segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Eugénio Lisboa, Poemas em tempo de guerra suja

Por João Boavida

Eugénio Lisboa, Poemas em tempos de guerra suja. Lisboa: Guerra & Paz, 2022. É um livro de poesia feito de indignação e de revolta, na linha de muitos outros que nascem da indignada consciência moral dos seus autores. A poesia sempre foi uma arma. 

Lembremos, por exemplo, esse livro mítico que é a Praça da Canção, de Manuel Alegre, e a importância que teve no despertar de consciências contra um sistema opressivo que, à custa de uma visão fora de tempo e sem justificação para sustentá-lo, mantinha uma guerra dilacerante para nós e para os povos das colónias.

Lembremos também o entusiasmo que o livro gerou, as cópias clandestinas, umas ainda a stencil, outras já impressas, que andavam em Coimbra entre os estudantes, e a rapidez com que se espalharam por todo o país; lembremos as canções que originou, que ainda hoje nos emocionam porque se tornaram hinos à liberdade e para sempre ficaram ligadas a esses tempos empolgantes.

Lembremos algumas das vozes que as imortalizaram, como José Afonso e Adriano Correia de Oliveira, e sem as quais esses tempos não seriam, na memória de todos nós, o que continuam a ser, emocionantes e incomparáveis. 

A poesia pode ser uma arma, e mais mortífera que aquelas que para matar foram feiras, isto é, sem sangue mas com ideias e sentimentos de justiça e de humanidade. Por tudo isto que este livro é oportuno e mostra a sua força contra uma certa amorfia que parece atravessar alguma intelectualidade portuguesa em relação à guerra de Putine e à invasão bárbara da Ucrânia. 

É disso que se trata e, desde o título, porque é, de facto, uma «guerra suja» e a sua intenção é lutar, com poemas, pela consciência moral que se revolta com o que está a acontecer. «Nas guerras vence-se, mas não se ganha. Há sempre um vencedor, um vencido e dois perdedores», diz Eugénio Lisboa na, introdução, sendo, portanto, segundo o autor, mais um «serviço inútil».

Mas talvez não seja. Em primeiro lugar, porque compete a cada um fazer o que pode para evitar uma ignomínia destas, depois, porque esta guerra ficará, em pleno século XXI, como a imagem do brutal colonialismo que a URSS (de que Putine é um representante exemplar) andou, durante décadas e décadas, a acusar os outros e que ela fazia melhor e mais brutalmente que ninguém (lembremos a Hungria e a Checoslováquia), e que continua a fazer (lembremos a Geórgia, a Chechénia, a Transnistria e agora a Ucrânia).

A história verá esta guerra como mais uma negra e suja página na grande lista de guerras negras e sujas de que está cheia. Putine e o seu bando até podem vir, no fim, a cantar vitória, e acrescentar, ao seu imenso país, mais algumas regiões, como têm feito sempre (a ganância não tem limites) mas o seu gesto ignóbil e cobarde não tem perdão nem o futuro lho perdoará. 

Poesia cortante e acerada.

«Putininio
reptilínio
latrocínio
assassínio
extermínio
curvilíneo morticínio…» (p. 42). 

Como todas, desde a fábula do lobo e do cordeiro, esta guerra também tem a sua «receita»:
«Encontre-se um pretexto
qualquer.
Dê-se a volta que um texto
requer.
Cuide-se bem do contexto
a rever.
Propague-se o hipertexto
com saber.
Usar então o pretexto
que houver.
A guerra que está no texto
requer,
ENTÃO,
Bombardear o contexto.
Morrer
estava previsto no texto» (p. 65).

Poesia maioritariamente em sonetos, mas com outras formas poéticas. Como redondilhas, de que respigo, por exemplo:

«Homens do CAPA–GÊ-BÊ
Têm grande sangue frio:
Mata-se de A a ZÊ
E sempre com grande brio» (p. 57).

Ou esta:

«Imaginem Rosa Casaco
eleito nosso presidente!
Rimaria um tal velhaco
Com um cargo tão eminente?

Mas ser eleito presidente
de uma Rússia tão augusta
este CAPA-GÊ-Bê doente
não perturba nem vos assusta? (p.80).

É certo que nem só da guerra de Putine estes poemas tratam, mas ele anda sempre por ali como um fantasma:

«Ruínas onde foram ontem casas,
Corpos a apodrecer no chão,
Crianças mortas, lindas, já sem asas,
Um mundo antes vivo, em implosão».

E a indignação que o mundo civilizado sentiu, e sente, desde há meses, a ver, incrédulo, tal barbárie, transformou Eugénio Lisboa em poemas que são pedras, ou balas, que agora não matam, mas que matarão, à sua maneira, no futuro.

«Por todo o lado a morte em vez da vida
por todo o lado o nada em vez do tudo,
por todo o lado a vida invertida
e o rasto do monstro chavelhudo» (p. 70).

«Agora mata-se mais e mais depressa,
mata-se mulher, velho e criança:
distinguir quem se mata não interessa,
é só perder tempo enquanto se avança» (p.71).

E como os novos tiranos não são diferentes de outros de má memória para a humanidade:

«Heil, Putine, que uma bruxa pariu,
em noite assombrada de segredos,
feitiços e mezinhas, e previu,
naquele monstro, só medos e enredos.

Heil, Putine, aborto malcheiroso,
cozido no enxofre do Inferno,
em frenético coito ardiloso,
fazendo do planeta longo inverno.

Heil, ó filho de coitas fedorentas
lambido por demónio malformado,
farejando ruínas com as ventas

sujas de beber o famigerado
sangue dos que à vida já roubou,
feliz por ter feito quanto almejou» (p.79). 

Poemas na linha da poesia satírica e das de escárnio e maldizer, acutilantes, fulgurantes, e atravessadas por uma indignação e um espanto moral que lhes dá, aqui e agora, outra dimensão e atualidade e, portanto, outro poder.

A poesia é uma arma, como disse acima, e será uma arma enquanto os poetas se indignarem com as indignidades e os seres humanos tenham sentido de moral. E ao contrário do que possa parecer, tê-lo-ão hoje mais atento e afiado que noutras épocas. É isso que nos faz ter esperança de que, no fim de todas as cantadas vitórias de Putine (que por certo as cantará) a história o derrotará e colocará no pelotão dos grandes facínoras que o mundo moderno cada vez suporta menos.

E para os que pensam que identificar Putine com o povo russo, que há séculos e séculos é martirizado, e hoje desinformado e envenenado pela propaganda, fica este excerto:

«Que diria Turguenév
Ou o suave Tchécov
daquele país de neve,
do século dezanove?
Um libertou os escravos
e o outro consolou
os aflitos e os agravos
a quem tudo ensinou.
Que diriam estes russos
destes seus irmãos de hoje,
mais parecidos com ursos,
atacando quem não foge?...» (p.22). 

Poemas em tempo de guerra suja, lê-se de um fôlego, sem saber o que mais admirar, se a inspiração constante e quase tumultuosa do autor se a sua capacidade assertiva e implacável. 

João Boavida

UM BELO E INSTRUTIVO ROMANCE DE TERESA MARTINS MARQUES: NÃO MATARÁS

Por Eugénio Lisboa

"Uma pessoa, seja ela cavalheiro ou senhora, que não tire prazer da leitura de um bom romance, deve ser intoleravelmente estúpida", Jane Austen. Com estas palavras da celebrada romancista inglesa do século XIX, que, aparentemente, se entreteve a escrever fofoquices sobre meninas em transe de arranjarem marido, como destino de vida, e que se tornaria, no século XX, a preferida queridinha do público em geral, dos críticos mais sisudos, dos biógrafos mais sequiosos, dos mais exigentes professores universitários e dos cineastas em busca de argumentos certeiros, põe-se claramente o acento tónico no conceito de PRAZER – o prazer da leitura, que um romance deve proporcionar. 

Um bom romance deve pretender, antes de mais nada, ENTRETER o leitor, dar-lhe PRAZER com a sua leitura. (Nota para ler com atenção: António Sérgio, que não era leviano, dizia, provocadoramente, que esse era também o objectivo de uma boa crítica: saber ENTRETER, intelectualmente, o leitor.) O resto vem por acréscimo e sem dor.

Disto se esquecem, infelizmente, hoje em dia, muitos dos nossos cultores do romance, apostados em se tornarem outros tantos Joyces da inovação ficcional, por aí se tornando tão estéreis e tão chatos como o Joyce original (que sofreu uma das mais inflacionadas avaliações críticas que a história literária jamais acolheu!). Estes pretendem “inovar”, quase sempre de modo desastrado, frequentemente desnecessário e, não raro, intoleravelmente estúpido, para voltar a citar a autora de ORGULHO E PRECONCEITO: assim conspurcando um género literário que vem de tempos remotíssimos, quando, à roda de uma fogueira, as pessoas se dispunham a ouvir contar uma boa história. Gosto que para sempre ficou, digam o que disserem os snobes parolos qua afectam não gostar de histórias. Não sabem o que perdem. 

Resumindo: um romance conta um história, sim senhor ou senhora, e não tem mal nenhum fazê-lo e é péssimo quando o não faz. 

Teresa Martins Marques, que já antes nos dera um impressivo romance – A MULHER QUE VENCEU DON JUAN – contemplou-nos agora com um explosivo romance histórico, centrado corajosamente no infame assassinato do político Aldo Moro, perpetrado pelas Brigadas Vermelhas, de má memória. A autora, não só gosta de contar boas histórias, como agrava o dossier, gostando de as contar empolgantes. E não atravancando o horizonte do leitor com picardias narrativas desnecessárias.

