quarta-feira, 4 de maio de 2011

O fim da Nature e da Science?


Já aqui elogiei o sistema de peer-review, ou de revisão pelos pares, que serve de base à publicação de artigos científicos. Tal como a democracia é o pior sistema à excepção de todos os outros. Tem permitido um progresso notavel, filtra as ideias que não têm sustentação e é um dos grandes pilares da credibilidade da ciência. É incomparavelmente melhor do que o iluminismo auto-ajuda de algum guru alternativo ou que as alegações interesseiras dos marketeers (que gostam muito de ir ao dicionário "pescar" termos científicos por arrasto).

Mas o sistema de publicação científica actual é kafkiano, de acesso restrito e de algum modo do velho mundo editorial do século XX. É absolutamente irracional que os investigadores por vezes paguem para publicar (muitas vezes acontece, por exemplo para incluir figuras), paguem para ler os artigos (as suas instituições ou os seus países) e que uma parte muito significativa do conhecimento publicado não seja de acesso livre. É um absurdo que os resultados de investigação fundamental, feita com dinheiro público, não estejam livremente disponíveis. Isso é algo que as agências de financiamento deveriam exigir.

Muitas vezes os cidadãos têm que pagar para conhecerem os resultados da investigação que é feita com o dinheiro dos seus impostos. Quando há notícias nos jornais sobre grupos portugueses que publicam artigos na Science ou na Nature, se o leitor os quiser ler terá que pagar!

Uma projecto financiado pela UE, chamado LiquidPublication, propõe um modelo de divulgação dos resultados mais parecido com o mundo das redes sociais. O peer-review no sentido clássico iria desaparecer, ou seja não seriam dois ou três revisores convidados pelo editor da revista a avaliar o artigo, mas sim uma comunidade relevante (cientistas da área). As escolhas editoriais ("este artigo interessa e deve ser publicado", "este não é suficientemente inovador") deixariam de existir e a (ir)relevância seria atribuída também pela própria comunidade (tal como em última análise acaba por acontecer com os artigos científicos actuais).

A ideia é que publicação seja mais rapida ("Post, don't publish") e que os cientistas passem menos tempo a escrever artigos (já que são avaliados pelo número que publicam, o que induz algumas perversões) e a rever artigos para satisfazer as exigências dos revisores. E que tenham mais tempo para fazer investigação e eventualmente para interacções mais informais e construtivas com os seus pares. E que os resultados da investigação cheguem mais facilmente a outros intervenientes sociais, como as empresas, e que estes possam dar algum retorno aos cientistas.

Pode ser que seja isto, talvez seja outra coisa. Mas o processo de disseminação dos resultados científicos está a mexer, tal como todo o mundo editorial. Cada vez mais algoritmos que funcionam com base na reacção dos utilizadores substituem os editores. A publicação científica também não vai ficar na mesma. Vamos ver para onde vai.

"A forma como isto acabou é triste"

Na sequência do meu texto Uma interrogação, escrito, reconheço, num tom algo circunspecto, venho, neste pequeno apontamento, destacar duas reflexões que ouvi e que felizmente contrariam a atitude a que me referi.

Uma reflexão é da lavra de João Gobern que, na sua crónica de rádio de ontem, dia 3 de Maio, relembra a racionalidade que deve guiar o nosso pensamento e os nossos actos em circunstâncias com aquelas a que me referi no texto indicado. São menos de cinco minutos de escuta, os bastantes para nos fazerem lembrar que somos pessoas, e que em circunstância alguma devemos abdicar dessa condição.

A outra reflexão é D. José Policarpo, Cardeal Patriarca de Lisboa que, em entrevista a Secundino Cunha, assinalou isso mesmo: a exclusão da dignidade, inerente a essa condição de se ser pessoa, que, por vezes, talvez vezes de mais, ousamos fazer. Subscrevo inteiramente as suas palavras que rematam a dita entrevista: "A forma como isto acabou é triste."

Astro.PT, um caso de sucesso


O portal Astro.PT, que recentemente completou 4 anos de existência, tem crescido a olhos vistos, sendo já hoje uma referência para todos aqueles que procuram notícias e discussões vivas e interessantes em português sobre o Cosmos. É, também, a prova de que é possível criar um projecto online na área da divulgação científica tendo como principal combustível o contagiante entusiasmo de vários colaboradores, de várias áreas, com várias formações e interesses. Com mais de 100 mil visitas por mês, deixo aqui o meu público e sentido abraço de parabéns e de renovado entusiasmo a todos aqueles que contribuem activamente para o sucesso desse projecto! E é particularmente recompensador (para quem o acompanha) reparar que se trata de um projecto que coloca a si próprio mais e mais ambiciosos desafios, como é o caso do magazine mensal que agora produzem! E, parece-me, o céu não é mesmo o limite para os seus fundadores...

Resposta a um comentário ao meu post "O Homem Contemporâneo do Futuro"

“Ao colocar a vasta questão: o que faz com que o homem seja homem? Verifico que há a sua cultura, por um lado e o seu genoma por outro, é claro. Mas quais são os limites genéticos da cultura? Qual é o seu bloco Genético? Não sabemos nada sobre isso. E é pena, porque este é o problema mais apaixonante, o mais fundamental que há” (Jacques Monod, Prémio Nobel de Fisiologia e Medicina/1965).

A minha entrada no maravilhoso mundo computacional chegou tardiamente com a minha condição de sexagenário em vésperas de septuagenário. Daí, na minha qualidade de uma espécie de bota-de-elástico em quase divórcio (mesmo sem um matrimónio anterior) das novas tecnologias informáticas, continuo a procurar na minha modesta biblioteca pessoal água para matar a minha sede de conhecimento.

Curiosamente, foi ainda estudante do ensino superior (1952) que tomei conhecimento da Cibernética e da “mutação” do seu significado através de milénios. Assim, na minha curiosidade (não aquela “curiosidade que mata o gato”), vim a descobrir que cibernética significava para Platão (427-348 a.C.) “a arte de conduzir um navio” e para Ampére (1843) “o estudo dos meios de governo das sociedades”, cabendo a Wiener (1948) ir desencantá-la das coisas com a poeira dos tempos para nomear o “antigo governo de uma máquina com certa autonomia e capacidade de iniciativa e sua aplicação ao estudo do sistema nervoso”.

Quando escrevi o meu despretensioso post, “O homem contemporâneo do futuro” (31/05/2011), nunca me passou pela cabeça ser confrontado com as teorias sobre a linguagem saídas da pena de psiquiatras, psicólogos, psicanalistas, linguistas, cientistas sociais, etc., para não me sentir um anão rezingão entre gigantes da razão. Por isso, foi com a humildade, aqui confessada, que li o artigo da Net ”The Language Instinct”, de Steven Pinker, que me foi aconselhado com a pouco simpática citação que me sentou no banco dos réus sem ter a meu lado Vargas Llosa com o seu pequeno artigo, “Pensar como um macaco”. Foi esta a citação: “Do the really good students never use abbreviations and creative uses of spelling when writing an SMS? Using alternative spellings always imply the person is ignorant of standard spellings? An intelligent speaker isn’t able to use and understand alternative spellings, just as anyone can understand different accents (and use different accents, in fact)? So, if I use “SMS-lingo” in my SMS (and not in my exams), am I sinning against the Religion of Language?” Aceitei e tive a sua leitura como mais uma tese sobre uma controversa temática que está longe de encontrar o desfecho de uma síntese consensual.

Mas não me ative a uma única leitura na Net de um reputado psicólogo e linguista da Universidade de Harvard: Steven Pinker. Desloquei-me às prateleiras em que se alinham os meus livros, para leitura e releitura, em busca do livro “Jean Piaget e Noam Chomsky debatem TEORIAS DA LINGUAGEM – TEORIAS DA APRENDIZAGEM” (O Saber da Filosofia, edições 70, s/d, 513 p.p.). Versa ele um único debate científico havido entre os defensores da epistemologia genética e da linguística generativa , realizado entre 10 e13 de Outubro de 1975, na abadia de Royaumont. Debate com a participação de antropólogos, psicólogos, linguistas, biólogos, geneticistas celulares,etc., em número de duas dezenas e meia. Dessa participação realço o nome de Jean-Pierre Changeux (por uma questão de ser um leitor compulsivo da sua vasta e valiosa obra), de que transcrevo o início da introdução da sua comunicação, intitulada “Determinismo genético e epigénese das redes de neurónio: existe um compromisso biológico possível entre Chomsky e Piaget?”. Reza esse início: “É uma situação difícil para um neurobiólogo apresentar factos e interpretações que emanam do seu próprio campo de pesquisa no contexto de um encontro entre Chomsky e Piaget. Estes dois eminentes cientistas consagraram anos de trabalho aos dois comportamentos mais complexos e mais elaborados do homem: o conhecimento e a linguagem . Sendo a minha experiência neste domínio praticamente negligenciável, limitarei a minha exposição a alguns exemplos que dizem respeito à neurobiollogia do sistema nervoso periférico nos vertebrados” (p. 267). Abreviando razões, as teses académica entre o inatismo e o construtivismo, com as suas inúmeras teses e antíteses está longe de chegar a uma desejável síntese.

