domingo, 9 de dezembro de 2007

A “Lei de Murphy” é excepção

Na sequência do texto do De Rerum Natura, deste 7 de Dezembro, a propósito do livro Passeio aleatório pela ciência do dia-a-dia, de Nuno Crato, lembrei-me que, além da física, também a ergonomia pode dar algumas achegas para a discussão sobre a tão célebre quanto satírica Lei de Murphy.

A ergonomia é uma disciplina científica que, já há algumas décadas, se dedica a investigar a adaptação dos profissionais às condições físicas, psicológicas e sociais dos contextos laborais, de forma a melhorar essa adaptação.

Entre os muitos e diversos temas interessantes que investiga, contam-se os erros humanos. Neste particular, podemos dizer que chegou, entre outras, a duas conclusões interessantes: uma (mais) pessimista e outra (mais) optimista. A (mais) pessimista é que “não é possível não errar” e a outra (mais) optimista é que “os erros tem uma reduzida intervenção na acção profissional”.

Aparentemente estas duas conclusões são contraditórias, mas, na verdade, são complementares. Vejamos, então:

Não é possível não errar
Os autores que se interessam pelo erro concordam em que não existe garantia prévia de a acção profissional ser isenta desse fenómeno: o risco da sua interferência pode ser ínfimo, mas não é nulo (Pereira, 1983). É preciso, portanto, ter lucidez para pensar que, por melhor que se conheçam os factores potenciadores dos erros e por mais sofisticados que sejam os modos de controlo disponibilizados, eles podem surgir em qualquer momento, em qualquer tarefa, com qualquer pessoa. Nesta medida, devemos reconhecer os erros como parte integrante do desempenho, afinal, “são o preço inevitável e, até, aceitável, que temos de pagar pela nossa notável capacidade para enfrentar rápida e eficazmente tarefas que envolvem informação complexa” (Reason, 1994, 148).
Este reconhecimento de que “toda a gente comete um erro de tempos a tempos” (Senders & Moray, 1991, 79), não deve, no entanto, conduzir ao descuido da sua vigilância. Efectivamente, os erros podem ter consequências graves ou muito graves, constituindo, por isso, um dever ético-prático dos profissionais fazer tudo o que estiver ao seu alcance para os evitar (Popper, 1992). Mas só isso não basta: é também seu dever estarem em permanente alerta para detectarem, repararem e recuperarem o maior número possível de erros que, inadvertidamente, tenham cometido.

Os erros têm uma reduzida intervenção na acção profissional
Na sequência desta reflexão e sem entrar em contradição, James Reason (1994), nome incontornável neste assunto, defende que os erros têm uma reduzida intervenção no desempenho profissional, uma vez que habitualmente se situam numa sequência ou num pequeno número de sequências das muitas que constituem o plano de acção pelo qual se optou. Na realidade, e hipoteticamente falando, para concretizar uma determinada tarefa não existe um só plano possível, mas vários, sendo que cada um deles é composto por diversas sequências, cada uma das quais proporciona múltiplas possibilidades de acção inapropriada, as quais, por sua vez, poderão assumir uma infinita variedade de formas. Felizmente, na maior parte das circunstâncias, a maioria dessas possibilidades não se concretiza.
Nesta linha de raciocínio, e ainda segundo o referido autor, é possível afirmar que as sequências dos desempenhos profissionais onde surgem erros, quando comparadas com as sequências adequadas, são pouco numerosas e, além disso, os erros assumem um número limitado de formas.

Em suma
Em vez de lei – uma lei cumpre-se sempre –, a Lei de Murphy é excepção, ainda que tenhamos tendência a invocá-la quando detectamos um erro. Caso a Lei de Murphy fosse mesmo lei, os Egípcios não teriam construído as magníficas pirâmides, Fernão de Magalhães não teria feito a viagem de circum-navegação, Miguel Ângelo não nos teria deixado o tecto da Capela Sistina, Marie e Pierre Curie não teriam isolado o radium e o polonium, a NASA não teria conseguido alunar a sua primeira nave…
Pensando bem, o conhecimento, como construção humana que é, constitui uma prova substancial da luta constante e, em grande medida, conseguida da falível humanidade contra o erro. Se tudo aquilo que pudesse correr mal, corresse mal, viveríamos (ainda) em plena barbárie e não em civilização.

Referências bibliográficas:
- Pereira, O. G. (1983). Erro humano: uma conferência internacional. Análise Psicológica, vol. III, n.º 3, 309-326.
- Popper, K. (1992). Em busca de um mundo melhor. Lisboa: Fragmentos.
- Reason, J. T. (1994). Human error. Cambridge: Cambridge University.
- Senders, J. W. & Moray, N. P. (1991). Human Error: cause, prediction and reduction. New Jersey: Lawrence Erlbaum Associates.

Imagem retirada de:
http://www.diariodetrasosmontes.com/images/noticias/ciskei205.jpg

sábado, 8 de dezembro de 2007

Homeopatetices: is it a kind of magic?

Algumas reacções, transmitidas pessoalmente, aos posts anteriores sobre homeopatia fizeram-me perceber que a esmagadora maioria das pessoas, que já tinha ouvido falar desta banha da cobra e algumas já a tinham usado ou conheciam quem usasse, não fazia a mínima ideia no que assentava, nomeadamente nunca tinha ouvido falar na dita «dinamização» dos princípios vitais. Para além disso, confundiam homeopatia com terapias herbais e ninguém sabia o que significavam as tais sinalefas que indicam a diluição.

Uma delas fez-me saber em termos muitos vivos que não acreditava ser verdade que os homeopatas pretendem que «O poder curativo provém do poder cósmico transferido para o remédio através do ritual da potencialidade», ritual esse que basicamente consiste em «extrair» a «energia curativa imaterial» através de sacudidelas na vertical, 100 destas sacudidelas, para ser rigorosa, as tais que são pomposamente denominadas «sucussões». Por outro lado, uma vez que não fazia a mínima ideia o que significavam as tais sinalefas, interpelou-me sobre a minha afirmação de que os «medicamentos» homeopatetas, na maioria das diluições prescritas, não têm uma única molécula dos «princípios vitais» que são supostos conter e se eu o tinha confirmado de alguma forma.

Na realidade, basta entrar no portal da Sociedade Homeopática portuguesa para o confirmar, isto é, podemos ler, entre inanidades como a diluição infinitesimal agir como um catalisador por processos de biorressonância (o que disparate quer que isto seja):

A partir da 12ª diluição centesimal, segundo a lei de Avogadro, já não encontramos moléculas da substância e daí a ausência de iatrogenicidade.

A diluição pressupõe uma agitação (sucussão), que se designa por dinamização, sem a qual o efeito é nulo.


Esclarecida a questão das sacudidelas, que segundo os homeopatetas são o cerne da questão, vamos então ver a questão da existência ou não de moléculas dos tais «princípios vitais» nas homeopatetices com um exemplo simples. Os homeopatetas preparam os seus «medicamentos» a partir ou de tinturas mãe, um extracto alcoólico das plantas ou o que seja que utilizem, ou das substâncias trituradas no caso em que estas não são solúveis em álcool e trituradas em conjunto com lactose nas três primeiras triturações no caso de substâncias insolúveis de todo (isto é, admitindo densidades semelhantes, no fim das três triturações há cerca de um ppm ou uma molécula do princípio vital para um milhão de moléculas de lactose).

Não faço ideia qual seja a concentração inicial das tinturas mãe mas façamos o exercício usando água como ponto de partida e assumamos que se dilui água em etanol seco (sem água) para calcularmos a concentração de água ao fim de algumas diluições. A molécula de água é muito pequena e a água tem uma densidade elevada (para um líquido) de forma que não conheço nenhuma substância pura que apresente maior molaridade. A água pura tem uma concentração de ~55.5 M, isto é, num litro de água existem 55.5 moles da mesma, 55.5xnúmero de Avogadro ou 3.34x1025 moléculas de água por litro.

Uma tintura terá necessariamente uma concentração inicial muito menor, provavelmente inferior a 1 M, portanto o exercício seguinte com a água é um majorante do que se passa com qualquer homeopatetice, isto é, necessariamente para uma homeopatetice a diluição a partir da qual não há uma única molécula do «princípio vital» em solução é inferior à que vamos obter para a água.

Na primeira diluição, CH1 ou C1, obtemos água com concentração 0.555 M ou com 3.34x1023 moléculas de água por litro. Continuemos o exercício com as várias diluições:

Diluição .... Nº moléculas/litro
CH2 ............. 3.34x1021
CH3 ............. 3.34x1019
CH4 ............. 3.34x1017
CH5 ............. 3.34x1015
CH6 ............. 3.34x1013
CH7 ............. 3.34x1011
CH8 ............. 3.34x109
CH9 ............. 3.34x107
CH10 ........... 3.34x105
CH11 ............ 3.34x103
CH12 ............ 33.4

Ou seja, a partir da diluição CH12 (e há quem venda CH100, supostamente «medicamentos» mais «potentes» que qualquer outra diluição porque foram sujeitos a mais batidelas) já não há uma única molécula de água em solução.

Assim, ou temos as crenças não justificadas de que as batidelas extraem «a essência ou alma de cada elemento» e de que as doenças não têm uma causa material mas sim sobrenatural que é igualmente curada «sobrenaturalmente» ou por magia por esta «alma» (e que doenças causadas por microorganismos patogénicos e afins são invenções «cientifistas») ou então necessariamente concordamos que a homeopatia não passa de banha da cobra.