Uma coisa se torna evidente, à medida que vamos mergulhando na leitura deste livro, no qual a autora se empenhou com verdadeira paixão, investindo nele três anos e meio de investigação histórica, com uma vontade carbonária de restabelecer a verdade, denunciando as cumplicidades cobardes por detrás deste crime.

A escritora americana Toni Morrison escreveu algures que há livros que desejamos ler mas que ainda não foram escritos, portanto temos de ser nós a escrevê-los. 

Julgo que este romance foi, para Teresa Martins Marques, um desses livros. A história verdadeira – os cinquenta e cinco dias de sequestro, que desaguam no assassinato em 9 de Maio de 1979, na garagem de uma casa em Roma - são o miolo central do livro; mas a história ficcionada da ligação de Anna com Moro, muito astuciosamente tecida, a partir dos cabelos encontrados no casaco do morto, nem por ser de dimensão mais reduzida, é menos crucial e dilacerante. O medo do muito que Moro sabia e que intersectava muita gente dos mais variados quadrantes, disfarça-se na bela mas falsa auréola de que se não negoceia com terroristas. Raramente um sórdido assassinato revestiu tão belas vestes.

Teresa dá-nos dois admiráveis retratos, ao longo desta narrativa absorvente e destemidamente documentada: Aldo Moro, político impoluto e marido e pai exemplares, e Anna (ficcional mas nem tanto…), a qual, trazendo do passado uma ferida de monta, vai descobrindo finalmente uma espécie de amor sublimado pelo sequestrado, cuja inteireza, doçura e bondade a ofuscam.

Não vou aqui desvelar minúcias da narrativa empolgante que Teresa Martins Marques soube congeminar para fazer bem presente um crime cometido há quase cinquenta anos. Mas o empenho apaixonado que pôs na concepção, construção e redacção desta ardorosa interpelação, mostra, como poucos textos, um testemunho de alto gabarito do que pode ser a solidariedade com os perseguidos e injustiçados deste nosso mundo. 

Com razão disse a romancista canadiana Margaret Atwood que uma pessoa sozinha não é uma pessoa completa: só existimos em relação com os outros.

A autora de NÃO MATARÁS visou, com este livro, uma merecida completude.

Eugénio Lisboa

domingo, 11 de setembro de 2022

GRANDES ESCRITORES DE OUTRORA QUE O NOBEL REJEITARIA SE TIVESSEM VIVIDO NO SÉCULO XX

Por Eugénio Lisboa

Eis um exercício interessante, à luz das rejeições feitas pelo júri do Prémio Nobel de Literatura: um mergulho sincero nos gigantes do passado, tentando decifrar aqueles que o Nobel quase de certeza rejeitaria. Seriam muitos e de monta, garanto.
Sófocles e Aristófanes seriam demasiado inquietantes e infractores e enfrentariam grandes resistências em muitos dos jurados.

AS MIL E UMA NOITES seriam rapidamente varridas, pelos seus atrevimentos e não pouca licenciosidade.

Shakespeare, de certeza, não se safava: há nele muita turbulência, muito excesso, muito barulho e fúria, muito atravessar de linhas vermelhas.

Molière, com coisas como o TARTUFO, não ia longe. 

A Racine, vejo-o muito tremido: a belíssima PHÈDRE é o diabo.

Laclos, Stendhal, mesmo Balzac seriam demasiado para o aparelho linfático dos jurados suecos.

Baudelaire, Verlaine ou Dostoiewsky, nem pensar!

Henry Fielding e o seu atrevido TOM JONES bem podiam ir cantar para outra freguesia, a não ser que os jurados da Academia Sueca estivessem todos bêbados. 
Gente como Cervantes é sempre duvidosa, a quem a malta do Nobel costuma fazer boquinhas. 
Schiller não sei se se safava. 
Goethe tinha mais probabilidades, mas a sua vida sexual irregular tinha hipóteses de afligir aquela gente da Academia (por essas e outras é que o prémio para Anatole France andou a arrastar os pés: ele vivia em casa de Mme Arman de Caillavet, que era casada e tinha o marido em casa). 
Goldoni bem podia esperar pelo prémio. 
Edgar Poe, apesar dos seus admiráveis contos de fantasia, de ficção científica, de praticamente ter inventado a novela ou conto policial de dedução e do seu admirável O CORVO, era um bêbado inveterado, além de ter casado com uma prima de treze anos de idade. 
Voltaire era demasiado “gamin” e provocador, não tendo por isso possibilidades (além de ter vivido amantizado com a Marquesa du Châtelet e outras picardias). 
Camões, com o seu criado Jau, a pedir por ele, nas ruas de Lisboa, não tinha estatuto social que encantasse os suecos. 
Bocage, estamos conversados. 
Garrett, com as suas picardias amorosas, deixa-me algumas dúvidas. 
Camilo era adúltero e brigão. 
Eça mexia com muita coisa grada, não tinha o mínimo respeito pelo sagrado e, de certeza, livros como A RELÍQUIA eram demasiado apimentados para os suecos. 
Teixeira Gomes tirou as primícias a uma menor, como ele próprio confessa numa das suas NOVELAS ERÓTICAS. 
Fernando Pessoa não conta, por não ter publicado quase nada, em livro, enquanto vivo. 
Machado de Assis, talvez se safasse por ser discreto, embora, muito de mansinho, tenha, várias vezes pisado o risco.
Hoje, fico-me por aqui, porque estas sondagens são cansativas e deprimentes. Outro dia, voltarei a isto, se para aí me der a fantasia.

Eugénio Lisboa

LEGITIMAÇÃO NACIONAL DO CURRÍCULO ESCOLAR POR “COMPETÊNCIAS” TAL COMO PRESCRITO PELA OCDE

Por Cátia Delgado

Em Portugal, no início deste ano letivo, a “aprendizagem por competências” parece estar consolidada: os conteúdos/conhecimentos não desapareceram do currículo escolar, mas deixaram, como há muito se vaticina, de constituir um fim em si mesmo. São um meio para desenvolver competências

De forma progressiva, no nosso país, tal como noutros, foram-se substituindo os normativos de molde a dar resposta a recomendações supranacionais que ditam esta transição. 
Aqui devo fazer um parêntesis: trata-se de uma transição que, além de falaciosa (é possível, e desejável, considerar, a par, conteúdo e competências), está longe de ser uma “inovação” (é “sugerida” há várias décadas).
Resta saber qual o entendimento que os professores, a quem cabe operacionalizar a transição, têm deste conceito de “competência” (a que se associam diversos significados). Numa tentativa de o esclarecer e sem me alongar na interminável retórica que o “explica”, farei um breve paralelismo entre o que está expresso em documentos estratégicos da OCDE e do Ministério da Educação. 

1. O projeto The Future of Education and Skills, da OCDE (2018), de onde provém o “nosso” (atual) conceito de competência, expressa-o assim: 
“mais do que apenas a aquisição de conhecimentos e habilidades; envolve a mobilização de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores para responder a exigências complexas. Os alunos preparados para o futuro precisarão de conhecimento amplo e especializado. O conhecimento disciplinar continuará a ser importante, como matéria-prima a partir da qual o novo conhecimento é desenvolvido, juntamente com a capacidade de pensar além das fronteiras das disciplinas e “ligar os pontos”. 
Acrescenta-se:
“O conhecimento epistémico, ou conhecimento sobre as disciplinas, como saber pensar como um matemático, historiador ou cientista, também será significativo, permitindo que os alunos ampliem os seus conhecimentos disciplinares.”
De que modo se pretende, então, desenvolver as competências estabelecidas?
“pela resolução de problemas práticos, como pelo design thinking e systems thinking. Os alunos precisarão de aplicar os seus conhecimentos em circunstâncias desconhecidas e em evolução. Para isso, precisarão de uma ampla gama de competências, incluindo competências cognitivas e metacognitivas (por exemplo, pensamento crítico, pensamento criativo, aprender a aprender e autorregulação); competências sociais e emocionais (por exemplo, empatia, autoeficácia e colaboração); e competências práticas (por exemplo, usar novos dispositivos de tecnologia da informação e comunicação).” 
Os alunos devem, portanto, adquirir competências (decorridas da articulação entre conhecimentos, habilidades, atitudes e valores) que os tornem capazes de responder a situações imprevistas do futuro. Para tal, devem adquirir:
- conhecimento disciplinar;
- novo conhecimento (desenvolvido por si);
- conhecimento epistémico (pensar como um matemático, historiador ou cientista).
Que estratégias devem ser usadas para tal?
a) resolução de problemas práticos;
b) design thinking (pensar como um designer, envolve pensamento criativo, inovação);
c) systems thinking (capacidade de ver como os sistemas à nossa volta interagem e se afetam mutuamente);
d) aplicar os seus conhecimentos em circunstâncias desconhecidas;
e) domínio de uma ampla gama de competências (cognitivas, metacognitivas, sociais, emocionais, práticas...).

As metodologias de aprendizagem (não necessariamente de ensino) terão de ser, como, repetido até à exaustão, ativas (aprendizagem pela descoberta, trabalho de projeto, por exemplo) assentes nas premissas do (modelo clássico de) método científico: elaboração de uma questão-problema, busca autónoma de soluções através de pesquisa e a sua confirmação ou refutação. 

