domingo, 14 de julho de 2019

25 de Abril, Corte e Costura


Meu texto de recensão no mais recente "As Artes entre as Letras":


O autor, João Cerqueira, nascido em 1964 em Viana do Castelo é uma espécie de “enfant terrible” das letras portuguesas: o “sistema” não repara nele. Não vem da literatura, mas sim das artes visuais, pois é mestre e doutorado em História da Arte pela Universidade do Porto. Escreveu na sua área de especialidade livros como “Arte e Literatura na Guerra Civil de Espanha” (publicado entre nós pela Prefácio em 2004 e também no Brasil) e “José de Guimarães: Arte Pública” (catálogo publicado pela Fundação Fernão de Magalhães, 2010). Como obras de ficção escreveu “A Culpa é destas Liberdades” (Pena Perfeita, 2007), “A Tragédia de Fidel Castro ( publicado na Saída de Emergência, 2008;  foi publicado em tradução inglesa nos Estados Unidos), “Reflexões do Diabo (Saída de Emergência, 2010) e “A Segunda Vinda de Cristo à Terra” (saído na Estação Imaginária, 2015). Nessas obras o humor e a  ironia  são recursos literários  para desnudar o mundo em que vivemos: por exemplo, no último romance atrás referido Jesus Cristo vem de  novo à Terra, precisamente em Portugal, encontrando uma Maria Madalena que é activista ambiental…  João Cerqueira é autor também de vários contos, muitos deles publicados no estrangeiro. Sendo largamente ignorado em Portugal, tem sido reconhecido no estrangeiro. A tradução “The Tragedy of Fidel Castro” ganhou o USA Best Book Awards 2013, o Beverly Hills Book Awards 2014, o Global Ebook Awards 2014, foi finalista do Montaigne Medal 2014 (Eric Offer Awards), e foi considerado pela revista “ForewordReviews” a terceira melhor tradução publicada nos EUA em 2012.

 A sua última obra, “25 de Abril, Corte e Costura” (um título original que chama desde logo a atenção), foi publicada em março passado pela Ideia-Fixa, um imprint da editora Alêtheia. Com uma escrita leve e divertida, o livro inscreve-se na mesma linha satírica dos anteriores, integrando-se num género que sempre teve cultivadores entre nós, desde as cantigas de escárnio e mal dizer e Gil Vicente no século XVI até Mário de Carvalho no nosso tempo passando no século XIX por Ramalho Ortigão e Fialho de Almeida e no século XX por Mário Henrique Leiria e Luiz Pacheco. Trata-se de ridicularizar a vida política portuguesa,  imaginando uma cidade portuguesa- com o nome de Augusta -  onde os partidos da direita e esquerda se digladiam.

O enredo é simples, embora a acção por vezes se complique. Para celebrar os 40 anos do 25 de Abril, portanto em 2014, o presidente da Câmara, de seu nome Jaime Fagundes,  um político que pugna  pela “democracia do futuro” (um lugar comum que evoca os lugares comuns que pululam na política, tanto nacional como local),  quer organizar comemorações grandiosas. Mas, na vereação, direita e esquerda não se entendem: a direita quer organizar uma exposição sobre a história gloriosa da pátria, um quadro vivo das Aparições de Fátima e uma tourada. Por seu lado, a esquerda quer fazer um teatro de rua sob o tema "Da escravatura ao neoliberalismo" e uma parada homossexual. A  direita tem por lema o “Abril desinfectado”, ao passo que a  esquerda assume como divisa “Abril no coração.” É óbvio que a preocupação maior de cada sector político não é tanto a defesa das suas próprias ideias, mas  irritar o mais possível os adversários: a tourada irrita solenemente a esquerda enquanto a parada homossexual irrita solenemente a direita. Enquanto os dois grupos preparam o grande dia, surgem em Augusta alguns personagens extravagantes, em geral forasteiros: um artista louco (que só  tira fotografias desfocadas), uma jovem socióloga que vem estudar as comemorações, um guru com o seu pequeno séquito de alienados, um ex-pide que pretende voltar ao tempo da “outra senhora”  e um casal que, vítima da crise, perdeu a casa para o banco e quer-se vingar à bomba do neoliberalismo reinante (antes de deitar a bomba a uma vivenda cogitam para saber se ela será de um neoliberal). Para a tourada, a direita acaba por arranjar um toureiro espanhol de terceira categoria (tinha a vantagem de ser barato, o mais barato que havia), enquanto, para a parada gay e lésbica, a esquerda experimentou alguma dificuldade em arranjar manifestantes. Como o humor é sempre a exploração da surpresa. Não vou aqui introduzir spoilers para saber como tudo vai acabar, apenas digo que o autor se serve do seu conhecimento de arte contemporânea para resolver tudo com uma entropia artística, uma exposição intitulada “Estado Renovo” que acaba desconstruída   

Como é normal quando se recorre à sátira humorística alguns personagens são caricaturas levadas ao extremo. Da mesma maneira que um caricaturista põe enorme o nariz já grande de alguém, o autor, que dá mostras de ser um bom observador, exagera os tiques dos seus personagens. Nas situações caricatas que eles vivem podemos reconhecer as fraquezas, para não dizer as misérias, da nossa vida política, artística e até científica nacional. Não raro me vi a rir destemperadamente com o destempero de algumas situações cómicas. Por exemplo, o casal de bombistas não consegue destruir nada à bomba, pois não passamos de um país de “inconseguimentos” (o vocábulo, que ficou célebre, é de uma política que presidiu à Assembleia da República!). Portugal é um país de “portugueses suaves”, mesmo quando alguns se armam em “durões”. Enchemo-nos de discursos extremos, indignamo-nos por tudo e por nada, mas depois tudo fica em meias-tintas. Andamos todos uns contra os outros, mas depois no fim ficamos todos amigos na mesma. Começa-se com o “corte,” mas depois tudo acaba em “costura”, ainda que seja uma costura mal feita.

Esta é uma prosa narrativa repleta de diálogos e, portanto, próxima da linguagem do dia-a-dia. Lê-se bem de uma ponta à outra, por quem conheça a realidade nacional (julgo que será mais difícil encontrar leitores lá fora, ao contrário da “Tragédia de Fidel Castro”). Obra não convencional no nosso panorama ficcional (lembra-me por vezes a ficção de Manuel João Ramos, embora nesta os aspectos sexuais sejam bem mais empolados) , cumpre o  duplo propósito de simultaneamente de divertir e denunciar a situação política e social do país.  É uma paródia não tanto ao 25 de Abril, que foi a fonte de liberdade de que felizmente gozamos, mas ao país em que nos tornámos, mais de quarenta anos depois da Revolução.


quinta-feira, 11 de julho de 2019

O Vento e a Terra


A força e o simbolismo das imagens cinematográficas estão presentes em dois filmes ímpares: Terra, de Aleksandr Dovzhenko, e O Vento, de Victor Sjöström. 
No filme do realizador ucraniano, depois de o herói (um trabalhador rural) ser assassinado, traiçoeiramente (consideravam-no um revolucionário), o corpo é transportado numa carroça aos solavancos, por entre searas, girassóis e macieiras. Sob um céu nublado, os girassóis, consternados, seguem e reverenciam o cadáver, como se ele próprio fosse o sol ou a verdade, e as vergônteas das macieiras, pesarosas e pendendo carregadas de maçãs, roçam-lhe, desesperadamente, as narinas e os lábios, como que para o vivificar (retornar à terra). É o paraíso a despedir-se do homem a caminho do céu. 




