sábado, 8 de setembro de 2012

Cursos do Ensino Técnico no Brasil e em Portugal


Elimina“A escola única é uma ficção, um igualitarismo funcional que nada tem a ver com a igualdade real” (Jean-Luc Mélenchon, ex-candidato às eleições presidenciais francesas de 2012, “L’Express, 22/03/2001).
Meses atrás, deparei-me com o post, Cursos técnicos x bobagens académicas (24/04/2012), publicado no blogue brasileiro, Boteco Escolar - Ensaios sobre uso de blogs em educação. Nele foi transcrito integralmente o meu post, "O Deputado Paulo Rangel, Canudos e Desemprego” (22/04/2012), com a seguinte introdução:“Dias atrás, dois amigos me contaram as bobagens que certos acadêmicos andam fazendo com o ensino técnico no Brasil. A bobagem maior é a de oferecer muita teoria, esvaziando o conteúdo técnico dos cursos. Eu precisaria de mais informações para analisar com cuidado o que está acontecendo. Mas, acho que o texto sobre o assunto, escrito em Portugal, no blog De Rerum Natura, oferece um bom quadro daquilo que meus amigos me contaram. A matéria é escrita pelo educador Rui Baptista e achei por bem reproduzí-la aqui”.

Deveras honrado com o interesse que este meu post despertou no país irmão, publiquei um novo post, aproveitando a boleia do sugestivo título Cursos Técnicos x Bobagens Académicas, que muito foi valorizado pelos comentários aí deixados, mormente um deles, da autoria de um brasileiro, Jarbas Novelino Barato, que vim a saber mais tarde tratar-se de uma personalidade detentora do mestrado em tecnologia educacional pela San Diego State University e doutor em educação pela Unicamp, professor da Universidade São Judas Tadeu com especialização em educação profissional numa prática de mais de trinta anos no Senac São Paulo.
Pelo seu grande interesse, reproduzo esse comentário que muito valorizou o meu post:
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“Rui, Muito bom ler sua crítica à desfiguração do ensino técnico aí em Portugal. Com pequenas mudanças, para tropicalizar a linguagem, tudo o que você escreve cai como luva para as bobagens que fizeram como ensino técnico no Brasil.Não vou muito longe. Começo com a história da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1971. Essa lei, que profissionalizou todo o ensino secundário no Brasil, sucateou o ensino técnico. Acadêmicos que nunca tinham visto uma oficina em suas vidas começaram a ditar regras para a formação profissional nas escolas. Resultado: um desastre, acompanhado pelo desmonte do ensino técnico que foi construído por gente que entendia de trabalho e gostava do que fazia em oficinas e empresas de aplicação (fazendas, lojas e hotéis escolas, por exemplo).

Conto uma história acontecida logo depois da Lei 5692/71. Com a unificação do ensino, carreiras de dirigentes do ensino geral e profissional foram equiparadas. Graças a tal equiparação, diretores de escolas primárias [formados em pedagogia por onde o trabalho não passa] puderam candidatar-se a cargos de direção das antigas escolas técnicas. Uma senhora, com muito tempo de experiência na educação de crianças, assumiu uma das escolas técnicas, da área de tecnologia agrária, situada numa fazenda. Ao inspecionar as instalações, a nova diretora viu um touro magnífico, bem nutrido de carnes. Ordenou que o animal fosse sacrificado para churrasco de posse. O touro da história era uma matriz importada, produtor de material genético que vinha sendo utilizado em experiências de reprodução em todas as escolas técnicas agrárias do Estado de São Paulo...Atualmente está em curso um projeto de educação integrada no ensino técnico brasileiro. A proposta é liderada por acadêmicos cujo saber sobre formação profissional é, quando muito, livresco. A consequência é uma desvalorização da técnica enquanto saber. Há muito que comentar sobre isso, mas fica para uma outra ocasião.
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Se interessar, posso lhe encaminhar duas obras que analisam algumas das dimensões do assunto que é objeto dessa nossa conversa:"Educação Profissional: Saberes do Ócio ou Saberes do Trabalho", e"Saber no Trabalho: Valorização da Inteligência do Trabalhador". Sou autor do primeiro livro. O segundo livro é tradução de obra de Mike Rose, professor da UCLA.Mande-me seu endereço postal para que eu possa encaminhar-lhe as citadas obras. Para tanto, envie mensagem para o meu Email. Grande abraço, Jarbas”.
Como é óbvio, logo agradeci a preciosa oferta, tendo-me chegado, pouco tempo depois, esses dois livros. Do livro do Professor Jarbas Novelino Barata, reproduzo integralmente a explicação por si dada sobre o título do seu livro, ao escrever na respectiva introdução (pp. 31 e 32):
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“O conhecimento marcado pelos rigores intelectuais daquilo que chamamos de filosofia e ciência tem as suas origens no século VIa.C., numa cidade da antiga Ásia Menor, chamada Mileto. Tales, Anaximndro e Anaxímenes, são os primeiros pensadores conhecidos a formularem teorias explicativas e racionais sobre a origem e a evolução da matéria. Inauguraram um modo de pensar, libertado da religião e de mitos, cujo desenvolvimento foi ganhando os contornos daquilo que hoje recebe o nome de ciência. Como observava Gottlieb, segundo Aristóteles a produção dos filósofos de Mileto aconteceu graças ao tempo de lazer de que eles desfrutavam numa cidade cujo comércio internacional liberava alguns dos seus cidadãos para um pensar descomprometido com as coisas do dia-a-dia. Essa associação entre produção do conhecimento e ócio (assim como muitas outras observações de Aristóteles) marcou profundamente a cultura ocidental. Acostumamo-nos assim a ver o conhecimento como teoria desvinculada do fazer.
A tradição aristotélica atravessou séculos e criou uma fronteira nítida entre teoria e prática. É preciso considerar, porém, que as actividades humanas, sobretudo aquelas às quais damos o nome de trabalho, começaram a se estruturar muito antes do surgimento do pensamento descomprometido dos filósofos de Mileto. Embora não fossem frutos de ócio, as técnicas de navegação marítima que garantiam a riqueza de Mileto eram conhecimento. Essa dimensão do saber dos homens não mereceu muita atenção de Aristóteles. Mais que isso: foi ignorada pelo pensamentA tradição aristotélica atravessou séculos e criou uma fronteira nítida entre teoria e prática. Por isso, em situações de educação sistemática, valoriza-se hojeo hegemônico que estruturou a educação sistemática no mundo ocidental.
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No dia-a-dia dos educadores, a valorização dos saberes do ócio e a correspondente desvalorização dos saberes do trabalho aparecem num discurso que subordina a prática à teoria. Mais do que isso: aparece em formulações que reduzem a técnica ao "status" de “mera habilidade”. Neste livro procuro mostrar um caminho que se contrapõe ao modo tradicional de pensar as relações entre o conhecimento construído por sábios que podem contar com tempo livre para elaborar suas teorias e sábios que inventam os fazeres que nos produzem enquanto seres humanos. Para marcar a tensão entre duas tradições distintas do saber, que certamente influenciaram e continuam a influenciar modos de ver percursos de educação profissional, escolhi um título pouco usual para esta obra. À referência ampla do tema (Educação profissional) agreguei uma pergunta que apresenta de modo contundente as ideias propostas neste livro: ‘Saberes do ócio ou saberes do trabalho?’ Espero que a minha contribuição sirva para mostrar que o modo hegemônico de privilegiar os saberes do ócio, nos sistemas e escolas que pretendem formar trabalhadores, empobrecem a educação profissional. Espero, ao mesmo tempo, que a valorização dos saberes do trabalho mostre um caminho que não ignora o conhecimento que nasce das actividades produtivas”.
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Eu, por meu lado, espero (no dizer do povo: “A esperança é a última coisa a morrer") que a introdução deste livro, acima transcrita, seja lida e meditada pelos responsáveis governamentais pelo ensino profissional ou simples opinion-makers para que ilumine as esconsas e escuras vielas para que remeteram o ensino técnico em ambos os países irmãos abastardando a sua verdadeira função e poluindo-a, por vezes, com argumentos que nada acrescentam ao assunto baralhando-o mesmo. Para que tal aconteça é necessário que prevaleça “o soberaníssimo bom senso”, de que nos falou Antero!

