segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Manuel de Azevedo Fortes e a formação de Engenheiros em Portugal

Início da introdução (expurgada das notas) de Décio Martins ao "Primeiro tratado de engenharia", um volume das "Obras Pioneiras da Cultura portuguesa" que acaba de sair no Círculo de Leitores: 

Manuel de Azevedo Fortes foi um “estrangeirado” que recebeu a sua formação em França sob a influência do desenvolvimento científico e técnico que marcou o iluminismo europeu. Regressado a Portugal, integrou o círculo do Conde de Ericeira, participando nas Conferências Discretas e Eruditas, destacando-se pelo conhecimento e divulgação das novas ideias então difundidas na Europa. Era filho ilegítimo de um nobre Francês, Monsieur Lembrancour, que serviu na Corte de Lisboa. 

Nascido em Lisboa, em 1660, Manuel de Azevedo Fortes teve a sua formação académica em Espanha e França. Em Madrid ingressou no Colégio Imperial quando tinha a idade de 12 anos, prosseguindo depois os seus estudos da Filosofia na Universidade de Alcalá de Henares. A sua formação em Filosofia Experimental e Matemática teve lugar em França no Colégio de Plessis-Sorbone, um prestigiado colégio universitário fundado em 1317 por Geoffroy Du Plessis-Balisson e que em 1646 foi unido à Sorbone. Foi neste contexto que Azevedo Fortes se familiarizou com as ideias de Copérnico, Galileu, Descartes, Gassendi, Malebranche, Newton e de muitos outros filósofos modernos então estudados nas mais prestigiadas escolas da Europa. Seguiu-se um período em Itália, onde foi professor de Filosofia na Universidade de Siena. Após três anos nesta Universidade, tendo-lhe sido solicitado a sua continuidade neste cargo pelo governador da cidade, Francisco Maria de Medici, irmão do Grão-Duque de Toscânia, Fortes aceitou permanecer na Itália por mais três anos, tendo no entanto que regressar a Portugal por falecimento do seu pai.
(...)
O percurso do engenheiro Manuel de Azevedo Fortes
Em 1695 encontrava-se em Portugal. Frequentando os círculos intelectuais de Lisboa, notabilizou-se pelas suas conferências públicas, merecendo a admiração de D. Pedro II. Conquistou a notoriedade no meio académico português como matemático e como engenheiro. Foi nomeado lente substituto na cadeira de matemática na Aula de Fortificação e Arquitetura Militar, escola criada em 1647 que, posteriormente, em 1707 viria a ser designada Academia Militar da Corte. Manteve a sua função docente na Aula de Fortificação pelo menos até 1701. Além do ensino na Aula de Fortificação e da atividade de engenheiro, a carreira de Azevedo Fortes foi muito diversificada, incluindo a assistência técnica a fortificações, participação em campanhas militares, bem como de funções governativas.
 Em 18 de fevereiro de 1698 foi nomeado pela Junta dos Três Estados, examinador dos discípulos da Academia e, em de setembro de 1698, foi nomeado capitão-engenheiro. Além da atividade académica e de engenheiro, destaque-se a importância da sua atividade como militar. No ano de 1701 procedeu à verificação dos locais para descarga dos lastros dos navios estrangeiros em Setúbal. Em 1702, passou a ser capitão de Infantaria com aplicação de engenheiro, além de manter o cargo de lente substituto na Aula de Fortificação, sendo posteriormente nomeado para o cargo de sargento-mor. Em Coimbra, no ano de 1702 supervisionou as obras do encanamento do Mondego, sendo também encarregue de fazer uma carta da cidade, e visitou as fábricas de fundições de artilharia em Tomar, Figueiró dos Vinhos e Foz de Alge. No dia 10 de outubro de 1703 foi emitida a ordem do Conselho de Guerra para que Fortes, ainda capitão-engenheiro, partisse para o Alentejo para participar nas campanhas da guerra contra Espanha, embora o decreto seja de 10 de dezembro desse ano. Neste novo cargo, até 1704 passou a dar assistência às obras das ruínas de algumas fortificações de algumas praças militares. Trabalhou na condução dos regimentos holandeses à vila de Abrantes e província da Beira, e teria inclusivamente feito uma incursão para examinar as fortificações de Badajoz. Posteriormente, o Conselho de Guerra nomeou-o Tenente-de-Mestre-de-Campo-General na Província do Alentejo a 19 de Fevereiro de 1705, recebendo a patente de coronel de Infantaria no ano de 1708. A partir de 11 de fevereiro de 1705 exerceu o cargo governador de Castelo de Vide, procedeu a obras na fortaleza, onde se manteve até 1719, tendo sido nomeado engenheiro-mor do reino em 18 de outubro de 1719, recebendo também a patente de brigadeiro de Infantaria do Exército, postos que manteve até 1735. No dia 20 de Novembro de 1705 recebeu o hábito de Christo, como cavaleiro noviço, tendo sido armado cavaleiro na capela dos paços da Ribeira ou na igreja da Nossa Senhora da Conceição. Já como governador de Castelo de Vide, em 1709 deslocou-se com um destacamento de infantaria e cavalaria e uma companhia de mineiros para demolir o Castelo de Valência de Alcântara. Sob a sua orientação, em 1734, foram reedificadas as ruínas da Praça de Campo Maior. Numa da Carta do Conselho de Guerra, escrita ao sargento-mor de Batalha, João Jacinto Lopes Tavares da Costa, governador das Armas da Província da Beira, é feita a referência a várias questões relacionadas com Manuel de Azevedo Fortes, a quem teria sido atribuída a construção de quatro armazéns de pólvora, nas praças de Elvas, Campo Maior, Olivença e Estremoz, bem como dos terraplanos das praças de Juromenha e Arronches e de delinear uma nova praça na vila da Zibreira[.
A Academia de História Portuguesa pretendeu lançar-se num levantamento dos pontos geográficos para ilustração de uma obra a publicar. Para o efeito foram solicitados os serviços do P.e Manuel de Campos e de Azevedo Fortes. A história da geografia da antiga Lusitânia foi atribuída a Manuel de Campos, ficando Azevedo Fortes encarregue da geografia moderna e da “Fábrica das Cartas Geográficas”. Para a concretização do seu trabalho, Fortes investigou os arquivos das cartas geográficas dos bispados, constatando que nunca haviam sido traçadas. O Mappa del Reino de Portugal, feito por Pedro Teixeira, no ano de 1662, embora considerado por Azevedo Fortes como o mais correto, era defeituoso em algumas regiões. O seu projeto seria levantar uma nova carta de Portugal. Tratava-se de um empreendimento considerado avultoso e de difícil concretização por D. Rodrigo Anes de Sá e Almeida, Marquês de Abrantes. A falta de apoios necessários comprometeu a sua realização. No entanto, a Academia de História editou, em 1722, o Tratado do modo o mais fácil e o mais exacto de fazer as cartas geográficas, assim de terra como do mar, e tirar as plantas das praças, cidades e edifícios com instrumentos e sem instrumentos, tendo sido aprovado pelo Conde de Ericeira e pelo Conde de Monsanto, e obtido as seis licenças do Santo Ofício. Neste trabalho, Azevedo Fortes referiu-se ao desenvolvimento da Geografia na Europa, fazendo alusão a Ptolomeu, Mercator, Hortelius, Du Val, de Sanson, Telemont, Canteli, Coroneli, Dufes e Del’Isle.
Em 1734, embora já com limitações físicas, Azevedo Fortes continuava no exercício das suas obrigações. Pelo facto da firmeza das mãos o condicionar na tarefa que fazer todas as assinaturas que lhe impunha o seu cargo, foi autorizado por D. João V a usar a chancela, conforme a autorização declarada.
Azevedo Fortes, de quem Garcão-Stockler escreveu uma nota biográfica no seu Ensaio historico sobre a origem e progresssos das mathematicas em Portugal, faleceu em 28 de março de 1749, deixando legado à Misericórdia de Lisboa para na véspera da Anunciação de Nossa Senhora se distribuir roupa branca pelas enfermarias do hospital de Todos os Santos. 