Depois de a mulher receber a notícia da morte do marido, desnuda-se, por completo, no quarto, e, com a brancura do corpo descoberta por um clarão, chora, loucamente, como se pretendesse estar mais próxima dele, tanger-lhe a pele.  
Atualmente, no realizador turco, Nuri Bilge Ceylan, e nos seus filmes, Sonho de Inverno e Era uma Vez na Anatólia, encontro um pouco da arte de Aleksandr Dovzhenko. 
Também no filme do realizador sueco, Victor Sjöström, a imagem é expressiva e arrebatadora. Quando a bela Lillian Gish desce do comboio, depois de atravessar o deserto, um vento indomável ergue-se de supetão. O medo apodera-se dela (da sua vulnerabilidade), e, enquanto os olhos se erguem desconfiados para o céu, segura o chapéu e os cabelos caídos sobre os ombros. Neste filme, o vento simboliza as adversidades do casamento, que só poderão ser superadas pela união.

Se tivesse que escolher os dois filmes que mais me impressionaram, escolheria, decerto, os filmes que referi atrás. Também não me posso esquecer de outros realizadores mais conhecidos: Federico Fellini (Os Inúteis), Jean Vigo (L’Atalante), Jean Renoir (A Regra do Jogo), Eisenstein (Outubro) e François Truffaut (Les Quatre Cents Coups).
Recentemente, diante da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra e sob o frémito de uma árvore frondosa, cujo nome desconheço e gostaria de conhecer, enquanto falava de cinema, com duas senhoras, não me recordei d’a Terra nem d’O Vento. Pois, aqui os deixo.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

A ACTIVIDADE FÍSICA DOS NOSSOS JOVENS

Publicada, hoje, no "Diário as Beiras", a primeira parte deste artigo que, ora, se publica integralmente: 

“A nossa história é a nossa fatalidade”
(Antero de Quental). 

Corriam os primeiros anos da década de 50, do século passado, altura em que um professor do INEF, Quintino da Costa, alertava os respectivos alunos para um facto que pode ser responsabilizado, em parte, pelo gueto em que a actividade física dos nossos escolares tem sido colocada por parte de sucessivos governos: “Enquanto os médicos, em tempos idos, só tiveram como competidores os barbeiros, o professor de Educação Física vê ainda o seu campo ser invadido por contorcionista da lei que, às claras ou na penumbra, logram alcançar um papelucho com o imprimatur do Estado”. 

Infelizmente, esta análise atinge proporções acrescidas numa altura em que a exercitação física se fez moda aproveitada, por vezes, por curiosos que viram nela a forma de aumentarem os seus cabedais ou prestígio social por falta de uma associação de direito público que respeite e defenda o prestígio e a dignidade deste exercício profissional.

Passo a referenciar um artigo do jornal “Público” (21/08/2016), da autoria de Pedro Teixeira , professor da Faculdade de Motricidade Humana e director do Programa Nacional de Promoção da Actividade Física da Direcção-Geral da Saúde (nomeação que saúdo), intitulado “Atividade física: um novo sinal vital de saúde”. Julgo encontrar no artigo supramencionado suporte para a iniciativa da “Escola de Verão – Exercício, Alimentação , Saúde”, que oferece, de 8 a 19 de julho, um programa de atividades com a missão de melhorar os hábitos das 30 crianças [de Coimbra] que participam na iniciativa” (“Diário as Beiras”, 28/06/2019). 

A propósito, queixa-se a nutricionista Ana Carvalhas, não poder ele ser replicado por escassez de nutricionistas nos Centro de Saúde de Coimbra. Facto, tanto ou mais insólito, acontece na inexistência de diplomados universitários na área de Educação Física e Desporto no aconselhamento e posterior seguimento da exercitação física dos respectivos e jovens utentes. Em idos da década de 70 do século passado, mereceu esta temática a minha atenção numa conferência por mim proferida na Sociedade de Estudos de Moçambique , de que eu era presidente da respectiva Secção de Ciências (1973), entidade “Palmas de Ouro” da Academia de Ciências de Lisboa, intitulada “Educação Física: Ciência ao Serviço da Saúde Pública” (publicada no respectivo boletim, vol. 42, n.º 174, Jan./Dez. 1973).

De então para cá, a criançada portuguesa continua vitimada por doenças hipocinéticas, assim havidas por terem como causa a escassa exercitação física provocada pelo enjaulamento em prédios de andares, promotores das muitas horas frente à televisão ampliadas pela “ajuda preciosa” dos computadores que ampliaram, brutalmente, o tempo consumido pelos nossos jovens em atitude viciosa, “quais ostras fixadas ao rochedo” (Jean-Pierre Gasc).

Por outro lado, o nosso múnus social e educativo persiste em libertar-se de um platonismo que via no corpo o túmulo em vida da alma, aprisionado, séculos depois, em garras do dualismo cartesiano, procurando encontrar mais espaço para determinadas disciplinas teóricas “roubando-as” à Educação Física escolar, através, por exemplo, do documento “Matrizes Curriculares dos Ensinos Básico e Secundário” (2012).

Ramalho Ortigão, escritor defensor acérrimo da exercitação física da juventude do seu tempo, chamou a atenção da Câmara dos Pares para um estudo demonstrativo que os exercícios ginásticos são úteis não só ao desenvolvimento físico dos educandos, quando escreve: “Nas escolas inglesas em que se introduziu a ginástica os alunos aprenderam mais e em menos tempo do que naquelas em que a ginástica não existia”.

Sai reforçada esta constatação da velha Albion por um estudo, levado a efeito neste extremo ocidental europeu, sobre a influência da ginástica na melhoria da fadiga intelectual de 36 crianças do ensino primário na realização de provas de ditado.

De uma forma muito resumida, os resultados demonstraram que nos dias em que a prova de ditado era precedida de 15 minutos de ginástica os erros ortográficos dados eram em menor número relativamente aos dias em que a ginástica não era ministrada. Este trabalho, intitulado “Influência do Exercício Físico na Fadiga Intelectual”, foi levado a efeito pelo então director do INEF coadjuvado por uma equipa de docentes formados em Educação Física, tendo obtido o segundo prémio científico da muito prestigiada Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa (1963), atribuído em colaboração com o Laboratório Pfizer, “com o objectivo de contribuir para a dinamização da investigação em Ciências da Saúde em Portugal”.

Com o velho costume nacional de embandeirarmos em arco, as recentes 15 medalhas alcançadas por Portugal no II Jogos Europeus, realizados há dias nas Bielorrussia, não devem fazer esquecer que a escola é o lugar de eleição para a promoção desportiva dos jovens não podendo andar aos caprichos de futuros governos que possam vir a fomentar a possibilidade de se verificar uma involução retornando, a Educação Física escolar a parente pobre do sistema educativo nacional. Situação que que levou o professor de Educação Física José Esteves, antigo bolseiro da Fundação Calouste Guilbenkian, a doutrinar, no seu “best seller”, “O Desporto e as Estruturas Sociais ( 1967), “não trocar a promoção desportiva de uma centena de crianças da nossas escola primárias por uma medalha de ouro olímpica”.

Situação que continua a trasvestir uns tantos escolares actuais em pequenos Ernestinhos, “com membros franzinos, ainda quase tenros, que lhe dão um aspecto débil de colegial”, tão bem caracterizados pelo imortal Eça. Ou seja, conquanto o “Departamento de Saúde e Serviços Humanos”, dos Estados Unidos, tivesse emitido a recomendação de que “60 % dos jovens deviam ter aulas de educação física diariamente, 70 % deviam ser testados periodicamente nos níveis de aptidão física e 90 % deviam participar em actividades físicas apropriadas para a manutenção de um efectivo sistema cardio-respiratório” (1980), três décadas depois (2012), nesta “ocidental praia Lusitana”, foram partejadas, nada nos garantindo não serem ressuscitadas, por outros governantes, as muito contestadas “matrizes curriculares” que mereceram o repúdio veemente de vários professores da Faculdade de Medicina de Coimbra. Séculos passados, bem nos alertou Antero: “A nossa fatalidade é a nossa história”!

