terça-feira, 15 de junho de 2010

"Éramos poetas"

Almada Negreiros e Fernando Pessoa são nomes que se associam. Além de terem partilhado a arte e o pensamento fora dos cânones, foram companheiros da Orpheu e amigos na vida.

Escreveram um sobre o outro e sobre as obras que criavam; o primeiro, artista multifacetado, pintou o quadro do segundo alguns anos após a sua morte.

A sua ligação não terminaria aqui: ambos faleceram no mesmo quarto do Hospital de São Luís dos Franceses.

Sobre o autor da Mensagem disse Almada:

"Devo a Fernando Pessoa (repito: pela primeira vez na minha vida) a alegria de ver noutrem a oposição e não o costumado contrário ao alheio. Obrigado Fernando. Não há aqui de quê agradecer. Também o sei. Desculpe. É afectividade. Carinho.

De parte a parte, em ambos nós nada havia de contrários pois que nenhum dependia dessas classificações engendradas a título social para o sossego e a comodidade de uns tantos. Não. Éramos poetas. Perdão: apresentávamo-vos para poetas. Antes de bons ou maus poetas bebíamos já ambos o delirante veneno de não pertencermos a nada e sermos cá. Partíamos logo desde o respeito muito bem pesado por tudo quanto a outros lhes era forçado participar no quotidiano. Não ter este forçoso era o nosso carimbo de poetas. Mas para melhor fazer entender o carimbo, direi que esta isenção que significa poeta tem arrumo na nomeclatura social e na mesma palavra que faz do réu em desclassificação.

Foi neste momento que dei a Fernando Pessoa um pequeno papel muito dobrado e que ainda o dobrei mais diante dele. Desdobrou-o com o mesmo cuidado com que o dobrei e leu: «Quer o queiramos quer não, nós (o artista) estamos muito longe de pertencer à comunidade» Assinado: Cézanne."

Referência: Almada Negreiros, J. (1985). Obras completas – Textos de Intervenção, Vol. VI. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda.
Imagem: Retrato de Fernando Pessoa, pintado em 1954 por Almada Negreiros, para o restaurante Irmãos Unidos.

Começar

No dia em que faz quarenta anos que morreu Almada Negreiros, lembra-se o auto-proclamado “Poeta D´Orpheu Futurista e Tudo".

Já perto desse dia, em 12 de Fevereiro de 1969, Jorge de Sena apresentava com o esmero e a precisão que lhe são conhecidas, uma palestra sobre a sua poesia. Almada, que assistia não pode deixar de desviar a rota para falar da sua última grande obra que não era poesia, mas geometria...

“Eu acabei agora de fazer um trabalho de vários meses, oito meses consecutivos, trabalho obcecante, a ter de fazer. Em pormenor, basta dizer que o médico todos os dias me dizia: Você está a matar-se! E eu respondia-lhe: Mas se não fizer isto, morro! Este pedido de interrupção é só para dizer isto (…) Vou simplesmente dizer o título da obra que eu concluí, que é uma obra síntese de tudo o que fiz na minha vida (…) o título é Começar.

Referências:
- Almada Negreiros, J. (1985). Obras completas – Poesia. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda.
- Reis, Luis (2007). Começar por Almada Negreiros ou Ode à Geometria. Educação e Matemática, n.º Março/Abril, pp. 32-35.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

HUMOR: MATRIARCADO


As crónicas semanais de António Piedade costumam ser acompanhadas de um "cartoon", a "Ti" Alzira, por Gomes. Eis o último que acompanha a crónica sobre as mitocôndrias (clicar para ver melhor).

Excelsa Bio-Sinergia (2)

Nova crónica do bioquímico António Piedade, saída antes no "Diário de Coimbra" (continuação de anterior sobre o mesmo tema):

Estamos algures e abstractamente, num charco lamacento no nosso planeta, há muitas centenas de milhões de anos atrás. Inúmeras variações de seres unicelulares competiam pela sua sobrevivência. Tinham ao seu dispor diversas moléculas, elementares e compostas que assimilavam como fonte de matérias-primas para os seus processos bioquímicos. A energia geotérmica de um planeta geologicamente ainda muito activo, deveria catapultar uma grande variedade de compostos inorgânicos e orgânicos que alimentavam inúmeras formas de vida celular, muitas delas verificando-se inviáveis na árdua competição. O campo electromagnético terrestre protegia (e protege) as formas vivas de muita radiação cósmica letal. Entretanto, a atmosfera do planeta inicialmente redutora, aumentava a sua concentração em oxigénio molecular, produto de excreção (“lixo” molecular) de bactérias, as cianobactérias, que tinham conseguido utilizar a energia solar em reacções fotoquímicas para, a partir dos abundantes dióxido de carbono e água, sintetizarem os seus próprios blocos de construção e assim ganharem “uma independência” vantajosa na competição unicelular por "alimento". Para além disso, o oxigénio molecular que excretavam para o meio ambiente, revelava-se, para as outras células, uma substância altamente perigosa e destruidora. Ionizado quer pela radiação ultravioleta solar, quer reacções químicas intracelulares, o oxigénio oxidava os componentes celulares alterando-lhe a forma e função.
Neste momento crítico da evolução da vida no nosso planeta a poluição, na forma de oxigénio, causada pelas cianobacterias modelou o futuro. O carácter oxidante e electrofílico do oxigénio progressivamente difundido pelo planeta (o oxigénio é um gás nas condições de pressão e temperatura que se pensa terem se verificado nos últimos milhões de anos na Terra), fez com que só sobrevivessem aquelas células que lhe adquirissem tolerância (ditas hoje ou aeróbias tolerantes) e/ou que dele tirassem algum proveito (aeróbias).

De entre elas, hoje sabemos, a partir de estudos sobre os ácidos nucleicos (ADN e ARN - ver por exemplo: Andersson SGE et al., The genome sequence of Rickettsia prowazekii and the origin of mitochondria. Nature 1998, 396:133-140.) que existiram umas bactérias ancestrais das que hoje designadas por alfa-proteobacterias, que apresentam a capacidade de utilizar o poder oxidante do oxigénio e fazer dele a força motriz para a produção de energia bioquímica.

Análises comparadas dos ácidos nucleicos presentes nas mitocôndrias comprovam que estes organelos das nossas células eucarióticas, descendem daquela linhagem bacteriana. Isto suporta a hipótese endossinbiótica, da bióloga norte-americana L. Margulis (formulada em 1981), para a incorporação de precursores da mitocôndria (ver, por exemplo: Yang D. et al., Mitochondrial origins. Proc Natl Acad Sci USA 1985, 82:4443-4447) no interior das formas ancestrais das nossas actuais células eucarióticas. Repare na vantagem competitiva desta associação primordial: o antepassado do actual organelo mitocondrial, não só reduzia o perigoso oxigénio como fornecia à célula "hospedeira" uma substancial quantidade da tal moeda energética bioquímica de que já falamos: o ATP. Em troca, a ancestral célula eucariótica conferia protecção contra predadores celulares ao seu interessante hóspede e inundava-o de matéria-prima derivada de açúcares, estes produzidos ou sendo constituintes de cianobactérias assim como de outros seres unicelulares potencialmente sujeitos a predação (mais em rigor poderíamos dizer endocitados, ou melhor ainda, fagocitados).

Progressivamente, esta relação de cooperação foi sendo afinada no sentido de uma maior eficiência com benefícios mútuos.

Contudo, isto foi conseguido à custa da perda das identidades originais. É que hoje não conseguimos definir uma célula eucariótica sem nos referirmos como condição a de possuírem mitocôndrias, nem conseguimos encontrar mitocôndrias “naturalmente livres". Esta incorporação das identidades primevas ocorreu profunda e intrinsecamente. Hoje verificamos, que alguns dos genes inicialmente pertença do ancestral mitocondrial foram incorporados no genoma nuclear da célula eucariótica. Isto significa, num exemplo muito interessante, que cerca de uma dezena das proteínas que formam os quatro complexos da cadeia respiratória mitocondrial (a tal que utiliza o oxigénio) são codificadas por genes que se encontram nos cromossomas nucleares! Ou seja, a mitocôndria não consegue “montar” sozinha a sua cadeia respiratória!

