande chato!” O resultado da minha iconoclastia era esplendoroso: o supremo alívio que se reflectia naqueles rostos macerados! Enfim, alguém se atrevia a dizer o que eles também, muito secretamente, pensavam! Que fardo tirado de cima dos seus frágeis ombros!

Mas sentia-me só. Não haveria, entre os grandes cognoscenti, quem estivesse de acordo comigo? 

Até que, há dias, lendo umas deliciosas e sempre provocantes entrevistas de Jorge Luis Borges, dei com algumas passagens que me restituíram a auto-estima. Borges começava por insinuar que era a sua grande admiração por Cervantes que lhe obstruía por completo a adesão ao irlandês. Depois, ia mais longe e afirmava: “Joyce é uma espécie de curiosidade literária, um pouco como Góngora”. E acrescentava, profusamente, para não deixar saídas de segurança: 
“Porque Joyce é um literato como Góngora e Quevedo. Talvez Cervantes fosse muito diferente e superior. De resto”, concluía, “a comparação é impossível, porque ele era romancista e Joyce não. O talento deste último, como o de Góngora, era verbal, mais aplicável a composições breves do que a um romance longo (…..). O erro de Joyce foi o de dedicar-se a escrever romances. Deste modo, conseguiu frases esplêndidas, mas não criou personagens.” 
Isto já era suficientemente forte, em termos de consignar uma boa parte da obra do escritor para o cesto dos papéis, embora, até aqui, Borges preservasse as boas maneiras e não se atrevesse a uma execução sem apelo. Mas, mais adiante, não esteve com meias medidas e concluiu assim: “Ulisses e Finnegan’s Wake [são] autênticos malogros.” 

Quanto a este último romance, a minha opinião é mais benigna: não se trata sequer de um romance – não foi isso que empreendeu o escritor – mas de um daqueles saudosos “hieróglifos comprimidos”, que inundavam as páginas do antigo Almanaque Bertrand

Para me sentir mais amparado – Borges é um magnífico amparo, mas a sua verve de gamin pode parecer, a alguns, pouco respeitável – fui procurar outras bengalas e elas surgiram em barda: afinal, não estava assim tão só! 

Hoje fico-me pelo grande dramaturgo George Bernard Shaw, insuspeito porque até é também irlandês: “Na Irlanda”, diz o autor de Pigmalião, “tentam limpar um gato, esfregando-lhe o nariz na própria imundície. O Sr. Joyce tentou o mesmo tratamento com o ser humano. Espero que prove ter êxito.”

II

Pois é, Joyce. Antes falei da minha prolongada inibição em relação à esmagadora aura de Joyce. Todo o mundo que se prezava lhe reconhecia grandeza e até uma grandeza muito especial: Joyce seria, pelos vistos, uma espécie de monstro esplendoroso e magnificamente solitário – ninguém que lhe fizesse sombra, mesmo uma sombra recatadamente modesta. Erguia-se, na paisagem literária, grande, imponente e só. Ora eu achara-o sempre – sem grande coragem para confessá-lo – um chato árido e irredimível.

Durante muito tempo, curvei-me ao consenso. Depois, indignado com a minha própria cobardia, rebelei-me. Afrontaria, sozinho, se necessário, a avalanche consagradora daquele bizarro “génio” irlandês. Mas eis que vim a descobrir que, afinal, não estava assim tão irremediavelmente sozinho. Outros, entre fauna bem eminente, também rejeitavam – e em termos bem enfáticos – a grandeza do autor de Ulysses. E alguns iam mesmo ao ponto de caçoarem desbocadamente com as picardias hieroglíficas do Finnegan’s Wake

O diletante V. Ernest Cox, por exemplo, dedicou a este livro mais ou menos ilegível os seguintes versinhos maliciosos, que eu me dispenso de traduzir:
“Finnegan’s Wake
Is one long spelling mistake
With not a lot
Of plot.”
Plot, coitado, não era o forte de Joyce. Nem a criação de verdadeiros personagens. Manipulações linguísticas, vá. Mas à quoi bon

O super-intelectual Aldous Huxley também não foi macio para o bardo prosador do Ulysses. Ei-lo: 
“Nunca tirei grande coisa do Ulysses. Penso que é um livro extraordinário, mas uma tão grande parte dele consiste em demonstrações demasiado compridas de como um romance não deve ser escrito, não é verdade?” 
David Herbert Lawrence, o autor de Sons and Lovers, que ninguém se lembraria de acusar de puritanismo, demite o desgracioso irlandês, atribuindo-lhe apenas 
“citações da Bíblia e do resto, tudo cozinhado no molho de uma deliberada e jornalística sujidade mental.” 
Não se pode dizer que Lawrence tenha sido suave… 

Por outro lado, o conhecido romancista inglês Malcolm Muggeridge despacha também, em poucas e decisivas palavras, o congeminador de Finnegan’s Wake
“Considerado como um livro… Finnegan’s Wake deve ser pronunciado um autêntico fiasco.”
“Considerado como um livro”, diz Muggeridge, o que significa que talvez pudesse ser avaliado noutra qualquer categoria: hieróglifo, jogo linguístico, brincadeira para cabeçudos sem sentido de humor. 

Evelyn Waugh, génio do cómico da literatura inglesa, também não mede as palavras. Ei-las:
“Experimentação? Deus não o permita. Olhem para os resultados da experimentação, no caso de um escritor como Joyce. Começou por escrever muito bem, depois podemos vê-lo a enlouquecer, de vaidade. Acaba completamente lunático.”
Poderia aqui citar outros testemunhos de gente egrégia: Virginia Woolf, por exemplo
(“Nunca li tanto disparate” ou ainda: “A indecência do Sr. Joyce no Ulysses parece-me ser a indecência calculada e consciente de um homem desesperado que é de opinião que, para poder respirar tem de quebrar as janelas. Por momentos, quando a janela se quebra, ele é magnificente. Mas que desperdício de energia!"),
entre vários outros.

