sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Descascar a fruta


O habitual destaque para a crónica de J.L. Pio de Abreu no "Destak" de hoje (na figura quadro de Caravaggio):

O que nos faz mexer com agrado não é o próprio prazer, mas sim o esforço feito para o obter. A chave deste paradoxo é uma molécula que dá pelo nome de dopamina. Ela liberta-se, nos nossos neurónios, sempre que as coisas estão a correr no sentido da expectativa desejada. A expectativa realizada reforça este caminho mas, por si, não é tão intensa como os passos dados até lá. O facto é que, obtido o desejo, cessa a libertação de dopamina.

Este pormenor explica porque é que os alpinistas se torturam para chegar ao cume de um monte, porque é que os toxicodependentes insistem na difícil obtenção da droga que, a partir de certo ponto, apenas lhes traz mais dores, ou porque é que o amor difícil é o que se vive mais intensamente. Mas ajuda-nos também a perceber que a melhor forma de fortalecer a vontade é adiar a recompensa.

Na sociedade do "pronto-a-vestir" as recompensas estão na montra e serão obtidas logo que se arranje o dinheiro suficiente. A dopamina vira-se então para o "vil metal", o único caminho para todos os prazeres. Onde está o prazer de cozinhar, de construir um brinquedo, de bordar uma colcha, de preparar um encontro? Tudo sucumbiu perante o tempo dedicado à obtenção do dinheiro.

Para aqueles que foram bem treinados na vontade de ganhar dinheiro, fica o golfe. Chegar ao primeiro, segundo e outros buracos, é incentivo suficiente para a expectativa de alcançar o décimo oitavo. Para os outros, resta o prazer de descascar a fruta antes de a comer. Pelo menos, enquanto os supermercados não a venderem já sem casca.

J.L. Pio Abreu

MUNDO ESTRANHO


Vivemos num mundo estranho, muito estranho. Há gente que receia mais a prevenção da gripe do que a gripe. Há gente que, contrariando a velha sabedoria popular, acha que é melhor remediar do que prevenir. O que lhes falta? Não lhes falta informação, que hoje é abundante, falta-lhes conhecimento, isto é, integração racional de informação. E, sem conhecimento, falta-lhes obviamente sabedoria.

CRIACIONISMO CRESCE NO MUNDO ÁRABE

Ver recente artigo no "New York Times": aqui. Excerto:
"Pervez A. Hoodbhoy, a prominent atomic physicist at Quaid-e-Azam University in Pakistan, said that when he gave lectures covering the sweep of cosmological history from the Big Bang to the evolution of life on Earth, the audience listened without objection to most of it. “Everything is O.K. until the apes stand up,” Dr. Hoodbhoy said.

Mentioning human evolution led to near riots, and he had to be escorted out. “That’s the one thing that will never be possible to bridge,” he said. “Your lineage is what determines your worth.” "

O esforço e a dedicação valem sempre a pena

Ana Almeida, a aluna referida no texto Estamos completamente isolados concedeu uma entrevista ao De Rerum Natura. Trata-se, como o leitor poderá perceber, de um depoimento que traz luz, esperança ao nosso ensino.

P: Começo pela pergunta que fiz ao seu colega Afonso, que antes de si, no ano passado, participou no European Student Competition in Ancient Greek Language and Literature, tendo ambos sido premiados: O que significou para a Ana a participação neste concurso?

R: Mais do que enriquecimento académico e cultural, trouxe-me um profundo enriquecimento pessoal. Na verdade, desde a intensa preparação do exame nas aulas – com a ajuda dos meus colegas e, especialmente, da incansável minha professora, sem a qual nada disto teria sido possível e a quem estou eternamente grata – até à viagem à Grécia, aprendi muito, vivi muito, senti muito. Foi, no fundo, a prova de que o esforço e a dedicação valem sempre a pena. Especialmente quando se trata de algo que para nós tem significado.

Os textos estudados – duas partes dos Memorabilia, de Xenofonte – foram um incentivo maior. Em primeiro lugar, pelo desafio que representavam a nível linguístico, tendo em conta que exigiam um conhecimento superior àquele que nós possuíamos. Sim, foi necessário estudar bastante, investir muito tempo, dar voltas e voltas a pequenos fragmentos de frase, às vezes com uma palavra só… Porém, no fim, quando conseguia decifrar o que estava à minha frente, o sentimento de missão cumprida, o tomar de consciência de que, afinal, era capaz, posso mesmo dizer, o orgulho que sentia em mim própria, compensava todo o suor gasto. Além disso, não posso deixar passar em branco o próprio conteúdo dos textos. Baseados nos valores e princípios da educação na sociedade grega, tiveram, claramente, um teor educativo também, que eu apreendi e que é sempre importante na construção pessoal.

Por fim, a viagem à Grécia foi a «cereja em cima do bolo». Foi o reconhecimento e a recompensa objectiva de todo o esforço e empenho dos quais eu já me sentia, no entanto, recompensada. A partilha de experiências com as pessoas que lá conheci, essa é indescritível. Na verdade, significou que não estava sozinha, que não pertencia a um mundo aparte, mas sim a um mundo onde as Clássicas são reconhecidas e valorizadas. Esse sim, foi dos melhores prémios que eu, enquanto pessoa e estudante, pude ter.

P: Que lugar têm as Clássicas na sua vida?

R: As Clássicas foram uma das descobertas mais importantes que fiz até hoje. Não foram apenas as minhas disciplinas preferidas, foram, acima de tudo, uma aprendizagem fundamental na minha formação como aluna e pessoa. Actualmente, com muita pena minha, não as tenho tão presentes na minha vida pois encontro-me na faculdade, num curso onde não as estudo. Contudo, nunca são esquecidas. Tanto o grego como o latim, transmitiram-me conhecimentos que podem ser aplicáveis todos os dias – a nível de linguagem, de cultura e de valores; porque, mais do que regras gramaticais e traduções, trata-se do estudo de uma sociedade na qual assenta a nossa e cujos hábitos, organização social, crenças e princípios – todos eles intemporais - são a base que hoje nos sustem. As Clássicas têm uma beleza intrínseca que apenas pode ser reconhecida quando são estudadas e quem as estuda por gosto, sente essa mesma beleza e jamais a esquece. É por isso que, de uma forma ou de outra, sei que me acompanharão sempre ao longo do meu percurso.

Muito obrigada.

Imagem: Ana Almeida e Konstantinos Karkanias, Presidente da Organização de Promoção da Língua Grega.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

"Milton" de William Blake

Informação recebida da Antígona:

"Milton", William Blake

Tradução, introdução e notas; Manuel Portela

293 pp (inclui 51 ilustrações a cores) | pvp €35,00

Milton continua a publicação das obras de William Blake (1757-1827, artista e poeta), que a Antígona encetou em 1994, com a primeira edição de Cantigas da Inocência e da Experiência, sempre pela experiente e poética mão de Manuel Portela.