Antes de terminar este meu texto, - cujo seu comentário agradeço por me dedicar a atenção e a oportunidade de uma pequena gota de água doce num mare magnum salgado de nomes ilustres que se fizeram, e continuam a fazer, arrojados mareantes duma tormentosa viagem sem fim à vista -, quero deixar bem claro que me referi, apenas, ao caso de alunos que utilizam a escrita abreviada dos SMS nas provas escritas escolares por serem incapazes de separá-la da escrita que obedece a uma ortografia e a uma gramática correctas. Ou seja, por outro lado, em que o (ab)uso dos correctores de texto suprimem uma falha que pode levar a simples manuscritos de algumas simples linhas chumbarem no antigo exame da 4.ª classe com erro palavra sim, palavra não . Ter o meu modesto post como o atrevimento do sapateiro que vai além da chinela pintada por Aples é injustiça que julgo não merecer.

E digo porquê: graças a Deus, ainda tenho a noção das minha limitações que não busca respaldo num pousar constante em artigos da Net. Aliás, para mim, consulta muito limitada por ser um analfabeto funcional numa rede de comunicações em que os mail's chegam às mais distantes paragens do globo num simples abrir e fechar de olhos quando as cartas do correio, ainda poucos anos atrás, demoravam dias ou meses a chegarem ao seu destino. Isto sem falar em tempos centenários da malaposta!

Aqui, sim, enviando e e recebendo mails diários, sinto-me como peixe dentro de água! Aqui, sim, sou um homem desta era informática! Aqui, sim, sou "o homem contemporâneo do futuro", a arrastar os pés trôpegos, que a idade vai consentindo, no íngreme e árduo caminho das Novas Tecnologias da Comunicação e Informação. Aqui, sim, desafio a vox populi que nos quer convencer que "burro velho não aprende Línguas"!

terça-feira, 3 de maio de 2011

O HOMEM CONTEMPORÂNEO DO FUTURO

“Para um escritor vale mais o cérebro do que um computador” (Norbert Wiener, criador da Cibernética, 1894-1964).




“O problema não é que os computadores pensem como nós, mas que nós pensemos como os computadores” (Erich Fromm, 1900-1980).

Sem pôr em causa ou, sequer, tentar beliscar, ainda que ao de leve, a opinião de Louis Pauwels (“Le Matin des Magiciens”) de que “o homem para estar presente necessita de se transformar em contemporâneo do futuro”, o texto de Mário Vargas Llosa, por mim transcrito neste blogue, “Pensar como um macaco” (01/05/20111), não deve ser entendido como um ataque às novas tecnologias. Apenas legitima o grande e respeitoso amor do seu autor pela beleza da frase e pela força da palavra escrita que não devem ser prostituídas pela linguagem dos SMS, das redes sociais e dos próprios políticos.

É exemplo disso, a resposta de Mário Vargas Llosa (ele próprio político candidato à presidência do Peru, em 1990) à entrevista do jornalista argentino Jorge Halperin quando lhe é feita a pergunta : “O que faz um escritor com as palavras quando as usa como políticas?" Resposta de Vargas Llosa: “Para um escritor, a linguagem é seu bem mais precioso. É uma relação que envolve enorme cuidado, respeito, quase uma reverência religiosa. Ela é trabalhada de maneira muito pessoal porque é através dela que criamos nossa identidade como escritor. Já para o político, a linguagem é apenas um instrumento. Como ele quer chegar ao maior número de pessoas, ele a simplifica e a repete. Por isso, em política, é irresistível o uso de estereótipos, clichês, estribilhos, tudo o que em literatura significa palavra morta.” Para Llosa, portanto, o verdadeiro inimigo da língua reside em todo o atentado que possa ser feito naquilo que distingue o homem dos outros animais : a palavra oral e escrita! Palavras bem ditas e bem escritas, porque sujeitas a padrões de uma exigente Gramática.

Só quem nunca teve alunos universitários a não conseguirem articular uma simples ideia de improviso, a redigirem dois pensamentos seguidos ou a serem incapazes de interpretar um pequeno texto que saia da linguagem do dia a dia ou do esotérico jargão desportivo, é que não alcança, em toda as sua extensão, o problema dos verdadeiros crimes que se cometem na oralidade escrita ou falada, questão pertinente levantada por Vargas Llosa, com a autoridade de um "Prémio Nobel da Literatura", sem a despreocupação de uma questão de lana caprina por defender com a dureza da sua convicção pessoal que “os jovens que abreviam palavras nas redes sociais e nos SMS pensam como macacos”.

Aliás, tempos houve em Portugal, a partir do meio da década de 70 do século passado, em que uns tantos professores para a "frentex" e uns tantos teóricos do ensino defendiam: desde que o professor decifre o que o aluno quer escrever nada mais devia ser exigido. Por outro lado, o corrector de textos dos computadores da nossa utilização diária tomou para si o papel que a falta de ditados das antigas escolas do ensino primário criou e sustenta. O diabo está no que respeita às palavras manuscritas…

A factura deste laxismo que se andou a cometer, e continua a cometer, no ensino da Língua Portuguesa faz com que muitos alunos não consigam resolver problemas de Matemática que estão ao alcance dos seus conhecimentos da matéria, mas que erram por deficiente interpretação dos respectivos enunciados. É esta geração de futuros políticos que continuamos a formar e que perpetua e dá consistência à geração de 80, criticada por António José Saraiva, tido por Eduardo Lourenço “como uma referência chave da cultura portuguesa”. Escreveu António José Saraiva: “No Parlamento mais valia que os senhores deputados em vez de dizerem asneiras, dormissem”.

Aqui, sim, as mensagens por SMS que os deputados trocam entre si ou com o exterior fazem a obra benemérita de os despertar da sua sonolência por estarem sentados a fazerem a digestão do almoço e, simultaneamente, obrigados ao desumano sacrifício de terem de ouvir despertos, para no final aplaudirem, as asneiras léxicas dos seus pares no uso da palavra tribunícia em que, com raras excepções, o brilho de uma peça oratória do século passado de José Estêvão é substituída, nos nossos dias, pelo apregoar repetitivo das virtudes da banha da cobra.

Mas a televisão, ela própria, se faz palco da asneira sem nexo e sem concordância gramatical e da palavra de péssima sonoridade dos seus apresentantes que tão depressa apresentam programas de carácter popular e/ou recreativo como se atrevem a fazer entrevistas de carácter político, científico ou cultural com a bóia de salvação do auricular em contacto directo com a “régie” que os orienta nas perguntas a fazer. Que distante e saudosos tempos da rádio em que o improviso, a cultura geral e a dicção dos locutores era o cartão de apresentação de quem lançava a voz bem timbrada através das “ondas do éter”!

“Seria possível, numa regressão da riqueza léxica, a humanidade continuar a orgulhar-se do espólio literário dos seus grandes prosadores e não menores poetas do passado se o seu acervo tivesse chegado, por exemplo, aos escaparates das livrarias ou às biblioteca actuais em escrita abreviada dos SMS?

Seria ingratidão para com os milhões de anos de evolução que deram ao homem a posição bípede libertando-lhe as mãos para a manipulação de objectos, mas sem lhe desvendar, até hoje, os segredo ocultos numa “caixa negra”, na linguagem poética de Charles Sherrington (detentor do "Prémio Nobel de Fisiologia", 1932), um “tear mágico” que encerra os segredos da massa cinzenta do homo sapiens sapiens. Anos mais tarde, em finais de 70 do século passado, David Krech, figura respeitada no estudo das neurociências confessa, com humildade, que “a neurofisiologia encontra-se num sótão escuro procurando um gato escuro sem a certeza de ele lá estar; seu único indício são leves ruídos que parecem miados”.

Mas, por seu turno, os computadores, com o seu incomensurável poder de armazenamento de informação, não estão (ainda?) capacitados para substituirem a emoção e sentimentos - que, segundo António Damásio, “constituem a base daquilo que os seres humanos têm descrito desde há milénios como alma ou espírito humano” -, com trunfos que o levam a um jogo ganho à partida. É este o drama de um mistério com que se debate a nossa era e que só o devir se encarregará de desdramatizar ou não! Mas, como nos ensina Eric Hoffer, “a única forma de prever o futuro é ter poder para formar o futuro!”