Mas não quero atravancar o leitor com tanta artilharia anti-Joyce. Embora não resista a terminar, registando aqui o juízo benevolente, mas enviesadamente demolidor, do juiz americano John Woolsey, que decidiu, nestes termos, permitir a circulação do Ulysses nos Estados Unidos:
“A minha considerada opinião, após longa reflexão, é a de que, embora em alguns pontos o efeito de Ulysses sobre o leitor pudesse ser o de lhe provocar vómitos, em lugar nenhum tenderá o livro a mostrar-se afrodisíaco. Ulysses pode, portanto, entrar nos Estados Unidos.”

Eugénio Lisboa 

segunda-feira, 10 de julho de 2023

OS MORNOS

Por Eugénio Lisboa
 
No último volume do seu admirável DIÁRIO, Miguel Torga lembra-nos o que, no APOCALIPSE, Deus diz dos mornos. Torga nunca foi num morno: teve sempre arestas e não evitou as confrontações. Deus (que não existe) jamais o vomitará. Mas os estrategas da glória, sempre a pensarem em Academias e praias sossegadas, sempre com medo de se queimarem, esses serão por certo vomitados e o vómito não será nem bonito nem bem cheiroso. 

Quem crê diz que Deus vomita os mornos,
os que estão bem com toda a gente
e que, não tendo arestas nos contornos,
bem se anicham entre frio e quente.

Ser morno é não arriscar tomates,
é não pisar nunca linha vermelha.
É que ser morno é ser tatibitates
e é, em vez de vinho, beber groselha.

Receita: quem tem medo compra um cão
ou, na falta de cão, arranja um gato.
Pró pobre morno, qualquer emoção

perturba-lhe muito um viver pacato.
O aquecimento entre quente e frio
não dá ao morno arrepio de cio!

Eugénio Lisboa

domingo, 9 de julho de 2023

A INEVITABILIDADE DO ÊXITO: SONETO DE ESCÁRNIO E MALDIZER

Dizia Robert Benchley ter vivido
quinze anos, sem se aperceber 
de quanto o seu talento era encolhido,
tratando-se da arte de escrever.

Mas tendo-o descoberto já tão tarde,
quando já se tornara tão famoso,
seria tornar-se muito covarde
ficar demasiado ocioso!

Aos nossos jovens turcos sem talento,
a quem a glória tenha visitado,
recomendo que não percam o alento!

O renome, uma vez conquistado,
não há nunca forma de o perder:
a caca do famoso é pra vender!

Eugénio Lisboa

COMO É QUE OS SISTEMAS EDUCATIVOS INTEGRAM O PENSAMENTO CRIATIVO NAS ESCOLAS? MAIS UM RELATÓRIO DA INCANSÁVEL OCDE

Mão amiga enviou-me a ligação para mais uma publicação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) derivada do PISA in Focus (ver aqui). 

Confesso que não visitava há alguns meses o sítio online desta organização no respeitante ao seu Programa de Avaliação Internacional dos Alunos. Mas ela não pára e, portanto, a visita que agora fiz tem o sabor do pecado. Devia estar a par e não estava!

Objectivamente, esta publicação, muitíssimo sintética, tem a assinatura de uma consultora da organização e de um analista de um dos seus departamentos (Centre for Educational Research and Innovation - CERI), tem por base o PISA 2022, foi publicado há menos de um mês e informa-nos que "o pensamento criativo é importante". Sim, claro! E que, nessa medida, é
incluído "entre as principais habilidades que os empregadores valorizam e quando os alunos pensam de forma criativa, a sua motivação para aprender aumenta e a sua aprendizagem torna-se mais profunda, facilitanto a transferência. 
À medida que os sistemas educativos reconhecem o papel fundamental que a educação pode ter no desenvolvimento de habilidades de pensamento criativo, a questão é: que políticas são precisas para garantir que todos os jovens tenham oportunidade de as desenvolver? Até que ponto os sistemas educativos apoiam os alunos e os professores na implementação de ambientes de aprendizagem onde o pensamento criativo pode florescer?"

Ficamos a saber que Portugal não fica bem nesta fotografia em nenhum recanto do sistema... 

Não faço, neste apontamento, comentários nem à publicação nem a estes resultados porque a distância entre o entendimento de pensamento criativo aqui em causa e o que tenho em mente é tão pronunciada que precisava de larguíssimas horas para a organizar e explicar. Tentarei, contudo, voltar a ela em apontamentos próximos.

sábado, 8 de julho de 2023

OS AMANTES DA HUMANIDADE

Os homens que amam a humanidade
detestam as pessoas, uma a uma.
Esse amor convive bem com crueldade
e vive, hirto, em penosa bruma.

O amor abstracto é confortável,
porque tem muito poucas exigências.
É um amor frio e pouco afável,
que não se desgasta em minudências.

É amor distante e algo sinistro,
incapaz de um orgasmo verdadeiro.
É um despacho seco de ministro,

um amor que ao amor é estrangeiro.
Amar a humanidade, em geral, 
é um amor castrado e doutrinal. 

Eugénio Lisboa

A tremer, chorar tanto

A tremer, chorar tanto.

A tremer, olhar o rio

Antes de olhar o pranto.


Ângelo Alves

quinta-feira, 6 de julho de 2023

DA MUI ANTIGA ARTE DA DESLEITURA

Por Eugénio Lisboa

Dedico este texto aos meus assíduos desleitores.

Uma das competências que as escolas e até as universidades deviam dar aos alunos que as frequentam seria a da leitura. Saber ler um texto é uma competência essencial, na vida.

Infelizmente, a maioria dos estudantes sai das escolas e muitos deles das universidades, com diploma em riste, evidenciando uma total incapacidade de interpretar correctamente um texto. 

Saber ler um texto serve a professores, médicos, juízes, engenheiros, enfermeiros, biólogos, astrónomos, informáticos, mecânicos, electricistas, empresários, serve, em suma, a toda a gente, nos mais diversos caminhos da vida.

Porém, quando lemos jornais, livros, comentários nas notórias redes sociais, pasmamos com a manifesta iliteracia da assim chamada geração mais qualificada de sempre.

