No início de Março vai haver a Semana Cultural da Universidade de Coimbra, este abno dedicada ao tema "Imaginação". A revista estudantil "Via Latina", de grande tradição, fará um número temático. Eis, em pré-publicação, o meu contributo, chamando a atenção para uma revista que merecia ser mais conhecida.Associa-se normalmente a imaginação à arte e o conhecimento à ciência. No entanto, a imaginação é essencial também para a ciência. Sem imaginação não há, evidentemente, a mínima possibilidade de ciência. A um dos maiores cientistas, o físico suíço e norte-americano de origem alemã Albert Einstein, alguém perguntou um dia o que era mais importante, a imaginação ou o conhecimento. Ele não teve dúvidas em dar a primazia à imaginação: "A
imaginação é mais importante do que o conhecimento. O conhecimento é limitado. A imaginação dá a volta ao mundo." Noutra ocasião, repetiu essa sua escolha de modo a não deixar margem para dúvidas, dizendo o mesmo por outras palavras: “O
conhecimento permite-nos ir de A para B, mas a imaginação permite-nos ir a qualquer lado”. Noutra altura disse mais em defesa da imaginação: “Q
uando me examino a mim mesmo e aos meus métodos de pensamento, chego quase à conclusão de que o dom da imaginação teve para mim maior significado do que o talento para absorver conhecimento absoluto.” (As citações são de “
The New Quotable Einstein”, colecção e edição de Alice Calaprice, prefácio de Freeman Dyson, Princeton University Press, 2005).
A imaginação permite-nos, de facto, não só dar a volta ao mundo, mas ir a qualquer lado, mesmo fora do mundo que conhecemos. É a imaginação que permite à mente viajar a todos os lugares com a maior liberdade. Livremente! É isso que faz o artista, seja qual for o campo da sua expressão artística: ele não só descreve o mundo em que vive como constrói mundos, ao dar forma externa aos seus mundos interiores.
Por que é que, em geral, se pensa que a imaginação é avessa à ciência? Porque a missão do cientista é a descoberta do mundo em que vivemos, um mundo que é afinal único e que pode ser contrastado com os muitos mundos criados pela imaginação. De entre todos os mundos possíveis, vivemos num só. Acontece que é preciso uma imaginação extraordinária para concretizar o empreendimento científico. Para saber como é o nosso mundo, é preciso primeiro adivinhar como é. Quer dizer, é preciso primeiro imaginá-lo. Depois o veredicto da observação ou da experiência valida ou não o voo mais ou menos temerário que, de início, a imaginação teve de fazer. Pode-se ir de A para B ou C ou para outro sítio, conforme o salto da nossa imaginação. Mas acabamos por ir para E, porque a observação ou a experiência assim o determina. Porque o nosso mundo assim o quer. Uma conclusão matemática nem sempre é a conclusão física, embora a conclusão física seja sempre uma conclusão matemática (o mundo segue regras lógicas, que se exprimem de uma forma matemática). Há quem não considere a matemática uma ciência porque o matemático tem uma imaginação muito menos limitada do que a do cientista experimental. De certo modo a imaginação dele assemelha-se mais à do artista. Mas um físico tem ainda de ter imaginação e de se deixar levar por ela. Conforme declarou Einstein, cuja paixão pelo violino é bem conhecida: “
Eu sou suficientemente artista para me deixar levar pela imaginação”.A arte é, tal como a ciência, uma actividade humana que requer criatividade. A grande arte requer uma grande criatividade, o mesmo acontecendo com a grande ciência. É interessante que os grandes períodos da criatividade humana, nomeadamente “o século de oiro” da Grécia Antiga, o Renascimento europeu e o início do século XX ainda na Europa, se tenham distinguido pela ocorrência de grandes progressos, tanto na arte como na ciência, em processos paralelos. Por exemplo, a teoria da relatividade, de Albert Einstein, um dos pontos de partida da física moderna, e as “
Les Demoiselles d’Avignon”, de Pablo Picasso, o quadro considerado ponto de partida do cubismo, foram criações praticamente contemporâneas, a primeira de 1905 e a segunda de 1907, tendo havido já tentativas de lhes encontrar convergências. Elas convergem, por exemplo, no sentido em que divergem de conceitos estabelecidos. Arte e ciência, embora diferentes (a primeira ligado ao subjectivo e a segunda ao objectivo), têm mais em comum do que normalmente se pensa: O processo de descoberta científico é normalmente favorecido quando se segue um critério estético. De uma maneira resumida mas sugestiva, pode dizer-se que “
se é bonito, então deve ser verdadeiro”. Ou, pensando pela negativa como muitos fazem: “
se é feio, então deve ser mentira”. Vários físicos aplicaram com sucesso um critério deste tipo, apesar de não ser fácil definir o “bonito” ou o “feio”. Mas, como já alguém disse, o belo reconhece-se com facilidade se não houver necessidade de o parametrizar. Quem tentar quantificar o belo para melhor o reconhecer arriscar-se-á a perder uma boa parte dele. O belo escapa sempre de um ou de outro modo a uma medida rigorosa.