Uma interrogação

Ligo a televisão e vejo um cavalheiro de meia-idade bem vestido. Tem aspecto de grande especialista. Muitíssimo bem-disposto, salienta que a Bolsa sofreu um movimento positivo, que o dólar subiu…

Só a seguir captei a razão da sua manifesta boa-disposição: o abate, ao que parece certo e seguro, do “inimigo público n.º 1” do Ocidente ou, até, do Mundo, planeado e executado por um ou vários países que reconhecem e invocam os Direitos Humanos.

Intrigada com a relação que estabeleci (estaria certa?), resolvi seguir o noticiário com atenção e devo dizer que percebi duas coisas que nunca me passariam pela cabeça.

Percebi, como disse, que a morte de alguém pode causar agitação nos mercados bolsistas. Falta-me entender como é que tal pode acontecer... Se algum economista me está a ler, compreendo que me chame ignorante, mas posso sempre invocar que o meu olhar é o de alguém que está noutra área, não sei se feliz ou infelizmente distante da sua.

Percebi, também, que neste mundo (que se vê na televisão, na rádio e nos jornais) muitas pessoas, mesmo muitas, alegraram-se imensamente com o dito abate, ao ponto de comemorarem desenfreadamente pelas ruas; outras, como economistas, militares, políticos, jornalistas, comentadores e demais fazedores de opinião, evitaram, com precisão cirúrgica, pronunciar-se sobre a legitimidade do dito abate, o que é muito estranho pois era disso que tratavam.

Na verdade, apenas ouvi duas ou três vozes negligenciarem a finança e a segurança (que segurança?) e recordarem que, por razões que entendo não ser preciso explicar aqui, o acto em causa em nada honra a Civilização.

Nunca a Europa e os Estados Unidos tiveram tão elevados índices de escolaridade como neste início de século, mas, tristemente, isso não parece fazer grande diferença em momentos cruciais, quando os Valores essenciais da Humanidade estão em causa.

Não sei se é a evidência de que o investimento na educação formal está, em grande medida, a falhar nos seus propósitos de preparação para a cidadania, mas estou certa que é uma interrogação que não se pode nem se deve evitar.

MUSEU FORA DE PORTAS

Informação recebida do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra.

14 de Maio 2011 11H00-12H00.
Mercado Quebra-Costas Pátio Castilho


O planeta Terra tem todos os recursos necessários para a Vida. A água potável, os minerais e os alimentos que consumimos são alguns exemplos. Estes recursos são indispensáveis para as necessidades básicas do dia-a-dia e para a qualidade de vida a que estamos habituados.


Mas será que estes recursos vão existir sempre? Estarás a consumir o suficiente ou em exagero?


Vem perceber o impacto que as nossas acções podem ter no Planeta e aprender como podes contribuir para a construção de um mundo melhor.


MAIS INFORMAÇÕES
- participação gratuita
- 11H00-12H00
- a partir dos 5 anos

Café de Ciência com o biólogo Bruno Pinto

Sobre conservação da Natureza em Portugal.

 15 de Maio (Dom) às 17h na FNAC Vasco da Gama

DIABETES: NOVA DESCOBERTA NA REGULAÇÃO ENERGÉTICA



Crónica semanal no "Diário de Coimbra".

“Quer açúcar?” “Não. Quero adoçante, se faz favor”, responde um senhor generosamente obeso. “Não tarda chega o Verão e é preciso perder uns quilitos...Olhe hoje até é o Dia Internacional do Sol” acrescenta, cúmplice, o funcionário. Enquanto despeja o edulcorante no café matutino, o cliente responde-lhe resignado: “Era bom se conseguisse. Mas não consigo. Sabe, sou diabético. E o medicamento que ando a tomar para controlar o açúcar no sangue, faz-me engordar. Estou melhor da diabetes, mas estou mais gordo do que antes.” “Eu não percebo nada disso…” responde-lhe o funcionário, “Mas já é muito bom se o medicamento lhe controla a diabetes.”


Na década de 90 do século passado foi introduzida uma classe de fármacos designados por tiazolidinedionas (TZDs) na terapia da diabetes mellitus tipo 2. Estes fármacos (ver aqui uma actualização dos farmacos actualmente usados no tratamento da Diabetes mellitus tipo 2), de toma oral, melhoram a sensibilidade de alguns tecidos à insulina, o que potencia a assimilação de glicose. Isto contribui para a redução de níveis altos de glicose (açúcar) crónicos no sangue. Contudo, a terapia com as TZDs causa um aumento considerável de peso e apetite. Isto faz com que a adesão a este tipo de terapêutica (que pode substituir a injecção de insulina) seja difícil, uma vez que muitos dos doentes com diabetes tipo 2 combatem uma obesidade instalada que potencia outras complicações.

As TZDs actuam num receptor localizado na membrana nuclear das células adiposas conhecido pela sigla PPAR-γ (do inglês peroxisome proliferator-activated receptor γ). Este receptor tem sido positivamente relacionado como tendo um papel integrador em vários processos metabólicos patológicos como a já citada diabetes, mas também a obesidade, a aterosclerose, e outras genericamente englobadas na síndrome metabólico.

De facto, sabe-se que o PPAR-γ é activado por lípidos (gorduras) para induzir a expressão de genes envolvidos nos metabolismos lipídico e dos hidratos de carbono (açúcares). É uma espécie de tradutor de sinais provindos da nossa nutrição em respostas metabólicas, via activação da expressão de determinados genes. A compreensão do seu papel transporta o nosso enfoque no entendimento das doenças metabólicas para dentro do núcleo celular.

A acção das TZDs é a de “estimular” o PPAR-γ e a resposta metabólica é a de aumentar a assimilação de glicose para dentro das células do tecido adiposo, através de um aumento de sensibilidade à acção da insulina. Contudo, verifica-se um aumento concomitante na síntese de lípidos o que leva ao aumento da massa gorda armazenada. A hiperglicémia diminui, mas o paciente engorda! Para além disso, um aumento no apetite é verificado em pacientes tradados com TZDs o que não ajuda nada na vontade de perder ou pelo menos não aumentar de peso!

Mas há boas notícias. Num estudo publicado a 1 de Maio na revista Nature Medicine investigadores da Universidade norte-americana de Cincinnati, liderados pelo endocrinologista Randy Seeley, desvendaram o papel, até agora desconhecido, de receptores nucleares PPAR-γ existentes em neurónios do sistema nervoso central, na regulação do balanço energético do organismo. Descobriram que a sua activação por TZDs está envolvida na manutenção do apetite. Ao bloquear os recetores PPAR-γ, ou ao diminuir a sua expressão no sistema nervoso central, os investigadores conseguiram restaurar a sensibilidade à leptina (uma hormona responsável pelo controlo do apetite no cérebro) e modelar um balanço energético negativo em ratos sujeitos a uma dieta rica em gorduras.

Os resultados agora divulgados têm implicações positivas na utilização clínica de drogas derivadas das TZDs e vem permitir também racionalizar a etiologia da obesidade induzida pela dieta.

Segundo os autores do estudo, a acção diferencial do receptor PPAR-gama no tecido adiposo e no cérebro, quando activado por TZDs, produz efeitos aparentemente paradoxais. Este estudo pode melhorar quer as terapias existentes para a Diabetes mellitus tipo 2 baseadas nas TZDs, quer a dieta recomendada para modelar a acção do PPAR-γ a nível cerebral.

António Piedade

CIÊNCIACIDADE

Informação chegada ao De Rerum Natura.

A história da ciência está repleta de atravessamentos de fronteiras, o que sugere que a interdisciplinaridade é afinal um novo conceito para um antigo modus faciendi. O diálogo interdisciplinar surge entre áreas do conhecimento que, dos pontos de vista fenomenológico e epistemológico, se podem considerar distantes. Neste caso as migrações de certos conceitos para o âmbito das humanidades, das artes ou da arquitectura, assumem muitas vezes um significado exclusivamente metafórico. No caso da arquitectura pretende-se analisar a questão do abundante uso de referências científicas – da biologia, da matemática e da física — discutindo se são simplesmente retóricas, ou se poderão representar uma alteração de paradigma como é sugerido por alguns.

No livro Ciênciacidade, Paula Serra de Oliveira e Francesco Marconi conduzem-nos numa visita à arquitectura das primeiras construções à modernidade.

A apresentação é no Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho, no Departamento de Física - pólo I da Universidade de Coimbra na próxima 5,ª Feira, dia 5 Maio, às 18h00.

A entrada é livre.

FARADAY NO CHIMICO

Informação chegada ao De Rerum Natura.

Faraday foi um dos primeiros grandes divulgadores de ciência. Juntava na Royal Institution imenso público interessado, especialmente jovens, nas suas famosas Christmas Lectures.

Algumas das suas célebres demonstrações serão apresentadas por Sérgio Rodrigues e Filipa Oliveira em dois Laboratorios Chimicos históricos:

Museu da Ciência da Universidade de Coimbra - nos dias 3 Maio, 24 Maio e 7 Junho, às 15H00;
Museu de Ciência da Universidade de Lisboa - nos dias 12 Maio, 26 Maio e 9 Junho, às 15H00.