Milton encena a viagem de autodescoberta e renovação do herói que lhe dá título. No primeiro livro do poema, John Milton regressa do céu ao mundo dos mortais. Sob a forma de um cometa, penetra no corpo de William Blake. A relação entre o poeta vivo e o seu predecessor dramatiza as pulsões contrárias da consciência individual, e uma luta sem tréguas pela afirmação da imaginação e da visão contra a mera exterioridade do mundo material. No segundo livro, Milton une-se à sua emanação feminina, Ololon, progredindo em direcção à superação apocalíptica das divisões entre sexos, entre vivos e mortos, e entre a consciência humana e as suas projecções alienadas no mundo exterior.

Este enredo integra inúmeras referências e alusões, que vão desde a Bíblia à vida pessoal de Blake, em particular a difícil relação com o seu mecenas William Hayley. Mas a reescrita dos mitos da criação e a recriação mítica de factos biográficos são apenas duas das múltiplas dimensões desta viagem psiconáutica. Milton é também uma obra sobre a dilaceração do sujeito humano e sobre a presença das forças genesíacas e apocalípticas do universo na forma e nos desejos do corpo.

A sua fantasia visionária é, antes de mais, um produto da letra e da escrita como invenção simbólica do humano e como emulação da forja criadora. Como nos restantes livros iluminados, os actos de escrever, desenhar, gravar, imprimir e pintar parecem conter, nas suas interacções, a própria possibilidade do pensamento.

À venda nas livrarias a partir de 20 de Novembro

O mimetismo da violência

Pelo interesse do comentário de João Boaventura ao texto Os laços que unem a humanidade, onde se destaca a referência a René Girard, tomamos a liberdade de o republicar como texto.

Filósofo, antropólogo e sociólogo, Lévi-Strauss, autor dos Tristes Trópicos e La pensée sauvage, considerava que entre os "selvagens" e os "civilizados" poucas seriam as diferenças, como entre o homem de hoje e o homem da idade média, relembrando, de certa forma, um discurso de Umberto Eco a demonstrar que nada do que se passa hoje difere do que ocorria na Idade Média.

O pensamento de René Girard (na imagem ao lado), que Leonardo, um leitor do De Rerum Natura, em boa hora nos traz, coincide com tudo quanto aqui se tem debatido sobre a Bíblia, a propósito de Saramago, e do tal Caim que, afinal, mais não é do que o representante do protótipo do homem de todos os tempos (civilizados, selvagens, de hoje ou do passado).

René Girard , filósofo, historiador e filólogo, e que também não desdenha do papel de sociólogo - "eu sou antes de tudo um cientista social", diria numa entrevista - já que aponta a Bíblia como um excelente documento para um estudo sociológico.

Na mesma linha de pensamento de Lévi-Strauss, René Girard considera que o homem colectivo é arrastado para a violência por mimetismo, porque as paixões presentes em cada um adquirem uma força multiplicadora. Seja o homem selvagem, civilizado, do século XXI ou do século V.

Numa entrevista ao jornal La Croix, considerou que "o cristianismo é o único a realçar o carácter mimético da violência."

João Boaventura

Estratégia para o conhecimento



Dizia-me um responsável de uma grande empresa tecnológica nacional que os saltos tecnológicos registados na empresa foram sempre o resultado da intervenção de pessoas que estavam na empresa há menos de um ano. Ou seja, foram o resultado da actividade de pessoas que eram relativamente livres para serem disruptivas e sugerirem alterações ou mudanças inesperadas para os outros. Pessoas criativas, com capacidade de inovar e de colocar em prática as suas ideias.

É muito significativa e talvez surpreendente esta observação.

Portugal não tem dimensão suficiente para gerar escala, isto é, as empresas nacionais não podem contar com o mercado nacional para se desenvolverem e serem competitivas. Nem sequer para sobreviver. Por isso, precisam de se aventurar em novos mercados, por esse mundo fora, tirando partido da sua criatividade e capacidade empreendedora. Isto é, devem distinguir-se pela qualidade dos seus produtos, pelos serviços que oferecem, pela sua disponibilidade e pela forma como se apresentam ao mundo: têm de ser diferentes e melhores. Não é só design e ergonomia, é também funcionalidade, tecnologia, serviços, integração, novidade ou, numa frase, projecto criativo de produtos e serviços tendo por base a satisfação de interesses do mercado.

Para atingir estes objectivos é costume dizer-se que precisamos de inovar, conceito que tem sido usado até à exaustão. Mas as empresas percebem que isso necessita de pessoas criativas que constantemente procuram melhores soluções, mas que também são capazes de se organizar para as colocar em prática.

É por aí que tem de começar um plano coerente de desenvolvimento do país: chamem-lhe plano tecnológico, ou mais adequadamente, estratégia para o conhecimento. Pelas pessoas. Pelas novas gerações, em particular. Com o objectivo de criar a consciência colectiva da necessidade de esforço, iniciativa pessoal e original como forma de encarar a vida e planear o futuro. Este esforço é particularmente necessário junto de escolas secundárias onde é importante fazer chegar o exemplo de empreendedores e respectivos trajectos de vida, bem como demonstrar formas alternativas e originais de trabalhar, para que os jovens possam alargar horizontes e se apercebam que dependem de si, da qualidade da educação que tiveram, mas também, em grande medida, da sua atitude perante a vida. Será esse binómio que lhes permitirá aproveitar as oportunidades que a vida lhes proporcionará, mas também criar as suas próprias oportunidades, seja por conta própria ou por conta de outrem. Os cursos de empreendedorismo, o contacto com empresas inovadoras e a relação das escolas com a universidade e centros de saber são ainda mais críticos nestas faixas etárias.

Conhecimento, espírito empresarial e empreendedor são valências essenciais ao nosso futuro colectivo.

Triste fado


Texto recebido de Augusto Kuettner Magalhães:

A cientista Mónica Bettencourt Dias foi hoje - 4 de Novembro de 2009 - distinguida pela Organização Europeia de Biologia Molecular (EMBO) ao ser incluída na sua lista anual dos mais talentosos jovens cientistas da Europa. Mónica Bettencourt Dias é licenciada em Bioquímica pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e regressou em 2006 de Inglaterra, onde se doutorou em Biologia Celular no University College London. A investigadora dirige o Laboratório de Regulação do Ciclo Celular do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC). Notícias como esta deviam ter o relevo de uma primeira página dos jornais, de abertura dos telejornais...

