quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

PELO DIREITO À CULTURA E PELO DEVER DE CULTURA


160 cidadãos de Coimbra ou ligados a Coimbra preocupados com o estado da cultura na sua cidade, nomeadamente a demissão da Câmara Municipal de Coimbra de ocupar o seu papel nessa área, divulgaram um documento. que eu também assinei. Transcrevo mensagem desse grupo de amigos da cultura, que indica o sítio onde está o manifesto, e fica o convite para novas asociações:

O texto "Pelo direito à cultura e pelo dever de cultura!" e os nomes dos 160 subscritores iniciais foram apresentados em conferência de imprensa no Café-Teatro do Teatro Académico de Gil Vicente.

O blog www.amigosdacultura2008.blogspot.com , que contém o texto, está já disponível para acolher novos subscritores e para publicar os depoimentos pessoais de todos quantos queiram enriquecer a discussão pública agora iniciada.

Foi igualmente anunciada a data do debate com o qual se pretende dar seguimento a esta iniciativa. Terá lugar no próximo dia 20 de Fevereiro, a partir das 17:00h, no Teatro Académico de Gil Vicente.

A sua participação continua a ser essencial.

Em primeiro lugar, para nos dar um testemunho mais pormenorizado das razões que o/a levaram a assinar o texto e/ou acrescentar argumentos, pontos de vista e quaisquer outros contributos que entenda pertinentes. Os textos recebidos serão publicados em mensagens autónomas, às quais se poderá aceder a partir do nome do respectivo signatário (lista à direita do blog).

Em segundo lugar, para continuar a divulgar esta iniciativa junto dos seus amigos e conhecidos, convidando-os a participar.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Os perigos das «medicinas» tradicionais

Hoje constou numa série de jornais, nos Estados Unidos e não só, uma notícia da Associated Press que conta a história de Maria, uma texana de Houston que envenenou as suas filhas e uma sobrinha, felizmente sem consequências fatais, com um «mezinha» tradicional.

O «medicamento» em causa é a greta que os curanderos mexicanos garantem ser quasi uma panaceia, que supostamente cura hiperactividade em crianças, empacho ( aflições intestinais) e problemas estomacais, e que na realidade envenena quem a ingere já que é composta quase exclusivamente (cerca de 80%) por óxidos de chumbo.

Existem outros componentes da «farmacopeia» tradicional mexicana que são essencialmente compostos de chumbo como o azarcon, conhecido igualmente como Rueda, Coral, Maria Luisa, Alarcon ou Liga. Os sintomas do envenenamento com chumbo podem passar facilmente despercebidos, na realidade confundem-se com os sintomas das doenças que as «mezinhas» pretendem tratar, e, se não se fizerem testes específicos, são difíceis de despistar já que muitas vezes se resumem a cansaço, sonolência e dores de estomâgo.

Os departamentos de saúde um pouco por todo o território norte-americano indicam que as «medicinas» tradicionais utilizadas por emigrantes da América Latina, India e outras partes da Ásia, são a segunda maior causa de envenamento com chumbo - só ultrapassado por envenenamentos causados por tintas antigas que ainda contenham pigmentos deste metal pesado - e podem ser responsáveis por dezenas de milhares de casos análogos aos das crianças de Maria todos os anos.

Entre as «farmacopeias» tradicionais mais perigosas em termos de metais pesados encontra-se a usada na «medicina» ayurvédica, para cuja toxicidade o número de Dezembro de 2004 do Journal of the American Medical Association já tinha alertado. O estudo indicava que um em 5 dos «medicamentos» ayurvédicos vendidos na zona de Boston continha níveis elevados de chumbo, mercúrio e/ou arsénio. Como notam os autores, a tradição ayurvédica atribui um papel terapêutico importante ao mercúrio e ao chumbo e pelo menos um destes metais entra na composição de cerca de 35-40% das suas formulações.

Os autores concluiram na altura que podem estar em risco de envenenamento com metais pesados os utilizadores desta «medicina» tradicional, muito em voga entre New Agers e vendedores de banha da cobra, que tem em Deepak Chopra, o «curador» quântico, um dos seus grandes divulgadores. Assim, recomendam que seja mandatório o teste dos ditos produtos, normalmente vendidos como produtos herbais.

De facto, enquanto a indústria farmacêutica só pode comercializar um produto após rigorosos e demorados testes, os produtos das «medicinas» alternativas não estão sujeitos a qualquer tipo de controle, teste ou regulamentação. Aliás, os produtos «naturais» estão isentos de testes, qualquer que seja o fim a que se destinam, medicamentos, cosméticos ou pesticidas.
Existem inúmeros exemplos de medicamentos extraídos ou derivados de produtos encontrados na Natureza. Mas mesmo na bula da vulgar aspirina, o ácido acetilsalicílico que substituiu o (mais tóxico) ácido salícilico em que se transforma no organismo humano a salicilina da casca do salgueiro, encontramos uma longa descrição de todos os seus possíveis efeitos secundários e das suas contra-indicações. As banhas da cobra «terapêuticas» são publicitadas com descrições delirantes sobre as suas inúmeras e impossíveis benesses e nunca apresentam nem efeitos secundários nem contra-indicações.

Numa altura em que a Direcção Geral de Saúde mantém a ASAE tão atarefada em inspecções sanitárias sortidas, interrogo-me porque razão a gastronomia tradicional é um alvo preferencial e ninguém sequer menciona as «medicinas» alternativas, tradicionais ou não, que infestam até locais insuspeitos como farmácias, impertubadas e impertubáveis por regulamentação ou testes...

Ciência e poesia

Tigre, tigre, chama pura
Nas florestas, noite escura,
Que olho ou mão imortal cria
Tua terrível simetria?

De que abismo ou céu distante
Vem tal fogo coruscante?
Que asas ousa nesse jogo?
E que mão se atreve ao fogo?


(…)


O Tigre, magnífico poema de William Blake (1757-1827), de que acima reproduzi o princípio, talvez tenha prendido demoradamente a atenção de Jacob Bronowski. Por alguma razão, imagino-o a deter-se nele, a lê-lo várias vezes, a decorá-lo.... Na verdade, a força da escrita do poeta-artista inglês impressionou o matemático-filósofo ao ponto de lhe ter dedicado, tanto quanto sei, dois livros (um datado de 1944 – William Blake. A Man Without a Mask – e outro de 1958 – Selections from William Blake).

A convivência, quando era ainda muito jovem, com as obras de escritores como Blake, Goethe ou Dickens despertou em Bronowsky uma enorme curiosidade pela literatura e, em particular, pela poesia. A natureza destas formas artísticas era, no seu entender, perfeitamente conciliável com a natureza da ciência, porquanto ambas as actividades decorrem da imaginação e da capacidade de construção do saber que, como humanos, possuímos. O modo como perspectivou essa relação constitui um dos mais interessantes e completos que conheço.

Quando, neste Janeiro, dei conta que se completou um século sobre o nascimento de Bronowsky, foi dessa relação que me lembrei em primeiro lugar. Entendendo que ninguém melhor do que ele próprio a poderá explicar, transcrevo, de seguida um excerto de uma entrevista que o filósofo George Derferb lhe fez em 1974 e que, como o leitor perceberá, possui a frescura e a inteligência que perpassam na sua obra.

G. Derferb: (…) Sei também – como resultado do trabalho que efectuei sobre a sua vida e obra – que se dedica ao estudo da poesia e da crítica literária. Como é que este seu interesse particular foi influenciado pelos seguintes factores: atitudes a respeito da ciência, convicção da necessidade de se articular uma série de valores, e compreensão das operações visíveis e invisíveis que são inerentes à ciência?