Décio Ruivo Martins
CFisUC, Departamento de Física, Universidade de Coimbra. 3004-516 Coimbra, Portugal


ANTENA 2 CIÊNCIA: Esperanças e probabilidades para 2018, com Carlos Fiolhais e David

A minha participação e de Carlos Fiolhais no programa Antena 2 Ciência, emitido no primeiro dia do ano:

https://www.rtp.pt/play/p783/antena2-ciencia

ESCRAVATURA, O GENOCÍDIO OCULTADO

Texto de Guilherme Valente, publicado no último número do Expresso:



"A mão treme quando evocamos os crimes cometidos pelos Árabes, enquanto  o inventário dos crimes cometidos pelos Europeus, igualmente condenáveis, ocupa páginas inteiras.
Marc Ferro, 1942

A captura pelo Daesch de milhares de yezidis e cristãos deu visibilidade à escravatura e ao tráfico que prosseguiram  larvares p. ex. na Arábia Saudita, no Quatar e Emiratos. Como revelou a CNN na Líbia, o fenómeno migratório actual segue as rotas do comércio histórico de escravos. 

Iniciado em 652, esse tráfico árabe-muçulmano atingiu 17 milhões de vitimas, mortas ou castradas, durante treze séculos sem interrupção, ultrapassando em quantidade e crueldade o tráfico depois alargado ao Atlântico pelos Europeus.

Nem mesmo a conversão ao islão que interditava a escravidão dos convertidos - o islão tem o melhor e o seu contrário... -  impediu o horror. Na peregrinação a Meca muitos fiéis eram raptados e revendidos por mercadores ricos.

A ocultação dessa página dolorosa ainda não totalmente virada da história dos povos africanos põe em foco um livro de 2008 então significativamente ignorado: Le génocide voilé, do historiador franco-senegalês T. N'Diayde*. 

Escreve o Autor: "Civilizações com milhares de anos foram devastadas por razias sanguinárias. Impérios inteiros destruídos, como os do Gana no século XI pelos Almorávidas vindos do Marrocos e da Andaluzia. Apoiados por aventureiros europeus, chegaram ao coração do continente, até à actual Tanzânia e ao Congo, comprando a cumplicidade de soberanos locais". Tráfico que começou quando o abastecimento na Europa Oriental e Central escasseou ("escravo" vem de "eslavo").

Quando Portugal chegou posteriormente a esse tráfico africano, dadas as suas limitações de penetração no interior do Continente, foi mais comprador que captor.

E porquê a ocultação e minimização desse tráfico árabe-muçulmano? Porque esqueceram os descendentes das vitimas esse horror e se unem agora aos descendentes dos carrascos?

É que hoje a maior parte da África sahariana tornou-se de religião muçulmana e a fraternidade religiosa uniu-se no interesse comum de ocultar aquele verdadeiro genocídio. Interesse com que converge num logro mutuo a esquerda radical (e mesmo uma esquerda ignorante sem rumo nem  memória). 

Num lado, o ressentimento face ao sucesso das sociedades ocidentais, o alibi da vitimização que faz dos "brancos" bode expiatório  para o bloqueamento contrastante das sociedades africanas e islâmicas, para a ocultação da responsabilidade própria na tragédia Africana e do Médio Oriente.

No outro lado, o ressentimento face ao  triunfo do pensamento liberal e das sociedades abertas de uma esquerda radical órfã das grandes narrativas e causas históricas e incapaz de identificar novas causas sociais que emergem. Resultante de sucessivos abalos sísmicos: a recorrentemente  falhada  profecia de Marx, Lenine, Estaline, a URSS, a China e o seu sucesso capitalista.

Continuando a cultivar a pulsão da intolerância totalitária que lhe está na  natureza, o que hoje pode fazer é provocar a maior obstrução e barragem políticas possíveis**. E vê no Islão a única força capaz de abalar o mundo ocidental. A chantagem da  "islamofobia" ***, o  encorajamento da  vitimização dos Africanos, o paternalismo perverso, são  instrumentos para combater os adversários de sempre: o capitalismo, a sociedade aberta, a liberdade.

Não retirando a responsabilidade histórica que cabe aos  Europeus, o  livro  O Genocídio Ocultado  repõe a verdade histórica e mostra que a escravatura não é um crime por qualquer estranha razão inerente ao homem "branco".

A escravatura é  um crime que fere a humanidade. A Europa não a  inventou, mas inventou a sua abolição. Aguarda-se que todo o mundo islâmico-muçulmano  e africano siga o exemplo. E peça desculpas!? Não, desculpas só os "brancos"... por serem superiores na consciência, na moral, na humanidade? NÃO! 

Quanto à mundivisão totalitária da  esquerda (ou da direita) radical, é como a psicanálise, interminável.

Guilherme Valente
___________
NOTAS

* Ver  Pascal Bruckner (Le Point, Novnuma nota  de leitura que  divulgo prescindindo de  aspas. (Para os amantes da BD, recordo Tintim, Carvão no Porão.)