E vice-versa. Sabemos hoje que a mitocôndria é um organelo muito sensível ao estado de saúde e á funcionalidade da célula estando envolvida no desencadear dum processo de morte celular programada conhecido por apoptose (é também por apoptose que se formam as fendas que dão origem à abertura da boca, dos olhos, narinas, etc.).

O seu papel chave na bioenergética celular e na determinação do “fado" celular exige uma elevada estabilidade genómica entre o cromossoma circular mitocondrial e os 46 cromossomas nucleares da célula. Pode ser este um dos factores que impõem a destruição selectiva pelo óvulo das mitocôndrias presentes no espermatozóide aquando da fecundação. O resultado final é que herdamos só do lado materno todas as mitocôndrias que possuímos e, portanto, a capacidade de respirarmos oxigénio!

António Piedade

La casa de la Troia - librería

Novo texto de João Boavida.

Há livros que são como cometas: passam nas nossas vidas com grande brilho, causam profunda emoção e deixam caudas luminosas para o resto dos nossos dias. Por isso as grandes obras se devem ler e reler. Mas, como a vida é curta, nunca chegamos a ler tudo o que queríamos, menos ainda a reler tudo o que desejávamos. Às vezes, chegado ao fim de um livro empolgante, releio-o logo de seguida. Fiz isso, por exemplo, com O grande Gatsby, de Scott Fitzgerald, A obra ao negro, de Marguerite Yourcenar e outros. Mas o mais frequente é voltar de vez em quando e ler algumas passagens, saboreando a felicidade na beleza reencontrada: a Via sinuosa, de Aquilino, A sibila, de Agustina, Tchekov, por onde quer que se lhe pegue, o Lawrence Durrell, do Quarteto de Alexandria, os clássicos russos quase todos e tantos, tantos mais.

Livros haverá, que foram encanto de juventude, e que talvez seja melhor não voltar a ler, para não sofrer desilusão. Suponho que está nesta categoria - mas não quero ser injusto – uma obra que me encantou na juventude, que emprestei a amigos e colegas, em várias saídas, até regressar, por fim, em lastimável estado, e donde a tive de recuperar a engenhos de amor e goma-arábica.

Era um livro de Peréz Lugín, editado pela Portugália, na colecção Romances Sensacionais, com uma capa aos anos cinquenta, mas sem referência ao desenhador nem à data de impressão. Era A casa da Rua de Tróia, adaptado, anos antes, em folhetim radiofónico pela Emissora Nacional.

Passava-se na Galiza, no ambiente estudantil de Santiago de Compostela, nos finais do século XIX. Penso que não é grande literatura, mas o amor pelas Rías Bajas, a pluviosidade de Santiago, a morrinha galega, os amores doces entre Carmen de Castro Retén e Gerardo Roquer y Paz, o ambiente estudantil, fizeram-me lê-lo e relê-lo, detrás para a frente e da frente para trás. Ainda por cima fora traduzido por um Boavida-Portugal, que pensei logo ser ainda meu parente.

Encontrei este nome em algumas crónicas, suponho que no Diário Ilustrado (alguns se lembrarão ainda, em papel cor-de-rosa, e que era distribuído por todo o país em carochas vermelhos e amarelos, numa dinâmica nada conforme a esses tempos portugueses), mas nunca cheguei a confirmar a parentela.

Foi um livro de encanto, para mim, mas não tenho coragem de o reler, pelas razões apontadas.

Há anos, estando eu em Madrid, num hotel próximo da Gran Via, descobri, ali perto, a Calle de los libreros. Uma rua pequena, escura, com muitas livrarias à antiga, estantes em madeira, escaparates envidraçados, livros encavalitados até ao tecto, com patine nos armários e neblina pelos recantos. Daquelas que já vão rareando, mas onde ainda se encontram preciosidades que a comercialização dos sucessos a metro e da literatura às toneladas, dos centros comerciais, vão fazendo desaparecer. Percorri várias delas como quem anda por um mundo perdido e maravilhoso até que, de repente, ao sair duma, dou de caras, no outro lado da rua, a toda a largura da fachada e a toda amplitude do meu ânimo, com La casa de la Troia - librería. Como era possível? O nome dela era o título original da minha encantada A Casa da rua de Rua de Tróia, que tanto me fizera sonhar na passagem da adolescência para a juventude. Imaginem a minha emoção: foi como se, no estrangeiro, encontrasse, ali, na rua, um amigo perdido desde o tempo de escola.

Não é, pois, em vão, que se diz que os livros são nossos amigos - fieis e pacientes. Consultando a Internet vejo, agora, que há toda uma romagem de afectos instituídos, em Santiago e noutros lugares, a partir deste livro e deste título. Não o sabia, mas esta comunhão de amores e sentimentos é uma forma prática de fazer teoria da literatura, e, já agora, uma razão para teorizar sobre a literatura.

João Boavida

Novo Café, Livros e Ciência

Informação recebida do Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho, em Coimbra (clicar para ver melhor).

“Neurónios Cinéfilos”


Nova crónica de António Piedade, saída antes n' "O Despertar":

Neurónios são as células do sistema nervoso responsáveis pela transmissão dos impulsos ditos nervosos (em rigor, devemos falar da propagação de potenciais de acção, quais ondas de sais que se propagam entre neurónios). Mas igualmente importante é a sua função integradora e processadora das informações transportadas através desses impulsos, ao longo de milhares de milhões de neurónios que formam as designadas redes neuronais. Em cada neurónio podem convergir em dendrites centenas de ramificações provenientes de milhares de neurónios, localizados em zonas diferentes do cérebro. Do resultado, num determinado momento, do processamento que um dado neurónio faz dos impulsos que a montante lhe chegam, resulta o desencadear de um potencial de acção, impulso nervoso, que envia através de um filamento especializado, designado por axónio, até à jusante de um delta de terminações nervosas que desaguam essa informação, quer a outros neurónios, quer a outras células diferenciadas como sejam células musculares.

Imagine o percurso que é feito pela informação que os seus olhos estão a captar neste momento: da retina dos seus olhos, através do nervo óptico, até diferentes zonas do seu cérebro, para que o seu cérebro descodifique e perceba o que está a ver e ordene, por exemplo, também através de impulsos nervosos que chegam até aos músculos que controlam o movimento dos seus olhos, que estes se devem contrair e relaxar coordenadamente para que as suas duas pupilas convirjam sincronizadamente numa direcção e sentido que permita a leitura e a mudança de linha ou de parágrafo.

Agora pense na tarefa inversa, ou seja, a detecção de movimento. Os seus olhos estão “parados” fixando o horizonte que os banha com informação luminosa (radiação electromagnética) que será “traduzida” para informação química (que envolve uma mudança, reversível, na forma de uma proteína especifica) e, novamente traduzida para impulsos nervosos, enviada até cérebro através de ondas de sais ao longo dos axónios que compõem o nervo óptico. Se nada se mexer no nosso horizonte, o cérebro traduz a informação nervosa que lhe chega para a imagem estereoscópica que é aquilo que estamos a ver. Mas e se algo se move no nosso campo visual? Como é que o cérebro, ou melhor, os milhares de neurónios que dão sentido ao que estamos a ver, percebe que algo se moveu e se isso tem importância, por exemplo, para a nossa segurança? Será uma abelha? Estará a afastar-se ou a aproximar-se? Tudo deve tornar-se ainda mais complexo se nós nos estivermos também a mover. Neste caso, o cérebro terá de ter em conta o nosso movimento ou então poderá iludir-nos e isso poder-nos-á ser fatal.

O trabalho efectuado, ao longo das últimas três décadas, pelos investigadores norte-americanos J. Anthony Movshon e William T. Newsome sobre este processo de processamento e interpretação espacial do que nos chega à retina, foi agora premiado pela Fundação Champalimaud (aqui).

