segunda-feira, 22 de outubro de 2018

"O google sabe tudo". Não, o google não sabe nada!

Uma mentira ou uma perfídia dita muitas vezes pode tornar-se credível, pode arrastar multidões.

Andreas Schleicher, o omnipresente representante para a Educação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) repete que o conhecimento não precisa de ser aprendido, isto é integrado em cada ser humano, pois está no google.

Declarou isso agora, em Sintra, no lançamento de estudo internacional sobre Competências Sociais e Emocionais nos jovens:
Vivemos hoje num mundo virtual em que já não se premeia o conhecimento, porque o Google sabe tudo" (ver aqui). 
Em 2016 tinha dito o mesmo também em Portugal:
“… já não recompensa as pessoas apenas por aquilo que sabemo Google sabe tudo – mas por aquilo que conseguem fazer com isso” (ver aqui)
Não está só Andreas Schleicher. Eis dois exemplos dos muitos que tenho recolhido, tanto de pessoas de fora como de dentro do nosso país com responsabilidades educativas:
“O conhecimento é um produto, é gratuito está em qualquer dispositivo com acesso à internet. Não é preciso uma escola ou um professor para adquirir conhecimento.” Wagner, Youtube, 2017.  
"O google tem tudo memorizado, não é preciso memorizar as coisas, é preciso aplicá-las bem.” A. Cosme, 2017 (ver aqui).
O conhecimento escolar (que não se pode confundir com a imenso informação que está alocada no google) é fundamental para ampliar e aprofundar o pensamento. Não sendo integrado e organizado na mente de cada aprendiz não se transforma no seu pensamento.

Fora de nós o conhecimento não é pensamento.

Porque é que aceitamos sem qualquer crítica estas declarações telegráficas, uniformizadas e veiculadas como se fossem evidências inabaláveis? Talvez porque já acreditamos nelas.

2 comentários:

  1. A conformidade, sem análise crítica, a este tipo de pensamento e discurso representa um sério risco para o desenvolvimento de gerações inteiras e, consequentemente, para o desenvolvimento futuro do país. Infelizmente a conformidade tende a agravar-se quando as declarações partem de quem está incumbido de representar o conhecimento "de ponta", tendo, também por isso, uma responsabilidade acrescida. Há muito que a ciência mostrou que a ausência de conhecimento produz seres humanos incapazes de pensar, meramente reactivos à informação externa, sem capacidade de análise crítica (tão propalada) e permeáveis a todo o tipo de sugestão e influência. Acresce que a ausência de conhecimento impede a realização proficiente em qualquer área, bem como a produção de novo conhecimento. Se a isso somarmos que o desenvolvimento cognitivo depende da matéria prima da informação que o sustenta, facilmente se compreende o prejuízo intelectual que daí advém. O conhecimento do google (muito de longe de ser integralmente virtuoso e fiável) é fruto do pensamento humano. Esvaziar as gerações futuras de conhecimento é condenar as sociedades futuras a uma inevitável regressão individual, colectiva e cívica.

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  2. O Google até pode existir, mas não pensa!
    Seja como for, a grande questão que se levanta é:
    Se, como defende Andreas Schleicher, corroborado pela grande maioria dos cientistas da educação, o conhecimento já não precisa de ser aprendido, porque está todo na internet, então para que servem os grandes armazéns de gente, com as finalidades mais diversas e muito pouco educativas, em que, já hoje, estão transformadas as escolas EB 1,2,3 e Secundárias?!
    Os poderosos teóricos do ensino/ aprendizagem e da pedagogia do aprender a aprender deveriam ser consequentes com as orientações alucinadas que impõem ao trabalho dos professores e educadores de infância, nas escolas e jardins de infância, propondo corajosamente medidas consentâneas com os seus objetivos ocultos, como são, por exemplo, o fim dos exames e o despedimento da maioria dos professores, que já não são precisos para ensinar as Aprendizagens Essenciais!

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