J. Bronowski
: Está a levantar agora uma questão fundamental. Não faz sentido pensarmos sobre a natureza do conhecimento se nos limitarmos no âmbito da actividade científica. As actividades artísticas são tão profundamente (o termo profissional é caracteristicamente), tão especificamente humanas, como as actividades ditas científicas. Inicialmente direi algo sobre a linguagem, já que é verdadeiramente indispensável se vamos falar de poesia.

A linguagem humana é, entre outras coisas, um género de arquivo do conhecimento humano. É diferenciada por um conjunto de características que representam certas potencialidades da mente humana. Há uma (…) que é única, tanto quanto sabemos. Temos um vocabulário de sinónimos que torna possível a articulação de frases que, embora à primeira vista pareçam idênticas, na verdade podem adquirir um tom emocional diferente. Noutras palavras, podemos – com este vocabulário – colorir as nossas predicações. Utilizo aqui o termo “colorir” no seu sentido mais belo e preciso, ou seja o estético. Esta característica que possibilita a criação poética é uma actividade tão específica à espécie como é a actividade científica. Além disso, estas duas actividades são inseparáveis, dada a existência dessa ligação entre as duas facetas da linguagem.

G. Derferb: No seu livro A identidade do homem, o professor explica uma outra relação entre a poesia e a ciência (…). Nesse livro caracteriza a poesia e a ciência como dois modos complementares de conhecimento.

J. Bronowski
: Sim. Há dois modos pelos quais os seres humanos compreendem o que existe para além da subjectividade imediata. Por um lado, há o modo poético pelo qual compreendemos como as outras pessoas sentem, já que partilhamos esses sentimentos. A literatura entusiasma porque através dela conseguimos participar num grande número de emoções que possuímos de uma forma embrionária (…). A leitura de uma obra permite, a cada um de nós, um desdobramento das nossas potencialidades – boas e más – que até então não haviam atingido maturação. A ciência é outra parte da consciência humana (…).

O conhecimento humano é um empreendimento criativo que permite visualizar o mundo com os olhos novos e também formular analogias cada vez mais complexas, mais subtis. Para tal é necessário utilizarmos as duas facetas da imaginação humana. A imaginação tem de estar relacionada com uma vontade de conhecer, com a convicção de que cumprimos a nossa humanidade neste mundo através da produção de conhecimento (…)”

Texto: “A ciência, a poesia e a ‘especificidade humana’”. In J. Bronowski (1992). A responsabilidade do cientista e outros escritos. Lisboa: Dom Quixote.

Tradução do poema O tigre, de William Blake, por Vasco Graça Moura, publicada em Laocoonte, rimas várias, andamentos graves. Lisboa: Quetzal Editores, 2005.

Imagem retirada da BBC.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

AB Ciência

O programa semanal "AB Ciência", co-produção da RTP e da Ciência Viva, que estreou ontem às 12 horas, na RTP1, já tem um sítio: aqui.

A educação dos jovens


Mais um post de Rui Baptista:

“Que presente melhor poderíamos oferecer à República além de educar os nossos jovens?” Cícero

Escreveu Mao Tse-Tung (cito de memória) que “um caminho demasiado plano não desenvolve os músculos das pernas”. E que bem se adaptam estas sentenciosas palavras a um ensino facilitador – como o nosso - em que alunos há que saem com diplomas do ensino básico mal sabendo ler e escrever. Como sempre, as excepções mais não fazem que confirmar a regra.

O “caminho demasiado plano” dos três ciclos do ensino básico faz com que os alunos circulem velozmente em auto-estradas sem paragens e quaisquer percalços, mas, deparando-se com a primeira portagem a pagamento para prosseguirem os exigentes ensinos secundário e universitário e levando as mãos às algibeiras, verificam ter os bolsos vazios de conhecimento e cheios de cotão de ignorância. Mas não se pense que este é apenas um mau fado da gente lusitana!

Charles Sykes, docente da Universidade de Wisconsin-Milwake e palestrante nas principais universidades norte-americanas, no seu livro “Dumbing Down our Kids” (New York: St. Martin’s Press, 1995) dá-nos conta de princípios que os estudantes do ensino secundário e diplomados do ensino superior não aprendem na escola pelo facto de o “sistema” criar uma geração de jovens sem o sentido da realidade promotora do respectivo falhanço na vida que os espera no futuro. Para que os estudantes possam vir a ter sucesso na vida profissional, estabeleceu onze regras (que na Net têm sido erradamente atribuídas a Bill Gates):

Regra n.º 1: “A vida não é justa; acostuma-te a isso”.
Regra n.º 2 “O mundo não se importa com a tua auto-estima. O mundo espera que faças alguma coisa por ele para te sentires bem contigo próprio”.
Regra n.º 3: “Não ganharás 40.000 dólares por ano mal saias da escola secundária. Não serás um vice-presidente com carro e telefone ao teu dispor até os mereceres”.
Regra n.º 4: “Se achas que o teu professor é exigente, espera até teres um patrão. Este não será tolerante”.
Regra n.º 5: “A preparação de hamburgueres não rebaixará a tua dignidade. Os teus avós têm uma expressão diferente para isso – chamam-lhe oportunidade.”
Regra n.º 6: “Se fracassares não é por culpa dos teus pais. Por isso, não lamentes pelos teus erros. Aprende com eles.”
Regra n.º 7: “Antes de nasceres, os teus pais não eram tão aborrecidos como são agora. Tornaram-se assim ao pagarem as tuas contas, limparem o teu quarto e darem conta do teu grande idealismo. Por isso, antes de exterminares os parasitas que julgas serem a geração dos teus pais, tenta arrumar o teu quarto.”
Regra n.º 8: “A tua escola pode ter eliminado a distinção entre vencedores e vencidos, mas a vida não. Em algumas escolas aboliram as reprovações dando-te todas as oportunidades que queres para dares a resposta correcta. Isto, naturalmente, não tem a menor semelhança com NADA da vida real.
Regra n.º 9: “A vida não se divide em semestres. Não terás verões livres e poucos empregadores estão interessados em ajudar a encontrares-te contigo próprio. Fá-lo-ás só por ti.
Regra n.º 10: “A televisão não é a vida real. Na vida real, as pessoas têm que deixar a vida de café e ir trabalhar."
Regra n.º 11: “Sê simpático para com os patetas. Há uma certa probabilidade de vires a trabalhar para um.”

Face ao facilitismo que também assentou arraiais no nosso país, não será chegada a altura das entidades ministeriais competentes oferecerem à República Portuguesa um sistema educativo de qualidade e sem ser a duas velocidades? Por um lado, demorado e nalguns casos exigente para jovens que são obrigados a satisfazer um percurso académico normal. E, por outro lado, deveras permissivo e rápido no caso de adultos na obtenção do diploma do 12.º ano de escolaridade, através do Programa de Novas Oportunidades, e complemento de habilitações em universidades privadas, a fim de passarem de bacharel a licenciado num percurso académico do tipo “Morangos com Açúcar”!

AUTO-REFORMA?

A notícia de que a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa não aceita a transformação numa outra unidade orgânica, a que se poderia chamar Faculdade de Humanidades, Artes e Ciências Sociais, não é inesperada. Podia ser uma outra faculdade e uma outra universidade portuguesa qualquer. Há muito que se sabe que as universidades não se auto-reformam. E em Portugal auto-reformam-se ainda menos do que noutros lados.