De facto, nós precisamos do cérebro não só para ver mas, e principalmente, para perceber e dar significado ao que vemos. E neste processo complexo estão envolvidos diferentes tipos de neurónios em zonas específicas do nosso cérebro. E estes cientistas identificaram circuitos de neurónios numa zona do cérebro (Lobo Temporal Médio) que são responsáveis por analisar a informação que lhes é transmitida a partir dos olhos e detectar que algo se move no nosso campo visual. São uma espécie de neurónios agrupados funcionalmente num circuito neuronal e que “apreciam” o movimento. Julgo que deverão estar especialmente activos quando percepcionamos um filme (o que vemos é uma sucessão de uma trintena de fotogramas por segundo). São por isso, digo eu, neurónios “cinéfilos”, ou seja, que são particularmente sensíveis e dedicados aos movimentos, mesmo que de longos planos fixos se trate… Mas também são eles que nos iludem relativamente ao aparente movimento do Sol em volta da Terra. E contudo, eles estão fixos, em constelações neuronais no nosso cérebro.

António Piedade

Poderia o nosso Ministério da Educação ser diferente? - II

Num texto que aqui publiquei há quase um ano defendi a ideia de que o Ministério da Educação não é o único nem, talvez, o principal responsável pelo mau, ou péssimo, estado em que a educação escolar se encontra: somos todos responsáveis. Defendi, de modo complementar, que nos devemos interrogar sobre a nossa capacidade para educar as novas gerações.

E nomeei, para além dos políticos, encarregados de educação e pais, professores, autarcas, formadores de professores, especialistas em educação (onde me incluo), associações científicas e profissionais, protectores de menores, programadores do ensino, directores de escolas, pessoas com interesses económicos e outros...

Volto a defender essa ideia a propósito da inexplicável medida recentemente tomada, por despacho da tutela, que permite a passagem de alunos com um percurso académico problemático do 8.º para o 1o.º ano, que dois juristas consideraram DUPLAMENTE inconstitucional.

Ora, tanto quanto me foi dado saber DUAS entidades de grande importância - a Associação Nacional de Professores e o Conselho de Escolas - reconhecidas como parceiros educativos...

"... consideram que a medida não terá grandes efeitos práticos, frisando que dificilmente um aluno, já com um historial de insucesso, conseguirá ter um bom resultado em exames sem ter frequentado as aulas" (in jornal Público).

Não percebem estas duas entidades, sempre ouvidas nestas circunstâncias, que a questão não se prende com a quantidade de alunos que abrange, mas com o PRINCÍPIO que lhe está subjacente?

Bastaria que se aplicasse a UM aluno para não ser correcta.

Procuram-se Cientistas para fazer teatro!

Cientistas ao Palco
Noite dos investigadores 2010

"De que falamos quando falamos de cientistas?" no Teatro Municipal de Bragança a 12 de Setembro de 2009

O projecto Cientistas ao Palco nasceu no ano passado, no âmbito da Noite Europeia dos Investigadores 2009. Os cientistas, o seu trabalho e a sua vida, foram celebrados através do teatro, subindo literalmente ao palco - como dramaturgos e actores dos espectáculos apresentados em quatro cidades, dirigidos por encenadores e criativos.

Mais sobre os Cientistas ao Palco aqui.

Este ano os Cientistas ao Palco estão de volta, com novos espectáculos que serão apresentados no dia 24 de Setembro no Porto, Coimbra, Lisboa e Faro. Em Lisboa a Noite decorrerá no Jardim Botânico Tropical.

AUDIÇÃO - LISBOA
À procura de cientistas para fazer teatro!

Está aberta uma audição para cientistas (homens) para ingressarem no espectáculo O Último dos Texugos, escrito por Bruno Pinto (investigador/biólogo) e encenado pelo actor Romeu Costa.

A audição será realizada no próximo dia 20 de Junho. Os interessados deverão preencher e enviar a ficha de inscrição para cientistasaopalco@gmail.com até dia 18 de Junho.

A audição consistirá em exercícios simples de grupo e a leitura de uma cena da peça (que será enviada depois de recebida a inscrição). Se é investigador e gostava de participar num projecto de Teatro, mesmo que não tenha qualquer experiência, esta é a oportunidade. O elenco será formado exclusivamente por investigadores.

Quem são os parceiros do projecto Cientistas ao Palco 2010?
Universidade do Porto (coordenador nacional), Instituto de Biologia Molecular e Celular, Centro de Astrofísica da Universidade do Porto, Instituto de Investigação Científica Tropical, Associação Viver a Ciência, Universidade do Algarve, Natura Algarve, Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, Instituto Gulbenkian de Ciência.

O que é a Noite Europeia dos Investigadores?
A Noite dos Investigadores 2010 é uma iniciativa do Programa Marie Curie no âmbito do Sétimo Programa-Quadro da Comissão Europeia (FP7-People). Tem como objectivo aproximar os cientistas dos cidadãos e decorrerá em simultâneo em várias cidades europeias no dia 24 de Setembro.

Mais sobre a Noite Europeia dos Investigadores aqui.

Ciência na UL: O que nos contam os ossos

Dinossáurios chegaram ao Geopark Naturtejo


Informação recebida do Geopark Naturtejo, Castelo Branco:

A maior exposição itinerante do Mundo sobre Dinossáurios, alguma vez reunida, está patente no Centro de Exposições do NERCAB, em Castelo Branco, Portugal, até final de Outubro.

Esqueletos, crânios de dinossáurios, garras e dentes são algumas das dinocuriosidades que poderão ser exploradas durante a DinoExpo intitulada “Dinossáurios invadem o Geopark Naturtejo”, a qual é promovida pela empresa holandesa Creatures & Features em parceria com o Geopark Naturtejo.

São cerca de 3000 m2 de descoberta, nesta fascinante viagem ao passado, que conta também com aves e répteis voadores, contemporâneos dos gigantes do passado. Um dos grandes protagonistas será um enorme saurópode, um Diplodocus de 17 metros, que viveu na América do Norte há cerca de 150 milhões de anos e que, apesar da sua grande envergadura, se alimentava apenas de plantas. Outro dos protagonistas será um gigantesco Tyrannosaurus rex, o mais conhecido e impressionante de todos os dinossáurios

A apresentação pela primeira vez ao púbico da escavação de um original de saurópode (Diplodocus), proveniente do Wyoming (E.U.A.), é mais um destaque. Além de réplicas provenientes dos quatro cantos do mundo a DinoExpo mostra fósseis reais de dinossáurios de Portugal, também nunca antes apresentados ao público.

A CP - Comboios de Portugal, a Rodoviária da Beira Interior e a organização da MAIOR exposição itinerante sobre Dinossáurios, alguma vez reunida no Mundo, criaram uma iniciativa denominada “De Comboio aos Dinossáurios - uma campanha amiga do Ambiente”, que oferece descontos no bilhete do comboio e na entrada da exposição, com garantia de transfer entre a Estação e Centro de Exposições, através do “autocarro dos Dinossáurios”.

Esta exposição encontra-se aberta diariamente entre as 10h00 e as 19h00, e pode ser visitada por todos, com acompanhamento feito por geólogos ou através de uma visita pedagógica no âmbito de programas educativos.

Saliente-se que as visitas pedagógicas, inseridas nos programas educativos do Geopark Naturtejo, estão sujeitas a marcação e destinam-se a alunos e professores do Ensino Pré-Escolar, Básico, Secundário, Profissional e Superior. Este programa é dinamizado por técnicos com formação adequada para explorar pedagogicamente os conteúdos adaptados aos diferentes níveis de ensino e para apoiar as actividades.

A esta oportunidade única de ver em Portugal uma grande exposição, que os Museus mais importantes do Mundo gostariam de ter, a Naturtejo acresce a oportunidade de explorar as belezas do Geopark Naturtejo, embarcando numa viagem que recua milhões de anos. O programa especial constituído pela Naturtejo inclui 3 dias / 2 noites de alojamento com pequeno-almoço, 1 Almoço com produtos regionais, visita acompanhada à Exposição “Dinossáurios invadem o Geopark”, realização do PR3-Rota dos Fósseis em Penha Garcia, com passagem pela aldeia típica, pelas ruínas do castelo templário, pelo Parque Icnológico (icnofósseis) e pelos moinhos de rodízio, visita ao Centro de Interpretação Ambiental de Castelo Branco: introdução da paisagem do Tejo Internacional (actividades virtuais) e visita aos Troncos Fósseis da Casa de Artes e Cultura do Tejo com 10 Milhões de Anos.