A entrada é livre.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Depois de dez anos de uso pacífico... uma queixa.

Professores, algo atónitos, têm-me pedido opinião acerca de livros de apoio à Educação Sexual no Ensino Básico que, como se sabe, se tornou, recentemente, obrigatória e tranversal no currículo. Fraca opinião posso dar, por ficar igual e invariavelmente... atónita.

Assim, percebo que outros educadores, por exemplo, pais e mães, fiquem no mesmo estado. Digo isto apesar de nunca ter falado com nenhum a este propósito. Li, no entanto, hoje uma notícia no jornal Sol (on line) que corrobora o que acima disse.

Ao que parece, uma mãe norte-americana folheou o livro que a sua filha de dez anos usava na escola para sustentar as aprendizagens nesta área e... interrogou-se sobre a pertinência educativa do seu conteúdo. Mas não ficou por aqui: fez uma queixa formal contra a escola.

Parece que foi a primeira queixa em dez anos de uso do dito livro (na imagem), pelo qual cerca de 25 000 alunos já haviam estudado.

A escrita na comunicação de ciência e tecnologia em Portugal



Caros leitores e comunicadores de ciência.

Estou a fazer um estudo subordinado ao título deste post, por interesse próprio e no âmbito de uma investigação minha. Agradeço muito a Vossa colaboração respondendo ao seguinte questionário aqui.

Os resultados obtidos, assim como a sua análise e discussão serão publicados e também disso darei aqui expressão.

Obrigado

António Piedade

Sobre Abel Salazar (1889-1946)


Novo post do historiador António Mota de Aguiar:

Abel Salazar nasceu em Guimarães, num quarto de hotel, que os seus pais alugaram após o casamento, por não terem ainda casa. Teve mais um irmão, Camilo, que morreu ainda jovem, e uma irmã, Dulce, sua biógrafa.

Seu pai era um homem culto, afoito às artes e aos problemas da ‘res publica’ (Norberto Ferreira da Cunha, Génese e Evolução do Ideário de Abel Salazar, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1998, obra que seguirei ao longo deste artigo, e cujas referências escreverei em italico), que, por razões profissionais, foi, no ano lectivo de 1881-1882, transferido para o Porto. Abel e Camilo não seguiram os pais, ficaram a viver em Guimarães, em casa da avó e de uma tia. Abel Salazar guarda as melhores recordações de sua infância do tempo passado em casa da avó.

No ano lectivo de 1899-1900, com dez anos, ingressou no Seminário-Liceu de Guimarães, e, não obstante ter sido um aluno distinto, guardou deste tempo amargas e perduráveis recordações, pela obscura e intransigente educação religiosa ministrada neste estabelecimento. Também Guimarães, o Burgo Pôdre, como escreveu um jornal vimaranense da época, deve ter influenciado a sua infância e adolescência e concorrido para a sua “instabilidade emocional”, como nos diz Jaime Celestino da Costa no prefácio das 96 cartas de Abel Salazar escritas a seu pai. Uma união conjugal sem amor influiu igualmente na sua atormentada vida, embora, a meu ver, bastante rica, pelos múltiplos desafios que enfrentou como cientista, filósofo, escritor, crítico de arte e pintor.

Ainda jovem, aderiu ao ideal republicano e imbuiu-se de ideias “revolucionárias e generosas” de “Uma sociedade de tal modo evoluída que ‘dispense’ qualquer forma de autoridade externa e se cinja tão-somente à que é imanente à consciência moral e à razão, liberta de dogmatismos e purificada pela ascese”, como escreveu Sampaio Bruno. Agnóstico, filósofo positivista defensor das ideias do Círculo de Viena, Abel Salazar era anticlerical e anti-jesuíta, ideias que muito cedo se instalaram na sua mente, e, pode-se dizer, nunca mais o largaram até ao fim da vida, embora se contem entre os seus amigos pessoas ligadas ao clero.

Em 1903 matriculou-se na 4.ª classe, no Liceu Central do Porto, “um casarão”, como ele lhe chamaria, e do qual também recolheu más recordações. No ano lectivo 1906-1907 concluiu a 7.ª classe de Ciências e ingressou na Academia Politécnica do Porto e, em 1909, na Escola Médico-cirúrgica do Porto, tendo sido um aluno escrupuloso no cumprimento dos seus deveres. Segundo a sua irmã, Dulce, Abel Salazar queria ser engenheiro, mas terminou como investigador científico na área da medicina.

Nos anos lectivos 1913-1915, foi convidado para 2.º assistente de Anatomia Patológica, que desempenhou com inteira satisfação dos seus mestres. Em 1915, quando terminou o curso, recebeu vários convites para ingressar na carreira universitária, que declinou, enveredando pela investigação em histologia. Em 1916 o Conselho da Faculdade de Medicina do Porto encarregou-o da regência da cadeira de Histologia.

Em 1918, com 30 anos, foi nomeado Professor Catedrático de Histologia e Embriologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Pouco tempo depois funda o Instituto de Histologia e Embriologia da mesma Faculdade. Começava, assim, uma carreira brilhante dedicada à investigação científica, que duraria 10 profícuos anos, que o tornariam internacionalmente conhecido.

Na primeira metade da década de 20, empreendeu uma série de pesquisas tendentes a definir e esclarecer a estrutura e evolução do ovário, criando o célebre método, que tem o seu nome, de coloração tano-férrico, de análise microscópica, que lhe abriu caminhos no meio científico, tornando-se internacionalmente conhecido e publicado em várias revistas internacionais. Porém, por volta de 1927, Abel Salazar sofreu um esgotamento, que o afastou da Faculdade. Em 1931, quando regressa, encontra o seu gabinete desmantelado, contudo, não desistiu da investigação científica, passando a fazê-la em casa e continuando a publicar importantes trabalhos de índole científica.

Em 1935 (juntamente com outros professores universitários), a Ditadura despediu-o da sua cátedra, do seu laboratório, e proibiu-o de entrar na Biblioteca da Faculdade. E se, alguma vez, depois da sua demissão, acalentou a esperança de voltar à sua Faculdade – convicto de que justiça lhe seria feita -, em breve viu essa esperança esfumada. Solicitando autorização ao ministro da Instrução para leccionar um “curso de Histologia e de Sistemática do Sistema Nervoso” para uso dos médicos, foi informado pelo Governo Civil do Porto que o seu pedido fora indeferido, igualmente solicitou, ao mesmo ministro, permissão para frequentar os laboratórios e bibliotecas da Faculdade, sendo informado por Almeida Garrett, então seu director, que, por despacho ministerial, lhe fora vedado o acesso a qualquer dependência universitária. E, quando pensou fazer a sua vida no estrangeiro, aproveitando ora uma bolsa do British Council, ora alguns convites que lhe foram endereçados de França, EUA e Inglaterra, o visto de saída foi-lhe recusado.

Isso levou Abel Salazar a escrever, em 1936, na sua 55ª Carta ao seu amigo e colega de Lisboa, Celestino da Costa, o seguinte:

“Confesso que o que me irrita é não me consentirem em ir ao laboratório, ou pelo menos à Biblioteca do Instituto fazer consultas bibliográficas, coisa perfeitamente estúpida e sem qualquer utilidade. Que mal poderia eu fazer na Biblioteca: lançar bombas? "

A Ditadura não era estúpida: era perversa, cria acabar com qualquer vestígio, fosse ele científico, dos que saiam da sua ideologia. Após os despedimentos mencionados, foi-lhe movida uma perseguição. Na carta 56ª que escreve ao seu amigo histologista de Lisboa, dá conta da teia que lhe estão a mover:

“Se não sou político não estou com esta Situação, tenho esse direito, creio eu, como também tenho o de não entrar para a União Nacional” (…). Acusam-me também de sugestionar os estudantes, o que é verdade mas no sentido de se criarem a liberdade de espírito e uma educação científica sólida, em oposição com uma educação metafísica nebuloso e estéril."

E mais à frente escreve:

“(…) Os elementos da Ditadura no Porto queriam-me impor a “reclamação”, o que eu não estava disposto a fazer, nem estou. Propuseram-me concordatas, plataformas, etc., mas eu respondo sempre que não tendo sido nunca político, não tendo ligações políticas, nem pertencendo a nenhum partido, não tinha que fazer concordatas nem reclamações”. (…) Mas precisamente porque não sou político é que nunca aceitei os benefícios que a Ditadura me ofereceu em tempos a troco duma adesão. Todas as minhas aspirações se resumem em viver livremente, trabalhar e ter uma actividade intelectual livre”.

Ser livre… estava precisamente nas antípodas da Ditadura.

Abel Salazar não foi só médico histologista reconhecido internacionalmente, foi também pedagogo, escritor, critico de arte, filósofo das ciências e pintor, tendo-nos deixado numerosos e variados testemunhos do seu talento.

