segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

General Soares Carneiro e um testemunho insuspeito


“Acho que não se pode criar em nome do anti-fascismo um  novo fascismo” (Sophia de Mello Breyner, 1959-1978).

O  comentário do leitor Manuel Silva Pedro (ao meu post “Tributo ao General Soares Carneiro”, 02/02/2014) que temeu que não fosse publicado quando escreveu esperar que o retirassem, embora “baseado nos factos” (entendo eu  basear-se o referido comentário não em factos mas numa opinião pessoal), foi  publicado em nome do sagrado direito à liberdade de expressão. Aliás, pelo próprio leitor evocado em desnecessidade!

Em clarificação de uma situação nebulosa, transcreverei um excerto de uma entrevista concedida por Alberto dos Santos Fonseca de Almeida de que colhi alguns dados biográficos: licenciado em Direito, pela Universidade de Coimbra; denunciado, em fins da década de 50, por actividades subversivas  foi entregue pela PSP à PIDE; assessor jurídico de Agostinho Neto, antes da independência de Angola, teve um papel importante na libertação condicional de alguns presos políticos angolanos a cumprirem pena no Campo de Concentração do Tarrafal como, por exemplo, o poeta Luandino Vieira; depois de 25 de Abril, foi nomeado 1.º embaixador de Portugal em Moçambique; last, but not least, fez parte da Comissão de Inquérito ao Campo de São Nicolau.

Da supracitada entrevista de Alberto de Almeida transcrevo uma pergunta e uma resposta incidindo sobre a controversa personalidade  do General Soares Carneiro:

P: “Foi o general Soares Carneiro quem mandou abrir o inquérito a São Nicolau! Mas não foi ele que criou o campo?

R: Quem mandou abrir o inquérito foi o MFA. As ordens foram de Lisboa . Soares Carneiro depois mandou abrir o processo. Mas não foi ele que o criou. Quem o criou, no plano legal, foi Deodato Coutinho. Mas voltemos a Soares Carneiro. Era um fascista puro, muito respeitado na tropa. Inteligente e culto, escapava ao protótipo de militar de carreira. (…) Eu tinha um certo respeito por ele. (…) Soares Carneiro recebeu as directrizes do MFA, uma delas, na sequência de pressões feitas pelo Movimento Democrático de Angola, dizia respeito à Constituição de uma Comissão de Inquérito ao Campo de Concentração de São Nicolau. Claro que Soares Carneiro podia ter sabotado tal iniciativa. Mas foi impecável, dando cumprimento rigoroso às directrizes. Embora não concordasse com o MFA e com a revolução, motivo que o levou a sair” (“Memórias do Colonialismo e da Guerra”, Dalila Cabrita Mateus, edição ASA - 2006).

Não posso deixar, todavia, passar em claro o apodo ao general Soares Carneiro de “fascista puro”, fascínio a que a cordata entrevista não se conseguiu subtrair porque, a exemplo do que se dizia, antes de 25 de Abril,  quem não era salazarista era “comunista”. Hoje, assiste-se ao inverso: quem não é de uma certa esquerda é fascista!

A este propósito, Julgo merecer reflexão a análise de Vasco Pulido Valente sobre a aplicação, a torto e a direito, da palavra  fascismo e do conceito que lhe subjaz. Escreveu ele: “É preciso uma ignorância absoluta do que foi o nazismo e o fascismo (duas coisas, de resto, muitíssimo diferentes) para os confundir com uma ditadura conservadora e católica como a de Salazar” (Público, “Não apaguem a memória?”, 30/06/2006).

Aliás nada  de espantar por a Alemanha Oriental ter sido denominada (e assim ser aceite com uma espécie de dogma) “República Democrática Alemã”. Ou seja, como quem escolhe um prato no restaurante, democracia, fascismo e social-fascismo são palavras usadas no cardápio das conveniência políticas dos seus utilizadores!