Explosões alcalinas



Jābir ibn Hayyān ou Geber foi o alquimista que introduziu o termo ál-cali (alcalino) no léxico químico. Hoje em dia usamos esse termo também para designar os elementos do primeiro grupo da Tabela Periódica (com excepção do hidrogénio, claro). Os metais alcalinos, lítio, sódio, potássio, rubídio, césio e frâncio, apresentam apenas um electrão de valência muito fácil de remover. Os metais alcalinos são assim os elementos que apresentam as energias de ionização mais baixas, sendo facil e por vezes, como exemplificado, espectacularmente oxidáveis.

O frâncio é um elemento radioactivo muito instável, na realidade, tirando alguns transuranianos é o elemento mais instável que se conhece, com vida média de 21 minutos. Foi isolado pela primeira vez por Marguerite Perey no Instituto Curie em Paris que o detectara em 1939 nos produtos de decaimento radioactivo do actínio-227. Não é assim de estranhar que não o tenhamos visto nesta experiência. Aliás, a química do frâncio não é, pelas razões óbvias, muito conhecida, embora seja de prever que reaja pelo menos tão violentamente com água como os restantes membros do grupo.

O elemento mais leve dos metais alcalinos, o lítio com número atómico 3, era, até 10 de Agosto de 2006, o elemento mais intrigante para os físicos, ou mais concretamente, para os astrofísicos, não pelas suas propriedades químicas mas pelo facto de que existia uma «crise do lítio», ou seja, a quantidade de lítio medida nas estrelas mais antigas era entre duas a três vezes menor do que a prevista por modelos assentes no Big Bang.

Nessa data, foi publicado na Nature um artigo da equipa do astrónomo Andreas Korn, da Universidade de Uppsala, na Suécia, que atribuiu a discrepância a processos estelares ainda pouco conhecidos, que não tinham sido considerados nos cálculos anteriores, a difusão microscópica e a circulação pouco turbulenta de material. Como explicou Corinne Charbonnel, do Observatório de Genebra, Suíça, num artigo na mesma edição da Nature, entrando com estes parâmetros nos cálculos e «extrapolando para trás no tempo, o conteúdo inicial de lítio do aglomerado globular e das estrelas do halo podem ser inferidas, e o valor está de acordo com as previsões da nucleossíntese no Big Bang.»

O elemento que permite a explosão mais espectacular, o césio, é indissociável de dois grandes nomes da ciência do século XIX, Robert Bunsen (de fama ardente, pelo menos) e Gustav Kirchhoff, que embora um dos pais da espectroscopia é mais conhecido pelas leis que têm o seu nome.

A espectroscopia foi a base da descoberta do césio: duas magníficas e desconhecidas riscas espectrais de cor azul celeste (de onde deriva o nome do elemento, do latim caesius, azul celeste) detectadas em 1860 pelos dois cientistas em água mineral de Durkheim na Alemanha. O césio, como os restantes metais alcalinos, devido à sua reactividade química não aparece na natureza na forma metálica mas sim em minerais como a lepidolite e a polucite, que deve o nome ao mítico Pollux que com o seu irmão Castor foi eternizado na constelação Gémeos.

Embora para mim seja mais fascinante o que os elementos do grupo I da Tabela Periódica invocam, como estas pequenas histórias, o vídeo reproduzido ajuda a perceber porque razão os meus alunos me pedem sempre algo semelhante quando falo em metais alcalinos!

domingo, 20 de janeiro de 2008

Karajan 2008



A 22 de Janeiro de 1929 em Salzburgo, a orquestra do Mozarteum foi conduzida pela primeira vez por um dos filhos mais ilustres desta cidade alpina, Herbert von Karajan. A cidade iniciou no passado sábado dia 4 as celebrações do centenário do nascimento do maestro, com um concerto no Grosses Festpielhaus cujo programa era idêntico ao de há 79 anos, a 5ª Sinfonia de Tchaikovsky, o 23º Concerto para Piano de Mozart e o poema sinfónico Don Juan de Richard Strauss.

A Orquestra Filarmónica de Berlim realizará igualmente uma série de concertos de homenagem ao maestro que a dirigiu de 1955 até à morte, em 1989, em Berlim, Paris e Tóquio. O primeiro terá lugar dia 23, em Berlim, o Concerto para Violino em D Maior, Op. 61 de Ludwig van Beethoven e a 6ª sinfonia em B Menor Op. 74 «Pathetique» de Tchaikovsky, concerto que se repetirá dia 25 na Salle Pleyel em Paris.

Herbert von Karajan foi ainda director vitalício da Wiener Gesellschaft der Musikfreunde, a partir de 1951, director musical da Ópera de Viena de 1955 a 1964 e, entre 1964 e 1988, membro da direcção dos Festivais de Salzburgo. Dia 5 de Abril, data em que se completa o centenário do nascimento do maestro, terá lugar um acto ceremonial de homenagem na Haus für Mozart em Salzburgo. Os detalhes do programa não são ainda totalmente conhecidos, sabendo-se que actuará o quarteto Küchl.

Pouco conhecido é o facto de que o jovem Herbert von Karajan pensou inicialmente dedicar-se à engenharia e não à música, tendo frequentado a Escola Técnica Superior de Viena, mas a música cedo suplantou a engenharia, pelo menos como modo de vida. De facto, von Karajan manteve ao longo da vida um fascínio pela ciência e tecnologia, sendo notório o seu interesse em defender a técnica digital de gravação e reprodução. Amigo de Akio Morita, co-fundador da Sony, foi o primeiro maestro a gravar a 9ª sinfonia de Beethoven nesse formato, tendo gravado de novo o seu repertório de forma a preservar para o futuro o seu legado musical com as melhores possibilidades técnicas.

Mais detalhes das celebrações programadas podem ser encontradas numa página devotada, onde estão igualmente disponíveis alguns vídeos que incluem as raras entrevistas concedidas pelo maestro (infelizmente a maioria em alemão e sem legendas).

O vídeo que se segue, a 1ª parte do Bolero de Ravel, que integrou o concerto de Ano Novo da filarmónica de Berlim em 31 de Dezembro de 1985, não necessita legenda. A 2ª parte pode ser apreciada no YouTube.


sábado, 19 de janeiro de 2008

A escalada de um homem


Matemático, pintor, poeta, escritor, historiador, filósofo e divulgador de ciência, Jacob Bronowski, nascido polaco fez ontem 100 anos, foi um dos raros polímatas do século XX, um verdadeiro homem da Renascença. A sua série pioneira de divulgação científica co-produzida pela BBC e pela Time-Life Films, «The Ascent of Man», é absolutamente notável e inspirou muitas outras, entre elas a série «Cosmos» de Carl Sagan - que teve aliás o mesmo produtor, Adrian Malone. A série, que não perdeu actualidade apesar de terem passado mais de três décadas do seu lançamento, foi disponibilizada em DVD há cerca de ano e meio pela Ambrose Video.

Bronowski é talvez o melhor exemplo de que o «divórcio» das duas culturas não é inevitável nesta era de crescente especialização dos saberes, conciliação que ilustra não só na beleza poética desta série como numa série de ensaios e livros. Aliás, para Bronowski não existiam «duas culturas», a serem religadas ensinando a 2ª lei da termodinâmica a todos os artistas como para o seu contemporâneo Charles Percy Snow, mas sim uma única cultura com vários aspectos. Como escreveu no livro «Ciência e Valores Humanos», publicado em 1958 e leitura recomendada:

«Quando Coleridge tenta definir beleza, regressa sempre a um pensamento simples e profundo: a beleza é 'unidade na diversidade'. A ciência não é mais do que a busca da unidade na variedade desordenada da Natureza ou, mais exactamente, na diversidade da nossa própria experiência. A poesia, a pintura, as artes em geral, são o mesmo.
(...)

