quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Dez perguntas sobre a Ordem dos Professores


Rui Baptista volta ao tema da Ordem dos Professores:

“À força de duvidar, chega-se a conhecer a verdade” (
Descartes)

Em longos anos que só uma forte crença suporta, tenho-me batido pela criação de uma Ordem dos Professores. Com essa intenção, afadiguei-me em longas consultas de textos para desmontar argumentos, a contrario, mas sem suporte consistente, como sejam, por exemplo, não exercer o docente uma profissão liberal, mesmo que stricto sensu, e terem todas as ordens anteriores a 25 de Abril a sua génese bastarda em filiação do Estado Novo, sofrendo, com isso, do pecado original de associação corporativa com a exclusão intencional dos sindicatos nacionais, também eles, porém, integrados na política do Estado Corporativo, através do decreto-lei 23050 de 1933.

Fica-me a esperança que as respostas às dez perguntas que aqui deixo possam ajudar a colmatar omissões da minha argumentação ou mesmo a melhorar alguns dos seus pontos fracos. As perguntas são:

1. Porque será que tantos estratos laborais de formação académica superior se estruturaram em ordens profissionais e outros, com formação escolar de igual exigência, se limitam a ansiar por idêntico estatuto?

2. Porque será que os psicólogos lutaram anos a fio pela sua Ordem e se regozijam hoje por a terem finalmente conseguido ?

3. Porque será que a Fenprof, o sindicato com maior representatividade em número de associados, se inquieta tanto só de ouvir falar na criação da Ordem dos Professores?

4. Porque será que o partido com a responsabilidade da maioria absoluta parlamentar não deu provimento, na Assembleia da República, a uma petição, apresentada em 2 de Dezembro de 2005, para a criação da Ordem dos Professores, subscrita por 7857 docentes?

5. Terá sido por a Ordem dos Engenheiros não ter permitido a inscrição de licenciados pela Universidade Independente que a recente legislação regulamentadora de novas ordens profissionais retirou a essas associações a validação dos respectivos cursos de acesso?

6. Porque será que outras profissões, de idêntica projecção e responsabilidade sociais, se subordinam a um código deontológico específico que lhes impõe direitos e lhes exige deveres, responsabilizando os seus membros por uma prestação de serviços qualificados à comunidade, e os professores não?

7. Não serão merecedores de igual tratamento os usufrutuários de um sistema de ensino consignado como um direito constitucional?

8. Será que os professores se resignam ao papel de escravos ao serviço dos mandarins da Avenida 5 de Outubro?

9. Será que os resquícios de uma política sindical mercantilista, que inscreveu sem qualquer critério de formação académica minimamente exigente indivíduos que lhes batiam às portas na defesa de direitos bastardos e deveres não cumpridos, não contribuíram para a perda de prestígio da classe docente e para a perda da sua identidade profissional?

10. Finalmente, considerando um silêncio que, infelizmente, parece não prenunciar a máxima de quem cala consente, qual é a posição dos Ministérios da Educação e da Ciência e Ensino Superior sobre a criação da Ordem dos Professores?

Porque, a exemplo de André Gide, “acredito naqueles que procuram a verdade”, são estas umas tantas perguntas (outras haverá, certamente) à procura de boas respostas, isentas tanto quanto possível de parti pris. A classe docente possui uma maturidade que não deve continuar a ser, como escreveu Fernando Pessoa, um "arrabalde de si própria"!

PRÉMIO DE TRADUÇÃO CIENTÍFICA E TÉCNICA

Informação recebida da União Latina e da Fundação para a Ciência e Tecnologia:

XVI PRÉMIO DE TRADUÇÃO CIENTÍFICA E TÉCNICA EM LÍNGUA PORTUGUESA – UNIÃO LATINA / FCT 2008

Este Prémio visa promover a língua portuguesa como suporte de comunicação científica e técnica. É patrocinado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, através da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, e pela União Latina. Conta com a colaboração do Ministério da Cultura, através da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, da Associação Portuguesa de Tradutores e da Direcção-Geral da Tradução da Comissão Europeia.

A decisão do Júri foi a seguinte:

PRÉMIO EX AEQUO

TRINDADE DE TRINITATE, Paulinas Editora (DE TRINITATE, Santo Agostinho)
TRADUTORES: Arnaldo do Espírito Santo, Domingos Lucas Dias, João Beato,
Maria Cristina de Castro-Maia de Sousa Pimentel

INTRODUÇÃO À FILOSOFIA MATEMÁTICA, Fundação Calouste Gulbenkian
(INTRODUCTION TO MATHEMATICAL PHILOSOPHY, Bertrand Russell)
TRADUTORA: Adriana Silva Graça

TÓPICOS, Imprensa Nacional-Casa da Moeda (TOPICA, Aristóteles)
TRADUTORES: J. A. Segurado e Campos, Maria de Fátima Sousa e Silva, Carmen Leal Soares

MENÇÕES HONROSAS

HISTÓRIAS, Livro V, Edições 70 (HISTORIAE V, Heródoto)
TRADUTORAS: Maria de Fátima Sousa e Silva, Carmen Leal Soares

DO ESCRIBA AO SÁBIO, Porto Editora (DU SCRIBE AU SAVANT, Yves Gingras, Peter Keating e Camille Limoges)
TRADUTOR: Ângelo dos Santos Pereira

A entrega do Prémio terá lugar no âmbito do XI Seminário de Tradução Científica e Técnica em Língua Portuguesa "Tradução e Diálogo Intercultural", no dia 17 de Novembro de 2008, às 9h30, no Instituto Franco-Português – Rua Luís Bívar, 91, Lisboa. Mais informações ver aqui.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Debate e combate

Há uma  diferença colossal entre um debate de ideias e um combate político, e esta diferença nem sempre é adequadamente compreendida. Quando nos entregamos a um debate de ideias a nossa preocupação central é a verdade: queremos ajustar o que pensamos à realidade. Por isso, damos atenção aos argumentos, procuramos ser cuidadosos e rigorosos, e estamos prontos a mudar de ideias. Mas quando nos entregamos a um combate político, não queremos ajustar as nossas ideias à realidade, mas sim mudar a realidade de acordo com as nossas ideias: queremos empurrar o mundo numa certa direcção — queremos um mundo com mais isto ou mais aquilo, com mais pessoas a pensar uma coisa ou menos pessoas a pensar outra coisa.