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

NORMAN ROBERT POGSON e a escala de magnitudes estelares


Novo artigo sobre astronomia de Guilherme de Almeida:

Pogson, astrónomo britânico, será para sempre recordado pela sua escala de magnitudes, quantificada pela equação com o seu nome, e pelos trabalhos em estrelas variáveis e asteróides. Neste artigo acompanharemos a sua vida e o desenvolvimento da sua famosa equação.

Sobre os perigos da radiação electromagnética

Da coluna de Robert Park, What's New:

WHAT IS THE ORIGIN OF THIS COSTLY MISTAKE?

For nearly two decades staff writer Paul Brodeur performed a genuine public service by informing New Yorker readers of the health hazards of exposure to everything from asbestos, to microwave radiation. Brodeur, however, has no science background and no sense of what the numbers mean; radiation was radiation, whether it was power-line fields or microwaves. In 1979, when epidemiologist Nancy Wertheimer charged that 60 Hz power-line radiation is responsible for childhood leukemia, Brodeur wrote a series of supportive articles in the New Yorker about the dangers of power-line fields. They were gathered together in books with lurid titles like Currents of Death.

Brodeur was not there in 1996 when the National Academy of Sciences released the results of an exhaustive three-year review of the possible health effects of exposure to residential electromagnetic fields. He had been fired by the New Yorker four years earlier. The unanimous conclusion of the NAS panel was that "the current body of evidence does not show that exposure to these fields presents a human health hazard." Why had it taken so long, and why had there been no comment from epidemiologists? Perhaps the scientific community should use more direct language in stating conclusions that are so obviously wrong and so dangerous.

SCIENCE: WHAT DO WE NEED TO DO DIFFERENTLY?

We need to explain the basics of the electromagnetic spectrum to every literate person. It shouldn't be that difficult. Children are transfixed by the sight of a prism breaking sunlight into a rainbow. They need to understand that the visible rainbow is only a tiny sliver out of a spectrum of electromagnetic radiation that ranges from harmless radio waves to deadly gamma rays. The same spectrum should hang on the walls of every classroom and appear in every news article that talks about cell-phone radiation,skin cancer, and x-rays.

Portugal um país de amigos e irmãos: Sou neto de portugueses!


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A PALAVRA NO ENSINO E NA DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA

Novo texto do Professor Galopim de Carvalho.
Divulgar, no sentido de espalhar conhecimento entre o vulgo, e ensinar na escola pressupõem o uso de palavras acessíveis a quem as ouve ou lê e a necessária descodificação dos jargões próprios das diferentes actividades ou disciplinas. O discurso do divulgador, como o do professor, tem de ser simples, sem perda de rigor, apelativo e, sempre que possível, agradável. Façamos, pois, o jogo das palavras e vejamos como elas nos abrem à melhor compreensão do Mundo.

Ao escrever sobre temas de Geologia em livros de ensino e de divulgação, revistas, jornais e, nos últimos anos, também em blogues, tenho tido em vista habilitar os leitores com elementos fundamentais à compreensão do mundo físico que habitamos, na convicção de que alguns deles são professores das nossas escolas básicas e secundárias, públicas e privadas, onde o ensino desta disciplina tem forçosamente de melhorar de conteúdo e de estilo, sob pena de continuarmos com o défice de cultura científica nesta área fundamental à nossa formação como cidadãos.

Salvo as excepções que valorizam a regra, este défice caracteriza a sociedade portuguesa a todos os níveis, dos governantes aos mais humildes, governados, dos médicos e enfermeiros aos auxiliares de saúde, dos industriais e comerciantes aos militares e aos funcionários públicos, dos artistas de todas as artes aos jornalistas, politólogos e comentadores de serviço, dos juristas e economistas ao operariado urbano e rural, aos motoristas de táxi e à malta do pontapé na bola.

De forma avulsa, simples e de leitura acessível ao comum dos cidadãos, estes textos constituem uma abordagem ao conhecimento de um certo conjunto de conceitos, e respectivos vocábulos, uns traduzíveis por palavras do domínio vulgar, como granito, erosão, montanha, minério, gás natural, vulcão e muitos mais, e outros tão afastados do nosso quotidiano, como anatexia, obducção, lamproíto, alodápico, gliptogénese, huttoniano, num nunca mais parar de palavras que perfazem o léxico das ciências da Terra, em número de alguns milhares. A palavra, dizem os entendidos, é uma característica exclusivamente nossa, que nos distingue dos restantes animais a que, de um modo demasiado simplista, chamamos irracionais.

Esta nossa capacidade reside nos escassos pontos percentuais que nos distanciam do código genético dos primatas. Porque não aproveitar então essa capacidade e fruir os bens que o saber e o pensar nos oferecem?

Já em 1732, Domingos Rodrigues, cozinheiro da Casa Real, escrevia «Não devem os homens só saber para si, porque isso é enterrar o talento que Deus lhes deu, devem sim comunicar os empregos de sua habilidade, para que os menos inteligentes, ou aprendam o que não sabem ou saibam o que não aprenderam».

À semelhança dos restantes domínios científicos, os neologismos criados pelos cultores das ciências da Terra, uns estão sancionados pela comunidade científica da especialidade e muitos outros têm vindo a cair em desuso e, por isso, ditos obsoletos. Todos eles, no entanto, se revestem de interesse para o conhecimento das origem, natureza e evolução desta “Bola Colorida” perdida na imensidão do cosmos, que é a nossa casa e onde, por enquanto, reside tudo o que temos, o ar, a água e o chão que pisamos e nos dá o pão. Assim, não se pode deixar de usar uma terminologia própria, na maioria pouco comum no dia-a-dia do cidadão comum, mas cujos conceitos, no geral simples e muitos deles evidentes, são indispensáveis à sua formação.

