quinta-feira, 29 de abril de 2010

Sílvio Lima e o Desporto

“Eu não tenho o meu corpo, eu sou o meu corpo” (Gabriel Marcel, 1889-1973).

Em frutuoso acervo de artigos, comentados em louvável labor académico, foi publicada recentemente uma tese de mestrado, orientada pelo professor catedrático da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, José Boavida, em livro intitulado “Sílvio Lima e o Desporto”, da autoria de Pedro Falcão, licenciado em Filosofia por essa universidade.

Debruçou-se o seu autor, de forma exaustiva, sobre o riquíssimo espólio, de várias matizes temáticas, da obra de Sílvio Lima (1904-1993), professor universitário de Filosofia da Universidade de Coimbra e investigador da área de Sociologia e das Ciências da Educação, com um extenso acervo de artigos (97) publicados no jornal portuense “O Primeiro de Janeiro”, entre os anos de 39 a 43, cuja riqueza envolve matérias de frondosa árvore de que colho títulos como estes: “Reflexões Críticas Sobre o Desporto”, “Desporto e Sociedade”, “Desporto, Mocidade e Velhice”, “Desporto e Ciência”, "Medicina Desportiva”, “Desporto e Economia” e “O Desporto e a Beleza”.

A publicação deste livro ficou-se a dever ao director da Imprensa da Universidade de Coimbra, João Gouveia Monteiro, professor da Faculdade de Letras, que assim deu um testemunho público do interesse da "Velha Torre" das margens do Mondego pelas “coisas” do corpo. Aliás, como o acontecido anteriormente, quando esta vetusta academia acolheu em seus claustros a sua oitava faculdade, a Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física, que encontrou no seu antigo Reitor da Universidade de Coimbra, Rui de Alarcão, ao tempo professor da sua Faculdade de Direito, um entusiasta para a sua criação, facto que é da mais elementar justiça relevar numa época que pouco prima pelo reconhecimento de que o desporto, segundo Sílvio Lima, “é uma questão grave (grave, quer dizer etimologicamente, pesada) que só parece leve aos de cabeça leve como o sabugo e o algodão”.

Prova evidente de estar o simples pontapé na bola para o desporto como o reboco das paredes está para a engenharia, por exemplo. E quando evoco "o ponta pé na bola", inspirado na crítica de Sílvio Lima “à prática irracional do desporto, realizada de forma inconsciente, indisciplinada e desregrada” , ao arrepio de “sólidos conhecimentos científicos”, como transcreve Pedro Falcão, não ouso, sequer, referir-me aos saudosos tempos "das balizas às costas" que remontam ao início do futebol moderno de cunho científico nacional porque, como escreveu Jacob Bronowski (1908-1974), matemático e biólogo, autor da obra “O Senso Comum da Ciência”,” os processos da ciência são característicos da acção humana, porque se movem pela indissolúvel união do facto empírico e do pensamento racional”.

O futebol moderno, conservando a sua componente de sorte inerente a toda e qualquer forma de jogo que o torna aliciante para as multidões, exige, hoje, condições científicas inerentes à respectiva metodologia de treino e conhecimento profundo da “máquina humana”, questões que, por vezes, são mantidas na sombra do esquecimento quando se tem José Mourinho, apenas, ungido por essa sorte pela não referência da sua licenciatura em Desporto,pela Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa, acrescentada mais tarde por esta universidade ao atribuir-lhe o doutoramento honoris causa (2009). Reconheceu ele própria na altura que “seria sempre treinador de futebol, mas sem faculdade seria assim-assim e nunca muito bom" (“Record”, 24/03/2009).

Ou seja, nasce-se predestinado para a prática do futebol de alta competição, Eusébio e Cristiano Ronaldo são prova disso mesmo, mas não se nasce treinador de futebol por se ter sido, apenas, um jogador de nomeada: José Mourinho e Carlos Queirós, ambos licenciados em Educação Física, foram medianos praticantes do chamado desporto-rei. Com honrosas excepções de antigos praticantes, em evidente e louvável esforço de auto-didactismo, é esta confusão que tem retardado, em parte, o reconhecimento cientifico do futebol, uma técnica, uma arte, um fenómeno social que arrasta multidões - servindo de bandeira a países que pautam a sua glória em função das medalhas de ouro obtidas em competições desportivas mundiais -, de há anos para cá, com foros de cidadania académica em universidades espalhadas pelas sete partidas do mundo.

Apesar da riqueza da obra de Sílvio Lima em defesa do Desporto, que João Boaventura (citado na tese de Pedro Falcão) descreve, em 1987, como “um diamante na inexistente literatura desportiva portuguesa”, ou, ainda, nesse mesmo ano, que “Sílvio Lima, foi, neste século [reportando-se ao século XX] , o primeiro e único catedrático que desceu à análise filosófica e sociológica do desporto, dando-lhe a roupagem digna de que já carecia”, persiste, em nossos dias, por vezes, a subalternidade cartesiana do corpo relativamente à mente, enunciada e logo criticada em síntese sublime, no livro “O inumano”, pelo filósofo da nossa contemporaneidade, Jean-François Lyotard: “Toda a energia pertence ao pensamento que diz o que diz, que quer o que quer; a matéria é o fracasso do pensamento, a sua massa inerte a estupidez”.