2. O que acima escrevi tem eco no sistema educativo português, encontrando-se explícitado no Decreto-Lei n.º 55/2018, de 6 de julho. Aí diz-se o seguinte:
“Nesta incerteza quanto ao futuro, onde se vislumbra uma miríade de novas oportunidades para o desenvolvimento humano, é necessário desenvolver nos alunos competências que lhes permitam questionar os saberes estabelecidos, integrar conhecimentos emergentes, comunicar eficientemente e resolver problemas complexos” (p. 2928).
E também no Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, que integra as estratégias enunciadas pela OCDE. Vejamos:
a) Resolução de problemas práticos. “Os alunos colocam e analisam questões a investigar, distinguindo o que se sabe do que se pretende descobrir. Definem e executam estratégias adequadas para investigar e responder às questões iniciais. Analisam criticamente as conclusões a que chegam, reformulando, se necessário, as estratégias adotadas” (p. 23);
b) Design thinking. “Os alunos desenvolvem ideias e projetos criativos (...) recorrendo à imaginação, inventividade, desenvoltura e flexibilidade, e estão dispostos a assumir riscos para imaginar além do conhecimento existente, com o objetivo de promover a criatividade e a inovação” (p. 24); 
c) Systems thinking. “Os alunos são responsáveis e estão conscientes de que os seus atos e as suas decisões afetam a sua saúde, o seu bem-estar e o ambiente. Assumem uma crescente responsabilidade para cuidarem de si, dos outros e do ambiente e para se integrarem ativamente na sociedade” (p. 27); 
d) Aplicar os seus conhecimentos em circunstâncias desconhecidas. “Os alunos concetualizam cenários de aplicação das suas ideias e testam e decidem sobre a sua exequibilidade. Avaliam o impacto das decisões adotadas” (p. 24); 
e) Domínio de uma ampla gama de competências (cognitivas, metacognitivas, sociais, emocionais, práticas...) “Os alunos desenham, implementam e avaliam, com autonomia, estratégias para conseguir as metas e desafios que estabelecem para si próprios. São confiantes, resilientes e persistentes, construindo caminhos personalizados de aprendizagem de médio e longo prazo, com base nas suas vivências e em liberdade” (p. 26).
Em síntese, 

a nossa política educativa, muito bem alinhada pela "política" da OCDE no respeitante, nomeadamente, ao tema deste texto, vai no sentido de levar os alunos a adquirirem competências, que (quais “ferramentas”) lhes possibilitem, no futuro, demonstrar aptidões na ação (precise-se, ação quotidiana). Os conhecimentos são, como antes se dizia, a partir da explicação de Philippe Perrenoud, “ingredientes” ao serviço (da formação) dessas competências. 

Quanto ao estatuto do conhecimento disciplinar, ficamos, portanto, por aqui. Mas, se valorizamos, efetivamente a escola, a educação que deve facultar, devemos ficar por aqui

Michael Young, que tem sido chamado a pronunciar-se no âmbito de diversas reformas curriculares, diz  que NÃO. É verdade que na década de 1970, este sociólogo britânico atribuía ao conhecimento disciplinar um sentido elitista, acessível apenas a grupos dominantes e, portanto, a eles destinados, logo, promotor de desigualdades. Era o “conhecimento dos poderosos” destinado a manter o seu poder social. Duas décadas mais tarde, veio reconhecer que esse conhecimento disciplinar, tinha o poder de “empoderar” o pensamento, passando a designá-lo por “conhecimento poderoso”. Contestando as tendências curriculares superficiais, diz que é este conhecimento, apurado com critério nas diversas áreas disciplinares, que deve ser oferecido aos alunos, pois é ele que permite a igualdade de oportunidades. Nas suas palavras: 
“Em muitos países, um currículo não centrado em disciplinas, mas em temas, linhas de investigação ou tópicos derivados dos interesses dos alunos, está sendo experimentado e tem sido atraente para professores e alunos. Parece resolver as questões de relevância curricular e do “interesse do aluno”, além de conceber a experiência das disciplinas como uma forma de “tirania cultural”. Meu argumento é que inevitavelmente faltará coerência a tais currículos, que muito explicitamente obscurecem a distinção currículo/pedagogia, e que, também, eles não oferecerão a base necessária para o progresso dos alunos. Os critérios para a escolha de tópicos ou temas seriam, em grande parte, arbitrários ou derivados das experiências individuais de professores, e não do conhecimento especializado de professores e pesquisadores, construído ao longo do tempo.” (Young, 2011, p. 618).

ARRIGO BEYLE, MILANESE

Utilizava o nome de Stendhal
este grande escritor francês:
concebeu a Senhora de Rênal,
que nos ofertou, entre outras mercês.

Foi sempre apaixonado e ousado,
desprezando o cálculo gaulês:
amou sempre com amor desvairado,
ignorando barreiras e porquês!

Na Sanseverina, ele inventou
a entrega absoluta do amor:
este amor proibido ele sublimou

à temperatura que pede o fervor.
Soube dar ao estatuto da mulher
a aura que uma deusa requer.

Eugénio Lisboa

sábado, 10 de setembro de 2022

O CIENTISTA «PATRIARCA DA INDEPENDÊNCIA»


Meu artigo no último JL:

A sua imensa popularidade no Brasil contrasta com o seu quase desconhecimento entre nós. Por isso, nos duzentos anos da independência do Brasil, vale a pena lembrar um cientista brasileiro formado em Portugal que, tornando-se político, instou o futuro imperador D. Pedro a dar o «grito do Ipiranga». José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838) merece ser conhecido pela sua intensa e diversa actividade: nascido em Santos, concluiu na Universidade de Coimbra os cursos de Filosofia Natural e de Direito, sendo logo admitido na Academia de Ciências de Lisboa; no final de uma longa viagem científica pela Europa identificou, numa mina da Suécia, a petalite, que foi o primeiro mineral contendo lítio; de regresso à sua alma mater, foi professor de Metalurgia, Intendente Geral de Minas e Metais do Reino e dirigente de várias minas; combateu os invasores franceses integrando o Batalhão Académico; entrando na política brasileira, foi conselheiro de D. João VI e D. Pedro, ministro do primeiro governo brasileiro e membro da Assembleia Constituinte, fazendo jus ao cognome de «patriarca da Independência»; exilado em França pela interrupção forçada dos trabalhos da Constituinte ocupou-se das belas letras; de volta à pátria, foi perceptor do infante, mas caiu de novo em desgraça, morrendo pobre numa sua casa em Niterói, Rio de Janeiro. Em contraste com o médico Egas Moniz, que começou por fazer uma carreira política e depois teve uma fulgurante carreira científica, José Bonifácio conheceu primeiro enorme êxito na ciência para depois enveredar pela política.

Vejamos a sua vida em maior pormenor. Oriundo de uma família rica da capitania de São Paulo, José Bonifácio formou-se em 1787 na então recente Faculdade de Filosofia, que tinha sido instituída pela Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra de 1772 (há 250 anos!) e um ano depois, num complemento invulgar, na Faculdade de Direito. Em 1790 iniciou, com um subsídio estatal, um périplo pela Europa, que lhe proporcionou contactos com alguns dos melhores centros científicos da Europa: visitou a França, Itália, Alemanha, Dinamarca, Holanda, Suécia, Grã-Bretanha, etc. Em Paris, então no auge da  Revolução Francesa, aprendeu Química com dois continuadores de Lavoisier – Jean-Antoine Chaptal e Antoine François de Fourcroy. Centrando-se no estudo dos minerais, foi discípulo de René Just Haüy, o fundador da Mineralogia em França, e aprendeu Metalurgia com Baltazhar-Georges Sage, director da Escola de Minas de Paris. Na Escola de Minas de Freiberga, perto de Dresden, foi discípulo do geólogo alemão Abraham Gottlob Werner e colega do grande naturalista também alemão Alexander von Humboldt (irmão do filósofo Wilhelm, que, em Berlim, haveria de fundar a universidade moderna). A descoberta da petalite foi anunciada em 1800, no Allgemeines Journal der Chemie, de Leipzig, em conjunto com a de outros onze minerais. O seu currículo internacional valeu-lhe a entrada em várias academias científicas do mundo.

Quando José Bonifácio regressou a Coimbra aos 37 anos, ocupou uma cátedra de Metalurgia criada especialmente para ele (nas obras do Laboratorio Chimico da Universidade foi descoberto um forno metalúrgico onde ele deve ter trabalhado) e a diversos trabalhos de campo. Estávamos na época em que começava a Revolução Industrial e, com ela, o interesse pelas riquezas da Terra. Além de ter desempenhado o cargo de Intendente Geral de Minas e Metais do Reino, administrou as minas de carvão de Buarcos, no Cabo Mondego, e de S. Pedro da Cova, em Gondomar, e as Reais Ferrarias da Foz do Alge, um afluente do Zêzere. Chefiou um laboratório na Casa da Moeda.

Foi José Bonifácio quem usou pela primeira vez entre nós a palavra «tecnologia», vertida da língua germânica. Quando, em 1808, as tropas de Napoleão invadiram Portugal, ele não hesitou em pegar em armas com colegas e estudantes. Chefiou o quartel de Peniche até os franceses se retirarem. Publicou em 1815 o livro Sobre a necessidade e utilidade do plantio de novos bosques em Portugal, no qual falava da «economia da Natureza» (a que hoje chamamos ecologia).