** Entre nós com particularidades próprias da realidade política que só há cá.

 *** É imperativo distinguir o islão radical assassino, do islão pacífico vitima el do islão iluminista perseguido implacavelmente. 

domingo, 7 de janeiro de 2018

Comemoração do Dia do Perfil do Aluno - 1

No passado dia 2 de Janeiro o Ministério da Educação, através da Direcção-Geral da Educação, enviou às escolas uma carta onde prestou esclarecimentos sobre a comemoração do Dia do Perfil do Aluno, a ter lugar treze dias depois, ou seja, no dia próximo dia 15.

Esta iniciativa tem a colaboração da Federação Nacional de Associações de Estudantes dos Ensinos Básico e Secundário.

Um dia inteiro para, esclarece, pôr o país a reflectir sobre a implementação desse perfil. A ideia é
... mobilizar diversas vozes influentes da sociedade civil portuguesa e a comunidade educativa alargada (professores, alunos, encarregados de educação, autarcas, etc.) num amplo debate sobre como pode cada escola organizar-se para concretizar o “Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória”. 
Enquanto as escolas desenvolvem "actividades"
"que permitam ouvir e considerar as vozes daqueles que habitam a escola diariamente e de outros que, de uma forma ou outra, participam na educação dos jovens"
 realiza-se, em Lisboa, uma conferência nacional a ser difundida via internet.

O Ministério disponibiliza (num sítio a que não se consegue aceder) outras informações relativas ao "programa, sugestões de atividades e documentos de apoio".

E mais nada consegui encontrar além do programa para o tal dia de duas escolas - colégios - que... logo fechei!

"Claro que é necessário estudar!"

O segundo capítulo do livro O pavilhão dos cancerosos, do escritor russo Alexandre Soljenitsine, tem por título "A instrução não torna ninguém mais esperto". Aí surge um diálogo entre dois homens provavelmente sem futuro mas com um doloroso e infindável presente: Kostoglotov, o entusiasta de Geometria que não conseguiu terminar o ensino superior por ter sido recrutado para a Segunda Grande Guerra, e jovem Dioma, que tudo o que mais queria na sua incerta vida era estudar. Trata-se de um diálogo que interroga o sentido da educação escolar, o que devemos fazer constantemente, mas que não retira o seu valor.
- Vou tentar ler um pouco mais - disse Dioma -, enquanto ainda tenho tempo. Gostaria de entrar na universidade.
- Isso é excelente. Mas lembra-te de que a instrução não torna ninguém mais esperto.
(Que lucrava em falar de tal maneira? E a um garoto?)
- Não torna ninguém mais esperto? Que quer dizer?
- O que disse.
- Então o que nos torna mais espertos?
- A vida
Dioma ficou calado, uns momentos, e por fim redarguiu:
- Não concordo.
- Na nossa unidade havia um comissário chamado Pachkin, que costumava dizer: «A instrução não torna ninguém mais esperto. Nem o oposto. Colocam-nos mais uma estrela no ombro e pensamos logo que somos mais espertos, mas não somos.
- Quer dizer que não é necessário estudar? Não concordo.
- Claro que é necessário estudar! Mas lembra-te, para teu próprio bem
Referência: Soljenitsine, A. (1974, 6.ª edição). O pavilhão dos cancerosos. Lisboa: Publicações Dom Quixote, pp. 32-33.

A CIÊNCIA NÃO É SÓ DOS CIENTISTAS

Texto primeiramente publicado na imprensa regional.



A ciência não é só dos cientistas. A ciência é de todos os cidadãos. Mas, para que todos possamos ter acesso à ciência desenvolvida pelos cientistas, é necessário a mediação de divulgadores e comunicadores de ciência.
Martin Rees, astrofísico de renome mundial, é um dos incontornáveis divulgadores de ciência do nosso tempo. Astrónomo Real da Grã-Bretanha e ex-presidente da Royal Society de Londres (a mais antiga sociedade científica do mundo), Rees escreveu vários livros de divulgação científica entre os quais o popular “O Nosso Habitat Cósmico”, publicado em Portugal pela Gradiva.
Em Outubro passado, a Gradiva publicou na sua prestigiada colecção “Ciência Aberta” mais uma obra de Martin Rees: “Para o Infinito – Horizontes da Ciência”. Parece-me pertinente transcrever aqui o início da introdução deste livro: “A ciência está a interferir mais do que nunca nas nossas vidas. Muitos assuntos políticos fulcrais – energia, saúde, ambiente, etc. – têm uma dimensão científica. Na verdade, as escolhas que os nossos governos fizerem nas próximas décadas podem determinar o futuro da Terra. O século XXI é o primeiro na História da Terra em que uma espécie, a nossa, tem o poder de determinar o destino de toda a biosfera. A ciência não é apenas para os cientistas: as decisões sobre o modo como ela é aplicada devem resultar de um debate público alargado. Mas, para que isso aconteça, todos nós devemos ter uma «ideia» dos conceitos-chave da ciência. Além da sua importância prática, estes conceitos devem ser parte da nossa cultura comum. Os grandes conceitos da ciência  – ou, pelo menos, umas «luzes» destes – podem ser transmitidos através de termos não técnicos e imagens simples.”
Com uma linguagem muito acessível, ajudada por uma boa tradução do original inglês para o português feita por Maria de Fátima Carmo, Martin Rees apresenta-nos neste livro vários aspectos da relação entre a ciência, os cientistas, os políticos, o público em geral, entre outros assuntos como seja o do próprio futuro da ciência. O livro é composto por quatro capítulos que resultaram da transcrição de igual número de palestras, incluídas nas populares Palestras Reith da BBC inglesa, que o autor concebeu e que foram proferidas em 2010. O seu conteúdo continua actual e muito pertinente. Os quatro capítulos são: O Cidadão Científico; Sobreviver ao Século; O Que Nunca Saberemos; Um Mundo em Fuga. Cada um ocupa cerca de trinta páginas, que preenchem bons momentos de leitura sobre assuntos que nos dizem respeito a todos. Reflexões lúcidas sobre problemas que estão na agenda do nosso mundo actual, como sejam o aquecimento global, ou o impacto da internet na nossa sociedade. Os quatro capítulos podem ler-se independentemente um dos outros, pelo que a curiosidade do leitor guiará a sua leitura.
Como escreve Martin Rees, a ciência, para além de nos permitir ter noções que sustentam opiniões próprias sobre os maiores desafios da humanidade, é uma fonte de prazer e de maravilhamento para toda a gente. Assim também é com a leitura deste livro que aconselho a todos.


