quinta-feira, 6 de maio de 2010

AS PONTES DO NOSSO ABISMO


Reproduzimos crónica do historiador João Gouveia Monteiro, publicada há dias no "Diário de Coimbra", a propósito dos feriados decretados pelo governo por ocasião da visita do papa Bento XVI (na imagem):

A tolerância de ponto anunciada para o dia 13 de Maio em todo o País, por motivo da visita de Sua Santidade o Papa Bento XVI, acompanhada por tolerâncias em Lisboa e no Porto na antevéspera e no dia seguinte, respectivamente, convidam-me a considerar aqui um tema que já pensara tratar por ocasião do feriado da terça-feira de Entrudo. Não é um tema popular, mas penso que vale a pena abordá-lo pois é altura de encararmos de frente os problemas do País que somos todos nós.

Portugal ocupa um lugar desolador na maior parte dos indicadores económicos, sociais, culturais e educativos da União Europeia. Temos uma dívida colossal, sobretudo quando comparada com a riqueza que produzimos. Muitos duvidam da nossa capacidade para controlar o défice dentro do prazo exigido e há já quem ameace com a possibilidade de Portugal e a Grécia terem de sair da Zona Euro. O desemprego atinge níveis alarmantes e daí decorrem problemas sociais gravíssimos. E, no entanto, Portugal é um dos países europeus com um maior número de feriados nacionais por ano: uma dúzia. Se a eles acrescentarmos os feriados municipais, os fins-de-semana e uns 20 dias úteis de férias concluiremos que em 2010, nos 365 dias do nosso calendário, muitos Portugueses trabalharão apenas 228.

Ainda assim, não trabalhar 137 dias por ano (37,5% do total) não constitui regalia suficiente. Por isso inventámos as “pontes”. Sempre que um dos feriados calha a uma terça ou a uma quinta-feira, é certo que milhares de funcionários gozam de um descanso suplementar. E porquê? Apenas porque se trata de um dia vulgar entalado entre um feriado e um fim-de-semana, ou vice-versa. Somente mais uma interrupção, um dia de férias suplementar, concedido pelos acasos do calendário. Para azar de muitos, em 2010 só há quatro casos nessas condições: no Entrudo, no Corpo de Deus, no Dia de Portugal e na Implantação da República. Os restantes feriados calham, ou à segunda e sexta-feiras (o que também não é mau), ou à quarta-feira (o que é mais desfavorável mas pode levar alguns a interessar-se pelo significado do 1 e do 8 de Dezembro) ou então ao fim-de-semana (uma sobreposição assaz desagradável). Mas há ainda outras hipóteses para sermos felizes. São as tolerâncias ditadas por circunstâncias excepcionais, como no caso da visita de Bento XVI. Uma tolerância “ad hoc” mas que alcançou já um efeito improvável: pôs de acordo associações patronais e sindicatos quanto à sua inconveniência.

Este panorama merece um comentário amargo. Sobretudo no que tem que ver com as “pontes” e com os famosos “roulements” que daí decorrem. Todos sabemos como este sistema é prejudicial ao normal funcionamento de qualquer serviço. Quem está fora, em regime rotativo, não só não trabalha como impede que muitas tarefas, por serem partilhadas ou por falta de informação relevante, não sejam possíveis de concretizar pelos que estão ao trabalho. Daí resulta o adiamento de muitas decisões (ou a tomada de decisões erradas), alguma desorganização interna e a recaída constante em ciclos laborais de “stop and go” deveras prejudiciais. Acho bisonho que um País como o nosso, que importa quase tudo e que deve mais do que aquilo que produz, se permita continuar a viver neste registo. O trabalho não deve ser visto como um ‘frete’, como um ‘mal necessário’, mas como um direito (a que muitos não têm ainda acesso) e como um instrumento para a nossa realização pessoal e para o progresso da sociedade em que vivemos.

Os nossos filhos e netos merecem herdar de nós um País mais próspero, mais harmonioso e menos dependente. Não os conseguiremos satisfazer enquanto vogarmos nestas águas estagnadas sobre as quais continuamos a construir feriados e pontes que não nos aproximam de nada a não ser do nosso próprio abismo.

João Gouveia Monteiro

Humor: A função do esqueleto


Circula na Internet esta resposta de um aluno brasileiro a uma questão numa prova de Biologia:

- Qual a principal função do esqueleto?
- É invadir o Castelo de Greyscow!!!

Ainda na Internet encontra quem não sabe a explicação sobre o que é o Castelo de Greyscow:

"He-Man e os Defensores do Universo (em Inglês, He-Man and the Masters of the Universe) é um desenho animado produzido entre 1983 e 1985 pela Filmation Studios. He-Man, o personagem principal, e seus amigos defendem o planeta Etérnia e o Castelo de Greyscow (em Inglês, Greyskull) das forças malignas comandadas pelo vilão Esqueleto. Enquanto o planeta é comandado pelo justo rei Randor, o vilão Esqueleto tenta dominar o castelo Greyscow e assim ter o controle de todo o universo."

Prova de aferição do 4.º ano (Excerto)

Parte da prova de aferição de Língua Portuguesa do 1.º ciclo do ensino básico:

"Lê a seguinte descrição de uma experiência.

A FORÇA DA GRAVIDADE

A força da gravidade puxa todos os objectos na vertical, para baixo, em direcção ao centro da Terra. Podes perguntar: e então a Lua não está sujeita à força da gravidade? Sim, claro que está. Mas então porque é que a Lua não cai sobre a Terra?

Para descobrires porque é que a Lua não cai, vais fazer uma experiência bastante engraçada. Vais fazer girar um copo com feijões, sem que os feijões caiam!

Para isso, tens de abrir dois buracos na boca de um copo de plástico e passar por eles um fio, de modo a fazeres uma asa (como se fosse um pequeno balde). Deita uma mão cheia de feijões no copo e, agarrando pela asa, põe o copo a girar. Os feijões caem durante o movimento?

Da mesma maneira que os feijões não caem quando pões o copo a girar, também a Lua não cai. Tal como o copo, a Lua não está parada: ela gira em volta da Terra, demorando 27 dias (ou melhor, 27 dias, 7 horas e 43 minutos) a dar uma volta completa. Sabes a que velocidade a Lua se move em torno da Terra? Move-se a quase 4000 km por hora!

Constança Providência, Nuno Crato, Manuel Paiva, Carlos Fiolhais, Ciência a Brincar 4: Descobre o Céu!, Lisboa, Editorial Bizâncio, 2005 (texto adaptado).

7. Faz a lista do material referido no texto como necessário à realização da experiência descrita.
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8. Ordena, de 1 a 5, de acordo com o texto, as fases da experiência descrita. Repara que a primeira fase já está numerada.

Deitar uma mão cheia de feijões no copo.
1. Abrir dois buracos na boca de um copo de plástico.
Agarrar o copo pela asa.
Passar um fio pelos buracos, para fazer uma asa.
Pôr o copo a girar.

9. Assinala com X a opção que permite completar a afirmação, de acordo com o sentido do texto.

A Lua e os feijões da experiência não caem,
porque estão bem amarrados.
dão voltas incompletas.
giram à mesma velocidade.
estão em movimento.

10. Lê alguns dos conteúdos e dos títulos que fazem parte do livro de onde foi retirada a descrição da experiência apresentada.Associa cada um dos conteúdos ao respectivo título. Segue o exemplo.

CONTEÚDOS
1 Gratidão dos autores pela ajuda e colaboração que receberam.
Descrição de uma experiência sobre a força da gravidade.
Apresentação dos assuntos abordados ao longo do livro.

TÍTULOS
1 Agradecimentos
2 Introdução
3 Quantas estrelas há no céu?
4 Porque é que a Lua tem manchas?
5 Porque é que a Lua não cai?"

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A biodiversidade nas fontes hidrotermais












O Museu da Ciência da Universidade de Coimbra organiza, em colaboração com o Jardim Botânico da UC e vários centros de investigação, um conjunto de conferências sobre biodiversidade, procurando uma reflexão sobre esta, no Ano Internacional da Biodiversidade.

O ciclo inicia-se hoje com uma conferência por Milton Costa do Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra, pelas 17 horas, sobre a biodiversidade nas fontes hidrotermais.

Consultar em: http://www.museudaciencia.pt/
ou na pagina do ciclo de conferências.

O Prof. Milton Costa é meu colega de departamento e foi meu professor, quando frequentei Biologia em Coimbra. E foi um dos professores que me marcaram, pela forma inteligente e entusiasmante com que leccionava sobre o fascinante mundo dos micro-organismos (precisando: bactérias) e das nossas estruturas de defesa contra os mesmos. Temos hoje cada vez mais a noção da importância desses micro-organismos na evolução dos organismos pluricelulares como nós.

Mas é sobre a biodiversidade nas fontes hidrotermais e as incríveis adaptações de bactérias capazes de sobreviver em ambientes com temperaturas de centenas de graus que Milton Costa irá falar. Na realidade as fontes hidrotermais têm sido uma fonte de conhecimentos e de ideias sobre a variedade de adaptações dos organismos e os limites das condições de vida absolutamente extraordinária.

Há alguns grupos portugueses a estudarem a biodiversidade nessas regiões oceânicas, como o grupo de Milton Costa, em Coimbra e do Ricardo Santos nos Açores.

MARK TWAIN MORREU HÁ CEM ANOS


Informação recebida da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:

Samuel Langhorne Clemens, mais conhecido pelo pseudónimo Mark Twain, nasceu a 30 de Novembro de 1835, na Florida, Missouri, Estados Unidos da América.

Começou a trabalhar aos 18 anos como tipógrafo e a escrever para jornais. Entre 1856 e 1861, início da Guerra Civil Americana, foi piloto de barcos a vapor no Mississípi, profissão que mais tarde afirmaria levar consigo até ao fim dos seus dias e que recordou no livro "Life on the Mississippi", de 1883. Tendo iniciado a sua carreira como escritor de livros de viagens, teve o seu primeiro sucesso literário com a obra - A Célebre Rã Saltadora do Condado de Cavaleras, publicada em 1865.