José Bonifácio voltou ao Brasil em 1819, aos 56 anos. D. João VI, antes de voltar a Portugal em 1821, delegando o poder em D. Pedro, nomeou-o conselheiro. Numa época assaz tumultuosa, José Bonifácio defendeu a unidade do Brasil e os direitos dos índios e escravos negros. Quanto à questão da independência, os acontecimentos levaram-no a tomar uma posição clara que, no Verão de 1822, comunicou a D. Pedro, numa carta enviada a «mata-cavalos»: «O dado está lançado e de Portugal não temos a esperar senão escravidão e horrores. Venha Vossa Alteza quanto antes e decida-se, porque irresoluções e medidas d'água morna, à vista desse contrário que não nos poupa, para nada servem e um momento perdido é uma desgraça». A resposta, com data de 7 de Setembro, hoje consagrado como dia da independência do Brasil, foi curta e decisiva: «É tempo! Independência ou morte! Estamos separados de Portugal». O mineralogista tornou-se ministro do Interior e dos Negócios Estrangeiros e, no ano seguinte, membro da Assembleia Constituinte.

Com a dissolução da Constituinte ordenado pelo próprio D. Pedro I, José Bonifácio foi preso e embarcado para o exílio europeu. O seu destino não foi Lisboa, mas sim, após uma revolta a bordo, Vigo, de onde lhe foi permitido seguir para Bordéus. Foi no ambiente girondino que descobriu uma vocação de poeta, mostrando que as artes e as ciências não têm que star desavindas. Publicou em 1825 em Bordéus Poesias Avulsas, sob o nome de Américo Elísio. Mas não foi um grande poeta.

Só passados seis anos pôde regressar ao Brasil, tendo a esposa falecido durante a viagem. Reconciliado com o imperador, foi nomeado por este tutor do filho, o futuro D. Pedro II. Mas a vida política voltou a não lhe sorrir. Envolto em confusões, foi de novo preso, vendo-se obrigado a prisão domiciliária.   

Tem uma estátua no centro de Nova Iorque, mas nenhuma em Portugal. A casa onde viveu em Santa Clara, em Coimbra, está meio em ruínas. E até a Galeria de Minerais com o seu nome, no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, está obscurecida por um inefável «Gabinete de Curiosidades» (alguém inventou algo que nunca existiu em Coimbra). Pobre José Bonifácio!

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

POR FIM, O DESPACHO

Por Cátia Delgado

Foi ontem publicado o Despacho que confirma as novas condições para o regime de contratação de professores ao nível de escola. Passa a ser possível contratar licenciados pós-Bolonha para responder à falta de professores profissionalizados, ou seja, com a formação exigida por lei, desde que detenham, no seu percurso académico, um número mínimo de créditos na área disciplinar a que se candidatam. 

Por exemplo, para lecionar Português no Ensino Secundário, bastará que um licenciado tenha acumulado 80 créditos de formação específica; para lecionar Inglês, bastarão 60 créditos (o equivalente a pouco mais de um ano letivo). São números muito inferiores aos 120 créditos exigidos para aceder ao Mestrado em Ensino, nível de formação conducente à habilitação para a docência até então.

Relembro que a profissionalização destes docentes está prevista, podendo ser realizada em serviço, não sabendo ainda em que moldes, nem quando. Sabe-se apenas que o Governo está a preparar “um programa de acompanhamento, com enfoque na componente pedagógica”, como noticiado aqui

Em conferência de imprensa, esta tarde, o Ministro da Educação veio enfatizar o trabalho que tem vindo a ser feito para mitigar a falta de professores, resumindo as várias medidas. 

Referiu uma melhoria de 50% nos horários por atribuir, a esta data, comparativamente com os dois anos transatos. Mencionou, ainda, a divulgação dos horários por preencher às instituições de ensino superior pois estas podem ter potenciais candidatos ao concurso, mas que, por desconhecerem os procedimentos, não se candidataram. Aludiu, por fim, a iniciativas de apoio às práticas de distribuição de serviço a escolas que revelem maiores dificuldades na substituição de docentes, prevendo, por exemplo, a monitorização de funções desempenhadas por docentes mas que poderão ser guiadas por outros técnicos, como por exemplo psicólogos, tais como tutorias orientadas para competências socioemocionais.

A PERFEIÇÃO

Por João Boavida

O conceito de perfeição é subtil. Não necessariamente complexo, embora habitualmente o seja também, mas sobretudo subtil porque requer um apreciador com um quadro valorativo esclarecido. É um limite que a pessoa que aprecia estabelece subtilmente, segundo uma escala de avaliação que pressupõe, mesmo que a não reconheça com nitidez, e que, por sua vez, exige um gosto educado. Quase podemos dizer que não há perfeição sem alguém que seja capaz de pensar o topo de um domínio de execução artística. Por isso é também, em grande medida, pessoal porque duas pessoas de gosto igualmente educado podem não apreciar o mesmo produto estético. 

Em suma, a perfeição é algo que o objeto pode alcançar aos olhos de alguém; não é independente da ação de apreciar, e esta depende do apreciador e do cânone segundo o qual é apreciado. É portanto algo que depende de muitos fatores e é, por isso, também complexo.

Mas além da perspetiva do apreciador temos de considerar a do artista, até mais esta que aquela. O artista pode intuir o grau de perfeição que quer alcançar, pode sonhá-lo mas, em verdade, nunca o alcança. E como há artistas que põem nisso a principal preocupação, e outros não, podemos pensar em obras que nos parecem mais próximas da perfeição do que outras.

Eça de Queirós, por exemplo, coloca no trabalho oficinal muito mais esforço e cuidado que Camilo Castelo Branco, mas isso não retira qualidade a este que vai buscar as suas vantagens a outros campos pelos quais supera Eça. É portanto mais fácil falar em perfeição em Eça, que em Camilo, mas isto não é tudo. 

Por isso, o conceito de perfeição é algo perigoso, porque pode ser limitativo, na medida em que é subjetivo.

Vejamos ainda, aproveitando exemplos de artigos anteriores: aquilo que é “perfeito” em Aquilino Ribeiro é menos perfeito em Agustina Bessa Luís; e aquilo que é quase perfeito nesta é imperfeito naquele. São processos de construção muito diferentes, com dinâmicas e enquadramentos diferentes e, portanto, com tendência a manifestar-se cada um deles em certos aspetos e não noutros e a ter valorizações específicas que tornam difícil a comparação. As suas obras são universos distintos unidos pela mesma língua.

Os gregos ligavam à ideia de perfeição a de acabamento e finitude, e a de imperfeição ao não acabado, como se verifica ainda, entre nós, com a designação de “Capelas Imperfeitas” ao inacabado Panteão de D. Duarte, no Mosteiro da Batalha, as quais, em termos de perfeição, são tão perfeitas como o resto, e com o todo do mosteiro formam uma unidade estética coerente.

Mas entre os gregos era sobretudo a ideia de um objeto que alcançou o seu fim. Em Aristóteles, o perfeito é o melhor do seu género e nada o pode superar. Uma frase literária, um trecho musical, uma pincelada, podem alcançar um nível insuperável e, portanto, serão considerados perfeitos porque, alterar alguma coisa, seria estragá-los. A obra-prima será, pois, aquela em que não é possível acrescentar nem tirar nada.

Mas não será só isso, tem também a ver com a construção e, portanto, a obra-prima é aquela em que o funcional se articula com o estrutural, isto é, em que a função atua em ordem à estrutura, e dentro dela, e, esta, o que subjaz àquela, o que a orienta e lhe dá razão de ser. Podemos relacionar isto com a ideia escolástica de identificação da perfeição com ato, em que a perfeição absoluta é a que exclui qualquer potência, ou seja, a que já não tem potência em ação, isto é, qualquer imperfeição a exigir aperfeiçoamento pois a potência, na teoria aristotélica, é o que dinamiza os aperfeiçoamentos, e a obra perfeita é a que já os dispensa.

Por isso, enquanto o conceito de perfeição implica a ideia de ascensão, processo de aperfeiçoamento cada vez mais exigente, em ciência o que é determinante é a correção ou incorreção dos cálculos e das fórmulas, a verdade ou a falsidade das suas proposições. São, pois, universos valorativos diferentes. 

Mas esta ideia grega de perfeição como algo acabado coloca ainda outro problema: se alcançarmos a perfeição seremos sempre levados a pensar no mais além disso. De facto é sempre difícil saber, no processo de criação de uma obra, onde está o seu ponto culminante; o artista terá sempre as suas dúvidas, e os apreciadores sempre podem descobrir imperfeições, reais ou imaginárias. Mas o que sobretudo nos leva a ultrapassar esta ideia é que ela foi profundamente abalada pelo mundo moderno e pela libertação dos quadros que vigoraram desde a Antiguidade Clássica até finais da Idade Média, e que entraram em crise a partir daí.

A nossa mundividência moderna é muito diferente da clássica. Eles tinham uma ideia de cosmos finito, e de uma Terra no centro desse cosmos; nós hoje sabemos que o universo é infinito ou a tender para isso, e a Terra não é mais que um pequeno grão perdida na imensidão dos astros. Por outro lado, tudo na realidade é dinâmico, interativo e muitas vezes dialético, e os movimentos artísticos seguiram esta tendência sobretudo a partir do Romantismo, que rompeu com as métricas e a noção de perfeição do Barroco. Mas não só, idêntico movimento deu-se na pintura, na música, na literatura, na pedagogia e até na libertação da Natureza das condicionantes divinas, e o que isso implicou em termos de desenvolvimento científico e de autonomização da consciência moral.