António Piedade

sábado, 6 de janeiro de 2018

O DESDÉM DE TRUMP PELA CIÊNCIA


https://www.nytimes.com/2018/01/04/opinion/trump-disdain-science.html

ANA HATHERLY E O BARROCO

​A Theya Editores/IECCPMA ​convida para o lançamento do livro Esperança e Desejo – Aspectos do Pensamento Utópico do Barroco, de Ana Hatherly,
​a realizar  no dia 6 de janeiro, a partir das 16h00, na sala de leitura da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian
​.
No âmbito da exposição "Ana Hatherly e o Barroco. Num Jardim Feito de Tinta", Maria Filomena Molder ​apresentará a conferência moderada por Paulo Pires do Vale, curador da exposição. Este encontro inclui o lançamento do livro Ana Hatherly. Esperança e Desejo – Aspectos do Pensamento Utópico do Barroco (com edição e prefácio de Ana Marques Gastão), apresentado por Isabel Morujão, assim como o lançamento da publicação que acompanha a exposição.

O livro encontra-se disponível para aquisição em http://theya-ed.org/ e por encomenda através de theyaeditores@gmail.com.


A exposição, a conferência e o lançamento: ​
https://gulbenkian.pt/museu/evento/ana-hatherly-barroco/
​Convidamos à presença e agradecemos  divulgação.

Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes (IECCPMA)
Praceta João XXI, 17, 1.º esq. | 2775-511 Carcavelos
T.: 96 99 777 02 | ieccpma@gmail.com

Online em

Boletim de Estudos Clássicos

Mensagem recebida no blogue:

É com grato prazer que informo que o Boletim de Estudos Clássicos está agora também publicado na plataforma IMPACTUM (OJS), para publicações periódicas da UC geridas pela Imprensa da Universidade de Coimbra (link) http://impactum-journals.uc.pt/bec/issue/archive, estando disponibilizados os nºs 58/2013 até ao 62/2017.
Contando com décadas de publicação, o BEC encetou, nos últimos cinco anos, um caminho de conformação aos critérios de referenciação de publicações periódicas académicas e de qualificação tornando-o uma publicação de referência na área da investigação, divulgação, educação e ensino dos Estudos Clássicos, como se refere na sua linha editorial:
 O Boletim de Estudos Clássicos assume como principal missão a investigação e a divulgação em Estudos Clássicos numa perspetiva de ensino e de aprendizagem dos mesmos em contexto pedagógico, para o ensino superior e não superior. O BEC procura servir o diálogo entre investigadores, especialistas, docentes, estudantes e amadores dos Estudos Clássicos, com especial foco no que se investiga em Estudos Clássicos (língua, cultura, literatura, pedagogia e didática, receção), mas também no que se faz e acontece no mundo contemporâneo que reflita a relevância dos Estudos Clássicos para a compreensão da atualidade.”

-Atingido este patamar, convidamos a comunidade do ensino e da investigação em Estudos Clássicos a apresentar propostas de publicação de originais no BEC (encontra-se em preparação o nº 63/2018), seguindo o link:
ou entrando em contacto com o mail:
pabadias@hotmail.com (editor principal).


Paula Barata Dias

MÓNICA BETTENCOURT-DIAS: Minha escolha para o Expresso de uma figura do futuro na ciência




A bióloga Mónica Bettencourt-Dias, de 44 anos, é um valor seguro da ciência portuguesa. Doutorada em 2001 em Bioquímica pelo University College de Londres e com um pós-doutoramento em Cambridge, regressou em 2006 a Portugal para um lugar de investigadora principal no Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC). Beneficiária de várias bolsas “milionárias” europeias, uma delas em 2017 no valor de dois milhões de euros, recebeu diversos prémios e distinções, entre os quais a prestigiada associação ao Laboratório Europeu de Biologia Molecular, um reconhecimento que assenta na publicação em revistas de grande impacto como a Science e a Nature. O seu trabalho centra-se nos centrossomas, peças de uma complicada maquinaria celular que determina a divisão celular. Nomeada recentemente, após selecção por um comité internacional, directora daquele Instituto, a Mónica junta agora às suas tarefas de investigação outras de gestão. É dela que se espera não só a manutenção dos altos padrões de qualidade daquele Instituto mas também o acréscimo de colaboração com outros institutos de investigação, designadamente os universitários, no sentido de aproximar o sistema científico nacional do pelotão da frente na União Europeia. Os desafios da ciência portuguesa são exigentes, dado a queda do investimento em ciência na legislatura anterior, mas a Mónica, que representa bem uma geração que atingiu elevados patamares graças à política de José Mariano Gago, tem os conhecimentos e a visão para fazer crescer a ciência nacional.

O IGC surgiu em 1961, mas só no ano seguinte o Instituto de Estudos Biológicos, antecessor do actual IGC, que só trabalha em biologia, ganhou corpo. Em 1965 foram inauguradas as instalações do IGC em Oeiras e em 1967 as do Instituto de Estudos Biológicos. Um dos cientistas que pontificou no IGC foi o médico holandês Nicolaas van Uden (consorte de D. Adelaide de Bragança, neta do rei D. Miguel), que criou em 1969 os Estudos Avançados de Oeiras, uma escola de pós-graduação que trouxe a Portugal alguns dos melhores especialistas mundiais. O estabelecimento da biologia moderna em Coimbra e Porto, onde hoje está firmemente implantada, deveu-se a essa “semente” plantada em Oeiras, mostrando como a inovação no sector público pode provir da iniciativa privada. A Fundação Gulbenkian, neste como noutros sectores, tem sido exemplar e espera-se que o continue a ser. O IGC, uma das poucas instituições privadas que faz ciência em Portugal, tem particulares responsabilidades no desenvolvimento do sistema científico português. Dinâmica e determinada como é, a Mónica recebe uma herança que passará a outros ainda melhor do que a que recebeu.

Last but not least, a Mónica gosta de fazer comunicação científica. Ela sabe que a ciência é parte da sociedade e não pode viver sem essa ligação forte à sociedade que se chama cultura científica. Com a Mónica à frente do IGC, vai haver mais ciência para todos.