Infelizmente, o combate político disfarça-se muitas vezes de debate de ideias. E assim se prostitui um dos instrumentos fundamentais da descoberta das coisas, que é precisamente a troca de argumentos entre várias pessoas que partilham um forte interesse pela verdade. Quando o combate político se disfarça de debate de ideias, insulta-se as pessoas, não se faz um esforço para compreender o que estão a dizer, não se procura ser justo, imparcial e objectivo, usa-se todo o género de trapaças lógicas, trocadilhos e fantasias — pois o objectivo é apenas suprimir ideias de que não se gosta, e não pesar cuidadosamente os argumentos a favor e contra essas ideias.

Esta situação é grave porque sem debates genuínos de ideias qualquer falsidade ou palermice fica ao nível de ideias e argumentos plausíveis, cuidadosamente argumentados e honestamente concebidos. A própria possibilidade da investigação científica ou filosófica, assim como a possibilidade de uma democracia saudável, é posta em causa. Não há maneira de organizar programas de investigação nem sociedades que resistam automaticamente à instrumentalização ideológica, política ou interesseira; sem a boa vontade dos participantes, não é pura e simplesmente possível conduzir uma discussão frutuosa sobre seja qual for o tema.

Poder-se-á fazer alguma coisa de significativo quanto a isto? Não creio. À excepção de algumas pessoas, a generalidade dos seres humanos chegam a uma idade em que jamais irão mudar de ideias e tudo o que lhes resta agora é combater politicamente para empurrar o mundo numa direcção em vez de outra. Há até a ideia desafortunada de que combater ferozmente por convicções fortes é de aplaudir, ao passo que pesar cuidadosamente os argumentos a favor e contra essas convicções é visto como pura perda de tempo: os ociosos analisam interminavelmente ideias, os activos impõem-nas aos outros através do combate político e da opressão social e psicológica. As mentiras são tanto mais perigosas quanto mais misturadas estão com verdades, e este é um desses casos: sem dúvida que precisamos de agir e de tomar decisões práticas e políticas, e não podemos ficar sentados eternamente a discutir se realmente vem aí ou não um tsunami que vai arrasar a nossa cidade. Mas desta verdade não se segue que não possamos nem devamos precisamente sentar-nos para discutir cuidadosamente quando podemos claramente fazê-lo, nem se segue que não devamos discutir cuidadosamente quais serão os melhores cursos de acção. Segue-se apenas que por vezes a discussão tem de ser mais expedita, mas uma discussão expedita de ideias, se for genuína, ainda não é, e está muito longe de ser, um combate político.

Apesar de nada de significativo podermos fazer quanto a isso talvez se possa melhorar as coisas ligeiramente, ensinando os alunos a discutir ideias, fazendo uma intervenção pública ponderada e reflectida para que o grande público tenha também por ostensão uma concepção da diferença entre um debate genuíno de ideias e um combate político. Infelizmente, isto não é fácil de fazer porque há a tendência para cair no extremo oposto: para se ser imparcial e “académico” ou “escolar”, as pessoas limitam-se a repetir ideias sem pensar nelas outra vez e sem saberem se realmente as aceitam genuinamente ou se apenas estão a dar voz a mais um formalismo escolar que nada tem a ver com coisa alguma. Precisamos de um meio-termo entre esta indiferença formalista que faz as pessoas repetir coisas sem pensar outra vez, nem compreender adequadamente, e o debate de ideias metamorfoseado em combate político. A grande ilusão é pensar que ou somos imparciais e objectivos — mas nesse caso só debitamos academices irrelevantes, ou, pior, resultados científicos que não podem ser postos em causa — ou nos entregamos pessoalmente e calorosamente a um debate de ideias — mas nesse caso não seremos imparciais nem objectivos, adoptando ao invés as conhecidas técnicas do sujo combate político. Este falso dilema é perigoso, mas não sei o que se poderá fazer de significativo para mostrar a sua falsidade.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

BIBLIOGRAFIA DE HISTÓRIA DA CIÊNCIA

Informação recebida do Centro de História das Ciências da Universidade de Lisboa:


Vimos por este meio avisar que a Bibliografia de História da Ciência

em Portugal, 2000-2004, de Conceição Tavares e Henrique Leitão,

publicada pelo Centro de História das Ciências da Universidade de

Lisboa, foi agora disponibilizada integralmente em versão PDF, livre

(540 KB):


http://chcul.fc.ul.pt/textos/Bibliografia_2000-2004.pdf


Também foi preparada uma Adenda e Corrigenda que resolve as faltas e

lapsos entretanto detectados na Bibliografia:


http://chcul.fc.ul.pt/textos/Adenda-Corrigenda_2008-07.pdf


Mais informações aqui:

http://chcul.fc.ul.pt/livros/bibliografia_2000_4-2006.htm


Conceição Tavares e Henrique Leitão

http://chcul.fc.ul.pt

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

EXPOSIÇÃO "CIMÉLIOS"

Informação recebida da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:

Cimélios

A Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra inaugura a 23 de Setembro, pelas 11h30m, na Sala de São Pedro, uma exposição bibliográfica de livros raros e preciosos, por ocasião do Colóquio da Association Internationale de Bibliophilie que decorre em Portugal de 21-26 de Setembro de 2008.

Na sessão realizada em Coimbra - 23 de Setembro - o Prof. Doutor Aníbal Pinto de Castro proferirá, pelas 10:45, no Auditório da Faculdade de Direito, a Conferência O Século XVIII, idade de ouro da Biblioteca da Universidade a que se seguirão as visitas à Biblioteca Joanina e à exposição bibliográfica patente na Sala de São Pedro.

Entre os preciosos documentos apresentados na mostra conta-se a Bíblia Atlântica (ver iluminura acima), a Bíblia Judaica de Abrabanel, livro de Cristóvão Clavius em que discute eclipse observado em Coimbra, correspondência original entre D. Catarina de Bragança e o seu marido Carlos II de Inglaterra, Regimento da Inquisição e colecção de folhetos de autos-de-fé da Livraria do Visconde da Trindade, pedido de Bartolomeu de Gusmão ao rei D. João V de "patente" do seu aparelho voador, etc.


Exposição "Cimélios":

23 de Setembro - 10 de Outubro | segunda a sexta-feira | 10:00-12:00 e das 14:00-17:00 | Biblioteca Geral - Sala de S. Pedro | Entrada livre


HAWKING EM SANTIAGO


Do sítio do "El País" respigo a notícia de hoje que informa que o astrofísico britânico Stephen Hawking se encontra no país vizinho, de visita a Santiago de Compostela, onde foi receber o prémio Fonseca. Hawking permanecerá uma semana na cidade galega para contactos com a comunidade universitária. Recordo que Santiago é um importante centro de investigação em vários domínios da física. Na foto do "El Pais", Hawking visita a catedral.

Doença e saúde

O que é estar doente e o que é ser saudável?