É preciso proteger os alunos de Immanuel kant

Reproduzimos abaixo uma parte substancial da nota do editor da revista Ler, Francisco José Viegas, constante no seu último número, saído neste mês. 
É uma nota de grande interesse sobre o "politicamente correcto" ou "censura beneficiente", que se vê consolidado nos sistemas educativos, incluindo as universidades, precisamente o contexto em que nunca deveria ter entrado a não ser como objecto de crítica.

O editor ilustra a sua denúncia com um recente exemplo de advertência sobre Kant e as suas obras, que de resto, já haviam sido objecto de atenção por parte de outros novos censores (ver aqui). É preciso proteger os alunos das ideias do filósofo, explicando-lhe que ele viveu há muito tempo, quando as pessoas eram muito desagradáveis umas para as outras!

Maria Helena Damião e Isaltina Martins
"Será que as pessoas se sentem mais seguras quando não utilizamos certas palavras? Parece que sim: especialmente quando utilizamos as palavras corretas, quando não discutimos certos assuntos e quando se proíbe a evocação de determinados temas. É esse o princípio que preside à criação dos safe places (lugares seguros) em universidades americanas e britânicas. Trata-se de uma espécie de «bolha» imune a ideia contrárias, especialmente a ideias perigosas e, também criminalizadas. 
A bolha dos safe places funciona como um filtro em que nãtram conversas desagradáveis, ideias com que não se concorda, pessoas que achamos detestáveis (...)
Nas universidades, a proibição afecta um grupo numeroso de frequentadores e, no seu conjunto, o espírito e o fundamento da própria universidade. Para quem estudou minimamente a história intelectual da Europa, um dos momentos mais altos foi, sempre, a peregrinação de polémicas de universidade em universidade, de cidade em cidade; escapando aos poderosos, às Igrejas e aos censores, intelectuais e vadios ilustres defendiam (contra a ameaça das fogueiras e da prisão) ideias perigosas, perseguidas, revolucionárias ou conservadoras, temidas, desejadas, enigmáticas ou - até - criminosas. O resultado é a Europa como nós a amamos; e não a Europa submetida a vários regimes de chumbo, como o fascismo, o comunismo ou o nazismo, ou amedrontada e vigiada pela Inquisição, pelas várias políticas do trono e do altar, ou pela sombra da infantilidade, como agora parece ser o caso (...) 
Esta vigilância sobre as opiniões, as palavras e as ideias está a ameaçar a liberdade intelectual - mas também as instituições de ensino. Perseguindo à lupa atropelos racistas, xenófobos, homófobos, atentatórios de igualdade de género ou do veganismo, facilmente se passará (tal é a agressividade da sanha - à criminalização efectiva e à denúncia pública em massa, bem como a uma reconstrução do passado para eliminar todos os crimes, desvios, contracurvas e maldades que é normal o passado registar. Literatura, teoria da história, filosofia, pintura, escultura, artes em geral, «línguas mortas» (o latim e o grego como expressão de violência cultural), rituais - tudo deve ser revisto e, se possível, explicado em novilíngua" (página 2)
(...)
"Tornaram-se moda nos EUA (e também no reino Unido) os chamados safe places, uma espécie de «bolha» criada para não importunar as meninas e os meninos das universidades com ideias e linguagem que não apreciam: nestes espaços (...) as boas almas que o sistema educativo está a preparar em laboratório não serão atingidas por linguagem racista, transfóbica, homofóbica, colonialista, machista ou considerada inimiga da igualdade de género - nem por violência, assédio, discussões, ideias que não partilham, pessoas de que não gostam especialmente e, enfim, os outros, o inferno. Isto estaria bem se não fosse um modo de, por extensão, as próprias universidades tenderem a transformar-se em safe places de onde são excluídos todos os que a bolha considera estranhos aos seus ideais de bondade, sentido da História e moralidade. 
Em Edimburgo, por exemplo, a associação de estudantes declarou todo o espaço da universidade um safe place, proibindo inclusive aplausos durante os debates e sessões ou discursos - uma vez que os aplausos podem ser considerados ofensivos para os surdos ou pessoas com outro género de distúrbios físicos ou emocionais, além de serem humilhantes para quem não é aplaudido.
Quem não é aplaudido é o Sr. Immanuel Kant, que teve a infelicidade de ter vivido entre os anos 1724 e 1804, o que o inabilita para compreender ideias básicas sobre tolerância, respeito pela identidade dos seus semelhantes ou até veganismo e talvez podolatria. 

Um amigo mostrou-me o frontispício de uma edição americana das obras de Kant (que inclui a Crítica da Razão Puraa Crítica da Razão Prática a Crítica da Faculdade do Juízo) onde se lê este benevolente aviso: 

que este livro, note-se, é «um produto do seu tempo» e não refletiria os mesmos valores se fosse escrito hoje; além disso, os pais também devem esclarecer os seus filhos sobre as opiniões do filósofo sobre «raça, género, sexualidade, etnicidade e relações interpessoais» (...)" (página 12)

domingo, 7 de julho de 2019

CENSO E RACISMO

Artigo de Guilherme Valente no Observador:

As discriminações não se combatem levando as pessoas a auto-discriminarem-se.  Não quero reservas ‘índias’ na minha terra!

NUM TEXTO recente no Observador, critiquei a defesa feita por Alexandre  Homem Cristo da inserção no Censo de 2021 de perguntas sobre as origens étnicas ou ‘raciais’ da população portuguesa.  

Segundo ele, no próximo Censo, o INE deveria incluir no questionário perguntas aos inquiridos sobre as suas origens étnicas ou ‘raciais’.

Seguramente bem-intencionado, AHC terá caído em logro idêntico àquele em que terão incorrido alguns dos académicos subscritores de uma ‘Carta Aberta’ de oposição a um Museu dos Descobrimentos, há uns meses divulgada. Na verdade, está tudo ligado.

Na minha crítica à posição de AHC, procurei mostrar não apenas a impraticabilidade científica de tal inquérito mas a sua perversidade. O argumento de que as respostas a essas perguntas permitiriam ao Estado enfrentar as discriminações ronda o inimaginável.

A INTENÇÃO da  iniciativa de tal Censo – fingindo ser, digamos, técnica e politicamente neutra –  é flagrantemente política e ideológica.

Intenção em que convergem, como se vem manifestando  noutros registos pela Europa, os extremos do espectro político. Numa crónica recente no Público (1 de Julho), António Barreto sugere esta mesma possibilidade, ilustrando cabalmente o absurdo científico de tal inquérito (1) e referindo expressivamente o efeito potenciador de racismo e de discriminação que teria.

Num comentário urbano a esse meu artigo no Observador, um leitor lembrou-me que as respostas ao questionário seriam anónimas. Tentei explicar-lhe que esse facto não impediria o efeito perverso das perguntas, mas antes o potenciaria, pois as interrogações que se nos colocam na solidão da nossa consciência tocam-nos mais profunda e estigmatizadoramente do que as interpelações públicas.

CONSIDERO MESMO que, num acme de perversidade, o objectivo de tal Censo seria gerar a auto discriminação. Manter num gueto também interiorizado de miséria e inferioridade a gente étnica, cultural, económica e socialmente fragilizada -- da qual o activismo  dito anti-racista e os grupos políticos que o apoiam se servem como carne para canhão para desígnios sinistros.

A discriminação não se combate levando as pessoas a discriminarem-se a elas próprias, a interiorizarem uma sua suposta inferioridade. Abominável, tal  Censo seria mais uma etapa num processo que conduziria em última  instância a uma regressão civilizacional. O mesmo objectivo, afinal, da tentativa de chantagem com o passado histórico de Portugal – obra humana, por isso imperfeita, admirável e gloriosa. 

