segunda-feira, 7 de abril de 2014

A indisciplina começa em casa

 Inês Teotónio Pereira  deixou no I um artigo de opinião ainda discutindo o livro "A Sala de Aula" de Maria Filomena Mónica:
 
Esta semana tenho dormido mal à conta do livro de Maria Filomena Mónica editado pela Fundação Manuel dos Santos sobre a indisciplina na escola pública. Os relatos feitos por alunos e por professores de situações que vivem nas escolas são uma descrição de anarquia. No entanto, estou convicta de que a esmagadora maioria das escolas públicas não são assim e que existem muitas escolas públicas e com mais disciplina do que muitas escolas privadas: tudo depende das escolas que selecionamos para termos relatos para todos os gostos. Mas nem por isso deixo de ter pesadelos com os diários publicados por Maria Filomena Mónica.

Também esta semana foi noticiado um estudo que está a ser desenvolvido pela Universidade do Minho sobre a indisciplina entre os 1.° e o 9.° ano também nas escolas públicas. Neste estudo, os professores dizem sentir que existe maior indisciplina nas escolas. Apesar de não haver um número coerente de ocorrências que substancie esta percepção dos professores, não faz com que esta percepção deixa de ser um dado bastante importante. Ainda na senda na indisciplina soubemos, também esta semana, que um agrupamento de escolas de Vila Nova de Gaia iniciou uma campanha de sensibilização aos pais para alterarem os hábitos dos filhos. Diz o director do agrupamento: 'Temos muitos miúdos que chegam à escola cansados, com sono, desmotivados e sem ânimo. Até temos casos em que adormecem na sala de aula. Uma das principais razões prende-se com o facto de não dormirem o suficiente, porque estão muitas horas nos jogos de computador e nas redes sociais."A indisciplina e o desinteresse dos alunos estão na ordem do dia e não é preciso uma análise muito detalha para se perceber que uma das grandes preocupações das escolas são os maus hábitos dos alunos. Estes hábitos prejudicam a aprendizagem, a vida dos professores e são causa de insucesso e abandono escolar. É óbvio que depende das zonas, das condições e dos meios escolares a maior ou menor incidência destes fenómenos, mas não é por isso que o problema não deixa de ser transversal. Também me parece claro que já tudo se fez em termos de legislação, quer em termos preventivos ou sancionatórios, em relação ao tema da disciplina.

Sendo assim, o que fazer para alterar esta percepção dos professores, os relatos do livro de Filomena Mónica e responder às pretensões do director de Vila Nova de Gaia? Antes de mais é preciso ter a consciência que a resposta já não está nas mãos da escola ou do Ministério da Educação e muito menos em mais legislação. Por mais que os professores ameacem, participem e sancionem os alunos e por mais que os governos produzam legislação, é em casa, dentro de cada casa, que em primeira instância se previne a indisciplina, que se criam hábitos de estudo, de saúde ou de sono. É em casa que se criam as regras, incluindo o respeito, que são transportadas por cada aluno para cada sala de aula. Os pais são peça principal e o agrupamento de Vila Nova de Gaia viu muito bem o problema Um aluno que não esteja interessado na escola não passa a estar preocupado com o seu desempenho escolar apenas porque lhe são aplicadas, em contexto escolar, medidas disciplinares ou de índole preventiva A escola não é uma outra dimensão da vida dos nossos filhos e os nossos filhos não deixam de ser quem são por serem alunos. Antes de serem alunos são filhos de alguém, alguém os educou. A escola não educa, a escola complementa a educação que cada um traz de casa. E a escola também não faz milagres, tenha ela ou não candeeiros de Siza Vieira ou os melhores professores. Se os filhos não forem responsabilizados em casa, não há professor, por mais brilhante que seja, que consiga fazer o aluno cumprir se ele não quiser cumprir. A escola não pode determinar a forma como os alunos falam com os professores, quais as horas de sono de cada um, se podem ou não dizer palavrões, se cumprem ou não os seus deveres de estudo. Se um aluno insulta e desobedece aos pais qual a razão para não fazer o mesmo aos professores? Tudo começa em casa. Quem manda na escola, mais do que os professores ou o Ministério da Educação, são os pais. São eles quem determinam se as regras impostas por dezenas de leis são ou não cumpridas pelos seus filhos. Se nem pais nem filhos estiverem dispostos a isso, Filomena Mónica pode começar a pensar em fazer uma trilogia. No mínimo.  

Inês Reotónio Pereira
Jornal i 2014.04.05

4 comentários:

  1. Não podia estar mais de acordo !
    É triste ver a quantidade de alunos que chegam à sala de aula a dormir, literalmente. Frequentemente, são jovens interessados, sem dificuldades em aprender mas estão demasiado cansados e , por isso, muitos apresentam inusitada excitação que lhes impede a aprendizagem.
    Muitos, dizem-me que vão para a cama cedo, mas a televisão, os jogos de computador e as constantes mensagens de telemóvel (que jaz debaixo da almofada) pela noite dentro e sem controlo parental, absolutamente nenhum, impede-os de descansar.
    Autoridade parental, precisa-se.

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  2. «Apesar de não haver um número coerente de ocorrências que substancie esta percepção dos professores» - Na maioria dos casos de indisciplina eu não participo, nem abro processos disciplinares, etc. Eles simplesmente acontecem mas não são "graves" o suficiente para me dar ao trabalho. Simplesmente desgastam com o tempo. É diferente ter uma sala caladinha e ordeira de uma sala onde os alunos estão sempre a sussurrar, falar, ou alguém lança uma provocação, etc... e em ambos os casos o número de "ocorrências disciplinares" é o mesmo - Zero.

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  3. Fundações globalistas 5 - População 0

    Chama-se Engenharia Social, para os que não saibam.
    Pais desumanizados criam famílias anémicas, estas são máquinas de criar revolta e anarquia, a mesma que é projectada pelos filhos de uma experiência da realidade confusa e sem referências sólidas, uma geração onde os limites se dissolvem e onde tudo é permitido, não vá ser apelidado de discriminatório e tal. O espaço escolar é um local de abusos e de autoridade à solta, baseados no mesmo erro que gerou os problemas em primeiro lugar. Os professores estão hoje de facto transformados em palhaços, são tudo menos o que deveriam ser, só não crê nisso quem nunca esteve dentro da Escola. O Estado é cúmplice da subversão, porque o Poder do Estado representa interesses opostos aos interesses dos cidadãos.

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