As explicações pseudo-científicas arranjadas para explicar a acção de moléculas inexistentes são muito imaginativas mas, mais uma vez, não passam disso, delírios pseudo-cientificos e bastante grosseiros.

Desmontarei num próximo post os argumentos químicos inventados para sossegar os que não se sentem confortáveis com argumentos sobrenaturais ou mágicos, nomeadamente a história da catálise por «biorressonância» e a suposta «memória» da água, que não passam de disparates sem ponta por onde se lhe pegue.

Por agora, deixo as referências de um artigo publicado na edição de 27 de Agosto de 2005 da revista científica «The Lancet», intitulado «Are the clinical effects of homoeopathy placebo effects? Comparative study of placebo-controlled trials of homoeopathy and allopathy», da página sobre homeopatia de David Colquhoun, catedrático de Farmacologia na Universidade de Londres, e de mais um artigo de Ben Goldacre no Guardian que desmonta os argumentos dos homeopatas para convencer os mais incautos.

Como se pode ver na argumentação debitada em 2005 pelo homeopateta britânico mais «proeminente», hoje em dia em completo pânico de ver desaparecer a sua fonte de (enorme) rendimento, os homeopatetas essencialmente afirmam ser esta variante particular de magia insusceptível de avaliação por métodos científicos bem estabelecidos, razão que «explica» porque não resiste a uma análise estatística dos seus supostos efeitos comparativamente com os efeitos de simples placebos em testes sérios e controlados...

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

A LEI DE MURPHY


Do último livro de Nuno Crato, "Passeio Aleatório pela Ciência do Dia-a-Dia" (Gradiva), lançado hoje em Lisboa, transcrevemos um dos aliciantes trechos:

Em 1949, a Força Aérea norte-americana fez uma série de experiências para medir as reacções do corpo humano a acelerações elevadas. Para tomar as medidas, era preciso fixar aparelhos ao corpo de pilotos. Cada aparelho podia ser montado apenas de duas formas: uma certa e uma errada. O engenheiro que concebeu a experiência mandou instalar 16 desses aparelhos, de forma a melhorar a precisão das observações e reduzir as hipóteses de erro. Pois o técnico que os instalou conseguiu montá-los todos na forma errada e a experiência falhou.

O engenheiro chamava-se Murphy e, desapontado, formulou a célebre lei que toma o seu nome: «Se há uma maneira errada de fazer as coisas, então é certo que alguém as fará mal.» No dia seguinte, o piloto que tinha sido cobaia no teste, major John Stapp, deu uma conferência de imprensa. Transmitiu a reacção de Murphy, embora de forma um pouco diferente: «Se algo pode correr mal, então é certo que vai correr mal.» Alguns repórteres decidiram incluir esta frase nas notícias e o dito ficou conhecido como Lei de Murphy.

Esta lei pessimista é invocada quando algo corre mal, havendo esperanças de que tal não acontecesse. Um exemplo típico entre brasileiros é «a fatia da tosta cai sempre no chão com a manteiga para baixo». Mas há outros exemplos habitualmente citados: «a parte mais importante de um fax é sempre aquela que aparece menos legível», ou «só se têm furos nos pneus quando se tem pressa», ou ainda «os computadores só são atacados por vírus quando não se fizeram cópias de segurança dos ficheiros».

Na realidade, como toda a gente sensata reconhece, a Lei de Murphy é apenas uma ironia e a sua aparente aplicabilidade generalizada é uma ilusão psicológica. Invocamo-la quando algo corre mal e esquecemo-la sempre que as coisas correm bem. Em geral, o nosso cérebro faz automaticamente uma selecção dos casos que parecem ajustar-se ao padrão que se procura. No que se refere à Lei de Murphy, em particular, estão em causa situações desagradáveis, que por isso se recordam mais persistentemente: lembramo-nos daquele dia azarado em que um furo no pneu nos fez perder o avião e esquecemo-nos das vezes em que não tivemos nenhum problema e chegámos a horas ao aeroporto.

Recentemente, alguns cientistas discutiram seriamente a Lei de Murphy. O físico Robert Matthews, por exemplo, deu-se ao trabalho de fazer experiências com tostas e verificou, como seria de esperar, que, sendo estas atiradas ao ar, a probabilidade de caírem com a manteiga para baixo é 1/2. No entanto, se as tostas rolarem de uma mesa com cerca de 80 cm de altura, como é habitual, a probabilidade de caírem com a face barrada para baixo é muito superior. A razão é simples, verificou o mesmo físico. É que, a essa altura, as tostas apenas têm tempo para fazerem meia volta. Se as mesas tivessem dois metros de altura, então as tostas cairiam preferencialmente com a face barrada para cima.

O artigo de Matthews discute ainda outras pretensas manifestações da Lei de Murphy e conclui serem resultados perfeitamente explicados pelas leis da física e pela teoria das probabilidades. A lição é simples: em vez de procurar explicações na fatalidade ou na premonição, vale a pena usar a cabeça e a ciência para tentar explicar os fenómenos. Entendida como graça, a Lei de Murphy tem a sua piada. Enquadrada no reino da superstição, nem piada tem.

Teatro e ciência


Foi há poucos dias defendida a Universidade do Porto a tese de mestrado de Mário Montenegro sobre ciência e teatro que contém como anexo a tradução para português da peça "Calculus" de Carl Djerassi, sobre a disputa entre Newton e Leibniz. O interessante projecto "Edit on the Web" dá a notícia, que se pode ler aqui.

A extinção das escolas técnicas e dos liceus


Do nosso colaborador habitual Rui Baptista:

A universidade revela todas as capacidades, até a incapacidade” (A.Tchekov)

Tem sido atribuída a génese da extinção das escolas técnicas e dos liceus a um projecto de reforma de Veiga Simão, ministro da Educação do governo de Marcelo Caetano. Prefigurava-se, assim, no horizonte uma sociedade igualitária pela criação galopante e sem tino de universidades e escolas politécnicas, públicas ou privadas, de duvidosa idoneidade e nas quais, em comentário de Vasco Graça Moura, “a escola que temos passa o tempo a pôr pó de talco e a mudar as fraldas dos jovens até ao 17 anos”.

Seja a que título for – ainda mesmo que para efeitos meramente estatísticos que coloquem Portugal a par dos índices de graus académicos dos países europeus que levaram várias décadas a lá chegar -, o ensino superior português não pode continuar a ser o escoador sem qualquer ralo de todos os diplomados saídos do ensino secundário e, muito menos, o sítio da recepção escandalosa de indivíduos que apresentem como habilitação necessária pouco mais que o bilhete de identidade que comprove serem maiores de 23 anos!

A este propósito, no “Diário de Coimbra” de 26 de Julho de 2001, aduzi o seguinte testemunho de uma prestigiada figura socialista, com elevada audição no sistema educativo francês: “O collège único é uma ficção, um igualitarismo funcional que nada tem a ver com a igualdade real” (Jean-Luc Melénchon, L’Express, 22/Março/2001).

Com a extinção das escolas comerciais e industriais, que tão boas provas deram na formação de técnicos competentes (contabilistas, carpinteiros, electricistas, mecânicos de automóveis, etc.), ficou o país sem a mão-de-obra qualificada e de crédito reconhecido que representava a espinha dorsal do seu desenvolvimento tecnológico e económico. Actualmente, com raras excepções, os alunos do ensino básico encontram-se mal preparados quando chegam ao ensino secundário e encontram escolhos sem fim que os tornam náufragos do mar proceloso do ensino universitário. Ou então, quando incapacitados por motivos variados de prosseguir estudos, não estão, de forma alguma, preparados para exercer capazmente um ofício que os ventos de novo-riquismo de uma democracia (elitista no mau sentido da palavra!) desvalorizou socialmente em nome de uma “diplomacracia” de cursos superiores, na feliz expressão de António José Saraiva.

A escassa percentagem de indivíduos com formação para exercer uma profissão manual (como opção em idades jovens em que melhor se adquirem as habilidades motoras e não como recurso tardio de todos aqueles que se mostram incapacitados de prosseguir estudos secundários com destino ao ensino superior) tem conduzido a um estado calamitoso de falta de mão-de-obra especializada. Em perfeita demagogia, em vez de se possibilitar a toda a comunidade escolar uma enxada para ganhar a vida distribuem-se à mão cheia diplomas do ensino secundário a alunos dispensados de assistirem às aulas mesmo sem ser em caso de doença declarada ou por qualquer outro motivo imperioso.

Ainda mesmo em Dezembro de 2003, aquando da abertura do “Congresso Educação/ Formação”, o então ministro da Educação David Justino lamentava o facto de, no pós 25 de Abril, “se ter morto o ensino técnico e profissional, tendo-se perdido com isso quase 30 anos”. Felizmente, notícias recentes dão-nos conta que o número de alunos do 3.º ciclo do ensino básico e do ensino secundário tem crescido à custa daqueles que se encontram a frequentar cursos públicos e privados de formação técnico-profissional.

Assim, entendo ser desígnio nacional continuar a ministrar a este tipo de ensino a expansão e a dignidade de que ele carece: em escolas próprias, devidamente apetrechadas em oficinas e com professores convenientemente habilitados para um ensino com características e necessidades específicas que o diferenciem do ensino só para prosseguimento de estudos superiores.