O mais grave é que tal iliteracia roça, muitas vezes, pela mais rotunda boçalidade. Muita desta gente que não sabe ler um texto muito claro mostra um total desrespeito por quem sabe, reagindo com os mais destemperados dislates, nos palcos mediáticos que lhes são oferecidos e que se tornam verdadeiros focos infecciosos de desinformação e de deseducação.

O espectáculo é simplesmente assustador, mas nós lá vamos, cantando e rindo, exibindo uma aparatosa e cintilante estatística de diplomas e conquistas académicas. Cada um consola-se como pode e com o que tem… 

Tenho tido uma vasta, triste e dolorosa experiência de assédio, às vezes ideológico, outras vezes, simplesmente inepto e grosseiro, outras vezes, ainda, as duas coisas ao mesmo tempo, sendo raríssima a cara lavada de um comentário minimamente asseado. 

Faz pena, porque é um retrato muito claro de uma suposta elite, o qual não augura nada de bom para o futuro do desenvolvimento deste país, no concerto das nações europeias. Reage-se a uma sátira, como se fosse um texto erudito, analisa-se um soneto como se fosse um ensaio ideológico, arrasa-se boçalmente um texto, do mesmo passo que se revela uma aflitiva ignorância do assunto que o texto glosa, enfim, uma paisagem de grosseria contentinha e de ignorância que se ignora.

A desleitura é quem mais ordena. Mas há mais grave: a desleitura é, muitas vezes, enviesada e usada como torpe arma de difamação. Com uma total falta de escrúpulos, reveladora de que se trata provavelmente de executar uma “ordem de serviço” dimanada de algum departamento com uma missão a cumprir. 

Tudo isto é muito mau, muito vil e muito feio. Neste milieu cheio de miasmas, a elegância é quem menos ordena. 

Sem educação e sem educação cívica (que alguns pais rejeitam), a nossa sociedade evolui assintoticamente para um futuro paraíso de selvagens, como aquele que retratou o grande Melville numa das suas narrativas.

Eugénio Lisboa

O debate sobre o uso de telemóveis na escola não está encerrado, muito pelo contrário

Por Cátia Delgado 

Depois da Dinamarca e da Suécia tomarem medidas governativas com vista à redução do uso da tecnologia digital nas escolas, noticia-se, agora, a proibição prevista para o uso de telemóveis na sala de aula, na Finlândia e nos Países Baixos (ver aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).

Assumindo que estes dispositivos perturbam a aprendizagem, o principal objetivo é “limitar as distrações dos alunos durante as aulas” e, com isso, reverter a tendência de descida de notas. 
"Apesar de os telemóveis estarem interligados com as nossas vidas, o seu lugar não é na sala de aula",  
afirma o ministro da Educação holandês, Robbert Dijkgraaf. E continua:
"Os alunos precisam de ser capazes de se concentrar e precisam de ter a oportunidade de estudar bem. Os telemóveis são uma perturbação, como demonstram os estudos científicos. Temos de proteger os estudantes contra isso."
Refere-se, ainda, que outros países, como Inglaterra e França também já propuseram
“a proibição de telemóveis para melhorar a aprendizagem dos alunos.”
Em Portugal, a petição “VIVER o recreio escolar, sem ecrãs de smartphones!”, que colocou o tema na agenda das mais diversas instâncias envolvidas, governos, escolas e famílias, já com mais de 18.000 assinaturas, levará o debate à Assembleia da República, contando com uma proposta do Bloco de Esquerda para limitar o uso de telemóveis, em contexto escolar, por crianças dos 1.º e 2.º ciclos de ensino. No entanto, esta proposta só poderá ser pensada num âmbito mais alargado, pois as escolas que os alunos do 2.º ciclo frequentam albergam, igualmente, alunos do 3.º ciclo, não podendo, estes, ficar de fora do que for decretado.

Esta e outras questões estiveram em discussão no Fórum TSF do passado dia 30 de junho, com o título “Temos um problema com o uso excessivo de telemóveis pelas crianças?”, contando com o esclarecimento de duas especialistas na aprendizagem, cognição e memória, as Professoras Célia Oliveira e Joana Rato, assim como com os pareceres do presidente da Associação Nacional de Diretores Escolares e de um representante da CONFAP (Confederação Nacional das Associações de Pais).

terça-feira, 4 de julho de 2023

FINIS AMICITIAE

O pior de uma amizade que acaba
é vermos o metal de que era feita.
Com o fim dela, um mundo desaba
e o que se aprende não aproveita.

As fundações daquilo eram falsas,
a ternura era só investimento.
As palavras ternas dançavam valsas,
que tinham, depois, facturamento.

Numa amizade semeamos tanto!
Ela é como se fosse uma casa,
cheia de tesouros e de encanto.

Descobrir que ela é falsa arrasa:
o que foi grande e bom e já não é
desvela, em nós, um morto em pé. 

Eugénio Lisboa

UMA SINGELA HOMENAGEM AO PROFESSOR NUCCIO ORDINE

Disponibilizo aqui a ligação para o mais recente texto que escrevi para o Ponto SJ - Portal dos Jesuítas Portugueses. É uma singela homenagem a alguém que, com a sua voz, renovou a esperança na educação, na escola, nos professores e, por inerência, no mundo, na humanidade. É dever dos que se têm por educadores não deixar apagar esta voz e outras que, como ela, abrem uma fresta da janela que dá para o conhecimento que nos permite pensar livremente.


segunda-feira, 3 de julho de 2023

MAIS NOVIDADES DA GRADIVA

Título | Diário Mínimo
Autor | Umberto Eco
Obras de Umberto Eco
Páginas | 200 pp. PVP | 13,50 €

Uma edição que compila as melhores crónicas de Umberto Eco publicadas na revista Verri. O célebre semiólogo italiano revela-se neste divertido Diário Mínimo como um articulista esplêndido, um contador de anedotas, um interlocutor espirituoso e um amante do riso. Com perspicácia e erudição, oferece uma selecção de textos nos quais, recorrendo à ironia crua e aos pastiches, disseca com desassombro o mundo académico, as bizarrias do quotidiano, o labirinto da burocracia e até o design de certos objectos.