Introdução do Expresso:

O futuro a nós pertence. Dez consagrados escolhem dez rostos de futuro
Quando se muda de ano criam-se sempre novas expectativas. Queremos saber o que aí vem e quem serão os grandes protagonistas das mudanças que se seguem. Os velhos dão invariavelmente lugar aos novos, costuma dizer-se, e foi isso mesmo que pedimos para fazer aos nossos consagrados das mais variadas áreas. Da literatura à ciência, da gestão ao futebol, das artes plásticas ao teatro e à música, do humor à política, quisemos saber quem são as suas apostas e as novas promessas. Quisemos saber também porque o são e o que se espera delas. As respostas chegaram-nos na primeira pessoa. E, se em alguns casos o futuro é previsível, noutros é absolutamente surpreendente. Quando completa 45 anos de vida, o Expresso avança com os rostos do futuro:

Rui Tavares 
por António Barreto
Salvador Sobral 
por Carlos do Carmo
Gelson Martins 
por António Simões
João Luís Barreto Guimarães 
por António Lobo Antunes
Igor Jesus 
por Rui Chafes
João Pedro Mamede 
e Nuno Gonçalo Rodrigues 
por Jorge Silva Melo
Luís Araújo 
por Alexandre Soares dos Santos
Mónica Bettencourt-Dias 
por Carlos Fiolhais 

Marco Silva 
por Manuel José
Mariana Cabral Bumba na Fofinha) 
por Ricardo Araújo Pereira



sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

"Vigésimo Oitavo"

Informação chegada ao De Rerum Natura.


A Cooperativa Bonifrates apresenta, com o seu projeto júnior, o espectáculo "Vigésimo Oitavo", na Blackbox do Convento São Francisco, em Coimbra, nos dias 19 (21h30) e 20 (16h00) de janeiro de 2018.

"Vigésimo Oitavo" é uma criação performativa, composta por filmes e cenas em palco, protagonizada por atores entre os sete e os dezoito anos, com guião e direção de João Paulo Janicas, vídeos de Miguel Godinho e banda sonora de Amílcar Cardoso.

Tomando como referência o artigo sobre a educação da Convenção sobre os Direitos da Criança e inspirando-se no gesto (utópico?) de Malala Yousafzai (“uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo”), "Vigésimo Oitavo" lança uma provocação sobre o valor que a escola tem (ou não tem) no mundo atual, aos que a proíbem, aos que a vendem, aos que a desprezam, aos que a perdem, aos que se perdem nela...

Bilheteira do Convento São Francisco: diariamente entre as 15h00 e as 20h00
Telefone: 239 857 191; Email: bilheteira@coimbraconvento.pt

Bilhetes entre os 2€ e os 4€

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

"A Educação é das áreas sobre a qual todos opinam"

Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos de Escolas Públicas, escreveu recentemente um artigo para o jornal Público com o título Mais respeito pela Educação! Nele aponta um problema central e crucial da educação escolar: a sempre pronta opinião de quem nada sabe do assunto.
"A Educação é das áreas sobre a qual todos opinam — muitos considerando que pelo facto de terem passado pelos bancos das escolas ganharam essa legitimidade, outros simplesmente porque sim e uma minoria porque a democracia os investiu como representantes do povo... 
Não raras vezes, em debates sobre Educação (no âmbito do não superior) promovidos pelas mais diversas entidades, estes primam pela ausência de professores e alunos, permitindo que erros crassos grassem ao sabor das convicções. 
Regra geral, quase sempre estão presentes autarcas (reconheço em alguns brilhantismo neste domínio, tanto no discurso como na ação), professores universitários (das mais diversas proveniências académicas) — procuro a razão de alguns destes docentes, ilustres cronistas da nossa praça, raramente escreverem sobre os problemas que enfermam o ensino superior, preferindo compadecer-se em relação ao ensino para o qual olham de cima — e outras personalidades, mais ou menos enigmáticas. (...).
Questiono a usurpação ilegítima da “defesa da escola pública” como chavão na caça aos votos, quando não se concretiza ou explica o que se pretende implementar no terreno. A Educação merece a consideração de todos nós e muito mais! É necessário que fundamentem com rigor as suas abordagens ideológicas para a Educação, não se ficando por frases bonitas, que soam bem, mas impregnadas de vacuidade (...).
Que sabem mais dizer sobre Educação alguns dos nossos políticos que não seja serem defensores da escola pública? O que pensam eles sobre a instabilidade legislativa neste setor? Que medidas se predispõem promover para a valorização da profissão docente? Como se posicionam face a um Pacto na Educação tendo em conta questões estruturais? Qual a sua opinião sobre as mudanças constantes na avaliação dos alunos? Como se definem relativamente à não estabilização curricular? Perspetivam colocar os principais problemas da Educação na agenda política? Estas são algumas das questões a que, prescindindo de divagações ou subterfúgios, deveriam dar resposta, sem se fecharem em banalidades ou em registos politicamente corretos, esgotados já de sentido. 
Urge debater séria e frontalmente a Educação. Não há mais paciência para a demagogia política, para a opacidade declarada em termos gerais, manifestamente abstratos, sobejamente apropriada pelos representantes dos partidos políticos quando se referem à Educação do país, devendo assumir como sua obrigação a explanação, com verdade, do que pensam e estão resolvidos a fazer em prol da área mais importante de qualquer sociedade democrática moderna (...)."

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

OS MORTOS FALAM? O PORQUÊ DAS AUTÓPSIAS


Na próxima 4ª feira, dia 10 de Janeiro, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra "Os mortos falam? O porquê das autópsias", por Duarte Nuno VieiraProfessor e Director da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Esta palestra integra-se no ciclo "Ciência às Seis"*.



Resumo da palestra: "Etimologicamente, a palavra autópsia significa “ver com a própria vista” ou “ver a si mesmo”. A autópsia envolve, todavia, a utilização de todos os órgãos dos sentidos, sendo através destes e da aplicação de um conjunto de adequados procedimentos técnico-científicos, que a autópsia permite, em muitas situações, obter resposta para um diversificado conjunto de questões. Algumas dessas questões, como sejam qual a causa e a etiologia da morte, estão presentes em quase todas as autópsias; outras, porém, surgem apenas pontualmente, em função das especificidades de um determinado caso concreto. Qual a distância a que foi efetuado um disparo, quanto tempo terá a pessoa sobrevivido a um determinado trauma, ou se se encontrava sob a influência de álcool no momento do evento que causou a morte, são exemplos de algumas das inúmeras questões que se podem suscitar em contextos particulares. A autópsia consiste, pois, em através da aplicação de conhecimentos e metodologias médicas, associados aos de outras áreas do saber, procurar que um determinado corpo nos transmita informações que podem ser fundamentais em diversos domínios, nomeadamente e a título de exemplo, para uma correta aplicação da justiça, para uma completa informação da família, para uma melhor compreensão da doença e do trauma, ou até para a prevenção de eventuais situações futuras, entre muitos outras. Fortemente condicionada por circunstancialismos legais e socioculturais, e condicionada também por limitações diversas, a autópsia continua, todavia, a constituir um procedimento absolutamente fundamental e imprescindível, apesar do avanço das novas tecnologias de diagnóstico. Através dela, os mortos falam, numa linguagem que os médicos patologistas entendem e sabem interpretar."