Para mim, a ciência é uma expressão da mente humana, que procura unidade no caos da Natureza como o escritor a procura na variedade da natureza humana».

Estes excertos indicam-nos que é convicção do autor que a ciência é de certa forma uma arte, a ars scientia que assume um compromisso com o universal e não apenas com a diversidade das sensações, partilhando ambas o espaço do pensamento e criatividade humanas:

«O bom poema e o teorema profundo são novos para cada leitor e são no entanto a sua própria experiência porque ele os recria. Eles são a marca da unidade na variedade; e no instante em que a mente abarca este facto em arte ou em ciência, o coração falha um batimento».

Numa altura em que o debate sobre o que é a ciência continua no De Rerum Natura, o homem que escreveu:

«A sociedade dos cientistas é simples porque tem um propósito director: explorar a verdade. No entanto, tem de resolver o problema de todas as sociedades, o de encontrar um compromisso entre homem e homens. Deve encorajar cada cientista individual a ser independente e a comunidade científica a ser tolerante. Estas condições básicas que formam os valores principais desencadeiam uma série de valores: discussão crítica, liberdade de pensamento e expressão, justiça, honra, dignidade humana e amor próprio».

disse-nos igualmente que «esta é a essência da ciência: faz uma pergunta impertinente, e estarás no caminho de uma resposta pertinente».

O vídeo reproduzido, talvez o momento mais marcante da série «The Ascent of Man», ilustra o que acontece quando esta essência se desvanece e toda uma sociedade se demite de fazer perguntas impertinentes. No episódio «Conhecimento ou Certeza», filmado em Auchswitz, onde muitos membros da sua família foram assassinados barbaramente, Bronowski mostra-nos de forma clara que foi a arrogância, nascida de certezas absolutas, daqueles que pensam deter verdades inquestionáveis que permitiu a abominação que foi o Holocausto. São estas certezas que desumanizam, que transformam a diversidade humana em números anónimos e descartáveis, não a incessante exploração da verdade e a busca da unidade na diversidade!

A essência da ciência, na realidade a essência de todas as verdadeiras formas de conhecimento, o questionar impertinentemente verdades consideradas inquestionáveis, a procura contínua do erro e a rejeição de dogmas, é de facto o único antídoto para a desumanização que advém de verdades absolutas.

Bronowski, ou simplesmente Bruno, deixou-nos um legado fabuloso que importa não esquecer. No centenário do seu nascimento, vale a pena recordar e ouvir este homem extraordinário.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Ciência no Centro Comercial


Informação recebida do Departamento de Física da Universidade de Coimbra:

Experimenta! no Dolce Vita

O Departamento de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologia da
Universidade de Coimbra (FCTUC) irá, através de uma série de
experiências montadas na praça principal do Dolce Vita, mostrar como a
física está na base da grande maioria da tecnologia e porque é que
continua a fascinar engenheiros, professores e investigadores.

Dias 24, 25 e 26 de Janeiro poderá descobrir no Dolce Vita como funciona
um Maglev ou como construir o motor mais simples do mundo. Descobrirá
que é constantemente atravessado por raios cósmicos ou como funciona uma
célula de combustível não poluente, que além de electricidade apenas
produz água. Será ainda uma oportunidade para conhecer as capacidades do
computador mais potente de Portugal, a Milipeia, ou ver como funciona
uma mini-hídrica.

Haverá oportunidade para construir o motor mais simples do mundo no
local e serão oferecidos, durante os três dias, um total de 500 kits com
o material necessário para construir um desses motores. Esta oferta é um
patrocínio da ISA, uma empresa de base tecnológica que desenvolve
soluções nas áreas da Telemetria, Gestão Remota, Automação e Controlo e
que foi fundada em 1990 por recém-licenciados do Departamento de Física
da FCTUC.

Simultaneamente decorrerão duas palestras às 17h, nos dias 25 e 26 de
Janeiro:

dia 25 de Janeiro no auditório da Bertrand,

“Energias renováveis: uma economia de hidrogénio?”, Doutor João Gil,
Departamento de Física, FCTUC

dia 26 de Janeiro, na praça principal

"Supercondutores", Doutor José António Paixão, Departamento de Física, FCTUC

As actividades desenvolvidas são especialmente dirigidas a alunos do
secundário e ensino básico. Venha descobrir e experimentar no Dolce Vita
dias 24 e 25 das 12h-15h e das 17h-20h ou dia 26 de 12h-20h!

Uma sugestão de leitura


Os sonetos a Orfeu e Elegias a Duíno
De Rainer Maria Rilke
Tradução de Vasco Graça Moura
Edição: Bertrand (2007).

Rilke (1875-1926) nasceu, cresceu, fez estudos universitários e escreveu os seus primeiros poemas em Praga. Jovem, com vinte anos, rumou à cosmopolita Munique, onde se embrenhou num novo e fascinante mundo de arte. Nesse mundo, por influência de uma paixão, a bela e impetuosa Lou Andreas-Salomé, mudou o nome de Réne para Rainer e passou a dedicar-se inteiramente à escrita.

Entre as suas obras mais marcantes contam-se Elegias a Duíno, iniciada em 1912 e terminada uma década depois, no ano em que escreveu Os Sonetos a Orfeu. Vasco Graça Moura traduziu ambas as obras para a nossa língua, que se reuniram num só livro, em edição bilingue.

No prefácio desse livro, João Barreno escreveu o seguinte sobre este trabalho de tradução: “O que o leitor d´Os Sonetos a Orfeu e das Elegias de Duíno reterá de Vasco Graça Moura, para além do pormenor, é um conjunto notável que veste estes dois ciclos de Rilke como uma segunda pele. A pele visível, e a mais actual, de Rilke em português. O princípio orientador que o poeta Graça Moura parece seguir nesta sua nova aventura pelo ‘espaço orientador do mundo’ da grande poesia de Rilke poderia ser o que o próprio autor de Cadernos de Malte nos dá, pela boca do seu narrador (…) ‘Era um poeta e detestava a imprecisão’.

O poema que aqui transcrevo é parte integrante d´Os Sonetos (Sonet0 3, página 141) que Rilke criou de um só fôlego e apresentou como “monumento funerário” a Wera Ouckama Knoop, uma bailarina que morreu muito jovem e cujo encanto, sensibilidade estética e determinação o impressionaram de maneira muito particular.

Espelhos: o que sois na vossa essência,
nunca ninguém saberá explicá-lo.
Como os furos do crivo, sois a ausência,
do tempo a preencher como intervalo.

Vós, que esbanjais a sala inda deserta –,
vastos como florestas, quando a noite regressa…
E o lustre, como hastes múltiplas de algum gamo alerta,
vossa água inviolável atravessa.

Tanta vez estais cheios de pinturas.
Umas em vós parecem estranhadas –,
as outras afastou-as a vossa timidez.

Mas a mais bela de todas as figuras
ficará lá no fundo, até nas faces recatadas
romper claro e narciso sua timidez.

Mecânica Quântica Tornada Fácil. O Jogo

Mais um post convidado de Luís Alcácer esclarecendo alguns detalhes do «jogo» quântico.