Filosofia e história da Ciência em Portugal no século XX

Recensão do livro “Filosofia e História da Ciência em Portugal no Século XX” por António José F. Leonardo:

A obra “Filosofia e História da Ciência em Portugal no Século XX”, de Augusto Fitas, Marcial Rodrigues e Maria de Fátima Nunes, é, de facto, “uma análise serena e rigorosa” que fornece ao leitor “as ferramentas necessárias a um percurso crítico e esclarecido, através das posições assumidas pelos pensadores e cientistas portugueses do século XX, em face dos grandes debates europeus.” É com estas palavras que Pedro Calafate, do Centro de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, caracteriza a obra no seu prefácio.

Da autoria de uma equipa que inclui uma historiadora, um filósofo e um físico, esta reunião de competências, metodologias e saberes confere à visão, que é partilhada com o leitor, um carácter abrangente das principais ideias, polémicas e discussões que sustentaram a evolução da ciência e da epistemologia no nosso país no século passado.

Trata-se de uma segunda edição, revista e modificada, de “A Filosofia da Ciência em Portugal no século XX”, que integrou a colecção “História do Pensamento Filosófico Português” (Vol. 5, tomo 2), publicada em 2006 precisamente sob a direcção de Pedro Calafate.

Os primeiros cinco capítulos, da autoria de Augusto J. S. Fitas, doutor em Física com agregação em História da Física na Universidade de Évora, descrevem o impacto nacional que foram tendo as diversas correntes da Filosofia da Ciência, desenvolvidas no contexto europeu. Assim, Augusto Fitas inicia o primeiro capítulo por um bosquejo do panorama científico internacional, na transição do século XIX para o século XX, que assistiu ao surgimento de novas correntes epistemológicas, herdeiras do “positivismo oitocentista”, cujos principais mentores foram Ernst Mach, Henri Poincaré e Pierre Duhem. No panorama nacional do primeiro quartel do século XX, tratado no segundo capítulo, são evidenciadas as reflexões epistemológicas de Leonardo Coimbra, que demonstrou “uma interpenetração muito forte do seu discurso filosófico por reflexões sobre o significado e o valor do conhecimento científico.” É também referenciada a acção deste matemático como colaborador da revista "Águia", “primeira revista cultural com larga difusão nacional a preocupar-se em dar a conhecer os temas da ciência moderna e de índole científico-filosófica.” As influências do positivismo lógico em Portugal são retratadas no terceiro capítulo, com destaque para a figura de Abel Salazar, o grande divulgador do empirismo lógico e cujo grande entusiasmo originou polémicas com outros pensadores, com os quais esgrimiu argumentos nas páginas de revistas da época como o "Sol Nascente", a "Seara Nova" e "O Diabo". Neste capítulo são também mencionadas as contribuições na literatura científico- filosófica dos cientistas Bento de Jesus Caraça, Rui Luís Gomes e Mário Silva, bem assim como dos filósofos Delfim Santos e Vitorino de Magalhães Godinho. Segundo Augusto Fitas, é no início da década de 40 que surgem no nosso país as ideias do materialismo dialéctico, veiculadas por Vasco de Magalhães Vilhena. A revista "Vértice", fundada em Coimbra em 1942, foi um espaço privilegiado para dar a conhecer o novo “pensar filosófico (…) influenciado pela revolução operada na física moderna.” O autor traz também à colação, neste 4º capítulo, as ideias da nova corrente de pensamento que sobressaem dos textos publicados na "Vértice", em particular os de Egídio Namorado, crítico do neopositivismo da Escola de Viena, e de Rodrigues Martins, defensor “da importância da história e filosofia da ciência no acto de fazer e pensar a própria ciência.” O 5º capítulo é dedicado a uma personalidade que “atravessa todos os períodos”: trata-se de António Sérgio cuja actividade se estendeu da “história e cultura à religião, passando pela política, filosofia e ciência”.

Os dois capítulos seguintes são da autoria de Marcial Rodrigues, professor de Filosofia na Escola Secundária André de Gouveia, em Évora, e investigador do Centro de Estudos da História e da Filosofia da Ciência, em Évora. No primeiro (Cap. 6) é analisada a filosofia da ciência no pensamento de inspiração católica, até meados da década de 70, com incidência em artigos publicados na "Brotéria – Revista de Sciencias Naturaes" e na "Revista Portuguesa de Filosofia". Neles é abordada a teoria da relatividade, conotada com o neopositivismo, entre outros temas no âmbito da física moderna e biologia, e as suas repercussões epistemológicas. Marcial Rodrigues inicia o sétimo capítulo com uma resenha das novas concepções ao nível da filosofia da ciência, em particular as concepções de Bachelard, Popper e Kuhn, e os seus reflexos na filosofia da ciência em Portugal no último quartel do século XX. Estas são alvo de análise, sendo destacado o papel desempenhado por Fernando Gil e pelo Grupo de Investigação de Filosofia e Epistemologia.

O último capítulo é dedicado à história da ciência em Portugal, como área de investigação científica. Maria de Fátima Nunes, professora de história agregada da Universidade de Évora e investigadora do referido Centro, dá a conhecer ao leitor a actividade do grupo português de história das ciências, denominado "Petrus Nonius", cujo director mantinha contactos próximos com Aldo Mieli, director da revista "Archeion – Archivio di Storia della Scienzia", de Roma. Maria de Fátima Nunes descreve os vários congressos internacionais de história da ciência realizados no nosso país, em especial o III Congresso Internacional de História das Ciências, em 1934. As últimas páginas deste capítulo, que conclui o livro, são dedicadas aos três nomes que mais se destacaram na história da ciência em Portugal no século XX: Joaquim de Carvalho, Luís de Albuquerque e Rómulo de Carvalho.

Este livro é uma obra de inegável relevância no panorama cultural e científico português. O seu valor não se esgota no âmbito da história da ciência ou da filosofia, sendo capaz de despertar a curiosidade de todos os que se interessam pela ciência e/ou pela história de Portugal. Poderá apenas faltar uma conclusão, de autoria conjunta, que integrasse as principais ideias numa síntese final, com as perspectivas do cientista, do filósofo e do historiador. Espera-se que esta obra venha a suscitar outros estudos naquela que é uma “das áreas menos conhecidas da cultura portuguesa do século XX”, segundo as palavras de Pedro Calafate.

- Augusto Fitas, Marcial Rodrigues e Maria de Fátima Nunes, “Filosofia e História da Ciência em Portugal no Século XX”, de Augusto Fitas, Marcial Rodrigues e Maria de Fátima Nunes. Caleidoscópio, 2008.