MAIS INFORMAÇÃO AQUI | Diário Mínimo (gradiva.pt)

Título | Os Amores de Zeus
Autor | Luc Ferry
Colecção | A Sabedoria dos Mitos | Gradiva BD
Páginas | 64 pp. PVP | 20,99 €

Um novo volume de colecção A SABEDORIA DOS MITOS COLECÇÃO CONCEBIDA E ESCRITA POR LUC FERRY.

Uma colecção que torna possível conhecer as grandes narrativas gregas em bandas desenhadas que respeitam os textos fundadores originais, enriquecidas por dossiers complementares que analisam o significado filosófico e a herança cultural de cada mito.
Após ter derrotado as forças do Caos e ascendido ao trono do Olimpo para fazer reinar a harmonia no Cosmos, Zeus negligencia a sua mulher Hera e multiplica as conquistas. Sedutor inveterado, o rei dos deuses não olha a meios para alcançar os seus fins: metamorfoses, manipulações, ardis vários... Deusas ou ninfas, ou até simples mortais, foram muitas as que cortejou, desejou, por vezes perseguiu, e que lhe deram uma numerosa prole. Mas, além do prazer carnal, as infidelidades do senhor do Olimpo são também com frequência estrategicamente calculadas: encontramos assim, entre os seus muitos filhos, heróis míticos como Héracles e Perseu, que o ajudarão na sua missão de pacificar o universo.

MAIS INFORMAÇÃO AQUI | Os Amores de Zeus (gradiva.pt)

Título | Flores Guardadas no Chão das Pedra
Autora | António Oliveira e Castro.
Fora de Colecção
Páginas | 243 pp. PVP | 14,90 €

O passado, esquecido das consequências, plantou as raízes da destruição da Natureza. Quem acreditaria que as chuvas se tornariam memória? Que a sede se satisfaria no líquido barrento que se oferecesse às mãos em concha? Que os solos áridos se revoltariam contra a sobrevivência? No meio que um mundo que o Homem transformou em meio mundo, o futuro, esquecido das promessas, abeirou-se do precipício. Do todo ao quase nada que restou, viram-se as pessoas envoltas na loucura de sobreviver adicionando desumanidade ao que estava já para além dela. Para escapar da prisão física ou ao cárcere da mente, uma réstia de pensamento poético. Um livro que não deixará ninguém indiferente. Forte. Compulsivo. Perturbador.

MAIS INFORMAÇÃO AQUI |   Flores Guardadas no Chão das Pedras (gradiva.pt)
Título | Cortés, Vol. 1 | A Guerra de Duas Faces
Autor | Cédric Fernandez e Christian Chavassieux
Colecção |Gradiva BD
Páginas | 72 pp. PVP | 20,99 €

No início do século XVI, as dívidas acumuladas pela coroa espanhola levaram Carlos V a lançar novas expedições ao coração do Novo Mundo. Para esta missão, foi nomeado o mais louco, ousado e ambicioso dos fidalgos de Cuba: Hernán Cortés. A algumas centenas de quilómetros de distância, na capital de Tenochtitlán, o imperador Montezuma II toma conhecimento, sem surpresa, da chegada destas tropas estrangeiras em navios. Ele sabe que o encontro é inevitável, mas há elementos que lhe escapam. Estes estranhos aventureiros não são suficientemente numerosos para constituírem uma ameaça. Então, o que querem eles? Como deverá lidar com eles quando finalmente os encontrar?
No primeiro dos dois volumes de Cortés, a história da conquista do Império Asteca pelos conquistadores da coroa espanhola. Na sua narrativa, Cédric Fernandez e Christian Chavassieux equilibram os pontos de vista e expõem tanto os contratempos de Cortés como as dificuldades do imperador asteca em manter a ordem e a serenidade no seu território.

MAIS INFORMAÇÃO SOBRE O LIVRO AQUI | Cortés, Vol. 1 (gradiva.pt)

NOVIDADES DA GRADIVA: "Emoção artificial" de Jorge Gomes Miranda

  "Emoção Artificial", de Jorge Gomes Miranda.

Emoção Artificial de Jorge Gomes Miranda
– Novidade – Já disponível.

Um livro absolutamente original em que o autor, uma das mais relevantes vozes poéticas portuguesas surgidas nos anos 90, se interroga acerca do lugar da inteligência poética e das outras inteligências humanas face à inteligência artificial. Reunidos em torno de dois eixos –  o da inteligência artificial e do algoritmo – todos os poemas do livro perseguem e questionam criativamente estas duas noções e realidades que já moldam e moldarão a vida de todos nós.

Observadores do homem no tempo presente e prenunciando um incerto mundo novo, muitos dos personagens da obra — robots com envolvimento imaginativo e emocional com os humanos - interpelam o leitor para esta distópica possibilidade:
> e se no futuro os robots forem mais emotivos, compreensivos do que os próprios humanos?
> chegaremos um dia a dizer que um humano precisa de um robot, do mesmo modo que hoje sentimos que um humano necessita a seu lado de outro humano?

Em movimento o livro exploratório
navegando por oceanos e galáxias
observatório de perguntas retransmissões
e não um deserto de certezas deserções
 
imagens perscrutando perseguindo
um sentido por vir múltiplos canais
religando restituindo trilhos, traços
restaurando rostos, rastos, sinais

revivendo percepções, erros, diferenças
metamorfoseadas pela experiência dos anos
projectando o incerto, a beleza, a dissidência
a imprevisibilidade e o imperfeito humanos.

in Emoção Artificial, Jorge Gomes Miranda, Gradiva, Maio, 2023.
Já disponível: "Emoção Artificial", de Jorge Gomes Miranda. De €16,50 por €14,85.

Inteligência Artificial e Algoritmo - Livros para pensar o tempo e os desafios que já experimentamos.

As questões levantadas pela inteligência artificial e pela utilização de algoritmos transportam novos desafios a diversos níveis e exigem a reconfiguração do mundo tal como o conhecemos até agora. As dimensões ética, económica, política, estética, jurídica, filosófica e psicossociológica requerem uma nova refundação e ganham contornos diversos face às possibilidades que aquelas duas realidades já puseram em marcha.