Como pintor, pensava como muitos críticos desta época: “a Arte pela Arte quase não faz sentido. O que faz sentido é a arte pela justiça a arte pela vida, a arte para enobrecer e melhorar os homens”, a arte pela arte, pensava ele, “reduzia o trabalho da inteligência a uma quinquilharia do espírito”. Para Abel Salazar a arte devia defender os desprotegidos, especialmente as mulheres, as quais pintou com profusão nos seus quadros. A sua expressão artística, o impressionismo, a maneira expressiva e dramática dos seus temas, revela uma elevada riqueza plástica.

Antes da sua demissão, em 1935, o histologista portuense, efectuou várias conferências de divulgação, mas, a partir desta data, as conferências cederam lugar aos artigos, tendo passado a escrever em vários periódicos: O Trabalho, A Voz da Justiça, O Diabo, O Sol Nascente, a Seara Nova, a Pensamento, e outros. Sobretudo nos jornais O Sol Nascente e Diabo, levou a cabo uma intensa divulgação do Empirismo Lógico do Círculo de Viena.

Em 1937 foi acusado por Casais Monteiro e, sobretudo, por António Sérgio, de simplismo nos seus artigos de vulgarização. Este confronto de ideias resultou de enorme dureza, sobretudo o que teve com António Sérgio, mas deixaremos para outra oportunidade a análise desta polémica.

A acção política de que Abel Salazar foi vítima perturbou, sobremaneira, a sua actividade científica, contrariando a sua cátedra e a investigação histológica que fazia, tornando-nos a nós todos mais pobres, por aquilo que poderia ter aportado ao avanço da ciência em Portugal.

António Mota de Aguiar

Reuniões de bolseiros


Informação recebida da Associação de Bolseiros de Investigação Científica (ABIC)

Durante as próximas duas semanas, a Associação de Bolseiros de Investigação Científica (ABIC) irá realizar nos diversos institutos e cidades do país reuniões de Bolseiros de Investigação.

Estas reuniões servirão para ouvir os problemas dos bolseiros nos seus institutos, recolher contributos para a acção da ABIC a nível institucional e reivindicativo e preparar o fotoprotesto que terá lugar até ao dia 13 de Maio por todo o país.

Estas iniciativas têm ainda como objectivo o recrutamento de sócios para ABIC e a sensibilização dos partidos políticos candidatos às eleições legislativas para os problemas dos bolseiros de investigação.

Reuniões da ABIC a nível nacional já agendadas:

Porto - 5 de Maio na FEUP;
Oeiras - 4 de Maio no ITQB (entre as 13-14.30h)
Coimbra - 5 de Maio no auditório do CES às 18h
ICS e ISCTE - 5 de Maio, 16h, Sala C407 (Edifício II Iscte)
IST - 6 de Maio (sala V1.14, Pavilhão de Civil)

Passa a palavra. Participa nas sessões de esclarecimento e divulga o FotoProtesto 2011.

Votos de bom trabalho,

A Direcção da ABIC

--
Direcção da Associação dos Bolseiros de Investigação Científica (ABIC)
Para receber informações regulares da ABIC
Para se tornar associado

Esperanças bombásticas...

a supernova Tycho Brache aos olhos do telescópio espacial Chandra


A minha crónica semanal no jornal i

11 DE NOVEMBRO DE 1572. Início da noite. O que o notável astrónomo Tycho Brahe viu iria transformar a sua vida, mas também a compreensão sobre o grande mistério dos céus. Com 25 anos na altura, foi um privilegiado espectador de um evento raríssimo: a explosão de uma estrela! Na altura, pensava-se que no Reino dos Ceús tudo é perfeito, mecânico, ordeiro. O espalhafatoso aparecimento de um grande e brilhante ponto no céu desafiava toda a filosofia de Aristóteles. E Brahe desconfiou que alguém ou algo estava errado! A astronomia moderna diz-nos que o que Bache presenciou chama-se "supernova" e que se trata do último suspiro da vida de uma estrela massiva ou, então, quando num sistema binário, uma das estrelas suga matéria da companheira até chegar à autodestruição. E, especulava-se, teria sido este último caso o que aconteceu na supernova de Brahe. Mas, então, o que aconteceu à "estrela sugada"? Sobreviveu à dantesca explosão? Recentemente, o telescópio espacial Chandra descobriu um "pedaço de fumo a sair da pistola"! Escondido nas ondas de choque, detectou-se material da estrela sobrevivente! Pele de um arranhão, digamos. E eis um belo exercício de desconstrução científica: os astrónomos conseguiram descobrir que o período orbital dessas duas estrelas seria de cinco dias e estavam separadas por um valor inferior a um décimo da distância Terra-Sol. Eis uma mensagem de esperança: mesmo a mais bombástica das explosões deixa sobreviventes!

CONTAS DE MERCEEIRO

Começo a preocupar-me deveras com um país em que as finanças parecem administradas numa espécie de contabilidade de merceeiro que se preocupa com o dinheiro entrado nas gavetas do balcão e se despreocupa com o dinheiro que delas sai.

E porque, segundo, Henri Bergson, “não existe cómico fora do que é propriamente humano”, a estas contas de merceeiros prefiro os cálculos feitos por economistas com uma boa mochila de conhecimentos da matéria com que lidam no seu dia-a-dia profissional. Pese embora o conceito irónico, que paira sobre esta profissão de exigentes estudos universitários, quando define o economista como o indivíduo que leva metade do tempo a dizer-nos o que vai acontecer e outra metade a dizer-nos por que é que não aconteceu!

Mas o tempo de crise económica e social que preocupa os cidadãos nacionais não está para cigarras que deixam o trabalho para as formigas como nos conta a fábula de Esopo, recriada por Jean de La Fontaine.No PEC IV, um nado-morto que persiste nas lágrima saudosistas de José Sócrates, constava, ao que se diz, que os subsídios de Natal e de férias era uma benesse para esquecer quando, na maioria das vezes, servem, apenas, para fazer compras úteis que a magra bolsa de ordenados mensais está longe de suportar.

Este facto, motivou da minha parte o parágrafo de prosa que transcrevo do meu post “Será que a política em Portugal não tem emenda?” (18/04/2011):

“Por outro lado, fala-se também em cortes no subsídio de férias e no subsídio de Natal (desconhecendo-se a percentagem desses cortes). Esta última medida, a acontecer, terá como consequência a falência de médios e pequenos estabelecimentos comerciais que sobrevivem à custa de balões de oxigénio das vendas natalícias, passando a recair sobre o já martirizado povo (que não usufrui rendimentos de economias paralelas), sobrecarregado por uma já tão pesada carga fiscal, o ónus de pagar os impostos, que, ipso facto, deixarão de ser cobrados pela fazenda pública. Aumentará, ademais, a taxa de desemprego, com particulares consequências na população jovem, de meia-idade ou, mesmo, mais idosa, aumentando a instabilidade socioprofissional que mina, de há tempos a esta parte, uma juventude de licenciados que é obrigada a ter que lamentar os seus estudos como um sacrifício vão para si e para o agregado familiar que os suportou”.

Nem de propósito, uma dúzia de dias depois, dou comigo a ler, num semanário de referência, um bem documentado artigo de opinião (a página inteira), intitulado “Programa para Portugal é mais vasto do que o da Grécia ou da Irlanda” (Expresso, 30/04/2011). Desse artigo, transcrevo este pequeno parágrafo:

“A subida do IVA é mesmo inevitável mas nada está ainda fechado quanto à eliminação total ou parcial dos subsídio de Natal e férias (ou o seu pagamento em títulos da dívida pública). As negociações ainda decorrem para que se encontrem medidas com efeitos semelhantes. Estas medidas foram aplicadas noutros países por terem efeito imediatos, mas quer o FMI quer a Comissão Europeia estão particularmente atentos aos efeitos colaterais que podem ter na economia".

Julgo que alguns destes efeitos colaterais estão bem expressos na análise por mim feita, três parágrafos acima, aos reflexos que esses cortes de subsídios podem trazer, a saber: 1. falência de pequenos e médios estabelecimentos comerciais; 2. fecho de pequenas e médias fábricas nacionais que os abastecem de mercadoria; 3. aumento acelerado da taxa de desemprego; 4. em consequência, diminuição substancial do caudal de impostos que entram nos cofres do Estado.

Para além de poder estar a pregar no deserto, corro, ainda, o risco de ser havido como sapateiro que foi além da chinela pintada por Apeles. Seja como for, encontro confortável arrimo nos versos de Irene Lisboa: “Mas assim me apetece, / que o entendam ou não, / que o admitam ou não, / escrever…”

Na imagem: livro de contas de merceeiro.

domingo, 1 de maio de 2011

Entrevista a um investigador da educação finlandês

Catarina Gomes, jornalista do Público, entrevistou Jouni Välijärvi (na fotografia ao lado, da autoria de Ricardo Silva), investigador em Educação na Finlândia.