Conceito ultrapassado e criticado na prosa filosófica e humanistica de Sílvio Lima, merecedora de uma leitura atenta de académicos, educadores e praticantes desportivos que aí encontrarão respaldo sólido de um vulto de uma cultura multifacetada em defesa de uma prática desportiva que nada tem a ver com uma mesa de montagem de esplêndidas bestas destituídas de “Matéria Pensante”, apropriando-me do título de um livro escrito em conjunto por Jean-Pierre Changeux, notável neurobiólogo, e Alain Connes, célebre matemático, ambos membros da Academia de Ciências de França.

Que me perdoe o leitor o alongar destas minhas descolorida linhas que encontram indulto na riqueza da prosa de Sílvio Lima que justifica uma leitura reflectida de quem neste estudo irá encontrar o respaldo sólido de um dos vultos da cultura portuguesa em prol de uma prática desportiva ao serviço da saúde, de uma melhor aptidão física, de um bem-estar geral.

Eu próprio, se fosse um profundo conhecedor da obra de Sílvio Lima (que infelizmente não sou), podia ter encontrado na sua valiosa obra exímio timoneiro para me orientar em mar sem escolhos na defesa intransigente que tenho feito das actividades corporais, como por exemplo, numa conferência por mim proferida na Sociedade de Estudos de Moçambique (1971), intitulada “Educação Física, Ciência ao Serviço da Saúde Pública” .

Há lacunas imperdoáveis no enriquecimento da nossa cultura. Faço aqui a minha penitência, logo eu admirador da obra de Ramalho Ortigão que, quando se refere ao seu tempo, escreve de forma cáustica sobre os seus conterrâneos: “Como cultura física, indigência igual à da cultura mental. Se falando metem os pés pelas mãos, calados metem os dedos pelo nariz. Não têm ‘toillete’, não têm maneiras e têm caspa”.

E se na Ramalhal figura, como a descreveu Eça, tenho encontrado sólido bordão que me ajuda na minha modesta jornada em defesa das actividades corporais, sob a sombra de Almada Negreiros, esteta de fina sensibilidade e um dos vultos mais marcantes da cultura portuguesa, das belas-artes às belas-letras, encontro, igualmente, amparo sólido quando endeusa o corpo do atleta com o exórdio: “É preciso criar a adoração dos músculos”.

No encerramento destas minhas descoloridas linhas e na mais que justa rendição ao valor da sua obra, regresso a Sílvio Lima e à sua exortação, citada no livro de Pedro Falcão: “Ensinemos o intelectual a compreender e…a amar o desporto, a ver nele obra de ciência e arte; e por sua vez, ensinemos o desportista a compreender e a amar a vida mental, a ver na ciência e na arte maravilhosos exercícios desportivos, já que a ciência e a arte são afinal a alma radiosa do verdadeiro e humano desporto”. Na simbiose desta aprendizagem muito terão a ganhar o intelectual, o desportista e a própria sociedade portuguesa.

5 comentários:

  1. Emrrata: Na antepenúltima e última linhas do post, corrijo cinco para "sete partidas do mundo".

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  2. No acampamento militar romano da Lomba do Canho, em Arganil, do sé. I antes de Criato (tardo-republicano), foi encontrado uma pedra de anel (sinete) representando, em negativo, o discóbolo que figura no presente post e que permanece inédito. Trata-se de pasta vítrea, cor de topázio. JCN

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  3. Prezado JCN:

    Agradeço a referência que faz a esta reprodução do tempo dos romanos em terras de Arganil da obra escultórica do grego Miron, que remonta a 4,5 séculos a.C., em prova de que a Arte atravessa as fronteiras do tempo para se tornar em património da humanidade.

    Herança que se faz companheira de gerações num palco efémero em que ao homem cabe o papel de “representar apenas um pálido clarão na tempestade da vida, mas esse clarão é tudo", segundo o matemático e filósofo francês, Henri Poincaré (1854-1912).

    Cordiais cumprimentos,

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  4. Meu caro Dr. Rui Baptista:

    Creio que não lhe dou novidade alguma, recordando-lhe que o original em bronze, grego, se perdeu, restando apenas algumas cópias romanas de data incerta, para além do sinete recentemente recuperado em Arganil e que, a seu tempo, darei a conhecer, encontranso-se presentemente à guarda da respectiva autarquia. JCN

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  5. O DISCÓBOLO

    Ao Dr. Rui Baptista

    Anatomicamente bem tratado,
    um pé no solo assente com firmeza,
    a estátua do discóbolo, de lado,
    pretende superar a natureza.

    Na mão direita o disco preparado
    para com toda a olímpica destreza
    ser elegantemente arremessado,
    não pode imaginar-se mais beleza!

    Em perfeito equilíbrio do seu torso,
    parece não fazer qualquer esforço,
    os músculos mantendo distendidos.

    Eis, na ponderação dos entendidos,
    a suprema versão do corpo humano
    sem o menor ou mais ligeiro engano!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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