Temos muitos talentos, temos portuguesas e portugueses com uma tremenda qualidade, dos melhores entre os melhores, na investigação, na gestão, no marketing, nas ideias, etc. Mas isso não é importante, o que interessa é a desgraça, o destino marcado em nós, como povo inconsequente, incapaz, desatinado. Temos gente tão competente que, se bem aproveitada, poderíamos ser dos melhores entre os melhores em várias áreas. Devemos andar distraídos, ou então devemos gostar da auto-flagelação e, assim, não vamos a lado nenhum. Vamos apenas vendo o afundamento diário do país. Triste fado!

Augusto Kuettner Magalhães

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Um minuto de astronomia



Informação recebida da organização do Ano Internacional da Astronomia:


Nuno Markl, Luís Represas, Nicolau Breyner, Sérgio Godinho e Sílvia Alberto são algumas das caras de uma equipa que vai trocar por miúdos os grandes temas do Universo, a partir de hoje na RTP1 e de amanhã na RTP2.

Explicar buracos negros num minuto pode ser uma tarefa de peso para um(a) cientista; e para uma estrela da TV ou um humorista? Nuno Markl, Jorge Gabriel e Sílvia Alberto aceitaram o desafio e, com eles, muitas outras estrelas portuguesas decidiram vestir a camisola do Ano Internacional da Astronomia e trocar por miúdos os grandes temas do Universo. O resultado passa a partir de hoje na RTP1 e de amanhã na RTP2.

Sílvia Alberto, Nicolau Breyner, Carla Chambel, Helena Coelho, Jorge Gabriel, Maria Gambina, Sérgio Godinho, Nuno Markl, Margarida Martins, Francisco Mendes, Luís Represas, Cláudia Semedo e Vitor de Sousa são os 'astrónomos' de serviço nos spots de "1 Minuto de Astronomia", que abordarão temas aparentemente tão complexos como o Big Bang, a morte do Sol, a matéria negra ou os planetas extra-solares.

“Foi um prazer colaborar neste projecto que vai levar a astronomia ao grande público, duma forma leve e informal”
, reconhece Sílvia Alberto. A apresentadora foi uma das personalidades que aceitou o desafio e a quem coube a árdua tarefa de explicar porque é que a astronomia é tão importante.

Numa linguagem clara a acessível, os convidados de "1 Minuto de Astronomia" explicam complexos conceitos científicos. Para além dos 13 episódios televisivos, existe também uma página na Internet (aqui) onde os mais curiosos poderão encontrar informações detalhadas sobre os temas abordados, desta vez explicados em pormenor por vários astrónomos e astrofísicos portugueses.

O lançamento do programa de televisão constitui um dos eventos fortes das comemorações do Ano Internacional da Astrononomia (AIA 2009). "1 Minuto de Astronomia" é patrocinado pela Ciência Viva - Agência Nacional para a Cultura Científica e é produzido pela Science Office (scienceoffice.org) e Duvideo (www.duvideo.pt). Uma apresentação pública do projecto terá também lugar a 28 de Novembro, no Pavilhão do Conhecimento, por ocasião do encerramento da "Semana da Ciência e da Tecnologia".

O AIA 2009 é organizado em Portugal pela Sociedade Portuguesa de Astronomia, com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), da Fundação Calouste Gulbenkian, do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, da Agência Ciência Viva e da European Astronomical Society (EAS).

Horários:

RTP1
Quarta-Feira, 4 de Novembro 9:27 / 11:37 / 17:10 / 18:30
Quinta-Feira, 5 de Novembro 9:21 / 11:36 / 14:20 / 17:08 / 18:40 / 22:47 / 02:38
Sexta-Feira, 6 de Novembro 9:28 / 11:36 / 14:22 / 17:11 / 18:37 / 0:57 / 2:40
Sábado, 7 Novembro 9:49 / 11:35 / 15:58 / 17:15 / 18:13 / 22:59 / 02:55
Domingo, 8 de Novembro 10:00 / 14:45 / 17:12 / 18:28 / 22:59 / 02:41

RTP2
Quinta-Feira, 5 de Novembro 13:00 / 20:31 / 21:06 / 1:15 / 2:07
Sexta-Feira, 6 de Novembro 13:58 / 16:47 / 19:25 / 0:18 / 02:00

Tertúlia de Poesia & Ciência

Informação recebida do Exploratório de Coimbra:

No próximo dia 6 de Novembro realizar-se-á no Exploratório, a partir das 17h45m, a Tertúlia de Poesia & Ciência, com a participação dos poetas Eugénio Lisboa e Luis Serrano e de elementos da Cooperativa de Teatro Bonifrates. Mais informações aqui.

Células estaminais há muitas, ó palerma!

Por entre alguma falta de consenso entre médicos e investigadores, o governo anunciou na anterior legislatura que iria avançar ainda este ano com um banco público para preservar as células do sangue do cordão umbilical. Ao que sei ainda não o fez, mas a assumir-se como verdadeiramente útil a preservação das células do sangue do cordão umbilical, sou totalmente favorável a que seja um banco público a fazê-lo, numa lógica de acesso a cuidados de saúde gratuitos e universais. E, por um banco público, estou também a entender acesso público.

A questão das células estaminais do sangue do cordão umbilical está associada a uma percepção social equívoca, havendo uma confusão acerca do seu potencial de diferenciação e usos em medicina regenerativa.

A única célula totipotente, ou seja que se pode diferenciar em todas as células do corpo, é o embrião unicelular. O óvulo fecundado. Depois, há as células pluripotentes, que se podem diferenciar em várias linhas celulares. Na senda de potencial decrescente seguem-se as células multipotentes, que apenas se podem diferenciar em todas as células de uma determinada família. É o caso das células hematopoéticas, que se obtêm a partir do sangue do cordão umbilical e que se podem diferenciar em todas as células do sangue (já não é mau!)

Para que não restem dúvidas, o potencial de diferenciação decrescente é o seguinte:

Totipotentes --> Pluripotentes --> Multipotentes* --> Unipotentes.

O asterisco assinala onde se encaixam as do sangue do cordão umbilical, que podem originar todos os tipos de células sanguíneas. São células estaminais adultas, produzidas pela medula e podem também ser colhidas ao longo da vida.

As células estaminais de que na maioria das vezes se fala quando falamos em medicina regenerativa são células estaminais embrionárias. Que se podem colher até cerca de quatro ou cinco dias após a fecundação. Pense quantos dias passaram desde a fecundação até ao corte do cordão umbilical. Existe no entanto uma confusão na percepção do que é uma coisa (células estaminais embrionárias) e outra (células estaminais do sangue do cordão umbilical).

