sábado, 27 de abril de 2013

Um mero telemóvel não é um mero telemóvel

Em finais de 2009, Tiago Videira, à altura professor de Música e estudante de PhD em Digital Media, enviou-nos um pequeno texto como "repto, provocação, ou ponto de partida para um debate neste blogue". Agradecemo-lhe a amabilidade, guardámos o seu texto algures e lamentavelmente perdemo-lo de vista. Encontrámo-lo agora. Pedindo desculpas pelo lapso, aqui o disponibilizamos, pois em nada a reflexão que ele veicula perdeu actualidade; pelo contrário, está na "ordem do dia" em diversos sectores da educação formal. Esperamos a contribuição dos nossos leitores para a ampliação desta reflexão.
Na sociedade actual é impossível escamotear a nova realidade que se vive: os meios digitais transportáveis já são um prolongamento da identidade dos jovens. Um mero telemóvel não é um mero telemóvel. Não é um acessório dispensável. Não.
É um instrumento que prolonga os sentidos, as disponibilidades e a mente de quem o controla. É parte do jovem, é um orgão artificial, mas tão concreto como os outros. É indispensável para comunicar e partilhar.
Será uma remediação de boca, de olhos, de ouvidos. E nele se contém memórias e músicas e fotos.
É também uma remediação de memória cerebral. E faz parte do indivíduo, da sua identidade, de quem ele é.
Pensar hoje num jovem sem o seu telemóvel é pensar numa criatura que se vê e acha despida, despojada, violentada numa das suas ferramentas mais profundas. É como pensar num leitor sem óculos, num pianista sem piano, num cozinheiro sem faca. É algo que não sendo vital, é absolutamente indispensável para o normal funcionamento dos processos funcionais, cognitivos e emotivos do quotidiano.
Têm noção que hoje em dia os jovens tocam à campainha com o polegar? Só por si isto demonstra a importância que tal tecnologia leva nos processos até fisiobiológicos e motores dos infantes.
Por isso, a escola, a sala de aula onde os alunos deverão permanecer atentos e imóveis e destelemobilizados é um atentado à sua identidade. Se todas as razões e mais algumas haveria a levantar contra o actual sistema de ensino (claustrofóbico, sendentário), mais uma se levanta: auto-destruidor da identidade, amputador dos membros digitais dos jovens.
Na África subsariana neste momento os telemóveis disseminaram-se epidemicamente. São um meio, provavelmente o único, de muitas crianças, de poderem comunicar e aprender. São uma tecnologia inclusiva delas na sociedade e absolutamente fulcral ao seu desenvolvimento. E nesse ponto temos de convergir.
Não é possível pensar no ensino hoje em dia separado das tecnologias digitais. Telemóveis, iPhones, Mp4, não são ameaças à atenção dos alunos. São ferramentas digitais altamente potentes que eles manuseiam, compreendem e com os quais interagem como ninguém. E deviam ser incluídas no ensino e não hostilizadas.
Há a necessidade urgente e premente de criar conteúdos interactivos, de criar ligações e estímulos, de fazer a ponte e canalizar os conteúdos também para as plataformas móveis.
Potenciar o seu uso de uma forma pró-activa e reactiva ao conhecimento e ao saber. E nunca, mas nunca comprar uma guerra, ou estaremos condenados ao fracasso.
Temos de nos adaptar aos jovens e à sua realidade se os queremos atingir e ter sucesso. Não são eles quem se tem de adaptar a modelos arcaicos e contra-identitários.
Muito obrigado,
Tiago Videira 

7 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. É um facto que o telemóvel passou a ser um prolongamento do corpo das nossas crianças e jovens (e menos jovens, já agora...)
    Mas também não será grande via "divinizar" os ditos aparelhos como factor de aprendizagem formal em sala de aula.
    Na minha escola, a professora Adelina Moura introduziu-os e usou-os profusamente no ensino das línguas, coisa que foi objecto de notícias várias e matéria que, suponho, é parte fundamental da tese de doutoramento que defendeu.
    Mas isto foi há já alguns anos, não muitos. O entusiasmo parece ser agora menor, talvez porque a novidade deixou de o ser... E, sem desprimor para a minha estimada colega, para a sua acção e para o desempenho dos alunos, não parece que eles tenham aprendido melhor do que outros que os antecederam, assim como os que actualmente, e depois deles, portanto, continuam a aprender as mesmas línguas...