Nosotros (la indivisa divinidad que opera en nosotros)
hemos soñado el mundo. Lo hemos soñado resistente,
misterioso, visible, ubicuo en el espacio y firme en el
tiempo; pero hemos consentido en su arquitectura tenues y
eternos interstícios de sinrazón para saber que es falso.

J. L. Borges, Avatares de la tortuga, in Discusión, pag. 136,
[Obras completas, Vol. I, EMECÉ, Buenos Aires ]


O meu último post conseguiu um dos seus objectivos, que era o de provocar uma controvérsia. Não conseguiu o objectivo principal que era o de contribuir, pouco que fosse, para desmistificar os tabus da MQ. Alguns dos comentários que suscitou levaram, com certeza, muitas pessoas a fugir da MQ a sete pés. Agradeço aos que fizeram comentários positivos e aos que fizeram críticas construtivas. Não esperava despertar os obstinados "trolls" de serviço, escondidos, de rabo de fora. Quem conhece a língua de Aquilino e de Torga, e leu o meu texto com atenção, percebeu o que pretendia. O bom observador também terá notado o ponto de interrogação na figura do meu gato (de Schrödinger).

Para atingir os objectivos que me propus, de introduzir as regras (postulados) da MQ e deles retirar alguns dos conceitos fundamentais, não preciso de condições de quantização envolvendo infinitos, nem de análise de Fourier, nem de teoria de grupos. E creio que "vectores" e "números complexos" ainda são do programa do ensino secundário.

Certas experiências são suficientemente simples para poderem ser feitas num laboratório rudimentar. A título de exemplo, poderiam introduzir-se os conceitos de estado e de sobreposição de estados, para fotões, usando apenas um laser (dos que se compram na loja dos chineses) e algumas folhas de plástico polaroid. Podem encontrar-se kits na internet por cerca de 30 dólares.

Tendo em atenção uma das críticas construtivas vou tentar ilustrar as minhas regras do jogo com alguns exemplos.

Transcrevo a 1ª regra: Num dado instante o estado de um sistema físico é especificado por um elemento (pode ser vector ortonormado) chamado "estado", que satisfaz as regras de uma álgebra linear, e é representado por um símbolo x. Quando observo uma moeda que atirei ao ar e caiu com a face caras para cima, digo que o "estado" da moeda é "caras" ou x. Classicamente, a moeda, ao cair, só pode assumir um dos dois estados x e y. Em MQ, deve considerar-se ainda um estado intermédio, u, que é a soma ou sobreposição dos dois estados e se representa por u = ax + by, em que a e b são números. Isso é matematicamente correcto, porque numa álgebra linear, qualquer dos seus elementos pode sempre ser escrito como uma soma de outros (é o caso dos vectores).

Exemplos:

Suponhamos que lanço uma moeda ao ar, a qual depois cai sobre uma mesa.

i) Na perspectiva da física clássica e da teoria de probabilidades, a probabilidade de cair caras é 50% e a de cair coroas também de 50%. A situação é ilustrada na figura, na qual, em cima, se mostra apenas uma das faces da moeda, (podendo ser a outra). Se tirasse uma fotografia instantânea à moeda quando ela estivesse no ar, teria 50% de probabilidade de ver caras e 50% de ver coroas.

ii) Admitamos que, para efeitos do jogo, (que pretende ser apenas uma metáfora da MQ, e não uma analogia) quando atiro a moeda ao ar, há alguns instantes em que a moeda (ou os deuses ou Deus) ainda não decidiu para que lado cairia. Durante esses instantes assume-se que a moeda está num estado não definido do tipo u = ax + by, mais concretamente u = 0.7071 x + 0.7071 y; em que x (caras) e y (coroas) são os dois únicos estados possíveis (em que a moeda pode cair) e ignoro todos os outros atributos da moeda. Qual é a probabilidade de, num único lançamento, observar o resultado caras?

Segundo a 1ª regra, a probabilidade de cair caras é a2 = 0.70712 ou seja 0.500 (i.e., 50%). Identicamente a probabilidade de obter coroas é b2 = 0.70712 (0.500 ou 50%).

Naturalmente que a soma é 1, na medida em que a moeda tem de cair numa das duas posições (excluindo, por agora, a possibilidade de cair em pé). Essa condição que não foi explicitada nas regras, é uma consequência da lógica do problema, e está formalmente implícita quando digo que os elementos da álgebra (p.ex., vectores) são ortonormados.

Suponhamos agora que a moeda era defeituosa e que teria maior tendência para cair para o lado coroas. Tal situação poderia ser descrita por um elemento como, por exemplo, u = 0.500 x + 0.866 y, o que daria as probabilidades de cair caras ou coroas de 25% e 75% respectivamente.

Admitamos ainda que a moeda poderia cair em pé. Então deveria considerar-se um terceiro estado possível, por exemplo, w (em pé). Se antes de cair, a moeda fosse descrita pelo estado u = 0.7068 x + 0.7068 y + 0.030 w, então as probabilidades de cair respectivamente caras, coroas e em pé, seriam aproximadamente 0.70682 = 0.4996 (49.96%), 0.70682 = 0.4996 (49.96%), e 0.0302 = 0.0009 (aproximadamente 1 por mil). As mesmas condições de a soma de todas as probabilidades ser 1, são aplicadas.

Como se vê, neste caso, o resultado da MQ é idêntico ao da mecânica clássica com o cálculo de probabilidades clássico. Não temos até agora maneira de distinguir se o comportamento é clássico ou quântico. Mas podemos modificar um pouco a experiência imaginária (thought experiment) de modo a distinguir entre uma situação quântica e a correspondente situação clássica.


Para não sobrecarregar o blog, convido as pessoas interessadas a fazer o download do texto completo deste exercício que pode ser encontrado aqui.

Luís Alcácer

Descobre o teu céu!


Informação recebida dos Museus da Ciência das Universidades de Coimbra e Lisboa:

Os museus da Ciência das Universidades de Coimbra e de Lisboa, em parceria com a Critical Software e com o apoio do jornal "Público", promovem o concurso Descobre o teu céu! integrado no programa do Ano Internacional da Astronomia, para os alunos do ensino básico de todo o país.

A partir das estrelas de quatro zonas seleccionadas do céu, pretende-se que os participantes construam novas constelações e desenvolvam histórias a elas associadas.

Podem participar equipas de 5 a 20 alunos de qualquer um dos três níveis do ensino básico, sob a tutela de pelo menos um professor. O trabalho consiste na criação de constelações, acompanhadas de histórias relacionadas.

As inscrições estão abertas até ao dia 30 de Novembro, os trabalhos podem ser enviados até 21 de Dezembro de 2008, mas os trabalhos trabalhos enviados até ao dia 31 de Outubro de 2008 serão considerados para uma iniciativa da empresa Critical Software, que seleccionará as imagens mais apelativas para serem integradas em postais de Boas Festas.

Os melhores trabalhos de cada escalão (1º, 2º e 3º ciclos do ensino básico) serão premiados e publicados num livro, durante o ano de 2009.

O regulamento do concurso e os mapas do céu a considerar pelos concorrentes encontram-se disponíveis em http://www.museudaciencia.pt/

PERIGO DE MORTE?