Pode haver sentido em preservar as do cordão umbilical, mas não é uma questão evidente. A demonstração da potencial utilidade entra por detalhes estatísticos e exercícios de futurismo médico. Muito poucas pessoas terão condições para tomar uma decisão relativamente informada, face à complexidade do assunto, e na prática tomam-na pesando a culpa contra a carteira de um modo mais emocional que racional.

Creio que a questão sobre o sentido de congelar ou não as células do sangue do cordão umbilical deve ser posta do seguinte modo: "é este o melhor emprego dos recursos necessários para o fazer?" É evidente que poderá ter alguma utilidade. Mas o dinheiro e recursos envolvidos seriam melhor empregues noutras despesas de saúde? Também é evidente que uma minoria privilegiada terá sempre acesso a uma medicina preventiva extravagante. Poderá por exemplo mandar sequenciar o seu ADN por 300.000 dólares. Ninguém duvida que sequenciar o próprio ADN por 300.000 dólares é um uso irracional de recursos. E se fosse por 1000 dólares? Numa perspectiva de sociedade, esse dinheiro e recursos não seriam também melhor usados de outro modo?

Os laços que unem a humanidade

Claude Lévi-Strauss, um dos grandes nomes da Etnografia e da Antropologia, cujo pensamento e trabalho tem sido estudado nas universidades europeias e americanas por gerações de estudantes e que chegou ao grande público através das suas obras de leitura irresistível, faleceu na semana passada, depois de ter completado um século de vida.

Desde que ontem, ao final da noite, se soube da sua morte, jornais e Internet têm recordado os seus dados biográficos mais marcantes: a sua ascendência judia, belga por nascimento e francês como estudante e professor; itinerância pelo Brasil e Estados Unidos como investigador e, novamente, professor; membro activo de várias academicas com destaque para a Academia Francesa, sendo o primeiro antropólogo a ter ali assento; o contacto próximo com existencialistas marcantes com quem manteve algumas polémicas; os muitos títulos e prémios que lhe foram concedidos; a sua qualidade de fundador de uma nova corrente de análise científica designada por estruturalismo...

É neste particular que me detenho para referir o seguinte: trata-se duma corrente que se tem prestado a entendimentos vários, muitos deles diametralmente opostos ao que Levi-Strauss lhe deu.

Uma dessas interpretações, que está significativamente presente na Educação, é a de que este autor, ao valorizar a dimensão intelectual dos povos indígenas, afirmando que ela não era exclusiva dos ocidentais, confirma a lógica etnocêntrica, segundo a qual cada povo é detentor de uma racionalidade particular e única, devendo ser, nessa medida, respeitada nos seus mais diversos pormenores e preservada no seu contexto. Trata-se de uma lógica de fechamento de cada povo sobre si próprio, de evitamento de contacto a fim de manter a identidade, a genuinidade cultural.

Ora, o que Lévi-Strauss escreveu e disse vezes sem conta é que todos os povos, sem excepção, comungam da mesma humanidade. E, ainda que a humanidade seja diversamente concretizada em ritos, costumes, mitos, conhecimentos, tecnologia, é ela e só ela que permite afirmar a igualdade entre os povos.

Esta é, aliás, uma ideia que Koïchiro Matsuura. Director Geral da UNESCO, fez questão de reforçar quando afirmou: "O seu pensamento mudou a percepção que o homem tem de seus semelhantes, quebrando conceitos tão excludentes quanto a raça e abrindo caminhos a uma nova visão baseada no reconhecimento dos laços comuns que unem a humanidade".

Pode o leitor ver aqui uma interessante entrevista a Claude Lévi-Strauss, feita em 2005 por Fernando Eichenberg, para a emissão do Boulevard Brasil.

Imagem: Claude Lévi-Strauss no Brasil, nos anos de 1930.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Livro e Leitura entre os Jovens


Os jovens lêem? O que lêem? Informação recebida da Imprensa da Universidade de Coimbra (UC):

Colóquio Livro e Leitura entre os Jovens

Organização: Imprensa da UC, Associação Académica de Coimbra e Biblioteca Geral da UC
Apoios: Teatro Académico de Gil Vicente, Faculdade de Letras da UC, Centro de Literatura Portuguesa (FLUC), Reitoria da UC e Diário de Coimbra

1º dia: 17 de Novembro de 2009 (3.ª feira), Foyer do Teatro Académico de Gil Vicente, 17h00

Abertura: João Gouveia Monteiro (Director da Imprensa da Universidade de Coimbra)
Moderador: José C. Bernardes (Coordenador do Centro de Literatura Portuguesa, FLUC)
Fernando Pinto do Amaral (Comissária do Plano Nacional de Leitura)
Rui Manuel Amaral (Escritor, Publicitário, Blogger: “Dias Felizes”)
Guilherme Valente (Editor, Gradiva)
Pedro Gomes (Secção de Escrita e Leitura da AAC)

2.º dia: 18 de Novembro de 2009 (4.ª feira), Anfiteatro IV da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (5.º piso), 14h30m

Moderador: António Sousa Ribeiro (FLUC / Centro de Estudos Sociais)
José Carlos de Vasconcelos (Fundador/Director do JL, Coordenador editorial da Visão)
Mário de Carvalho (Escritor)
João Ribeiro (Secção de Jornalismo da AAC)
José Rodrigues dos Santos (Jornalista da RTP e Escritor)
Encerramento: Carlos Fiolhais (Director da Biblioteca Geral da UC)

Os 20 anos da "Robótica"

A revista "Robótica" é uma das mais antigas revistas técnico-científicas portuguesas, que eu tenho o gosto e orgulho de servir, como director, desde 1998-99. Faz agora 20 anos de vida. A sessão de comemoração do vigésimo aniversário decorre no dia 13 de Novembro de 2009 em Coimbra (Pavilhão Centro de Portugal).

Convite: http://www.robotica.pt/mesa_redonda_20anos.html

O novo site da revista é: http://www.robotica.pt
A versão electrónica da revista está online no mesmo sítio.

:-)

Café, Livros e Ciência


Informação recebida da Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro:

Café, Livros e Ciência é uma iniciativa que resulta da parceria entre a Fábrica Centro Ciência Viva em Aveiro (FCVA), o Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho em Coimbra em Coimbra e o Museu da Ciência também em Coimbra. Este projecto de divulgação de ciência tem como objectivo principal promover a leitura de livros de ciência junto do público em geral.

Num ambiente informal, onde o café acompanha os livros, ilustres convidados vão lançar temas e discussões para o lançamento ou apresentação de livros de ciência ou de divulgação científica.

Café, Livros e Ciência
acontece na primeira quinta-feira de cada mês e fará um périplo por cada instituição parceira. Assim, a primeira edição, em Novembro, terá lugar na Fábrica CCVA, seguindo-se, em Dezembro, o CCV Rómulo de Carvalho e, em Janeiro, no Museu da Ciência, os dois em Coimbra.