A reflexão sobre este novo contexto começa agora surgir sob a forma de alguns livros que pensam este novo tempo que habitamos. A Gradiva, à semelhança do que tem feito nas áreas de pensamento em que mais publica - a começar pela ciência, a filosofia e a história - tem vindo a editar um conjunto de obras que respondem a esta premente necessidade de reflexão.

Também nos domínios do romance e do texto poético começam a surgir livros que questionam do ponto de vista artístico, aquilo que esta crescente digitalização do quotidiano traz de novo a campos tão subtis como a sensibilidade e a inteligência humanas. Aqui ficam as nossas sugestões de leitura.


Outras leituras sobre o tema disponíveis aqui!

Triste papel o que se atribui ao professor como fornecedor de recursos e como recurso


Um director de uma escola de ciência e tecnologia pronuncia-se sobre a educação do futuro (quem o não faz?). A sua visão será mais tecnológica mais do que científica, e esta não chega às ciências que esclarecem a aprendizagem, nomeadamente à psicologia. Além disso falta-lhe, de base, uma reflexão de ordem filosófica acerca da essência e dos fins da educação. É comum! (ver aqui entrevista de Inês Dias, publicada no Diário de Notícias de dia 2 de Julho).

À pergunta:
Tendo em conta a digitalização no ensino, na sua perspetiva como será o futuro da educação?

Responde: 

(...) Se regressarmos atrás seis meses, quando estas novas tecnologias começaram a emergir, todos disseram que seria um pesadelo, um problema, e que destruiria o pensamento crítico. No entanto, hoje em dia muitos professores já estão a começar a perceber que não há qualquer impedimento em os estudantes utilizarem estas ferramentas, apenas têm de aprender a usá-las da melhor forma e a referenciá-las nos seus trabalhos. 

Tem razão, directores escolares e professores, impulsionados pela transição digital, têm-se mostrado grandes entusiastas do uso das mais novas tecnologias para... tudo! A lógica não é: temos este problema, vamos procurar solução. É, antes: se é inovação temos de a usar, até porque se não o fizermos "ficamos de fora". O medo de ficar de fora (Fear of Missing Out - FOMO) faz milagres!

Não percebi bem a continuação da entrevista, mas destaco duas passagens que me parecem valer por si:

Por exemplo, podemos pedir aos alunos para escrever uma simples palavra corretamente. Mas, se os computadores já o fazem por nós (...) Quando as calculadoras foram apresentadas, saber o que multiplicar passou a ser mais importante do que ser capaz de fazer contas.

Argumento nada novo e que parecerá razoável para legitimar a supressão de algumas aprendizagens: se há calculadoras, para quê ensinar a tabuada e fazer contas?! Se há há correctores automáticos de palavras, para quê ensinar a escrever sem erros?! Se há programas que "compõem" textos argumentativos para quê ensinar a escrever texto argumentativo?! Etc.

E não falta o argumento TINA (There is No Alternative):
Não há forma de trabalhar contra estas tecnologias. Portanto, há que ser progressivos e apoiar o uso de IA na educação.

E, claro, surge a declaração de que o professor não pode continuar a ensinar do mesmo modo porque... as tecnologias mudaram! O professor não vai à procura das tecnologias se entender que o deve fazer, são as tecnologias que o obrigam a mudar...

É importante mudar a forma de ensinar, de maneira a que seja irrelevante se um estudante usa esta ferramenta ou não. 

Mas, paradoxalmente, segue-se o clássico reforço da importância dos professores. À pergunta: 

"acredita que no futuro existe a possibilidade de a inteligência artificial substituir os professores?" 

Responde: 

Definitivamente não. Os professores têm muitos recursos que podem fornecer aos alunos. Por exemplo, o uso de calculadoras (...). Se o aluno não perceber o problema, não o vai conseguir resolver mesmo que tenha uma calculadora. O mesmo acontece com a inteligência artificial.

O professor como fornecedor de recursos e como recurso! Que mundo teremos se os professores forem reduzidos a isto? E, sobretudo, se reduzirem a isto? 

Na verdade, a crescente sofisticação tecnológica é acompanhada de uma decrescente consciência educativa, até por parte dos professores.

domingo, 2 de julho de 2023

STEPHEN HAWKING: «A» BIOGRAFIA


  • Meu texto num dos últimos JL:

Lembro-me bem do dia 8 de Março de 2018. Chegou-me logo de manhã a notícia do falecimento do físico Stephen Hawking, notícia que ganhou destaque em todos os noticiários e foros de primeira página em todos os jornais do dia seguinte. Fiz umas declarações breves para as rádios e, como tinha uma viagem marcada para o Porto, fui atendendo chamadas de jornalistas ao longo do caminho. Estava um tempo invernal, apesar de ser quase Primavera. Dei no caminho uma longa entrevista ao Público, usando o sistema de mãos livres. esperando que fosse editada para extrair o principal, mas qual não foi o meu espanto quando no dia seguinte verifiquei que ela se espraiava por quase duas páginas: aproveitaram quase tudo o que eu tinha dito. No Porto fui aos estúdios de dois canais de televisão. Regressei a casa quase sem voz.

Sem voz viveu a maior parte da sua vida aquele que. nos tempos mais recentes, foi não apenas o físico, mas também o cientista mais famoso, para alguns – com algum exagero, como fiz questão de assinalar – chegando ao estatuto de Newton, Darwin ou Einstein.

O que tornou aquele professor de Matemática da Universidade de Cambridge – titular da mesma cátedra que Newton um dia tinha ocupado a ser alvo de tanta atenção? Por que razão, tal como Newton e Darwin, embora numa campa mais discreta, ele está sepultado na abadia de Westminster em Londres? A razão tem menos a ver com as suas capacidades na física – foi um investigador notável que fez propostas arrojadas na sua área da gravitação, que abrange os buracos negros e o Big Bang – do que a enorme incapacidade do seu físico.