Contudo são obras como - As Aventuras de Tom Sawyer, As Aventuras de Huckleberry Finn e O Homem que corrompeu Hadleyburg que o projectam como um dos maiores nomes da literatura norte-americana.

Morreu em 21 de Abril de 1910, em Redding, Connecticut.

Mostra bibliográfica evocativa | 21 de Abril – 7 de Maio | Sala do Catálogo

No horário de funcionamento da Biblioteca.

"SEI QUEM SABE"

Breve apresentação de Carlos Fiolhais ao livro "Sei quem Sabe", edição da Fundação Odemira, que em breve deve conhecer segunda edição: aqui.

terça-feira, 4 de maio de 2010

A calculadora nas Provas de Aferição

De acordo com as orientações patentes no Currículo Nacional do Ensino Básico (2001, páginas 60, 61, 71) e, de modo coerente com o Novo Programa de Matemática para este nível de ensino (2007, páginas 4, 10, 15, 35, 36, 37, 43, 45, 50, 52, 57, 59, 76), no qual se afirma que "ao longo de todos os ciclos, os alunos devem usar calculadoras" (página 10), consta, evidentemente, na lista de material necessário para realizar a Prova de Aferição de Matemática do 6.º ano, uma calculadora.

O que é a ciência?

Transcrevemos secção final do livro "Big Bang. A descoberta científica mais importante de todos os tempos e porque precisa de a conhecer", de Simon Singh, que acaba de sair na Gradiva:

«Ciência» e «cientista» são palavras surpreendentemente modernas. A palavra «cientista» foi inventada pelo polímato vitoriano William Whewell, que a utilizou pela primeira vez na Quarterly Review em Março de 1834. Os americanos adoptaram-na quase de imediato, e por finais do século XIX também já era corrente na Grã-Bretanha. Deriva da palavra latina scientia, que significa «conhecimento», tendo suplantado designações como «filósofonatural».

Este livro conta a história do modelo do Big Bang, tentando ao mesmo tempo mostrar o que é a ciência e como funciona. O modelo do Big Bang é um bom exemplo de como uma ideia científica surge, é posta à prova, verificada e aceite. No entanto, a ciência é uma actividade tão vasta que a descrição que dela aqui fazemos está incompleta. Para tentar remediar estas falhas, coligem-se a seguir umas quantas citações acerca da natureza da ciência.

A ciência é conhecimento organizado.
HERBERT SPENCER (1820-1903), filósofo inglês

A ciência é o grande antídoto para o veneno do entusiasmo e da superstição.
ADAM SMITH (1723-90), economista escocês

A ciência é o que sabemos. A filosofia é o que não sabemos.
BERTRAND RUSSELL (1872-1970), filósofo inglês

[A ciência é] uma série de juízos em constante revisão.
PIERRE ÉMILE DUCLAUX (1840-1904), bacteriologista francês

[A ciência é] o desejo de conhecer as causas.
WILLIAM HAZLITT (1778-1830), ensaísta inglês

[A ciência é] o conhecimento das consequências e de como um facto depende de outro.
THOMAS HOBBES (1588-1679), filósofo inglês

[A ciência é] uma aventura da mente criativa que procura a verdade num mundo de mistérios.
CYRIL HERMAN HINSHELWOOD (1897-1967), químico inglês

[A ciência é] um grande jogo. Inspira-nos e retempera-nos. O campo de jogos é o próprio universo.
ISIDOR ISAAC RABI (1898-1988), físico americano

O homem domina a natureza não pela força, mas pelo conhecimento. Foi por isso que a ciência teve êxito e a magia não: a ciência não tenta enfeitiçar a natureza.

A essência da ciência é fazermos uma pergunta impertinente e com isso estarmos a dar o primeiro passo rumo a uma resposta pertinente.
JACOB BRONOWSKI (1908-74), cientista e autor britânico

Um bom exercício matinal para um cientista: todos os dias, antes do pequeno-almoço, deitar fora a hipótese favorita da véspera. Ajuda-o a manter-se jovem. Em ciência pode definir-se «verdade» como a hipótese de trabalho mais susceptível de conduzir a uma hipótese de trabalho melhor.
KONRAD LORENZ (1903-89), zoólogo austríaco

A ciência é essencialmente a eterna busca de uma compreensão inteligente e integrada do mundo em que vivemos.
CORNELIUS VAN NEIL (1897-1985), microbiólogo americano

O cientista não é quem dá as respostas certas, é quem faz as perguntas certas.
CLAUDE LÉVI-STRAUSS (1908-2009), antropólogo francês

A ciência só é capaz de descobrir o que é, não o que deve ser. Fora do seu âmbito, continuam a ser necessários todos os juízos de valor.
ALBERT EINSTEIN (1979-1955), físico de origem alemã

A ciência é a busca desinteressada da verdade objectiva acerca do mundo material.
RICHARD DAWKINS (1941-), biólogo inglês

A ciência mais não é do que senso comum disciplinado e organizado, dele diferindo apenas na medida em que um combatente veterano difere de um recruta; os seus métodos diferem dos do senso comum da mesma maneira que os golpes bem treinados de um guarda real diferem das pauladas de um selvagem.
THOMAS HENRY HUXLEY (1825-95), biólogo inglês

As ciências não procuram explicar e mal se esforçam por interpretar; limitam-se a elaborar modelos. Por modelo entende-se uma construção matemática que, complementada com a necessária interpretação verbal, descreve os fenómenos observados. A justificação de um modelo matemático é, exclusiva e precisamente, que funcione.
JOHN VON NEUMANN (1903-57), matemático de origem húngara

A ciência de hoje é a tecnologia de amanhã.
EDWARD TELLER (1908-2003), físico americano

Todos os grandes avanços da ciência foram fruto da audácia da imaginação.
JOHN DEWEY (1859-1952), filósofo americano

As quatro fases da aceitação:
i) Isto é um completo disparate,
ii) Este ponto de vista é interessante, mas perverso,
iii) Isto é verdade, mas não tem qualquer importância,
iv) Foi o que eu sempre disse.
J. B. S. HALDANE (1892-1964), especialista em genética inglês

A filosofia da ciência interessa tanto aos cientistas como a ornitologia aos pássaros.
RICHARD FEYNMAN (1918-88), físico americano

Numa qualquer ciência, deixamos de ser principiantes e passamos a ser mestres quando percebemos que vamos ser principiantes toda a vida.
ROBIN G. COLLINGWOOD (1889-1943), filósofo inglês.

O Romance da Bíblia


Informação recebida da Editora Ésquilo:

O Romance da Bíblia, novo livro de Deana Barroqueiro na Editora Ésquilo.

A Ésquilo – edições e multimédia e a CELIVRARIAS têm o prazer de para o lançamento de O Romance da Bíblia – Uma Visão feminina do Antigo Testamento, de Deana Barroqueiro, que terá lugar no próximo dia 17 de Maio, segunda-feira, às 18.30 horas, na CEBUCHHOLZ (antiga Livraria Buchholz), Rua Duque Palmela, 4 (ao Marquês de Pombal), Lisboa.

Como escreve Maria Teresa Horta, no Prefácio, neste livro a odisseia das mulheres e homens do Antigo Testamento, é minuciosamente recriada, com «uma escrita toda ela tecida por sensualidades e cintilações audaciosamente irónicas».

A apresentação estará a cargo da Doutora Manuela Gamboa, professora de literatura e investigadora. A actriz Tânia Alves, da Comuna – Teatro de Pesquisa, interpretará alguns trechos da obra.

Um olhar feminino do Antigo Testamento:

«O Romance da Bíblia possui o riso que acontece debaixo da palma da mão entreaberta sobre a boca, mas igualmente o desfrute do gozo, ambiguamente trocado, tomado, pelo gosto do outro, no tactear da língua. Um livro de memórias ancestrais, que nos mostra o despertar da mortal e venenosa serpente das seitas religiosas, do obscurantismo, do sexismo com a sua rancorosa face. Mas, O Romance da Bíblia é ainda a beleza traba­lhada, cinzelada, com um bom gosto literário inusitado, eu diria mesmo raro, na ficção portuguesa. (…)

O livro de Deana Barroqueiro traz consigo a visão da mulher. Lúcido olhar, que ao longo dos séculos tem faltado à visitação deste universo da Bíblia: Velho Testamento moralista, repleto de anciãos preguiçosos, libidinosos e lascivos, de brutamontes ignorantes e violadores, convocados por um Deus irado frente à própria incompetência e à própria ima­gem, segundo a qual teria criado o homem, de quem afinal não gosta e castiga. E é precisamente no enredamento deste dilema, que se abrem as páginas do primeiro dos dezanove textos que, fragmentariamente, irão formar um todo literário uno: falando de Noé e de Jacob, de Isaac e de Sansão, de Asmodeu e dos circuncisos, de Labão e de Abraão, arrancando-os do seu pedestal de heróis divinos, com uma habilidosa cruel­­dade implacável.»

Maria Teresa Horta

COM O COMETA DE HALLEY NÃO SE ACABARÁ O MUNDO

Excerto de “Halley – O Cometa da República”, de Joaquim Fernandes, Editora Tema s& Debates /Círculo de Leitores, Maio 2010:

(Na imagem: Um título apaziguador em O Liberal, 10 de Março 1910)


Manchete positiva, que dava passo a uma “interview com o sr. Costa Lobo”, uma das mais respeitadas autoridades da época garantindo que “o cometa não dará cabo da Terra”.

Desenvolvendo relações privilegiadas com instituições internacionais congéneres, em especial com o Observatório de Paris-Meudon, o matemático Francisco da Costa Lobo viria a dirigir o Observatório Astronómico de Coimbra, a partir de 1913, e a revista coimbrã O Instituto, sendo o responsável pela introdução da Astrofisica Solar em Portugal. Fiel à monarquia, Costa Lobo revelou-se uma personalidade polémica na sua evolução e postura científicas.