O texto constitucional que diz que todos os cidadãos têm direito à educação reza, por outro lado, que todos têm direito ao desporto. Mas daí a entender-se que todos os portugueses podem jogar em equipas que disputam a superliga de futebol sofre de idêntico vício de forma ao de admitir que todos os alunos devem frequentar os muros universitários independentemente de terem ou não capacidade para isso. Anos atrás, o sociólogo António Barreto atribuiu este “statu quo” ao facto de ter sido passada publicamente a mensagem de o acesso à universidade ser um direito de todos, tal como a protecção na doença e na velhice!

Uma verdade evidente


Do jornal "Destak" de hoje transcrevemos a crónica habitual das sextas feiras do médico psiquiatra José Luís Pio Abreu:

Um ex-governante angolano comentava a riqueza do Presidente: “O Presidente é rico? É e tem de ser. Se existir em Angola alguém mais rico do que ele, será outro a mandar”. Uma verdade tão crua como evidente.

Claro que é uma verdade adaptada a Angola. Saída de uma longa guerra civil, o aparelho de Estado é fraco para a dimensão do território, a lei não tem instrumentos de aplicação, o espírito crítico é incipiente. As riquezas naturais são promissoras e permitem enriquecimentos fáceis. E, de algum modo, o país tem de ser governado.

Aplica-se-nos esta verdade? Francamente, não sei. As regras de Bruxelas vão no sentido da liberalização. O projecto, para os Estados soberanos, é emagrecer e reduzir o controlo sobre as actividades económicas. Os cidadãos elegem os políticos, mas não os empresários. E estes vão-se apoderando de todos os recursos, pelo que a riqueza ou a miséria dos cidadãos depende deles. A morosa justiça nada corrige. O próprio espírito crítico é informado (e torturado) pelos media que, por sua vez, são controlados por grupos económicos. Os políticos eleitos – mas não os empresários – estão permanentemente na sua mira.

Em breve vamos ter decisões sobre o novo aeroporto de Lisboa que vão condicionar o futuro do território. Ficaremos então a saber quem manda em Portugal: se o Governo e os cidadãos que o elegeram, se a CIP e os empresários que a suportam.

J. L. Pio Abreu

Um ano de Museu da Ciência em Coimbra


Do jornal "O Primeiro de Janeiro" a propósito do 1º aniversário do Museu da Ciência de Coimbra:

Em declarações ao "Janeiro" a propósito do primeiro aniversário do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, o físico Carlos Fiolhais recuou a 1807 e ao cenário das Invasões Francesas para lembrar que o edifício do Laboratório Chimico, onde hoje funciona a estrutura, “foi na altura transformado em paiol de pólvora e esteve quase a incendiar-se”. No entanto, acrescentou, “quando anos depois houve uma grave epidemia, transformou-se num cenário de paz, e foi convertido numa farmácia”. Carlos Fiolhais explica que aquele “é um lugar que reúne histórias da História”, sublinhando que “essa relação da ciência com a sociedade, a paz e a guerra, a saúde a doença” mereceria das autoridades uma atenção para com o museu que não tem tido, até porque, alega o cientista, “chamar-lhe Museu da Ciência de Coimbra é algo redutor, porque é um museu de todo o país”.

Albergue de “alguns tesouros nacionais”, o Museu de Ciência é “uma estrutura que devia ser mais conhecida”, mas em vez disso, atesta o cientista, tem “esbarrado” na pouca divulgação – “Toda a divulgação seria pouca” –, e “nem o circuito turístico do Centro o inclui ainda no seu cartaz”. Considera que “não faz sentido dizer que o museu é só da Universidade de Coimbra, quando esta, como todas as outras, está em contenção de custos”, tal como “não faz sentido que sejam os estudantes, com as suas propinas, a sustentar o património deste museu”, que “só tem um ano, mas vai crescer”. Porque “o museu com um ano está bonito e recomenda-se”, Fiolhais é da opinião de que deveriam ser as autoridades governamentais, a Universidade de Coimbra, a Câmara Municipal, a Região de Turismo do Centro e os meios de informação a apoiar a dinamização do projecto, que “é único no país e até na Europa”.

Ao seu jeito muito particular, sempre divertido, Carlos Fiolhais comparou o Museu da Ciência a “uma criança que já anda” e, evocando a sabedoria popular, lembrou que “ao ano andante, aos dois falante”, desejando “que esta seja uma criança precoce e fale antes disso”. Frisando que “não basta dizer que há um problema com a cultura e com a ciência, é preciso resolvê-lo”, enalteceu a importância de “mostrar o nosso património”, para que se saiba o que temos e a importância que tem. Salientou ainda o “edifício fantástico”, que valeu ao Laboratório Chimico um prémio de arquitectura, e a modernidade no interior, que torna a ciência uma actividade acessível a todos os públicos.

Carla Teixeira

O triunfo da Física e o futuro da Filosofia

No passado mês de Junho o professor de Física da Universidade de Coimbra José Dias Urbano proferiu a sua última lição com o sugestivo título "O triunfo da Física e o futuro da Filosofia". Quem quiser assistir pode ver a gravação vídeo aqui.

Os robôs e os homens


Extracto de uma entrevista a Hélder Araújo, professor de Engenharia Electrotécnica da Universidade de Coimbra e especialista em robótica (o resto pode ser lido aqui, um interessante sítio que contém muitas entrevistas com cientistas):

P: Que comportamentos os robôs não poderão nunca desenvolver?

R: Pessoalmente estou convicto de que nenhum. É só uma convicção, não fundamentada. Esta é uma questão muito polémica. Por exemplo o matemático Roger Penrose acha que a intuição matemática não poderá ser desenvolvida artificialmente. A questão está na natureza da consciência humana. Para Penrose a consciência é fundamentalmente não-algorítmica e por isso impossível de ser modelizada por uma máquina de Turing e portanto não replicável pelos computadores.

Múmias e dinossáurios

A noite de domigo próximo vai ser uma noite de dinossáurios no National Geographic Channel. Um dos documentários programados promete ser especialmente interessante. O «Dino Autopsy» apresenta a Dakota, um «lagarto bico de pato» ou Hadrosaurus foulkii, uma múmia extraordinariamente bem preservada.

Uma múmia de dinossáurio é um dos achados mais raros em paleontologia e os estudos preliminares sobre a Dakota, apresentada ao público no passado dia 3 de Dezembro, estão já a alterar o que pensávamos saber e estudos mais alargados prometem lançar luz sobre a evolução dos dinossáurios e seus descendentes.

O documentário referido conta a descoberta espantosa de uma múmia praticamente intacta, encontrada em 1999 nas Hell Creek Formation Badlands no Dakota do Norte pelo então adolescente Tyler Lyson - agora um estudante de pós-graduação em Yale. A múmia não o é no sentido que normalmente associamos ao termo, como na múmia de Tutankhamon, mas refere o facto raro de processos minerais terem tornado grande parte do corpo do dinossáurio em pedra antes de as bactérias terem tido tempo de o degradar, o que inclui pele, tendões e outros tecidos moles.

Esta múmia é a primeira descoberta de um exemplar em que a pele não colapsou no esqueleto o que permitiu aos cientistas calcular a massa e volume de músculo num dinossáurio pela primeira vez. Por outro lado, uma vez que a pele está praticamente intacta pode significar que a química respectiva foi preservada.

Os estudos preliminares envolveram um olhar para o interior do corpo e cauda do Dakota com o auxílio de tomografia computadorizada, possibilitada pela Boeing que emprestou o aparelho com que testa partes de naves espaciais para a NASA, e este olhar, que forneceu informaçõs preciosas aos paleontólogos, vai ser igualmente revelado no documentário.

Todos os detalhes da descoberta são contados num novo livro publicado pela National Geographic Society, «Grave Secrets of Dinosaurs: Soft Tissues and Hard Science», escrito pelo paleontólogo Phillip Manning e que será lançado nos Estados Unidos em 8 de Janeiro e na Europa três semanas depois.

Fica a sinopse do livro:

«Two years ago Dr. Phil Manning was contacted by Tyler Lyson about a new dinosaur find. Tyler had found the fossil remains of a dinosaur. When Phil got to see the fossil remains for the first time, both he and Tyler knew they had an animal that could change the way dinosaurs were viewed. This dinosaur belonged to an elite group of fossils. This was a dinosaur mummy!

While Jurassic Park brought dinosaurs to life through models and animation, here the nuts and bolts of science are deployed to piece together the evidence of a past life. Drawing upon the cutting edge techniques developed by the dinosaur mummy team, Manning takes the reader on a chronological tour of the handful of dinosaur mummies that have teased the scientific community for 100 years. In 1908 the first remarkably preserved dinosaur mummy was discovered and excavated by the legendary Sternberg's, palaeontological aristocracy in their own right.

Discoveries of dinosaurs with soft-tissue structures from Italy to China, and from the USA to Patagonia will recount our increasing knowledge and understanding of these remarkable fossils. Last and most important, Manning reveals the soft tissues and hard science behind this splendid new find from the Late Cretaceous Badlands of North Dakota. Manning chronicles the progress of the international team of scientists brought together to excavate, record, analyse, and interpret this incredible find.»