António José Leonardo

domingo, 21 de setembro de 2008

Passagens de nível

O Ludwig desmascara muito bem aqui a fantasia dos "níveis": haveria conhecimento ao nível científico, ao nível religioso, etc. Isto é como a falácia das "racionalidades": há a racionalidade ocidental, a oriental, a das sextas-feiras, etc. Tudo isto é só desonestidade intelectual. É a tentativa de deixar um espaço aberto à arbitrariedade de se pensar o que queremos, sem nos darmos ao incómodo de tentar saber honestamente se é verdade ou não.

Só discordo de um pequeno pormenor no post do Ludi. É que a filosofia não se ocupa apenas de fazer perguntas, mas também de teorizar hipoteticamente, quando a teorização científica ou matemática não é possível. Daí a piada filosófica: 
Um filho diz ao pai: "Hoje vou sair com a miúda mais bonita da turma, mas eu fico sempre sem assunto! Como é que faço para não parecer um parvalhão?"
"Fácil", diz o pai. "Há sempre três assuntos que não falham: a família, a comida e a filosofia." 
O miúdo vai todo satisfeito e depois do cinema surge um daqueles momentos de embaraçoso silêncio. Então ele lembra-se do conselho do pai e pergunta à miúda com um sorriso bonito: "Tens irmãos?" 
"Não". 
Raios, pensa ele. Lá se vai a primeira hipótese. Qual era o segundo assunto? Ah!
"Gostas de pizza?"
"Não". 
Chiça, isto está a correr mal, pensa o miúdo. Bom, só resta falar de filosofia:
"Se tivesses irmãos, achas que eles gostariam de pizza?"

Ciência e excepção


As ciências como a física, biologia, química ou matemática gozam de um estatuto de excepção na universidade. Ao contrário do que acontece noutras áreas, como a filosofia, teoria da literatura, história ou sociologia, conseguiram expulsar a pseudociência das universidades: nenhum matemático ensina numerologia, nenhum químico ensina alquimia, nenhum astrónomo ensina astrologia. Todas estas manifestações da crendice humana persistem, infelizmente, mas fora das universidades, ou pelo menos fora das universidades mais conhecidas e consagradas (quase de certeza que um leitor qualquer vai descobrir uma universidade algures na qual se ensinem estas coisas). Por que razão aconteceu isto?

Não é uma hipótese plausível dizer que a generalidade da população ganhou uma compreensão da ciência, porque nesse caso tais manifestações não subsistiriam e não teríamos colunas de horóscopos nos jornais de maior circulação. Algo permitiu à ciência implantar-se solidamente nas universidades expulsando as crendices. Hoje em dia esta situação está a mudar e as universidades são cada vez mais pressionadas para incluir crendices ao lado da física. Será a ciência vítima do seu próprio sucesso? No Sobre a Liberdade, J. S. Mill alerta-nos para os perigos de aceitar ideias dogmaticamente, ainda que sejam verdadeiras:
Há um grupo de pessoas (felizmente não tão numerosas como anteriormente) que acham suficiente que alguém concorde com aquilo que consideram verdadeiro, sem duvidar, ainda que não tenha qualquer conhecimento dos fundamentos da opinião, e não pudesse fazer uma defesa sustentável dessa posição contra as mais superficiais objecções. A partir do momento em que o seu credo lhes foi ensinado por uma autoridade, pensam naturalmente que não resulta qualquer bem — e até resultará algum mal — de se permitir que seja questionado. Onde a sua influência prevalece, tornam praticamente impossível que a opinião dominante seja rejeitada de modo sábio e ponderado, embora possa, ainda assim, ser rejeitada de modo precipitado e ignorante; porque impedir completamente a discussão é raramente possível, e assim que surge, as crenças não baseadas em convicção têm a tendência de ceder ante a mais fraca aparência de um argumento.
Quando se ensina ciência dogmaticamente, como um conjunto de resultados cristalizados e não como uma maneira de obter resultados; quando se pensa ingenuamente que os cientistas provam coisas, ao invés de defenderem as teorias mais plausíveis, enfrentando as mais duras objecções concebíveis, num sistema de competição aberta de ideias; quando se pensa que é a observação e a experiência que dão cientificidade à ciência, e não a argumentação pormenorizada e a discussão aberta; quando tudo isto acontece, a situação de excepção das ciências nas universidades tem os dias contados porque a generalidade dos defensores das ciências serão incapazes de a defender dos ataques mais mesquinhos e hipócritas de quem faz do controlo das universidades uma extensão do controlo de mentalidades.

Provavelmente na esmagadora maioria dos departamentos das tolamente chamadas "humanidades" (a filosofia, por exemplo, claramente não é uma das humanidades porque raramente tem o ser humano como objecto de estudo, mas pertence oficialmente às humanidades) a generalidade dos professores e estudantes têm preconceitos anticientíficos, fazendo da ciência a raiz de todos os males da humanidade, e rechaçando os seus resultados como meras ficções, meras "narrativas". Em quase todos os períodos da história da humanidade a numerologia, alquimia e astrologia subsistiu nas universidades ao lado da matemática e da física e da biologia. Não devemos, pois, olhar para a situação actual das ciências como normal: é uma situação excepcional, e como tal sujeita a desaparecer mais depressa do que se possa esperar; nomeadamente porque nas universidades só uma pequena minoria compreende a diferença entre matemática e numerologia.

Talvez Mill tenha razão e estejamos a assistir ao resultado de um ensino errado da ciência, que tem tendência para ser ensinada segundo os moldes da epistemologia de mestre-escola; e quando as pessoas aprendem ciência assim, não conseguem realmente ver a diferença entre medicina científica e Reiki ou outra crendice qualquer, acusando então os defensores da ciência de serem dogmáticos. É preciso ver que, do seu ponto de vista, estas pessoas estão a ser sensatas: dado que não conseguem perceber o que faz a diferença entre a medicina científica e essas patranhas, parece-lhes desde logo dogmático declarar que essas coisas são patranhas. Caso tivessem uma leve formação científica, mas sólida, compreenderiam que essas coisas são patranhas porque se baseiam apenas no desejo de que sejam verdadeiras e na autoridade dogmática de tradições milenares e não na procura intensa para mostrar que são falsas, que é o que se faz na medicina científica. Mas elas não entendem isto porque para elas a medicina científica é apenas outra narrativa, que se apoia na autoridade dos cientistas e nada mais, pois aprenderam na escola a aceitar o que o professor de biologia lhes dizia por mera autoridade. Autoridade por autoridade, por que não escolher a autoridade de uma tradição milenar em vez de uma tradição ainda por cima pouco exótica porque tem origem perto de casa? 