Não perca a oportunidade de visitar esta fascinante exposição dirigida para todas as idades e a preços acessíveis para os diferentes públicos: Individual: 6€ | Grupos Escolares e Grupos Seniores (+25 participantes): 3.5€ | Crianças 6 a 12 anos: 4€ | Cidadãos Seniores (sujeito a apresentação do cartão de pensionista): 4€ | Empresas (+25pessoas): 4€.

Para mais DinoInformações encontram-se disponíveis os seguintes contactos: Telefone: 272 320 176 | Fax: 272 320 137 | Central de Reservas: 707 200 065 | Email: geral@naturtejo.com | Programas Educativos: programas_educativos@naturtejo.com; www.dinoexpo.com.pt ou www.naturtejo.com.

Ao longo da exposição não vai faltar animação, através de espectáculos de teatro, música, gastronomia, actividades lúdicas sobre paleontologia e apreciar encantadoras peças de merchandising relacionadas com o tema, entre outras.

Local e Duração da Exposição:
Centro de Exposições do Nercab
Avenida do Empresário – Praça Nercab
6000 – 767 Castelo Branco - Portugal

De 27 de Março a 30 de Outubro entre as 10h00 e as 19h00

YES, MINISTER!


Artigo de Guilherme Valente no "Público" de hoje:

O exemplo da Finlândia é muito referido, mas poucas vezes com rigor.

Também a Senhora Ministra referiu a Finlândia na Assembleia da República. Na Finlândia não há retenções, afirmou, parecendo querer dizer não existir essa possibilidade naquele país. E nem um deputado lhe pediu para esclarecer o que terá pretendido afirmar. Nos debates parlamentares nunca foi feita, aliás, a pergunta iluminante de toda questão da educação: em que tipo de sociedade quer o «eduquês» obrigar os Portugueses a viverem?

Na Finlândia existe a possibilidade de retenção. Mas o objectivo e a qualidade do ensino; a preparação dos professores e o reconhecimento da sua função inestimável; as regras, a direcção e o ambiente nas escolas; a responsabilidade exigida aos pais; a exigência desde o primeiro dia de aulas, reduzem as retenções a uma percentagem residual.

Na Finlândia a escola é a sério. Tudo está organizado para os professores ensinarem, os alunos aprenderem, para ninguém ficar para trás.

Em Portugal, pelo contrário, o facilitismo é cultivado desde o primeiro dia de aulas. E logo interiorizado por todos: alunos, pais e professores. (Para o bem e para o mal, é a grande vantagem dos seres humanos: adaptarem-se depressa.) O resultado não pode ser outro.

A escola finlandesa é o inverso da escola em Portugal. E a medida agora anunciada – possibilidade oferecida aos alunos de 15 anos retidos no oitavo ano de poderem «saltar» para o décimo (e porque não aos de 14 anos?) – é um exemplo expressivo dessa diferença.

Medida injusta, por não ser oferecida a todos de qualquer ano (e os melhores conseguiriam avançar); inútil se os exames forem sérios; irreflectida por abalar sem mais a própria arquitectura do tempo de escolaridade.

Pareceu-me, aliás, haver constrangimento e confusão na defesa feita pela Ministra desse «milagre». Por isso pergunto: quem manda no Ministério da Educação?

Será seriamente imaginável que alunos reprovados (apesar do facilitismo todo) no 8.º ano, possam aprender num ano a matéria do 8º. e do 9º?. E se passarem no «exame sério» do 9.º e reprovarem no 8.º? E os pobres dos professores que os apanharem no décimo?

"Exame" em vez de exames, é o que virá. Prepara-se, portanto, mais um grande êxito… estatístico. É para isso esta medida. E não se faz o que devia ser feito: a oferta criteriosa, a tempo de prevenir o abandono, de uma via técnico-profissional, de exigência e dignidade iguais à via de acesso ao ensino superior, que, na Finlândia é frequentada, aliás, pela maioria dos estudantes.

O que é oferecido em algumas escolas, por iniciativa de directores e professores que vivem quotidianamente essa falta gritante, sem o empenhamento autêntico, muito pelo contrário, do Ministério, não pode responder a essa necessidade imperiosa. Mas mesmo assim - ouçam-se essas escolas – esses exemplos, que a nomenclatura do Ministério teve de aceitar que surgissem e procura sabotar, a funcionarem sem o reconhecimento, os meios humanos e as condições mínimas, provam a razão dos que durante todos estes anos combateram pela oferta de uma via de ensino técnico profissional no sistema educativo: a sério, qualificada, exigente e dignificada.

Impõe-se, pois, a pergunta, para muitos retórica: a Senhora Ministra está com ou contra o "eduquês"? Quer continuar a nivelar por baixo? Partilha o igualitarismo, anti-cultura, anti-conhecimento, loucura de tornar todos iguais? Ou, pelo contrário, quer uma escola de liberdade que revele e valorize as capacidades, interesses e vocação de todos, até ao limite do possível? Uma escola que reduza as desigualdades, ou esta escola de mentira, de ignorância e de exclusão que as agrava? Anti-escola que tornou Portugal no país mais desigual da União, com excepção da Polónia.

Tem um projecto para fazer sair o ensino público das trevas?

Guilherme Valente

domingo, 13 de junho de 2010

A nossa "tragi-comédia"

Dum artigo de opinião, da autoria de Áurea Sampaio publicado na revista Visão no passado dia 9 de Junho, transcrevemos uma passagem incidente na educação escolar e no seu contexto:
"Outra linha definidora desta nossa "tragi-comédia" é o que se está a passar no ensino. Como se não bastasse essa outra dimensão do problema, que é o facto de estarmos a desaparecer enquanto povo devido à baixíssima taxa de natalidade, quem nos governa só ajuda a que cada vez mais casais desistam da ideia de ter filhos. Sem urgências nem maternidades e com cada vez menos serviços públicos de proximidade, fora dos centros mais populosos do litoral, as populações vão definhando. Agora, foi anunciado o encerramento de mais de 900 escolas com menos de vinte alunos, quase todas do interior. Eis uma medida que claramente brotou da mente de um daqueles génios incompreendidos que vagueiam pelas alcatifas do poder. Em vez de remeter os génios à procedência e assim contribuir para a poupança, o Governo acolhe estas visões mesquinhas de curto prazo sem pensar no amanhã. E o amanhã é um deserto, porque as pessoas não se resignam ao abandono e ao esquecimento. Agora, já se percebe para que estão a ser construídas tantas auto-estradas: é para todos se virem embora mais depressa."

Os ideólogos são perigosos

No final dos anos oitenta, o sucesso do filme O clube dos Poetas Mortos, realizado por Peter Weir, despertou o interesse pela pessoa que teria inspirado a personagem do professor. Essa pessoa é Sam Pickering, ex-professor de Tommy Schulman, o argumentista do dito filme.

Numa entrevista à World Media, feita por Shoshana Gilbert, e publicada entre nós, em 1993, pelo jornal Público num caderno temático sobre educação, de grande interesse, esse professor mostra uma visão, mais do que crítica, politicamente incorrecta relativamente às correntes "pedagógicas" vigentes nos Estados Unidos. Passados quase vinte anos as suas palavras continuam a ter sentido em Portugal, por isso aqui reproduzimos algumas passagens:
World Media: Acha que o objectivo da educação deve ser o dar aos indíviduos um sentido comunitário mais forte?

Sam Pickering: Ensino há muito anos, mas não sou capaz de fazer grandes declarações acerca da educação. Estou sempre a ler artigos sobre como a educação molda o adulto, e simplesmente não acredito nisso. Acho que mais educação é melhor do que menos educação, e que se lermos livros, aprendemos coisas que enriquecem a nossa vida. Mas os livros não contêm receitas para viver, não resolvem os problemas do mundo. Se você for um ideólogo, a sua literatura torna-se um meio destinado a um fim. Quando ensino Milton, trago à baila as questões contemporâneas para tentar dar vida à literatura, mas vou servir-me da literatura como um meio para falar das questões contemporâneas. Recomendamos livros para crianças com base no que está mal na sociedade e, por isso, recomendamos livros onde há um bairro com uma pessoa verde, uma pessoa cor-de-laranja, uma pessoa branca e uma preta, mas só os recomendamos às crianças. Ora, se, de facto, estivéssemos convencidos de que eles têm poder para destruir os males da sociedade, recomenda-los-íamos aos adultos. Se uma mulher estivesse envolvida num caso de adultério, dar-lhe-íamos a "Ana Karenina" a ler, mas não fazemos isso, damo-los às crianças.