Como em qualquer disciplina científica, a terminologia utilizada foi sendo criada pelos respectivos estudiosos, quer no passado, por um número relativamente reduzido de sábios, como eram então designados, quer no presente, em que todos os dias surgem novos termos como resultado do trabalho de uma vasta comunidade de geólogos, mineralogistas, petrógrafos, geoquímicos, geofísicos e outros.

Oriundos das classes tidas por mais cultas, bebendo sabedoria nos autores clássicos, os primeiros criadores de conhecimento científico, na imensa maioria ligados à Igreja, sempre privilegiaram os caminhos da erudição. Surgidos durante a Renascença, mas sobretudo a partir do século XVIII, estes estudiosos foram engrossando os seus léxicos com termos construídos geralmente a partir de raízes ou étimos procurados no grego antigo e no latim, línguas clássicas só acessíveis a essas elites, uma minoria na sociedade de então. O número desta classe de homens interessados na ciência aumentou substancialmente a partir da centúria de novecentos, em consequência da abertura do espírito aos ideais do Iluminismo e da Revolução Francesa e, desta vez, fora das amarras da Igreja.

Todavia, este tipo de ocupação manteve-se confinado a uma elite sociocultural e só se libertou desta tutela no decurso do século XX, com a democratização da investigação científica. Não obstante esta evolução, a terminologia científica manteve-se, por tradição, erudita, ao mesmo tempo que o estudo do grego e do latim foi deixando de fazer parte dos curricula escolares de base.

Hermética quando lhe desconhecemos o significado, abre-se-nos de imediato à compreensão se lhe descodificarmos os elementos constituintes, sendo este um dos papéis do pedagogo. Assim, por exemplo, limnologia um termo criado a partir do grego, limné (lago) e logos (estudo, conhecimento), e outros, ainda menos frequentes, passam a ser tão compreensíveis como os que fazem parte do nosso vocabulário corrente.

A mais simples e vulgar das palavras é tão importante na comunicação, rápida e precisa, do nosso quotidiano, como qualquer vocábulo especializado da mais sofisticada linguagem técnico-científica. Qualquer actividade humana tem, pois, a sua própria linguagem feita de palavras faladas e escritas. Via de regra, um físico teórico, um imunologista ou um maestro não sabem o que é um “badame”, mas um velho carpinteiro teve-o nas mãos e alisou com ele muitas pranchas de madeira; nunca ouviram falar de “ferro de brunir” mas os raros sapateiros que vão resistindo à sociedade de consumo, lidam todos os dias com a ferramenta de dar brilho, com cera, às viras dos sapatos.

Se é certo que entre as sociedades mais primitivas se pode conviver com um número reduzido de palavras ou expressões, na ordem das centenas, um técnico especializado, um cientista ou um qualquer intelectual usam milhares de termos e expressões familiares entre pares, mas inacessíveis à maioria dos cidadãos. Quem é que entende o falar de alguns médicos, economistas e juristas quando, entrevistados na rádio ou na TV, se esquecem da função pedagógica que poderiam e deveriam ter? A erudição, todos sabemos, ainda é, muitas vezes, usada como estatuto de classe. Mas são precisamente os detentores dessa erudição que têm o dever de como escreveu Domingos Rodrigues, no século XVIII, «…comunicar os empregos de sua habilidade, para que os menos inteligentes, ou aprendam o que não sabem ou saibam o que não aprenderam».

No discurso próprio das ciências da Terra, para além da nomenclatura de âmbito geral, há que estabelecer contacto com uma outra, repleta de termos mais especializados. A verdade é que não podemos dispensá-los se quisermos tornar claros meia dúzia de conceitos básicos necessários ao conhecimento de alguns dos materiais e processos geológicos com que diariamente convivemos. Uns, como se disse, são expressos por termos acessíveis ao comum dos cidadãos, outros, menos usados, têm significados precisos e essenciais à compreensão dos temas próprios desta disciplina científica, sendo sempre necessário descodificá-los.

Se o vocabulário de uma qualquer área do conhecimento não for suficiente e correctamente explicado e se, pelo contrário, for debitado como algo a memorizar, em cumprimento de um programa mal concebido ou mal interpretado, o que acontece no mau ensino, um tal vocabulário acaba sempre, mais tarde ou mais cedo, por ser lançado no caixote do esquecimento, por desnecessário e enfadonho, deixando assim espaço para coisas tidas por «mais interessantes», com evidente e grave prejuízo a nível da formação que a escola tem o dever e a obrigação de dar.

De tão vasto vocabulário poderá concluir-se que não foram simples, mas antes múltiplos e complexos, os caminhos percorridos pelos criadores do conhecimento científico e do respectivo vocabulário, complexidade e vastidão que temos sempre maneira de apresentar numa linguagem dirigida aos não especialistas. Ao professor e ao divulgador compete, a cada momento e sempre que oportuno, começar por «traduzir por miúdos» os termos que não pode deixar de utilizar.

É neste compromisso, devidamente acompanhado de equilíbrio entre o uso da terminologia especializada e a sua descodificação numa linguagem acessível e, se possível, atraente, que reside o êxito da transmissão do conhecimento, quer na aula, na palavra falada, do professor para os alunos, quer na palavra escrita, do autor para o leitor.

No passado ainda recente aceitava-se como normal a existência de elites intelectuais exercendo actividades como ler, escrever e outras, consideradas menos interessantes e nada apelativas por parte de uma população maioritariamente ignorante nesses domínios, a quem apenas se pedia ou exigia trabalho braçal. Estereotipados pelo romantismo em grandes bibliotecas escuras e bafientas, entre livros poeirentos e teias de aranha, os sábios de então eram tidos por criaturas estranhas, tantas vezes meio loucas e até, nalguns casos, com eventuais ligações a Lucifer. Entre o vulgo, poucos ou nenhuns tinham acesso ao trabalho pioneiro destes precursores da investigação científica.

Foram poucos os homens e muito raras as mulheres aspirantes à investigação científica, actividade que, para a imensa maioria dos cidadãos, era destituída de qualquer atracção. Estudar? Matar a cabeça, para quê? São expressões em declínio, mas que foram o dia-a-dia de gerações e gerações e ainda o são numa parte importante da sociedade dos nossos dias, mesmo em muitos dos países reconhecidos como democráticos.

Cidadania e conhecimento são indissociáveis e, assim, este tem forçosamente de ser democrático, como bem escreveu Keay Davidson, o notável biógrafo de Carl Sagan. Em complemento da sua nobre missão de ensinar, o professor deve fazer sentir esta realidade aos seus alunos, em especial aos mais desprotegidos e atingidos pela exclusão social que grassa em tantas escolas marcadas pela suburbanidade crescente que caracteriza as sociedades desenvolvimentistas.