O que se pode fazer? Ensinar melhor ciência, melhor filosofia e melhor história. Ensinar estas disciplinas não como resultados dogmaticamente estabelecidos para serem dogmaticamente decorados, mas como teorizações que são defensáveis porque estão abertas à discussão pública. Ensinar a discutir ideias e ensinar o valor de procurar refutar ideias.

Mas não tenhamos ilusões. Não há receitas mágicas para resolver o problema da crendice humana. Toda a discussão pública pode ser inútil e tola se quem discute estiver de má-fé, procurando apenas fazer valer os seus objectivos políticos, religiosos ou sociais e desprezando a verdade e o valor. Mesmo Mill parece ter uma confiança exagerada nos poderes da discussão pública livre. A discussão pública livre pode ser o melhor que podemos fazer, mas está longe de fornecer garantias porque toda a discussão pode ser vilipendiada, prostituída e distorcida a favor das mais brutais tolices. Parece-me que aqueles de nós que aprendemos a prezar a procura genuína da verdade, a discussão aberta de ideias, a racionalidade, a verdade e o valor, temos o dever de ser melhores educadores, melhores divulgadores — e isso inclui ponderação e distanciamento, tolerância e muita paciência — porque só temos este tesouro fantástico que é a racionalidade porque alguém no-la deu a conhecer. Agora é a nossa vez de a dar a conhecer a alguém. 

Num dos livros de Carl Sagan a mulher dele conta que um porteiro de um hotel uma vez recusou receber dele uma gratificação (comum nos EUA) dizendo que Sagan já lhe tinha dado o cosmos; era bem pouco ele em troca abrir-lhe a porta. Nunca podemos esquecer que é para estas pessoas que estamos a trabalhar, a ensinar, a divulgar. Para lhes dar o cosmos, como alguém no-lo deu a nós. 

Tempo de decisão

Ainda a propósito do tempo da Razão, mais concretamente em relação à guerra à ciência em curso nos Estados Unidos, vale a pena recordar o livro «Speak Out Against the New Right» editado por Herbert F. Vetter (Boston: Beacon Press, 1982).

O livro contou com a colaboração de notáveis de várias áreas, mas importa referir as contribuições de Carl Sagan e Stephen Jay Gould. Há mais de um quarto de século, os dois grandes divulgadores de ciência manifestaram a sua preocupação com o ataque à ciência efectuado pelos criacionistas, então disfarçando religião com a capa de criacionismo científico.

Sagan escreveu então:
One trend is illustrated by the recent request by the Reagan administration in the United States to cut essentially to zero all of the budget of the National Science Foundation devoted to science education, particularly in keeping science teachers up-to-date. That is clearly eating the seed-corn. The budgetary savings are trivial, the potential damage enormous. (...)

In many such areas, but especially in the last, you can find today a kind of resurgent know-nothingism, a reactionary response to the findings of human beings objectively addressing the world around them. There is something called "scientific creationism" which claims that the school system should teach the supposed evidence in favor of the cosmology in the first chapter of Genesis on an equal level with the evolutionary findings that Charles Darwin initiated. I believe that this is exceptionally dangerous.
As mesmas preocupações são reiteradas por Gould que iniciou a sua contribuição recordando o Monkey Trial:
Kirtley Mather, who died last year at age 89, was a pillar of both science and the Christian religion in America and one of my dearest friends. The difference of half a century in our ages evaporated before our common interests. The most curious thing we shared was a battle we each fought at the same age. For Kirtley had gone to Tennessee with Clarence Darrow to testify for evolution at the Scopes trial of 1925. When I think that we are enmeshed again in the same struggle for one of the best documented, most compelling and exciting concepts in all of science, I don't know whether to laugh or cry. (...)

The rise of creationism is politics, pure and simple; it represents one issue (and by no means the major concern) of the resurgent evangelical right. Arguments that seemed kooky just a decade ago have reentered the mainstream.

Creationism Is Not Science

The basic attack of the creationists falls apart on two general counts before we even reach the supposed factual details of their complaints against evolution. First, they play upon a vernacular misunderstanding of the word "theory" to convey the false impression that we evolutionists are covering up the rotten core of our edifice. Second, they misuse a popular philosophy of science to argue that they are behaving scientifically in attacking evolution. Yet the same philosophy demonstrates that their own belief is not science, and that "scientific creationism" is therefore meaningless and self-contradictory, a superb example of what Orwell called "newspeak."
Mas quiçá a contribuição mais enfática tenha sido a de Isaac Asimov, que retomou o aviso que lançara nas páginas da New York Times Magazine em 14 de Junho de 1981 «The 'Threat' of Creationism,» recolhido posteriormente no «Science and Creationism» editado por Ashley Montagu em 1984 (pp. 182-193). Vale a pena ler na íntegra este artigo presciente com quase 30 anos. Retiro apenas alguns excertos:
Even though schools are now allowed to teach evolution, teachers are beginning to be apologetic about it, knowing full well their jobs are at the mercy of school boards upon which creationists are a stronger and stronger influence. (...)

In the creationist churches, however, the congregation is required to believe. Impressionable youngsters, taught that they will go to hell if they listen to the evolutionary doctrine, are not likely to listen in comfort or to believe if they do. Therefore, creationists, who control the church and the society they live in and to face the public-school as the only place where evolution is even briefly mentioned in a possible favorable way, find they cannot stand even so minuscule a competition and demand "equal time."

Do you suppose their devotion to "fairness" is such that they will give equal time to evolution in their churches?

Second, the real danger is the manner in which creationists want threir "equal time." In the scientific world, there is free and open competition of ideas, and even a scientist whose suggestions are not accepted is nevertheless free to continue to argue his case. In this free and open competition of ideas, creationism has clearly lost. It has been losing, in fact, since the time of Copernicus four and a half centuries ago. But creationism, placing myth above reason, refused to accept the decision and are now calling on the government to force their views on the schools in lieu of the free expression of ideas. Teachers must be forced to present creationism as though it had equal intellectual respectability with evolutionary doctrine.

What a precedent this sets.

If the government can mobilize its policemen and its prisons to make certain that teachers give creationism equal time, they can next use force to make sure that teachers declare creationism the victor so that evolution will be evicted from the classroom altogether. We will have established ground work, in other words, for legally enforced ignorance and for totalitarian thought control. And what if the creationists win? They might, you know, for there are millions who, faced with a choice between science and their interpretation of the Bible, will choose the Bible and reject science, regardless of the evidence.
Os nossos leitores habituais confirmaram certamente esta última frase de Asimov no nosso espaço de debate, isto é, os criacionistas nacionais que o invadem debitam ad nauseam os mesmos disparates não importa quantas vezes se lhes prove que são disparates. Glenn Morton, um ex-criacionista da terra jovem (YEC), recorreu à sua experiência pessoal para explicar a imunização à razão dos criacionistas. Mas o demónio de Morton não explica completamente a postura autista dos criacionistas.

