domingo, 22 de janeiro de 2017

Ainda o PISA

Aitor Hernández, correspondente de um jornal espanhol, fez-me algumas perguntas para preparar um trabalho sobre a subida de Portugal no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, promovido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

Que razões justificam os resultados de Portugal no último PISA?
Os resultados que Portugal obteve na primeira avaliação PISA, publicados em 2001, foram, por referência à média, muito baixos, o mesmo acontecendo com a segunda avaliação. Isso teve repercussão no sistema, nas escolas e nos professores, sobretudo nos professores das disciplinas visadas: Matemática, Ciências e Português. Independentemente das discussões e acusações que vieram a público, foram tomadas medidas por parte do Ministério da Educação, que, apesar de sujeitas a críticas, algumas delas pertinentes, conseguiram mobilizar as escolas e os professores para um ensino estruturado e para o acompanhamento dos alunos. Os resultados desse trabalho começaram a ser visíveis a partir de 2006, mas só agora se destacaram, ao ponto de Portugal ficar, nas três áreas disciplinares, num lugar acima da linha crítica desse Programa. Isso foi, certamente, significativo para as escolas e para os professores; foi também, ou deveria ser significativo para a sociedade, que viu uma certa vertente da aprendizagem escolar melhorada.
Estes resultados devem ser motivo de celebração?
Devem ser motivo de celebração mas também de apreensão. Para explicar a minha posição, que pode parecer ambivalente, relembro que PISA mede, compreensivelmente, as competências que a OCDE entende serem adequadas ao desenvolvimento económico-financeiro, o que implica a resolução de problemas com que nos confrontamos no quotidiano. Por isso, devemos celebrar, como antes expliquei, o facto de os nossos alunos terem começarem a ter sucesso a esse nível. Agora o motivo de apreensão: a educação escolar não pode ter em conta apenas a aquisição das competências instrumentais no âmbito dessas três disciplinas, tem de ter igualmente em conta o alargamento de horizontes conceptuais, o discernimento crítico, a fruição estética… competências que estão associadas às artes e às humanidades mas também ao que no campo das ciências e da matemática não é de ordem pragmática.
O que pode Portugal fazer para subir na pontuação?
Certamente, continuar a trabalhar no sentido no sentido de levar os alunos do ensino básico a melhorar a aquisição e demonstração das competências que o PISA mede. Se nos esforçarmos, conseguiremos atingir esse propósito, mas entendo que essa deve ser uma preocupação entre outras. Tendo chegado aqui, é altura de revalorizarmos as componentes “mais contemplativas” das ciências e da matemática, mas sobretudo das artes e das humanidades que concorrem para a formação do pensamento livre. Há uma urgência particular de revalorizar a cultura e as línguas clássicas que chegaram praticamente à extinção. 
Como vê a educação em Portugal em comparação com Europa? 
As políticas educativas dos países europeus tendem a aproximar-se. Vejo as mesmas tendências curriculares nas reformas mais recentes feitas em Portugal, Espanha e França. A verdade é que instâncias supranacionais, como a União Europeia, que acentuam substancialmente a competição económica, exercem uma forte influência nas decisões que cada país toma. Não desmerecendo a importância de programas de avaliação como o PISA, talvez seja tempo de os países se articularam no sentido de proporcionarem às novas gerações uma educação escolar que não dependa directamente dessa preocupação..

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