World Media: E o que acha do valor cada vez maior que se dá ao multiculturalismo nas escolas?
Pickering: É bom pensarmos que sim, mas, na realidade, não acredito que funcione. O multiculturalismo é muito superficial. Não sei se ele existe e de certeza que não acredito estou convencido de possa ser ensinado (...) temos tendência a falar de banalidades. O que pode realmente aprende, quando a primeira história que você lê é da autoria de WASP (branco protestante de origem anglo-saxónica) do Mississipi, a segunda é de uma índia americana lésbica, a seguinte, é de um Amã sobrevivente do Holocausto e, outra, de um escritor sul-americano? Fartamo-nos de ler histórias e os garotos não se lembram delas. Nem chegam sequer a afectá-los. Todos os anos, em todas as turmas, os meus alunos embirram com a matéria sobre os americanos índios, fartam-se daquilo, desprezam-nos, não querem ouvir falar dos índios. Em vez de os tornarmos mais sensíveis, maçamo-los. Nunca demos nada sobre os lituanos, os estónios, os ucranianos e, no entanto, temos montes de gente com essas origens.
World Media: Mas acha que a educação desempenha algum papel “mais elevado” no progresso da sociedade?
Pickering: Falamos muito sobre a educação poder curar a sociedade e sabemos que ela não cura. Eu gostaria que ela tornasse as pessoas mais conscientes das responsabilidades que têm em relação aos outros, mas creio que não é isso que acontece. Torna os indivíduos conscientes das possibilidades, mas será que os torna melhores? Veja os alemães: eram provavelmente a sociedade mais educada da época, e veja o que eles fizeram, veja para que lhes serviu que utilizaram a educação. É assustador. Temos uma sociedade educada e não sabemos como convertê-la de uma economia em tempo de guerra para uma economia em tempo de paz, sem que as pessoas percam os seus empregos. Estamos a construir submarinos de que não necessitamos para as pessoas não perderem os seus empregos.
World Media: Ensinar a ser "politicamente correcto" serve a algum objectivo social?
Pickering: Os ideólogos são perigosos. O problema do multiculturalismo é que não se torna multiculturalismo, torna-se etnocentrismo. As pessoas deixam de falar umas com as outras porque ficam nervosas com medo de que a outra pessoa se ofenda. Hoje, quando falamos com alguém de uma raça diferente, a conversa é tão vazia que nunca conversamos sobre as coisas que interessam, pelo receio de ofendermos a pessoa. Costumo dizer à minha turma que até ao fim da aula, vou insultar todos os grupos étnicos e todas as religiões. Na realidade, não faço tal coisa, mas afirmo-lhes isto porque não quero que concordem com o que eu digo. Não me importo que me odeiem, quero que tenham alguém contra quem testarem as suas ideias. Peço-lhes que procurem aprofundar um pouco para além das banalidades. Acho que há muitas outras coisas que são realmente importantes. Um determinado assunto pode ser importante para as classes médias altas, mas não tem nada a ver com os garotos das ruas de Harlem. Temos uma sociedade em que as drogas abundam, a violência abunda, a Sida se propaga, as pessoas estão desempregadas, os miúdos não comem o suficiente.
World Media: Há muitas pessoas que pensam que foi precisamente em relação a esses garotos, que vêm de meios desfavorecidos, que a educação fracassou. Que fazer?
Pickering: Emprega-se a todo o momento, a palavra crise, há anos que se emprega e eu estou cansado dela, é uma litania do tipo “Perdoa-nos meu Deus, perdoa-nos meu Deus”; sempre que alguém faça de educação e quer obter mais dinheiro, é a palavra-chave, hás sempre uma crise. A maior parte das respostas à questão de como educar os alunos desfavorecidos são mero paleio. Estarmos aqui sentados e pontificarmos acerca do que é bom para os bairros pobres seria prova da maior arrogância do mundo. Não sei o que a escolas podem ensinar aos garotos que vivem em bairros em que os amigos deles levam tiros. Não conseguem aprender e eu não tenho nenhum tipo de solução para isso.
World Media: Há quem pense que é necessário mudar o modo como se ensina e começar a juntar, na mesma aula, crianças de origens diferentes. Defendem o ensino "colaborativo" e o deixar uma abordagem centrada no professor. Isso é positivo?
Pickering: É uma grande frase, soa maravilhosamente conseguirmos pôr pessoas com aptidões diferentes a trabalharem juntas. Mas o meu filho está numa dessas turmas e a verdade é que é excelente para os que não são lá muito bons, mas é terrível para os alunos espertos, sobretudo porque acabam por ser eles a fazerem o trabalho todo. É como no atletismo: ninguém quer ficar com os piores atletas da equipa, mesmo que eles tenham outros talentos. Chegámos a um ponto em que a sociedade não quer fazer de juiz. Mas acho que há muitas maneiras de ser “dotado” e penso que os programas educacionais se deviam concentrar mais em identificar o conjunto de talentos que um aluno pode ter.

sábado, 12 de junho de 2010

O espaço essencial

No post É esta a visão que a Parque Escolar tem para o ensino em Portugal, questionei os pressupostos de ensino e de aprendizagem subjacentes a algumas decisões arquitectónicas para os espaços escolares tomadas pela empresa Parque Escolar; não questionei, naturalmente, a relevância da arquitectura no delineamento desses espaços, que entendo ser óbvia.

O nosso leitor José Nascimento, arquitecto de profissão, enviou-nos um comentário do qual reproduzo algumas linhas pelo facto de denotarem pressupostos de ensino e de aprendizagem distintos dos que guiam essa empresa e que, a serem adoptados, teriam aplicações também distintas daquelas que prevemos quando entrarmos nas escolas intervencionadas.
No meu caso, às justificações que a Parque Escolar apresentou para a escolha de propostas de intervenção adiciono as que agora deram origem ao seu post.

Falo por experiência própria de aluno que fui e de arquitecto que sou nas poucas intervenções que tenho tido na área, e que se resumem no essencial aos seguintes pontos:
1- a educação resulta de um diálogo, entre o professor e o(s) aluno(s), como tal o essencial é o espaço em que esse diálogo acontece (sala de aula) e para isso acontecer não são necessários grandes investimentos materiais. Basta silêncio e paz;
2- fora da sala de aula, a escola é um espaço de prática social entre os alunos e entre a comunidade em que se insere. Também para isso não são essenciais grandes teorias de espaço ou pedagogia. Basta um limite físico claro para todos, que indique onde começa e acaba a escola.

Conclusão cínica: a actuação da Parque Escolar é tão má que dentro em breve será necessário corrigi-lhe os erros. E cá estaremos todos para os pagar. Sempre.

Nem é pela idade...

Imagem chegada ao De Rerum Natura.

Quando nem a racionalidade nem o conhecimento estão presentes, o humor ajuda a conviver com a realidade.

Para o leitor que não está (ainda) a par da medida do Ministério da Educação a que imagem refere, aqui deixamos a indicação de dois textos que a abordam:

- O triunfo do eduquês – 3
- É inconstitucional em dois aspectos

Nota: Por cortesia do leitor Fernando Martins, podemos identificar o autor da tira: o seu nome é Antero e publica os seus desenhos aqui.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

ROBIN HOOD: A HISTÓRIA POR TRÁS DA LENDA


Novo texto de João Gouveia Monteiro saído antes no "Diário de Coimbra":

Tem estado em cartaz a mais recente adaptação ao cinema da história de Robin Hood. Assinado por Ridley Scott e com Russell Crowe, o filme surpreende, pois a história acaba onde as outras começam: no momento em que Robin se torna num fora-da-lei e se refugia na floresta de Sherwood para fazer a guerra ao xerife de Nottingham e ao rei João Sem-Terra, usurpador do trono do bravo rei Ricardo, ausente nas Cruzadas. Afinal, fora este o enredo que todos nos habituáramos a acompanhar, desde a versão de 1938 com Errol Flynn (o Robin de collants verdes) até ao “Príncipe dos Ladrões” (1991, com Kevin Costner), passando pela comédia dirigida por Mel Brooks (1993) e pela série televisiva com Richard Green, sem esquecer a BD e o “arqueiro verde” Ollie Queen.