O texto dirige-se aos “mais assustadiços” assegurando-lhes que “o cometa passará sem maior incómodo para nós e para ele. A Humanidade inteira poderá continuar no seu ram ram quotidiano, nas suas lutas de ignóbeis egoísmos, nas suas torpezas e nas suas misérias”. O jornalista reforça essa certeza após ouvir “uma autoridade de incontestável garantia, o sr. Dr. Costa Lobo, sábio e ilustrado lente de astronomia na Universidade de Coimbra que ainda o ano passado andou em visita aos principais observatórios da Europa”.

Procurámo-lo ontem à tarde no Hotel Borges tendo-lhe previamente solicitado a entrevista sobre o cometa de Halley. À hora marcada, pontualidade inglesa, encontrava-se o ilustre sábio à nossa espera na sala de visitas do seu Hotel.
- Então o que deseja saber a respeito do cometa de Halley? – diz-nos S.Ex.ª
- Tudo! Tem-se dito e escrito muito a respeito dele, mas o facto é que anda por aí muita gente desassossegada, embora cada vez perceba menos das explicações que os jornais estão dando. Por isso, desejávamos, em resumo, saber a opinião de S.Ex.ª.
Sentando-nos cada um em sua poltrona e depois de acendermos os nossos cigarros, o sr. dr. Costa Lobo diz:
- É indubitável que a despeito das repetidas e variadas informações o público continua preocupado com os acontecimentos que receia tenham lugar quando no próximo de Maio o cometa Halley se encontre à mínima distância da Terra na sua presente digressão em volta do Sol.
Chega a ser curioso observar que o estado de adiantamento em que a Humanidade se encontra, não evita inquietações análogas às que nos são descritas pela história de épocas remotas, embora com aspecto mais civilizado.
- De forma que devem ser muito cautelosas as informações. Não concorda V. Ex.ª.?
- Sem dúvida; e sobre tudo é extraordinariamente preciso que essas informações sejam claras a fim de não provocarem injustificado alarme
.
E decerto assim o sente o grande propagandista Flamarion, a quem a ciência tanto deve pelas suas investigações e o público pelo grande esforço desenvolvido por aquele astrónomo, a fim de difundir os conhecimentos astronómicos e interessar a Humanidade por estes tão importantes estudos, que decerto são de molde a darem ao homem a maior satisfação pelo vigor que têm atingido.
- Mas as explicações de Flamarion concorreram talvez para este alcance – dissemos nós
- Tem razão. Arrependido se confessou já o ilustre astrónomo, tendo reconhecido o inconveniente de aventar hipóteses simplesmente com o fim de interessar o público pelas observações celestes mas que a fantasia pública rapidamente admitiu como sendo de possível realização, o que não duvido afirmá-lo, nada justifica.
Repare-se no uso do qualificativo “propagandista“ atribuído a Flammarion e ao estado de “arrependimento” do mesmo astrónomo, a quem se atribui, com fundadas razões, as origens do aterrorizado rumor do “fim do mundo”. (…)"

Joaquim Fernandes

A FRASE DO DIA

Nuno Crato, Presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática, citado pelo jornal "Público", sobre as provas de aferição de Matemática dos 4.º e 6º anos, da responsabilidade do Ministério da Educação:

"Seria óptimo se nas provas houvesse perguntas de Matemática".

A herança genética de Eva


Novo artigo de António Piedade, saído no "Diário de Coimbra":

Eva é uma criança de cinco anos que sofre de síndrome de Leigh, uma doença rara que ataca o sistema nervoso central, interferindo gravemente no seu desenvolvimento cognitivo e controlo motor.

Eva herdou esta desordem pelo lado materno. A sua bisavó também sofreu enquanto criança mas conseguiu recuperar até a adolescência. Para identificar a causa genética da doença de Eva e para desenvolver uma terapia a ela ajustada, foram efectuadas a ela, à sua mãe e irmãos, análises bioquímicas e genéticas. Contudo, as análises aos genes do seu ADN e ao dos seus familiares directos revelaram-se infrutíferas na identificação da anomalia hereditária. E porquê? Porque o problema não residia no ADN dos cromossomas nucleares herdados da sua mãe (e também do seu pai), mas sim no ADN dos cromossomas circulares existente nas suas mitocôndrias.

A mitocôndria é um dos organelos mais importantes que existem dentro das nossas células. São autênticas centrais energéticas responsáveis pela última e mais eficiente transformação dos nutrientes energéticos que ingerimos, transferindo a energia que eles contem para uma moeda franca em forma química, o ATP, utilizável em qualquer processo orgânico que precise de energia: pensar, correr, amar. Possui numa das suas membranas, a interna, uma cadeia complexa de metalo-proteínas que transportam electrões até ao oxigénio molecular que inspiramos, num processo que envolve a bombagem de iões hidrogénio de um compartimento para outro, gerando assim a força motriz para a síntese de ATP. As semelhanças com as células de combustível (hidrogénio) são impressionantes.

Quando alguma coisa causa um mau funcionamento da mitocôndria isso vai repercutir-se em instabilidade celular de que pode advir doença do organismo.

A mitocôndria possui os seus próprios genes num cromossoma circular do qual possuem várias cópias. Os genes codificam o manual de instruções de algumas das proteínas de que ela “precisa” para funcionar. Curiosamente muitas das outras proteínas que a compõe, estão codificadas não neste cromossoma mitocondrial, mas nos cromossomas nucleares da célula. Ou seja, não temos só informação genética nos 46 cromossomas que herdamos dos nossos progenitores (23 do pai, 23 da mãe), mas também no cromossoma circular mitocondrial. Só que, herdamos mitocôndrias só da nossa mãe. As mitocôndrias que existem nos espermatozóides, geradoras da energia necessária para que eles atinjam o óvulo e o fecundem, são selectivamente destruídas pelo óvulo uma vez nele interiorizadas. Resumindo, de geração em geração a linhagem do ADN mitocondrial é quase 100% materna.

Ora foi através do estudo comparado da sequência deste ADN mitocondrial, em várias populações humanas e outras espécies de hominídeos, que foi identificada, em 1986, a Eva mitocondrial (ou seja, a nossa mãe primeva), ou seja o ancestral comum mais recente por via materna, de todos os seres humanos actuais, que terá vivido em África há cerca de 150 mil anos (aqui).

Note-se que esta Eva mitocondrial é do género Homo e não corresponde ao fóssil com 3,2 milhões de anos baptizado por “Lucy”, descoberto na Etiópia em 1974 e que é do género Austrolopithecus.

Neste contexto, refira-se que foi também através da análise e comparação do ADN mitocondrial extraído de uma falangeta fossilizada e encontrada no ano passado, numa gruta na Sibéria, que foi possível identificar uma terceira sub-espécie humana, ao que tudo indica, contemporânea do H. sapiens sapiens e do H. sapiens neandethalensis: o Homem de Denisova (aqui).

Como as nossas, as mitocôndrias de Denisova também descendem da Eva mitocondrial.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

PLANO INCLINADO COM GUILHERME VALENTE



Quem não viu pode ver aqui.

Os Sofistas

Informação recebida pelo De Rerum Natura.

A sétima e ÚLTIMA SESSÃO do ciclo de Tertúlias Pré-Socráticas, dedicada aos Sofistas, realizar-se-á no dia 05 de Maio, quarta-feira, às 18:00, no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra, e contará com a presença de Teresa Schiappa, da Universidade de Coimbra. A sessão abrirá com uma performance do grupo Aranhiças & Elefantes, a partir de fragmentos das obras dos sofistas.

Sofistas é o nome genericamente atribuído a uma série de filósofos que, no século V a.C., revolucionaram o panorama intelectual de Atenas. Homens viajados e de grande cultura, procederam a uma intrincada reforma do sistema de cultura-educação grego fundado nos modos humanos de ordenação política e linguística, abandonando assim as especulações cosmológicas dos outros pré-socráticos. Protágoras, o mais famoso dentre eles, é o autor da célebre afirmação: «O Humano é a medida de todas as coisas», frase que ilustra bem o seu antropocentrismo, mas também o relativismo que marcou esta geração, bem mais céptica que as anteriores (o mesmo Protágoras viu os seus livros queimados por afirmar ser impossível saber o que quer que fosse sobre os deuses).

Numa Atenas onde a democracia dava os seus primeiros passos, estes homens, em boa medida os pais da retórica, questionaram a relação entre lei («nomos») e carácter («physis»), interrogarando-se sobre o papel da educação e o seu poder ou impotência quando confrontada com a natureza das pessoas. Hoje, o termo 'sofista' tem uma conotação extremamente negativa, algo que devemos a Platão, pouco amigo desta geração de filósofos. O próprio Sócrates, porém, de que eram contemporâneos, era visto por vários atenienses como um representante deste movimento intelectual — quiçá o maior —, que influenciou todo o curso posterior da filosofia, recentrando-a no que é, afinal, o seu princípio e objecto primeiro: o Humano.

O Estado Novo e o Volfrâmio

Informação recebida da Imprensa da Universidade de Coimbra.

A apresentação da obra (1933-1947), O Estado Novo e o Volfrâmio, da autoria de João Paulo Avelãs Nunes, terá lugar no próximo dia 7 de Maio (6.ª feira), pelas 17h30m, na Sala Carlos Ribeiro do Museu Mineralógico e Geológico da Universidade de Coimbra (Colégio de Jesus, Largo Marquês de Pombal) e estará a cargo do Doutor Fernando Rosas, Professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Esta obra visa reconstituir e analisar a evolução do subsector luso do volfrâmio, quer na década de 1930 – etapa de crise e paulatina reactivação -, quer ao longo dos anos quarenta, com destaque para o período da Segunda Guerra Mundial (fase de “euforia especulativa”).