Contudo, nem isto é muito correto porque, em termos literários, pelo menos, há uma série de obras que vêm detrás, obras “inacabadas”, ou, pelo menos, suscetíveis de serem desenvolvidas quase indefinidamente, e que pressupõem formas de fazer bastante “imperfeitas” em relação à forma clássica. 

As Mil e uma Noites, por exemplo, conjunto de histórias indianas, persas e árabes, coligidas a partir do século IX; Os Contos de Cantuária, de Geoffrey Chaucer, em finais do século XIV, na linha do Decameron, de Giovanni Bocaccio; a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, e o D. Quixote de la Mancha, de Cervantes, do século XVI / XVII; A vida e opiniões de Tristram Shandy, de Laurence Sterne, em pleno século XVIII; o Manuscrito encontrado em Saragoça, de Jan Potocki, do século XVIII / XIX, ou até Charles Dickens, já no século XIX, nos Cadernos de Pickwick, são obras abertas, cuja estrutura é determinada pela sequência dos acontecimentos e não por uma ideia prévia de acabamento.

Vão-se concretizando, aparentemente sem grandes preocupações de perfeição; imaginamos, pelo menos, que poderiam ter sido continuadas sem perda. Nos nossos dias é um bom exemplo, a obra 2666, de Roberto Boloño (1953-2003) e cuja maior “perfeição” está na riqueza imensa e contínua dos acontecimentos, múltiplos e cruzados, e onde talvez não se possa falar de perfeição porque não é preciso, a sua grandeza ultrapassa muitos cânones.

De resto, todo o movimento das artes plásticas na modernidade rompe com o conceito de perfeição clássico, embora, mesmo que não queira, aponte no sentido de outros, porque toda a obra humana pressupõe aperfeiçoamentos possíveis e estes, um limite que, como tal, é insuperável.

Por fim, e voltando a uma perspetiva filosófica, algo pode ser perfeito por aquilo que é, como o conceito de Deus que é perfeito em si mesmo, e por aquilo que vale, como uma obra de arte que alcançou, na consideração geral, valor insuperável. 

Mas também por aquilo que é e por aquilo que vale, numa espécie de síntese ontológica e axiológica, que é a obra humana depois de feita. A qual, embora ainda suscetível de aperfeiçoamento, rompe, pela sua envergadura e poder, os cânones anteriores e solicita outros que, mais tarde ou mais cedo, aparecerão, exigindo outra ideia de perfeição que será deles, idealmente, coroamento e ápice. 

João Boavida

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

APAGAMENTO

Se o grande sol que nos alumia
fosse tão eterno, como parece,
isso, de algum modo, permitiria
acreditar que nem tudo fenece.

Se o sol eternamente durasse,
haveria maneira de supor
que a Terra por mais tempo ficasse 
vivificando-se com o seu calor.

Mas o sol tem os seus dias contados,
mesmo que os dias sejam milhões de anos.
E, quando esses anos forem passados,

memória de gregos e de troianos
ter-se-á de todo desvanecido
deste planeta para sempre esquecido.

Eugénio Lisboa

A Minha Pátria é a Língua Inglesa

Por Eugénio Lisboa
Ressuscito este meu texto, publicado há muitos anos, no quinzenário JL, por me parecer que a sua pertinência não é hoje menor do que nessa altura. Ainda não há muito, em determinada situação particular, o nosso MNE, que tutela o Instituto Camões (promotor da língua portuguesa) instruía que cidadãos portugueses se lhe dirigissem EM INGLÊS.
Bons tempos em que era possível a Pátria de Fernando Pessoa ou a de qualquer outro cidadão de Portugal ser a língua portuguesa! E note-se que o Fernando, assim agarrado a essa bóia de salvação identitária, até dominava perfeitamente a língua inglesa, em clave arcaizante. Mas não, agarrou-se, tenazmente, ao idioma de Vieira, a quem chamava, com orgulho e carinho, imperador da língua! E fez, da língua portuguesa, a sua nave de argonauta. Hoje, vivemos em tempos bem diferentes.

Na época em que vivia e operava o poeta da Mensagem, o inglês era, em Portugal, uma língua falada por poucos, entre os quais, em grande evidência, ele mesmo. Mais tarde, o Jorge de Sena ainda atirava à cara dos portugueses o inglês que ele traduzia (ficcionistas, poetas e historiadores da literatura), enxovalhando-os com a sua (deles) ignorância desse idioma imperial. O inglês era apenas para os “happy few”, que se gabavam de o possuir, como relíquia fora do alcance dos outros, num país de pacóvios, que viviam à custa de um francês mal amanhado, mas que ia permitindo uma certa “actualização” muito reduzida – era, enfim, o que se podia arranjar. O francês, seja como for, dominava e qualquer gato-pingado se julgava capaz de ser tradutor (com os resultados que frequentemente se viam). 

Hoje, as coisas mudaram: o francês, literalmente, desapareceu do horizonte cultural e também dos outros horizontes lusíadas, e o português está em vias de extinção. O português “não rende”, não permite “fazer figura”. Falar português é, para os snobs de hoje, o que era, para os de ontem, andar de botas cardadas: é rústico, é ridículo, não se usa. Só para labregos. O inglês é que se tornou a nossa língua para todo o serviço. 
Já não há firmas de limpeza, há, sim, “cleaning companies”. Ontem, por exemplo, fui ao centro comercial de Oeiras, situado, não no “Parque de Oeiras”, mas sim no “Oeiras Parque” (bem à inglesa). Logo no topo de tapete rolante de acesso ao centro, topei com uma agência de viagens com o nome esplendidamente britânico de Best Travel. Mas, antes disso, ainda antes de me meter no tapete, dera já com um empregado que empurrava os carrinhos para compras vazios, ostentando uma solar camisa amarela com a seguinte inscrição nas costas: “Outsourcing paquete”. Num percurso de não mais de cinquenta metros, a caminho do cinema (quase totalmente tomado de assalto por filmes falados em inglês), deparei com várias jóias, que dão testemunho de que “a minha pátria é a língua inglesa”: “Zara Home”, “Love Sex”, “Shop on Line”, “Hot Hot Promotions”, “Rituals – Home and Body Cosmetics”, “Silver Field”, Stone by Stone”, “Português Café” (em vez de, tal como em português caseiro e saudável, “Café Português”), “Sacoor Brothers – Woman and Kids” (ainda por cima, com um erro: “woman” em vez de “women” – não tem grande importância, o Hemingway também não sabia que o plural de “woman” era “women”...), “Spring in the City”, “Colors of the Spring Are in the Air”, etc. etc. 
Como disse, tudo isto, num percurso de 50 metros. Se desse a volta ao centro todo, esgotaria, por certo, o glossário da língua de Shakespeare! Já de regresso a casa, embora não pudesse desviar muito os olhos para os lados, por causa da condução do carro, ainda fui dando com uns testemunhos da mudança da língua, em Portugal: 
“We Can Dance”, “Tenda Bar” e por aí fora...
Há dias, num noticiário qualquer da televisão (uma televisão qualquer, tanto faz), tomei conhecimento de um jovem cantor português (portuguesinho da Costa, que se lhe via no porte, na tez e no falar), que se chamava, curiosamente, Richie Campbell! Estranho, não é? Mas não tem grande importância: os nossos “pivots” da televisão e os nossos políticos e “comentadores”, todos descendentes, na língua e não só, dos romanos, têm muita vergonha de dizer “os media” (do latim) e preferem dizer, com uma grande iluminação nos olhos, “os mídia”, à inglesa (os ingleses, é bem sabido, inglesam tudo, porque, além do mais, não são latinos e não sabem latim: perdoa-se-lhe a calinada. Agora, nós... Qualquer dia, leremos Beauchamp, dizendo, não Bôcham, como deve ser, mas sim Bítcham, como dizem os ingleses, totalmente daltónicos para línguas!).

Quando me encontrava em Londres, como Conselheiro Cultural da nossa Embaixada, acontecia-me frequentemente receber cartas de bolseiros ou outros portugueses acabados de chegar à loura Albion... escritas em inglês (razoavelmente mau). Eu, em geral, acusava a recepção dessas cartas, indicando, sibilinamente, que o virem em inglês para a Embaixada de Portugal, oriundas de portugueses, teria ocorrido “por lapso”. Um dos correspondentes, embaraçado, explicou-se: é que, estando a viver em Inglaterra (há poucas semanas), o português “já lhe não vinha com facilidade”... 

É desta massa que se fazem os melhores pacóvios. A verdade é que este nosso provincianismo – irremediável? – está a provocar este facto curioso: se a língua nacional de Portugal é ainda o português, a língua “de facto” está cada vez mais a ser o inglês. Falar inglês, ter grande dificuldade em encontrar o termo português – é “chic”. “Management” é melhor do que “gestão”. CEO é sempre preferível a “Administrador Executivo” ou, simplesmente, “Director”. E por aí fora.

Há, no entanto, palavras que permitem algum resgate do luso orgulho: palavras apenas insinuadas (com as letras substituídas por pontinhos...), como, por exemplo, “F...”, que dão igualmente para as duas línguas. Fuck!, ao menos nestas, safamo-nos de sermos humilhados!

DEVEMOS FICAR TRANQUILOS QUANDO CONFIAMOS A EDUCAÇÃO ESCOLAR A PROFESSORES QUE O NÃO SÃO?