“O Património Genético Português A história humana preservada nos genes” de Luísa Pereira e Filipa M. Ribeiro (Gradiva, 2009)

Combinando contributos de áreas como a genética, a arqueologia, a antropologia, a história e até a climatologia, este livro oferece uma visão multifacetada de uma memória que deixamos impressa. O leitor é acompanhado ao longo de uma aventura de múltiplas facetas, explorando perspectivas dos recentes avanços no conhecimento quanto às origens e migrações humanas no passado, focando uma temática que nunca havia sido tratada em livro: o património genético português.

data quinta-feira, 5 Novembro
local Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro
horário 18h>19h
público-alvo jovem e adulto
contactos 234 427 053 ou fabrica.cienciaviva@ua.pt
entrada livre

OPOSIÇÃO AO PROCESSO DE BOLONHA

Primeiro foi a Espanha, a Itália, a Finlândia e a Dinamarca. Agora, por este sítio francês sobre estudos literários, tomo conhecimento de que é a Áustria. O processo de Bolonha está a encontrar na Europa oposição. Em Portugal, Nuno Crato já se pronunciou, levantando polémica. Mas julgo que Bolonha ainda fará correr muita tinta...

Paideia

A Educação é uma preocupação em qualquer sociedade organizada que valorize a intervenção cívica e democrática dos cidadãos. Nela se continuam a projectar as expectativas económicas, sociais e culturais de cada nação. Através das opções e da estruturação do sistema educativo poder-lhe-emos tomar o pulso.

É na Grécia antiga que começa a História da Educação e, nessa medida, conhecer essas origens dá sentido à nossa realidade. De facto, são os Gregos quem, pela primeira vez, problematiza o conceito de educação: na literatura grega vêem-se sinais claros disso na poesia, na tragédia ou na comédia. É no século V a. C., com a Sofística, com Sócrates e Platão, com Isócrates e Aristóteles, que esse questionamento se torna central na Filosofia.

Os ideais educativos da paideia – que era o modo de garantir uma intervenção digna, justa e boa, sendo treinada na liberdade e nobreza de carácter (ethos) – desenvolvidos nesse século baseiam-se em práticas educativas muito anteriores, mas é nessa época que eles são debatidos, reordenados ou ampliados.

Assim, o homem kalos kai agathos, por definição «belo e bom», é o modelo do cidadão educado na ginástica, na música, na geometria e na gramática. Platão define paideia como «(...) a essência de toda a verdadeira educação ou paidéia é a que dá ao homem o desejo e a ânsia de se tornar um cidadão perfeito e o ensina a mandar e a obedecer, tendo a justiça como fundamento». Isócrates, no seu discurso A Demónico, lembra que «só os que seguirem este caminho é que serão capazes, no sentido genuíno da palavra, de chegar à virtude, o mais sagrado de todos os bens».

Porém, Jaeger, na sua obra Paideia, discute a dificuldade de transposição para a sociedade moderna de uma realidade muito complexa, que abarca conceitos tão diversos como os de cultura, literatura, civilização ou educação.

Esta viagem de breves linhas até autores helénicos conduz-nos à pergunta: que escola queremos para os nossos alunos? O que lhes devemos ensinar? Como os devemos ensinar? Penso que este conceito de paideia tem subjacente uma verdade intemporal. Hoje, tal como ontem, deveríamos querer que os alunos sejam capazes de uma cidadania responsável, tendo para isso de ser proficientes em diversas áreas. Deveriam conhecer suficientemente tanto as ciências como as humanidades, crescendo na virtude e na inteligência. Só assim poderão ter «a justiça como fundamento».

Qualquer modelo no qual os estudos humanísticos e científicos não sejam fortes e complementares fraquejará em vitalidade e integralidade. E fraquejará porque será apenas mais um modelo de moda, temporário. O pulso da nação começará a faltar.

Gripe, ciência e o senso-comum

Em torno da gripe de que se fala surgem questões epistemológicas de grande interesse. Uma delas é comparação que se de vez em quando se esboça nos meios de comunicação social ou nas conversas de café, entre a validade da opinião do «indivíduo comum» e as advertências informadas dos especialistas.

F. N. Kerlinger, investigador interessando nas concepções que formamos acerca do que se passa à nossa volta e no modo como, em função delas, nos comportamos, estabelece cinco diferenças entre senso-comum e ciência. Percebê-las ajuda-nos, certamente, a tomar decisões razoáveis em relação à nossa saúde.

“Há quem defenda a ideia de que a ciência e o senso-comum são parecidos. Nesta linha de pensamento, seria legítimo afirmar que a ciência é uma extensão sistemática e controlada do senso-comum, já que este último, tal como refere Conant (1951), consiste numa série de conceitos (...) que se revelem satisfatórios, em termos práticos, para a humanidade. Todavia, estes conceitos (...) poderão ser seriamente distorcidos no campo da ciência moderna (…) — e particularmente na área da Psicologia e da Educação (…)

A ciência e o senso-comum diferem nitidamente em cinco aspectos (…).

Em primeiro lugar (…) embora qualquer «indivíduo comum» utilize «teorias» e conceitos, ele fá-lo habitualmente de uma forma pouco estruturada (porque é «moda»). Além disso, é normal que aceite explicações fantasiosas para os fenómenos naturais e humanos. Uma doença, por exemplo, poderá ser encarada como um castigo pelos pecados (...). Os cientistas, no entanto, formulam princípios teóricos de uma maneira sistemática (…) e sujeitam ao teste empírico diversos aspectos dos mesmos. Além disso, têm consciência de que os conceitos que utilizam, ao constituírem abstracções humanas, poderão estar mais ou menos próximos da realidade.

Em segundo lugar, os cientistas testam sistemática e empiricamente as suas teorias e hipóteses. Os «não-cientistas» também testam hipóteses, mas fazem-no de uma maneira que podemos considerar «selectiva» (...). Consideremos o seguinte estereótipo: «os indivíduos de raça negra têm tendência (inata) para a música». Se as pessoas acreditarem nisso, podem facilmente «verificar» a concretização da sua crença, ao verificarem que muitos músicos são de raça negra (...). Os cientistas sociais (…) tentam distanciar as suas investigações dos seus próprios preconceitos (...).

Uma terceira diferença radica na noção de controlo. Na investigação científica (…) o cientista tenta, de uma forma sistemática, descobrir as variáveis que constituem possíveis «causas» dos efeitos em estudo (…). Os «indivíduos comuns» (…) raramente se preocupam em controlar sistematicamente as suas explicações para os fenómenos observados. Fazem, de um modo geral, poucas diligências para controlar fontes estranhas de influência. Tendem, em vez disso, a aceitar as explicações que estão mais de acordo com as suas «ideias feitas». Se, por exemplo, acreditarem que condições miseráveis de vida conduzem directamente à delinquência, tenderão a dar pouca atenção a este problema em áreas em que as pessoas gozem de um nível de vida bastante elevado (...).