Durante a sessão, o circuito do Museu (em especial as salas vocacionadas para a mineralogia) estará aberto ao público que pretender visitá-lo.

PLANO INCLINADO COM GUILHERME VALENTE - O FILME

A intervenção lúcida, clara e corajosa de Guilherme Valente, editor da Gradiva, no último programa "Plano Inclinado" da SIC Notícias sobre o estado da educação nacional tem motivado vários textos na Internet. Ver, por exemplo, este, este outro, ainda este outro, e, por último, este. (PS: E ainda mais este e este)

Lembro que este blogue publicou, há três anos, uma entrevista com ele: aqui. Afirmava lá:

"Os professores começaram a perceber o logro de que têm sido vítimas. Não só os professores, também os alunos mais esclarecidos e responsáveis. (...) O logro do facilitismo, de se considerar, hipocritamente, aliás, que as desigualdades diminuem com o nivelamento por baixo, da falta de exigência, a ideia de que a escola é uma brincadeira, e não um esforço pelo qual tem que se passar para se poder progredir pessoal e socialmente. O logro do conjunto de teorias que temos designado pelo termo «eduquês», que, agora, toda a gente percebe o que é e considero estarem hoje, com a actual ministra (melhor, com o actual ministério, porque a ministra me parece não perceber muito bem o que anda a fazer) -- mais à solta do que nunca."

Louve-se-lhe não só a coerência como a persistência. A ex-ministra não sabia bem o que andava a fazer. E a actual saberá?

O senhor da guerra


Transcrevo a minha carta publicada hoje no jornal Público:

"A recente crónica de Helena Matos, publicada neste jornal (22/4)), intitulada 'O admirável mundo dos sindicatos', refere as ameaças bélicas de Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof, contra a actual ministra da Educação, Isabel Alçada: 'Se o governo quer guerra é guerra que vai ter"'(Abril 2010). Aliás, declaração de guerra já feita em termos idênticos à sua antecessora, Maria de Lurdes Rodrigue, em 2008.

Saiu-se bem Mário Nogueira, com o apoio de retaguarda das hostes da chamada plataforma sindical, na campanha contra Maria de Lurdes Rodrigues que foi empurrada, em boa hora, do último piso da 5 de Outubro para fora com a bandeira branca da rendição. E quando tudo parecia correr numa relação perfeita entre ele a novel Ministra da Educação, Isabel Alçada, por ela ter um passado de dirigente da Fenprof, de um momento para o outro, foram ocupadas trincheiras diferentes por a actual titular da Educação não ceder terreno às ameaças do secretário-geral da Fenprof que tem vindo a perder crédito por dar uma no cravo e outra na ferradura com o evidente desagrado de muitos docentes.

As desavenças, entre ambos, começaram quando Isabel Alçada afirmou 'estar empenhada na criação de um sistema de avaliação de professores que recompense o esforço e a qualidade' (Diário Económico, 26/11/2009). Aliás, tenho dificuldade em compreender como sindicalistas ao serviço de partidos políticos se arrogam ao direito de discutir assuntos de avaliação sem a vivência diária dos problemas dos professores.

O principal pomo de discórdia parece ser a avaliação dos professores que quando discutida à mesa de várias negociações ficou prejudicada pela ameaça de Mário Nogueira de se retirar de imediato se não fossem satisfeitas as suas condições prévias de um diálogo entre si e os seus botões. Bem mais pacífico foi, porventura, o sistema de avaliação dos dinaussaros do dirigismo sindical que chegaram ao topo da carreira docente afastados das escolas onde seria presuntivo estarem a dar aulas se não se tivessem tornado profissionais do sindicalismo. Entretanto, professores bem mais credenciados academicamente e com experiência de vida docente invejável marcam passo por um acesso congelado a escalões mais altos da carreira docente porque aprisionados em teias de uma mediocridade que muito tem prejudicado um ensino em que só através de uma maior justiça do actual sistema de avaliação dos professores, separando o trigo do joio, se poderá pôr cobro à situação de Portugal se ter tornado num país de oportunistas, parafraseando Ortega y Gasset, com 'ódio aos melhores'".

domingo, 2 de maio de 2010

Ainda "O Manifesto para a Educação da República (II)

O resultado desta desastrosa política não se fez tardar!

Segundo um relatório da Caritas Europeia (referido no jornal da SIC, de 8 de Fevereiro último) 'um em cada dois portugueses não percebe o que lê'. Nem de propósito, logo no dia imediatamente a seguir, o Público noticiou não menor escândalo: 'Zero foi a pontuação obtida na realização de problemas matemáticos por 40% dos 118 mil alunos, do 4.º e 6.º anos de escolaridade, que efectuaram provas de aferição, no ano lectivo de 2000/2001'.

Mesmo sem o recurso a uma bola de cristal, no
Público, de 17 de Dezembro de 96, escrevia eu em artigo de opinião: 'Este um facto de que se deve dar conhecimento público e que o bom senso dos responsáveis pela educação deverão ter em linha de conta pelo perigo de uma deficiente alfabetização da juventude portuguesa que salta já à vista de todos'.

Hoje, um coro de vozes muito críticas se faz ouvir, como a do actual reitor da Universidade de Évora, Manuel Ferreira Patrício: 'As políticas educativas seguidas, nos últimos 15 anos, foram um desastre. Os resultados estão à vista. Lemos nos jornais e constatamos que a educação está na rua, na lama da voz pública'.

O estado calamitoso da educação nacional, reflectido na desdita de uma 'república que está a educar mal os seus filhos', preocupa grande franja da sociedade civil, desde intelectuais ao cidadão comum, colhendo expressão no Manifesto para a Educação da República que duplicou expressivos apoios, num só dia, após ser conhecido publicamente.

Julgo que ninguém ousará pôr em causa que um país que não preserva umas tantas leis no respeito de direitos outorgados, com a maior justiça, aos universitários e, por outro lado, ajeita, outras tantas, pondo-as ao serviço de poderosos 'lobbies' do ensino politécnico, como sindicatos de inspiração marxista, em defesa de professores com habilitações de pouca exigência académica, sofre de maleita grave, necessitando, como tal, de uma terapia urgente que se não compadece com mezinhas ou paninhos quentes. Exige um tratamento de choque por parte de gente competente, corajosa, não comprometida.

Para além da descabelada exigência dos politécnicos em conferir o grau de mestre e de doutor, reporto-me às declarações do presidente da Federação Nacional dos Estudantes do Ensino Superior Politécnico quando profere a seguinte ameaça na cidade de Aveiro, em 28 de Janeiro deste ano, durante a discussão das Linhas Programática para o Ensino Superior: 'Se, de facto, as propostas não forem de encontro [pela certa, deveria querer ele dizer ao encontro] aos nossos interesses nós cá estaremos para responder à altura e no devido momento'.

Apenas três dias atrás, esta mesma federação, em desacordo com a decisão do Conselho de Ministros, exigia 'a revogação da decisão em criar o Instituto Universitário de Viseu', realizando, para o efeito, uma assembleia geral, em Leiria (
As Beiras, 23.Fev.2001). Por seu turno, e na mesma altura, João Pedro Barros, presidente do Instituto Politécnico de terras de Viriato, sentenciou em desfavor desta decisão em judicatura em causa própria e em ocasião em que aproveita, uma vez mais, para buscar em solo de Espanha inspiração para um ridículo 'travesti'. Ou seja, a mudança do nome de Instituto Superior Politécnico, sob a sua directa tutela, para Instituto Politécnico Universitário, ao arrepio de um aforisma bem português: 'Cada roca com o seu fuso, cada terra com o seu uso'.

Mas as surpresas não param de ocorrer! Através do
Diário de Coimbra, de 20 do corrente, ficou-se a saber que a Comissão Política da Secção de Coimbra da Juventude Social Democrática pretende uma mudança nominal de ensino politécnico para ensino universitário, e que as respectiva escolas assumam designação de faculdades. Escuso-me de comentar esta pretensão que a tomo por verdadeira 'boutade', tendo merecido a desaprovação da própria Federação Académica de Coimbra que agrupa escolas faculdades e escolas politécnicas das margens do Mondego.

Só concebo desvalorizar estes factos por acreditar haver o bom senso do governo, a sair das próximas eleições legislativas, em impedir que os 'interesses' dos alunos do ensino politécnico possam continuar a atrasar um país inteiro na cauda da União Europeia. Sem sombra de dúvida, este 'status quo' necessita de estar ao serviço de uma recuperação económica sustentada na força produtiva de uma juventude formada num exigente sistema educativo cuja planificação não descure, com até aqui, a formação de elites por ir a reboque de manifestações deste jaez.

Embora em plena consciência do risco que corri em deslustrar o brilho desta reunião, com a opacidade do meu verbo, não pude deixar de aceder ao simpático convite que me foi formulado pelo Executivo Distrital do Porto para encerrar, na minha qualidade de presidente da Assembleia Geral deste Sindicato, um plenário em que, ao longo de dois dias, se debateram uns tantos problemas que afectam o ensino em Portugal. Debate com a participação de uma plêiade de ilustres personalidades da vida cultural portuguesa que me precederam neste concorrido fórum. A todos o meu muito obrigado”
(Jornal do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados, Março/Abril 2002).

Por aqui se vê que foram forças vivas da sociedade civil, v.g., Assembleia Magna da Academia de Coimbra, reitor da Universidade de Évora, Senado da Universidade de Coimbra e Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, a pontuar todas estas valorosas acções que culminaram com o “Manifesto para a Educação da República” que recolheu 20.000 assinaturas de apoio a um verdadeiro acto de cidadania de individualidades mais representativas dos vários espectros da sociedade portuguesa, da cultura à ciência, da arte aos agentes das actividades económicas e industriais.