MADRID ME MATA


Minha crónica do "Público" de hoje:

Para celebrar mais um aniversário do 1º de Dezembro de 1640 (data que os espanhóis desconhecem) e me aliviar do provincianismo de que fui acusado nada melhor do que um pulo até Madrid. Fui de propósito para ver ou, melhor, rever a maior colecção de arte do mundo, o triângulo formado pelo Museu do Prado, agora ampliado com o fantástico projecto de Rafael Moneo, o Museu Thyssen, com acrescento do mesmo arquitecto, e o Museu Rainha Sofia, aumentado por Jean Nouvel. Não sei quantos espanhóis vieram a Lisboa no mesmo fim de semana para verem o Museu da Arte Antiga, o Museu Colecção Berardo (que ocupou o Centro Cultural de Belém) e o Palácio da Ajuda com a exposição russa do Hermitage. Mas, se fossem tantos como os portugueses que andavam por Madrid, o nosso turismo cultural iria muito bem.

Infelizmente não vai. A começar no turismo interno. Os números de visitantes dos nossos museus são muito modestos, não havendo nada parecido com as longas filas de Madrid. O recente relatório do Eurostat sobre cultura revela que só 24 por cento dos portugueses visitaram um museu ou galeria durante o último ano (penúltimo lugar na Europa a 27 apenas à frente da Bulgária) ao passo que nos espanhóis o número correspondente é 38 por cento (a média europeia é 41 por cento estando a Dinamarca à frente com 65 por cento). Mas, melhor do que analisar inquéritos, é ir ao “triângulo da arte” para fazer uma comparação. Somos cilindrados por tesouros de todo o mundo: num só fim de semana podemos ver, para além das grandes colecções permanentes, exposições únicas que nos enchem o olho como “Fábulas de Velasquez” no Prado, “Duerer e Cranach” no Thyssen e “Paula Rego” no Rainha Sofia. Sim, a “nossa” Paula Rego brilha perto de Velasquez, cujo avô era portuense, e de Duerer, que desenhou o rinoceronte que D. Manuel I ofereceu ao papa.

Faz sentido a comparação com Espanha? Sim, embora seja preciso reparar que a população espanhola é quatro vezes superior à nossa e o PIB espanhol per capita 1,4 vezes o nosso. Mas não basta. É a política, meus senhores! O Ministério da Cultura espanhol aumentou o seu orçamento de 42 por cento entre 2005 e 2008 ao passo que o correspondente português baixou de 14 por cento no mesmo período. Quer dizer: nós, que precisávamos de investir mais na cultura, investimos menos. O actual governo anunciou a meta de um por cento do PIB nesta legislatura mas não chegou nem a metade. A situação foi resumida pelo comissário nacional das Comemorações “200 Anos Portugal-Brasil”, que salientou há dias a “originalidade destas comemorações, que se fazem sem orçamento próprio”. São comemorações domésticas ou quase. E o provinciano sou eu?

De consolo serve o êxito internacional, bem visível em Madrid, não só de Paula Rego mas também do arquitecto Siza Vieira, que é o autor da remodelação do Centro Cultural aberto há meses na Plaza Colón, e ainda do projecto de remodelação do Paseo del Prado. A discussão deste projecto tem exaltado os ânimos, com a Baronesa Thyssen (uma espécie de comendador Berardo de saias, que tem como currículo ter sido, além de Miss Espanha, quinta mulher do falecido barão) a opor-se com unhas e dentes. O êxito global de criadores portugueses mostra como é espúria a oposição entre o local e o global, a província e o mundo. O global começa por ser local. E os nossos melhores locais são globais.

Eu sobrevivi a Madrid e até trouxe de lá umas ideias. Gosto de Espanha e não me importava nada que importássemos de lá alguma da genica e organização responsáveis pelo PIB e pelo orçamento na cultura que eles têm a mais. O ditado sobre o vento e o casamento é tolo, como já disse Eça de Queiroz, um dos nossos melhores locais que não chegou a ser tão global como merecia. Devia abanar-nos o exemplo que está aqui tão perto. Foi também Eça quem disse: “Amo tudo na Espanha. Somente gostava mais dela se ela estivesse na Rússia”. Suspeito que, se ela aí estivesse, em vez de irmos ao Prado, haveríamos de pagar o que fosse preciso, mesmo sem dinheiro, para o Prado vir até nós...

Vale a pena ler

O português que nos pariu
Uma viagem ao mundo dos nossos antepassados
Angela Dutra de Menezes

Um livro delicioso da carioca Angela Dutra de Menezes, autora do romance «Mil anos menos cinquenta» - prémio de autor-revelação na Bienal do Livro de 1995 e considerado pelo jornal madrileno La Cultura como um dos quatro melhores lançamentos de 1997, ano a que chegou à Europa -, oferece-nos um olhar diferente sobre a história. Publicado em Portugal pela Livraria Civilização Editora, «O português que nos pariu» dá-nos uma visão da História nacional vista da lusofonia no outro lado do oceano.

O livro, escrito da forma que o título sugere, consegue ser fiel aos dados históricos - embora tenha detectado um pequeno erro, nomeadamente é referido que o Mestre de Aviz é filho bastardo de D. Pedro e D. Inês de Castro quando a sua mãe é D. Teresa Lourenço. Como aliciante, transcrevo parcialmente as respostas da autora, em entrevista à Visão (de 9 de Agosto):

Como foi percorrer 500 anos em 23 dias?
Foram 23 dias e 30 anos, incluindo tudo o que eu sabia sobre mim mesma, para criar a «receita do português». E algumas perguntas: porque é que os mouros ocuparam sete séculos a Península Ibérica e eu não falo árabe?...

Onde encontrou a resposta?
Ao descascar as capas que envolviam a nossa História e com a minha avó, que veio do Minho. Descobri todo o afecto que a aparente secura escondia. Eu perguntava quem é esse triste português que nos pariu tão alegre.

Quem é, afinal, o português?
Dou os ingredientes, basta misturar celtas, romanos, visigodos, mouros, judeus, cristãos, bater tudo, esperar 500 anos para desenformar e despejar no Novo Mundo. Dessa massa, os brasileiros herdaram a espectacular capacidade de miscigenação e o «jeitinho», nascido do jogo de cintura de 2 milhões de gatos pingados que se espalharam por cinco continentes.

Como conseguiram esse feito?
Com garra, aventura, paixão. Quem já fez amor com um português, ou vai parar aos cuidados cardiovasculares, de tanta emoção, ou descobre por que razão foi, para eles, tão fácil povoar meio mundo...

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

PISA 2006 -Em busca do paradigma perdido


Foram hoje divulgados os resultados do PISA 2006 que incidiu sobre literacia científica e contou com a participação de 57 países, que respondem por cerca de 90% da riqueza mundial. Em Portugal, o PISA envolveu 172 escolas (152 públicas e 20 privadas), abrangendo 5109 alunos. A análise das “Competências científicas dos alunos portugueses” no âmbito do Pisa 2006 está disponível na página do Gabinete de Avaliação Educacional do Ministério da Educação.

Como já referi, o projecto PISA, - Programme for International Student Assessment -, foi lançado pela OCDE em 1997 e visa monitorizar os resultados dos sistemas educativos, avaliando as competências e conhecimentos de alunos de 15 anos, nomeadamente as literacias matemática, científica e de leitura.

O primeiro ciclo do PISA decorreu em 2000 e envolveu 43 países, o PISA 2003 contou com a participação de 41 países, incluindo a totalidade dos membros da OCDE. A primeira recolha de informação teve como principal domínio de avaliação a literacia em contexto de leitura e o PISA 2003 incidiu especialmente sobre literacia matemática e teve como domínios secundários as literacias de leitura e científica, assim como a resolução de problemas.

Como alguém referiu na rádio hoje, entre 2000 e 2006 os resultados pouco variaram, ou seja, continuamos abaixo da média e na cauda da OCDE. Na realidade, numa primeira análise, parece ter-se agravado o fosso do desempenho de acordo com a origem socio-económica do aluno, que em Portugal apresenta um peso mais relevante que na média dos 57 países analisados. Se olharmos para os valores apresentados, verificamos que os conhecimentos científicos são os menos sensíveis ao rendimento do agregado familiar, mas que quer em matemática (519 contra 424 numa escala até 800 pontos, menos 95 pontos) quer em leitura (menos 108 pontos), a média dos alunos provenientes de famílias mais desfavorecidas é muito inferior. De igual forma, o desempenho dos alunos reflecte as habilitações académicas dos pais, embora menos marcadamente que a sua situação económica (cerca de mais 60 pontos nas três áreas para os filhos de licenciados).

Olhando para as médias nacionais, verificamos que na literacia em ciências há uma ligeira melhoria (um valor de 474, o que compara com 459 em 2000 e 468 em 2003) mas estamos 26 pontos abaixo da média da OCDE (498 pontos) e 17 abaixo da média da totalidade dos países analisados.

Na literacia em leitura, o valor de 2006 (472) é superior ao de 2000 (470), mas inferior ao de 2003 (478) e inferior em 20 pontos à média dos membros da OCDE e 12 abaixo da média do total de países avaliados.

Na literacia em matemática, mantemos os 466 pontos de média verificados em 2003, acima dos 459 de 2000 mas estamos 32 pontos abaixo da média da OCDE e 18 abaixo da média da totalidade dos países analisados.

Em relação à literacia científica, tão preocupante como os valores médios obtidos é a distribuição dos desempenhos. De facto, numa escala de 1 a 6, 25% tem conhecimentos científicos limitados (ou nulos) e a maioria dos alunos, 53,3%, não ultrapassa o nível dois. Apenas 3,0% dos alunos portugueses atinge o nível 5 e o nível máximo foi obtido por uns míseros 0,1%.