A equipa de Ridley Scott (“Gladiador” e “Reino dos Céus”) propõe-nos uma revisão da personagem Robin Hood (o nome vem do chapéu com pena, “hood”, e não de “bosque”, “wood”): Robin é um arqueiro que acompanhara o rei Ricardo nas Cruzadas e que, depois da morte deste em 1199, no cerco do castelo de Châlus (no Limousin), regressa a Inglaterra e acaba por vestir a pele do filho de Sir Walter Loxley, Robert, e por ficar com a viúva deste, Lady Marion, tornando-se assim num abastado proprietário de Nottingham. Em pano de fundo, a guerra dos barões do Norte contra o novo rei João Sem-Terra e a rivalidade entre os monarcas de França (Filipe Augusto) e de Inglaterra (sobretudo a disputa pelo ducado da Normandia), bem aproveitada pelos barões para impor a João um documento que este acaba depois por renegar, levando à deserção para Sherwood.

A personagem Robin Hood tem algum pedigree. Remete para um poema épico do século XIII e para uma compilação de c.1400 onde se reuniram velhas tradições orais que relacionavam o Robin com a resistência à cobrança abusiva de impostos e com a actividade criminal no Yorkshire. Sabe-se também que os Normandos conquistaram a Inglaterra em 1066, o que viria a dar origem à dinastia dos Plantagenetas, iniciada por Henrique II. Este herdou dos pais vastos territórios em França e casou com Leonor da Aquitânia (ex-rainha de França) antes de se tornar rei de Inglaterra em 1154. Ora, Henrique e Leonor são os pais de Ricardo Coração-de-Leão. Trata-se de reis de Inglaterra mas que vivem sobretudo em França. Em 10 anos de reinado, Ricardo viveu apenas seis meses em Inglaterra! Quando partiu para a Cruzada, vendeu imensos cargos e disse até que teria vendido Londres se tivesse tido comprador… No regresso, foi preso pelo duque da Áustria e vendido ao imperador germânico, tendo então de pagar um resgate brutal que acabrunhou a Inglaterra. Mas reagiu e dispôs-se a enfrentar Filipe Augusto, recusando-lhe a Normandia e tentando manter os castelos que controlavam o acesso ao sul da França (como Châlus). Morreu de uma seta perdida, num cerco. À sua morte, o irmão João assumiu o trono, com a protecção da mãe. Ricardo, graças ao extraordinário administrador Hubert Walter (arcebispo da Cantuária), deixara-lhes uma máquina governativa poderosa e centralizada que não agradava aos barões. Para mais, os grandes tinham tido de pagar um quarto das suas rendas e bens para financiar o resgate de Ricardo! A revolta estalou, com o apoio de Filipe Augusto de França, através do seu herdeiro Luís. João Sem-Terra desposou Isabel de Angoulême para tentar manter a política de Ricardo no Limousin, mas o seu talento militar era fraco e o seu partido seria derrotado por Filipe em Bouvines, em 1214. No ano seguinte, os barões ingleses tomaram Londres e impuseram-lhe um compromisso: a célebre Magna Carta. João fingiu aceitar mas negociou com o Papa, que a invalidou. Aí, os barões ofereceram o trono inglês a Luís de França, que invadiu a Ilha em 1216 e foi reconhecido como monarca pelos grandes e pelo rei escocês. João morreu logo a seguir. Caberia ao notável regente Guilherme-o-Marechal negociar uma nova versão da Carta e salvaguardar a soberania da Inglaterra.

É neste cenário que se movimenta Robin Hood, o homem por trás da flecha. Ele é um dos “northeners” prejudicados pelas exacções fiscais impostas desde o tempo de Ricardo e pela centralização do poder régio. A sua luta não consiste em roubar os ricos para dar aos pobres, mas em minar a autoridade central. Se os barões ingleses negoceiam com a França, é porque os dois reinos estavam unidos por valiosos laços comuns. A própria língua (o anglo-normando) o denuncia. Só após a Guerra dos Cem Anos (1453) as águas ficaram separadas. Assim, João Sem-Terra não é o vilão que julgamos. Nem Ricardo o justiceiro que ama a Inglaterra (onde quase nunca esteve) e os seus súbditos. Ridley Scott, apesar de ter aproveitado muita História, não explorou tudo isto, nem quis estragar o cor-de-rosa de uma lenda centenária. Fez bem: afinal, a ficção costuma ser bem mais agradável do que a realidade…

João Gouveia Monteiro (Historiador)

PATENTES DE GENES?


Minha crónica no "Sol" de hoje:

A notícia correu mundo. A 20 de Maio último a equipa do norte-americano Craig Venter (na imagem), líder de um instituto que tem o seu nome, publicou na revista Science um artigo em que anunciava uma grande proeza da biologia moderna: a síntese in vitro do genoma de uma bactéria, acrescentando algumas modificações (que incluíam os nomes dos cientistas e um endereço de e-mail), e a sua inserção numa outra bactéria, que se conseguiu reproduzir rapidamente como se fosse um organismo normal. Mal comparado é como se se obtivesse uma receita de um prato a partir dele, se alterasse esta pontualmente, e, a partir de produtos químicos avulsos, se conseguisse criar um novo prato muito parecido com o primeiro.

Venter não perdeu tempo e solicitou já várias patentes relativas à experiência realizada, uma vez que ela abre perspectivas a numerosas e lucrativas aplicações. Mas poderá ele obter uma patente do genoma codificado (que mais não é do que um código feito de quatro letras)? De facto, apesar de não estarem autorizadas patentes de organismos vivos, cerca de vinte por cento do genoma humano, descodificado com a ajuda do próprio Venter e muito mais complexo do que o de uma bactéria, encontra-se patenteado. Por estranho que possa parecer há mesmo patentes de genes. Mas esse tipo de procedimentos pode ter os dias contados…

Dois meses antes do anúncio da “vida sintética”, um juiz federal de Nova Iorque deferiu uma acção apresentada pela União dos Direitos Civis Americanos e pela Fundação de Patentes Públicas no sentido de cancelar as patentes dos genes BRCA1 e BRCA2 (as iniciais são de Breast Cancer), cuja mutação é responsável por certas formas hereditárias de cancro da mama e dos ovários. A posse dos direitos pela empresa Myriad Genetics e por uma fundação ligada à Universidade de Utah permitia a exclusividade da realização de testes genéticos. Qualquer pessoa tem de lhes pagar três mil dólares para saber o seu factor de risco. O juiz considerou que as patentes tinham sido atribuídas “de forma imprópria” por os genes fazerem parte do DNA humano e estar envolvida uma “lei da Natureza”. As partes prejudicadas pela sentença vão recorrer. Mas, se a batalha jurídica for ganha por quem agora ganhou a guerra, entrar-se-á numa nova era do direito da biomedicina.

Esta questão das patentes na biotecnologia é extraordinariamente quente. De um lado está o interesse público e do outro o interesse de empresas particulares. Parece simples, mas não é. As empresas reclamam que o progresso da ciência e da tecnologia ficará prejudicado se os inovadores não forem devidamente recompensados. Aguardam-se os próximos capítulos desta novela científico-legal.

A Educação do tempo de Roberto Carneiro aos nossos dias

“O Homem quando perde a sua
capacidade de indignação
perde a própria razão de ser”
(Miguel Torga).
.
Como costumo dizer, quando se é novo têm-se os olhos postos no futuro, na meia idade preocupamo-nos com o presente, na velhice (mas haverá mesmo velhice, quando Francis Bacon nos diz que “velhos são os que têm mais quinze anos do que nós”?) damos connosco a recordar o passado.