*Este ciclo de palestras é coordenado por António Piedade, Bioquímico e Divulgador de Ciência.

ENTRADA LIVRE

Público-Alvo: Público em geral

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O ANO FEYNMAN

Minha crónica no Público de hoje (na imagem Richard Feynman):



Bem sei que em 2018 se comemora o bicentenário do nascimento de Karl Marx e da publicação de Frankenstein, a obra-prima de Mary Shelley, e o centenário do armistício que pôs termo à Primeira Grande Guerra e dos nascimentos de Nelson Mandela e de Leonard Bernstein, assim como o meio centenário do Maio de 1968 em França e da estreia de 2001 Odisseia no Espaço, a obra-prima de Stanley Kubrick. Mas, para mim, 2018 é principalmente o ano do centenário do físico americano Richard Feynman, Prémio Nobel da Física de 1965 pelo seu trabalho sobre a electrodinâmica quântica, a teoria quântica dos electrões e da luz, e uma das maiores lendas da ciência do século XX.

Nova-iorquino de ascendência judaica, o facto se só ter começado a falar aos três anos não o impediu de logo revelar uma voraz curiosidade. Licenciou-se em Física no MIT e doutorou-se em 1942 em Princeton, um sítio onde a grande figura era na época Einstein (este, que também começou a falar tarde, estava aliás presente no primeiro seminário que Feynman lá deu). A sua tese de doutoramento inaugurou uma nova maneira de trabalhar com a teoria quântica. O mundo estava em guerra e, no ano seguinte, Feynman foi recrutado para trabalhar no projecto Manhattan, que construiu as primeiras bombas atómicas. Ficou então lendária a sua capacidade de abrir cofres, adivinhando códigos. A seguir foi para Cornell, onde realizou o trabalho que havia de merecer o Nobel.

No início dos anos 50 passou um ano sabático no Brasil, onde aprendeu português para além de aprender a tocar bongo e frigideira. Depois aceitou uma oferta de Caltech onde alcançou o pícaro da fama como professor. Nos anos 60 revolucionou o ensino da física com as suas Feynman Lectures on Physics, um clássico em três volumes. Um livro que traduzi em jovem foi um conjunto de palestras gravadas pela BBC intituladas O carácter da lei física, que dão um cheirinho dessa obra maior. Os direitos dos vídeos foram adquiridos por Bill Gates que os colocou na Internet em acesso livre (Gates chamou a Feynman o ”melhor professor que nunca tive”). Tal como o seu contemporâneo Leonard Bernstein, também ele nova-iorquino e judeu, Feynman tinha uma fabulosa capacidade pedagógica, na qual se aliavam a mestria dos assuntos com a teatralidade da exposição.

Nos anos 80 saíram dois livros auto-biográficos de Feynman que retratam a sua excentricidade: Está a brincar Sr. Feynman! e Nem sempre a brincar, Sr. Feynman!, ambos traduzidos entre nós na Gradiva. Para proporcionar estes livros às novas gerações surgirão este ano nos Estados Unidos novas edições com um prefácio de Bill Gates.

Feynman já estava doente com cancro quando, como membro da comissão de investigação do desastre do Challenger, mostrou com uma experiência, durante uma conferência de imprensa, como uma anilha do vaivém se tinha quebrado no lançamento devido às baixas temperaturas. Declarou, criticando a NASA: “A realidade tem de estar à frente das relações públicas, já que a Natureza não pode ser enganada”.

Já no final da sua vida tentou visitar a república soviética de Tuva, no centro geométrico da Ásia, só porque em pequeno tinha coleccionado selos dessa república, então independente, mas o clima de guerra fria não o permitiu. Para compensar, o seu colaborador próximo Robert Leighton vai passar o próximo dia do aniversário de Feynman, 11 de Maio, na capital tuvana, que dá pelo nome de Kyzyl.

Os interesses científicos de Feynman foram variados. Onde havia um problema, lá estava ele a propor uma solução. Onde havia uma possibilidade, lá estava ele a lançar um desafio. Fez em 1959 uma célebre conferência onde lançou a área, hoje pujante, da nanotecnologia. E, em 1982, propôs a ideia de computação quântica, um domínio hoje muito auspicioso. O mundo bem pode agradecer ao físico.

Feynman é hoje um herói popular: há filmes, peças de teatro, bandas desenhadas e até uma ópera sobre ele. Numa das peças aparece a querer ensinar física teórica a prostitutas de Las Vegas. Apesar de ter tardado a falar, Feynman não tinha papas na língua. Só quando morreu ficou sem palavras. As suas últimas, no hospital, continuam a ser citadas: “Não gostaria de morrer segunda vez. É tão aborrecido.”

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

"136 líderes antecipam 2018"

Depoimento que prestei ao "Jornal de Negócios" e que saiu hoje numa edição especial de antevisão de 2018:

"O mundo está cheio de incerteza: é, por exemplo, dificil prever as humores de Trump. Mas para Portugal espero que continue e até se reforce o caminho de recuperação de confiança. Na ciência e tecnologia precisamos de mais emprego científico e maior presença de doutorados nas empresas, reforçando a competitividade destas."

CARLOS FIOLHAIS Professor da Universidade de Coimbra e administrador da Coimbra Genomics

OS CIENTISTAS TRESMALHADOS


Excerto de “A Ciência e os seus inimigos”, livro saído há pouco na Gradiva.de Carlos Fiolhais e David Marçal, que acaba de ser publicado na revista cultural do Porto "As Artes entre as Letras":

A anticiência encontra‑se por vezes dentro da própria ciência. Falamos de erros ou falhas da ciência, feitos por cientistas a que podemos chamar tresmalhados. De facto, pelo seu mau procedimento, colocaram‑se à margem da comunidade científica.

Há evidentemente erros involuntários na condução do trabalho científico. Já diziam os antigos Romanos que Errare humanum est, e os cientistas só mostram que são humanos quando erram. Os erros corrigem‑se e, depois de pedir desculpa, passa‑se à frente, aprendendo com eles. Existem erratas ou, por vezes, artigos completos a corrigir outros artigos. Não há nada de mal em encontrar erros, bem pelo contrário. Como bem assinalou o filósofo britânico Karl Popper, a procura do erro e o pão nosso de cada dia da ciência, já que ela consiste, na sua essência, na detecção de falsidades. Escreveu Popper: «Uma teoria será científica se e só se for falsificável» e «uma teoria é falsificável se alguém puder mostrar que é falsa ou se se puder refutar usando rigorosos testes empíricos.»