E TAL COMO A. Barreto sugeriu, também eu penso que o ‘problema’ não são os indianos, nem os judeus – estes até (inconfessadamente) achados superiores, e por isso invejados e perseguidos  entre nós no passado –, nem os chineses.

Chineses cuja civilização deslumbrou a Europa e cuja riqueza voltamos a invejar – como a minha geração invejou a da América. Chineses  que, pelo que sempre foram milenarmente, são indiferentes ao que pensamos deles (‘viver e deixar viver’).

O problema nem são mesmo os ciganos – afinal, em muito, um ‘problema’ civil, administrativo, do sistema educativo e de acção social, de coragem política firme na vontade de os integrar. 

O ‘problema’ são... os negros. Esses ‘eternos’ deserdados do planeta, ‘eternos’ estigmatizados e inferiorizados do mundo.  Bodes expiatórios, alvo perfeito para a projecção das pulsões mais odiosas recalcadas nos recônditos reptilianos do ser humano.

O problema é o racismo branco e o racismo negro, os extremos políticos ressentidos,  aliados oportunistas do racismo negro muçulmano, do radicalismo islâmico, como é mais visível na França. Pensando que por aí virá a concretização da profecia, afinal abominável, de Marx.  

O QUE QUEREM impor é um mundo de apartheid, de guetos, tribal, de todos contra todos. O que os afronta e detém são os valores iluministas e solidários, o humanismo e o universalismo, o melhor do espírito europeu. O seu alvo mais do que evidente é o Estado meritocrático. 

Não é numa sociedade assim que quero viver!  Há pessoas com quem gosto de conviver, outras que não me dizem nada e algumas que evito mesmo. Pessoas de todas as cores, que nem vejo a cor delas. Não abdicarei do convívio fraternal de muitos amigos negros, ‘brancos’, deste ou daquele partido (que não me queira impor a sua ideologia). Sou cristão e europeu. Não quero ver reservas na minha terra.

(1) Acrescento ainda: na sucessão das gerações, no ‘jogo dos possíveis genético’ (F. Jacob), em que momento alguém passará a ser, a responder, ‘branco’ ou ‘negro’? No meu caso, por exemplo, em que momentos ‘eu’ deixei  de ser viking para passar a ser celta-ibero, lusitano, semita, berbere (umas pitadas, que nasci a  Norte do Tejo), ‘branco’, enfim?  Tão estúpido quanto sinistro tal Censo!

Guilherme Valente (editor)

sexta-feira, 5 de julho de 2019

FRONTEIRAS



A vida é um diálogo entre fronteiras!

A vida no planeta Terra só terá surgido quando se formou uma fronteira, constituída por uma membrana de natureza lipídica primordial, que separou, de forma mais ou menos permeável e selectiva, um espaço interior e o meio exterior envolvente. 

Passados talvez um pouco mais de 3,5 mil milhões de anos, a funcionalidade bioquímica dessa membrana, dessa fronteira que permite diálogos entre o interior celular e o espaço extracelular, continua a ser decisiva para a viabilidade da vida. É através dela que entram e saem substâncias, tanto nutrientes como a glicose, como “comunicadores” como as hormonas e neurotransmissores, por exemplo. Nas células do sistema nervoso, nos neurónios, é através da fronteira membranar dos seus axónios que os impulsos nervosos se propagam permitindo, por exemplo, o pensamento. É na fronteira que o sonho explora a existência!

Num nível fisiológico seguinte encontram-se os órgãos. Estes são formados por tipos específicos de células, que os definem e caracterizam. A fronteira dos órgãos é essencial para a sua função bem definida, para a sua integridade, forma, suporte, etc. E essa fronteira também é funcional constituindo, em alguns casos, como seja o cérebro (com a fronteira hematoencefálica), uma barreira protectiva contra a entrada de potenciais substâncias nocivas. E é através das suas fronteiras que os órgãos interagem homeostaticamente com o restante organismo de que fazem parte.

No nosso caso, assim como em muitos outros seres vivos, o nosso corpo possui uma fronteira cuja integridade e perfeita funcionalidade é essencial para a nossa vida: a pele. Barreira protectora, por exemplo, contra microorganismos. Fronteira que também permite a excreção de substâncias através do suor, que nos protege das radiações solares e outros agentes nocivos, mas que também participa activamente no controle da temperatura corporal. É uma fronteira que permite e potencia o tacto, esse sentido tão importante para a humanidade com sentido.

Poderíamos discorrer sem fim sobre as fronteiras geofísicas e/ou administrativas que delimitam as freguesias, os concelhos, os distritos, os países, os continentes, os mares. Essas fronteiras delimitam espaços distintos e elas próprias estão repletas de conteúdos históricos, culturais, políticos, científicos e tecnológicos. 

Mas pensemos no planeta Terra como um todo e na importância para a vida dessa fronteira feita de atmosfera. Sem ela, a vida não seria possível tal qual a conhecemos. E a própria dinâmica geológica seria diferente na ausência da atmosfera. O invólucro maioritariamente gasoso que caracteriza essa fronteira condicionou a evolução da vida na Terra, permitindo-a, ao impedir que a maioria das radiações a ela nocivas, como sejam as radiações ultravioleta e os raios cósmicos, atinjam a superfície terrestre. Essa fronteira também está envolvida na dinâmica do ciclo da água, substância ubíqua à vida, e na regulação da temperatura da superfície do planeta. A sua história dinâmica alberga as preocupantes alterações climáticas e o seu impacto decisivo para a vida. É a fronteira que nos separa do nosso sentido cósmico.

E uma última fronteira, a heliopausa, que delimita o sistema solar, que separa a heliosfera (a região imensa de espaço sob a influência do vento solar) do resto do universo. Foi atravessada há alguns anos pelas sondas Voyager que continuam as suas viagens cósmicas em direcção a outras estrelas, outros mundos, repletos de fronteiras a explorar.

Por fim uma questão cosmológica, a de se o universo em que existimos, e que está em expansão acelerada, terá uma fronteira. Se esta existe, o que é que existirá para além dela?

António Piedade
Crónica primeiramente publicada na imprensa regional.

Ensino e sedução — Notas de leitura

O filósofo francês Gilles Lipovetsky, no seu mais recente ensaio publicado em Portugal, Agradar e Tocar — Ensaio sobre a Sociedade da Sedução, 2019, Lisboa, Edições 70, apresenta-nos mais uma extraordinária análise da sociedade contemporânea.