Outra das diferenças (...) é, talvez, menos evidente. Foi dito antes que o cientista está constantemente preocupado em estudar as relações entre os fenómenos. O mesmo acontece com os indivíduos, que fazem apelo ao senso-comum para encontrar explicações para esses fenómenos. Mas a diferença radica no facto de o cientista tentar estudá-los de uma forma consciente e sistemática, ao passo que o «indivíduo comum» o faz de um modo confuso, não-sistemático e não-controlado. Este último agarra-se, por vezes, à ocorrência fortuita de dois fenómenos e associa-os imediatamente como causa e efeito (...).

Uma diferença final (...) repousa nas diferentes explicações que são dadas aos fenómenos. O cientista, na sua tentativa de explicar as relações observadas, afasta-se cuidadosamente daquilo que se designa por «explicações metafísicas». Uma explicação metafísica é simplesmente uma afirmação que não pode ser testada (empiricamente). Dizer, por exemplo, que as pessoas são pobres e miseráveis porque Deus assim o deseja (…). Isto não implica que os cientistas devam necessariamente desprezá-las, negando-lhes qualquer veracidade ou significado.

Em suma, a ciência dedica-se ao estudo das coisas que podem ser publicamente observadas e testadas. Se certas afirmações ou questões não respeitam estes critérios, elas não podem ser consideradas apropriadas para a investigação científica.”

Referência bibliográfica:
- Kerlinger, F. N. (1986). Foundations of behavioral research. New York: Holt, Rinehart and Winston (Tradução do presente texto: Cristina Vieira).

A armadilha

Texto de João Boavida (ainda) sobre o novo livro de José Saramago, Caim, que, independentemente da sua valia literária, desencadeou uma discussão sempre interessante acerca da interpretação de textos antigos:

Saramago caiu na armadilha armada por ele mesmo. Meteu-se a aprendiz de feiticeiro e saiu-se mal. Não só pela literatura em si, mas também por tudo o que sobra dela. Mas não o reconhece e é pena.

Literariamente o livro de que se fala é fraco. No estilo que se lhe tornou característico a partir de Levantado do Chão e Memorial do Convento, mas muitos furos abaixo do seu melhor. Eu já disse muito bem dele e portanto posso agora dizer – e não é mais que uma opinião – que este livro é menor em termos literários. Tem alguns bons achados mas, como já alguém notou, parece mais o guião dum filme, e mesmo considerando-o uma novela picaresca à moda setecentista, falta-lhe dimensão literária, profundidade, em suma qualidade. As comparações com Voltaire, Laurence Sterne, por exemplo, ou mesmo Jan Potocki, são altamente elogiosas para Saramago.

De certo modo os comentários que provocou valem mais que o livro, “é demasiado barulho para nada” (Cristóvão Aguiar e outros). Se a provocação extra obra foi para vender, conseguiu o objectivo. Mas não lhe fica bem, pela idade, pelo estatuto e pela obra feita. Como dizia o outro, o diácono Remédios: “não havia necessidade”. Por outro lado, é o tipo de comentários que revelam ou leviandade ou falta de cultura, ou, quem sabe, algum problema mal resolvido com a divindade. O que não admira porque problemas mal resolvidos com a divindade todos temos, mesmo não o reconhecendo.

Fazer uma leitura literal de alguns factos do Antigo Testamento, com intervenções directas de Deus aqui e ali em diálogo com os homens é o mesmo que acreditar que na Ilíada os deuses que aparecem e desaparecem intrigando e influenciando, sem preocupações de justiça, andaram a combater na Guerra de Tróia.

Os que entendem que Deus é uma criação dos homens, uma projecção das suas carências, limitações e ânsias, e será o caso de Saramago, deviam ter algum cuidado. Porque o espírito humano ao criar a ideia de Deus meteu-se numa alhada de que não se consegue libertar pois ele mesmo a alimenta. Se é no espírito humano que está a origem e o fim do enredo o processo é circular e não tem saída. Se foi o espírito humano que chegou à ideia de Deus, e não Deus que desceu ao espírito humano, o “mal” está neste, e quer o afirme quer o negue o debate, vivo ou latente, é constante.

É por isso que me parece que Saramago caiu numa armadilha. Não resistiu à tentação dos anti-clericais do século XIX e de todos os ateus militantes e ignorou as inumeráveis obras que em todas as épocas se viraram para a Bíblia e a estudaram e sobre ela escreveram e escrevem. Tem direito a questionar tudo o que nela vem, claro, mas não o pode fazer de maneira elementar, pondo de parte toda a perspectiva histórica, a contextualização e a infindável exegese a que deu origem.

O problema é demasiado profundo e envolvente para ser resolvido de uma penada. Além disso, desta vez, ao contrário do que aconteceu com O evangelho segundo Jesus Cristo, faltou envergadura ao objecto produzido. Saramago tinha uma única maneira de se sair bem desta missão: era fazer um livro de grande qualidade e suficientemente belo para vencer os desafios teológicos que levanta. Só a qualidade literária teria possibilidade de vencer este combate, de superar airosamente uma densidade bíblica de milhares de anos. Ficando-se pela mediania em termos estéticos, a razão, se alguma havia, esfumou-se. Como também já foi dito, lembra A velhice do Padre Eterno, que, apesar da mestria de Junqueiro, envelheceu mais em cem anos que o Padre Eterno em seis mil.

João Boavida

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

ENSINAR MATEMÁTICA ENSINA-SE?


Informação recebida da Livraria Almedina:

Ciência na Almedina - sextas às sete
Organização: Nuno Crato e Almedina

ENSINAR MATEMÁTICA ENSINA-SE?

6 de NOVEMBRO, SEXTA-FEIRA, 19:00 horas

com Luísa Araújo, pedagoga, ISEC e EU Joint Research Center, Ispra
Isabel Soares, directora, Colégio Moderno
Carlos Pereira dos Santos, professor de didáctica da matemática, ISEC

Livro em foco

- Saber e Ensinar Matemática Elementar
, de Liping Ma
, Gradiva, 2009

Para ensinar qualquer assunto é preciso começar por conhecê-lo. No entanto, na formação de professores assume-se, por vezes, que basta dominar técnicas pedagógicas para se ser um bom mestre. Liping Ma mostra que isso não é verdade. Os professores devem dominar profundamente os conceitos da matemática dita elementar. Para uma recensão deste livro ver aqui.