Pelo interesse de que esta entrevista, publicada na edição de hoje do jornal, se reveste, transcrevemo-la integramente. Não para seguirmos o "modelo finlandês", como este investigador refere no final, mas para pensarmos no nosso.



Defende que um dos segredos do sucesso finlandês é a qualidade do ensino primário. Por que é que os professores da primária têm tanta popularidade? Tem muito a ver com a nossa história. A Finlândia só é independente há 100 anos e os professores primários eram colocados por todo o país para espalhar a identidade nacional. É umas razões que explicam uma popularidade tão alta. Ser professor primário é tão prestigiado como ser médico ou advogado: os pais querem que os filhos sejam professores primários e, quando perguntam aos miúdos que acabaram o secundário que carreira querem seguir, a profissão surge nos dois primeiros lugares. E muitos dos que têm essa ambição não a conseguem alcançar, porque é muito difícil entrar para o curso.

A popularidade estende-se aos professores do secundário? Depende das áreas. No secundário, muitas vezes ir para professor não é uma primeira escolha, é um recurso, e isso tem reflexos na motivação dos professores e na aprendizagem.

Por que é que ser professor primário é tão apelativo? Uma das coisas mais importantes é a autonomia, em que cada professor organiza o trabalho como entende, por isso a questão da avaliação é muito sensível. As aulas estão muito fechadas sobre si mesmas, o que é uma força do sistema mas também uma fraqueza. Mas o facto é que os pais confiam nos professores e nas escolas.

Na Finlândia, o ensino primário prolonga-se por seis anos, as crianças ficam durante este período com o mesmo professor. Isso é importante? Sim, é a base de tudo. Costuma ser um professor que trabalha com eles ao longo dos seis anos, mas há escolas que dividem os anos por dois professores e pode haver outros professores que ajudam nalgumas matérias, por exemplo, em Matemática ou Desporto. Fica ao critério da escola.

Os poucos chumbos que existem são na primária... Analisando os alunos do 9.º ano, constata-se que só 2,6 por cento chumbaram e a grande maioria foi na primária. É mais eficaz reter um aluno um ano no início do que este ter que repetir um ano mais tarde, porque é uma altura em que estão a ser dadas as bases. Os professores finlandeses têm expectativas muito altas em termos académicos, incluindo os primários, mais até do que noutros países nórdicos. Por exemplo, na Dinamarca o ensino está mais centrado no bem-estar e felicidade das crianças do que nos resultados académicos. O modelo finlandês mistura os dois factores, preocupa-se com a felicidade e com a parte cognitiva, o que se traduz na aquisição de certos níveis na Escrita, Leitura e Matemática, algo que também já é importante na pré-primária.

O que faz com que um professor seja bom?
Perguntámos isso a alunos e concluímos que é quando sentem que percebe do tema que ensina e também, e este aspecto é interessante, quando sentem que se interessa por eles e está disposto a ter conversas que lhes dizem algo e que não têm necessariamente a ver com a cadeira que lecciona.

Questões como a sexualidade?
Sim, mas também quando o professor os ajuda a escolher o caminho que vão seguir, que está disposto a discutir com eles o porquê das suas escolhas.

As escolas finlandesas têm turmas pequenas. Este poderá ser outro factor de sucesso? São pequenas e os professores defendem que devem ser ainda mais pequenas. Eu sou céptico em relação à utilidade de reduzir as turmas. Actualmente, na primária, em média, temos 21 alunos por turma, no secundário 19. Eu acho que não é possível chegar a um número óptimo, que a dimensão das turmas deve depender dos alunos, do que se ensina. Até porque ter turmas mais pequenas significa ter mais professores e isso implica aumentar gastos. Penso que o dinheiro pode ser usado para criar mais apoios de acordo com o contexto de cada escola: há escolas em que 15 por cento são imigrantes.

Uma das conclusões da OCDE é a de que pagar bem a professores resulta em melhores resultados, porque aumenta a sua motivação.
Até certo nível. O importante são as condições de trabalho como um todo, o salário é um sinal. O mais importante é os professores sentirem que, quando têm dificuldades, não estão sozinhos, o que não é o caso em muitos países.

A Finlândia é um dos países onde se passa menos tempo na escola
.Quando se está na escola está-se concentrado na escola, quando se sai vai-se fazer outras coisas, são tempos perfeitamente separados. Na Coreia [outro país bem classificado no PISA], os alunos levantam-se às 6h00 e voltam a casa às 21h00, e ainda têm que fazer trabalhos de casa. Para estes jovens, a escola e a educação são tudo na vida. Os finlandeses, entre tempo na escola e trabalhos de casa, passam um total de 30 horas por semana, face a 50 horas da Coreia.

Moral da história?
A forma como os países conseguem bons resultados é completamente diferente. Esse é o reverso da medalha destes estudos internacionais que incentivam a imitação. Os países podem aprender uns com os outros, mas tem que se ter muito cuidado em transplantar modelos.

As crianças não têm noção do que se está a passar aqui hoje

Contaram-me e depois li nos jornais: a Comissão Central da Queima das Fitas 2011 fez um apelo para que “os mais novos vestissem o traje académico de Coimbra”. Os mais novos eram crianças entre os três e os cinco anos que frequentam jardins-de-infância da região.

Trinta escolas responderam ao apelo e muitos encarregados de educação consentiram, talvez até com entusiasmo. Pelas contas a que tive acesso 1.043 crianças “transformaram-se em «doutores da cidade»” e integraram um longo do Primeiro Cortejo dos Pequenitos que, no dia 29 de Abril, desfilou durante horas pelas ruas, onde os outros «doutores», os verdadeiros, desfilarão daqui a poucos dias.

Muita gente se envolveu e foi ver: pais e mães, avós e avôs, educadores, estudantes da universidade, jornalistas e todos os que não faltam a uma animação deste género. A chuva desviou-se para outras bandas e só apareceu no fim do evento.

Tudo numa grande animação: “cartolas de todas as cores, bengalas, capas e batinas, foram os elementos que deram cor às crianças” – leio num jornal. Noutro leio “Os «finalistas» rodavam a bengala na cartola, os mais pequeninos abanavam a pasta com as fitas e todos juntos mostraram aos crescidos que também sabem cantar o F-R-A.”

No final foi “servido um lanche e apresentado um programa de animação, com palhaços, magia, música e teatro”. Por quem terá sido patrocinado? Não consegui apurar…

Detenho-me em depoimentos de "estudantes a sério" que se voluntariaram para apoiar o desfile (ao que parece, foram 150):
Um deles: “Estas iniciativas criam uma maior relação entre a própria cidade e os estudantes (...) A Queima-das-Fitas não é só ir ao parque ouvir as bandas”.
Outro: “As crianças são a vida da cidade. É importante mostrar um pouco a criatividade das crianças ao serem estudantes em miniatura”.
E outro: “As crianças não têm noção do que se está a passar aqui hoje, mas um dia vão adorar recordar este momento”.
E, ainda, outro: “Além de ter animado as crianças, «dinamizou a Baixa» da cidade”.

Detenho-me, a seguir, na intenção de um certo jardim-de-infância mostrar que os pequeninos podem dar o exemplo, uma “lição”, aos mais crescidos, “que tantas vezes cometem excessos”. Para tanto, criou uma quadra: «sem álcool sim/ com água e sumo/ não fazemos chinfrim/ e a vida tem outro rumo».

Cândido, tudo isto parece absolutamente cândido. E justificável, tantas são as boas intenções subjacentes... E consensual, pois nem uma ténue interrogação pude perceber nos jornais. Porque será, então, que me sinto estarrecida?

Continua aqui.

Notas:
- Propositadamente, não ilustro este texto com fotografias. Mais uma vez imagens de crianças são divulgadas, entendo eu, de modo abusivo.
- Para perceber melhor a dimensão de uma "tradição académica" que se iniciou neste ano e que veio para ficar, poderá o leitor clicar aqui, aqui, aqui ou aqui.

Ensaio sobre a cicuta

No âmbito do 13.º Festival de Tema Clássico, estreia, na próxima segunda-feira, dia 2 de Maio, às 21h30, no Teatro Paulo Quintela da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, a peça Ensaio Sobre a Cicuta, a nova produção do grupo Origem da Comédia em parceria com o grupo de teatro clássico Thíasos.

Haverá outras representações desta peça: 18 de Maio, no Machado de Castro, em Coimbra; 25 de Maio, em Conímbriga; 9 de Julho, em Braga;15 de Julho em Coimbra, de novo.

No dia 18 de Maio, à tarde, haverá ainda um conjunto de conferências sobre as relações entre Platão e o teatro, seguido de uma conversa com os encenadores e outra com os actores.