Minha crónica publicada no "Público" de hoje:


De Norte a Sul do país muita tensão tem havido por causa das linhas de alta tensão. Na periferia ocidental de Lisboa protestos populares levaram ao fecho de uma nova linha da Rede Eléctrica Nacional (REN). O Tribunal Constitucional negou provimento a um recurso interposto pela REN. Esta empresa chegou entretanto a acordo com a Câmara Municipal de Sintra para enterramento dessa linha, com os custos, que não são pequenos, suportados pela autarquia, isto é, pelos locais. Noutros sítios do país – nomeadamente Guimarães, Batalha, Almada e Silves – tem havido lutas semelhantes contra linhas existentes ou a existir. Já houve greves de fome junto à Assembleia da República. Há aproveitamento por parte de forças políticas, com destaque para o Bloco de Esquerda, cujo líder chegou a afirmar que este seria "o primeiro grande movimento popular do século XXI”. Se o comunismo era os sovietes mais a electricidade, o pós-comunismo há-de ser os sovietes contra a electricidade...

Afirmam os cidadãos em protesto que há uma relação de causalidade entre as radiações electromagnéticas emitida por instalações eléctricas, em particular as linhas de alta tensão, e alguns cancros. Terão razão? Tornando curta uma história que pode ser alongada, a resposta é não. O melhor conhecimento proporcionado pela ciência até à data diz que não existe essa relação. Mais, nem sequer está provada qualquer relação entre a exposição à radiação electromagnética e os males cancerosos que infelizmente afligem a humanidade. O facto de uma pessoa sofrer, por exemplo, de leucemia não significa que a causa da doença se encontre no poste de alta tensão mais próximo. Claro que também não está provado que uma causalidade desse tipo não exista de todo, mas essa prova é impossível. A ciência, neste como em muitos outros casos, dá probabilidades e não certezas. Por isso, não se podem construir linhas por cima das casas ou casas por baixo das linhas: há regras.

A Sociedade Americana de Física, a maior associação de físicos do mundo, divulgou em 1995 um parecer sobre o assunto, que voltou a divulgar em 2005, por não terem surgido alterações de monta. Diz lá claramente: “A literatura científica e os relatórios de revisão de outros painéis mostram que não há nenhuma ligação consistente e significativa entre cancro e linhas eléctricas. A literatura inclui estudos epidemiológicos, pesquisa de sistemas biológicos e análise de mecanismos teóricos de interacção.” E mais adiante: “Os custos da mitigação e litigação relacionados com a ligação entre linhas eléctricas e cancro subiram a milhares de milhões de dólares e ameaçam subir mais. O desvio de recursos para eliminar uma ameaça para a qual não há uma base científica convincente é perturbador. Problemas ambientais mais graves são negligenciados por falta de fundos e da atenção do público e o peso dos custos que recai nas pessoas não é comensurável ao risco, se é que este existe”. Eu, que também sou sócio, assino por baixo.

Não tenho interesses na REN nem conheço quem tenha. Nem sequer tenho qualquer simpatia por essa empresa, que bem podia ser mais selectiva no mecenato científico. Para dizer a verdade, até fiquei a antipatizar com ela depois de saber que vai dar 37 milhões de euros a um centro em formação na Faculdade de Farmácia de Lisboa para fazer um estudo “pioneiro” sobre o assunto (informação do último “Expresso”). A REN? É parte interessada, quer certas conclusões. Estudo pioneiro? A questão foi há muitos anos levantada em vários países e as conclusões são, em suma, as que estão em cima. Suspeito que essa verba não será subtraída aos lucros da REN, mas sim acrescentada nas despesas, o que significa que será paga por nós, com o agravamento dos custos da electricidade. Ora eu não quero pagar para isso, não quero pagar para saber o que já sei. Na Faculdade de Farmácia? Pode-se sempre saber mais do assunto, mas não deve ser na Farmácia. Já alguém, com humor, sugeriu que fosse na Faculdade de Letras, porque assim as conclusões viriam mais bem escritas.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Astronomia em Crescente


Informação recebida da Gradiva:

CICLO DE PALESTRAS: ASTRONOMIA EM CRESCENTE

O NUCLIO - Núcleo Interactivo de Astronomia, com o apoio da Câmara Municipal de Cascais, promove mensalmente a iniciativa "Astronomia em Crescente". Esta actividade, que normalmente decorre no sábado mais próximo da fase de Quarto-Crescente da Lua, é constituída por uma apresentação sobre um tema astronómico e, caso as condições meteorológicas o permitam, por uma sessão de observação nocturna com telescópios.

A sessão de Janeiro decorrerá no dia 19, e contará com uma intervenção do Professor Filipe Duarte Santos (FCUL)que versará sobre o tema

“Alterações globais e desenvolvimento sustentável”

Pela primeira vez na história da humanidade temos a capacidade de interferir à escala dos sistemas terrestres provocando alterações globais. Um dos exemplos mais eloquentes é a alteração da composição da baixa atmosfera provocada pelas emissões antropogénicas de CO2 e de outros gases com efeito de estufa. Estamos assim confrontados com o desafio de assegurar o desenvolvimento social e económico, sobretudo nos países em desenvolvimento e nos mais pobres, sem provocar uma interferência humana perigosa sobre os sistemas terrestres, em especial o sistema climático, os oceanos, os recursos hídricos e a biodiversidade, ou seja de atingir um desenvolvimento sustentável.

Após a apresentação haverá uma sessão de autógrafos do mais recente livro do palestrante: Que Futuro? da colecção Ciência Aberta da Gradiva.

A actividade tem inicio às 21:30 no Centro de Interpretação Ambiental da Ponta do Sal, na Estrada Marginal, em São Pedro do Estoril.

Para mais informações consultar:

www.nuclio.pt/projectos/crescente.html

________________________________________

Gradiva Publicações, Lda.
Rua Almeida e Sousa, nº 21 - r/c esq.
1399-041 LISBOA
Tel: 21 393 37 60 / Fax: 21 395 34 71
E-mail: geral@gradiva.mail.pt / encomendas@gradiva.mail.pt
URL: http://www.gradiva.pt

Para acabar de vez com a história de arte


Informação recebida da galeria:

LEONEL MOURA ARTe
inaugura
Quinta-feira, 17 de Janeiro, 21.00 horas
Rua das Janelas Verdes, 76 - Lisboa

Para Acabar de Vez com a História de Arte

A exposição apresenta uma série de trabalhos realizados por vários
robots tendo como base obras de conhecidos artistas
[Warhol, Rauschenberg, Frida Kahlo, Van Gogh, Kandinsky,
Leonardo da Vinci, Amadeo de Souza Cardoso, Picasso ...]
Neste processo os robots "interpretam" as obras, em particular o seu colorido,
refazendo as mesmas
http://www.lxxl.pt/actual.html (imagens de algumas obras em exposição)


Robots em acção
Na inauguração e nos Sábados 19 e 26 de Janeiro os robots realizarão algumas pinturas

Galeria
LEONEL MOURA ARTe
Rua das Janelas Verdes, 76 - Lisboa
T: +351 213967261
Terça a Sábado das 13.00 às 19.30 horas
galeria@leonelmoura.com

Sites
http://www.leonelmoura.com/ (inglês/english)
http://www.lxxl.pt/ (português)
http://www.lxxl.pt/arquivo.html (Arquivo arte do século XX)
http://arte2.wordpress.com/ (Blog, português)

IMAGINAÇÃO, ARTE E CIÊNCIA


No início de Março vai haver a Semana Cultural da Universidade de Coimbra, este abno dedicada ao tema "Imaginação". A revista estudantil "Via Latina", de grande tradição, fará um número temático. Eis, em pré-publicação, o meu contributo, chamando a atenção para uma revista que merecia ser mais conhecida.