Neste ensaio, Lipovetsky analisa o poder da sedução, nos mais diferentes domínios, a sua presença ao longo da história da humanidade, mostrando que “agradar e tocar” é um princípio que se aplica a tudo e a todos:
“aplica-se aos homens, às mulheres, aos consumidores, bem como aos políticos e até aos pais; é “a lei e os profetas” dos tempos hipermodernos”, alertando para os perigos que daí advêm, pois “a sociedade da sedução, tal como hoje funciona, não é um modelo sustentável nem um futuro desejável”, lembrando que é preciso “uma sociedade da sedução de alguma forma aumentada ou enriquecida, que, dando todas as oportunidades à cultura, ao saber, à criatividade, proponha às gerações futuras atrações diferentes das do cosmos comercial.” (in Introdução)
No capítulo dedicado à sedução na educação, o filósofo analisa as várias “modas” em matéria de educação e ensino, desde a atitude dos pais perante os filhos às pedagogias nos estabelecimentos escolares. Fazendo uma análise do ensino ao longo do século XX, debruça-se sobre as correntes da Escola Nova e o seu ideal de espontaneidade da criança, que deve aprender por si, ao seu ritmo, segundo as suas apetências, sempre de forma lúdica e atractiva. Dando toda a liberdade à criança na construção do seu saber, nada impondo, a nada obrigando, numa inteira liberdade de escolha, estas pedagogias contribuíram para o fracasso na aquisição de conhecimentos e foram alvo das mais violentas críticas, principalmente por parte daqueles que defendiam o regresso à escola “tradicional”:
“O fracasso das pedagogias modernas... é flagrante, pois não permitem nem a aquisição de competências escolares elementares nem a redução das desigualdades sociais e da influência do meio de origem sobre os alunos.” p. 347
Acrescentado o autor:
“Fomos demasiado longe na eliminação dos métodos tradicionais de transmissão que são necessários para a aprendizagem da leitura e da escrita, para adquirir os mecanismos necessários ao bom exercício do pensamento. No entanto, isto não significa os apelos ao regresso da escola de outrora.” p. 347-348
Não é preciso regressar à escola de antigamente, mas saber conciliar os dois modelos, não rejeitar o que de bom existia, mas adaptar. A educação pela sedução, na ideia de que tudo tem de ser fácil e atractivo, de que a aprendizagem tem de ser feita a um ritmo agradável, eliminando todos os exercícios enfadonhos que afastam a criança do gosto de ir à escola, só conduz a maiores desigualdades sociais e a um desfasamento entre a escola e a sociedade:
“A aquisição dos saberes abstratos e cultivados exige necessariamente esforços perseverantes, disciplina intelectual, repetição, exercícios geralmente fastidiosos. Mas nem tudo deve ser lúdico e atrativo: o trabalho difícil, metódico e organizado dos alunos é necessário para transmitir o património dos saberes e desenvolver as capacidades de inteleção de todos.” p. 349
Depois das críticas a estas pedagogias da Escola Nova, outras “modernidades” surgiram, nos tempos mais actuais:
 “ uma nova magia apoderou-se da época: a do complexo digital-educativo.”
Assistimos agora ao deslumbramento pelas tecnologias, apresentadas como uma solução maravilhosa para todos os problemas do ensino, como uma nova “máquina” de sedução que dará a todos as mesmas oportunidades, que irá cativar os alunos para o gosto de aprender, que tornará a escola um local “apetecível” onde crianças e jovens gostam de estar, onde se sentem felizes. E assim:
“Ao peso da aquisição tradicional dos saberes, sucede uma aprendizagem “informal”, fragmentada e descontínua, que permite menos submissão ao discurso do mestre, mais interatividade e autonomia dos alunos que se tornam assim “agentes das suas próprias aprendizagens”. É a utopia da “sociedade descolarizada” já imaginada por Ivan  Illich, revitalizada, reerguida, possibilitada pelos milagres da informação em rede.” p. 351
Mais uma vez o autor alerta para os perigos deste exagero:
 “... não podemos abandonar a escola clássica, a única capaz de fornecer os conhecimentos básicos para saber ler, escrever, contar, exprimir-se corretamente, argumentar, expor com correção e rigor as ideias. Não enterremos demasiado depressa as práticas metódicas de aprendizagem, que, baseadas na repetição, na memorização, na transmissão das referências fundamentais, são tão indispensáveis como o eram no passado. A liberdade do espírito e a formação das mentes “bem feitas” exigem a perpetuação de alguns métodos clássicos “estritos”, mais necessários que nunca numa época de excrescência dos dados e de dispersão ”googlizada”. É ilusório pensar que as navegações na Internet estão à altura desta exigência e que são capazes de assegurar a aprendizagem do rigor intelectual, bem como o domínio das normas da expressão oral e escrita.” p. 354
Em tudo podemos ver como o excesso é prejudicial. Cortar de vez com o passado, na ideia de que tudo estava mal e que queremos, no presente, apresentar ideias novas, mais consentâneas com a actualidade, só pode gerar novas discrepâncias, fazer das novas gerações “cobaias” de experiências que nunca são avaliadas para delas se separar o melhor do pior.

Na educação, como em tudo, é preciso prudência na introdução de novos paradigmas, é preciso explicitar o que queremos e não “alinhar” em modas que, como a própria palavra indica, são passageiras. Essencialmente, é necessário aplicar aquela máxima dos sábios gregos μηδὲν ἄγαν, quer dizer “nada em excesso”, princípio que, aqui, é extremamente importante.

"Rasura da memória e democracia". A importância do ensino da História

As disciplinas de humanidades desaparecem do currículo escolar: primeiro foram as Línguas Clássicas, agora é a História, mas outras estão em perigo, como em perigo estão as componentes humanísticas das Ciências, isto para não falar das Artes. Falamos de uma realidade que transcende em muito a portuguesa; a sua tendência é, lamentavelmente, global. Não é uma tendência nova, é certo, mas é nosso dever prestar-lhe atenção e procurar compreender a sua configuração no presente.

A História constitui o mote deste apontamento, decorrente de um artigo saído ontem no jornal Público com o título Rasura da memória e democracia, assinado por Rui Bebianoprofessor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos Sociais da mesma universidade.

O autor não se refere directamente ao ensino, mas das suas palavras podemos retirar importantes ilações para o currículo oficial e para o seu desenvolvimento no campo escolar. Os destaques são nossos e remetem para a nossa leitura, como professoras, além disso acrescentámos, ao título, um sub-título que sublinha essa leitura.