Estranhamente, apesar de desempenhos no fundo da tabela (só três países da OCDE se saem pior que Portugal - Grécia, Turquia e México), os estudantes portugueses demonstram uma ambição em prosseguir uma profissão científica muito acima da média (38.8 contra 25.2%), aliás, é mesmo a mais alta no conjunto dos países da OCDE.

Este último dado dever-nos-ia fazer reflectir: se os alunos nacionais, não obstante os resultados obtidos, demonstram uma tão grande apetência por carreiras científicas, ou seja, um tão grande fascínio pela ciência, o que há de errado no nosso ensino/curricula que os impede de concretizar e aprofundar esse fascínio? Se a motivação está lá, o que falta?

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Dinossáurios no Museu Nacional de História Natural


Jeffrey A. Wilson, da Universidade do Michigan, proferirá uma palestra no próximo dia 8 de Dezembro (sábado), pelas 18h, no Museu Nacional de História Natural, durante a XXI Feira Internacional de Minerais, Gemas e Fósseis. A palestra intitula-se «Monoliths of the Mesozoic: Paleobiology of sauropod dinosaurs».

Jeffrey A. Wilson, que integrou a equipa que descobriu e descreveu o dinossáurio recentemente «famoso» Nigersaurus taqueti, é ainda responsável pela actual classificação dos dinossáurios Sauropoda (os maiores, quadrúpedes e herbívoros) tendo participado na identificação de nove novas espécies de dinossáurios.

Arthur C. Clarke: da Órbita ao Elevador Espacial


Transcrevo minha crónica da Gazeta de Física que acaba de sair. Aproveito para dar os parabéns publicamente à Teresa Peña e à sua equipa pelo magnífico número.

A 16 de Dezembro próximo o escritor de ficção científica Arthur C. Clarke vai, no Sri Lanka onde reside há muitos anos, soprar 90 velas no seu bolo de aniversário. Quem não viu o filme com argumento dele, em colaboração com Stanley Kubrick, 2001: Uma Odisseia no Espaço? Mas menos gente sabe que é formado em física, tendo estudado no Kings College de Londres logo após a Segunda Guerra Mundial. Durante a guerra serviu o seu país na Royal Air Force, tendo ajudado no desenvolvimento do radar.

Foi em Outubro de 1945, quando tinha apenas 28 anos, que numa revista de electrónica amadora (Wireless World) avançou com uma das maiores ideias das ciências espaciais: o satélite geoestacionário. O artigo intitulado "Can Rocket Stations Give Worldwide Radio Coverage", especulava sobre a possibilidade de uma rede de satélites fornecer uma cobertura radiofónica à escala mundial. Um satélite geoestacionário devia situar-se numa órbita especial, a chamada órbita de Clarke. Essa órbita, a cerca de 36 000 km de altitude, está hoje povoada de satélites, não só de comunicações como de meteorologia.

Porquê 36 000 km É so fazer as contas, usando a segunda lei de Newton e a força de gravitação universal. Aprende-se na Física do 10º ano que um satélite a essa altitude, colocado sobre o equador, demora exactamente um dia a dar a volta a Terra. Como a Terra dá uma volta completa nesse tempo, o satélite é visto do equador da Terra como estando permanentemente parado. Em 1945 não se sabia que a tecnologia dos satélites só se viria a concretizaria com o primeiro Sputnik, em 1957 (fez agora 50 anos). O Sputnik 1 girava a uma órbita a menos de 1000 km e o primeiro satélite geoestacionário, o Syncom 2, só foi lançado pelos americanos em 1963. O artigo de Clarke não era, portanto, ficção: era científico.

Hoje há ideias que parecem tão lunáticas como a órbita de Clarke parecia no fim da guerra. Uma das mais curiosas consiste é a construção de um elevador espacial, isto é, um fio estendido na vertical até à órbita de Clarke e que se mantenha esticado, a rodar com a Terra pelo facto de a ponta estar em condições geoestacionárias. O fio teria de ser muito resistente para permitir levantar objectos para o espaço, dispensando os pesados e caros foguetões (em 1945, Clarke previu erradamente foguetões a energia nuclear). Há quem tenha proposto nanotubos de carbono, faltando porém saber se essa tecnologia é mágica (para Clarke a tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia). O próprio Clarke descreveu em pormenor o elevador espacial no seu romance de ficção científica. As Fontes do Paraíso (original de 1979; em português, Edições 70, 1990) recorrendo a um fio de diamante. Situou-o na região do Sri Lanka, Taprobana para os portugueses dos Descobrimentos. Mais precisamente, na montanha sagrada de Taprobana, onde um templo budista impedia a contrução. O elevador espacial talvez um dia se venha a realizar: e não nos levará, como escreveu Camões, além da Taprobana, mas para cima dela!

Gazeta de Física


Na foto, Armando Carlos Gibert (1914-1985), fundador da Gazeta de Física. E é sobre a gazeta que trata a seguinte informação, que recebemos da Sociedade Portuguesa de Física
:

O Presidente da Sociedade Portuguesa de Física e a Directora da GAZETA DE FÍSICA, publicação regular da SPF, têm muito gosto em convidar V.Exª. para a apresentação pública da nova versão da revista, que terá lugar no dia 6 de Dezembro, pelas 18 horas, no Museu de Ciência da Universidade de Lisboa, na Rua da Escola Politécnica.

No evento será apresentado o primeiro volume impresso do novo ciclo editorial, bem como o sítio electrónico, que inaugura a versão electrónica da mesma publicação.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

GRANDES ERROS: O PRÉMIO SANTILLI - GALILEU


O estimável “Jornal de Letras” de 21 de Novembro publicou uma curiosa entrevista com o Doutor José Croca, membro fundador do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa, a propósito do prémio "Prémio Santilli-Galileu 2008 - Gold medal for the crusading work towards the demise of the prevailing scientific obscurantism" que lhe foi atribuído.

A entrevista contém vários erros que serão resultado de deficiente trabalho de edição. Antes do título vem Prémio Galileu da Física quando o prémio se chama Santilli-Galileu e não é da Física mas sim "for the crusading work towards the demise of the prevailing scientific obscurantism". Infelizmente Galileu não aparece em boa companhia. Quem é Santilli? Pois é um italiano autor de várias teorias estranhas, que a comunidade científica considera pseudociência. Entre elas, há até uma “química hadrónica”, uma ideia bizarra pois a química pouco ou nada tem a ver com os hadrões, que são as partículas constituintes do núcleos atómico. Não conseguindo publicar nas revistas científicas existentes, criou ele próprio uma revista, o “Hadronic Journal”, que é da sua inteira responsabilidade (a editora, Hadronic Press, é propriedade da sua mulher). A Santilli-Galilei Association on Scientific Truth, associação de 81 amigos de Santilli, que deu o prémio ao investigador português (ele próprio membro da associação tal como os outros quatro recipientes da mesma medalha), segue a linha do seu mentor. No seu sítio encontra-se um pedido recente à Academia de Estocolmo solicitando três Prémios Nobel, o da Física, o da Química e o da Matemática, para Santilli: outro erro, pois não há Prémio Nobel da Matemática.

Depois, o título da entrevista é “Contra os limites de Heinsenberg”. Deve ser Heisenberg, do nome do físico alemão Werner Karl Heisenberg, mas esse erro é repetido várias vezes no corpo da entrevista que pode até dar a ideia que existe o nome. Desconheço esse “princípio de Heinsenberg” apesar da insistência no nome, que é colocado cinco vezes na boca do entrevistado (há também um outro erro engraçado, que é o adjectivo “borheana” para a mecânica quântica).

Finalmente, a peça abre dizendo que o prémio foi atribuído por “ter refutado o princípio de Heisenberg” (agora grafia correcta). Ora aqui e independentemente dos méritos do laureado deve haver algum equívoco, pois isso ter-lhe-ia dado não o prémio Santilli-Galileu mas o Prémio Nobel da Física. O princípio de Heisenberg é uma consequência matemática dos axiomas da teoria quântica. E podemos discutir esses princípios – muita gente o tem feito – mas as consequências deles, incluindo o princípio de Heisenberg, têm estado de acordo com todas as numerosas e cuidadosas experiências realizadas. Não quer isso dizer que eles sejam irrefutáveis, mas ainda ninguém os refutou pela via privilegiada na física que é a da experimentação.

Memorial às Vítimas da Intolerância


Informação recebida da Associação República e Laicidade:

Durante três dias (19, 20 e 21) do mês de Abril do ano de 1506, em, Lisboa, num processo que teve início na Igreja de S.Domingos, uma multidão em fúria, incitada por fanáticos religiosos, perseguiu, chacinou e queimou, em duas enormes fogueiras acesas no Rossio e na Ribeira, cerca de 2000 pessoas suspeitas de judaísmo, naquele que terá sido, porventura, o mais brutal acontecimento singular da história da intolerância em Portugal.

Recentemente, um grupo de vereadores da C.M. de Lisboa avançou com a proposta de instalar na cidade, precisamente no Largo de S.Domingos, um «Memorial às Vítimas da Intolerância», monumento que seria evocativo do massacre de 1506, bem como de "todas as vítimas que sofreram a discriminação e o aviltamento pessoal pelas suas origens, convicções ou ideias".

A deliberação final sobre essa proposta tinha sido inicialmente agendada para 31 de Outubro passado mas foi entretanto adiada «sine die», pelo que o Memorial a que ela se refere poderá mesmo... não vir a ser edificado de todo…!