Associa-se normalmente a imaginação à arte e o conhecimento à ciência. No entanto, a imaginação é essencial também para a ciência. Sem imaginação não há, evidentemente, a mínima possibilidade de ciência. A um dos maiores cientistas, o físico suíço e norte-americano de origem alemã Albert Einstein, alguém perguntou um dia o que era mais importante, a imaginação ou o conhecimento. Ele não teve dúvidas em dar a primazia à imaginação: "A imaginação é mais importante do que o conhecimento. O conhecimento é limitado. A imaginação dá a volta ao mundo." Noutra ocasião, repetiu essa sua escolha de modo a não deixar margem para dúvidas, dizendo o mesmo por outras palavras: “O conhecimento permite-nos ir de A para B, mas a imaginação permite-nos ir a qualquer lado”. Noutra altura disse mais em defesa da imaginação: “Quando me examino a mim mesmo e aos meus métodos de pensamento, chego quase à conclusão de que o dom da imaginação teve para mim maior significado do que o talento para absorver conhecimento absoluto.” (As citações são de “The New Quotable Einstein”, colecção e edição de Alice Calaprice, prefácio de Freeman Dyson, Princeton University Press, 2005).

A imaginação permite-nos, de facto, não só dar a volta ao mundo, mas ir a qualquer lado, mesmo fora do mundo que conhecemos. É a imaginação que permite à mente viajar a todos os lugares com a maior liberdade. Livremente! É isso que faz o artista, seja qual for o campo da sua expressão artística: ele não só descreve o mundo em que vive como constrói mundos, ao dar forma externa aos seus mundos interiores.

Por que é que, em geral, se pensa que a imaginação é avessa à ciência? Porque a missão do cientista é a descoberta do mundo em que vivemos, um mundo que é afinal único e que pode ser contrastado com os muitos mundos criados pela imaginação. De entre todos os mundos possíveis, vivemos num só. Acontece que é preciso uma imaginação extraordinária para concretizar o empreendimento científico. Para saber como é o nosso mundo, é preciso primeiro adivinhar como é. Quer dizer, é preciso primeiro imaginá-lo. Depois o veredicto da observação ou da experiência valida ou não o voo mais ou menos temerário que, de início, a imaginação teve de fazer. Pode-se ir de A para B ou C ou para outro sítio, conforme o salto da nossa imaginação. Mas acabamos por ir para E, porque a observação ou a experiência assim o determina. Porque o nosso mundo assim o quer. Uma conclusão matemática nem sempre é a conclusão física, embora a conclusão física seja sempre uma conclusão matemática (o mundo segue regras lógicas, que se exprimem de uma forma matemática). Há quem não considere a matemática uma ciência porque o matemático tem uma imaginação muito menos limitada do que a do cientista experimental. De certo modo a imaginação dele assemelha-se mais à do artista. Mas um físico tem ainda de ter imaginação e de se deixar levar por ela. Conforme declarou Einstein, cuja paixão pelo violino é bem conhecida: “Eu sou suficientemente artista para me deixar levar pela imaginação”.

A arte é, tal como a ciência, uma actividade humana que requer criatividade. A grande arte requer uma grande criatividade, o mesmo acontecendo com a grande ciência. É interessante que os grandes períodos da criatividade humana, nomeadamente “o século de oiro” da Grécia Antiga, o Renascimento europeu e o início do século XX ainda na Europa, se tenham distinguido pela ocorrência de grandes progressos, tanto na arte como na ciência, em processos paralelos. Por exemplo, a teoria da relatividade, de Albert Einstein, um dos pontos de partida da física moderna, e as “Les Demoiselles d’Avignon”, de Pablo Picasso, o quadro considerado ponto de partida do cubismo, foram criações praticamente contemporâneas, a primeira de 1905 e a segunda de 1907, tendo havido já tentativas de lhes encontrar convergências. Elas convergem, por exemplo, no sentido em que divergem de conceitos estabelecidos. Arte e ciência, embora diferentes (a primeira ligado ao subjectivo e a segunda ao objectivo), têm mais em comum do que normalmente se pensa: O processo de descoberta científico é normalmente favorecido quando se segue um critério estético. De uma maneira resumida mas sugestiva, pode dizer-se que “se é bonito, então deve ser verdadeiro”. Ou, pensando pela negativa como muitos fazem: “se é feio, então deve ser mentira”. Vários físicos aplicaram com sucesso um critério deste tipo, apesar de não ser fácil definir o “bonito” ou o “feio”. Mas, como já alguém disse, o belo reconhece-se com facilidade se não houver necessidade de o parametrizar. Quem tentar quantificar o belo para melhor o reconhecer arriscar-se-á a perder uma boa parte dele. O belo escapa sempre de um ou de outro modo a uma medida rigorosa.

Poder-se-á pensar que a imaginação científica, confinada como está pela observação e pela experiência, é menos criativa do que a imaginação artística, como a imaginação do escritor, do músico ou do artista plástico. Mas não é assim. O nosso mundo é suficientemente complexo para ter desafiado e para continuar a desafiar a nossa imaginação. É possível conhecer, como mostra à saciedade não só toda a história da ciência mas também o nosso actual modo de vida, e o processo que conduz ao conhecimento exige uma dose imensa de imaginação. A formulação de uma hipótese científica não é, em geral, trivial. Está longe de o ser. Exige, ao mesmo tempo, um grande conhecimento e uma grande imaginação. O conhecimento nada pode sem a imaginação e a imaginação nada pode sem o conhecimento. E é por isso que não é fácil ser cientista. O físico norte-americano Richard Feynman resumiu esse facto quando afirmou no seu livro “O que é uma Lei Física” (Gradiva, 1989) que na ciência a imaginação tem de estar contida dentro de uma camisa de forças. Quis com isso dizer que imaginar o que a realidade possa ser a partir daquilo que é (a tal camisa de forças) é bem mais difícil do que imaginar livremente. Pode até acontecer que um esforço de imaginação conduza a F, quando a resposta certa, que requer um esforço ainda maior de imaginação, é E.

O novo conhecimento científico tem sempre de ser compatível com o velho. Por exemplo, podemos não saber muito sobre a matéria e sobre a vida, mas sabemos que a matéria é feita de átomos e que os seres vivos são feitos de células. Qualquer coisa que se venha a saber sobre a matéria ou sobre a vida tem de respeitar esse conhecimento prévio e básico. O conhecimento vai sendo adquirido, mas só é adquirido o que não prejudica o que já foi adquirido, ou melhor, que não prejudica muito porque terá sempre de prejudicar alguma coisa. Neste sentido a ciência é conservadora. Tem de ser, ao mesmo tempo, inovadora e conservadora. Não pode nem inovar demais, nem conservar demais, tendo constantemente de procurar um justo meio-termo.

Feynman, ele próprio um artista plástico na fase final da sua vida, enfatizou a dificuldade da imaginação na actividade científica no seu livro “O Significado de Tudo” (Gradiva, 2001): “É surpreendente que as pessoas suponham que não há imaginação em ciência. É um tipo de imaginação muito interessante, diferente da do artista. A grande dificuldade reside em tentar imaginar algo que nunca se viu, que seja consistente em todos os pormenores com o que já se observou e ao mesmo tempo que seja diferente do que até aí se pensava; mais, terá de ser uma afirmação bem definida, e não apenas uma proposição vaga. É, na verdade, difícil.” Será difícil, mas é precisamente a dificuldade da imaginação no trabalho científico que confere um valor acrescido tanto a essa imaginação como a esse trabalho.

