quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

GRANITIZAÇÃO (algumas notas sobre a origem dos granitos)

Caos de blocos granítico na Serra D’Arga
Já aqui o dissemos, o termo “granito” surgiu em 1596, criado pelo italiano Andrea Cesalpino (1519-1603), com base no latim granum, que significa grão, muito antes das primeiras propostas de explicação da respectiva génese, das quais merece destaque a do geólogo escocês James Hutton (1726-1797), lembrado como o pai da geologia moderna.

Uma vez que o granito (a rocha que toda a gente conhece e que todo aquele que foi mal ensinado se limita a dizer, sem saber o que diz, que é “feito de quartzo, feldspato e mica”) é francamente dominante entre as rochas descritas como plutónicas, a investigação científica levada a cabo neste domínio conduziu, naturalmente, à ideia de granitização, entendida como o conjunto dos processos que conduzem à génese dos vários tipos de granito e de todas as rochas que lhes são afins, habitualmente referidas por granitóides.

O finlandês Jakob Johannes Sederholm (1863-1934), interessado na geologia do Escudo Báltico, estudou um conjunto de rochas, do Pré-câmbrico local, caracterizadas por exibirem uma alternância de leitos finos de material granítico e metamórfico, a que deu o nome de migmatitos, e que explicou como sendo um processo ocorrente em profundidade, na crosta, marcado pela injecção de um fundido (a que deu o nome de migma) no seio de rochas metamórficas. Segundo ele, estas rochas metamórficas (em particular, filádios, micaxistos e gnaisses) e os próprios migmatitos, quando submetidos a temperaturas mais elevadas, acabam por fundir, originando um magma, num processo dito ultrametamórfico que designou, em 1907, por anatexia (do grego anatêxis, fusão), também conhecido por palingénese, termo que evoca o acto de renascer (do grego, pálin, novamente).

Mais tarde, o seu concidadão Pentti Elias Eskola (1883-1964) interessou-se particularmente pelas reacções no estado sólido (metassomáticas) e pelas, para ele, possíveis migrações iónicas na génese do granito. Criou e divulgou, em 1920, o conceito de ichor (o sangue dos deuses gregos), que imaginou como sendo uma nuvem de iões rica em sódio e potássio que, em profundidade, penetrava os poros das rochas por efeito da compressão orogénica, promovendo a granitização. Porém, a ideia do ichor acabou por morrer, dando lugar à anatexia. Ao granito dito metassomático, opôs-se o granito magmático.

Duas obras de síntese marcam o interesse pela geologia e petrologia das rochas graníticas, a meados do século XX. Uma, em França, “Géologie du Granite” (1946), de Eugàne Paul Raguin (1900-2001), professor da École Nationale des Ponts et Chaussées e da École des Mines de Paris, director do Serviço da Carta Geológica de França e presidente da Sociedade Francesa de Geoquímica. Outra, nos Estados Unidos, “Origine of Granite” (1948), de James Gilluly (1896-1980), conceitoado geólogo dos United States Geological Survey.

Cerca de duas décadas mais tarde, o conceituado geólogo e petrólogo inglês, Herbert Harold Read (1889-1970), distinguido com a presidência da Royal Society de Londres, propôs, na sua obra “Granites and Granites” (1965), um esquema no âmbito da orogénese, ou seja durante a formação de uma cadeia de montanhas, no qual estabeleceu relações espaciais e temporais para as várias ocorrências de granitóides conhecidas.

Do ponto de vista espacial, considerou, por um lado, os granitóides gerados em profundidade por anatexia na zona central de um orógeno, conservados na zona onde se formaram e caracterizados por apresentarem contactos difusos com as rochas envolventes. Além destes, que apelidou de autóctones, distinguiu os que ascenderam no interior da crosta, afastando-se da zona de origem, ascenderam e penetraram ou intruíram as rochas que lhes estavam por cima, qualificando-os de alóctones ou intrusivos. Read caracterizou estes últimos por apresentarem limites bem definidos face às rochas encaixantes com as quais geram auréolas de metamorfismo de contacto (corneanas), pelo que também os qualificou de circunscritos.

Do ponto de vista temporal, explanou os seus conceitos relativamente à cronologia de instalação dos granitos no decurso da respectiva formação da cadeia de montanhas, distinguindo (1) sinorogénicos ou sintectónicos, os que se formaram durante a orogénese; (2) tardiorogénicos ou tarditectónicos, os gerados no final desse evento; e (3) pós-orogénicos ou pós-tectónicos, os surgidos posteriormente a ele.

Além da granitização comum nas raízes dos orógenos antigos, evidenciada pela erosão, de que temos exemplos no soco varisco do nosso território, há ainda a considerar a granitização anorogénica, ocorrida em porções de crosta rígidas e estáveis (cratões e margens passivas), num processo magmático relacionado com fontes de calor pontuais (pontos quentes?) testemunhada por pequenos corpos intrusivos (subvulcânicos, intrusões hipabissais, como lacólitos e outras) como é, por exemplo, o maciço de Sintra.

Afloramento de granito no Castelo dos Mouros, Sintra
Nos últimos anos, a compreensão das rochas graníticas e afins ganhou grande desenvolvimento, em consequência da procura de explicação das respectivas géneses à luz da tectónica de placas. O estudo da granitização prossegue actualmente mediante investigação intensiva, sobretudo, ao nível dos elementos-traço (oligoelementos) e das assinaturas isotópicas. Neste domínio, destacou-se, entre outros, o trabalho do norte-americano John DuNann Winter, exposto em “Principles of Igneous and Metamorphic Petrology”, editado em 2009.

A. Galopim de Carvalho

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