quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Acordem, isto não vai durar.


Em mensagem anterior - "Um futuro preocupante" -, o Professor Galopim de Carvalho mencionou a posição de Nick Hanauer, um dos grandes capitalistas à escala mundial, sobre a crescente desigualdade social. Uma desigualdade que, tendo raízes económicas, reflecte-se na saúde, na justiça, na educação. Em virtude daquilo que estudo e faço na área da educação escolar, é sobretudo a partir dela que vejo esse futuro. E o que vejo é preocupante, mesmo muito preocupante.

Os sistemas de ensino estatais - que, verdade seja dita, nunca foram completamente independentes dos "poderes que podem", tornaram-se, neste século, reféns do "poder que pode mais do que todos os outros poderes": o tal capitalismo que Nick Hanauer denuncia, recorrendo a argumentos pragmáticos, que não subscrevo inteiramente, mas que compreendo e que entendo serem compatíveis com argumentos de distinta natureza.

É este capitalismo que se tornou a base do currículo que se implanta à escala global: em cada país, estado, região, escola, sala de aula... E como é muito bem apresentado, numa "narrativa" capaz de convencer os mais incrédulos e de vencer os mais resistentes, acreditamos que ele vai formar muito bem as nossas crianças e os nossos jovens, que lhes permite ter sucessos académicos e nas suas carreiras, que lhes permite serem cidadãos do futuro.

Temo que quando acordarmos desta espécie de torpor seja um pouco tarde... Ou, talvez, não.

Em suma, vale a pena ver conferência que se encontra aqui.

5 comentários:

  1. Dra Helena
    Partilho totalmente dos seus receios.
    Infelizmente parece que pouca gente se apercebe do grande risco que se corre ao permitir que a educação fique refém desse capitalismo
    Ab
    Regina Gouveia

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    1. Prezada Dra Regina
      Eu diria que essa consciência é particularmente ténue em Portugal. Em diversos países da Europa, nos EUA e no Brasil (terrenos que melhor conheço) têm avançado numa análise crítica séria, que se traduz em publicações, palestras, etc. Presumo, no entanto, que essa análise não seja capaz de mudar, nem a curto nem a médio prazo e de um modo substancial, o rumo que a educação tomou no sentido de formar capital humano. Mas a longo prazo talvez possa ter algum efeito.
      Cordiais cumprimentos,
      Maria Helena Damião

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  2. Aparentemente os usurários deste mundo estão a conseguir levar a sua avante. Ou a Humanidade consegue arrepiar caminho nos tempos mais próximos, ou o poder escabroso do dinheiro acabará por destruir-nos a todos!
    Se a escola, em Portugal, já não funciona como um elevador social, dado que os lugares próximos da gamela providenciada pelo Estado já estão quase todos ocupados e a industrialização do país continua incipiente e sem capacidade de absorver muitos doutores e engenheiros, a solução não é a fuga para a frente, que nos propõem as organizações capitalistas, de fazer das escolas imensos campos incultos, onde os professores, estando proibidos de ensinar, veem os seus parcos salários diminuir, e os alunos obtêm fácil e rapidamente os diplomas que lhes abrem as portas, quando abrem, para empregos muito mal pagos! Todos perdem, exceto os capitalistas estrangeiros que mandam, cada vez mais, nisto tudo!
    Convém recordar que, na Idade Média, a Igreja Católica tentou resistir ao poder dos usurários, mas, no mundo de hoje, eles é que mandam, nomeadamente nos grandes meios de comunicação social de massas. Nos dias de hoje, notícias da Igreja só se incluírem padres pedófilos ou, quando muito, a organização das Jornadas Mundiais da Juventude em Portugal, um país católico, mas praticamente falido!...

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    1. Prezado Leitor Anónimo
      Agradecendo o seu comentário, destaco dele a ideia que tão bem explicita: ainda que a tendência da educação seja contrária àquela que deveria ser (formar pessoas e não capital humano, "a solução não é a fuga para a frente". Precisamos, em especial quem tem responsabilidade na educação formal, na escola, de parar para pensar. Sem dúvida que é preciso parar para pensar.
      Cordiais cumprimentos,
      Maria Helena Damião

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  3. Continuo a ouvir discursos numa "argumentação clássica" acerca das desigualdades e da concentração de riqueza, quiçá a favor de uma redistribuição como solução (curiosamente, como solução para manter em movimento acelerado a roda do capitalismo na mira do mítico e sacralizado crescimento económico) dos problemas que ameaçam os capitalistas (e o capitalismo), constatando que as revoluções só acontecem quando a crise chega aos ricos, que já deixaram de o ser ou estão em vias disso.
    Mas este tipo de argumentação não traz nada de novo e segue a lógica imperiosa do modelo económico paradigmático.
    A estranheza deste tipo de discurso, para não dizer originalidade, é a recorrência dos plutocratas à desculpabilização de si mesmos e à culpabilização do Estado e dos governantes.
    É incrível que “tenham” de ser eles próprios a vir dizer, com ênfase, que querem pagar mais impostos, que ganham demasiado dinheiro, mas que o Estado e os governantes nada fazem quanto a isso, ou porque não querem, ou porque andam “distraídos”. Duvido que alguma vez na história tivesse ocorrido algo semelhante, que se vai repetindo um pouco por aqui e por ali.
    O Estado, os partidos, os governos, parecem reféns da lógica da sua própria dogmática ideológica. No futebol também há situações em que o jogador diz que não tem culpa de ganhar tanto, que nem pediu dinheiro, este é que lhe é oferecido.
    De qualquer modo, estamos a assistir a uma realidade que está a passar ao lado dos discursos e das reivindicações dos nossos tempos.
    Talvez possa soar a heresia dentro do paradigma clássico, mas é um facto que, sem ninguém o ter pretendido, ou por ironia do destino, a concentração de riqueza, com as inerentes desigualdades, sendo um escândalo social e moral, um pouco à semelhança do que acontece com as medidas de austeridade, mas muito mais grave, não deixa de ser uma “bênção” para o planeta, para a necessidade de o salvar.
    Vejamos. Se redistribuissem amanhã a riqueza pelos que a não têm, o que é que aconteceria? Não digam que todos ficariam melhor e que haveria mais ricos, porque os efeitos seriam devastadores... para o planeta.
    Os níveis de consumo, se não forem controlados, talvez sejam a maior ameaça para a humanidade.
    Se ao menos fosse possível alcançar menos consumismo de bens materiais, desperdício, destruição, poluição, extinção de recursos, em troca de mais consumo de serviços... Mas este nó parece ser um nó górdio.

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