Entendendo que se trata de uma iniciativa de grande alcance simbólico -- e que só peca por ser tardia, já que Abril de 2006, 500 anos decorridos sobre o acontecimento, teria sido a data ideal para o assinalar... -- foi disponibilizada na «Internet» a petição que aqui vos venho agora convidar a subscrever.

Subscrever petição aqui: http://www.petitiononline.com:80/samusque/

Passeio aleatório


Informação recebida da Almedina e da Gradiva (na imagem passeio aleatório a duas dimensões):

CONVITE

A ALMEDINA e a GRADIVA têm o prazer de convidá-lo(a) a estar presente na sessão de apresentação da obra

Passeio Aleatório pela Ciência do Dia-a-dia
de Nuno Crato

A sessão terá lugar no dia 7 de Dezembro de 2007, pelas 19 horas, na Livraria Almedina do Atrium Saldanha (loja 71, 2.º piso), em Lisboa.

A apresentação da obra estará a cargo de Helena Roseta e Henrique Monteiro.

Seguir-se-á uma sessão de autógrafos.

A ciência está omnipresente no mundo moderno. Ao ligar uma fotocopiadora,usa-se um princípio quântico. Ao escrever um email, o computador traduz as nossas palavras para uma codificação binária. Ao cozinhar um peru, usam-se leis da termodinâmica. Mas nem sempre se tem consciência dos princípios científicos que se usam. Dever-se-ia ter? Ou bastará usar a ciência e a técnica como caixas negras de sucesso inexplicável? A visão das pessoas de ciência e a visão das pessoas das humanidades são diferentes? Deverão ser?

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Um tesouro no centro da cidade


Para quem perdeu o artigo de António Barreto publicado no jornal "Público" de 2 de Dezembro, pode lê-lo no "Sorumbático" aqui . Para quem não tiver tempo, fica aqui o final, que resume a defesa que faz do Museu de Ciência da Universidade de Lisboa e do Jardim Botânico a ele anexo, na Rua da Escola Politécnica:

"SEIS HECTARES e um património tão rico no centro da cidade! Numa cidade onde faltam os espaços verdes; onde são poucos os espaços públicos organizados e acessíveis; onde são raros os locais de repouso e convívio; onde há poucos museus e instituições de divulgação cultural e científica! Nunca saberei exactamente o que mais leva ao desperdício e à degradação. Já pensei que fosse a pobreza. Depois, a ignorância. Agora, acrescento a demagogia dos novos-ricos."

Um ano de Museu da Ciência


Informação recebida do Museu de Ciência da Universidade de Coimbra, que foi recentemente distinguido com uma menção honrosa no prémio Museu do Ano da Associação Portuguesa de Museus e que está na "short list" portuguesa de prémio semelhante a nível europeu.

Um ano de Museu da Ciência
5 de Dezembro de 2007
Iniciativas com entrada gratuita

No dia 5 de Dezembro, o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra convida-o a participar na comemoração do seu 1º ano de actividade, com programação até às 20h00

A BANDEIRA QUE VEIO DO ESPAÇO (17h00)
A NASA oferece ao Museu da Ciência uma bandeira portuguesa que já esteve no espaço

DESCOBRE O TEU CÉU (17h30)
Lançamento nacional do concurso Descobre o teu céu, destinado às escolas básicas de todo o país, uma iniciativa do Ano Internacional da Astronomia

CIÊNCIA AO VIVO (18h00)
Flores que se estilhaçam, papel que não arde – experiências extraordinárias ao vivo

Vale a pena ver: A Bússola Dourada

Na próxima sexta-feira estreia finalmente a adaptação do primeiro livro da trilogia de culto de Philip Pullman «His dark materials» - traduzido para português como Mundos Paralelos, sob chancela da editorial Presença. Pelas críticas que tenho lido à «A Bússola Dourada» e pelos trailers e excertos já disponíveis no Youtube e no próprio site do filme, parece que, caso raro, a adaptação cinematográfica não vai decepcionar. A trilogia, de que gostei especialmente do último livro, fascinou-me pelas poderosissimas alegorias, nomeadamente sobre a repressão do conhecimento, ameaçado por forças obscurantistas que desejam cobrir a humanidade com o manto da ignorância e afastá-la da «luz». Tenho uma enorme curiosidade em ver se sobreviveram à passagem para a tela.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

A BRINCAR TAMBÉM SE APRENDE

Minha crónica no último "Sol":

Para as crianças aprenderem como é ADN pode recorrer-se a bonecos de goma com quatro cores diferentes e uni-los com palitos numa dupla hélice, de acordo com as regras do código genético.

No final pode até comer-se um bocadinho da molécula... Isto mesmo foi feito por duas norueguesas num “workshop” para crianças realizado no passado fim-de-semana, no Pavilhão do Conhecimento - Ciência Viva, em Lisboa, quando se comemorou o Dia Nacional da Cultura Científica, em homenagem a Rómulo de Carvalho. O júri de um concurso europeu onde esse evento competia não teve dúvidas em atribuir-lhe o prémio de originalidade. Também não teve dúvidas em distinguir a equipa portuguesa, da Universidade de Aveiro, que ganhou o prémio de “nova ciência” com uma actividade de desenho de hologramas ao alcance de qualquer criança.

A ciência a sério começa com a ciência a brincar. Para termos na Europa mais ciência a sério precisamos de mais ciência a brincar, de mais ciência no jardim de infância e no primeiro ciclo do ensino básico. E essa necessidade é particularmente urgente em Portugal.

Saúda-se, por isso, o lançamento no Museu de Ciência da Universidade de Coimbra, ainda na semana passada, de dois novos livros da colecção “Ciência a Brincar” (editora Bizâncio). “Ciência a Brincar 6” subintitula-se “Descobre as Plantas!”, sendo suas autoras Catarina Reis, Marisa Azul e Matilde Azenha. “Ciência a Brincar 7” subintitula-se “Descobre os Sons!”, sendo suas autoras Carlota Simões e Constança Providência. O primeiro descreve uma série de experiências com materiais simples para entrar no mundo das plantas, ao passo que o segundo faz o mesmo em relação às ondas sonoras, incluindo uma iniciação à acústica musical. Os dois livros estão a ser enviados a todos os agrupamentos de escolas do país, graças ao apoio da Fundação Gulbenkian.

Tal como no “workshop” sobre genética em Lisboa, também em Coimbra grupos de miúdos experimentaram com as suas próprias mãos o prazer de descobrir a ciência. É de pequenino que se torce o destino!

domingo, 2 de dezembro de 2007

Homeopatetices - A Componente Mística

Hahnemann propôs o seu «homoios-pathos» (sofrimento semelhante), isto é «semelhante cura semelhante» (Similia similibus curantur), basicamente assente na ideia mirabolante de que uma substância que produz determinados sintomas numa pessoa saudável pode ser usada para curar sintomas semelhantes numa doente.

Como a Natureza é fértil em substâncias extremamente nocivas - os produtos da ars chimica não chegam em toxicidade aos calcanhares de muitos produtos «naturais - Hahnemann tinha muito por onde escolher, nomeadamente «princípios vitais», alguns ainda hoje utilizados, como sejam testículos de touro, abelhas esmagadas (Apis mellifica), beladona, cádmio, enxofre, noz vómica [Nux vomica, de onde se extrai a estricnina], cicuta, acónito [a aconitina que contém é um dos mais poderosos venenos conhecidos], arsénico, cantáridas (Cantharis), veneno de cascavel (Crotalus horridus), ipecacuanha, leite de cadela (Lac canidum), hera venenosa (Rhus toxicodendron), entre outros.

Alguns destes «princípios vitais», como sejam os testículos de touro ou o leite de cadela, são perfeitamente inócuos (excepto se soubermos a origem, aí passam a poderosos eméticos) mas outros podem ser fatalmente tóxicos, pelo que depois de muitos dissabores Hahnemann se lembrou de diluir esses ditos «princípios vitais». Como alguns são fatais mesmo em pequenas doses, Hahnemann usou diluições cada vez maiores, recomendando finalmente a 30ª potência (C30) isto é, uma diluição 1:100 repetida 30 vezes (ou seja, garantindo que não curava mas também não matava ninguém mesmo com os «princípios vitais» mais nefastos).

Supostamente a eficiência dos «medicamentos» homeopatetas tem a ver com a «dinamização» dos princípios vitais, nas palavras do «pai» da homeopatia, «O poder curativo provém do poder cósmico transferido para o remédio através do ritual da potencialidade», ritual esse que basicamente consiste em «extrair» a «energia curativa imaterial» através de sacudidelas na vertical, pomposamente denominadas «sucussões».

Mas Hahneman, um admirador do «místico» Emanuel Swedenborg - um teólogo inspirado pelas «revelações» dos «espíritos» que amiúde o visitavam - não fazia ideia o que causava as doenças, pretendia apenas corrigir um distúrbio na «força vital», distúrbio imaterial que seria o causador das doenças. Ou, usando novamente as suas palavras, «O imaterial morbígeo perturbando o imaterial vital determina alterações materiais (...) Assim sendo, o agente morbígeo também espiritual (dinâmico), ele não pode, em si, ser apreendido pelos sentidos, sendo então desnecessário, porque impossível, determinar suas características, defini-lo enquanto tal».

Mais concretamente, «quero significar que as doenças não são, evidentemente, nem podem ser, perturbações mecânicas ou químicas da substância material do corpo físico, que elas não dependem de um agente patogénico material, mas são alterações dinâmicas e imateriais da vida», (nota do §31 do Organon, a «Bíblia» homeopateta).

