quinta-feira, 26 de outubro de 2017

"Paternalismo libertário"

"Do que se não pode falar, é melhor ficar em silêncio". 
 Ludwig Wittgenstein, Tratado Lógico-Filosófico, 1921. 


Neste apontamento tenho bem presente as palavras acima reproduzidas, do filósofo Wittgenstein. Não obstante serem palavras a que se reconhece algo de enigmático, uso-as no seu sentido literal quando se trata de opinar (sobretudo em público) sobre assuntos que não domino. E se há assuntos que não domino são os de economia. Assim, nunca me arriscaria comentar a teoria de um prémio Nobel dessa disciplina, se ela não tocasse o que há de mais profundo na educação. Ou, melhor, o que vejo (e interpreto) na comunicação social tocar o que há de mais profundo na educação.

Então, escreveu Catarina Nunes, no Expresso (Economia) de 14 de Outubro (página 12):
"A teoria que valeu ao norte-americano Richard Thaler o Nobel da Economia de 2017 parte da aceitação de que as pessoas são imperfeitas e pouco capazes de, sem orientação, tomarem as melhores decisões. Por isso, precisam de um estímulo subliminar para seguirem na direcção que mais as beneficia. Na prática, trata-se daquilo que (...) define como "paternalismo libertário", suave e não intrusivo, aplicado a políticas públicas e privadas. Trata-se do nudge (empurrão ou estímulo) que o professor de Economia e Ciência Comportamental da Universidade de Chicago defendeu no livro Nudge: como melhorar as decisões sobre saúde, dinheiro e felicidade. De acordo com a teoria deste economista, as escolhas individuais não são bloqueadas ou restringidas, mas enviesadas para opções que mais beneficiam a própria pessoa e a população em geral (...). Outro dos conceitos desenvolvidos é o de "arquitecto da escolha", ou seja, a pessoa ou entidade responsável pela organização do mecanismo que leva as pessoas a tomar a decisão, encontrando a melhor e mais subtil forma de conduzir a um determinado comportamento." 
Há nesta teoria (se a leitura da jornalista estiver correcta, sendo que, pelo cuidado que se percebe no texto, assumo que esteja) a negação do fim último da educação e, afinal, a negação do sentido da própria educação.

O fim a que me refiro é o exercício do livre arbítrio. Conseguir que as pessoas, independentemente do nível de escolaridade/formação em que se situem, consigam fazer escolhas informadas e livres, percebendo a correspondente responsabilidade. Toda a educação, para ser, de facto, educação, tem ser emancipadora.

Se passarmos do plano ideal para o plano do real, diremos que isso nem sempre acontece; mais, que isso raramente acontece, mesmo entre adultos. É verdade. Porém, mesmo alegando boas razões, como é o caso, não podemos afastar do horizonte o ideal, substituindo-o por algo como suporte, apoio, ajuda, orientação... público ou privado, que abafe o discernimento a que cada ser humano deve chegar.

O ser humano não pode ser visto numa perspectiva de menoridade, mas de potencialidade para assumir, em consciência, os desígnios da sua própria vida. É isso que, em última instância, ele (nós) é (somos).

Não pode, mas acontece. Talvez nunca antes as pessoas tenham sido tão solicitadas a virarem-se para si mesmas, a assumirem-se, a escolherem, a procurarem-se, a libertarem-se, a tornarem-se felizes, realizadas, desempoeiradas, "especiais e únicas"... É esse, antes de mais, o discurso publicitário, a que todos cedemos, e o discurso político, que segue as passadas do publicitário, e o discurso educativo, com passadas idênticas. Mas, ao mesmo tempo, cada um de nós é empurrado, vigiado, escrutinado para tomar as "tomar as decisões" que outros dizem beneficiar-nos.

É o tal "paternalismo libertário". Expressão excelente para designar uma profundíssima contradição que nos passa despercebida.

2 comentários:

  1. A liberdade é um ideal. Na escola forçaram-me a ler e escrever. Para haver um mínimo de organização nas sociedades atuais, tem de haver algumas pessoas que mandam e outras que obedecem, sem que daí venha grande mal ao mundo.
    Já em contexto escolar, quando os professores se veem destituídos de autoridade, seja pelo comportamento delinquente dos alunos, cuja sanção máxima é uma semana obrigatória de férias, seja pela pressão exercida pelo governo, pais e encarregados de educação no sentido de que o sucesso escolar é um direito inalienável do ser humano, a libertinagem pode aumentar para a maioria, mas a civilização e a cultura andam para trás.
    Já há muitas correntes de opinião a defender o regresso ao Paleolítico!

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  2. Quanto ao livre arbítrio, diria que não pode ser exercido senão em liberdade, no entanto, a liberdade não é garantia, nem é garantida pelo livre arbítrio.
    Podemos dizer que sempre houve e há quem desfrute de liberdade (política, económica, religiosa), ao lado de imensas populações de servos e escravos, sem aquelas liberdades. O dito liberalismo, nessa vertente, sempre existiu.
    A liberdade, como bandeira dos oprimidos, é algo estranho e paradoxal, porque reclama para si algo que condenam nos outros. Ainda hoje é assim. E com os poderes acontece algo semelhante.
    É evidente que não se trata da liberdade alcançada pelo conhecimento, auto domínio, esclarecimento e livre arbítrio.
    Liberdade, por exemplo, ao jeito do 25 de abril, não pode ser confundida com liberdade do livre arbítrio.
    O livre arbítrio é um ideal, mas a liberdade é real, tanto para quem a tem, quanto para quem a não tem e é muito mais importante para estes, porque padecem pela sua falta.
    Então, uma vez que a liberdade existe para uns e não existe para outros, mesmo e sobretudo quando está instituído que exista para todos, a liberdade é uma prerrogativa dos que podem fazer o que lhes convém, mas de pouco ou nada serve aos que, simplesmente, acreditam na expectativa de a virem a ter, se...
    O que quero dizer, em suma, é que a liberdade não existe para todos e, mesmo aqueles que têm mais liberdades, não têm livre arbítrio.
    O que é importante é estabelecer um sistema justo de acesso e de limites às liberdades e isto não pode ser deixado ao acaso, nem ao sabor e capricho dos indivíduos.

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