Outros livros em foco:

- Aritmética para Pais
, de Ron Aharoni, Gradiva, 2008

- Matemática e Ensino, de Elon Lages Lima, SPM/Gradiva, 2004

MANUSCRITOS DE BISSAYA BARRETO

Informação recebida da Fundação Bissaya Barreto (na figura, retrato do professor de Medicina Fernando Byssaia Barreto):

Encontra-se patente no Centro de Documentação Bissaya Barreto desde o dia 23 de Outubro até dia 13 de Novembro no seu horário de atendimento de segunda a sexta feira (14:00 h-17:30 h), a Mostra Documental "Manuscritos de Bissaya Barreto" composto por documentos, fotografias e agendas que pela primeira vez são expostas e que retratam a vida de Bissaya Barreto, do contexto histórico e social da época em que viveu (1886-1974) e da cidade de Coimbra.

Uma sugestão e um pretexto para conhecer também o centro de documentação Bissaya Barreto. Entrada livre - Junto ao Quartel e ao Jardim Botânico de Coimbra.

HUMOR - ROBOTS 3

HUMOR - ROBOTS 2

HUMOR - ROBOTS 1

A MECÂNICA DE DEUS


Ando a ler o livro "A Mecânica de Deus" com o subtítulo "Como os Cientistas e Engenheiros entendem a Religião", acabado de sair nas Publicações Europa-América. O autor é Guy Consolmagno, astrónomo jesuíta contemporâneo especializado em meteoritos, asteróides e planetas anões (há um asteróide com o seu nome, o 4597 Consolmagno).

Não pude deixar de sorrir com vários passos, nomeadamente este da p. 257:
"Todavia, é claro que entre todos os tolos do Vaticano de hoje não há nada de semelhante à incrível fileira de patifes que pulularam na história da minha Igreja. Podem discordar o que quiserem dos pontífices mais recentes, mas não há dúvida de que pelo menos tentaram ser Homens Santos, tentando sinceramente fazer aquilo que lhes parecia ser a vontade de Deus. É mais do que poderíamos dizer de muitos outros pontífices da História, a quem não confiaria as chaves do meu automóvel, quanto mais as chaves do Reino dos Céus. E mesmo assim, a Igreja e as suas doutrinas sobreviveram, de algum modo. Eu estou a brincar um pouco (menos de um pouco) quando digo que esta é a derradeira prova da existência de Deus, e um milagre que só Deus poderia ter conseguido".

CAIM POR VIEIRA


A propósito do livro "Caim" de José Saramago, o nosso leitor João Boaventura chamou-nos a atenção para este trecho do Padre António Vieira do "Sermão da Primeira Dominga do Advento", pregado na Capela Real pelo Padre António Vieira, em 1650, com o qual recriminava a cumplicidade dos reis pelas más escolhas de conselheiros, e as consequências inevitáveis de acabarem no Inferno (na imagem, Caim e Abel, atribuí­do a Simon Vouet e Pietro Novelli, c. 1620):
"Matou Caim a Abel, e diz a Escritura, conforme o texto onginal: Vox sanguinum fratris tui clamantium ad me: «Caim, a voz dos sangues de teu irmão Abel está bradando a mim». Notável dizer! O sangue de Abel era um, como era um o mesmo Abel morto. Pois se Abel morto e o sangue de Abel derramado era um, como diz Deus que clamaram contra Caim muitos sangues? Vox sanguinum? Declarou o mistério o Parafraste caldaico temerosamente: Vox sanguinum generationum, quæ futuræ erant de fatre tuo, clamat ad me: Se Caim não matara a Abel, haviam de nascer de Abel quase tantas outras gerações como nasceram de Adão, com que dobradamente se propagasse o género humano; e o sangue ou sangues de todos estes homens que haviam de nascer de Abel, e não nasceram, eram os que clamaram a Deus e pediam vingança contra Caim; porque, matando Caim e arrancando da terra a árvore de que eles haviam de nascer, o mesmo dano lhes fez que se os matara. De sorte que Caim parecia homicida de um só homem, e era homicida de um género humano; o pecado era um, as consequências infinitas. Pois se Deus castiga nos pecados até as consequências possíveis; e os possíveis hão-de aparecer e ressuscitar no dia do juízo contra vós, não porque foram, nem porque deixaram de ser. senão porque haviam de ser; se os possíveis têm sangue e vozes que clamam ao Céu, que clamores serão os do verdadeiro sangue derramado de verdadeiras veias? Que vozes serão, as de verdadeiras lágrimas, choradas de verdadeiros olhos? Que gemidos serão os de verdadeira dor, saldos de verdadeiros corações? Que serão as viudezas, as orfandades, os desamparos? Que serão as opressões, as destruições, as tiranias? E que serão as consequências de tudo isto, multiplicadas em tantas pessoas, continuada em tantas idades e propagadas em tantas descendências, ou futuras ou possíveis, até o fim do mundo! Há quem faça escrúpulo disto? "

Construir na LUA

O que começou por ser uma empresa de garagem nos EUA está a desenvolver um robô para escavar na lua. Este robô, que utiliza uma tecnologia desenvolvida pela própria empresa (Honeybee Robotics, http://www.honeybeerobotics.com), permite escavar na lua usando equipamentos mais leves que os tradicionais.



A Honeybee Robotics já tem vários dos seus sistemas robotizados no espaço. Por exemplo, o dispositivo ISAD (Icy Soil Acquisition Device) presente na sonda Phoenix que recentemente operou em Marte, recolhendo e analisando amostras de solo, é o seu 4º dispositivo no espaço.

:-)

São estas as máquinas dos novos descobrimentos.

PORQUÊ DEUS SE TEMOS A CIÊNCIA?


Informação recebida da editora Fronteira do Caos sobre um novo livro:

PORQUÊ DEUS SE TEMOS A CIÊNCIA?
MANUEL CURADO (Org.)

Informação editorial:

"Deus não se vai embora. Todas as pessoas mais cedo ou mais tarde têm de ter uma posição sobre a existência de Deus. Não se conhece nenhuma sociedade que não tenha crenças e comportamentos religiosos. Estes dois factos são extraordinários. Se existissem excepções, a vida humana seria radicalmente diferente. Pensemos em indivíduos hipotéticos que vivessem toda uma vida sem se questionarem sobre a existência de uma entidade criadora do que existe ou a fonte do sentido para a existência do homem e do mundo. Este é um exercício difícil porque não reconhecemos traços de humanidade nesses indivíduos hipotéticos. Talvez algumas pessoas tenham sido e sejam assim. Talvez. É justo, contudo, afirmar a seu respeito que lhes falta algo, como se a grandeza da condição humana passasse obrigatoriamente por uma relação pessoal com a questão de Deus. O mesmo poderia ser afirmado a respeito de uma sociedade que não tivesse crenças religiosas, comportamentos abertamente religiosos e em que ninguém apelasse ao religioso. A imaginação de uma sociedade deste tipo é ainda mais violenta porque ainda mais improvável. Seja como for, a relação entre os seres humanos e o religioso é inesgotável. O presente volume procura compreender alguns dos aspectos dessa relação."