Era, sem qualquer dúvida, uma mente poderosíssima, ampliada ao máximo, mas ela estava contida num corpo tolhido pela ELA – Esclerose Lateral Amiotrófica – e, portanto, reduzido ao mínimo. Ele próprio tinha a consciência que a sua fama vinha mais da sua deficiência do que da sua ciência. Era um cientista que não podia falar naturalmente e que andava numa cadeira de rodas que estava a tentar subir, metaforicamente bem entendido, aos ombros de Einstein, que por sua vez tinha subido aos ombros de Newton.

Aproveitou o melhor que pôde o mito que foi crescendo à sua volta, até porque, como ele dizia, tinha de «pagar às suas enfermeiras.» O seu livro Breve História do Tempo (1.ª edição, Gradiva, 1998), que muitos compraram – ter-se-ão vendido mais de dez milhões de exemplares em todo o mundo–, mas que poucos leram na totalidade e menos ainda perceberam (muitas vezes admira-se mais o que menos se compreende…) foi escrito por essa razão. A probabilidade estava toda contra Hawking quando aos 21 anos lhe foi diagnostica a ELA, que normalmente é fatal em menos de meia dúzia de anos. O certo é que ele, com uma inexcedível força de vontade, e com a ajuda de uma equipa de saúde, viveu até aos 76 anos, quase a média do tempo de vida média dos homens.

Existiam várias biografias de Hawking – incluindo a sua curta autobiografia A Minha Breve História (Gradiva, 2014) e documentários – e até um filme sobre uma parte da sua vida, Teoria de Tudo (2014, dirigido por James Marsh, com uma grande interpretação de Eddie Redmayne, premiada com um Oscar), baseado num livro biográfico da primeira mulher, de quem se separou para se vir a casar com uma das suas enfermeiras. 

Mas faltava uma biografia que, mais distante da aura criada à volta do físico, mostrasse o ser humano que estava por detrás. Faltava «a» biografia. Esse livro saiu agora traduzido em português, do prelo da editora Kathartika, de Guimarães (que se tem especializado em biografias, principalmente de desportistas, empresário e políticos, como Roger Federer, Jeff Bezos e Vladimir Putin). Para a revista Science, é a «melhor biografia alguma vez publicada de Stephen Hawking». É seu autor o norte-americano Charles Seife, formado em Matemática pela Universidade de Princeton, professor de Jornalismo na Universidade de Nova Iorque e autor, entre outros, do elogiado livro Zero – A Biografia de uma Ideia perigosa, Gradiva, 2001).

O título Stephen Hawking tem o esclarecedor subtítulo Como vender uma celebridade científica. De facto, por muito grande que seja o mérito científico de Hawking, forçoso será reconhecer que o seu nome se tornou um produto de marketing, promovido pelo próprio e por várias outras pessoas à volta dele. Quando era precisa uma declaração sobre o fim do mundo – a versão da moda atribui a culpa do apocalipse à inteligência artificial – por muitos nomes que estivessem no abaixo-assinado, o que saltava sempre para a ribalta era precisamente o de Hawking, mesmo quando ele não tinha qualquer competência específica no assunto sobre o qual estava a emitir opinião.

O livro de Seife, muito bem escrito e traduzido (sou suspeito, porque fiz a revisão técnica) está escrito na ordem cronológica inversa em três partes – «Reverberação», «Impacto» e «Espiralamento». É como um filme que é passado ao c contrário, contrariando a famosa Segunda Lei da Termodinâmica (que tem uma versão para buracos negros, que Hawking estudou). Chegado ao fim das 471 páginas, não contando com as numerosas referências, o leitor perceberá melhor não só quem foi Hawking, com todos os seus sucessos e contradições, mas também o modo como funciona a nossa sociedade mediática. É clara a conclusão: «Hawking sempre suspeitou que, em grande medida, a sua celebridade – e mesmo, em determinado grau, o seu sucesso académico - recompensavam mais a enfermidade do que o cérebro.» Seife conta a seguir o afecto («uma devoção, mesmo»), de Hawking pela actriz Marilyn Monroe, da qual tinha várias fotografias nas paredes.

E, a propósito, vem uma clara revelação. O realizador Errol Morris, autor de um dos documentários sobre Hawking, disse-lhe um dia sobre Marilyin: «Tal como o senhor, ela era uma pessoa valorizada pelo corpo e não necessariamente pela mente». O físico lançou-lhe um olhar «tresloucado» e, depois de um tempo de espera, ouviu-se um clique e a bem conhecida voz artificial com timbre metálico: “SIM”. O autor da biografia conclui: «De todos os paradoxos da vida de Hawking, este pode vir a ser o mais profundo.»

ENERGIA EM PORTUGAL: RESUMO HISTÓRICO E SITUAÇÃO ACTUAL

 
Meu artigo no último número da «Seara Nova»:

A palavra «energia», que anda hoje nas bocas do mundo, só surgiu no século XIX, no tempo em que emergia a termodinâmica, o ramo da física que trata o calor. O neologismo, com base no étimo do grego antigo enérgeia (que significa actividade), foi usado pela primeira vez pelo polímato inglês Thomas Young, em 1802, nas suas conferências sobre Filosofia Natural. Energia tem a ver com o movimento. 

Os sistemas macroscópicos possuem uma energia, dita interna, que pode sofrer alterações por interacções com a vizinhança: o trânsito de energia de e para o sistema pode ser feito sob a forma de trabalho (forma ordenada) ou de calor (forma desordenada). A meio do século XIX, percebeu-se que a energia se conservava: a 1.ª Lei da Termodinâmica diz que a energia não pode ser criada nem destruída, pelo que se mantém invariável num sistema isolado. Se sair ou entrar energia, a energia total do sistema e da sua vizinhança tem de se manter inalterada.  Por seu lado, a 2.ª Lei diz que a energia se degrada: isto é, só uma parte da energia proveniente de uma fonte de calor pode ser aproveitada como trabalho.

A Revolução Industrial começou, com o desenvolvimento da máquina a vapor no final do século XVIII, tendo a Termodinâmica estudado o rendimento de engenhos desse tipo. Uma máquina térmica moderna, como o motor de combustão interna de um carro, usa a energia da queima da gasolina ou do gasóleo, para fazer mover as rodas, perdendo-se uma parte em atrito com o solo e no aquecimento do motor e imediações. 