No Frontal Lobe foi há uns dias referenciado um estudo muito interessante dos cientistas políticos Brendan Nyhan e Jason Reifler. Este estudo, que confirmava outros anteriores sobre dissonância cognitiva e política, indica que é contraproducente tentar confrontar com a verdade pessoas com bias político. Por exemplo, após ouvirem as justificações da administração Bush sobre a existência de armas de destruição massiva no Iraque pré 2003, a percentagem de conservadores que acreditava nas alegações republicanas foi maior (64%) no grupo confrontado com o pormenorizado relatório Duelfer que concluía o contrário que no grupo de controle (34%).

Pessoalmente considero que podemos extrapolar que o mesmo se passa com os criacionistas e zelotas religiosos em geral. Os fundamentalistas religiosos são completamente imunes à razão e à verdade e como os dislates que debitam com regularidade no nosso espaço de debate confirmam, a confrontação com os factos ainda os entrincheira mais no seu mundo de fantasia e mentiras. Por isso, não vale a pena sequer tentar argumentar racionalmente com criacionistas pelo que não vejo nenhuma bondade nestes pseudo-debates. Mas uma vez que aparentemente estão na «moda» em Portugal, acho que podem ser aproveitados como sessões de esclarecimento para o público em geral enfatizando as diferenças entre ciência e fé, explicando o que é o método científico e porque razão a comunidade científica sem excepção considera que os dislates que certamente o criacionista em questão debitou abundantemente só têm lugar na Terra do Nunca.

No entanto, a melhor forma de prevenir este perigoso anacronismo é investir em educação de ciência de forma a que estas patetices não consigam criar raízes nas mentes dos nossos jovens. O desinvestimento em educação científica referido por Sagan preparou o terreno para as investidas criacionistas. Não o façamos também em Portugal: Gould referia na sua contribuição que, há 25 anos, os criacionistas embora vocais eram uma clara minoria nos EUA. Hoje em dia são a maioria da população ...

sábado, 20 de setembro de 2008

PAUSA NO LHC

A segurança está acima de tudo em qualquer experiência científica. E é, por isso, que o CERN anunciou há pouco - ver, por exemplo, aqui a notícia - que, na sequência de uma falha no sistema criogénico (necessário para os poderosos magnetes que dirigem a trajectória dos protões no acelerador), o acelerador LHC terá de parar por dois meses. Assim, não se sabe ainda se os primeiros testes de colisão protão-protão terão lugar ainda este ano ou só no próximo. Os "profetas do Apocalipse" vão ter de esperar mais um bocadinho para verem que não têm qualquer razão!

O tempo da Razão


A mensagem deste vídeo promocional do Center for Inquiry (CFI) em que figuram Steven Pinker, Daniel Dennett, Susan Jacoby, Ann Druyan, Laurence M. Krauss, Damon Linker, E.O. Wilson, Jennifer Michael Hecht, Richard Dawkins, e Paul Kurtz, é muito simples: promover o uso da razão em todas áreas do pensamento humano.

Citando o CFI:
The methods and values of scientific thinking have expanded our knowledge about life and our place in the universe. This modern knowledge—based on experience and evidence—has brought enormous benefit to humanity, yet many people still choose to rely on ancient texts and beliefs to guide their lives and their nations.

The Center for Inquiry exists to change this situation. We are here to promote the scientific outlook, to expand the methods and values of science into all areas of human endeavor.

We invite you to learn more about the ways we are using education, outreach, and activism to advance reason and human values around the world. Then, if these values are as important to you as they are to us, we ask you to join CFI.

Let your voice be heard. With your help, we can ensure that our time—your time—will be a time of science and reason.
O CFI indica ainda a urgência do seu trabalho numa altura em que a hostilidade à ciência e ao secularismo é notória um pouco por todo o mundo, como denota, por exemplo, o aumento da ameaça criacionista em todo o mundo civilizado.

Esta ameaça criacionista que muitos tentam minimizar é real e não está restrita aos Estados Unidos, como indica a recente demissão de Michael Reiss da direcção do Departamento de Educação da Royal Society.

Não é apenas o criacionismo cristão que toma fôlego, como a censura na Turquia da página de Richard Dawkins confirma. De facto, um tribunal turco deu recentemente razão à queixa do autor do Tijolo Criacionista de que o britânico o teria «insultado» quando analisou o livro. A crítica de Dawkins de que estava «at loss to reconcile the expensive and glossy production values of this book with the breathtaking inanity of the content» foi considerada pelo 2ª tribunal da paz de Istambul uma «violação» da personalidade de Adnan Oktar (que penso estar ainda na prisão devido ao escândalo sexual que abalou a Turquia há quase 10 anos, foi arquivado e recuperado apenas este ano).

Esta censura criacionista ao ciberespaço não é inédita: a seita que desde 1998 ataca e ameaça académicos turcos que ensinam evolucionismo nas suas aulas, conseguiu bloquear o Wordpress e o Google Groups na Turquia, para além de ter censurado uma série de sites de notícias deste país.

Mas quiçá o mais perturbador está a acontecer nos Estados Unidos em que foi nomeada para vice-presidente na candidatura republicana uma criacionista da Terra jovem (daqueles que acreditam que a Terra tem 6000 anos) que vê a guerra do Iraque como uma cruzada religiosa. A mensagem do CFI é de facto urgente num mundo que estes exemplos (e há muitos outros...) confirmam estar a abdicar da razão não apenas na condução das vidas privadas dos cidadãos mas especialmente na condução de nações ...

Mais Pseudo-Ciência "New Age"

Aqui no "De Rerum Natura" já temos revelado alguns exemplos nacionais de pseudo-terapias "new age". Fernando Gouveia, no seu blogue "Não tenho vida para isto", conta-nos um outro caso, começando assim:

" Descobri hoje a “Escola Bio-Integrativa”, instituição que funciona num apartamento em Quarteira. Esta escola, que pertence à organização “Nave Dourada ND-11” (com instalações também em Oeiras e no Porto), realiza diversas actividades, entre as quais a «bioterapia integrativa», que «permite o reequilíbrio energético do corpo físico e dos corpos subtis e a obtenção de estado mais elevados de encontro com os planos da consciência pessoal terrena». Se acham que isto não é para vós, enganam-se: «A BioTerapia Integrativa destina-se a todos os que procuram um sentido mais amplo e consciente de viver.» "

O resto pode ser lido aqui.