A ciência desenvolveu um método — chamado peer review  — que se destina a encontrar erros antes da publicação de qualquer escrito, o que em geral consegue fazer, sendo descartados os erros mais triviais. Não significa isto que alguns erros não possam escapar ao crivo da revisão por pares. Quando isso acontece, e se se tratar de um tema relevante a que se dedicam vários grupos de investigação, estes são identificados e corrigidos posteriormente, quando outros cientistas tentam replicar os resultados publicados. Ao longo da História, os cientistas sempre tentaram encontrar e descartar erros. Eles são, portanto, muito sensíveis a erros, isto é, desconformidades com a lógica ou com a realidade, sabendo que a verdade é um objectivo longínquo para o qual se caminha de uma forma contínua e progressiva. Embora a verdade seja um ideal eventualmente inalcançável, na maioria dos casos práticos é relativamente fácil para um cientista reconhecer a falta de verdade. O processo científico, onde a revisão por pares desempenha um papel essencial, foi criado e melhorado para cumprir a missão da ciência da melhor maneira possível.

A má ciência acontece quando os erros cometidos por cientistas são intencionais ou, não o sendo, não são reconhecidos pelos próprios quando apontados. Falamos então de fraudes científicas. A definição de fraude científica proposta por um painel britânico em 1999 é a seguinte: Comportamento de um investigador, intencional ou não, que não possui bons padrões éticos e científicos.» Fraude consiste, portanto, na violação dos códigos‑padrão de conduta ética na investigação científica, que implicam a adesão à verdade.

Um dos primeiros deveres dos cientistas é a permanente atenção aos factos. Os cientistas podem e devem ser imaginativos em relação às teorias, mas devem respeitar escrupulosamente os factos. As teorias devem ser ajustadas aos factos e não o contrário. E os factos em ciência são captados através dos chamados dados (data) que são tão sagrados como os factos, uma vez que são o retrato deles.

As fraudes podem assumir as mais variadas formas:

— Fabricação de dados. Podem‑se criar imaginativamente dados falsos para uma certa experiência ou observação. Podem‑se até relatar experiências ou observações que nunca foram realizadas. Como é óbvio, consegue‑se extrair dessa maneira quaisquer conclusões que se queiram, mas essas conclusões de científico não têm absolutamente nada. O método científico foi «macaqueado» mas a ciência é nenhuma.

— Falsificação de dados. Pode haver manipulação de dados, que consiste por exemplo no uso de dados fora do contexto particular em que foram recolhidos, ou na subtracção ou acrescento de alguns dados para que possa emergir uma «verdade» qualquer. Ou pode haver manipulação da experiência, fazendo controlo indevido das variáveis.

— Plágio. Consiste na apropriação do trabalho de outrem, incluindo a apropriação de um projeto experimental, do material experimental ou de dados. Pode também haver simplesmente a cópia de textos ou de imagens escritos ou obtidas por terceiros, sem qualquer referência de autoria.

O número de casos de fraude científica é, infelizmente, cada vez maior em todo o mundo. A razão é simples: nunca houve tantos cientistas como hoje — sim, a ciência continua em crescimento a escala global, apesar da acção de todos os seus inimigos — pelo que, mesmo que a probabilidade de publicação de erros intencionais seja reduzida (devido à acção da peer review), a sua ocorrência em valor absoluto é cada vez maior. Os sinos do sistema científico têm tocado a rebate, chegando o som a toda a sociedade. Por exemplo, a revista The Economist dedicou em 2013 uma capa à fraude na ciência (o título era How science goes wrong), levantando a questão de saber se ainda se podia confiar na ciência. O número de artigos retirados pelos autores ou pelos editores e, portanto, eliminados dos índices das revistas, é cada vez maior. É certo que algumas dessas retiradas podem ser devidas a um erro grave mas genuinamente cometido sem dolo. Mas muitos desses artigos retirados nunca deviam ter sido publicados por enganarem deliberadamente os leitores e prejudicarem o bom nome da ciência. As revistas sérias tomam precauções redobradas, mas há cada vez mais revistas publicadas apenas na internet com processos de revisão duvidosos ou mesmos sem qualquer revisão: é um negócio, basta pagar para conseguir a publicação. Claro que há alguns sinais de alarme que nos podem deixar de sobreaviso, se olharmos, por exemplo, para o factor de impacto dessas revistas, uma medida que contabiliza o número de citações médio de cada artigo nela publicado. É muito fácil publicar o que se queira em certas revistas irrelevantes e obscuras. Há casos espantosos de artigos completamente ininteligíveis, escritos basicamente ao acaso por um computador, que foram aceites para publicação porque foi paga a taxa de publicação. Alguém fica com o dinheiro e nós ficamos com o lixo na internet. Sim, a internet está cheia de lixo, mesmo no sector das publicações alegadamente científicas.  (…)

Reinvenção foi palavra-chave no discurso de ano novo do Presidente - Política - RTP Notícias

Reinvenção foi palavra-chave no discurso de ano novo do Presidente - Política - RTP Notícias

Inclui declarações que fiz à RTP:

"O Presidente da República falou no seu discurso de Ano Novo da necessidade de “reinventar o futuro” no contexto da referência aos trágicos incêndios de 2017. 

De facto há que reconhecer que houve erros que agravaram catástrofes, que por isso só em parte foram naturais. Temos que aprender com os erros fazendo melhor.

É preciso pôr a ciência ao serviço da floresta, a ciência ao serviço do ambiente, a ciência ao serviço da protecção civil, a ciência ao serviço das nossas vidas. 

O grande escritor irlandês George Bernard Shaw disse: “O sucesso não consiste em não cometer erros mas em não cometer os mesmos erros duas vezes”.

Reinventar é precisamente fazer diferente, o que passa por um Portugal mais equilibrado e por um Portugal mais seguro em todo o lado.


Temos em Portugal ciência, boa ciência, mas falta-nos por vezes a sua aplicação a tempo. Reinventar Portugal deve ser colocar a ciência em nosso benefício." 

“Los valores en la educación de África de ayer a hoy”

Da responsabilidade de José María Hernández Díaz e de Eugenie Eyeang, o livro “Los valores en la educación de África de ayer a hoy”, escrito em três línguas (espanhol, português e francês) e editado pela Universidade de Salamanca em finais de 2017, é mais do que a apresentação do resultado de investigação universitária. Tendo por base a investigação universitária, robustece as débeis pontes que ligam a Europa e a África em matéria de educação escolar, mais precisamente, do seu valor que ela tem e dos valores que a devem guiar. 