Como a homeopatetice não cura nada, obviamente, Hahnemann considerou dois tipos de doenças: as agudas e as crónicas, estas últimas devidas a um «miasma crónico», contra o qual não há «força vital» que valha. Hahnemann, 18 anos após a publicação do Organon, explicou mesmo que aproximadamente 7/8 de todas as doenças são causadas pelo miasma psórico, o pior dos miasmas crónicos, contra o qual não havia nada a fazer.

A homeopatia até hoje, por muito que alguns tentem disfarçar com conversa da treta pseudo-científica, que abordarei num post seguinte, mantém esta componente mística nomeadamente continua a negar uma causa material para as doenças tratando apenas os sintomas e ignorando as causas, isto é, febre trata-se da mesma forma quer seja devida a uma infecção quer tenha outra origem como uma doença auto-imune. Por outro lado, a história das dinamizações, que assenta na existência de «energias vitais» imateriais aprisionadas em todos os seres materiais (orgânicos e minerais), só pode ser coerente com uma doutrina esotérica, nunca com ciência.

Estas raízes esotéricas e/ou místicas são manifestas, por exemplo, num argumento muito usado para «provar» a eficácia das homeopatetices, as bioelectrografias obtidas com a chamada máquina de Kirlian. Esta é na realidade uma bobine de Tesla e as fotografias de Kirian, que supostamente fotografam a «aura» e detectam os tais distúrbios na «força vital», não passam de uma descarga de alta tensão a baixa corrente - de apenas uns microamperes - que impressiona a chapa fotográfica e os mais incautos.

Igualmente revelador é a apologia da homeopatia pelos médicos do além e afins que começaram a infectar Portugal. Considero elucidativa q.b. a seguinte homenagem a Hahneman que encontrei num sítio New Age, que, para variar, lá tenta recuperar a alquimia:

«O segredo deste método consiste na libertação induzida da energia, ordinariamente “coagulada” e passiva, que distingue e caracteriza cada espécie vegetal, mineral ou animal. Essa libertação é feita, precisamente, por meio do processo denominado de “dinamização”. Pela repetida e brusca (sincopada, seca) movimentação de uma dessas substâncias diluídas, liberta-se o seu animus - o agente activo, a “electricidade” particular de cada elemento mineral, vegetal ou animal. Nessa operação, provoca-se uma fricção entre o éter desse agente e o éter do ambiente em que está imerso (o oceano de energia que lhe está subjacente e que é comum a toda a envoltura ecológica ou ambiental). Desse modo, igualmente, se animam ou activam os princípios vitais, que assumem, no plano físico, as tão inusitadas virtualidades e potenciação. A essência ou alma de cada elemento (a 5a essência, dos alquimistas; o éter) sobrepuja a característica inércia da matéria coagulada, que lhe corresponde e que é sua, e manifesta-se profunda e subtilmente por detrás, nos bastidores, da vida puramente física e mecânica. A raiz ou origem dos distúrbios é, assim, actuada e regulada pela lei das compensações energéticas e da identidade dos agentes vitais (similia similibus curantur = o semelhante cura o semelhante)».

Homeopatetices - As Origens

Segunda-feira, curiosamente na véspera da minha ida à TSF falar sobre o «Segredo», passei por uma farmácia para comprar umas pastilhas para a garganta. A farmacêutica que me atendeu deu-me solicitamente umas pastilhas que me assegurou serem quasi milagrosas. Por hábito, olho sempre para a composição de qualquer medicamento que compre e qual não foi a minha surpresa quando vejo umas sinalefas suspeitas no verso da embalagem.

Inquiri a farmacêutica sobre as ditas sinalefas e ouvi boquiaberta a senhora explicar-me que se tratava de um «medicamento» homeopático, muito melhor que os restantes porque não tinha «químicos». Expliquei-lhe que que era um disparate total dizer que algo não tinha «químicos», tudo, tirando o vácuo absoluto, «tem» químicos e depois de lhe manifestar a minha surpresa por uma farmacêutica ter esta postura anti-ciência disse-lhe que pretendia algo para a garganta, não um placebo.

Não sou grande adepta de argumentos de autoridade mas devo confessar que não aguentei mais que uns minutos a tirada indignada da senhora, que apontou a minha ignorância nestas coisas de medicamentos e repetidamente referiu a sua licenciatura em farmácia como argumento liminar das virtudes e cientificidade da homeopatia, para lhe explicar que era doutorada em química mas que não eram necessários muitos conhecimentos de química ao comum mortal para perceber que a homeopatia era uma fraude (e uma fraude muito cara, os tais comprimidos homeopatetas custam mais do triplo do preço do medicamento a sério que acabei por comprar).

Esta experiência fez-me perceber que a irracionalidade de que tanto falamos no De Rerum Natura chegou em força a Portugal, mesmo aos locais mais insuspeitos, nomeadamente suponho que esta farmácia moderna, que exibe tecnologia «state of the art», não seja caso único. Como aparentemente a homeopatetice assentou arrais no nosso cantinho achei por bem explicar porque é uma fraude pseudo-científica.

A homeopatia foi «inventada» em 1796 por um médico alemão, Samuel Hahnemann, que não tinha a medicina da altura em grande conta e propôs (mais) um método místico de «cura». A desconfiança de Hahnemann era completamente justificada se pensarmos que na época estavam na moda as sangrias - recomendadas para tudo e mais umas botas, mesmo hemorragias, Goethe, por exemplo, após sofrer uma hemorragia estomacal, foi privado de mais de um litro de sangue - e «remédios» como a «pílula perpétua», a bola de antimónio metálico referida pelo Carlos, ou o calomelanos (cloreto de mercúrio, extremamente tóxico).

Aliás, George Washington, que faleceu uns anos antes do nascimento da homeopatia, em 14 de Dezembro de 1779, é um bom exemplo dos efeitos da medicina praticada na altura. Washington foi «medicado» por uma dor de garganta atípica, «tratamento» que consistiu em sangrias sucessivas que no espaço de alguns horas lhe removeram mais de três litros de sangue, seguidas da administração de calomelanos. Embora muito se discuta sobre qual a doença que afligiu Washington, diria não ser muito arriscado supor que morreu não da doença mas sim da cura.

Como referiu Ben Goldacre há cerca de 15 dias no jornal britânico de Medicina «The Lancet», durante um epidemia de cólera em Londres no século XIX, as taxas de morte no hospital homeopático local foram cerca de três vezes mais baixas que nos restantes hospitais uma vez que os tratamentos homeopatetas simplesmente não fazem nada enquanto a terapia da época, sangramentos como seria de esperar, diminuia muito as hipóteses de o paciente ultrapassar os desarranjos intestinais induzidos pela enterotoxina da Vibrio cholerae.

Assim, o sucesso inicial da homeopatia tinha a ver com o facto de que com ela os pacientes só morriam do mal e não também da cura, razões de sucesso que só fazem sentido hoje em dia se as entendermos à luz das pragas ditas New Age e/ou New Thought (na realidade velhas de pelo menos um século) que assolam a modernidade.

Acordo ortográfico

Nos países sem grande tradição democrática encara-se com normalidade que os políticos possam decidir como vamos escrever as palavras. Alguns linguistas, incapazes de fazer valer as suas modernices linguísticas pela via orgânica da influência dos seus dicionários, gramáticas e livros (que não escrevem), ajuntam-se, ajoelham-se, rezam e convencem o poder político a mudar por força de lei o modo como escrevemos. O poder político vai na conversa, com as ilusões políticas do costume, que ninguém se deu ao trabalho de estudar cuidadosamente: hoje em dia, usa-se a ilusão de que a língua vai ter maior implantação no mundo, vamos unificar as diferentes ortografias da língua, em vigor no Brasil e em Portugal (os países africanos de língua portuguesa seguem a ortografia de Portugal). No passado, para eliminar o "ph", usavam-se outras ilusões: era por causa do "ph", dizia-se, que o nosso ensino era tão mau e o nível cultural tão baixo. Décadas depois já não há "ph", mas o ensino não melhorou.

Há três aspectos importantes a ter em conta.

Em primeiro lugar, a pouca-vergonha que é o estado legislar sobre a língua. A língua devia ser deixada entregue a si mesma, como acontece em países com sólidas tradições democráticas. O inglês é, em termos práticos, a língua académica, científica e comercial internacional — mas ninguém legisla sobre esta língua e as ortografias do Reino Unido e dos Estados Unidos são diferentes, para não falar dos restantes países de expressão inglesa. Mas nos nossos dois países, Portugal e Brasil, as bestas de políticos que temos bem poderiam fazer uma lei para deixarmos de beber café com leite ao pequeno-almoço, que a intelectualidade aceitaria isso com naturalidade. Como dizia o Ega, isto é uma choldra. Ah, os brasileiros não aceitariam isso — mas unicamente porque no Brasil não se sabe o que é o pequeno-almoço, pois usam a expressão "café da manhã" (e até "traduzem" o Eça, para o leitor não se dar ao incómodo de ir aos excelentes dicionários brasileiros — o Houaiss, o Aurélio ou o Michaelis). O que nos conduz ao segundo ponto.