Por me enquadrar no terceiro exemplo, de quando em vez dou comigo a folhear uma pasta onde arquivo um extenso acervo de recortes de jornais de artigos de jornal da minha autoria, publicados ao longo dos anos, como acontecido hoje num dia chuvoso que convida à melancolia. E se “o algodão não mente”, como dizia o anúncio da televisão, são esses recortes prova da veracidade da respectiva transcrição.

Assim, para memória futura, julgo ter algum interesse um extenso artigo de opinião, publicado vai para mais de vinte anos, em que eu dava conta de verdadeiras asneiras, autênticos buldozers a abrir caminho para dislates futuros bem mais graves. Dele transcrevo uns tantos excertos:

“O ministro da Educação [Roberto Carneiro] não se assume aos olhos dos portugueses como detentor da verdade (são palavras suas: ‘Acredito imensamente no diálogo porque ninguém é senhor da verdade’) e muito menos como sequaz de um absolutismo que o autorize a afirmar: A reforma educativa sou eu. E, logo, acrescenta: ’Se as pessoas não comunicam, se as pessoas não falam, não há educação. Por muito empedernidas que sejam as pessoas, é impossível dizer-se que não aprendem nada com a comunicação com as outras pessoas’.

Consequentemente, acredito no maestro e na partitura o que não invalida as dúvidas que possa ter (e que tenho) sobre alguns instrumentistas que dão as suas fífias. (…) Isto porque qualquer Lei de Bases do Sistema Educativo [recorde-se que ela foi publicada num clima de intolerável pressão entre o ministro da Educação e 30 associações sindicais e afins, em que se transformaram anões em gigantes e gigantes em anões], por melhor que seja, é desvirtuada das suas intenções e, o que é mais grave ainda, sujeita-se ao descrédito da gargalhada pública quando servida por despachos normativos que, em vez de a bem consubstanciarem, a transformam em frágil esqueleto humano suportando grotesco antropóide!

Mas como é consabido, qualquer reforma educativa deverá fazer convergir a sua principal atenção sobre o educando, todavia, o elemento mais difícil de uma transformação sensível porque ela depende substancialmente de condicionalismos culturais e socioeconómicos vários quase impossíveis de modificar numa única geração. Portanto, a ductilidade e a eficiência de uma reforma educativa está mais na formação dos docentes, nos programas, nos compêndios, na carga horária e nas instalações escolares. Foi talvez essa a intenção inicial que presidiu à criação das Escolas Superiores de Educação (ESE) .

E se daqui aplaudo a melhoria que elas vieram trazer [hoje, face à má preparação dos alunos, de uma forma geral, saídos do 1.º ciclo do ensino básico, ponho em questão o meu aplauso de então] à formação dos professores do Ensino Primário, dos educadores de infância – até aqui a cargo de escolas de ensino médio – e, principalmente, dos professores de Trabalhos Manuais, habilitados, tão-só, com os cursos das extintas escolas industriais e comerciais, doem-me as mãos para o fazer no que concerne à formação dos futuros professores do 2.º ciclo do Ensino Básico (actual Ciclo Preparatório), a maioria dos quais habilitados até então com uma licenciatura universitária.

As ESE pululam por este país fora, majestáticas, luxuosas, arrogantes. São herança que nos veio da estranja e que passa de mão em mão, de governante em governante, sem que os seus legítimos administradores devam deixar de passar um dia sem agradecer a dádiva… mas quando aplicada na melhoria (e nunca no retrocesso) das habilitações científicas e literárias necessárias para a docência, porque ‘nem mesmo tratante se pode ser sem alguma instrução ou tirocínio’, como escreveu Ramalho Ortigão
. [E isto aconteceu numa altura em que o número de licenciados em Letras no desemprego era já muito numeroso].

Como podem as ESE formar docentes capazes para as disciplinas de Português e Matemática, por exemplo? E com essa tremenda prolixidade formativa darem a garantia de o fazerem tão bem como a Universidade com as suas faculdades específicas devidamente preparadas e apetrechadas, através dos anos ou até dos séculos, caso da Universidade Coimbra, com estruturas humanas (professores, assistentes e investigadores) e materiais (bibliotecas, laboratórios, centros de investigação, etc.)?

Será cada uma das ESE, por si só, uma super-universidade? [Uma consulta ao cursos ministrados, actualmente, numa escola superior de educação do ensino politécnico dá-nos uma listagem de, nada mais, nada menos, de uma dúzia de cursos, que vão desde a Educação Básica - inicialmente unicamente para a formação de professores do 1.º ciclo do básico - à Animação Socioeducativa, Comunicação Social, Música, Teatro, Turismo, Gerontologia Social, etc.].

Admitindo-o, teremos que admitir que as universidades sobrecarregam desnecessariamente o erário público. Morte, portanto, à formação de professores nas Faculdades de Letras e de Ciência, e vivam as ESE, porque a politica parece ser a de dar pouca importância futura ao ensino imediatamente sequente à aprendizagem das primeiras letra, deixando de competir, assim, à Universidade a formação académica dos respectivos docentes!

E de cacetada em cacetada, de aviltamento em aviltamento, de desonra em desonra (o mal é começar), vislumbre o leitor, hoje pai, amanhã avô, as gerações actuais e vindouras a saírem das nossas escolas com nove anos de escolaridade com pouco mais do que escassos e insuficientes conhecimentos dados por um diploma de estudos do ensino primário de há décadas atrás [quando as palavras escritas de maneira incorrecta eram havidas como erros de ortografia e para fazer simples contas de somar não eram necessárias máquinas de calcular].

Pobre de matérias primas, sem cérebros, mas soberbo das suas reformas educativas Portugal será no futuro um país cavernícola! (“Diário de Coimbra”, 21.Abril.1988).

Escreveu Ernst-Wolgang Böckenforde, professor universitário e juiz do Tribunal Constitucional de Karlsruhe: “Na vida de um indivíduo dão-se situações em que uma intervenção pelo direito e pela justiça, o alcançar a reposição da justiça causa perturbações nas oportunidades da vida. Há situações em que se é remetido para a indulgência, religiosamente ao perdão, de ser remetido para a renúncia a exigir o próprio direito, para desse modo ganhar novo terreno”.

Na educação, mesmo a denúncia pública de quem tem dito que o rei vai nu de nada tem valido para que a uns tantos erros se não acumulem a outros tantos cada vez mais graves. Seja como for, é uma acção, quase diria, patriótica denunciar que o ensino em Portugal se transformou num embuste tremendo de facilitismo, ou mesmo em doxomania ministerial, para apregoar, urbi et orbi, que o nosso país tem uma percentagem de literacia que nos coloca em cómoda ou, mesmo, invejável posição.

Embora com poucos ou nenhuns resultados, é este um dever de cidadania (incómoda cidadania) de que não abdico, embora sabendo ser um simples soldado raso de uma campanha em que outros ganharam as estrelas do generalato.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

O DR. MOTA AMARAL E A MULHER DO BISPO DE WORCESTER


Para quem não leu o texto do professor de Física José Dias Urbano no "Público" do passado dia 24 de Maio, aqui fica o essencial:

"O despacho do dr. Mota Amaral que proíbe a Comissão de Inquéritos a que preside de usar os documentos que lhe foram enviados por autoridades judiciais competentes é, à primeira vista, incompreensível e insensato. De facto, numa só penada o dr. Mota Amaral contribuiu para desprestigiar não só o sistema judiciário, mas também a Assembleia da República.

Desprestigiou o sistema judiciário porque transmitiu ao país a ideia de que há juízes e procuradores que não se coíbem de praticar actos ilegais que ferem direitos fundamentais dos cidadãos, consignados na Constituição da República. Desprestigiou a Assembleia da República porque a impede de usar meios que são considerados por quem os enviou como essenciais para se chegar à verdade, transformando desse modo a Comissão de Inquérito em mais um espectáculo mediático sem outras consequências que não sejam a de mostrar aos cidadãos que os deputados gostam de perder tempo em tarefas inúteis.

Mas, pensando melhor, pode ter acontecido que, perante a gravidade da situação que se criaria se a Comissão de Inquérito chegasse à conclusão de que o primeiro-ministro tinha mentido - repare-se que isso já levou à destituição do homem mais poderoso do mundo -, o dr. Mota Amaral tenha optado por seguir a sábia atitude de prudência demonstrada pela mulher do bispo de Worcester, num dos mais célebres debates de que há memória em reuniões científicas. (...)