E se, como escreveu Paul Valéry, “a política é a arte de impedir as pessoas de meterem o nariz em coisas que lhes dizem realmente respeito”, a subtileza actuante da democracia portuguesa parece ser deixar que as pessoas metam o nariz em coisas que lhe dizem realmente respeito para fazer ouvidos de mercador em nome de uma liberdade de expressão que, por si só, não resolve os graves problemas de uma sociedade que se eterniza em erros do passado.

Ainda "O Manifesto para a Educação da República" (I)

“A principal esperança de uma Nação reside na educação apropriada da sua juventude”
(Erasmo de Roterdão, 1469-1536).

Neste blogue, Carlos Fiolhais reproduziu o texto do “Manifesto para a Educação da República”, recordado por Guilherme Valente, um dos seus destacados mentores, na intervenção televisiva no “Plano Inclinado”, na noite do passado sábado.

Em igual altura, Helena Damião, em post intitulado “Reacção Sindical ao Manifesto”, critica a Fenprof no ataque aquilo que esta designa como ensino elitista (como se o ensino se devesse destinar, apenas, a massificar a ignorância), transcrevendo integralmente a posição pública assumida por esta federação docente que termina num oferecimento de colaboração com os autores do referido manifesto, mas que soa a falso por tudo (ou quase tudo), quanto aí é recriminado, ter merecido o aplauso e o evidente desvelo sindical.

Pela importância deste manifesto, uma pedrada no charco em que se debatia (e debate) o ensino nacional, numa série de conferências realizadas pelo Sindicato Nacional dos Professores Licenciados na cidade do Porto, abordei esta temática que intitulei “O Manifesto para a Educação da República e a Formação dos Professores”. Dada a extensão do texto, divido-o em duas partes, transcrevendo, por ora, a primeira parte:

“Que melhor moldura para a discussão da actual política educativa portuguesa que esta Cidade Invicta, berço de Ramalho Ortigão que, de parceria com Eça, farpeou a instrução pública do seu tempo por considerar que a Tolice Humana tinha cabeça de Touro?

Volvido mais de um século, corria o ano de 1996, perante a teimosia do governo em alargar às escolas superiores de educação a preparação de docentes do 3.º ciclo [era então secretária de Estado da Educação, Ana Benavente], fizeram-se ouvir, em uníssono, vozes discordantes vindas dos mais diversos quadrantes.

Em iniciativa pioneira, no mês de Junho desse ano,
o Sindicato Nacional dos Professores Licenciados levou a efeito uma sessão no Teatro Paulo Quintela da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, cumprindo, desta forma, a sua fidelidade a princípios defendidos por Pierre Bordieu: 'Só uma política inspirada pela preocupação de atrair e promover os melhores, esses homens e mulheres de qualidade que todos os sistemas de educação sempre celebraram, se poderá fazer do ofício de educar a juventude o que ele deveria ser: o 1.º de todos os ofícios'.

Dois dias depois, dada a sua relevância, a toda a largura da 1.ª página, o Diário de Coimbra dava conta desta iniciativa e do seu objectivo em alertar para uma política de escandaloso facilitismo na formação de professores do ensino básico, através das escolas superiores de educação, com distribuição de bacharelatos e licenciaturas a granel; e, por arrastamento, em verdadeiro bodo aos pobres, de diplomas aos alunos do 1.º ao 9.º anos de escolaridade.

Sobre o assunto, meses depois, o
Senado da Universidade de Coimbra não se guardou de declarar, urbi et orbi, que 'as propostas do governo subverteriam as missões e objectivos dos Institutos Politécnicos e das Universidades e se traduziriam numa inaceitável degradação do ensino'. Igualmente discordante se manifestou o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas.

Noticiada, amplamente e com o maior destaque, pelo Público, do primeiro dia de Novembro, realizou-se, na véspera, uma das mais concorridas Assembleias Magnas da Academia de Coimbra tendo como pano de fundo esta questão.

Respigo da notícia: 'Inédita, em Assembleias Magnas, foi a intervenção de um sindicalista Rui Baptista, presidente da assembleia geral do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados, que se solidarizou com as causas dos universitários e alertou para o facto de, hoje em dia, ‘toda a gente’ querer ir leccionar para o 3.º ciclo e o 1.º ciclo estar a ficar sem professores'. Abro um parêntese para esclarecer que fui devidamente autorizado a participar e a intervir nessa assembleia na minha qualidade de docente de uma das suas faculdades, embora, naturalmente, sem direito a voto.

O facto de ficarem por preencher vagas na docência do 1.ºciclo devia ter sido previsto e evitado pelos políticos que não param de enaltecer a importância da aprendizagem das primeiras letras, em inflamados discursos da boca para fora. Aqueles mesmos políticos que legislaram no sentido de desvincular as escolas superiores de educação da função exclusiva para que foram criadas inicialmente. Ou seja, a atribuição, apenas de um bacharelato na formação dos professores deste grau de ensino até aí a cargo de esforçadas escolas de ensino médio, com a denominação de escolas do magistério primário.

Todavia, por mais incrível que pareça, continua a assistir-se a um declarado retrocesso, ou involução, na formação de agentes de ensino do 2.º ciclo do ensino básico em promíscua parceria com fornadas de professores saídos da Universidade em número suficiente para as necessidades de um país já a braços com uma visível diminuição da natalidade. Todas estas respeitáveis tomadas de posição caíram em saco roto da tutela da Educação e em orelhas moucas dos seus responsáveis mais directos.

Este desequilíbrio, entre procura/oferta, é já responsável pela elevada taxa de desemprego existente na profissão docente e conduzirá, 'à la longue', ou mesmo a curto prazo, ao possível encerramento de faculdades por esta situação afectar mais os universitários que entram nos respectivos cursos com notas mais altas e saem, pela própria exigência do ensino aí ministrado, mais tarde e com classificações mais baixas de diploma do que os alunos do ensino politécnico com destino ao magistério".

(Continua)

A fórmula “divertido-lúdico-pedagógico”

Uma das ideias "pseudo-pedagógicas" mais vulgares nos documentos curriculares vigentes, nos discursos de muitos teóricos e investigadores (onde me incluo), de professores (onde também me incluo), e na opinião do público, em geral, é que o "divertido", o "lúdico" deve ser constantemente chamado à sala de aula, para, assim, se envolverem os alunos na aprendizagem, os interessar, os"motivar". Também se argumenta que isso contribui para o seu bom comportamento.

Acresce que essa chamada deve ser feita de tal modo que os alunos, divertindo-se, não percebam que estão a aprender conteúdos disciplinares (esta ideia é muito antiga e tem autor, pelo que, em texto posterior, a explicarei melhor), nem que se estão a comportar como devem.

Os conteúdos disciplinares são, assim, introduzidos subliminarmente, quase à má-fé (na expressão de um colega de profissão, autor do texto que cito a seguir), na crença (errada, profundamente errada) de que todos os alunos os lhe têm aversão. Está bem de ver que, e pondo a questão de outra maneira, se os alunos rejeitam aprender e/ou se têm um comportamento desadequado é porque o professor não usou a fórmula “divertido-lúdico-pedagógico".

O De Rerum Natura tem-se debruçado sobre este assunto (por exemplo, aqui, aqui e aqui), mas vale a pena insistir pela voz de João Lopes, especialista em Psicologia da Educação:
"Os adultos responsáveis pelo sistema educativo (…) fazem prodigiosos esforços por tornar «divertido» e «lúdico» aquilo que o não é e que não tem de o ser.
Esforçam-se por isso e demonstram que a ciência é divertida, que a gramática pode ser divertida e que, se a divisão de orações não é divertida, pode acabar-se com ela. Os adultos parecem apavorar-se com a possibilidade de os alunos não gostarem de uma matéria ou de uma unidade curricular, quando a verdade é que muitas dessas unidades só podem ser apreciadas por um número restrito de sujeitos. Os restantes poderão realizá-la, ou não, mas sem gosto ou até mesmo a contra-gosto, não sendo isso um drama nem um problema. De facto, há múltiplas actividades, tarefas, exercícios, ao longo do percurso escolar, que não só muito dificilmente serão realizados com gosto e ainda assim por muito poucos.
Os esforços para tornar a escola divertida têm com grande probabilidade efeitos contra-producentes quanto aos resultados académicos e relativamente ao papel que os alunos esperam para a escola e para si próprios enquanto alunos. Por um lado, nada indica que os resultados tenham vindo a melhorar com esse esforço (…) e por outro deterioram a imagem da escola aos olhos dos alunos e levam-nos a apresentar comportamentos que não são de esperar naquele contexto, embora o pudessem ser em contextos de diversão ou de tempos livres."
Referência:
Lopes, J. (2008). Ciência e crença na gestão de sala de aula. Coimbra: Quarteto, páginas 63-64.

Reacção sindical ao Manifesto

Na sequência de post anterior, transcreve-se a "reacção pública da mais representativa organização sindical de professores" ao Manifesto para a Educação da República, na qual se "recusa com firmeza a visão elitista do sistema educativo que os signatários do referido Manifesto nem se preocuparam em disfarçar". A defesa da Escola Pública que se afirma nesta "reacção" não é, nem pode ser, apanágio apenas de organizações sindicais. É, ou deve ser, de todos os cidadãos, sendo que essa defesa terá de assentar de certa forma numa visão elitista: temos de almejar escola(s) de elite ao alcance de todos!

“A recente divulgação do Manifesto para a Educação da República, assinado por algumas personalidades da vida pública e actualmente em fase de recolha de apoios, não pode deixar de suscitar uma reacção pública da mais representativa organização sindical de professores a FENPROF.

Não tanto pelo seu conteúdo, que por sofrer de vaguidão se torna inócuo, assim se assumindo por se eximir também a perspectivar quaisquer soluções, mas principalmente porque o seu objectivo principal lançar um debate alargado sobre o estado da Educação não pode deixar indiferente a FENPROF que, desde há vários anos, se tem empenhado em recusar quaisquer muros corporativos em torno da Educação, antes a impulsionando para a transparente luz do debate público. Por outro lado, convirá comentar alguns dos pressupostos subjacentes a este documento, porque a equivocidade de alguns deles e a menos bem conseguida formulação de outros pode distorcer as bases de quaisquer debates que se venham a realizar no futuro.

