terça-feira, 4 de novembro de 2014

DOMÍNIOS MORFOSSEDIMENTARES DE TRANSIÇÃO NA INTERFACE TERRA–MAR (1)

Delta do Ganges
Introdução

Entidades morfossedimentares [1] por excelência, deltas, estuários e lagunas são, na grande maioria, formas e ambientes químicos, hidrodinâmicos e ecológicos situados na fronteira ou na transição dos meios continental e marinho. Neles se fazem sentir, simultaneamente, as acções químicas, físicas (sobretudo dinâmicas) e biológicas destes dois meios.

Deltas e estuários representam, em geral, duas situações opostas na dialéctica que, na foz de muitos rios, se estabelece entre a sedimentação e a erosão. Se domina a sedimentação da carga sólida carreada pelo rio, forma-se o delta, que cresce enquanto se mantiverem tais condições. Se, pelo contrário, a descarga do rio em material terrígeno for deficitária, e/ou se a energia do mar for suficiente para remobilizar e evacuar esses sedimentos, prevalece o estuário. Neste caso, uma parte mais ou menos alargada do seu troço vestibular abre-se ao mar, que passa a exercer aí algumas das acções que lhe são próprias.

Esta é a visão simplista, mais divulgada. A realidade é bem mais complexa. Muitas vezes formam-se estruturas deltaicas na extremidade interior dos estuários, situação por demais evidente nos mouchões [2] no Tejo e nas morraceiras no Minho e no Mondego. Parte da carga sólida do Tejo tem-se acumulado a montante do seu amplo estuário, formando um delta interior. Outro exemplo de situações que escapam ao modelo clássico, estereotipado, de delta, encontra-se na foz do Guadiana, que forma um delta a jusante do estuário.

Deltas e estuários sofrem as influências:
- do clima, na medida em que este afecta, sobretudo, o caudal e a carga sólida dos rios;
- da bacia de alimentação, em especial da morfologia (expressa na topografia) e da natureza geológica, nos seus aspectos litológicos e estruturais;
- do fundo marinho adjacente [3], com relevância para a sua forma, dimensão e batimetria; e
- de outros elementos forçadores, como salinidade, correntes de maré, ritmo, energia e orientação das ondas [4], eventual subsidência, tectónica, e história geológica recente, em especial a decorrente do glacioeustatismo [5] nos últimos tempos do Quaternário.

Deltas

Umas vezes, porque a agitação do mar é fraca e outras, porque é muita a carga que os rios transportam, os deltas são sempre a expressão do balanço positivo da sedimentação fluvial sobre a erosão na desembocadura (ou na sua vizinhança) dos respectivos rios. Rios como o Tamisa ou o Douro não formam deltas porque a energia das vagas e das marés lhes dispersam toda a carga sólida que debitam [6].

Por outras palavras, pode dizer-se que nos deltas predomina a influência fluvial, com ganho da terra sobre o mar, que não consegue evacuar ou dispersar os sedimentos que o rio para ali transporta. Neste caso formam-se mosaicos, mais ou menos complexos, de baixios e ilhas muito planas e rebaixadas (mouchões) em resultado da deposição dos sedimentos descarregados pelo rio e separadas entre si por canais. A maré e a ondulação, dois factores hidrodinâmicos actuantes na maioria dos litorais, não são condição fundamental à construção dos deltas. Têm, porém, papel determinante na dinâmica destes sistemas e, consequentemente, na sua morfologia.

Forma grosso modo triangular do Delta do Nilo
Neste aspecto tem particular relevância a maré, pela acção dos respectivos fluxo e refluxo, ao longo dos canais do delta. Os deltas marítimos com marés são os mais frequentes, os de maior dimensão e, também, os mais complexos. Mas há, não o esqueçamos, deltas em mares sem marés, do mesmo modo que os há nos lagos. Acumulados na plataforma continental, os deltas marinhos são edifícios progradantes [7] sobre o mar.

Independentemente do regime de maré e da agitação marítima, do enquadramento geográfico e climático, a condição essencial à formação de um delta é a existência de um sistema fluvial associado a uma bacia de drenagem externa suficientemente importante e fornecedora de volumosa carga sólida.

A forma triangular do conjunto de mouchões na desembocadura do Nilo levou Heródoto, filósofo grego do século V a.C., a dar-lhe o nome da quarta letra (Δ) do alfabeto helénico, de forma triangular bem conhecida.

O termo delta acabou por ser adoptado pelos geógrafos, mesmo para os que não tenham essa configuração, com é o caso do delta do Mississipi.
                                        Delta do Mississipi
NOTAS:

[1] - Em que a morfologia e a sedimentação são causa e consequência uma da outra.
[2] - Do castelhano mojón. Nome dado às “ilhas” de acumulação aluvionar, não só na foz, como em qualquer ponto do curso do rio. Correspondem-lhe as morraceiras no Minho e no Mondego.
[3] - Em geral, marinho, mais raramente, lacustre.
[4] - Massas de água com movimentos de elevação e de abaixamento que se deslocam, as mais visíveis, por acção do vento, mas também por efeito de correntes de diversas origens. O nome radica no latim unda. Com, praticamente, o mesmo sentido usa-se o termo vaga, oriunda do escandinavo antigo vaag, através do francês vague.
[5] - Variações do nível do mar induzidas pela formação e fusão dos glaciares. Uma glaciação determina uma regressão marinha e, pelo contrário, uma deglaciação determina uma transgressão marinha.
[6] - Esta situação no Douro, e em muitos outros grandes rios, já se verificava antes da implantação das barragens hidroeléctricas. Acentuou-se ainda mais com esta intervenção humana que, ao interromper o curso natural do transporte de inertes pelo rio, quase anulou a descarga de sedimentos de fundo (grosseiros) na foz.
[7] - Os geólogos e os geógrafos adoptaram o verbo progradar para referir o avanço de um corpo sedimentar numa dada direcção, por sucessivos recobrimentos da sua frente, que é, por natureza, mergulhante. As dunas, ao avançarem, progradam; são corpos progradantes, isto é, sujeitos a progradação. Estão nestas condições os leques de dejecção, os deltas e a vertente continental, no limite entre a plataforma continental e o domínio oceânico profundo.

Este texto continua.
A. Galopim de Carvalho

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