O sistema social e político dominante na sociedade capitalista continua a promover e alargar o fosso entre os que estudam, e assim aspiram e conquistam o direito à cidadania, e os outros. Transmitir esta mensagem aos jovens é um dever moral, essencial na luta contra o insucesso escolar e pelo direito a uma condição humana de maior dignidade. Não é fácil, mas não é impossível esta tarefa.

Há que saber ganhar a confiança dos alunos e, também, o seu afecto. Feliz do estudante que goste da convivência com o seu professor. Essa relação é decisiva na sua atitude face à escola e ao gosto pelo saber. Duplamente feliz se esse professor estiver à altura do seu papel que, para além de educacional, é, sobretudo, social.

Galopim de Carvalho

Todos os caminhos vão dar a Benavente


Ministério divulga Metas Curriculares do Ensino Básico

Com este título pimpão, o Ministério da Educação e Ciência lançou, no dia 3 de agosto, o documento aguardado.
Os vários textos das 5 metas curriculares, postas ao gosto do dia, surgiram numa secção do Sítio do Ministério que tem como título «Mantenha-se atualizado».
Adequado seria «Mantenha-se calmo»: analisados, os 2 textos relativos à Educação Visual e à Educação Tecnológica são vibrantes de novidade.
O primeiro texto mata, definitivamente, a aprendizagem do Desenho no Ensino Básico; quem quiser aprender a desenhar terá de esperar pelo 10.º ano (altura em que a simpática disciplina é introduzida no currículo oficial português). O segundo texto cria uma ciência nova: a Tecnologia; os primeiros passos são dados apenas no 5.º e no 6.º anos de escolaridade, mas estima-se que, num futuro próximo, esta (igualmente simpática) nova ciência possa vir a ter predominância em todos os currículos do Ensino Secundário, antes de substituir a Física nas universidades nacionais e, de seguida, nas finlandesas.
Curiosos, aguardamos.
O MEC anunciara propósitos de clareza, afirmando que as metas serviriam como «[…] um meio privilegiado e fundamental de apoio à planificação e organização do ensino, constituindo uma ajuda para o professor na escolha das estratégias a seguir.» e, igualmente, «[…] um apoio para os encarregados de educação no acompanhamento dos seus educandos.»
O tom das Metas seria dado pelo seguinte: «Houve a preocupação de as formular de forma clara e precisa.»
Exemplificando:
«As metas para Educação Visual estão estruturadas por ano letivo e os seus conteúdos apresentam uma estrutura de complexidade programada, segundo três eixos de progressão da complexidade: horizontal, vertical e domínio. O eixo horizontal projeta-se ao longo dos anos (do 5º ao 9º ano) e evidência [sic] a articulação entre objetivos gerais. O eixo vertical projeta-se ao longo de um ano específico e evidência [re-sic] a articulação entre domínios. O eixo do domínio projeta-se verticalmente ao longo dos objetivos gerais, em que o último dá relevo a processos cognitivos, que estruturam os conteúdos do domínio em questão.»
Aguardamos, de facto, curiosos: o mesmo autor de «O "Eduquês" em Discurso Directo» subscreve estes mimos? Já o disse antes: há mais ministério além de Nuno Crato. Assim, em matéria de EV e ET, todos os caminhos irão dar a Benavente.
António Mouzinho

Culpados? Só podem ser os Professores


O Ricardo Araújo Pereira vê o mundo de uma forma muito direta. E claro é genial. E escreve muito bem. E tem razão, geralmente. Só não percebo a mania dele pelo Benfica... mas enfim. Aqui fica um crónica dele na Visão sobre os Professores, segundo ele os grandes culpados do estado do ensino em Portugal.

:-)

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Neste momento, é óbvio para todos que a culpa do estado a que chegou o ensino é (sem querer apontar dedos) dos professores. Só pode ser deles, aliás. Os alunos estão lá a contragosto, por isso não contam. O ministério muda quase todos os anos, por isso conta ainda menos. Os únicos que se mantêm tempo suficiente no sistema são os professores. Pelo menos os que vão conseguindo escapar com vida.

É evidente que a culpa é deles. E, ao contrário do que costuma acontecer nesta coluna, esta não é uma acusação gratuita. Há razões objectivas para que os culpados sejam os professores.
Reparem: quando falamos de professores, estamos a falar de pessoas que escolheram uma profissão em que ganham mal, não sabem onde vão ser colocados no ano seguinte e todos os dias arriscam levar um banano de um aluno ou de qualquer um dos seus familiares.

O que é que esta gente pode ensinar às nossas crianças? Se eles possuíssem algum tipo de sabedoria, tê-Ia-iam usado em proveito próprio. É sensato entregar a educação dos nossos filhos a pessoas com esta capacidade de discernimento? Parece-me claro que não.

A menos que não se trate de falta de juízo mas sim de amor ao sofrimento.

O que não posso dizer que me deixe mais tranquilo. Esta gente opta por passar a vida a andar de terra em terra, a fazer contas ao dinheiro e a ensinar o Teorema de Pitágoras a delinquentes que lhes querem bater. Sem nenhum desprimor para com as depravações sexuais -até porque sofro de quase todas -, não sei se o Ministério da Educação devia incentivar este contacto entre crianças e adultos masoquistas.

Ser professor, hoje, não é uma vocação; é uma perversão.

Antigamente, havia as escolas C+S; hoje, caminhamos para o modelo de escola S/M. Havia os professores sádicos, que espancavam alunos; agora o há os professores masoquistas, que são espancados por eles. Tomando sempre novas qualidades, este mundo.

Eu digo-vos que grupo de pessoas produzia excelentes professores: o povo cigano.

Já estão habituados ao nomadismo e têm fama de se desenvencilhar bem das escaramuças. Queria ver quantos papás fanfarrões dos subúrbios iam pedir explicações a estes professores.

Um cigano em cada escola, é a minha proposta.

Já em relação a estes professores que têm sido agredidos, tenho menos esperança.

Gente que ensina selvagens filhos de selvagens e, depois de ser agredida, não sabe guiar a polícia até à árvore em que os agressores vivem, claramente, não está preparada para o mundo.

Ricardo Araújo Pereira in Opinião, Boca do Inferno, Revista Visão

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O ENSINO PROFISSIONAL NA ORDEM DO DIA


Meu artigo de opinião saído hoje no Público:

O Ministério da Educação está a preparar cursos vocacionais para o básico para a aprendizagem de ofícios. Logo, aqui, como de costume, surgiu a controvérsia num país em que “a mediocridade é a lei” (João Lobo Antunes) e em que, consequentemente, qualquer tentativa de mudança, mesmo que sob a forma de projecto-piloto, é vista como um atentado a conquistas revolucionárias decretadas em nome de uma sociedade sem classes para que todos os portugueses pudessem ter o “direito” de se licenciarem,ainda que em estabelecimentos de ensino superior privado, para serem cruelmente lançados no desemprego, excepcionando aqueles que fazem ( fizeram ou venham a fazer) parte de algum governo ou se tornem políticos profissionais.