A primeira questão cuja clarificação reiteramos é esta: a FENPROF, bem como os sete sindicatos que a constituem, sempre se pronunciou pela necessidade de ver discutidas as grandes questões educativas de uma forma ampla, plural e democrática, envolvendo todos os actores sociais interessados na Educação e nos seus destinos. Não nos limitámos a enunciar tais propósitos e, muito antes do aparecimento de tais preocupações no seio de uma intelectualidade subitamente despertada do calmo torpor a que se encontrava remetida, colocámos à sociedade portuguesa a necessidade de juntar esforços em torno de propostas e soluções atinentes à consecução de uma escola melhor para as nossas crianças e jovens. Exemplo disso é a campanha que a FENPROF desenvolveu sob o lema Unir vozes em defesa da Escola Pública traduzida na subscrição de um texto propositivo, que angariou, numa primeira e rápida fase, um significativo apoio de personalidades da vida pública nacional, algumas com grandes responsabilidades políticas ou académicas, desde reitores e professores de várias universidades, deputados, autarcas, sindicalistas, escritores, artistas, profissões liberais, além de docentes dos vários graus de ensino. Esta campanha recolheu posteriormente um apoio significativo de mais de 50 000 assinaturas e contou com uma sessão de apresentação pública que congregou variados e importantes apoios institucionais, presidida pelo Magnífico Reitor da Universidade de Coimbra, em representação de S. Ex.ª o Sr. Presidente da República, que patrocinou a iniciativa.

Presentemente, encontra-se a decorrer outra importante campanha, dirigida a um pilar fundamental da escolaridade, o 1.º Ciclo do Ensino Básico, congregando as vontades, as preocupações mas também as propostas da Confederação Nacional das Associações de Pais e da Federação Nacional dos Professores, para valorizar a escola elementar, base de todas as aprendizagens que, antes como hoje, tão maltratada continua a ser pelo poder político. Esta iniciativa recolheu já o apoio de mais de um milhar de organizações.

Esta forma de pensar e trabalhar as questões da Educação sempre caracterizou a cultura por perfilhada desde o nascimento do projecto sindical que a FENPROF e os seus sindicatos corporizam. Se é certo que para a FENPROF todos os espaços de discussão aberta são bem vindos, há princípios essenciais, alguns deles plasmados em leis fundamentais da República, como a própria Constituição e a Lei de Bases do Sistema Educativo, que configuram a escola democrática nascida em Abril de 74 e que são fundamentais enquanto bases de qualquer discussão e pelos quais nos batemos hoje com a firmeza com que o fizemos antes e o faremos no futuro.

E, porque não achamos indevida a referência à democracia como base do sistema de gestão das nossas escolas, não aceitamos a qualificação de irracional que agora lhe fazem, e muito menos a consideramos como conducente à ignorância, à demagogia, ao egoísmo, à indisciplina e à irresponsabilidade, como o fazem os autores do Manifesto. Reafirmamos aqui, e de novo, que não há escola democrática divorciada de um sistema democrático de gestão, baseado na preponderância de critérios eminentemente pedagógicos sobre quaisquer outros, principalmente sobre os ligados à mercantilização da educação e à concepção da escola como se de uma qualquer empresa se tratasse. A FENPROF recusa com firmeza a visão elitista do sistema educativo que os signatários do referido Manifesto nem se preocuparam em disfarçar no seu escrito. Distanciamo-nos da atitude provinciana que só valoriza formações académicas obtidas no exterior do país e refutamos qualquer concepção que tenha por base a estratificação do nosso sistema escolar em escolas dirigidas às elites e outras, a sua maioria, destinadas a assegurar uma escolaridade de menor qualidade e dignidade para a restante população em idade escolar, nomeadamente para os alunos oriundos de classes sociais mais desfavorecidas.

De outro ângulo, revela alguma superficialidade e ligeireza de avaliação o exclusivo sublinhar do que de bom se realiza no estrangeiro, numa tomada de posição que estranhamente esquece a crise que vive a generalidade dos sistemas educativos europeus, ignora a luta generalizada, nos vários continentes, por uma escola pública de qualidade para todos e se revela indiferente à Campanha Mundial pela Educação actualmente em curso que, perseguindo também esse objectivo, procura a responsabilização dos governos pelo cumprimento rigoroso da Declaração saída da Conferência de Dakar, realizada em Abril de 2000 e assinada por 185 países de todo o mundo.

A FENPROF não desvaloriza os erros políticos cometidos por sucessivos governos no plano económico, nem esquece que a qualificação académica média dos nossos trabalhadores é hoje superior à qualificação média dos empresários, tal como não estabelece uma ligação directa e unívoca entre a baixa produtividade nacional e a formação dos trabalhadores. Não dizer que para isso contribuem outras causas, porventura mais decisivas, e que se têm que encontrar fora do sistema educativo é, no mínimo, aligeirar a análise e tornear os problemas.

A FENPROF considera que estamos perante um documento que não permite vislumbrar com clareza os verdadeiros desígnios dos seus promotores quanto ao rumo que sugerem para o sistema educativo português, quando o que é preciso é o apontar claro e rigoroso de pistas que permitam encontrar respostas positivas para os graves e complexos desafios da erradicação de flagrantes desigualdades sociais e de todas as formas de exclusão social e, em simultâneo, a construção de duradouras soluções de paz e bem-estar social generalizado.

A discussão ampla e participada é necessária e indispensável, mas tem que ser feita a partir de ideias e propostas. A FENPROF não precisa de abandonar a sua postura habitual e muito menos evoluir para atitudes de qualquer tipo de sobranceria, para que todos os observadores minimamente atentos às coisas da Educação saibam que nos debates em que entra, sejam quais forem os seus promotores, o faz com conhecimento das realidades, da Educação Pré-Escolar ao Ensino Superior, e com propostas concretas que sujeita, sem reservas, ao saudável confronto de ideias que urge cada vez mais alimentar. Podem, portanto, contar os promotores do Manifesto para a Educação da República com a presença fraterna e empenhada da FENPROF nos debates que se vierem a realizar."

Lisboa, 20 de Fevereiro de 2002-02-23
O Secretariado Nacional da FENPROF

O cometa da República

Informação recebida da Temas e Debates:

Não é mais um livro; é o livro que esperou um século para ser escrito. Investigação singular para um acontecimento singular, reveladora da nossa vulnerabilidade face ao espaço cósmico, esta obra revela às presentes gerações de que modo os nossos medos ancestrais determinam os nossos comportamentos extremos quando está em causa a sobrevivência. Em 1910 como no futuro.

Convite

O Círculo de Leitores e a Temas e Debates têm o prazer de convidar para apresentação do livro Halley-O Cometa da República, da autoria de Joaquim Fernandes, que se realiza no dia 18 de Maio, às 18.30 horas, na Livraria Bertrand, na Rua Garrett, 73-75, (no Chiado, em Lisboa).

O livro será apresentado por Joaquim Vieira, director do Observatório de Imprensa,e Rui Agostinho, director do Observatório Astronómico de Lisboa.

Da contra-capa da obra:

O pânico da passagem do cometa de Halley em Portugal

Celebrando-se em 2010 o Centenário da instauração da República em Portugal, decorre também um século sobre o maior evento de medo colectivo vivido pela população portuguesa no decurso da sua História.

São expostos os nexos e fortuitas relações - acasos e coincidências inscritos na história da Astronomia - entre ambos os acontecimentos ocorridos nesse mesmo ano: cerca de cinco meses depois da sua passagem próxima da Terra, em Maio, o cometa de Halley viria a ser lembrado como uma espécie de mensageiro, anunciador da primeira mudança de regime político em Portugal desde a fundação da nacionalidade.

Por tal motivo, o mais popular cometa da História humana pode ser etiquetado pelo inconsciente colectivo nacional como "o cometa da República".

Muitos dos temas que emergiram na sociedade portuguesa, a pretexto da aproximação do tão temido cometa, foram usados como arma ideológica pelos republicanos contra os suportes sociais, mentais e religiosos da Monarquia.

As fragilidades mentais do Portugal profundo, inseguro e supersticioso, vieram ao de cima, em todo o seu esplendor trágico e cómico. Como nos grandes dramas clássicos ou da antecipação científica, a sociedade portuguesa viveu, de facto, o transe de uma noite de "fim do mundo" !

Manifesto para a Educação da República

Transcrevo o Manifesto para a Educação da República, que foi em 2002 entregue ao Presidente da República (Jorge Sampaio), assinado por cerca de 20 000 cidadãos, e que foi referido no programa "Plano Inclinado" da SIC-Notícias por Guilherme valente. O manifesto encheu, quando saiu, as primeiras páginas do "Público" e do "Diário de Noticias" mas foi, infelizmente, ignorado. Um exemplo das reacções do "eduquês" encontra-se neste texto.

"Todos os estudos nacionais e internacionais sobre a educação dos portugueses convergem para a conclusão incontroversa de que a República está a educar mal os seus filhos. É essa a razão fundamental por que os portugueses continuam a não ser capazes de produzir a riqueza que consomem. É ainda por essa razão que Portugal se está a afastar dos padrões civilizacionais dos países com quem decidiu partilhar um futuro comum.

Os países desenvolvidos renovaram os seus sistemas de educação e de formação profissional em pontos de viragem da sua história. Portugal não seguiu esse exemplo, nem quando descolonizou, nem quando passou a integrar a Comunidade Europeia. Em vez da intervenção profunda e coerente que então se impunha, os sucessivos governos optaram por encarar os problemas educativos à medida que surgiam, envolvendo-nos numa densa teia de interesses e irracionalidades da qual não conseguimos ainda desenvencilhar-nos.