Uma breve nota curricular dos autores principais e do conteúdo da obra ajudará a explicar esta afirmação. 

Hernández Díaz, professor catedrático de “Teoria e História da Educação” da Faculdade de Educação da Universidade de Salamanca, é um académico reputado. No seu vasto e consolidado trabalho conta-se a coordenação do grupo de pesquisa “Memoria y Proyecto de la Educación”.

Eyeang, professora da Escola Normal Superior de Libreville e directora do “Centre de Recherche Appliqué aux Arts et aux Langues”, especializou-se na área da sociodidáctica, dedicando-se, sobretudo, à formação de professores de línguas e ao estudo dos valores éticos no campo da educação, onde tem uma vasta lista de publicações.

Partindo da mesma linha de pensamento no respeitante aos mencionados valores, os dois autores têm aproximado não só Espanha e o Gabão mas também outros países europeus e africanos, bem como o Brasil, na tão necessária reflexão sobre os seus sistemas de ensino. 

Estamos perante uma reflexão que visa saber para compreender e compreender para melhorar. Este é, de facto, o cerne da extensa obra em destaque. 

São 799 páginas que se materializam numa introdução (“África, sus valores y la educación”) e em quatro partes (“África, valores y educación. Questões a debate”; “Valores pedagógicos de África, desde si misma. Experiências”; “Miradas poliédricas sobre África, valores y educación”; e “Tiempos e miradas posnacionais. A propósito de África”), em que se organizam sessenta e cinco artigos de participantes no “II Foro sobre África de Educación y Desarrollo”, que teve lugar na Universidade de Salamanca em finais do último Outubro. 

Na Introdução, Hernández Díaz e Eyeang destacam, em termos de educação escolar, a importância de “seguir-se o caminho da hibridação cultural, onde caibam todas as expressões e valores que estejam à altura da defesa dos direitos do homem e do cidadão”. É este, de resto, o sentido comum dos artigos que se seguem, veiculando “leituras genéricas, históricas e actuais, análises de experiências e práticas socioeducativas [bem como] leituras críticas sobre os valores que se difundem na escola e o seu lugar no currículo, a simbologia inerente ao quotidiano escolar, os manuais escolares, a organização do tempo e do espaço educativo em diferentes países africanos”. 

Trata-se especialmente, ainda que não exclusivamente, de “contribuições elaboradas desde a própria raiz africana, desde os agentes educativos que actuam com a convicção do potencial transformador da educação para a melhoria social”, pois, face a “fenómenos de dor colectiva (…) não se podem cruzar os braços, nem nunca se deve aceitar o conformismo do inevitável”.

Esta recusa de nada pensar nem fazer perante os desígnios dos sistemas educativos que se desviam daqueles que concorrem para o bem-estar da humanidade revela-se uma das mais-valias da obraO que é tanto mais importante quando se tem visto, nas últimas décadas, múltiplos sistemas de todo o mundo sucumbirem à uniformização neoliberal, mesmo não deixando de declarar que as suas políticas se encontram norteadas para a formação de cidadãos democratas e autónomos e para dar resposta a especificidades concretas das populações.

Sendo uma realidade imposta por entidades e empresas de dimensão supra-nacional centradas no lucro financeiro, saem destacadas as competências funcionais exigidas pelo mercado de trabalho, as quais, nessa medida, devem ser adquiridas por todos os alunos, sem outra qualquer alternativa. Face a esta realidade, interpretada por vários dos autores como manifestamente limitativa, susceptível de configurar novas formas de colonialismo, há um dever por parte de quem tem responsabilidades educativas de a analisar em função dos valores éticos e de procurar alterá-la.

Uma segunda mais-valia da obra é a visão da educação que proporciona a partir da realidade africana, o que, na verdade, não é costume nas universidades europeias. Realmente, o estudo dessa realidade, “no melhor dos casos”, traduz-se, disse Hernández Díaz ao jornal “Ensino Magazine” de 20 de Julho, em “alguma presença testemunhal em programas culturais (…) mas não muito mais. O que significa que África continua submetida ao ostracismo académico, ao esquecimento científico”. Assim, “merece um espaço nas nossas universidades, nas aulas e projectos, nos currículos, nos livros e revistas, nos congressos”, potenciando a emergência de “novos paradigmas de conhecimento e de cultura pela dimensão global e mundial dos problemas que abordamos na nossa docência e investigação”.

Em concreto, para a questão dos valores importa consolidar e ampliar redes capazes de sustentarem estas duas dimensões. Note-se que algumas redes desse teor já são bem visíveis em trabalhos, tanto teóricos como de observação e análise empírica, apresentados no livro, e das quais resulta uma ponderação axiológica que vai além do que é convencional publicar-se. 

Uma terceira mais-valia, que está longe de ser a última a poder ser apontada à obra, é o ângulo que se destaca nessa visão: o das ciências da educação. Estamos num domínio diverso, onde se encontram pressupostos divergentes e modos de laborar nem sempre consistentes, circunstância que, em geral, acarreta suspeitas quanto à validade e pertinência das suas produções, podendo torná-las exercícios estéreis, sem consequências para o melhoramento da educação, afinal o seu fim último. 

Ora, o conteúdo em apreço deixa ao leitor uma ideia bem diferente: foi possível que mais de meia centena de especialistas ligados a tal domínio, de geografias distantes e com vivências distintas se focalizassem numa temática e a abordassem de forma abrangente e, ao mesmo tempo, profunda, conseguindo um núcleo duro de conhecimentos, que dignifica as próprias ciências da educação. Núcleo que, uma vez explorado e apropriado pelos sistemas de ensino, eventualmente com apoio das universidades, poderá ajudar, por via da educação, a encarar alguns dos problemas com os quais as sociedades contemporâneas se confrontam, sendo que um dos mais prementes é a deriva dos valores éticos em favor de “valores” que não o são nem o podem ser, sob pena de se entrar num retrocesso civilizacional, já declarado em obras de referência. 

A apreciação geral da obra faz ressaltar duas ideias para o presente e o futuro: o valor inquestionável da educação escolar e dos valores éticos que permitiram a marcha da humanidade e, afinal, lhe conferem substância e unidade; e a difícil tarefa que cabe aos educadores quando fazem valer esses valores, visto que o mundo manifesta prioridades pouco compatíveis com eles.

ESTE É UM CAMINHO QUE A ESCOLA PÚBLICA NÃO PODE RECUPERAR

Compare-se a letra inequívoca da Lei com a fotografia (muitíssimo perspicaz) de Tiago Miranda. O título da notícia (ver aqui ) alude ao ...