Uma das mais importantes descobertas do Século XX !


Se alguém lhe pedir para citar as dez ou mesmo as cem descobertas científicas mais importantes do século 20, você provavelmente não se lembrará do processo de síntese da amônia. Essa descoberta, contudo, é de enorme importância e foi determinante para configurar a situação econômica e ambiental existente atualmente em nosso planeta.









PENSAR COMO UM MACACO


Embora não me esteja, nem pouco nem muito, no jeito, a transcrição de notícias de jornais sem as comentar, abro uma excepção para esta que diz tudo por si só e que em tudo estou de acordo. Intitula-se ela “Em defesa da Gramática: Vargas Llosa contra linguagem da Net” (Expresso, 30/04/2011).

É este o teor da referida notícia:

“Os jovens que abreviam palavras nas redes sociais e nos SMS ‘pensam como macacos’, considera o escritor peruano Mário Vargas Llosa. O Nobel da Literatura de 2010 considera, numa entrevista à revista uruguaia ´Búsqueda’, que a Net ‘liquidou a gramática´, gerando uma espécie de barbárie sintática’. E justifica: ‘Se escreves assim, é porque falas assim; se falas assim, é porque pensas assim, e se pensas assim pensas como um macaco. Isso parece-me preocupante. Talvez as pessoas sejam mais felizes assim. Talvez os macacos sejam mais felizes do que os seres humanos. Não sei.”

O corte das pensões de reforma acima dos 1.500 euros mensais

“A respeito da Política – chamo a tua atenção para a nova palavra ‘verborreia’ com que no artigo classifico a nossa eloquência S. Bental” (Eça de Queiroz, 1485-1500).


Hoje em dia com a televisão a entrar-nos pela casa dentro, a qualquer hora do dia ou da noite, essa verborreia, através do canal “Parlamento”, poupa-nos o incómodo de nos sentarmos nas bancadas “S. Bentais” destinadas ao público anónimo que aí se desloca. Por outro lado somos bombardeados, numa tentativa de lavagem ao cérebro, com intermináveis e constantes debates televisivos em que uns senhores, engravatados e de casaco ou de casaco sem gravata, debitam o seu caudal de opiniões. Umas para levar a sério, outras para entrarem por um ouvido e saírem pelo outro, ou mesmo pelo mesmo, sem accionarem as interconexões neuronais da caixa craniana, com visões apocalípticas ou com soluções de santo milagreiro para a crise que açoita Portugal de lés-a-lés. Um país em que, segundoo economista Eduardo Catroga, “o Governo de José Sócrates devia ir a tribunal; o fartar vilanagem foi uma tragédia nacional” (“Expresso”, 30/04/2011).


Entretanto, na noite do passado dia 29 de Abril, na “RTPN”, o eurodeputado Paulo Rangel, que me habituei a ouvir com atenção quando deputado aquém-fronteiras, pelo seu discurso equilibrado e raciocínio lógico, defendeu a diminuição das pensões de reforma acima de 1.500 euros mensais, a exemplo dos vencimentos dos funcionários públicos no activo. Num Portugal em que, segundo Eça, “tudo tende à ruína… num país de ruínas”, como que é pretendido, agora, escorar essas ruínas à custa do corte de pensões moderadas dos reformados. Esqueceu-se o autor da proposta, porventura, que as reformas se têm degradado pelo facto de não estarem indexadas ao salário dos funcionários no activo, como sucede, por exemplo, com os magistrados numa forma de justiça que não ouso sequer pôr em questão. Ou seja, defendo, apenas, uma igual justiça a ser estendida aos outros funcionários públicos fazendo com que a democracia portuguesa não aceite que os homens, como escreveu Orwell, sejam todos iguais embora haja uns mais iguais do que outros.


Entende, assim, Paulo Rangel que uma reforma deste “exorbitante” montante deve ser cortada sem dar ocasião a que os reformados tomem para si a queixa de uma das personagens de Arnaldo Gama: “Para isto é que eu vivi! Malditos anos! Maldita velhice!”. Ideia bem diferente expressou recentemente o fiscalista Diogo Leite Campos ao dizer que 10.000 euros mensais, emagrecidos para pouco mais do que metade pelos impostos, são pouco “para casa, roupa lavada, comida, instrução dos filhos, doença e tudo o mais”. E acrescentou, ainda, em defesa da sua tese (ou melhor, opinião pessoal), que em qualquer país europeu é este o vencimento auferido pela “classe média baixa”. Esta mesma situação transposta para os reformados de uma “classe média baixíssima” é agravada pelo facto de longe ir o tempo em que a “velhada” não suportava o encargo dos filhos no desemprego ou o auxílio prestado à educação dos netos. E pior do que isso, em que devido aos achaques próprios da idade, para salvar os dedos passou a deixar os anéis no pagamento mensal de dispendiosas contas de farmácia.


Mas porque é de reformas que estamos a falar, torne-se esta temática bem mais abrangente encarando a injustiça criada para quem mais tempo trabalhou, mais investiu na sua preparação académica e quem mais descontou para o efeito. Tomemos o exemplo de dois professores do ensino não superior. Um, de posse de uma licenciatura, reforma-se ao 7O anos de idade. Outro, ao abrigo do estatuto de uma aberrante carreira docente (apadrinhado por Roberto Carneiro na pia baptismal de um sindicalismo herdado de tempos revolucionários), de posse de um curso médio, um ano antes de se reformar, aos 52 anos de idade, compra, em meia dúzia de meses, uma "licenciatura" numa escola “superior” privada. Por mais incrível que pareça, se ambos aposentados no mesmo ano terão "direito", exactamente, ao mesmo valor de reforma mensal.


Encare-se a analogia com dois indivíduos que tenham feito os seus depósitos bancários com diferentes quantias mensais: o primeiro com mensalidades menores e a duração de 32 anos; o segundo durante quarenta e tal anos com mensalidades maiores. Seria justo que no final destes depósitos a quantia levantada por ambos da instituição bancária pudesse ser exactamente a mesma? Por esta e por outras, assistimos ao facto da Caixa Geral de Aposentações se encontrar em situação difícil ao presentear, os que menos tempo trabalharam, menos investiram na sua formação académica e menos descontaram para a sua aposentação, com a mesma reforma dos que mais tempo trabalharam, mais investiram na sua formação académica e mais descontaram para a sua aposentação. A acrescentar a este facto, dever-se-á ter em conta de que a esperança de vida do primeiro depositante, depois de reformado, é bem maior do que a do segundo depositante. Poder-se-ia ter esta aberrante situação como sendo da mais elementar justiça?


Mesmo aqueles que, deserdados da fortuna deste favorecimento, como diria Garrett, com “pesares que os ralam na aridez e secura da sua desconsolada velhice”, resolvessem sair à rua para reivindicar os seus direitos, mancando de uma perna ou de outra, anquilosados com doenças reumáticas, arquejantes com o “os bofes a saltar-lhes da boca para fora”, nem sequer conseguiriam merecer a compaixão do seu semelhante preocupado com os seus próprios e difíceis problemas.

Para além disso, o desastroso destino económico do país - com as suas implicações na bolsa do Zé-povinho, enquanto Francisco Louçã, fundador e dirigente do Bloco de Esquerda, passou as férias em Cabo Verde como que imune à crise da terra que o viu nascer porque, como nos diz o povo, “longe da vista, longe do coração” - está traçado pelo Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia. Ou seja, a opinião ou simples alvitre do eurodeputado Paulo Rangel em cortar nas reformas acima dos 1.500 euros faz dele mais papista do que os papas que nos emprestarão dinheiro sob condições por eles previamente ditadas. Ora, em mau augúrio, Portugal parte para estas negociações na posição desvantajosa de ter os credores a baterem-lhe insistentemente à porta dos cofres vazios da Fazenda Nacional.


Todo o resto é simples retórica de quem possa pretender mudar as linhas do destino traçado na palma da mão de um país do extremo ocidental europeu que vai passar, em pouco mais de três décadas e meia, de colonizador a colonizado!

O grande político

As «soluções à portuguesa» propostas ao País por Paulo Futre são excelentes, adequadas e vão ao fundo do sentir português. Não trazem, é certo, nada de novo, ou que não se conheça já, mas são convictas (repare-se na pose), estimulantes, (vibra como um grito, aquele amarelo), e assentam numa tradição (garantia Licor Beirão). E quanto a agilidade, quem as poderia produzir melhor que ele? Ou seja, são propostas com uma sedução que hoje nenhum político dispensa, mas com uma força que nenhum dos atuais tem.