A energia do combustível é transformada em movimento. Tudo se passa como na máquina a vapor, em que o combustível era o carvão ou a lenha: da energia entrada uma parte é usada para produzir movimento. Quando se queima um qualquer material combustível, fóssil ou não, há em geral emissões de dióxido de carbono (CO2). Excepção relevante é a queima de hidrogénio, que não implica emissões de CO2, resultando da sua combustão apenas água. 

Sabemos hoje que o planeta está a aquecer por causa das emissões de CO2 resultantes da queima de combustíveis, que desde a Revolução Industrial são as que mais têm contribuído para o aumento do efeito de estufa, dada a necessidade de desenvolvimento por uma população que, à escala global, é cada vez maior. O Acordo de Paris de 2015 preconizou um aumento de não mais do que 2ºC, desejavelmente menos do que 1,5ºC, acima dos níveis pré-industriais.

Civilização significa uso de energia. Pre cisamos de energia para nos aquecermos, para nos movermos, para nos alumiarmos, para pormos máquinas a funcionar, etc. O carvão passou a substituir a lenha como material combustível ao longo do século XIX, ultrapassando 50% das fontes primárias de energia em 1900. Na segunda metade do século XIX as máquinas eléctricas passaram a substituir as máquinas a vapor, continuando a ser alimentadas a carvão. O uso deste combustível atingiu o seu máximo no mundo em 1915 e, ao longo do século XX, começou a ser usado o petróleo em sua substituição, embora sem nunca ter chegado a 50% do consumo de energia. O gás natural começou a ser usado ao mesmo tempo que o petróleo, embora nunca tenha atingido valores similares. A energia nuclear surgiu no pós-Segunda Guerra Mundial: ao contrário dos combustíveis fósseis, apenas serve para gerar electricidade e não para fazer mover veículos. Embora tenham antecedentes na história, energias renováveis, como as energias hidroeléctrica, eólica, solar e geotérmica, só recentemente têm sido usadas de modo significativo. 

Nem a energia nuclear nem as energias renováveis produzem emissões de CO2. A necessidade, reconhecida nas últimas décadas, de evitar um sobreaquecimento do planeta tem levado a enormes desenvolvimentos na área das energias renováveis. Fala-se hoje no banimento do carvão, o combustível fóssil que provoca mais emissões de CO2, e da diminuição do petróleo, que provoca mais emissões do que o gás natural.

Em Portugal, a Revolução Industrial chegou tarde, em comparação com outros países europeus. As primeiras máquinas a vapor surgiram na navegação e na moagem por volta de 1820. Em 1890, o carvão e o petróleo não satisfaziam mais do que 20% das necessidades energéticas, O resto era obtido do vento, da água, da lenha e dos animais. Mas, apesar do arranque industrial tardio, o caminho de aproveitamento dessas energias fósseis foi semelhante ao de outros países. A hidroelectricidade surgiu ainda no final do século XIX, representando então uma parcela muito pequena da energia eléctrica, que vinha principalmente do carvão e, a grande distância, do petróleo, que foi tomando o lugar do primeiro. 

O consumo de energia foi subindo entre nós a partir de 1940, satisfazendo as necessidades de desenvolvimento de uma população crescente. É dessa altura a criação da rede eléctrica nacional. O gás, que começou por ser usado para iluminação pública no século XIX, foi impulsionado nos anos de 1940 com a sua produção em Cabo Ruivo a partir de carvão, só aparecendo uma companhia para fornecimento de gás natural a todo o país em 1989. Por não ser produtor significativo de combustíveis fósseis, Portugal sempre esteve dependente do exterior para cobrir as suas necessidades energéticas. A crise internacional do petróleo nos anos de 1970 foi vivida no alvor da democracia, causando sérias dificuldades económicas. O país, que nunca tinha tido centrais nucleares (ao contrário de outros países europeus como a Espanha), abandonou nos anos de 1970 os projectos nesse sector.

Nos anos mais recentes, dada a boa exposição ao vento e à luz solar e a políticas de estímulo, as energias alternativas têm aumentado entre nós, somando-se ao aproveitamento hidroeléctrico, que atingiu para alguns cursos de água patamares de quase saturação. Proliferaram na paisagem inúmeras torres eólicas e painéis solares. Um marco da chamada «transição energética» foi o encerramento em 2021 da última central a carvão. Dada a boa cobertura florestal do país, a biomassa tem sido entre nós um recurso interessante. O uso da energia geotérmica está restrito aos Açores. Mesmo contando com o incremento das fontes renováveis, Portugal continua a ser importador líquido de electricidade.

Vejamos qual é a situação actual do consumo de energia em Portugal. Usando os dados contidos em A Energia em Números, do Observatório da Energia, da Direcção-Geral de Energia e Geologia e da Agência para a Energia, de 2022, que está on-line. Em 2020, na distribuição de consumo de energia primária, incluindo o uso de electricidade, por formas de energia, o petróleo tem 41%, seguindo-se as energias renováveis (30%), o gás natural (25%), o carvão (3%) e outros (2%), nos quais se inclui a electricidade importada. O consumo total de energia tem vindo a diminuir (foi menos 10% do que em 2010), registando-se a diminuição do petróleo e do carvão e a subida do gás natural e das renováveis. Portanto, apesar do aumento das energias renováveis, estas ainda não chegam a um terço do consumo total de energia primária. Se olharmos para a distribuição do consumo de energia final – em vez de primária – por formas de energia, o lugar de topo continua a ser ocupado pelo petróleo (44%) seguindo-se a electricidade (26%), o gás natural (11%), as renováveis (11%) e o calor (7%). Olhando para os diferentes sectores, percebe-se melhor a necessidade dos combustíveis fósseis: os transportes prevalecem com 33%, seguindo-se a indústria (31%), o sector doméstico (20%), os serviços (13%) e a agricultura e pescas (3%).