4 comentários:

  1. Que ranço, meu Deus!
    Soares Carneiro, um Verdadeiro e Muito Amado português que, à semelhança de outro companheiro de jorna, agora nas palhinhas do fundo da calçada da Ajuda, muito obrou para que tivéssemos liberdade e democracia (com ficha e tudo! Do bom lado, claro!).
    E lá com o primo De Arriaga, outro esplendorosíssimo, que bela parelha faziam!

    Segue dentro de momentos mais uma rançosa homilia (o homem até já vai em "social-fascismo"...)
    (Adoro as autocorreções do "cromo"...)

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    1. Foi o Luís carpinteiro além do martelo, entrando no domínio da foice.

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  2. Luís, padeiro (assim já não haverá perigo com alfaias museológicas)4 de fevereiro de 2014 às 22:04

    O sr. é mesmo tolinho mas não se enxerga.
    A paranoia, dizem os especialistas, não se cura mas pode ser amenizada.
    Querendo, é claro!

    Sr Rui: o sr é mesmo bacoco e, parece-me, tão narciso, que deve ser difícil suster a quebra dos espelhos por onde passa.

    Adenda: o sr escreve mal. E com ranço.

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  3. A questão fulcral desta questão reside no testemunho insuspeito do Embaixador Alberto de Almeida sobre o General Soares Carneiro , independentemente de ter sido um “fascista puro”, como se tivesse sido um geral italiano ao serviço de Mussolini e não um militar português numa “ditadura conservadora e católica como a de Salazar” (Vasco Pulido Valente).

    Mas nada melhor para lhe avivar a memória ( certamente distraída em traçar o meu perfil psicológico e em apontar, de forma magistral e a menina dos 5 olhos na mão, a minha má redacção) que recordar o seguinte testemunho do Embaixador Alberto de Almeida, encontrando-lhe defeitos e virtudes próprias da condição humana, que volto a citar em respeito pela verdade dos factos e não de simples opiniões verrinosas sobre o General Soares Carneiro como a sua, Luís Carpinteiro:

    “Quem mandou abrir o inquérito foi o MFA. As ordens foram de Lisboa. Soares Carneiro depois mandou abrir o processo. Mas não foi ele que o criou. Quem o criou, no plano legal, foi Deodato Coutinho. Mas voltemos a Soares Carneiro. Era um fascista puro, muito respeitado na tropa. Inteligente e culto, escapava ao protótipo de militar de carreira. (…) Eu tinha um certo respeito por ele. (…) Soares Carneiro recebeu as directrizes do MFA, uma delas, na sequência de pressões feitas pelo Movimento Democrático de Angola, dizia respeito à Constituição de uma Comissão de Inquérito ao Campo de Concentração de São Nicolau. Claro que Soares Carneiro podia ter sabotado tal iniciativa. Mas foi impecável, dando cumprimento rigoroso às directrizes. Embora não concordasse com o MFA e com a revolução, motivo que o levou a sair” (“Memórias do Colonialismo e da Guerra”, Dalila Cabrita Mateus, edição ASA - 2006).

    O mínimo que se lhe pode exigir, Luís carpinteiro, é que não desconsidere o testemunho do Embaixador Alberto de Almeida sobre o General Soares Carneiro com a hombridade de o ter feito em sua vida. Isso exigiu-lhe a coragem de não se esconder sob anonimato assumindo as respectivas responsabilidades . Saiba, Luís carpinteiro, pelo menos, respeitar os mortos que serviram os seus ideais, ainda que mais ou menos discutíveis eles sejam, mantendo-se a eles fiéis sem virar a casaca como fizeram tantos outros militares que se ajoelharam depois de 25 de Abril, em falsa penitência de pecados anteriormente cometidos, a troco de simples pratos de lentilhas ou sinecuras e negócios rendosos.

    Aliás nada de espantar: “Os revolucionários em Portugal já não são o que eram. Agora identificam-se pelos seus fatos listados e telemóveis topo de gama” (Finantial Times, 10/03/2004).



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