OLHAR O SOL


Minha crónica no "Sol" de hoje, que é uma edição de aniversário (na foto uma imagem do Sol, de 31 de Maio de 2006, tomada pelo Observatorio Astronómico da Universidade de Coimbra, que regista diariamente imagens do Sol desde 1926 - o arquivo encontra-se aqui):

A 16 de Setembro de 2006 nascia o “Sol”, pelo que acaba de completar a sua segunda volta em torno do astro-rei. Desejando que continue a dar mais voltas, olhemos para o centro da heliosfera (metaforicamente falando, porque directamente é perigoso).

O Sol é não só a nossa fonte de energia como a nossa fonte de luz. Não admira, por isso, que, no Antigo Egipto, tenha sido um deus. Num só segundo, o Sol emite uma energia que chegaria para o consumo dos Estados Unidos durante quatro milhões de anos. Sem a energia que tão prodigamente o Sol fornece não estaríamos aqui, neste terceiro planeta do sistema solar. A energia que nos sustenta tem, de uma maneira ou de outra, origem no Sol: obviamente as energias renováveis, como a energia solar, a energia hidroeléctrica, a energia eólica, etc., mas também as energias não renováveis, como o carvão, o petróleo e o gás natural (pois os combustíveis fósseis tiveram origem vegetal e sem a luz solar as plantas não crescem). Só o urânio, não renovável, que alimenta as centrais nucleares, não é propriamente solar, pois teve origem numa estrela anterior ao Sol, capaz de fabricar elementos pesados, e foi depois espalhado por uma supernova. Com o esgotamento dos recursos não renováveis só há duas maneiras de satisfazer as nossas exigências energéticas: ou alargamos o aproveitamento das energias renováveis, beneficiando melhor do Sol à distância, ou imitamos, na Terra, o processo que ocorre no interior do Sol - a fusão nuclear.

Por outro lado, vemos o mundo à nossa volta graças ao Sol quase em exclusivo (há outras estrelas, mas estão bem mais longe, não a minutos-luz, mas a anos e anos-luz). Os nossos olhos estão, aliás, pelo admirável processo da evolução natural, convenientemente adaptados para capturar melhor a luz que o Sol emite com maior intensidade, a chamada luz visível. Se vivêssemos perto de outra estrela, que emitisse principalmente, por exemplo, luz ultravioleta ou infravermelha, os nossos olhos seriam decerto diferentes. E veríamos o mundo de modo diferente...

MAIS HUMOR CIENTÍFICO

O Humor cientíico de David Marçal no "Inimigo Público" de ontem:


O mundo foi criado em apenas 5,6 dias

Deus pode ter sido mais rápido do que se pensava. Tal como o físico João Magueijo propôs que a velocidade da luz não é constante, questionando um dos paradigmas da relatividade de Einstein, também a velocidade de Deus pode ser variável. Segundo a teoria VGS (Varying God Speed, na sigla inglesa), nos tempos primordiais (até ao sétimo dia) a velocidade de Deus poderá ter sido mais elevada. Uma das consequências é que Deus não descansou o sétimo dia inteiro, o que poderá permitir a abertura dos hipermercados ao domingo.

Na relatividade criacionista a velocidade da luz (c) é substituída pela velocidade de Deus (D)


Imaginemos um observador na Arca de Noé que se desloca à velocidade de Deus. Outro observador está parado, empoleirado em cima de um ramo de oliveira. E que há uma vela acesa na arca. O observador na arca vê a luz fazer um percurso rectilíneo até um espelho pendurado no mastro. Já o observador empoleirado em cima do ramo de oliveira vê a luz fazer uma trajectória obliqua. Essa trajectória é obviamente maior do que a trajectória rectilínea vista pelo observador dentro da arca. Se a velocidade de Deus é constante, e se visto de fora o percurso da luz é maior, o tempo tem que ter passado mais rápido para o observador dentro da arca de Noé.

Controvérsia: o estado a que a economia portuguesa chegou foi criado ou resulta de evolução?

Manuela Ferreita Leite acredita que estado actual da economia portuguesa é fruto do "intelligent design", e que esta teoria deve ser ensinada nos debates e comentários na televisão, em paralelo com a "teoria da evolução para a crise". Segundo a líder do PSD, o estado calamitoso da economia portuguesa não pode ser fruto de um processo evolutivo com base em mudanças aleatórias e selecção natural, pois a sua complexidade indica a existência de uma inteligência sobrenatural a desenhar o buraco em que Portugal se enfiou. Ferreira Leite acredita que a vontade desse Ser (a que chama Vasco) se manifestou nos Primeiros-Ministros em funções desde o 25 de Abril (excepto em Cavaco) e que o PREC foi uma espécie de génesis.

David Marçal

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

A IGREJA ANGLICANA E DARWIN

De facto, e ao contrário do que foi noticiado por alguns jornais e alguns sítios, a Igreja Anglicana não pediu desculpas pela sua oposição a Charles Darwin. O que aconteceu (ver aqui artigo no "International Harald Tribune" de 16 de Setembro) foi que o reverendo Malcolm Brown, ministro daquela Igreja e responsável pelo Serviços de Relações Públicas, escreveu um artigo num sítio da Igreja, primeiro de uma série relativa ao ano Darwin que se aproxima, sugerindo que aquela Igreja, da qual Darwin foi membro (chegou mesmo a estudar para pastor), devia pedir desculpas. Mas um porta-voz daquela Igreja já esclareceu entretanto que aquela era apenas a posição do autor e não a posição oficial da instituição.

A propósito, aproveito para lembrar (ver aqui post da Palmira) que Michael Weiss, biólogo e pastor da Igreja Anglicana, foi há poucos dias afastado da direcção do Departamento de Educação da Royal Society (a academia de ciências britânica) por ter tomado uma posição que podia ser interpretada como uma defesa da discussão do criacionismo nas escolas a par com a teoria da evolução. De facto, como biólogo ele sabe bem - e disse-o - que a teoria da evolução está solidamente alicerçada e não tem alternativa cientificamente credível. Mas, dada a desadequação de algumas das suas palavras, um grupo de eminentes cientistas daquela Sociedade reagiu em tom muito crítico (ver aqui artigo no "The Times" de 18 de Setembro, que procura desculpabilizar Weiss), tendo a direcção da Sociedade sido obrigada a tomar uma decisão rápida.

Parem as reformas

Os resultados obtidos pelos estudantes nos exames nacionais portugueses das diferentes disciplinas foram alvo de muita discussão. Os comentadores defenderam geralmente que tais resultados eram o resultado meramente administrativo de fazer exames ridiculamente fáceis. 