Em segundo lugar, as ilusões políticas não passam disso mesmo: ilusões. O acordo não vai unir as línguas, nem há qualquer vantagem em unir as línguas. Não vai unir as línguas porque a diferença mais importante entre o português de Portugal e do Brasil não é a ortografia mas a gramática e o conjunto de expressões usadas. No Brasil, as pessoas em geral não sabem o que é o pequeno-almoço, e em Portugal o café da manhã é apenas um café que se toma de manhã e não o pequeno-almoço, que pode ou não conter café; no Brasil, um sítio é uma quinta grande, mas em Portugal é apenas um lugar qualquer. E não há qualquer vantagem em unir a ortografia das línguas, dado que não há qualquer união ortográfica entre os EUA, por exemplo, e o Reino Unido, mas os livros publicados num país são geralmente publicados no outro e vice-versa, sobretudo os académicos. A Blackwell, a Cambridge, a Oxford — algumas das mais importantes editoras académicas — publicam geralmente os seus livros simultaneamente nos dois países, apesar das diferentes ortografias. Não há um só editor académico que faça isso em Portugal e no Brasil, com ou sem acordo. Compreende-se que os editores brasileiros se estejam nas tintas para o mercado português, de apenas dois ou três milhões de leitores, num país que tem muitíssimos mais leitores do que isso apenas em S. Paulo e no Rio, para não falar de outras cidades gigantescas nem do resto do país, com as suas 106 universidades federais (sem contar por isso com as estaduais nem com as privadas). Portanto, não há realmente razões políticas para fazer um acordo ortográfico.

Em terceiro lugar, devemos compreender o que está realmente em causa: uma simbiose entre linguistas que querem ficar na história e fazer currículo, e um estado autoritário que gosta de interferir arbitrariamente na vida dos cidadãos. Como os linguistas têm a incapacidade de se impor pela força das suas ideias linguísticas, impõem politicamente as suas teorias ortográficas preferidas. E o poder político agradece, porque o mais arcaico instrumento político é a interferência arbitrária do poder político na vida das pessoas. Hoje não podemos ler Eça tal como Eça escreveu, nem Pessoa tal como Pessoa escreveu. Mas os ingleses lêem Byron tal como Byron escreveu e lêem Dickens tal como Dickens escreveu. E se não lêem Hobbes tal como Hobbes escreveu, não foi por via de qualquer legislação, mas por força da evolução orgânica da língua — porque os autores de dicionários, gramáticas e obras eruditas foram mudando gradualmente o modo de escrever certas palavras, assim como certas estruturas gramaticais.

Entre o orwellianismo dos nossos políticos, a incompetência dos linguistas próximos do poder e as ilusões dos comentadores — que parecem ingenuamente pensar que há razões políticas para tais acordos que não a mera interferência arbitrária na vida das pessoas — a realidade gritante é esta: não há soluções legislativas para a falta de cooperação académica e cultural entre os nossos povos, não há solução ortográfica que resolva as diferenças linguísticas profundas entre os nossos países, nem há qualquer vantagem em fazer tal coisa. Com ou sem acordo, tudo vai continuar como antes, mas pior. Tal como tudo ficou igual, mas pior, quando deixámos de escrever "possìvelmente" e passámos a escrever "possivelmente", e quando deixámos de escrever "philosophia" e passámos a escrever "filosofia": continuámos a ser um dos povos europeus possivelmente mais incultos e a filosofia continuou a fazer-se no estrangeiro.

Sobre o acordo ortográfico, leia-se a notícia no Público.

Vale a pena ler

Título: A Obra ao Negro (1968)
Autora: Marguerite Yourcenar
Editor: Dom Quixote

"Penso para comigo, não raras vezes, que nada no mundo, salvo uma ordem eterna ou uma singular veleidade da matéria em construir algo que a ultrapasse, poderá explicar a razão por que, de dia para dia, me esforço por pensar com um pouco mais de clareza que no dia anterior. [...]

Sempre me há-de maravilhar o facto de esta carne sustentada pelas suas vértebras, de este tronco ligado à cabeça pelo istmo do pescoço e com os membros dispostos simetricamente à sua volta, conter, e talvez produzir, um espírito que tira partido dos meus olhos para ver e dos meus gestos para apalpar... Conheço os seus limites, e sei que lhe falta tempo para ir mais longe, e força, se porventura pudesse dispor de tempo. Mas existe, e, neste momento, ele é aquele que É. Bem sei que se engana, que erra, que por vezes interpreta mal as lições que o mundo lhe ministra, mas sei também que possui o dom de conhecer e não raro rectificar os seus próprios erros.

Já percorri grande parte desta bola onde vivemos; estudei o ponto de fusão dos metais e a germinação das plantas; observei os astros e examinei o interior dos corpos. Sou capaz de extrair, deste tição que aqui está, a noção de peso, e destas chamas a noção de calor. Sei que não sei aquilo que não sei; invejo aqueles que venham a saber mais, mas sei que, tal como eu, terão de medir, pesar, deduzir e desconfiar das deduções alcançadas, distinguir o que há de falso no verdadeiro e levar em conta a eterna mistura da verdade e da falsidade.

Nunca me agarrei fixamente a uma ideia, por temer a confusão em que, sem ela, poderia vir a cair. Nunca temperei um facto verdadeiro com o molho da mentira, para me facilitar a digestão. Nunca deformei os pontos de vista do adversário para mais facilmente ter razão [...]. Ou talvez sim: surpreendi-me nesse acto, mas sempre me repreendi como se repreende um criado desonesto, confiando apenas na promessa que a mim mesmo fiz de vir a proceder melhor.

Sonhei com os meus sonhos; não considero tudo isto mais do que sonhos. Abstive-me sempre de fazer da verdade um ídolo, preferindo designá-la pelo nome mais humilde de exactidão. Os triunfos e os perigos que acumulei não são aquilo se pensa: existem outras glórias para além da glória e outras chamas para além das da fogueira. Consegui, praticamente, desafiar as palavras. Hei-de morrer um pouco menos estúpido do que nasci."

sábado, 1 de dezembro de 2007

Arte e Ciência: velhos mestres, novas lições

O pintor inglês JMW Turner afirmou que o seu trabalho destinava-se não a ser entendido mas «a mostrar o que uma cena é na realidade». Acreditando que a sua obra é de facto fiel à realidade, as aguarelas e óleos de Turner representando o pôr-do-sol assim como quadros de mais 180 pintores, num total de 554 telas, foram examinados por cientistas que pretendiam aprender com a obra dos velhos mestres.

A equipa, dirigida pelo físico e presidente do Observatório Nacional de Atenas, Christos Zerefos, analisou o pôr-do-sol visto por mestres de um período de 400 anos, entre 1500 e 1900, para avaliar o impacto climático de grandes erupções vulcânicas. Os cientistas pretendiam usar o efeito de causas naturais no clima para melhorar os modelos utilizados na simulação do aquecimento global.

Erupções vulcânicas como a do Krakatoa na Indonésia em 1883 enviam toneladas de poeiras para a atmosfera e provocam magníficos tonalidades no pôr-do-sol uma vez que a luz é dispersa por estas partículas. Estudando as cores do céu tal como os mestres as viam após essas erupções, mais concretamente analisando as razões vermelho/verde, os cientistas consideram poder calcular a quantidade de poeiras no ar.

O estudo, publicado este ano nas revistas científicas Nature e Atmospheric Chemistry and Physics, forneceu «informações importantes sobre a concentração de partículas atmosféricas» nas épocas estudadas e, na opinião dos cientistas envolvidos, pode contribuir significativamente para o estudo sobre a poluição atmosférica e alterações climáticas.

Turner «assistiu» a três destas grandes erupções vulcânicas, Tambora, na Indonésia, em 1815, Babuyan nas Filipinas em 1831 e Cosiguina na Nicarágua, em 1835. Os cientistas verificaram que, nos três anos após as erupções, o pôr-do-sol pintado por Turner apresentava uma drástica alteração na razão vermelho/verde, o que indica uma maior poluição atmosférica.

Para além de Turner, os cientistas estudaram, entre outros, quadros de Titien, Tintoretto, Copley, David, Breton, Degas, Turner, Munch, Rubens, Rembrandt, Gainsborough e Hogarth.

Embora apreciadora da obra de Tintoretto - classificado durante muito tempo como o último pintor renascentista tendo posteriormente sido considerado o primeiro mestre da pintura barroca; actualmente é apontado como grande vulto do maneirismo - não me tinha apercebido de qualquer nuance nas cores com que tingia o céu. Jacopo Robusti, que mereceu o nome Tintoretto porque o seu pai Battista Robusti, era tintore (tingia seda), impressiona-nos ainda hoje pelos seus efeitos de luz e fez notícia o mês passado por se pensar ser sua a enorme pintura a óleo que se encontra no Mosteiro beneditino de Singeverga - onde permaneceu o historiador José Mattoso até abandonar a vida monástica -, em Santo Tirso, e que representa a Adoração dos Reis Magos.

Mas o próprio nome do pintor indica um dos perigos da análise efectuada pela equipa grega: os pigmentos utilizados na preparação das tintas sofrem alteração de cor com o tempo, devido a uma enorme variedade de processos químicos e fotoquímicos que dependem do pigmento utilizado e dos ambientes a que os quadros foram expostos.

Por outro lado, como recordou Kevin Trenberth, que dirige o Climate Analysis Research Center no National Center for Atmospheric Research em Boulder, Colorado, «Os pintores não são cientistas tentando reproduzir uma imagem rigorosa da Natureza». De facto, embora este estudo me pareça muito interessante, as suas conclusões quantitativas merecem algumas reservas não só devido à inevitável degradação química dos pigmentos utilizados como à natureza do objecto em estudo: a visão artística da Natureza não pretende ser uma análise científica da mesma.

E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...