Maria Helena Damião e Isaltina Martins

"Vivemos uma inquietante vaga de rasura da memória projetada a partir do apagamento, da reescrita e da trivialização de episódios da história. Uma parte produzida de forma consciente, com objetivos políticos precisos, resultando a outra apenas da leviandade, da indiferença ou da ignorância. Por isso, o vínculo entre história e memória está na ordem do dia, seja para quem aproxima estas duas categorias de representação do passado, seja para os que pretendem a sua separação. Olhar com sentido crítico e pragmatismo a relação entre ambas requer um banho de realidade. 
Em 2015, duas fundações francesas de investigação divulgaram os resultados de um inquérito subordinado ao tema Mémoires à venir. Envolveu cerca de 32 mil jovens de 31 países – Austrália, Canadá, Estados Unidos, Japão, Índia, Israel, Rússia, Turquia e quase toda a Europa –, com idades compreendidas entre os 16 e os 19, e visava conhecer aquilo que os cidadãos educados já neste milénio retêm dos grandes acontecimentos do século XX, com a particularidade de terem sido colocadas as mesmas questões a pessoas de regiões e culturas muito diversas. 
Os acontecimentos mais referenciados foram aqueles que incorporaram uma dimensão traumática: o Holocausto, as bombas atómicas sobre o Japão e as duas guerras mundiais. Dos episódios mais recentes, destacaram-se os que em 1989-1991 envolveram a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética. A importância conferida no inquérito a estes momentos relaciona-se com o relativo êxito das políticas de memória levadas a cabo em alguns Estados, onde com o apoio do conhecimento histórico foi possível assegurar uma relação de continuidade com o passado recente. 
Todavia, nem tudo nas respostas dos inquiridos foi positivo. Parte delas fez sobressair a chamada “memória negativa”, ao demonstrar – sobretudo na Hungria, na Croácia, na França e na Alemanha – uma tendência para a rejeição das recordações incómodas que pode ser associada ao ressurgimento dos nacionalismos e a formas de revisão ou de negação do passado. 
Daí a necessidade, se pretendermos impedir que a deriva de silenciamento se generalize e se torne uma inevitabilidade, de rejeitar, como perigoso logro, a separação entre memória e história que, em nome de uma retórica “apolítica”, alguns historiadores conotados com a direita se esforçam por difundir nos meios académicos e junto das novas gerações. 
Quando, no meio profissional da história, se escuta que esta é “um saber neutro, fora da política»” a reação só pode ser de assombro, pois estas afirmações ignoram debates e conclusões com oito décadas. Marc Bloch, o fundador da Escola dos Annales, torturado e fuzilado pela Gestapo, defendia já, num texto de 1941 saído em Apologie pour l’Histoire – livro ainda utilizado em universidades como introdução ao ofício de historiador –, que o problema epistemológico da disciplina não é apenas de natureza científica, mas comporta também uma dimensão cívica e moral, tendo quem a pratica responsabilidade social de “prestar contas”. 
Caio Boschi reconhece neste processo a importância instrumental da memória, que não aceita como algo inerte, frisando que “o que lembramos e o que esquecemos pode servir à libertação humana, mas também pode contribuir para a servidão, para o domínio de determinados grupos”. Não podendo nem devendo ser depreciado por quem se ocupa com a leitura do passado. 
O “dever de memória” intervém aqui como instrumento da necessidade de olhar o passado traumático, estudado e transmitido pela história, enquanto algo sobre o qual, face ao sofrimento das vítimas, aos crimes dos seus algozes e às circunstâncias que os determinaram, a interpretação exclui a indiferença moral. 
Responsabilizando Estados, grupos e indivíduos por episódios passados, e trabalhando, como sugeriu Primo Levi, para que não se repitam no futuro. Se história não é apenas memória, se não se aceita o testemunho subjetivo como critério único e inquestionável de verdade, também não pode ignorar-se a voz silenciada dos mortos, como aconteceu com a das vítimas do Holocausto reduzidas a cinzas, ou reduzir-se o passado à lógica dos vencedores e à celebração dos grandes eventos, via segura para o apagamento de boa parte dele. 
O negacionismo histórico – conceito proposto por Henry Rousso para designar a contestação da veracidade do Holocausto que desculpabiliza o regime nacional socialista alemão – tem incorporado outras realidades incómodas: o genocídio arménio, o Holodomor ucraniano e a realidade do Gulag soviético, o extermínio dos tutsis no Ruanda ou o pesadelo imposto no Camboja pelo khmer vermelho.
Mais recentemente, o escamotear da dimensão do tráfico esclavagista europeu e árabe, ou a rejeição da existência da Ditadura Militar brasileira, com o seu negro cortejo de perseguição, tortura e assassinato. 
Neste contexto, é obrigação do historiador com sentido do social e da equidade democrática opor-se frontalmente a esse trabalho de negação. Porque perante o horror e o crime não pode existir imparcialidade ou indiferença. Além de que, no seu lugar de explorador, intérprete e transmissor do passado, de modo algum pode contemporizar com o silenciamento e com a mentira.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Efemérides de 4 de Julho

Hoje, 4 de Julho, é dia de Coimbra, além de ser dia dos Estados. mas há também efemérides científicas (obrigado Adriano Silva!):

4 de julho – A Terra passa pelo seu afélio por volta do dia 4 de julho de cada ano. Afélio é o ponto da órbita em que a Terra está mais distante do Sol, porque as órbitas de cada planeta são elípticas (e não redondas). Ciência.

4 de julho de 1054- Os Chineses e os Ameríndios observam a explosão de uma supernova perto da estrela Tauri. Os seus restos são hoje a Nebulosa do Caranguejo. Ciência.

4 de julho de 1917 – Os pontos altos do Porto e Gaia são invadidos por milhares de pessoas para melhor apreciarem o raro fenómeno dum eclipse total da Lua, das 7h18 às 11h47 (“O Tripeiro”, jul.1967, efem.). Ciência.

4 de julho de 1997 – A sonda Mars Pathfinder pousa em Marte. Ciência.

4 de julho de 2012 – É anunciada a descoberta de partículas consistentes com o Bosão de Higgs no acelerador de partículas, pelo CERN. Ciência.

CIÊNCIA 2019? É PARA INGLÊS VER


Meu artigo de opinião hoje no Público:

De 8 a 10 de Julho vai-se realizar em Lisboa o “encontro anual dos investigadores portugueses.” Ao contrário do que acontece no “país convidado” deste ano, o Reino Unido, em Portugal os investigadores não têm uma organização com a antiguidade e o prestígio da Royal Society que os represente a todos, pelo que a independência dos cientistas portugueses não passa de ficção. Os sucessivos governos têm dividido para reinar, dando umas migalhas maiores a uns e menores a outros. E o que é certo é que uns e outros se têm contentado não apenas com as migalhas mas também, o que é pior, com a subalternidade com que têm sido tratados.

O governo vai comparecer em força no “encontro dos investigadores”, mas entre os investigadores não vejo o mínimo entusiasmo. Adivinha-se um encontro de propaganda governamental, em que os promotores se empenharão, nas vésperas de eleições, em louvar o bodo que tencionam dar aos pobres. Manuel Heitor, o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, antes de se retirar para a vida académica, virá realçar as estatísticas recentes do investimento em ciência e tecnologia. Contudo, um facto indesmentível é que, nesta área, a legislatura ficou, muito aquém do que se esperava. Entre 2015 e 2019 a percentagem do PIB afecta ao sector passou de 1,24% para apenas 1,37% (PÚBLICO, 25/6/2019). A média europeia é  2,1%, isto é, estamos no pelotão de trás. Já estivemos bem melhor: em 2009, o valor foi 1,64%. Há dois anos António Costa anunciou que em 2020 (para o ano!) atingiríamos os 2,7%. É óbvio que ficaremos muito longe dessa meta! Como foi escrito na referida peça do PÚBLICO, não foi uma visão, mas antes uma ilusão. O investimento em ciência e tecnologia tem estado praticamente estagnado desde que Nuno Crato deixou cair a pique os níveis de investimento que Mariano Gago tinha alcançado.

Conteúdo exclusivo para assinantes. Ver o resto aqu:

https://www.publico.pt/2019/07/04/ciencia/opiniao/ciencia-2019-ingles-1878622

quarta-feira, 3 de julho de 2019

A educação centrada em pilares que não são novos nem são nossos

"... quisemos centrar a política educativa em três pilares: sucesso - entendido como aprendizagem e construção de um perfil dos alunos que vai para além de saber coisas que se esquecem, e não como estatística; inclusão - a escola tem de ser para todos e há que contrariar o fatalismo da pobreza -; e cidadania: a escola tem de nos capacitar para uma cidadania ativa e informada. 
A afirmação transcrita é de um secretário de estado da educação português, em entrevista recente ao Jornal i (os destaques são meus).

Se nada conhecesse do nosso sistema educativo nem das imposições externas a que ele está sujeito (nem tivesse qualquer senso crítico) seria levada a pensar que está "tudo nos eixos" e que, portanto, o futuro não pode ser menos do que fantástico: todos os nossos alunos "incluídos", com sucesso pleno na escola e na vida, serão cidadãos exemplares. 

Os bons profissionais da educação, com destaque para os professores preocupados e empenhados, é isso que querem, é a sua utopia. Mas eles sabem distinguir o que é dessa ordem e o que é da ordem da realidade.

Ora, esse equilíbrio requer conhecimento: conhecimento do que já aconteceu e conhecimento relativo à educação formal.

Quanto ao primeiro, que implica memória, talvez o entrevistado não se lembre que a reforma de 2001, com a mesma orientação política, integrava os três pilares que menciona. Logo, esse pilares não são novos, não são deste governo. Nem são da política educativa portuguesa: são, na formulação ligeira e dúbia acima enunciada, pilares da reforma global da educação, que está em curso em múltiplos países, potenciada sobretudo pela OCDE.