Eu não vi os exames e não sei se isto é verdade. Mas parece-me que se isto não for verdade, como alegam os porta-vozes do Ministério da Educação, então é preciso parar já as reformas em catadupa que têm assolado professores e alunos, gerando desnecessárias tensões na escola e fora dela. 

Isto porque estes resultados felizes, a serem reais, não podem evidentemente ser o resultado de políticas educativas com menos de 24 meses. Não foi concerteza o que os estudantes fizeram nos últimos dois meses que lhes permitiu ter resultados tão bons, mas antes o trabalho de anos que os professores fizeram juntamente com eles. Mas este trabalho foi feito ainda antes da actual ministra ter assumido o cargo e antes da actual confusão de leis, regulamentos, reuniões, tabelas, formulários, dias inteiros perdidos pelos professores em trabalhos puramente burocráticos na escola. Portanto, é preciso reverter tudo isto e voltar ao que era antes, pois foi o trabalho que se fazia antes que permitiu estes resultados felizes, se é que não são inventados. 

Li este argumento pela primeira vez no blog do Rolando Almeida e parece-me perfeitamente lúcido. Como podem os porta-vozes do Ministério da Educação responder a isto? Ou admitem que é preciso fazer as reformas porque os resultados são realmente uma mentira política. Ou defendem que os resultados não são uma mentira política, mas que todas as impopulares reformas que têm feito nos últimos meses são erros políticos porque afinal estava já tudo bem mas não se sabia ainda. 

Evidentemente, nada disto vão fazer. Limitam-se a fazer o que querem, independentemente do mais razoável argumento que usar se possa contra o que fazem.

OVO EM PÉ NO EQUADOR?

De uma professora de Matemática que esteve recentemente no Equador recebi a seguinte mensagem:

"Estive no Equador onde assisti a uma experiência que me deixou curiosa: um ovo, cru, que se mantinha de pé quando colocado sobre a "linha do equador" (ver aqui), o que não sucedia se se tentasse o mesmo a uns metros de distância. Não fiz a experiência , apenas assisti. Trata-se de um embuste, como o famoso sentido de rotação da água ou existe alguma justificação científica que explique?"

A resposta, que lhe mandei, pode ser conhecida de todos. É um embuste. A maior parte dos ovos podem ser postos de pé num sítio adequado por qualquer pessoa que tenha suficente paciência. Não tem nada a ver com o lugar nem com a data (há um mito urbano que fala de por de pé ovos no equinócio, como aquele que se vai dar a 22 de Setembro, mas ele já foi desmontado por muita gente, incluindo o insubstituível Martin Gardner, no não menos insubstituível "Skeptical Inquirer").

Como presume a minha interlocutora, o equilíbrio do ovo sobre a linha do equador é tão mítico como a experiência de rotação da água em volta de um ralo num lavatório. A força de Coriolis, devida à rotação da Terra, não é suficiente para causar efeitos contrários acima ou abaixo do equador (e, portanto, um efeito nulo no equador). É incrível como mitos como esses são tão aceites! Mas no outro dia vi na televisão, no "Discovery Channel", um programa que desfazia essa lenda mostrando a experiência em dois lavatórios iguais na Inglaterra e na Nova Zelândia. Mesmo que não se vá ao outro hemisfério pode-se sempre repetir a experiência no hemisfério onde se está e ver se há regularidade. Em vez de acreditar em qualquer patranha o melhor é realizar a experiência pelas suas próprias mãos...

ÚLTIMOS DIAS DO "OOLOOA"


Informação recebida do grupo de teatro de Coimbra "Marionet" (na imagem uma foto do espectáculo no telhado da Biblioteca Geral, que é visto do meio da Ponte Pedro e Inês no rio Mondego):

Nos próximos dias 19, 20 e 22 de Setembro (6ª, Sáb. e 2ª) às 21h45, em simultâneo na ponte pedonal Pedro e Inês e no terraço da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, apresentamos os últimos espectáculos do nosso projecto transdisciplinar "Olhar O Longe . Olhar O Antes" (OOLOOA).

Serão as últimas oportunidades para assistir a esta invulgar viagem às estrelas sobre o leito do rio Mondego a observar a constelação artística presente no topo de todo o conhecimento acumulado da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.

No dia 22, dia da última apresentação, assinalaremos o equinócio de Outono e a consequente entrada nesta estação do ano.

Sobre o espectáculo:

Integrado nas comemorações do Ano Internacional da Astronomia, este projecto transporta a relação observador/observado existente na Astronomia entre o astrónomo e os astros, para o "palco", na relação entre o público e o espectáculo. Além disso, convida a assistência ao usufruto não convencional de espaços urbanos, chamando a atenção tanto para o património edificado da cidade, como para o céu estrelado, recentemente classificado como Património da Humanidade pela UNESCO.

Em OOLOOA, tendo a Astronomia por tema, apresentamos duas percepções diferentes do mundo, uma da Arte outra da Ciência, a primeira no topo do edifício da Biblioteca Geral, mais próxima das estrelas, a segunda a cerca de 700 metros em linha de vista, num plano mais baixo, suspensa sobre as águas do rio Mondego.

No plano superior é apresentada uma representação artística sobre o mito de Perseu, inspirada na constelação celeste homónima e outras constelações associadas (como Andrómeda, Cassiopeia ou Cefeu).

No plano inferior o espectáculo apoia-se na estrutura de um artigo científico, apresentando informação genérica sobre as estrelas e a história da Astronomia, e realizando, simultaneamente, uma "experiência" com o público, que convida à reflexão sobre a nossa dimensão no universo e o papel da ciência nas nossas vidas.

Há mais informações nas páginas:
http://oolooa-marionet.blogspot.com


Datas: 19, 20 e 22 de Setembro de 2008 às 21h45

Locais: Ponte pedonal Pedro e Inês e terraço da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra

Preço: Ponte pedonal – gratuito | terraço da biblioteca – 5000€ (apenas um espectador por sessão e sujeito a reserva antecipada). Os espectáculos poderão ser cancelados caso se verifiquem condições atmosféricas adversas, por isso aconselhamos, sobretudo a quem vem de longe, a ligar-nos no próprio dia a confirmar se haverá espectáculo. E a levar agasalho ;-)

www.marioneteatro.com
marionet@marioneteatro.com
Tlm: 931671163

CRISTIANISMO, HUMANISMO, POSITIVISMO E MARXISMO, PONTOS DE APROXIMAÇÃO E DE AFASTAMENTO

Texto do Professor A. Galopim de Carvalho O elitismo académico já teve o seu tempo. Agora é tempo de abordar “todos os saberes” “com toda a ...