    Mas há aqui mais qualquer coisa que me tem dado que pensar: Como a situação económica de muitos pais se degrada a olhos vistos, e como o uso do telemóvel e o uso da "net" têm que ser pagos, como é que muitos vão manter os seus belos aparelhos?, sendo certo que também eles, crianças e jovens que vão crescendo, parecem ter o abismo da penúria e do desemprego à frente...

    Vou falando porque, um dia destes, queria um frasco de acetona para fazer uma cromatografia em papel e já havia dificuldade em os serviços administrativos disponibilizarem os cêntimos necessários. Optei, desta vez, por remediar pessoalmente o problema, mas sei que não o posso fazer muitas vezes, para não quebrar princípios... e porque não estaria em condições de o proporcionar...
    E cada vez que ligo o projector e uso a rede fico a pensar quando é que a lâmpada atinge o limite, findo o qual, o preço da ordem dos 300 euros, impedirá que se comprem novas. Já nem falo da manutenção dos computadores... O equipamento ficará então imprestável.
    Como se darão aulas a seguir?
    Ainda por cima, os quadros pretos de ardósia foram removidos e substituídos por quadros brancos de material sintético, para os quais são precisas as respectivas canetas. Se os trocados nem para essas derem, então não sei...
    Não sei mesmo.

    E ando à procura de optimismo sempre que entro na sala de aula, à frente dos meus pupilos.

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  3. A reflexão é politica e academicamente correcta. É sempre possível encontrar optimismo, é tão fácil como gerar fantasias. Teorias conspiratórias bem reais colocam-nos numa situação em que a fantasia é o conteúdo da aula, estamos a preparar as crianças e jovens com o quê e para quê?

    Essas ideias socio-construtivistas de que temos de nos adaptar aos jovens e um modo de safar o dia do professor e isso não significa propriamente, ter sucesso, muito menos sabemos o que estamos a atingir realmente.

    Modelos arcaicos e contra-identitários?
    Tem a certeza que está a fazer um doutoramento? O que os pais, a sociedade e o sistema educativo está a fazer com os mais novos é criminoso, formatar novas gerações para se ligarem a aparelhos hipnóticos de entretimento, manipulação psicotrónica, e decepção e virtualização da percepção.

    Lavagem ao cérebro e alienação é o que mais abunda na crescente selecção de docentes amestrados nacionais. Já agora, vamos lá agradar ao miúdos com a verdade nua e crua do mundo, vamos mudar os conteúdos curriculares, garanto-lhes que os miúdos ficariam colados à cadeira em silêncio sepulcral. Querem uma aposta?



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    1. Conspirealidades, um achado da pós-modernidade!!!

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  4. É verdade que lidar com jovens é mais fácil se distinguimos minimamente os seus modos de vida (mas não tenhamos ilusões, não os entendemos; o choque de gerações está aí para durar enquanto homens haja). E o tlm é-lhes/nos parte.

    Não concordo que tenham os professores ou outros adultos de se adaptar aos jovens. Parece-me escravatura moderna e não adaptação; esta exige mudança nos dois intervenientes (e nem aprender seria possível sem esse modo de ser adaptativo que possuímos, julgo); é um processo inteligente.

    Anónimo

    tem que ler o construtivismo de novo :)
    Aprender é sempre um esforço; que Platão bem ilustrou. E, se educar não pode ser execrável, também não pode embarcar na curva do agrado.


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  5. O construtivismo é engenharia social, é robotizar pintado de Nova Era. Não faltam pais que adorem sre enganados, uma vez que eles praticam esse desporto nas suas próprias vidas. Que dizer mais? Detesto gente que se vende para ser agente da PIDE "moderna".

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