Abriu-se a escola a um maior número de crianças, como era a obrigação dum regime democrático. Mas mesmo esse sucesso é mais aparente do que real, já que somos o país da comunidade com a maior taxa de abandono escolar. Por outro lado, os estudantes que resistem ao abandono recebem, de um modo geral, uma educação muito deficiente a preços excessivamente elevados. Isso faz com que Portugal seja hoje um dos países da União que proporcionalmente mais gasta com a educação e, ao mesmo tempo, aquele que piores resultados obtém. Assim, a melhoria das condições económicas e sociais que foi conseguida em condições bastante favoráveis corre o risco de se perder, desbaratando-se uma oportunidade que dificilmente se repetirá.

Além disso, a indevida referência à democracia na designação do sistema irracional de gestão imposto pelo Estado às escolas e, em particular, às universidades, desacreditou a verdadeira democracia, passando os cidadãos a associá-la com a ignorância, a demagogia, o egoísmo e, sobretudo, com a indisciplina e a irresponsabilidade.

Portugal vive presentemente momentos de ansiedade perante o desmoronar de grandes expectativas nacionais. Os portugueses julgaram — alimentou-se-lhes esse sonho! — que podiam aceder sem esforço aos elevados padrões civilizacionais dos países mais desenvolvidos da Europa. Ao verificar que isso não é verdade, sentem-se defraudados e cépticos.

De um modo geral, o sistema de ensino e de formação profissional não fornece aos portugueses as ferramentas intelectuais que lhes permitiriam tirar proveito das enormes oportunidades de bem-estar que as sociedades pós-industriais oferecem à humanidade e evitar os riscos a elas inerentes.

Ao integrar a União Europeia, Portugal mergulhou num grande espaço económico onde o conhecimento é o principal factor de desenvolvimento. Não sendo menos dotados do que os outros povos, podemos atingir graus de desenvolvimento equivalentes se for proporcionada educação semelhante. Podemos ser um país mais rico se estivermos dispostos a suportar o esforço intelectual intenso e prolongado que é actualmente necessário para adquirir, aplicar e criar conhecimento, muito particularmente o conhecimento científico.

Por isso, é urgente mobilizar as instituições e os cidadãos para a grande batalha por um sistema educativo que possa contribuir para o progresso da sociedade portuguesa. Em particular, é preciso mobilizar as elites, recorrendo aos portugueses formados em contextos educativos de maior exigência intelectual e profissional, que estarão certamente dispostos e motivados para dar o seu contributo ao esforço decisivo que pode tornar Portugal uma comunidade informada, qualificada e empreendedora.

Neste quadro, apelamos ao senhor Presidente da República para que mobilize para a batalha inadiável da educação as instituições e os cidadãos, o Governo e a Assembleia da República, as escolas e as associações científicas, profissionais, empresariais e sindicais.

Problemas concretos tais como os objectivos e a articulação dos vários graus de ensino, a avaliação do desempenho dos estudantes, dos professores e das escolas, o apoio aos estudantes, os currículos e a acreditação dos cursos e das instituições, a qualificação académica e profissional, a formação inicial e continuada, o acesso ao ensino superior, o financiamento e a gestão das escolas, em particular das universidades, e o impacte da escola na inovação e na produtividade têm de passar a ser encarados em conjunto, de um modo coerente.

Solicitamos ao senhor Presidente da República que utilize os meios constitucionais ao seu dispor para promover a consciência e o esforço convergente dos competentes órgãos de soberania e dos cidadãos na construção de um sistema educativo que, à semelhança do que acontece noutras sociedades, forme intelectualmente e qualifique profissionalmente os Portugueses. Para que possamos ser, finalmente, o país por que todos ansiamos."

MANIA DAS GRANDEZAS


Transcrevo o poema de Joaquim Namorado, que referi no post anterior:

MANIA DAS GRANDEZAS

Pois bem, confesso:
fui eu quem destruiu as Babilónias
e descobriu a pólvora...

Acredite,
a estrela Sírius, de primeira grandeza,
(única no mercado)
deixou-me meu tio-avô em testamento.

No meu bolso esconde-se o segredo
das alquimias
e a metafísica das religiões
— tudo por inspiração!

Que querem?
Sou poeta
e tenho a mania das grandezas...

Talvez ainda venha a ser Presidente da República...

Joaquim Namorado

CEM ANOS DA BIBLIOTECA DA FIGUEIRA DA FOZ


Parte da minha intervenção ontem na sessão de comemorações dos cem anos da Biblioteca Municipal da Figueira da Foz, que tem o nome de Pedro Fernandes Tomás (na foto, o edifício da Biblioteca e Museu Municipal da Figueira da Foz, inaugurado em 1967):

Faz hoje exactamente cem anos que a Biblioteca Municipal da Figueira da Foz foi inaugurada. O nome que hoje ostenta, embora não tão antigo como a Biblioteca, é bastante antigo (remonta a 1927) e bem merecido: o figueirense Pedro Fernandes Thomaz, sobrinho-neto desse outro figueirense e grande figura do liberalismo que foi Manuel Fernandes Thomaz. Foi ele, integrando uma comissão cívica formada por outros figueirenses, que propôs a criação da instituição que hoje vivamente felicito por estar de parabéns. Fê-lo a partir de um acervo de centenas de volumes que se encontravam no Museu Municipal. De então para cá os livros cresceram e multiplicaram-se, sempre à disposição dos cidadãos. E não é por acaso que a Biblioteca Fernandes Thomaz e o Museu Santos Rocha partilham o mesmo edifício da cidade: as duas instituições estuveram juntas desde o início. Pedro Fernandes Thomaz era amigo de António dos Santos Rocha, tendo pertencido à Sociedade Arqueológica que este fundou em 1894 e que, a partir de 1903, passou a ter o nome que hoje é o do Museu.

Por coincidência, o arqueólogo Santos Rocha morreu na sua cidade natal em 28 de Março de 1910, sem poder estar presente na inauguração da biblioteca hoje centenária. Mas o seu espírito de promotor de cultura, que tanto marcou a Figueira da Foz e, portanto, o país, no final do século XIX, encontra-se decerto aqui hoje, já que continuou vivo, inabalado pelas vicissitudes dos tempos.

Pedro Fernandes Thomaz, membro do Instituto de Coimbra, a academia coimbrã que, iniciada em 1852, só viria a fechar nos anos 80 do século passado, foi, além de organizador e conservador da Biblioteca com o seu nome, um grande publicista (fundou e dirigiu a Gazeta da Figueira e a revista Figueira) e musicólogo (recolheu músicas e canções populares, em colectâneas que têm tanto interesse que ainda hoje são reeditadas), para além de professor. Maçon e republicano, talvez não pudesse, mesmo assim, ter adivinhado que, escassos meses após a inauguração da Biblioteca da Figueira da Foz, a República seria implantada em Portugal, um evento que a Figueira soube logo receber. Ele fez parte de um grupo de grandes nomes figueirenses, nascidos na segunda metade do século XIX e cuja acção se prolongou para bem dentro do século XX. De entre eles, permito-me destacar apenas alguns, embora correndo o risco de fazer injustiça a outros.

Thomaz tinha nascido no ano da fundação do Instituto de Coimbra – tinha, por isso, 57 anos quando a sua, hoje nossa, Biblioteca abriu as suas portas. Mas, mais novos do que ele, eram os seguintes personagens:

- António Mesquita Figueiredo, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, nascido em 1880 e, portanto, com 30 anos à data da inauguração. Foi bibliotecário da Biblioteca Nacional, conservador da Torre do Tombo e grande estudioso de temas da região. Em 1910 publicava uma notícia necrológica sobre Santos Rocha na Révue Archéologique de Paris, que testemunha a dimensão internacional do arqueólogo figueirense. Dois anos antes, em 1908, tinha, com companheiros seus, integrado a Comissão Wellington que preparou e deixou uma memória do desembarque de Wellington na Figueira. Acrescento que, em 1910, Pedro Fernandes Thomaz publicava na Imprensa Lusitana, da Figueira da Foz, um volume intitulado “A Figueira e a Invasão Francesa- Notas e Documentos”, que não se esqueceu de oferecer ao Instituto de Coimbra, existindo no espólio dessa academia que deu entrada na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra e está actualmente a ser catalogado. Também aqui está nesta Biblioteca: procurei no catálogo na Internet e encontrei, além da edição original, uma reedição recente feita por um alfarrabista de Coimbra, o que mostra não só a relevância como a actualidade da edição.

(Permitam-me que faça aqui um parêntesis para lembrar o episódio da invasão francesa pois ele mostra a união, que sempre existiu entre a Coimbra. A 27 de Junho de 1808 o Batalhão Académico, formado por estudantes da Universidade de Coimbra, tomou aos invasores franceses o Forte de Santa Catarina, na Figueira da Foz, preparando o caminho para o desembarque do general inglês Arthur Wellesley, mais tarde Duque de Wellington, na Praia do Cabedelo, na Figueira da Foz, prenunciando o fim da primeira invasão francesa comandada pelo general Junot. A expedição estudantil começou dois dias antes, às ordens do sargento de Artilharia e estudante de Matemática Bernardo António Zagalo. Eram só escassas dezenas os alunos que se alistaram, de capa e batina, mas o grupo foi sendo engrossado quando atravessou os campos do Mondego por numerosos paisanos, camponeses de foice e gadanha nas mãos, que, chamados pelos sinos da Torre e das igrejas, queriam ajudar na revolta. O batalhão ficou com mais futricas que doutores. Foi talvez por isso que o ocupante não ofereceu resistência, tendo rapidamente a bandeira lusa substituído o pavilhão francês na fortaleza figueirense).