Quanto ao conhecimento relativo à educação formal, naquelas poucas palavras se percebe que de nada conta: não são as meias verdades com as quais obviamente todos concordamos (por exemplo, "a escola tem de ser para todos e há que contrariar o fatalismo da pobreza") que tornam o discurso aceitável. Até porque essas meias verdades estão misturadas com incorrecções extraordinárias (por exemplo, "aprendizagem... que vai para além de saber coisas que se esquecem", como se não valesse a pena aprender o que se há-de esquecer ou, melhor, não recordar de modo imediato).

Independentemente do que escrevi nesta breve nota, entendo que quem se importa com a escola pública e com os alunos que lá estão, deve ler ao pormenor a mencionada entrevista e outros textos que se publicam, porque é importante saber. E pensar sobre o que se sabe. Isso é, afinal, como diz o secretário de estado, a "cidadania activa e informada", responsabilidade de todo o educador.

Haverá mais um “apartheid”, será o “apartheid climático”.

Imagem aqui

Texto com base nas notícias dos jornal Público (Mundo em vias de enfrentar um “apartheid climático”, avisa responsável da ONU) e The Guardian ("Climate apartheid". US expert says human rights may not survive).

O risco de se formar mais um "apartheid" - uma separação entre pessoas - com base na crise climática é real e está iminente. Esta é a principal conclusão do relatório elaborado pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU e que será apresentado na próxima sexta-feira.

Os muito ricos escaparão do calor e da seca em redutos do planeta e continuarão a fazer a sua vida de luxo, o resto da população estará (está) condenada a migrar e a empobrecer até limites extremos.

Os direitos básicos à vida, a um lugar na terra, a água, a comida, tornar-se-ão impossíveis para um crescente número de empobrecidos, abandonados à sua sorte, condenados à fome, a doenças e perseguições. Os direitos civis e políticos enfraquecerão. As revoltas, provocadas pela crescente desigualdade, serão inevitáveis; crescerá o nacionalismo, a xenofobia e o racismo.

Philip Alston, um dos autores desse relatório (ao lado), tem alertado para que é a própria concepção do Estado de direito e o valor da democracia que estão em causa: "os direitos humanos podem não sobreviver à revolta vindoura". 

Mais: critica as opções "inadequadas" da própria Organização das Nações Unidas, de organizações não-governamentais, de países e de empresas, afirmando que elas são "totalmente desproporcionadas tendo em conta a urgência e magnitude da ameaça".  

É particularmente chocante o exemplo que dá para ilustrar a situação: 

na passagem do furacão Sandy em Nova Iorque, em 2012, “que deixou os habitantes mais pobres e vulneráveis sem acesso a electricidade e cuidados de saúde, enquanto a sede do [banco de investimento] Goldman Sachs foi protegida por dezenas de milhares de sacos de areia e recebeu electricidade de um gerador próprio”

Vale a pena ler: Special Rapporteur on extreme poverty and human rights

DIÁLOGOS ASTRONÓMICOS – 50 ANOS DA PRIMEIRA PEGADA HUMANA NA LUA






Na próxima 4ª feira, dia 10 de Julho de 2019, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a mui interessante e oportuna palestra " Diálogos Astronómicos – 50 anos da primeira pegada Humana na Lua", por Miguel Gonçalves, comunicador de Ciência, ex-coordenador nacional da Sociedade Planetária, autor da popular rúbrica "A Última Fronteira" da RTP.



Esta palestra integra-se no ciclo "Ciência às Seis - Terceira temporada", coordenado por António Piedade, Bioquímico, escritor e Divulgador de Ciência.

Sinopse da palestra:
"A chegada da missão Apollo 11 à Lua a 20 de Julho de 1969 foi um dos marcos do século XX e que, pela primeira vez, levou a Humanidade para além do seu lar natal. Passados 50 anos, hoje reconhecemos que nunca fomos tão longe e pelos motivos errados, mas, independentemente dos mesmos, a arquitectura e contextos de tal façanha e seus efeitos no nosso quotidiano são ainda difíceis (mas não invisíveis) de equacionar. As estórias fundem-se com a História e foi tudo muito mais do que um evento localizado no tempo e no(s) espaço(s). Quem foram as personagens principais desta peça? E que mitos revestem esta aventura? E para quando um regresso à Lua? E isso é realmente interessante e fundamental?" 

ENTRADA LIVRE
Público-Alvo: Público em geral
Link para este evento no facebook

PSEUDOCIÊNCIA NO ANTIGAMENTE

Contribuição recebida de um nosso leitor. Agradecemos como sempre estas participações:

Não há muitos anos e por responsabilidade do vosso blog tive o primeiro contacto com a pseudociência, já que charlatanismo era um conceito familiar. Ficou claro no meu espírito que a primeira está para a segunda assim como cleptomaníaco está para ladrão, questão de status. Sendo uma "guerra" que nunca será vencida pela ciência baseada na evidência e ao tomar conhecimento de um artigo escrito na primeira década do século passado por um familiar da minha bisavó paterna, por sinal médico, quero deixar à consideração se o devem tornar público. 

Copio com a ortografia em que o Sr Dr Brito Camacho o escreveu, por dessa forma mais nos aproximar daquela época.

Eduardo Grácias


"Se fores um dia ao mar,
Que a fortuna te não deixe;
Bota a rede e vae-te embora,
Quanto mais burro mais peixe.

Fôra creado de medico, e como a Natureza o dotára com bastante intelligencia e um notavel espirito de observação, aprendeu mil coisas com o doutor, a ponto de se julgar apto a fazer o que elle fazia. Depois chocava-o aquella subalternidade de moço de consultorio, as pessoas que entravam nem reparando n'elle, e algumas que n'elle reparavam tratando-o sem cortesia. Farto d'aquelle viver, reconhecendo-se talhado para mais altos destinos, um dia pediu contas ao patrão, e abalou sem dizer para onde.

Mezes passados, enchia a cidade a fama de um doutor novo, que fazia verdadeiros milagres, havendo quem affiançasse que dera vista... a uns
poucos de aleijados, e cegára uma meia duzia de coxos. Por acaso o doutor topou o milagrante collega na rua, e reconheceu n'elle o seu velho creado, muito correcto, muito bem posto, tal qual um intrujão com diploma. Ao outro dia, era um domingo, foi procural-o ao consultorio, curioso de saber como aquillo era feito. No largo, junto ao adro da Egreja, havia uma extraordinaria multidão.

- Quantas pessoas calcula o dr. que estejam além?
- Uns milhares.
- E quantas d'essas lhe parece que serão intelligentes?
- Algumas duzias.
- Pois essas formam a sua clientella; o resto pertence-me.

Vinha isto a proposito... a proposito... Ah! sim; a proposito da tiragem do jornal, que o administrador acha pequena."

Brito Camacho


terça-feira, 2 de julho de 2019

MUSEU DA LUA EM OEIRAS


Informação recebida da  Embaixada do Reino Unido em Lisboa:

De 5 a 8 de julho, a Câmara Municipal de Oeiras e a Embaixada do Reino Unido trazem a Oeiras (Jardins do Palácio Marquês de Pombal) o Museu da Lua, no âmbito do Encontro Ciência 2019.
O Museu da Lua, desenvolvido pelo artista britânico Luke Jerram, consiste numa réplica da Lua, com sete metros de diâmetro, construída a partir de imagens de satélite de alta resolução da superfície lunar. A instalação é uma fusão de imagens e iluminação lunar, complementada por uma banda sonora desenvolvida pelo aclamado compositor britânico Dan Jones.

Desde 2017, o Museu da Lua já foi exibido em inúmeros locais, e em diversos eventos.  Durante a última exibição no Reino Unido, uma menina perguntou ao artista "vais devolver a lua quando a exposição terminar?”.