Em resumo: É fácil para toda a gente perceber o papel que a imaginação desempenha na arte. O valor da arte é, em grande medida, o valor da imaginação. Mas é percebido por menos gente que a imaginação também é um ingrediente da ciência, ainda que de forma um pouco diferente. Se mais pessoas soubessem que a imaginação é comum à arte e à ciência e que na ciência ainda é preciso uma grande imaginação, talvez a ciência gozasse de um maior reconhecimento.

Primeiras leituras

Tal como podemos compreender algo da física ou da astronomia ou da biologia lendo alguns bons livros de divulgação científica, podemos fazer o mesmo com alguns bons livros introdutórios de filosofia. Eis uma pequena selecção de boas obras introdutórias e de divulgação, disponíveis em português. Começo com livros que abordam várias disciplinas da filosofia:

Pense, de Simon Blackburn (Gradiva)
Como Se Faz Um Filósofo, de Colin McGinn (Bizâncio)
Aprender com as Coisas, de Stéphane Ferret (Asa)
Sabedoria sem Respostas, de Daniel Kolak e Raymond Martin (Temas e Debates)
Que Quer Dizer Tudo Isto?, de Thomas Nagel (Gradiva)

Qualquer um destes livros oferece uma boa visão de diferentes disciplinas da filosofia. Relativamente a disciplinas particulares da filosofia, destaco estes livros introdutórios:

Metafísica:
Teorias da Verdade, de Richard L. Kirkham (Unisinos)

Filosofia da ciência:
Uma Introdução Histórica à Filosofia da Ciência, de John Losee (Terramar)

Lógica:
Lógica, de Graham Priest (Temas e Debates)
Lógica, de W. H. Newton-Smith (Gradiva)

Filosofia da mente:
Tipos de Mentes, de Daniel C. Dennett (Temas e Debates)
Mente, Cérebro e Ciência, de John R. Searle (Edições 70)
Filosofia da Mente, de John Heil (Piaget)

Ética:
Elementos de Filosofia Moral, de James Rachels (Gradiva)
Ética Prática, de Peter Singer (Gradiva)

Filosofia política:
Introdução à Filosofia Política, de Jo Wolff (Gradiva)

Filosofia da religião:
Será Que Deus Existe?, de Richard Swinburne (Gradiva)

Estética:
O Que é a Arte?, de Nigel Warburton (Bizâncio)
Introdução à Estética, de Dabney Townsend (Edições 70)

Finalmente, História Concisa da Filosofia Ocidental, de Anthony Kenny (Temas e Debates), Dicionário de Filosofia, de Simon Blackburn (Gradiva) e Dicionário de Filosofia de Cambridge, org. por Robert Audi (Paulus) são obras de consulta recomendáveis.

Boas leituras!

Evolução no Colbert Report



Em Abril de 2006, os grupos de investigação de Edward Daeschler da Academy of Natural Sciences em Filadélfia, Farish Jenkins de Harvard e Neil H. Shubin da Universidade de Chicago descreveram em dois artigos na Nature a sua descoberta do fóssil de uma espécie (quasi) tetrápode, a que chamaram Tiktaalik roseae. O fóssil com 375 milhões de anos que tem o nome Inuit para um peixe de águas pouco profundas foi encontrado nos sedimentos do leito de um rio no Ártico canadiano, a cerca de 1000 km do Pólo Norte.

O Tiktaalik apresenta escamas ósseas e barbatanas mas permite apreciar a evolução do esqueleto apendicular. As barbatanas peitorais apresentam características quasi de membros; o esqueleto interno exibe a estrutura de um braço, incluindo ombro, cotovelo e pulso em que a parte terminal deste membro - o autopodium - ainda não existe com o plano básico de um tetrápode típico,isto é, não existem ainda os meta elementos, os metacarpos e respectivas falanges.

Na altura os criacionistas americanos tiveram alguns problemas em digerir o Tikataalik rosae. O templo do ID, o Discovery Institute, clamou não constituir o fóssil uma ameaça para as suas pretensões neocriacionistas uma vez que para serem espécies intermédias entre peixes e tetrápodes teriam de ter exactamente 50% das características de cada, peixe e tetrápode :

«Estes peixes não são espécies intermédias, explicaram os cientistas do Discovery Institute que questionei sobre a descoberta. Não são intermédios no sentido que são meio peixe/meio tetrápode. Pelo contrário, estes peixes têm algumas características de tetrápodes».

Neil Shubin foi o convidado do Colbert Report de 15 de Janeiro, dia em que foi lançado o livro de Shubin «Your Inner Fish: A Journey Into the 3.5-Billion-Year History of the Human Body» (disponível no final do mês na Amazon britânica). Não deixa de ser irónico que actualmente nas televisões norte-americanas os momentos mais sérios de ciência aconteçam na Central da Comédia!

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Ciência e religião em Roma

Imagens da Universidade de Roma La sapienza.

O reitor da Universidade de Roma La Sapienza decidiu convidar Bento XVI para proferir um discurso na abertura do ano académico nesta universidade, que terá lugar amanhã, 17 de Janeiro. O professor emérito de Física Marcello Cini considerou inaceitável esta mistura incongruente de ciência e religião e declarou-se ultrajado numa carta dirigida ao reitor em que lhe explicava, entre outras coisas, a tradição de mais de sete séculos de laicidade e autonomia da escola.

A esta carta seguiu-se outra assinada por 67 docentes - e subscrita por mais de 600 docentes como explicou o físico Andrea Frova - entre eles o recém nomeado presidente do Consiglio nazionale delle ricerche (Cnr), Luciano Maiani, em que pediam:

«Em nome da laicidade da ciência e da cultura e em respeito da nossa instituição aberta a professores e estudantes de todas as religiões e ideologias, esperamos que este evento incongruente possa ainda ser cancelado».

Para além das razões invocadas por Marcello Cini, os docentes recordavam um discurso em Parma de Ratzinger, em 15 de Março de 1990, em que este parafraseou Feyerabend: «Na altura de Galileu, a Igreja mostrou ser mais fiel à razão que o próprio Galileu. O julgamento contra Galileu foi razoável e justo». Palavras que os signatários consideraram que «como cientistas fiéis à razão e como professores que dedicaram as suas vidas ao avanço e difusão do conhecimento, ofendem-nos e humilham-nos».

Os estudantes de Física da Sapienza iniciaram por sua vez uma semana anti-clerical em protesto pelo evento e aparentemente foram seguidos pelos restantes discentes da escola. Estavam já marcados uma série de eventos coincidentes com a visita que incluíam um concerto rock (Bento XVI considera a música rock «expressão de paixões elementares que, nos grandes concertos musicais, assumiu carácter de culto, ou melhor de contra-culto que se opõe ao culto cristão»), um desfile gay contra a homofobia do Papa e uma Lectio Magistralis «em defesa da ciência contra o obscurantismo católico».

Ontem cerca de 100 estudantes ocuparam a sala de reuniões do Senado da escola em protesto contra uma decisão da reitoria de cercar com um cordão policial o edíficio onde o evento teria lugar para impedir as manifestações de protesto dos estudantes. Os estudantes abandonaram a sala depois de o reitor lhes ter prometido um lugar para essas manifestações.

Pouco depois, o Vaticano anunciou que a visita de Bento XVI à La Sapienza fora cancelada.

UMA CONSULTA PÚBLICA QUE INCLUI A OCDE

    Cumpre-se a formalidade: está em consulta pública um conjunto de documentos designados por  Orientações para a utilização responsável da...