Existiu em 2020 um grande saldo importador de energia, embora menor do que o de uma década atrás, sendo as maiores parcelas nessas importações, por ordem, o petróleo, o gás natural e a electricidade. Importámos em 2021 petróleo principalmente do Brasil, da Nigéria e do Azerbaijão, e gás natural da Nigéria, dos EUA e da Rússia. A balança de pagamentos do país ressente-se obviamente da falta de autonomia energética. Somos, na União Europeia, o 11.º país com maior dependência energética (2020), um pouco acima da média europeia. No entanto, somos o 5.º país da União com menor consumo de energia final per capita (2020), muito abaixo da média europeia (os países mais desenvolvidos consomem muito mais do que nós).

Há alguns bons indicadores, que convém sublinhar. Portugal tem um lugar notável – o 4.º da União Europeia (2020), depois da Áustria, da Suécia e da Dinamarca – na quota de energia eléctrica proveniente de renováveis, que foi de 58%, o maior valor de sempre no registo histórico (os maiores contributos vêm das energias eólica e hídrica, seguindo-se a biomassa e a solar; uma parcela considerável da electricidade ainda vem do gás natural). 

Também ocupamos um bom lugar nas emissões de gases de efeito de estufa per capita: somos, nesse índice, o 6.º melhor país da União Europeia (2019). Contra nós joga, porém, o facto de haver demasiada utilização de veículos privados, de ainda ser pequena a frota de carros eléctricos, e de haver deficiência de climatização da generalidade dos edifícios. Mais incentivos nestas áreas fariam sentido.

Em conclusão: 

Portugal está no bom caminho no uso das energias renováveis. Equipamentos que as fornecem estão por todo o lado. Têm surgido críticas à instalação exagerada de eólicas e painéis solares por não só desfigurarem a paisagem como causarem danos ecológicos. Um dos desenvolvimentos a que se está a assistir é a instalação de eólicas offshore em vários sítios da costa. A existência de fortes ventos em áreas marítimas torna rentável a sua instalação, que também tem os seus custos ecológicos. 

Por outro lado, Portugal é o 7.º país do mundo com maior produção de lítio, o que lhe confere uma potencial vantagem na electrificação da frota automóvel, que a União Europeia quer acelerar. Fala-se também muito no hidrogénio verde (produzido com energia renovável), mas a rendibilidade económica do seu uso generalizado nos transportes carece ainda de validação. O futuro vem aí, mais rapidamente do que era costume, e pode ser que fortaleça algumas das nossas esperanças.

A HISTÓRIA AO TRONCÁRIO SEGUNDO O GENERAL AGOSTINHO COSTA

No dia 24 de Fevereiro, 
a Ucrânia, armada até aos dentes,
não respeitando o tabu aduaneiro,
invadiu a Rússia e suas gentes. 

Matou, violou, destruiu, queimou
tudo que encontrou pelo caminho
e nem S. Petersburgo nem Moscou
deixaram de achatar o focinho!

Enraivecida, a Rússia levantou-se, 
com o que lhe restava de exército, 
e, em contraofensiva, vingou-se 

do ucrânio, em universal descrédito,
subjugando-o, em combate leve 
e atenta às convenções de Genève. 

Eugénio Lisboa

Andrés Manjón y Manjón por Andrés Palma Valenzuela

Andrés Manjón y Manjón (1846-1923), catedrático da Universidade de Granada, foi, em Espanha, precursor do ideário da Escola Activa e fundador das Escolas de Ave Maria. O legado que deixou é imenso e de enorme valor.

Andrés Palma Valenzuela, professor da mesma universidade, trabalha há muitos anos, empenhadamente, nesse legado. Agora, por ocasião do centenário da morte de Manjón, publicou o volume que se apresenta na figura ao lado.

Trata-se de um "instrumento de consulta" para quem queira conhecer e aprofundar o pensamento e realizações de Manjón e perceber melhor o movimento de renovação educativa, com preocupações humanitárias, do início do século XX. 

Com perto de mil páginas, o volume inclui um inventário de escritos do académico-pedagogo, bem como de estudos sobre a sua figura e obra, integrando uma extensa e funcional bibliografia. Mas, vai além disso: Andrés Palma Valenzuela, faz uma leitura interpretativa do conjunto e, a partir dela, apresenta perspectivas de futuro para a educação. 

De grande valia são os manuais e recursos didácticos que Manjón elaborou e que não perderam actualidade, reflexo de um pensamento educativo intemporal.

Como colega e amiga de Andrés Palma Valenzuela, não posso deixar de me sentir tocada com a sua determinação em preservar uma memória que, pela sua inegável importância, deve prevalecer. Só a dedicação académica e pessoal permitem apresentar uma obra como esta. Fiquei muito feliz quando, hoje, recebi a ligação para a obra, de acesso livre (ver aqui)

Não fosse o verso pedra, eu partiria

Não fosse o verso pedra, eu partiria

Para longe de tudo o que ainda amo:

Do horizonte, da terra, da poesia

E do mosto que com meu peito chamo.

 

Não fosse o verso pedra, eu não iria

Talhar as mãos em busca desse ramo,

Da carícia e do teu rosto, alegria,

Da brisa pela qual eu me derramo.

 

Não fosse o verso pedra, eu poderia

Ver só no mundo onírico algum brilho 

E a brisa ouvir onde tudo é bisonho.   

 

Mas eu não quero estar sem melodia

E sem me enternecer ao fim do trilho,

Como o homem na terra do entressonho.  


Ângelo Alves

sábado, 1 de julho de 2023

ARTE POÉTICA OU LA DIFICULTÉ AVANT TOUTE CHOSE

Se o obstáculo é o caminho,
como quer um velho provérbio Zen,
porquê, então, versos em desalinho,
como se a desordem fosse um éden?

É o obstáculo que cria o verso,
como o ar resistente lança o voo.
Não há como um obstáculo perverso,
para que o verso não sofra de enjoo.

O que resiste também propicia
e o obstáculo induz o engenho:
o que nasce da luta inicia

um universo com novo desenho.
No verso, a dificuldade promove 
e ele, porque algemado, comove. 

Eugénio Lisboa

TALVEZ SEJA MESMO O "ABATE DO HUMANO"

O escritor Valter Hugo Mãe foi entrevistado por  Luís Ricardo Duarte, jornalista do Público (ver aqui ). A razão é o seu novo  romance com o...