Quem ouviu ou leu as declarações do Ministro da Educação, feitas na sessão solene de abertura deste ano lectivo, sobre o recrutamento de professores e o que a tutela está a fazer "para mitigar as carências que existem” destes profissionais, ficará com a ideia de que, caso os horários disponíveis sejam rapidamente ocupados, não há problemas de maior (ver, por exemplo, aqui e aqui).


E talvez não haja! 

Talvez não haja problema algum numa sociedade, que vai além da nossa, que
- quer que os professores deixem de ser designados como tal e passem a ser designados por tutores, mentores, orientadores...
- rejeita o ensino, sustentando que a aprendizagem pode acontecer sem a intervenção pedagógico-didática do professor;
- cria escolas que publicitam como sua mais-valia o desaparecimento das aulas, a negação do ensino e a transformação do papel do professor.
Nesta sociedade, de que fazemos parte e na qual temos responsabilidade, não se vê propriamente com maus olhos que quem se apresente, em contexto escolar, com funções educativas a um grupo de crianças ou adolescentes não seja bem professor, basta que seja mais ou menos capaz de estar perto deles... Não sabemos bem para quê...

Dizia na televisão, há uns dias, um comentador de economia, a propósito da falta de médicos: "este é um problema sério pois substituir um médico não é a mesma coisa que substituir um professor". E a conversa continuou como se o dito fosse uma evidência.

Portanto, se não faltarem muitos "professores" o ano abre tranquilo. Ou seja, nós, sociedade, ficamos tranquilos e damos tranquilidade ao ministro. 

PS: Não entendi, nas notícias, a ligação entre "tranquilo" e "sem ilusões". É possível ficar-se tranquilo "sem ilusões"?

terça-feira, 6 de setembro de 2022

KING’S ROW

Era “Em cada coração um pecado”
o título brasileiro da obra
e “King’s Row” o do filme aclamado.
De tudo isso, agora, o que sobra?

Sobra muito: uma funda emoção,
a descoberta de um mundo sinistro,
o incesto, o sadismo, a reacção
ao contacto do magistral registro.

A descoberta gritada do sexo,
a fundura secreta do desejo
 a estranha doçura do amplexo,

a viagem à índia de um beijo!
A felicidade e a tragédia
e a loucura, nessa enciclopédia.

Eugénio Lisboa

AS ESCOLAS DO FUTURO VÊM PARA FICAR OU... NÃO!

Notícias sobre educação, que tocam aspectos de grande importância, sensibilidade, saber e responsabilidade, circulam ligeiras numa comunicação social tendencialmente acrítica. Importa encher jornais, telejornais, sites, etc. com informação apelativa capaz de sobressair numa amálgama de informação apelativa. Não importa se ela esclarece ou obscurece, se as suas consequências são negativas ou positivas


Tome-me esta notícia de exemplo:
"Há cada vez mais escolas que adotam modelos fora do convencional. Os livros tornam-se coisas do passado e as aulas não são como as conhecemos. Se há coisa que a pandemia de covid-19 nos mostrou é que o sistema de educação não é algo assim tão rígido como talvez pensávamos. Os alunos foram todos enviados para casa e as aulas passaram a ser lecionadas através do computador ou até da televisão. Esta alternativa de recurso foi temporária, mas mostrou um vislumbre daquilo que as escolas podem ser no futuro."
Continua, enunciando escolas que, no nosso país, 
[se colocaram] "na vanguarda da inovação e procuram novos modelos educativos para as crianças. Já há escolas onde os cadernos não são de papel, mas sim digitais; com salas sem mesas; e onde os telemóveis são mais do que bem-vindos."

Destaca a ‘sala do futuro’, que

"não tem mesas e as cadeiras são giratórias. O espaço tem ainda sofás e pufes para os alunos relaxarem nas pausas do trabalho".
E concretiza, nomeando escolas portuguesas em que a educação do futuro já é presente. Algumas (ou todas?) são privadas, com propina que não é para um encarregado de educação comum. Uma delas sobressai pelo que acima transcrevi e porque
 "Não tem professores: tem tutores. Não tem aulas: tem contextos de aprendizagem".
Ora, nesta notícia (ver aqui), que reproduz a cansada mensagem de renovação da escola, nada é interrogado e nada é acrescentado. A notícia repete o que tem sido repetido, reforça o que "as partes interessadas" pretendem que seja reforçado.


A notícia em causa (em tudo igual a dezenas, centenas de outras recentes) teve eco quase imediato numa outra, não assinada (ver aqui). O título da segunda dá um passo que a primeira não deu: declara que as escolas do futuro "vêm para ficar". Não explica a razão ou razões capazes de justificarem o tom perentório que fecha a discussão. 

Ora, a discussão sobre a educação escolar não está, não pode estar, fechada! Enquanto houver empenho na educação, a discussão está aberta. Logo, cada palavra usada na redacção de ambos os textos continua sob escrutínio. Não há-de ser esta comunicação social submissa a acabar com ele.

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

GRANDES ESCRITORES QUE O NOBEL IGNOROU I – MARCEL AYMÉ

Por Eugénio Lisboa

Alguns dos mais fabulosos escritores do século XX foram completamente ignorados pelos soturnos juízes da Academia sueca, a troco de verdadeiras mediocridades que o tempo já esqueceu e, noutros casos, há de esquecer. 

Hoje escolho, entre os ignorados, Marcel Aymé, porque ando a ler, fascinado e deliciado, a sua colectânea de historietas, fábulas, invenções, fantasias, achados, modestamente intitulada ENJAMBÉES.

Aymé é um prodigioso narrador, um humorista surpreendente e ferino, um escritor de enorme inventiva e fantasia, um manipulador genial das palavras, um ventilador da língua, um lírico originalíssimo, um autor dramático de prodigiosa força – a sua peça, LA TÊTE DES AUTRES é uma das sátiras mais contundentes que conheço, em qualquer língua –, um observador minucioso do mundo real e também do sobrenatural, um fabulista do mais alto gabarito, um irresistível contador de histórias para todas as idades e estações.

Seguramente ficará para os vindouros, porque nasceu já clássico e permanecerá eternamente jovem e sedutor. Um escritor que é criminoso não ler, porque não lê-lo é desperdiçar um dos grandes prazeres da vida. Os do Nobel ignoraram-no porque a palavra “humorista” os assusta, esquecendo-se que a maior parte dos verdadeiros humoristas (não confundir com gracejadores) são gente do mais sábio e do alcance mais universal que existe.

De Aristófanes, passando por Molière, até aos mais recentes P. G. Wodehouse, Mark Twain, O. Henry, Woody Allen, Stephen Leacock, James Thurber, Damon Runyon, Tom Sharpe, Evelyn Waugh, entre muitos outros, todos estes grandes observadores e originalíssimos comentadores do mundo que nos rodeia – e sempre grandes desbravadores dos recursos da língua em que escreveram – são, a meu ver, dos mais indiscutíveis benfeitores da humanidade: pelo que nos ensinam e porque nos iluminam e divertem. Mark Twain é bem maior, mais durável, mais eternamente jovem e provocador do que muitas das nulidades sombrias que o Nobel galardoou mas não consagrou. 

Aymé é um genial desbravador de territórios maravilhosos e inexplorados, é um cantor da música sibilina das palavras, é um portentoso aproximador de palavras improvavelmente associáveis. É um génio da sedução, por várias vias, é, em suma, um dos verdadeiramente grandes. 

O filósofo, conde de Keyserling, passando um dia por Paris, perguntou ao poeta Paul Valéry: “Quem é o vosso maior escritor vivo?” Valéry respondeu prontamente: “É Montherlant, mas não convém dizê-lo” O mundo literário tem destes interditos. 

Eugénio Lisboa

Austrália e Portugal: o mesmo problema, respostas distintas

Por Cátia Delgado

António Duarte, num dos últimos textos que publicou no seu blog – Escola Portuguesa – recuperou  um artigo saído no The Guardian‘I can’t stay. It’s not enough’: why are teachers leaving Australian schools? – que reproduz testemunhos de professores australianos, em tudo semelhantes aos de professores portugueses.

Destacam a desvalorização da profissão como razão de grande relevo para os mais novos optarem por outras carreiras e para os mais experientes a abandonarem, assim como condições de trabalho adversas, com desmérito e secundarização do ensino em prol de funções de natureza burocrática. Deixo alguns exemplos: 

“Está sempre implícito que levantar os resultados dos alunos seria fácil, se os professores apenas ‘fossem melhores’. As nossas competências não são respeitadas ou valorizadas.”

“Os meus dias são preenchidos com gestão de comportamentos, bombardeamento de emails, redigir planificações, marcar trabalhos, dar feedback, informar os pais, definir objetivos aos alunos, fazer adaptações curriculares, reuniões e formações. Sem esquecer a introdução de dados no sistema dentro dos prazos. Se eu pudesse simplesmente ensinar!”

“[Os políticos] esperam que façamos determinadas coisas… confiam-nos a responsabilidade de as fazer, mas na realidade não têm confiança em nós. Sabemos disso porque as decisões em Educação nunca são tomadas com base no que os professores necessitam ou no que aconselham.”

“As turmas são demasiado grandes para poder ser dado a todos os alunos o apoio de que necessitam. Estamos exaustos. Tantos professores espantosos estão a bater num muro, e isto está a ser ignorado pelo governo uma e outra vez.”