Poder-se-á pensar que a imaginação científica, confinada como está pela observação e pela experiência, é menos criativa do que a imaginação artística, como a imaginação do escritor, do músico ou do artista plástico. Mas não é assim. O nosso mundo é suficientemente complexo para ter desafiado e para continuar a desafiar a nossa imaginação. É possível conhecer, como mostra à saciedade não só toda a história da ciência mas também o nosso actual modo de vida, e o processo que conduz ao conhecimento exige uma dose imensa de imaginação. A formulação de uma hipótese científica não é, em geral, trivial. Está longe de o ser. Exige, ao mesmo tempo, um grande conhecimento e uma grande imaginação. O conhecimento nada pode sem a imaginação e a imaginação nada pode sem o conhecimento. E é por isso que não é fácil ser cientista. O físico norte-americano Richard Feynman resumiu esse facto quando afirmou no seu livro “
O que é uma Lei Física” (Gradiva, 1989) que na ciência a imaginação tem de estar contida dentro de uma camisa de forças. Quis com isso dizer que imaginar o que a realidade possa ser a partir daquilo que é (a tal camisa de forças) é bem mais difícil do que imaginar livremente. Pode até acontecer que um esforço de imaginação conduza a F, quando a resposta certa, que requer um esforço ainda maior de imaginação, é E.
O novo conhecimento científico tem sempre de ser compatível com o velho. Por exemplo, podemos não saber muito sobre a matéria e sobre a vida, mas sabemos que a matéria é feita de átomos e que os seres vivos são feitos de células. Qualquer coisa que se venha a saber sobre a matéria ou sobre a vida tem de respeitar esse conhecimento prévio e básico. O conhecimento vai sendo adquirido, mas só é adquirido o que não prejudica o que já foi adquirido, ou melhor, que não prejudica muito porque terá sempre de prejudicar alguma coisa. Neste sentido a ciência é conservadora. Tem de ser, ao mesmo tempo, inovadora e conservadora. Não pode nem inovar demais, nem conservar demais, tendo constantemente de procurar um justo meio-termo.
Feynman, ele próprio um artista plástico na fase final da sua vida, enfatizou a dificuldade da imaginação na actividade científica no seu livro “
O Significado de Tudo” (Gradiva, 2001): “
É surpreendente que as pessoas suponham que não há imaginação em ciência. É um tipo de imaginação muito interessante, diferente da do artista. A grande dificuldade reside em tentar imaginar algo que nunca se viu, que seja consistente em todos os pormenores com o que já se observou e ao mesmo tempo que seja diferente do que até aí se pensava; mais, terá de ser uma afirmação bem definida, e não apenas uma proposição vaga. É, na verdade, difícil.” Será difícil, mas é precisamente a dificuldade da imaginação no trabalho científico que confere um valor acrescido tanto a essa imaginação como a esse trabalho.
Em resumo: É fácil para toda a gente perceber o papel que a imaginação desempenha na arte. O valor da arte é, em grande medida, o valor da imaginação. Mas é percebido por menos gente que a imaginação também é um ingrediente da ciência, ainda que de forma um pouco diferente. Se mais pessoas soubessem que a imaginação é comum à arte e à ciência e que na ciência ainda é preciso uma grande imaginação, talvez a ciência gozasse de um maior reconhecimento.