Por acreditar, por experiência docente em início de carreira na Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque de Lourenço Marques, num ensino técnico exigente e devidamente dignificado (não considerado parente pobre do antigo ensino liceal) repudio algumas vozes que tentam convencer a opinião pública da bondade do boom operado no actual sistema educativo que se traduziu em aumentos exponenciais de cidadãos, de posse de diplomas de ensino superior, que pouco sabem de teoria e muito escasseiam em“know-how”.

Reporto-me, portanto, a um ensino técnico capaz de forjar cidadãos que muito se orgulham da escola que os diplomou e do respectivo corpo docente (vindo muitos a diplomarem-se pelos antigos Institutos Industriais e alguns a obterem licenciaturas em Engenharia em Faculdades do Estado), conforme o atestado num agradecimento público - em “site” de antigos alunos da Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque, de Lourenço Marques - pondo em destaque de gratidão a formação recebida. Transcrevo desse agradecimento:

“Naturalmente que, como em tudo, no respeitável corpo docente que ao longo dos anos leccionou na nossa escola, nem todos conseguiram ser populares, mas todos contribuíram, de uma forma ou de outra, para a nossa formação, quer como estudantes, quer como pessoas. Alguns deixaram a sua marca.(…) Ainda hoje, e eu faço notar isso aos meus filhos, eu sei o nome dos meus professores, e faço questão de realçar a sua competência. Pena que nem todos eles possam já tomar conhecimento de que também fazem parte da nossa saudade académica”.

Hoje, o ensino secundário realiza-se em escolas em que se amalgamam alunos das vias científico-humanística, artística e profissionalizante, a partir do 9.º ano de escolaridade, esta, a maior parte das vezes, não como uma opção, mas como forma de dar um novo e tardio rumo a uma vida escolar fracassada e de desilusão em contraste com um tempo de décadas atrás em que os estudantes do ensino técnico tinham verdadeiro orgulho na sua condição que não era melhor nem pior do que a dos discentes do ensino liceal, apenas diferente. Isto,em contraste com os dias de hoje em que alunos do ensino politécnico há que, em busca de um falso prestígio de quem o alheio veste, se referem às escolas e institutos que frequentam dando-lhes o nome de faculdade!

Mas aprofundemos esta temática com a transcrição de Howard Gardner, professor de Cognição e Educação naUniversidade de Harvard e autor da “Teoria das Inteligências Múltiplas” (1983):

“Chegou a hora de alargar a nossa noção do espectro dos talentos. A contribuição mais importante que a escola pode fazer para o desenvolvimento de uma criança, é ajudar a encaminhá-la para a área onde os seus talentos lhe sejam mais úteis,onde se sinta satisfeita e competente. É um objectivo que perdemos completamente de vista. Em vez disso, submetemos toda a gente a uma educação em que, se somos bem sucedidos, a pessoa fica preparada para ser professor universitário. E, ao longo do percurso, avaliamos toda a gente de acordo comesse estreito padrão de sucesso. Devíamos passar menos tempo a classificar as crianças e mais tempo a ajudá-las a identificar as suas competências e dons naturais, e a cultivá-los. Há centenas de maneiras de ser bem sucedido e muitas, muitas capacidades que nos ajudarão a lá chegar”.

Daí eu encontrar fundamento para que esse ensino passe a ser feito em escolas técnicas independentes, com estatuto e programas específicos e docentes devidamente habilitados para um ensino de componente teórica e outra essencialmente prática a ser ministrada em oficinas convenientemente apetrechadas que se encontram, actualmente, ao abandono em antigas escolas técnicas dum país que se dá ao luxo de ser perdulário em época de declarada crise económica e financeira. Como legou para a posteridade Séneca, “a educação exige os maiores cuidados, porque influi sobre toda a vida”! Esta, como tal, uma lição a reter e a seguir!

O ENSINO PROFISSIONAL E O PREC

Post de Guilherme Valente que se refere ao texto "Uma Herança do PREC", de Carlos Fiolhais. e a alguns comentários que este recebeu:

Os textos beatos muito preocupados com a justiça social que começaram a surgir sobre a questão da via profissional, têm um aspecto curioso: todos eles, explicita ou implicitamente, reconhecem, de algum modo, a necessidade dessa via. E neste sentido alguns deles dão mesmo contributos relevantes para ajudar a pensar a organização que essa via deve ter, o que essa via deve ou não deve ser.

Relativamente ao contributo bem elaborado de Aurélia Santos, julgo ser sustentável a afirmação de que "O ensino técnico existente estava (já estava ?!) moribundo (...) e condenado ao seu fim AINDA ANTES (c.a. minha) do 25 de Abril e do subsequente PREC."

Pode então concluir-se - verificadamente - que ao acabar com ele sem mais, sem uma solução consistente alternativa na concepção e organização, aquilo que a Assembleia Constituinte criminosamente fez foi apagar, ocultar à consciência dos Portugueses, por puras razões ideológicas, odiosas, aliás, uma incontestável necessidade educativa e de qualificação profissional. Uma via de ensino que é seguida nos países onde existe "a sério" (para dizer tudo numa palavra...) por larga percentagem dos estudantes - na Alemanha a percentagem ultrapassa os 78 por cento (em texto anterior referi, por engano, 50 por cento). E cuja existência tem um papel decisivo no desenvolvimento, na inclusão e no progresso social, na diminuição das desigualdades sociais nesses países.

Por outro lado, a afirmação de que depois dessa liquidação legislativa o ensino técnico profissional continuou não é, na perspectiva de exigência em que nos colocamos, verdadeira. O que continuou não foi nada, foi muito pior do que "já estava moribundo e condenado". E isso que houve e não foi a sério verificou-se porque não o conseguiram evitar, por pura pressão social, pelos apelos dramáticos de muitas escolas no terreno. E sempre com a sabotagem, com dificuldades em meios humanos e materiais, imposta pela ideologia e os ideólogos no poder.

Só no Governo de José Sócrates me pareceu começar a perceber-se a sua necessidade imperativa e, honra que lhe cabe, assumida. E, apesar de se tratar de ensaios tímidos e circunscritos, e sempre com a resistência e o bloqueio da nomenclatura do eduquês, os resultados positivos dessas frágeis iniciativas logo se verificaram.

Por favor, não nos atribuam - inquisitorialmente - aquilo que não escrevemos, não dissemos, não pensamos. Não queremos a escola de antigamente, que conhecemos bem (e que considero, aliás, menos nefasta do que a escola do eduquês).

Queremos a escola que é urgente, cujo adiamento de mais de trinta anos frustrou o futuro de milhares e milhares de jovens portugueses e está, realmente, a matar o País. Queremos a escola que sonhámos viria com a liberdade.

Queremos, quero, usando o exemplo que o Aurélia Santos deu, um ensino técnico profissional como o da Alemanha. Foi o que sempre disse e escrevi.

Será que os Portugueses e Portugal merecem menos?