Estes problemas, que fazem parte do problema maior aqui em destaque, estão presentes em múltiplos sistemas educativos, os quais podem dar respostas diferentes. Na Austrália a resposta afigura-se diferente da de Portugal.

No caso português, estando a falta de professores – sobretudo devida a aposentações – calculada pelo menos desde 2016 e confirmada em 2021 (vg. Flores, 2016; Nunes et al., 2021), é encarada, agora, como se de um dado novo se tratasse e, logo, governada como tal.

No caso da Austrália, antevê-se a falta de cerca de 4.000 professores para os próximos 4 anos – em Portugal serão precisos cerca de 30.000 até 2030 – o que levou à elaboração de um "plano nacional para combater a escassez” destes profissionais. As causas foram identificadas: degradação do estatuto profissional, desgaste provocado pela pandemia e diminuição de candidatos à formação de professores, bem como reduzidas oportunidades de carreira. Segundo a Ministra da Educação Sarah Mitchel é preciso: 

“garantir que os nossos melhores professores não sintam que precisam de sair da sala de aula para obter um salário mais alto ou para obter uma progressão na carreira”. 

O assunto será tratado a três níveis:

- melhores condições para o ensino;
- novas estruturas de remuneração;
- uma carga de trabalho reduzida. 

Não sabemos qual o grau de comprometimento político com estas intenções, contudo, ele parece distante do português. Este apela ao remedeio a curto prazo e por vias que descredibilizam ainda mais a docência, nomeadamente através do abaixamento da qualificação que dá acesso à profissão. 

Fica, pois, a nota de que, na nossa realidade, ao nível político, seria possível – ou pelo menos, seria desejável – fazer um esforço para considerar medidas instigadoras do recrutamento de candidatos com formação e perfil adequados à docência e da retenção dos professores que ainda persistem em ensinar com consciência de que têm nas suas mãos a responsabilidade pelas novas gerações.

Rui Couceiro, “Baiôa sem data para morrer”, (Porto Editora, 2022). 446pp.

 “Baiôa sem data para morrer”, da autoria de Rui Couceiro, foi a minha leitura de verão. A apresentação do livro em Lisboa teve lugar, em junho, na Casa do Alentejo, onde aproveitei para comprar o livro e recolher o autógrafo do autor. Nessa sessão de lançamento, tanto o erudito Alberto Manguel, que apresentou o livro, como o jornalista e escritor Luís Osório, que moderou a sessão, teceram desmedidos elogios ao livro. Seriam esses louvores honestos ou exagerados? Nada como ler e tirar as teimas. 

Rui Couceiro é licenciado em comunicação social, mestre em ciências da comunicação, reputado editor e estreia-se agora como escritor. Neste seu primeiro livro, conta a história de um professor que, sem colocação e em situação de esgotamento, com um quadro psicológico depressivo, decide fazer uma pausa na sua carreira docente e refugiar-se na terra dos seus avós, numa aldeia do Alentejo profundo. Aí, gradualmente, vai conhecendo e fazendo amizade com os mais variados elementos da população local. Desses habitantes, destaca-se uma pessoa em particular: Joaquim Baiôa, um idoso obstinado em recuperar as casas, fazendo reparações e caiando as paredes de modo a atrair os proprietários, os seus descendentes ou novos moradores para a aldeia. Esta persistência de Baiôa em ressuscitar uma aldeia envelhecida e que vai perdendo rapidamente os seus habitantes – seja por morte natural, por suicídio, por acidente ou pela ida para os lares – é um dos mistérios do livro, assim como misterioso é também o legado científico de um médico que habitara aquela aldeia.  

O professor, personagem principal, é simultaneamente o narrador e partilha com o leitor as suas observações dos acontecimentos na aldeia, assim como as reflexões frenéticas que assolam a sua mente – vejam-se as suas reflexões sobre as insónias ou sobre o café. Distante da cidade de onde veio, depara-se com uma realidade totalmente diferente, seja pela reduzida população e as consequências sociais que daí advêm, seja por ser reflexo de um local ignorado pelos vários poderes políticos, tanto centrais como locais, retrato de um país a duas velocidades. Apesar deste retrato, Rui Couceiro não cai no erro da caricatura fácil da oposição da cidade avançada comparada com a aldeia retrógrada; pelo contrário, à aldeia já chegara a internet (embora com sinal fraco) e alguns habitantes, como a Ti Zulmira, aventuravam-se nos usos mais avançados fornecidos por essa tecnologia. De facto, a tecnologia e as várias redes sociais, surgem com frequência neste livro, remetendo-nos para uma reflexão relativa ao seu uso e vantagens, mas também aos efeitos que têm no nosso comportamento. 

Para Rui Couceiro, o autor, este livro tem que ver com a vida e com a morte. Eu, enquanto leitor, entendo que a morte é apenas o fio condutor, é o evento mais certo da vida real e que aqui atravessa a obra de ficcional, mas o tema principal é a vida e a obsessão por sobreviver ao esquecimento e ao desaparecimento. Mas é também um livro que versa também sobre a amizade e a esperança. Baiôa é esse símbolo da esperança de que é possível recuperar as casas, revitalizar a aldeia, contrariar o declínio demográfico. Quando todos, inclusive os autarcas locais, parecem negligenciar, não acreditar ou já desistiram do empenho em revitalizar a aldeia, Baiôa demonstra que um só homem possui a capacidade de fazer o improvável – o que seria se outros tivessem a mesma vontade e determinação. 

Este é um livro com um ritmo inicial lento, mas à medida que a história avança e a trama se adensa o ritmo também acelera. Contudo nunca deixa de ser reflexivo e de mergulhar na vivência da aldeia e nos segredos das várias personagens. A este propósito, a descrição das personagens é tão perfeita que ficamos afeiçoados às mesmas, a tal ponto que, a certa altura, parece que estamos a ler o relato biográfico de pessoas verdadeiras. Aqui, o real e o imaginário parecem misturar-se, diluir-se. As descrições do narrador tornam esta uma história empática, tocante e ternurenta. O que mais tem este livro? Tem humor, tem mistério, tem drama e tem segredos. Tem, portanto, imensos fatores que nos fazem ficarmos agarrados até ao fim, para tentar descobrir o que acontece no final. 

Este livro tem sido, merecidamente, muito mediático e a crítica tem sido no geral favorável ao autor. Já li e ouvi comentadores afirmarem, quanto à forma da escrita, as semelhanças a um Almeida Garret ou a um Eça de Queirós, eu lembrei-me de Laurence Sterne. Mas este livro não é nada disso e ainda bem. Esta é a escrita de um Rui Couceiro, portanto de um escritor original. Seja pela qualidade literária, seja pelos temas abordados, espero sinceramente que este livro venha a ser recomendado como leitura nas salas de aula das escolas deste país. 

Por agora, a nós leitores, resta-nos esperar por um novo livro de Rui Couceiro. Oxalá não demore. 

Para saber mais:
- Semanário Novo;
- Jornal Público;
- Diário de Notícias;
- Notícias Magazine;
- Jornal de Notícias;
- Prova Oral, na Antena 3;
- Entrevista com Inês Menezes.

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Chamam-me os estores que vão no vento

 

Chamam-me os estores que vão no vento,

O trigo sobre a haste definhada,

O renque de oliveiras,

Os cedros inquebrantáveis na ribanceira,

A andorinha endemoninhada,

Que cai algures do céu limpo,

E a sombra móvel do advento

Que assombra o espelho de água.

Chamam-me as estrelas,

Que caminham pela rua escura,

As rugas abertas

Nas velhas janelas sem bosques,

Os homens com armadura,

O olhar sem coração

E o derriço das nuvens e das flores.

Chamam-me os sinuosos

Postes de iluminação,

Os ratos e a sêmola,

A chuva infrene, o rosto e a lama,

As mãos do homem,

Os espinhos inócuos do ouriço

E as pedras que presentem o fim.

Chamam-me todos em vão.

Perdi-me do teu nome,

Perdi-me de mim,

Minha trêmula e mínima chama.

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

MORITURI TE SALUTANT

Nem o sol nem a morte se encaram
de frente, disse-o um moralista.
Quando todas as esperanças se apagaram
e nada já ofusca a nossa vista,

o sol e a morte não amedrontam
e os que vão morrer vos saúdam:
há muito tempo – os anos não se contam - ,
dizendo: “Morituri te salutant”,

os gladiadores olhavam a morte
de frente e caíam, olhando o sol.
Havia que dar ao morrer um porte

que desse, a gente de um pequeno escol,
a arte de morrer bem levantado,
mesmo sendo o gesto desperdiçado. 

Eugénio Lisboa

FALTA DE PROFESSORES OU DE CONDIÇÕES PARA SER PROFESSOR?

Por Cátia Delgado e Maria Helena Damião

“Não há falta de médicos, há falta de médicos a sujeitarem-se a isto”, declarou uma jovem médica. Referia-se, como se percebe, às difíceis condições para exercer medicina num serviço nacional de saúde que se foi degradando e chegou à profunda crise estrutural que sabemos. A falta de profissionais é um dos seus maiores sintomas.