Tanto ele (o bispo de Worcester) como muitas outras autoridades religiosas da época (30 de Junho de 1860) achavam que o «princípio da selecção natural é absolutamente incompatível com a palavra de Deus».

Mais pragmática que os clérigos, a mulher do bispo de Worcester limitou-se a comentar: «Descender de macacos! Essa agora! Esperemos que não seja verdade! Mas se for, rezemos para que não se fique sabendo!».

Perante a gravidade da situação que se criaria se se provasse que o primeiro-ministro tinha mentido ao Parlamento, o dr. Mota Amaral deve ter-se sentido obrigado a tomar a mesma sábia atitude de prudência revelada pela mulher do bispo de Worcester:

«Termos um primeiro-ministro mentiroso?! Era o que mais faltava! Mas, se for verdade, ao menos que não se saiba». "

José Dias Urbano - in Público de 24/5/2010

"TOMA LÁ EDUQUÊS" DE MANUEL ANTÓNIO PINA

Foi lançado na feira do Livro do Porto o novo livro de crónicas do escritor Manuel António Pina:

- "Por Outras Palavras e Mais Crónicas de Jornal", Modo de Ler

que reúne muitas das suas bem pensadas e melhor escritas crónicas saídas no "Jornal de Notícias" (JN) e outros jornais.

Não resisto a transcrever uma, que saiu no JN a 14 de Junho de 2007 e que se intitula "Toma lá Eduquês":
O ex-ministro Marçal Grilo cunhou o termo "eduquês" para caracterizar a langue de bois, ou cassete, usada no Ministério da Educação (ME) e nas chamadas Ciências de Educação, cujo jargão afectado, confuso e obscuro passa por profundidade de "pensamento educativo". Como escreve Nietzsche, as águas profundas são sempre escuras; logo, o obscurecimento da linguagem passa facilmente por profundidade e densidade, mesmo que o que se diz tenha a profundidade da piscina de Charlot nos tempos Modernos.

Leia-se o que consta do site do ME sobre o Plano Nacional para a Matemática, agite-se, esprema-se e verifique-se o que fica: trivialidades: Mas, lá que parece "ciência" parece. E da "difícil"...

O "eduquês" manda há anos no ME (os ministros vão mudando mas o "eduquês" fica) e a ele fundamentalmente se deve o estado de catástrofe a que chegou a educação em Portugal. Os sucessivos ministros têm sido impotentes para contrariar a situação, reféns, como na série Yes, Minister, de "cientistas" da Educação a quem não é exigível qualquer responsabilidade política. Se a verificação experimental é o critério da verdade de qualquer teoria científica, olhe-se em volta e veja-se no que tem dado a experimentação desta espécie de ciência.

GRANDES ERROS - CAMINHAR SOBRE AS ÁGUAS


Está explicado o mistério da corrida sobre as águas que foi feita no Gerês. Uma empresa de sapatos desportivos à prova de água (Hi-tec) confessou ser a autora do vídeo que, por todo o mundo enganou, enganou muita gente. Como publicidade até tem alguma piada...

Um dos nossos leitores lembrou-se de nos enviar, a propósito, a imagem de cima - o quadro de Tintoretto, reproduzido em cima, mostrando Jesus Cristo sobre as águas. E este episódio lembrou-me de uma anedota sobre um turista português que visita o lago Tiberíades e, espantado com o preço dos passeios de barco, pergunta:

- Mas porque é que o passeio é tão caro?

Responderam-lhe:

- Cristo aqui caminhou sobre as águas...

Retorquiu o turista:

- Pudera, não me admira nada, ao preço que estão os barcos!

Imagem: Cristo no mar da Galileia, de Tintoretto, Óleo sobre canvas, 117 x 168,5 cm, National Gallery of Art, Washington

GRANDES ERROS - EQUILÍBRIO ENERGÉTICO A 39,90 EUROS


Em tempos houve uma moda das pulseiras magnéticas. Mas o último grito da moda é o "Power balance", uma pulseira com um "holograma quântico" que assegura o "equilíbrio energético". Reza assim a propaganda oficial:

"O Power Balance é um produto desenvolvido por um cientista da NASA. Consiste num holograma quântico feito a uma freqüência que entra em contato com o campo energético do nosso corpo, aumentando a eficiência dos sistemas eletrônicos, físicos e orgânicos do corpo."

O número de disparates é maior que o núemro de linhas. "Cientista da NASA" e "holograma quântico" servirá para enganar os pacóvios. "Feito a uma frequência" é absurdo. "Entra em contacto com o campo energético do nosso corpo" é absurdo ainda maior pois não o nosso corpo não tem nenhum "campo energético". E quanto ao aumento da "eficiência" dos sistemas ela está por demonstrar.

Mas vejamos a explicação que se segue:

"O efeito sutil da energia ajuda a realçar funções metabólicas celulares. Através de vários testes pode-se comprovar visivelmente o aumento instantâneo do equilíbrio, da flexibilidade, da força, da concentração e do bem-estar. Além de reduzir os efeitos do stress, aumentar a resistência e o sistema imunológico."

O efeito é subtil que não se vê. A pulseira não é fonte de nenhuma radiação. Os testes não irão além do vulgar efeito placebo!

Vale a pena ler mais? Faz bem a quê? Está bem, só mais um bocadinho:

"A Pulseira Power Balance é um estimulador natural de energia que instantaneamente ajusta o seu corpo para uma melhor performance, aumentando: a resistência, o equilíbrio, a força no tronco (área abdominal) e a flexibilidade. Não importa a sua atividade o Power Balance ajuda na sua performance e a você se sentir melhor fisicamente e emocionalmente."


Quando se diz que faz bem a tudo, deve entender-se que, como a banha da cobra, não faz bem a nada. A secção seguinte intitulada "NOSSO CORPO É UMA GRANDE BATERIA" (com maiúsculas e tudo) continua na mesma linha. Trata-se de pseudociência da mais grosseira...

Poder-se-á responder que não faz bem, mas também não faz mal nenhum. Mas faz. Faz mal à carteira pois custa 39 euros e 90 cêntimos. Um roubo, claro!

Dou um conselho gratuito: Quem não quiser ser roubado e quiser testar o efeito dos hologramas sobre o corpo humano, bastar-lhe-á recortar um holograma de um cartão de crédito fora do prazo e colá-lo numa tira de silicone ou material parecido. O efeito será nenhum, mas é muito mais barato.

Breve história da ciência em Portugal

Informação recebida da Imprensa da Universidade de Coimbra:

Breve História da Ciência em Portugal
de Carlos Fiolhais e Décio Martins

Edição: 2010
Editor: Gradiva Publicações e Imprensa da Universidade de Coimbra
ISBN: 9789892600437

Preço: 8,40€

Sinopse:

Trata-se de um resumo sobre a ciência que houve em Portugal desde o tempo dos Descobrimentos ate ao fim do Estado Novo. Num livrinho de divulgação como este deixou-se propositadamente de fora a erudição, as notas de pé de página e a bibliografia exaustiva. Mas apresentam-se, pela primeira vez num só volume, a sucessão dos factos e personagens mais assinaláveis que constituíram e protagonizaram o percurso da ciência entre nós. Foi um percurso de avanços e recuos, avanços sempre que houve suficiente abertura ao exterior, e recuos, quando muitas vezes, vezes demais, o país se fechou em si próprio. Se nomes como Pedro Nunes, Garcia da Horta, Avelar Brotero e Egas Moniz são mais ou menos conhecidos, muitos outros que se encontram nestas páginas são mais ou menos desconhecidos, não o merecendo ser. Um sintoma do atraso português é a falta de atenção dada à história da ciência em Portugal: não é que ainda não havia um resumo como este, destinado ao público mais alargado?

CRISTIANISMO, HUMANISMO, POSITIVISMO E MARXISMO, PONTOS DE APROXIMAÇÃO E DE AFASTAMENTO

Texto do Professor A. Galopim de Carvalho O elitismo académico já teve o seu tempo. Agora é tempo de abordar “todos os saberes” “com toda a ...