Guilherme Valente

Professores que marcam


Os professores que nos marcam na vida não são os bonzinhos, nem aqueles porreiros que aparentemente, na altura, nos parecem professores modelo. Na verdade, aqueles de que nos lembramos e a quem recorremos mais à frente na vida são aqueles que nos irritaram, e com os quais até desenvolvemos alguma antipatia, mas que se mantiveram firmes e nos passaram ensinamentos e valores. Tenho essa experiência como professor e tive-a como aluno.

Lembro-me normalmente de três docentes, todos da fase crítica, isto é, do básico, do preparatório e primeiros anos do secundário. É aí que se forma a personalidade e se criam hábitos de trabalho.

A minha professora primária estabelecia uma relação muito direta entre cumprir tarefas com sucesso e o seu elogio. Não há para mim, ainda hoje, nenhum elogio melhor do que o da Professora Olga. E eram todos muito simples, constituídos por palavras e sorrisos, mas eram fantásticos. Nem me lembro mais da forma dura, de cara muito séria, como encarava as falhas, especialmente aquelas que resultavam de falta de estudo e de trabalho. Quer dizer, lembro-me, mas não é o que me ficou dela. Foi ela que me contou a história do “five dollar lawn”, mostrando que fazer bem, perfeito, exige talento sim senhor, mas custa muito trabalho e dedicação. Foi ela que me ensinou a não desistir. Quando saí para o ensino preparatório disse-me, com a minha mãe ao lado, que confiasse em mim e nas minhas capacidades porque tinha feito um bom trabalho.

No ensino preparatório tive uma professora muito severa que era professora de matemática e de ciências. Embirrei logo com ela, nem me lembro bem porquê: não era a Prof. Olga. E ela comigo. De maneira que tive negativa a matemática e a ciências logo no primeiro período. Devia ser um puto reguila, porque me lembro distintamente de uma vez que me colocou na rua numa aula de ciências. Mas fez-me ver, com enorme paciência, que a atitude é muito importante. Não são só as capacidades e a disponibilidade para trabalhar, mas é também fundamental desenvolver uma atitude inconformada e séria perante as dificuldades. Ficou-me na cabeça o seu exemplo, a sua teimosia e intransigência, o seu olhar trocista e um sorriso grave que metia na boca, comprimindo os lábios, quando acabava de falar. Era uma mulher muito inteligente que nos colocava desafios. E que exigia resultados.

Lembro-me ainda de um professor de Filosofia, uma disciplina da qual nunca gostei (defeito meu), e da minha professora de Biologia que era uma versão muito próxima da Professora Olga. Mas esses não me irritavam. A que me irritava solenemente era a professora de Português. Detetou a minha tendência para despachar depressa os textos, pelo que sempre que eu acelerava e desleixava, o que era frequente porque detestava aquela disciplina, gritava o meu primeiro nome numa voz estridente: Joaquim. Bolas! Mas funcionava. A leitura e a escrita precisam de tempo, ou melhor, ensinam-nos o valor do tempo. Ensinam-nos, se quisermos, a prestar atenção aos detalhes, ao pormenor. É lá, nos pormenores e no detalhe, que estão os ensinamentos: “Não é uma pena perder isso, Joaquim, só porque está com pressa?”. Ainda hoje não uso o meu primeiro nome. Mas não a esqueci e ouço muitas vezes a sua voz.

(publicado originalmente em http://re-visto.com/professores-que-marcam)

UMA HERANÇA DO PREC


Meu artigo de opinião no Público de hoje:

Não será exagerado dizer que há crimes educativo se que, provavelmente, o maior cometido entre nós foi a abolição, após o 25 de Abril, do ensino técnico-profissional.Tal foi feito por unanimidade, no conturbado clima do PREC, em nome da igualdade social. Foi dito, e era verdade, que havia, no regime deposto, reprodução da estrutura social, estando o título de doutor quase só reservado aos filhosdos ricos.

Passados quase 40 anos é tempo, pesando a experiência acumulada, de tirar conclusões. É certo que a escola pública se alargou maciçamente – e ninguém deixará de se orgulhar por esse feito – mas não é menos certo que a quase ausência de saídas profisissionais produziu um sistema totalmente unificado até ao 9.º ano de escolaridade e com poucas escolhas depois dele, que leva uma multidão de alunos a desembocar no ensino superior, em busca do canudo. Não pode, contudo, ser bom um sistema em que praticamente não há escolhas. É como as lojas de souvenirs na antiga União Soviética onde só havia bustos de Lenine.Acresce que um sistema unificado conduz, em geral, à mediocridade, pois o nivelamento faz-se por baixo. Os bustos de Lenine eram toscos. Também é certo que,mesmo com a fasquia baixa, por vezes muito baixa, tem havido um abandono escolar que nos envergonha. Muitas crianças e jovens têm fugido do sistema, por lá não encontrarem um percurso adequado.

De facto, a insatisfação geral com o nosso sistema educativo resulta, em larga medida, da “via única” que foi instituída em nome da igualdade. A escola pública, ao querer servir a todos, não serve a ninguém.Não serve sobretudo aos filhos dos pobres, uma vez que eles não encontram nela um elevador social suficientemente poderoso. A escola era a sua esperança de futuro, mas, apesar do esforço denodado de muitos professores, o nosso sistema de ensino não lhes oferece a necessária qualificação para a vida.

A escola tem de ser mais exigente se quer prepararas crianças e jovens para um mundo competitivo e global. Só uma orientação nesse sentido é capaz de a promover como instituição, promovendo em particular a condição de professor. Mas é claro que, para isso, tem de existir uma oferta mais diversificada. A escola tem de pedir mais, tanto para se ser doutor como para se ser outro profissional. Nem todos poderão ser doutores, não porque à partida não disponham de oportunidades iguais, mas porque no percurso mostraram ter capacidades díspares. A todos devem ser dadas iguais chances, mas aqueles que se revelarem melhores nos estudos conducentes a um exercício profissional (qualquer que este seja!), combinando a sua aptidão natural com o seu esforço, deverão ser recompensados. Não se trata de aceitar o darwinismo social, mas sim de reconhecer que é injusto tratar como igual o que é muito diferente.

É bem conhecida a vontade de Nuno Crato, o ministro da Educação e Ciência, de promover a exigência. Tal começou já a ser feito com a introdução de provas finais no 6.º ano a Língua Portuguesa e Matemática e anunciam-se provas finais no 4.º ano em vez de “aferições”. Não se sabe que mais exames haverá, se, por exemplo, os exames do secundário serão aumentados ou modificados. Mas o governo quer também, corajosamente, enfrentar a questão da criação de oferta vocacional no básico e do reforço do ensino profissional no secundário. Para ganhar o desafio da qualificação e debelar o flagelo do abandono escolar são necessárias vias profissionalizantes mais cedo no percurso escolar, isto é, não apenas no secundário mas, a partir de certa altura, logo no básico, com a salvaguarda óbvia da possibilidade de mudança oportuna de via. Na Alemanha, e noutros países mais desenvolvidos da Europa, há muito tempo que é assim: aprende-se cedo para chefe de cozinha ou mecânico de automóveis, que são profissões tão dignas e, nalguns casos, tão bem remuneradas como as que foram antecedidas por formações académicas.