O Museu da Lua será acompanhado de uma programação cultural, aberta ao público.
A Câmara Municipal de Oeiras associa-se a esta iniciativa no âmbito do programa Oeiras Valley, lançado no passado mês de maio, que pretende criar um ecossistema único para a investigação e para os negócios, tendo como pilares estratégicos a ciência e a tecnologia, num território que é já a sede de grandes empresas e instituições de investigação nacionais e internacionais.
A presença em Oeiras do Museu da Lua, enquanto símbolo da criatividade e inovação britânicas, é o perfeito complemento à participação do Reino Unido, como país convidado, no Encontro Ciência 2019, que terá lugar de 8 a 10 de Julho no Centro de Congressos de Lisboa, e que terá como um dos temas científicos em destaque o 50º aniversário da chegada do Homem à Lua.

COIMBRA MALTRATADA



Tenho percorrido o país a convite de vários municípios para falar de ciência e de cultura. E há uma coisa que me tem repetidamente impressionado: o cuidado com que as várias cidades são tratadas, em especial os seus centros históricos, cuidado que é documentado pelos espaços ajardinados. As flores  convidam-nos a permanecer no espaço público. As paredes estão isentas de grafitti, o lixo não anda pelo chão, o trânsito não é opressivo.

 Quando regresso, o meu olhar sente-se incomodado com o nítido contraste. As pessoas que deviam tratar de Coimbra não têm cumprido a sua obrigação. A separação entre  cidade e  universidade não tem ajudado, pois as duas parecem apostadas em ver quem mais maltrata o seu terreno. Na Alta, a Rua Larga transformou-se num parque de autocarros. Os turistas não encontram nem informação capaz nem restauração decente. Na Baixa, ignorada pelo turismo, paira o espectro das ruínas do Metro Mondego. A imagem geral é de desleixo, com uma rua inefável apesar de ser Património Mundial.

Até quando? Bem, até que, numa nova solução política, a cidade passe a ser bem tratada, como a maior parte das suas congéneres, restituindo aos seus cidadãos um orgulho de cidade que hoje infelizmente está ausente.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

SE NÃO HOUVESSE VENTO, NÃO HAVIA SURF, NEM BODYBOARD, NEM CERTOS PROCESSOS NATURAIS


Como toda a gente vê, estes dois desportos têm, por suporte natural, a vaga em rebentação na praia, o tipo de litoral a que aludi em post anterior. Acontece que esta onda, um dos principais agentes da dinâmica actuante na zona litoral, não é mais do que a agitação da camada superficial das águas numa determinada “área de geração”, lá longe, no oceano, soprada pelo vento. A ondulação transporta quase toda essa energia (a do vento), sob a forma de ondas ou vagas, a caminho dos litorais, consumindo-a aí, quer na rebentação, quer nas “correntes litorais“, (um tema abordar noutro post) a que dão origem.

Ao aproximar-se de terra, e à medida que a profundidade se reduz, a crista da onda torna-se, progressivamente, assimétrica, tombando para a frente até rebentar.

As características físicas da ondulação (altura, período, frequência, etc.) reflectem a energia disponível e dependem da intensidade do vento, da duração da sua incidência e da “distância de colecta”, isto é, a extensão, em comprimento, da região do mar soprada pelo vento. Com poucas perdas durante a propagação, as vagas atingem os litorais, exercendo aí, sobretudo, erosão e transporte. Nos fundos arenosos não consolidados, situados a profundidades susceptíveis de sofrerem as acções das vagas, estas remobilizam uma parte mais superficial da cobertura móvel (em geral, areia, promovendo sedimentação (ou ressedimentação) muito particular, reconhecida pelas marcas de ondulação, ou “ôndulas”, que lhe são próprias.

ôndulas
A retenção, nas grandes albufeiras das barragens hidroeléctricas, da maior parte dos inertes , em trânsito nos rios, é uma das causas dos recuos verificados em certas linhas de costa. Outra causa reside na extracção industrial de inertes (areias e/ou cascalho), na ordem de muitos e muitos milhões de toneladas por ano, das praias, das dunas e dos rios, incluindo os estuários. O desassoreamento de portos e barras constitui uma outra causa dos referidos recuos. A construção de enrocamentos, como sejam os molhes e os esporões, com o fim de proteger determinados sectores da costa, acabam sempre por transferir o mesmo tipo de problemas para jusante e, geralmente, de forma agravada. A adulteração da paisagem física em nome do desenvolvimento é um facto que está a atingir proporções preocupantes.

Os reflexos no litoral da intervenção do homem são hoje bem visíveis e as soluções encontradas, para os minimizar ou eliminar, nem sempre são as melhores. A conclusão a tirar desta realidade é a de que não se pode continuar a planear o litoral de costas viradas para os conhecimentos que a ciência já está apta a fornecer. Há, pois, que saber conviver com o mar e respeitar os seus códigos que já conhecemos com razoável pormenor. No sentido de minimizar estes inconvenientes, tem-se recorrido a ensaios realizados em tanques especiais, onde, em modelos reduzidos, se procuram simular as condições naturais e as alterações a introduzir, a fim de estudar os seus efeitos. Modernamente, com o desenvolvimento dos meios informáticos, estão a utilizar-se modelos matemáticos com idênticos propósitos.

Em conclusão e resumidamente, pode afirmar-se que a geometria e as características dinâmicas desta franja “onde a terra se acaba e o mar começa” resultam de um conjunto de factores e condicionantes naturais, a que se têm vindo a sobrepor outros, próprios da civilização, que não é despiciendo conhecer melhor. Para além das oscilações do nível do mar, ou eustáticas , e das deformações da crosta, quer epirogénicas quer orogénicas , sobressaem, por serem mais visíveis: a natureza e a estrutura das rochas (e a sua maior ou menor vulnerabilidade à erosão); o clima, em especial no que diz respeito à pluviosidade, à temperatura e aos ventos; e, ainda, outros factores, próprios do mar, como sejam as vagas (intensidade e orientação), as marés e as correntes marinhas. Em complemento das acções mecânicas destes agentes forçadores, são ainda importantes as de alteração química e/ou de dissolução que a água do mar exerce sobre as rochas do litoral, com efeitos variáveis em função das respectivas naturezas. Por outras palavras, pode dizer-se que esta interface da hidrosfera com a litosfera se define pelas leis naturais, ou seja, pelas leis da física e da química, sempre subjacentes aos processos geológicos e biológicos.

As vagas, desencadeadas por acção do vento, transmitem até ao litoral a energia que dele recebem e têm a sua acção erosiva grandemente potenciada pelo efeito abrasivo dos materiais (areias, seixos, blocos) que põem em movimento. Em resultado desta acção formam-se os litorais de erosão, ou catamórficos, caracterizados por arribas, ou falésias alcantiladas, que recuam à medida que aumenta a plataforma litoral ou de abrasão marinha. Deste recuo restam como testemunhos pontas rochosas, promontórios ou cabos escarpados, muitas vezes prolongados mar adentro por pontuações igualmente rochosas (ilhéus, baixios, escolhos, abrolhos, calhaus, pedras, etc., nos diversos modos de dizer locais), com destaque para a Costa Vicentina e para os cabos da Roca, de S. Vicente, de Sagres e do Carvoeiro, com a conhecida e elegante Nau dos Corvos.

GALOPIM DE CARVALHO

DECISÃO NACIONAL SOBRE DIPLOMACIA CIENTÍFICA E REDE GPS.PT


Programa "Decisão Nacional", da RTP Internacional, em que participei para falar de diplomacia científica e da rede Global Portugal Scientists (GPS.PT):

https://www.rtp.pt/play/p4245/e415849/decisao-nacional

Com José Paulo Esperança, vice-presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia, num programa conduzido por Rosário Lira.

UM CAMINHO CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO HUMANISTA?

Entenda-se este texto não como um elogio acrítico a uma nova escola de iniciativa privada, mas como uma reflexão acerca da estrutura curricu...