As mensagens são claras. Para o problema do desemprego, propõe «cunhas para todos». O que vai ao nosso jeito, mas é sobretudo justo. Por que razão é que só os próximos do poder, ou dos influentes, têm direito a cunha? Havendo democracia, deve haver cunhas para todos. E a partir do momento em que todos tenham direito à cunha, acabam-se as injustiças. O facto, porém, de haver cunhas fortes e fracas, e isso poder produzir novas injustiças, terá que ser ponderado. Mas mais tarde, nem tudo se pode resolver à primeira. Agora fica assim, depois se avaliarão as consequências.

Outra proposta muito interessante para acabar de vez com a nossa incapacidade de competir (em produtividade, porque na improdutividade não tem havido problemas) é «um diploma de engenheiro para todos os portugueses». Não esquecer que, por motivos sociopolíticos hoje um pouco tolos, se acabou em tempos com o ensino técnico. E que os atuais cursos, ditos técnicos, segundo consta sofrem de falta dela. Ora, para grandes males, grandes remédios: dá-se um diploma de engenheiro a todos e pronto. Haverá assim oportunidade para todos e qualquer dia estamos a produzir como ninguém.

Aliás, a experiência já teve sucesso com muitos, mas terá que se alargar a todos, pois estamos num regime democrático. Desde universidades que ensinam engenharia sem precisar da matemática, a diplomas de feriado e dia santo, de cursos de formação caça-ao-subsídio, a novas oportunidades, para oportunistas profissionais, já quase tudo se experimentou com sucesso. Mas os bons resultados devem chegar a todos para acabar com injustiças. Não esquecer, repito, estamos em democracia. E será também uma maneira de acabar com a má-língua. Todos falam destes diplomas de domingo por causa do Primeiro-Ministro, mas esquecem-se que deve haver milhares de diplomados como ele, e andam todos muito satisfeitos por aí, e se calhar com bons lugares, e ninguém os ataca nos jornais. Não se pode ser político. Os cursos seriam fracos, mas o Governo legalizou, está legalizado, diria Futre.

E está cheio de razão. E quanto a tachos, temos também que acabar com eles, claro; até porque, sendo só para alguns, não é democrático. Acabem pois os tachos. Mas temos que resolver o problema a todos, claro; dê-se, portanto, um woc a cada português. Com nomes novos para as coisas velhas temos as reformas estruturais necessárias. Todos falam mas ninguém se atreve a fazer. Com Futre é diferente: é fácil e de um dia para o outro.

Eis pois o grande político de que precisamos, com estratégias de desenvolvimento que vão certeiras ao coração dos portugueses. Daí o sucesso que prevejo para estas propostas. São soluções despachadas, fáceis de entender, e mais fáceis de aplicar, tal é a prática que temos. Haja coragem, que o sucesso está garantido.

João Boavida

O GENE ANTI-ANTIBIÓTICO




Post na continuação de outros dois (aqui e aqui) sobre a nova resistência bacteriana associada à sigla NDM-1.

O que significa NDM-1?

NDM-1 é a sigla inglesa para “New Delhi metallo-beta-lactamase-1”, uma enzima (proteína com actividade catalítica) que inactiva a acção de uma classe ampla de antibióticos designados por beta-lactâmicos. A sua designação advém de ter sido identificada primeiramente em num doente, turista sueco acidental, em Nova Deli, Índia (há alguma polémica sobre se não teria sido identificada antes).

Os antibióticos beta-lactâmicos são bactericidas, ou seja, causam a morte de bactérias. Alguns exemplos são as penicilinas, a amoxicilina, as cefalasporinas, os carbapenémicos (e.g., Meropeném) e o ácido clavulânico. Na prática, eles impedem que um amplo grupo de bactérias classificadas por bacilos gram-negativos, que nos causam doenças, consiga sintetizar a sua parede externa. A integridade desta parede, qual muralha inexpugnável de uma fortaleza, é feita de uma substância designada por peptidoglicano, e é essencial para a bactéria. Sem ela, a bactéria não consegue sobreviver.





Qual o perigo?

A enzima NDM-1, ao inactivar por hidrólise os antibióticos beta-lactâmicos, confere às bactérias que a possuem resistência a estes. Por outras palavras, os antibióticos de última geração, e até de algum uso restrito hospitalar, tornam-se “subitamente” ineficazes no tratamento de doenças causadas por bactérias que adquiriram o gene que codifica a NDM-1.
Acrescente-se que o gene da NDM-1 não está sozinho. Isto é, esta adaptação bacteriana a uma adversidade ambiental resultou numa solução tipo pacote de genes. O da NDM-1 faz parte de um determinado elemento distinto do cromossoma circular bacteriano, e que contém outros genes que amplificam e facilitam o “trabalho” da NDM-1. Há nele genes que facilitam a rápida disseminação desta resistência para outras bactérias, genes que codificam proteínas que funcionam como autênticas bombas que expulsam os antibióticos para fora das bactérias a eles antes susceptíveis, genes que estimulam as defesas anti-oxidantes das bactérias.
Em resumo: o mecanismo, ainda desconhecido, que levou ao desenvolvimento deste complexo genético, dotou o mundo bacteriano de uma nova arma antibacteriana multifacetada.

Que proteína é a NDM-1?

A NDM-1 é uma metalo-proteína que possui na sua constituição 158 aminoácidos e um átomo de zinco (Zn). A sua estrutura tridimensional foi resolvida recentemente.
Aliás, para se perceber o mecanismo de acção desta enzima e como ela altera a estrutura dos antibióticos com grupos beta-lactâmicos, é essencial conhecer a sua estrutura tridimensional. Por isso esforço científico multidisciplinar foi efectuado no sentido de conseguir o mais rápido possível esse conhecimento. A caracterização da sua estrutura molecular pode ser consultada aqui.
No banco público de estruturas proteicas, vulgo PDB (protein data bank), a sua estrutura está codificada por 1ko3.


A novela da multi-resistência.

O uso excessivo e muitas vezes desnecessário de antibióticos, a resistência bacteriana a eles, é um assunto sempre em cima da mesa da Organização Mundial de Saúde. O problema não é de hoje. Aliás, o desenvolvimento de antibióticos semi-sintéticos beta-lactâmicos de última geração já resultou de um esforço para ultrapassar problemas de resistência bacteriana adquirida contra os primeiros antibióticos, muitos deles já totalmente inócuos.

O caso da descoberta e confirmação da dispersão da NDM-1 entre várias espécies de bactérias que nos causam doenças mortais (entéricas, pneumónicas, etc.) é, contudo, alarmante uma vez que representa um novo mecanismo muito eficaz de resistência bacteriana e que pode colocar-nos numa situação muito semelhante à que existia antes da descoberta e desenvolvimento dos antibióticos (Fleming, penicilina, 1928). A diferença, saliente-se, reside nas incomparáveis condições de higiene, alimentação e saúde pública que hoje caracteriza os países ditos desenvolvidos.

Mas, se nada mudarmos, a nossa capacidade em matar bactérias patogénicas pode reduzir-se alarmantemente.

E outros casos continuam a permanecer explosivos.

O caso da tuberculose extremamente resistente às drogas que possuímos contra ela é um exemplo muito preocupante, relativamente pouco mediatizado, que causou a morte de 150 mil pessoas no ano passado.

É preocupante o número crescente de bactérias que causam infecções hospitalares, como é o caso da Staphylococcus aureus, causadora de pneumonia, endocardite, síndrome do choque tóxico entre outras doenças, e que apresentam multi-resistência à panóplia de antibióticos e drogas de que dispomos.


Também está a evoluir rapidamente a ineficácia dos antibióticos para tratar a gonorreia, doença grave e sexualmente transmissível, causada por Neisseria gonorrhoeae, bactéria que tem adquirido multi-resistência aos antibióticos a ela dirigidos.




Os mecanismos através dos quais as bactérias adquirem resistência aos antibióticos são ainda muito pouco conhecidos e mal compreendidos. É ainda espantosa a rapidez com que novas resistências se espalham e se “instalam” em outras bactérias que não as que a adquiriram primeiramente. É que as bactérias são há muitos milhões de anos assinantes de meios de comunicação muito eficazes na eficiência com que comunicam informação.

E muitos sintomas indicam que o problema se vai agravar e espalhar... entre nós, noutras doenças.


O que fazer?

É necessário implementar todas as medidas de saúde pública que combatam o uso inadequado de antibióticos. A educação e o aumento de cultura científica na população são das melhores defesas que temos contra o desconhecido e contra as doenças.


Por outro lado, o arsenal de conhecimento científico e biotecnológico que hoje possuímos, as robustas metodologias de biologia molecular, bioinformáticas emergentes que permitem um rápido escrutínio de candidatos a novas drogas, a rapidez com que identificamos as biomoléculas alvo para o desenvolvimento de novos medicamentos e a resolução com que identificamos genes e determinamos a sua estrutura tridimensional das proteínas funcionais, cartilha da sua função bioquímica, catapultam a nossa confiança no esforço multidisciplinar científico da humanidade para encontrar novas soluções para novos problemas de saúde.

António Piedade

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