Conforme disse em 2003 Guilherme Valente, um dos mais lúcidos críticos do actual sistema educativo: “É urgentíssimo... oferecer um ensino técnico-profissional de qualidade para o qual a escola encaminhe os alunos que para ele revelem vocação e gosto,valorizar socialmente a formação de qualidade em todos os domínios, enfrentando a doutorice do diploma, a que quase sempre não corresponde nada” (ver o seu livro Os Anos Devastadores do Eduquês, que acaba de sair na Presença).

Temos, como herança do PREC, o espectro do recuo no tempo. Mas ninguém quer ir para o passado, um sítio aqui pouco recomendável. Nestes tempos difíceis, a nossa obrigação é a de preparar o futuro, sem medos nem preconceitos. Neste regresso às aulas, esse deve ser o compromisso não só dos decisores políticos, mas também e principalmente dos professores, dos alunos e das suas famílias.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Sobre as duas vias de ensino

Carta aberta recebida de Guilherme Valente, a propósito das vias de ensino académico e técnico-profissional:

Minha Cara Helena:

Custa muito libertarmos-nos dos feitiços...

Para realizarem o seu projecto odioso e IMPOSSÍVEL de tornar todos iguais (menos eles e os filhos e netos deles, claro) os eduqueses não hesitam em impor - não hesitaram em tentar impor - uma escola que torne todos ignorantes e miseráveis.

Mesmo que não fosse possível - mas é - construir uma escola que proporcione a todos as condições que dão vantagem na aprendizagem, na maior parte dos casos, aos mais favorecidos social e culturalmente, seria preferível uma escola que, pelo menos, diminuísse essas desigualdades dando a todos a oportunidade para uma vida digna de ser vivida.

Que sinistras consciências podem pensar o contrário, sacrificando ao seu delírio fanático odioso e IMPOSSÍVEL (percebe porque seria impossível, Helena?) o destino de seres humanos?

O maior crime perpetrado na educação foi a extinção do ensino técnico-profissional. Decidida na primeira assembleia constituinte, por unanimidade, com a concordância cobarde de muita gente que seguramente tinha consciência do erro. Na altura só uma voz se ergueu para criticar a decisão, afirmando que iria gerar mais desigualdade: o Professor A. Sedas Nunes. E assim aconteceu.

O que devia ter sido feito - como não me tenho cansado de dizer em todos estes anos de combate contra o crime do eduquês - era dignificar a via técnico profissional, sobretudo impedir que fosse frequentada por razões de dificuldade económica ou por limitações de ambição determinadas pela condição social.

Na Finlândia a via vocacional é frequentada por cerca de 40 por cento dos alunos. Na Alemanha, por exemplo, essa percentagem aproxima-se dos 50 por cento. A Helena sabe que, regra geral (as excepções são explicadas por circunstâncias culturais muito específicas), nos países em que os sistemas educativos são mais igualitários existem maiores desigualdades sociais? Como em Portugal, em que as desigualdades têm crescido horrorosamente, e vão crescer mais, porque mesmo que se consiga agora erradicar o delírio e as tretas do eduquês os efeitos da sua imposição na escola durante todos estes anos irão ainda continuar a manifestar-se na sociedade.

O abandono escolar, na percentagem aberrante, absolutamente inaceitável, que atinge entre nós, é determinado pelo sentimento, pela consciência da inutilidade da escola experimentados por muitos alunos e famílias.

Deve ser feito tudo, como, por exemplo, se faz na Finlândia, para apoiar todos os alunos, para ninguém ficar para trás nas escolhas que fizer. Mas é claro, mais do que claro - ou explique-nos por que não o é - que quem reprovar repetidamente apesar de todos esses apoios, e quem, por gosto o deseje, deve, aconselhadamente, seguir a via vocacional que, finalmente, um Ministro da Educação teve a lucidez e a coragem de assumir e criar. Podendo, como sempre defendi, voltar-se à outra via no caso desce revelarem condições de sucesso e interesse para isso.

Todos os verdadeiros professores sabem o crime e a crueldade que significava para inúmeros alunos a não existência da via e da solução agora decididas. E tenho esperança que esta medida possa também, só por si, fazer com que muitos pais passem a interessar-se mais pelo estudo dos filhos e com que muitos alunos ganhem consciência do benefício e da responsabilidade que é frequentarem a escola.

Possa o Ministro, serena mas firmemente, prosseguir na concretização do que sempre defendeu cuja moral e necessidade são mais do que evidentes, e os resultados aparecerão. Não apenas resultados, digamos, cognitivos, avaliados nos imprescindíveis exames a sério, mas nas atitudes, na responsabilidade e valorização do trabalho, no ambiente nas escolas, na motivação e realização dos professores, na recuperação da dignidade da sua função inestimável, na vida do país.

O eduquês, desvalorizando o trabalho - talvez a sua consequência mais terrível (fala de tantos livros, leia "Outliers", da Dom Quixote, mas interprete-o bem) -, preparou os Portugueses e Portugal para o insucesso, a dependência, a aceitação e resignação. Tornou-nos pasto para o fascismo, na sua forma antiga ou na forma insidiosa em que já começámos a viver.

Já agora, leia também "Um Mundo Infestado de Demónios". Carl Sagan explicar-lhe-á o que é o espírito cientifico, perceberá com ele que as teorias cientificas têm de aceitar a prova da realidade, tal como os projectos e as acções políticas. Se não aceitarem e continuarem a ser imposição matam, são criminosas. Sagan vai ajudá-la libertar-se completamente do feitiço.

Um abraço

Guilherme Valente

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

USP é considerada a melhor do Brasil em ranking da Folha de S. Paulo!


OS ANOS DEVASTADORES DO EDUQUÊS

Já está disponível o livro "Os Anos Devastadores do Eduquês", de Guilherme Valente,da editora Presença.

Eis a minha apresentação do livro na contracapa:



"Um dos maiores problemas que Portugal enfrenta é o da qualidade do seu sistema de ensino. Instalou-se nesta área um pensamento único, pretensamente igualitarista, baseado em ideias românticas sobre a educação, cujas consequências têm sido devastadoras, principalmente para os mais desfavorecidos. Como todas as formas de pensamento único, é totalitário: foi-se apoderando da máquina do Ministério da Educação para, através de engrenagens kafkianas, tomar conta dos professores e das escolas. Guilherme Valente foi uma das poucas vozes a apontar o absurdo e a opressão. Em várias intervenções públicas, a maior parte reunidas neste livro, apontou corajosamente quão grotesco e  nefasto era o sistema, que se expressa através do “eduquês” (“aprender a aprender”, “aprendizagem por descoberta”, “menos é mais”, etc.) para exercer o seu poder, mas que, conforme tão bem assinalou, não passa afinal uma ideologia perigosa. Já conhecíamos uma obra ímpar no campo da edição: Guilherme Valente tem semeado, com a Gradiva, cultura e ciência. Ficamos agora a conhecer melhor a sua intervenção no campo educativo. Como mostram os textos aqui reunidos, foi ele o primeiro a reconhecer, com discernimento filosófico e político,  a origem e a natureza dos males maiores que têm afligido a educação nacional, ao mesmo tempo que apontava caminhos de futuro. Os textos mais modernos e originais aqui contidos são um precioso contributo para o debate público, que tão necessário é para uma educação melhor."