- Luís Wittnich Carrisso, nascido em 1886 na freeguesia de S. Julião, na Figueira, botânico e professor na Faculdade de Ciências na Universidade de Coimbra que, em 1911, na sequência da mudança de regime, sucedeu às Faculdades de Filosofia e Matemática. Carrisso haveria de falecer de síncope cardíaca, em 1937, no deserto de Moçâmedes, em Angola, quando fazia mais uma das suas notáveis viagens de descoberta e exploração africana. Tinha 24 anos à data da inauguração da Biblioteca, e era recém-licenciado, uma vez que tinha concluído a sua tese de fim de curso sobre o tema da hereditariedade em 14 de Março de 1910 (doutorou-se no ano seguinte). Não sei se esteve presente na inauguração desta instituição, mas é bastante provável que a tenha frequentado. Muitos dos seus escritos estão acessíveis na Biblioteca Digital de Botânica, parte da Biblioteca Digital da Universidade de Coimbra.

- João de Barros, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, escritor (foi o autor do livro de poemas “Antheu”, saído em 1912, para além de muitas outras obras, incluindo algumas adaptações de clássicos para a juventude, que conheceram merecido êxito), pedagogo e político. Nasceu em 1881, pelo que tinha 29 anos quando a Biblioteca foi inaugurada e também podia, portanto, ter cá estado nessa ocasião. No ano de 1910, Barros publicou aliás uma “Homenagem a Luís de Camões”, publicada na Tipografia Popular de Manuel J. Cruz da Figueira, na sequência de um sarau sobre o nosso maior poeta que ele fez a 10 de Junho da Associação de Instrução Popular no Teatro da Figueira da Foz.

- Joaquim de Carvalho, formado em Direito e Letras pela mesma Universidade, notável professor de Filosofia e, em geral, de História da Cultura (incluindo na cultura a ciência), que foi director da Biblioteca da Universidade de Coimbra e da Imprensa da Universidade. Nasceu um ano depois de João de Barros e, tinha por isso, 18 anos à data da abertura desta Biblioteca (formou-se quatro anos mais tarde em Direito). Seja-me permitido prestar aqui uma particular homenagem a este erudito, cujo semi-centenário da morte se comemorou recentemente, e de cujos filhos fui e sou amigo. A Universidade de Coimbra, que a ele tanto deve, está muito empenhada em catalogar na íntegra com os modernos meios tecnológicos a sua espantosa biblioteca, que pertence à sua Faculdade de Letras, e espera da Fundação Gulbenkian – a instituição que publicou a sua “Obra Completa” e tanto ajudou a Biblioteca e o Museu da Figueira da Foz, uma ajuda nesse sentido.

Falei de alguns nomes de uma geração de ouro. Por falta de tempo, não posso falar tanto de outros nomes da geração que se seguiu. Mas sempre digo que, passados três anos de abrir a Biblioteca, nascia João Gaspar Simões, formado em Direito em Coimbra, o escritor e ensaísta que tanto marcou o Portugal literário do século XX, que, num registo, retratou a Figueira em escritos ficcionais (veja-se Uma História de Província: I parte — Amores Infelizes, 1934), e que, noutro registo, de editor e crítico, teve uma quota parte na revelação de Fernando Pessoa a Portugal e ao mundo. E, passados quatro anos, nascia, embora não aqui mas em Alter, no Alentejo, Joaquim Namorado, formado em Matemática pela Universidade de Coimbra, professor de Matemática impedido pelo Estado Novo de exercer a sua profissão e poeta “incómodo”, de cujo convívio tive o benefício de desfrutar, e que tomou a Figueira da Foz como sua terra adoptiva a ponto de dizer que o seu sonho político era ser presidente da junta de freguesia de S. Julião, na Figueira... Num poema intitulado "Mania das Grandezas" escreveu ironicamente "Talvez ainda venha a ser Presidente da República", mas, na vida real, não queria mais do que ser presidente dessa junta à beira-mar plantada. Entre o espólio do Instituto de Coimbra encontraram-se vários papéis dele, pois colaborou na última fase da revista O Instituto (hoje totalmente digitalizada) assim como o fez, ao longo de muitos mais anos, na revista Vértice.

Todos esses autores e outros estão, dentro das capas dos seus livros, à disposição do público nesta e noutras Bibliotecas. Estão, portanto, à nossa disposição. Muito mais podia ser dito sobre eles, mas o melhor é procurá-los nos livros que eles nos deixaram.

sábado, 1 de maio de 2010

CIÊNCIA E FICÇÃO: "PRESAS"


Informação recebida do Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho em Coimbra (clicar para ver melhor).

A liberdade de pensar

Na sequência de dois textos, um da autoria de João Boavida e outro da autoria de Rui Baptista, sobre a pessoa e a obra de Sílvio Lima, invoca-se, aqui, um livro que publicou em 1930, quando tinha vinte e seis anos de idade, e cujo título é Notas Críticas ao Livro do Sr. Cardeal Gonçalves Cerejeira "A Igreja e o Pensamento Contemporâneo" (1).

Notas que, no dizer de um biógrafo seu (2), "se mantiveram sempre ao nível mais elevado, com serenidade intelectual e o facto de os argumentos atingirem grande vivacidade, nunca a contestação das ideias ofendeu a elegância moral e a serenidade de julgamento". Não obstante, essas Notas "de um republicano agnótico" desencadearam uma extensa polémica com pesados custos para a sua carreira de professor. Aqui começava uma perseguição pelo regime político que, em 1935, o havia de afastar da Univerdidade de Coimbra, conjuntamente com outros 32 colegas.

Esta circunstância tinha, aliás, sido prevista pelo próprio Sílvio Lima, quando escreveu no prefácio do referido livro dedicado aos seus amigos António Cesar Abranches e Vitorino Nemésio:
"Com estas páginas outro escôpo não visei senão dilucidar, esclarecer, precisar.
O que entre nós - lusos - mais urge é a criação do espírito crítico.

Sei, antecipadamente, que êste opúsculo - vindo dum nôvo e que aos novos se dirige - há-de acarretar sôbre mim cóleras bravas, impropérios, pedradas brutas.
Não importa. «Tout comprendre pour tout pardonner»"
Aqui se reproduz um pequeno extracto dessas Notas que vale a pena ler ou reler (páginas 71-73):

"O Sr. Cardeal, a páginas 94, escreve: «Foi Comte que o disse: desde que há Sciência, já não pode haver liberdade de pensar». Santo Deus! Pois quê? Comte, Augusto Comte, diria isso mesmo que o Sr. Cardeal nos diz? Revele-me Sua Eminência, mas tal ideia, é decerto deslustrar a sagrada memória dum morto. Que a França o não saiba.

O Sr. Cardeal, porque continua a definir a chamada liberdade de pensar como se fôsse o suícidio da lógica, julga, ou melhor, atribui ao inditôso do Comte êste espantoso raciocínio: «Desde que há Sciência, já não pode haver liberdade de pensar»! Ocioso será dizer, que o pensamento do chefe do positivismo se resume ao seguinte: Deante dum facto, scientificamente demonstrado, ninguem tem o direito de pensar o contrário daquilo que scientificamente, se demonstrou.

Exemplifico: Uma vez demonstrado que todos os corpos caem no vazio com igual velocidade, ninguem (seja clero, nobreza e povo) tem a liberdade de pensar que os corpos caem no vazio com desigual velocidade. Bem. Mas isso não significa que qualquer espírito não tenha a liberdade de verificar, de pensar se tal lei é exacta (...).

A liberdade de pensar não está, pois, como julgou o Sr. Cardeal, em agredir a lógica, em repeli-la qual se fôsse a rainha louca, mas servindo-nos dela como amiga, espôsa e mãe, verificar criticamente os dados da experiência."

Referências bibliográficas:
(1) Lima, S. (1930). Notas Críticas ao Livro do Sr. Cardeal Gonçalves Cerejeira "A Igreja e o Pensamento Contemporâneo". Coimbra: Livraria Cunha.
(2) Pereira da Silva, A. J. (2005). Sílvio Lima, um esboço biográfico. Carregal do Sal: Edição da Câmara Municipal.

Classica Digitalia, um ano depois

Informação recebida pelo De Rerum Natura

A biblioteca Classica Digitalia tem 4 novidades editoriais, que elevam para 25 o número de volumes publicados, um ano depois de ter sido lançado o braço editorial do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos. A todos quantos tornaram possível a concretização desta meta, o nosso sentido obrigado.

(Os volumes são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital. O e-book correspondente encontra-se disponível em acesso livre).

Colecção “Autores Gregos e Latinos – Série Textos” [projecto “Plutarco e os fundamentos da identidade europeia”]
- Ana Maria Guedes Ferreira e Ália Rosa Conceição: Plutarco. Vidas Paralelas – Péricles e Fábio Máximo. Tradução do grego, introdução e notas (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, 2010). 257 p. PVP: 14 Euros
- Bernardo Mota: Plutarco. Obras Morais – Sobre a Face Visível no Orbe da Lua. Tradução do grego, introdução e notas (Coimbra, Classica Digitalia/CECH 2010). 122 p. PVP: 10 Euros
- Paula Barata Dias: Plutarco. Obras Morais – Como Distinguir um Adulador de um Amigo, Como Retirar Benefício dos Inimigos, Acerca do Número Excessivo de Amigos. Tradução do grego, introdução e notas (Coimbra, Classica Digitalia/CECH 2010). 239 p.PVP: 13 Euros:

II. Série “Varia”- Maria Helena da Rocha Pereira, Greek Vases in Portugal (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, 2010) 165 p. + LXVI p. (plates) [2nd edition with a new supplement]PVP: 17 Euros.
A publicação deste volume, que continua a ver um verdadeiro “companion” para o estudo dos vasos gregos em Portugal, saiu muito enriquecido com as fotografias gentilmente cedidas pelo Museu Nacional de Arqueologia, Museu Gulbenkian e Instituto de Arqueologia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, a cujos responsáveis reiteramos o nosso agradecimento.

E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...