A frase, transposta para o sistema educativo, sinaliza idêntico sintoma. Atentemos no diagnóstico que tem sido feito nos últimos meses:
- há “falta de professores” sobretudo de Informática, pois a concorrência das empresas no recrutamento de recém formados é uma realidade. A eventualidade de alguém formado nesta área enveredar pelo ensino é muitíssimo reduzida;
- há “falta de professores” na zona de Lisboa e concelhos limítrofes, bem como na zona do Algarve, onde os professores, na sua maioria deslocados, têm de pagar, só pela habitação, um valor próximo de metade do ordenado. 
Tendo em conta só estes dois aspetos, é justo perguntar: qual é o recém-formado que, podendo iniciar uma carreira a ganhar pelo menos o dobro do que se ganha como professor, persiste em entrar no ensino?

A estes aspetos devem somar-se outros, de que ele terá plena consciência: um caminho eminentemente solitário, trabalho pós-laboral (de preparação de aulas, de avaliação, etc.), reuniões múltiplas e demoradas, difícil gestão de comportamentos, burocracia infinita e infundamentada, atribuição de funções que extravasam o ensino, falta de sentido do trabalho, etc. 

Justificar-se-ia, portanto, da parte da tutela, a tomada de medidas de fundo, capazes de, como ela própria reconhece, tornar a docência “atrativa”.

Contudo, as medidas que, nos últimos dias, têm vindo a lume, destinadas a superar a presumível carência de professores, são residuais e de emergência: é preciso que no próximo ano os alunos não fiquem “sem aulas”. Nada de mais substancial se vê! 

Ora, estamos face a um problema estrutural que é muito evidente e…grave: para quem tem qualificação superior, a profissão docente é, cada vez mais, um último recurso, pelo qual se opta se todos os outros falharem. 

No Público, Alberto Veronesi, professor, referindo-se à alegada falta de professores e às respostas governamentais que têm sido avançadas para a mitigar, alerta para o atentado que está em marcha aos “verdadeiros professores”.
“Esta situação (…) conduzir-nos-á a um estado de emergência educativa onde o recurso a “qualquer um” que aceite desempenhar a função de professor (…) seja a prática comum.” 
Não se podem justificar os baixos ordenados pela diminuta qualificação que passa a ser permitida. A premissa deve ser precisamente a inversa: a exigência de recrutar bons professores deve ser acompanhada de condições que lhes permitam ser, efetivamente, bons professores.

AS PERGUNTAS SIMPLES

Se tudo não significasse nada,
se não houvesse sentido nenhum
em que a vida fosse continuada,
com vista a propósito algum,

não tendo sentido fazer sentido,
se ser em vez de não ser se entendesse,
enfim, se o nada fosse intuído,
algo palpável que se conhecesse!

Prás perguntas simples não há resposta,
só com as outras, se pode tentar.
As simples esbarram com uma crosta

que é impossível atravessar.
As perguntas feitas pela criança
abalam toda a nossa segurança.

Eugénio Lisboa

Alcançar a perfeição?

Por João Boavida

A maior ou menor dificuldade com que um artista se confronta para encontrar a forma final que o satisfaça, dependerá de muitos fatores, mas dois me parecem essenciais: Em primeiro lugar, o talento do artista, e em segundo o seu maior ou menor grau de exigência, a sua paciência para perder tempo com os pormenores. 

À primeira vista somos tentados a pensar que o artista talentoso encontra rapidamente e com facilidade a forma perfeita, ou quase, e que o menos talentoso tem mais dificuldade em encontra-la e precisa por isso de mais tentativas e de mais esforço. Embora pareça verdade talvez não seja; quanto muito é uma parte dela. 

Há artistas que pelo turbilhão criador em que vivem desprezam um tanto os acabamentos. Em certos casos somos até levados a perguntar se o cuidar mais da forma não lhes teria reduzido a fogosidade criativa e se, portanto, não se teria perdido o melhor deles. É o que talvez aconteça com Agustina Bessa Luís. Em tempos, numa entrevista, ela disse que poderia cuidar mais da sua prosa, mas que isso lhe tiraria tempo para novas obras. Também penso que ela escrevia demais, mas, se fosse mais cuidada na forma, talvez a apreciássemos menos naquela sua fogosidade impetuosa e característica.

Embora haja artistas que à custa de sentirem «em si o borbulhar do génio», como uma vez disse de si mesmo o poeta brasileiro Castro Alves, e à custa desse génio descuidam muitos aspetos, isso, mais tarde, acabará por somar em seu desfavor.

A pressa não é boa conselheira, e é bom não a confundir com escrita rápida ou, com o traço único em que o pintor consegue dizer o que queria e da melhor maneira. 

Uma verdade não impede a outra. A rapidez das descrições pode ser indispensável ao que se pretende descrever.

Neste aspeto, Aquilino Ribeiro era criticado porque lhe faltava, diziam, profundidade e subtileza psicológica, sobretudo por um excesso de preocupação com a forma. Talvez seja verdade, mas a beleza e riqueza da sua prosa compensam-nos disso, e quem vai ler Aquilino não vai à procura do seu maior ou menor psicologismo e dramaticidade.

Já Camilo Castelo Branco, que também se pode acusar de excesso criativo, não dá muito a ideia de grandes preocupações com a forma, mas não deixa de ter um vincado e poderoso estilo. Se as dificuldades económicas não obrigassem Camilo a escrever tanto e tão rapidamente, talvez tivéssemos melhor, embora a sua obra esteja tão cheia de espontaneidades incomparáveis e tramas tão bem urdidas, que até custa dizer isto.

Podemos talvez concluir que o não emendar realça, em ambos os casos, uma vivacidade e fogosidade que dão riqueza à obra, embora nos fique a sensação de que, com tanto talento, um pouco mais de cuidado os tornaria ainda melhores.

Contrariamente, Eça de Queirós, é sabido, emendava tanto que chegava a desesperar os tipógrafos, que às vezes já tinham as páginas compostas e eram obrigados a alterá-las por causa dos seus perfecionismos. 

E, embora muito diferentes, e talvez por isso, podemos dizer que Eça tinha menos talento que Camilo ou que Agustina? Não me parece. 

Uma coisa é certa, o trabalho oficinal de Eça –  onde somos frequentemente confrontados com a ideia da quase perfeição dos seus textos –  é muito esclarecedor sobre a importância, numa obra, do bem acabado da forma. Eça parecia perseguir a perfeição incessantemente, como se em cada passagem houvesse algures a forma insuperável de dizer aquilo, e ele a procurasse sem descanso. E, quase sem darmos por isso, estamos de novo em Platão e nas formas perfeitas do seu mundo inteligível. É na arte – e talvez também na matemática – que sentimos quão perto estamos, afinal, das alegorias do velho filósofo grego. 

Consideremos agora dois dos maiores, senão os maiores escritores russos desse período de ouro do romance que é o século XIX. 

Dostoiévski não emendava nada porque também estava sempre atolado de dívidas e a precisar urgentemente de dinheiro. Percebe-se que algumas das suas obras teriam muito a ganhar se tivessem sido mais trabalhadas no sentido da contenção. Para escrever O jogador, devido à promessa que tinha feito ao editor, que lhe adiantara dinheiro, Dostoiévski ditou-o a uma estenógrafa, Ana Suitkin, com quem depois casou em segundas núpcias, e que muito o ajudou. A verdade é que, lendo o grande escritor russo, temos frequentemente a noção de que esse trabalho lhe fez falta. 

Já Tolstói emendava imenso. Teve a sorte de não precisar muito de dinheiro, pois era conde e tinha grandes propriedades, embora às vezes o dinheiro não abundasse porque tinha uma imensa família. Mas a sua grande sorte foi ter uma esposa que foi para ele um autêntico Anjo da Guarda. Durante os sete anos que durou a escrita de Guerra e Paz, por exemplo, Sofia Andreevna, sua esposa, fez dos seus textos inúmeras cópias porque Tolstói reescrevia muitas vezes partes inteiras e ela tornava a copiar as suas «intermináveis» revisões.

Podemos dizer que Tolstói é melhor escritor que Dostoiéski, apesar de ser mais bem acabada a sua prosa? 

Sim, enquanto prosador propriamente dito, não enquanto escritor “tout court”, porque não só de boa prosa é feito um grande escritor e Dostoiévski é um bom exemplo disso. Já Turgeniev, outro dos grandes da literatura russo de XIX, tão diferente tanto dum como doutro, devia ser artista de muita oficina, e isso não lhe retira génio, talvez até o tempo lho acrescente. A perfeição do artista é, em todo o caso, um bem inestimável.

Costuma dizer-se que Deus está nos pormenores. Outros dizem, pelo contrário, que quem está nos pormenores é o Diabo. Ambos lá devem estar. 

A frase parece querer dizer o mesmo pegando-lhe por pontas opostas. É pelos pormenores bem cuidados e pelas soluções bem encontradas que o artista chega a Deus, ou seja, à perfeição, ou perto dela. É pelos descuidos e desleixos de pormenor que o Diabo leva o artista à perdição.

Em resumo, quer para o bem quer para o mal, é no detalhe que está o segredo do sucesso ou do insucesso. É bom, todavia, não esquecer que qualquer bom artista é diferente de qualquer outro bom artista, e a qualidade de uma obra joga-se em inúmeros aspetos, impossíveis de identificar e controlar completamente.

E se pensarmos, por outro lado, na variedade imensa dos recetores – admiradores ou detratores – de uma dada obra, talvez percebamos a infinidade de variáveis que estão em jogo.

João Boavida

UM CAMINHO CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO HUMANISTA?

Entenda-se este texto não como um elogio acrítico a uma nova escola de iniciativa privada, mas como uma reflexão acerca da estrutura curricu...