MENSAGENS VINDAS DO ESPAÇO (I)


Primeira de duas Crónicas publicadas primeiramente na imprensa regional portuguesa.

“A Terra é azul. Como é maravilhosa. Ela é incrível!"

Foram estas algumas das palavras proferidas pelo primeiro homem no espaço, o cosmonauta russo Iuri Gagarin, a 12 de Abril de 1961. Disse-as ao contemplar o planeta Terra através da escotilha da cápsula Vostok I (que em russo significa "Oriente"). A partir deste deslumbramento, o nosso planeta passou a ser recorrentemente adjectivado pela sua cor azul.

Mas a mensagem mais famosa emitida por um ser vivo a partir do espaço, mais especificamente da Lua, e recebida na Terra, será aquela com que o recém-falecido astronauta Neil Armstrong nos encantou historicamente a 20 de Julho de 1969, numa metáfora daquilo que cada um de nós, na sua pequenez, pode fazer pela humanidade: 


“Este é um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade".

A comunicação via rádio entre Yuri Gagarin e o pessoal técnico do centro de controlo na Terra, em território da ex-União Soviética, constitui o primeiro envio de mensagens de um ser humano a partir do espaço para a Terra. Mas terão sido estas as primeiras mensagens de seres vivos no espaço captadas por seres humanos na Terra? Não.

No final da década de 50 do século passado, foram enviados alguns animais para o espaço a bordo de naves, exactamente para preparar e ajustar a tecnologia aeroespacial que enviaria seres humanos na década seguinte para o espaço.

O primeiro ser vivo, conhecido, a orbitar o planeta Terra foi um exemplar do melhor amigo do homem: um cão. Por sinal uma cadela, de nome Laika (em russo Лайка), selecionada de entre os cães das ruas de Moscovo. Laika foi lançada para o espaço a bordo da nave soviética Sputnik II, a 3 de Novembro de 1957.

Laika a bordo da Sputnik II.

Laika terá, talvez, ladrado, latido, gemido, rosnado, uivado e, talvez, comtemplado em silêncio a sua visão do planeta Terra. Contudo, desconheço se a cápsula em que orbitou a Terra tinha alguma escotilha que lhe permitisse ver o espaço e a Terra. Mas os seus sinais vitais foram seguidos telemetricamente no centro de controlo da missão, pelo que poderemos considerar estes os primeiros sinais de vida recebidos do espaço: 100 pulsações por minuto do seu coração!

Frequência cardíaca de Laika durante o voo.

Pelo menos, através dos seus sinais de vida, batimento cardíaco, respiração e outras funções fisiológicas, podemos deduzir que nas duas orbitas completas que terá feito ao planeta (terá falecido muito antes do planeado devido a stresse e sobreaquecimento da cápsula) Laika comeu tranquilamente.

Terá estado sempre em silêncio? Se não, terão os seus sons sido ouvidos e registados na Terra? Terá sido um latido a primeira mensagem de um ser vivo no espaço a ser captada na Terra por algum tímpano humano?

(Continua)

António Piedade

domingo, 2 de setembro de 2012

Sobre o populismo...

“O populismo não é um sistema, ou até mesmo uma ideologia, mas sim um estilo de política”. E não é um estilo de política apenas em regimes totalitários de extremos (esquerda ou direita): é um estilo de política usado em democracias europeias e americanas contemporâneas, e por todos os partidos.

Este é o aspecto central do número 49 da revista Cités, cujo título é  Le populisme, contre les peuples?

Os artigos detêm-se no esclarecimento do conceito, na tentação do populismo e na sua efectiva infiltração na vida política, no modo como muitos o reconhecem e aceitam como uma inevitabilidade. Tudo isto com recurso a exemplos concretos com os quais convivemos no dia-a-dia: Alemanha, França, Itália...

Mas o mais relevante, que sobressai no conjunto dos textos, é a tese de que populismo político é o reflexo preocupante do desmembramento do quadro ético construído no ocidente e, nessa medida, do desmembramento dos pilares em que assenta a própria democracia: "deliberação pública", "consulta popular", e "bem comum".

Yves Charles Zarka, autora do editorial - Le populismet: la démocratie des humeurs -, adverte os leitores para o facto de o actual populismo não poder confundir-se com a demagogia clássica. Efectivamente, o nível de educação das pessoas aumentou, muitas percebem as estratégias políticas que estão subjacentes aos discursos, sobretudo as mais óbvias, pelo que é preciso usar estratégias mais dissimuladas e dirigidas ao ser que cada pessoa é, ao seu íntimo.

Exige-se um grau de sofisticação que, já não podendo ficar nas mãos de amadores, requer excelentes especialistas. Conhecimentos científicos e tecnológicos entram em cena, nomeadamente, para fazer crer a cada pessoa que o político tal está a falar só para ela para lhe explicar que quer o seu bem e que para certo problema existe uma "única solução possível". São os sentimentos mais profundos que se manobram, em particular o medo.

Não obstante, o tom geral da revista é de optimismo: é fundamental a consciencialização das pessoas, que têm de "saber resistir" para que a democracia sobreviva.

Primeiro reator nuclear multipropósito brasileiro

O governo do estado de São Paulo anunciou ontem (31/08/2012) a desapropriação de um terreno em Iperó (SP) para a construção do primeiro reator nuclear multipropósito brasileiro (com múltiplas finalidades). O equipamento é fundamental para a produção brasileira de radiofármacos – fármacos, produtos biológicos ou drogas que têm em sua composição elementos radioativos e que são utilizados no diagnóstico ou no tratamento de enfermidades. No país, esses tipos de substâncias são usadas no atendimento de 10 mil pacientes por dia. “A maior causa de mortes é coração e câncer. Se a gente for verificar na cardiologia, na oncologia e nefrologia [as substâncias] são essenciais, seja no diagnóstico, seja na terapia, a medicina nuclear.Além do reator, será construído no local um novo laboratório que poderá ser utilizado pela sociedade acadêmica e por empresas interessadas. “O laboratório multipropósito vai ser usado por todos, comunidade científica, comunidade industrial.

IPEN 56 ANOS UTILIZANDO A FÍSICA NUCLEAR PARA A PRESERVAÇÃO DA VIDA HUMANA!VEJA EM MEU VIDEO ALGUMAS DESTAS APLICAÇÕES:

A EDUCAÇÃO DURANTE O ESTADO NOVO (2)

Segundo texto de uma série de doze, retirados do livro Antes dos Cravos  doo Professor António Galopim de Carvalho (em continuação do anter...