ISBN: 978-989-8070-42-5 Páginas: 271pp Preço: 19.90 euros

domingo, 1 de novembro de 2009

Darwin 2009


Informação recebida do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa:

Darwin 2009 - Closing Seminar at the FCUL
4 Nov 2009, 16h00

FCUL, Anfiteatro da Fundação da FCUL (Edifício C1, Piso 3)

Program

16h00 - The other person behind Darwin’s Natural Selection idea, Luís Vicente (CBA-FCUL)

16h45 - Can great apes help us to understand human evolution?, Catarina Casanova (CBA-FCUL, CAPP-ISCSP)

17h30 - Sexual selection by cultural inheritance in an invertebrate, Susana Varela (CBA-FCUL)

18h15 - Information and the Origin of Life, Bernd-Olaf Kuppers (Univ. Jena, Germany). Prof. Bernd-Olaf Kuppers work will be presented by Juan Manuel Torres (Univ. Mendoza, Argentina)

Foreword:

As the celebration of Charles Darwin's year is coming to an end, and following a series of seminars organized by the CFCUL throughout 2009 on Darwin and his legacy, the CFCUL and the CBA (both from the Fac. Sciences of the Lisbon University) are organizing a closing seminar that wishes to pay a last humble tribute to the founder of modern biology, whose thoughts and ideas have been influencing most, if not all areas of human knowledge.

This seminar talks will range from the origins of the Natural Selection theory itself – whose authorship doesn’t belong exclusively to Charles Darwin, but also to Alfred Russel Wallace – to three cases of current research on different areas in Biology and Primatology (the great apes and human evolution, cultural inheritance in invertebrates and biological information at the molecular level). In two of these talks, the subjects of Man’s descent and sexual selection will also be discussed. These are two additional major contributions that Darwin made to science, which our seminar wishes to celebrate as well.

Our aim is to draw attention to the importance of Charles Darwin's legacy as well as to the applications of natural and sexual selection knowledge to current and future research.

Organization:

Centro de Filosofia das Ciências da UL (CFCUL), Centro de Biologia Ambiental (FCUL)

A mestria e o prazer de ler

Em Agosto passado, o Jornal I entrevistou Isabel Festas, especialista em processos cognitivos da leitura. O De Rerum Natura agradece a autorização que nos concedeu para reproduzir o seu depoimento completo, no qual se destacam as interessantes questões da mestria que a actividade ler envolve e o prazer que dela pode decorrer.

- Porque é importante a leitura para as crianças? E para os jovens (até aos 13/14 anos)?

Talvez se deva distinguir dois aspectos, quando se fala na importância da leitura.

Um primeiro aspecto diz respeito ao facto de ela ser um dos pilares de todas as aprendizagens escolares e um dos suportes fundamentais de uma grande parte das actividades profissionais e quotidianas. É preciso ler para estudar todas as áreas académicas, é preciso ler para aprender os requisitos necessários ao exercício de uma profissão, é preciso ler para resolver muitas das tarefas do dia a dia. Ler inclui um outro aspecto, relativo àquilo que se designa o “prazer da leitura”. Citando José Morais, no seu excelente livro A arte de ler: Psicologia cognitiva da leitura, “os prazeres da leitura são múltiplos. Lemos para saber, para compreender, para reflectir. Lemos também pela beleza da linguagem, para nos comovermos, para nos inquietarmos. Lemos para partilhar. Lemos para sonhar e para aprender a sonhar (...)” (p. 12).
Remetendo a leitura para estes dois aspectos fundamentais, e sabendo que é na infância que se aprende e que se começa a construir o gosto e o prazer de ler, facilmente se compreende a razão da importância desta actividade, por parte das crianças. O mesmo se pode dizer dos adolescentes, já que a aprendizagem e o gosto se vão desenvolvendo ao longo desses anos. Penso que devíamos separar estes dois aspectos. Eles são igualmente importantes, mas ambos obedecem a lógicas diferentes. O primeiro, que podemos designar de competência de leitura, exige uma boa escolaridade, uma boa iniciação e aprendizagem da leitura e o trabalho da compreensão leitora. São tarefas que cabem à escola. Actualmente dispomos de um conjunto de saberes e de meios bastante eficazes na prossecução dessas tarefas.

O segundo, relativo ao prazer da leitura, é de outra ordem. Trata-se de algo que não obedece às regras do trabalho escolar, que só pode ser desenvolvido em plena liberdade. Aos pais caberá um papel decisivo na construção do gosto pelos livros.

- A partir de que idade se torna importante que as crianças leiam?

O mais cedo possível. Ler ajuda a consolidar a aprendizagem, a desenvolver a compreensão e a criar o prazer da leitura. Aliás, uma das chaves do sucesso em todas estas áreas é a leitura antes da aprendizagem. A leitura feita pelo adulto, à noite, antes de dormir ou a qualquer hora do dia. Ler uma história à criança que ainda não o sabe fazer vai introduzi-la no mundo dos livros e das possibilidades que eles oferecem, vai suscitar o seu interesse, a sua curiosidade o seu gosto.

- Por que tipo de livros devem começar? E depois: na infância e pré-adolescência?

Não há regras absolutas. Há, felizmente, muita oferta. Temos bons livros infantis e juvenis e, mesmo, outros livros que, não sendo especificamente vocacionados para estas idades, podem ser introduzidos cedo, sobretudo a partir da adolescência. Os textos narrativos, pelas histórias que contam, são uma excelente forma de começar a introduzir a criança no mundo da leitura. Os textos poéticos – lengalengas, trava-línguas, rimas infantis, quadras, sonetos – são também uma escolha muito interessante, para esta fase. A selecção de boas leituras, na infância, vai, certamente, orientar o gosto da criança. Assim, quando esta chega à adolescência terá já algum critério de escolha. Nesta fase, os pais devem estar atentos e encontrar um equilíbrio entre as preferências dos filhos, que devem ser respeitadas, e as obras de reconhecido mérito, ou seja, aquelas escritas pelos bons escritores.

- Os pais devem preocupar-se se os filhos não manifestarem interesse pela leitura? Nesse caso, o que devem os pais fazer? E o que não devem fazer? Existem estratégias para incentivar as crianças a ler? Por exemplo?

O melhor é começar muito cedo. Ler despreocupadamente, para os filhos ainda muito pequenos, é a melhor forma de cultivar o interesse pela leitura. Se falamos em prazer de ler, temos que ter presente que ele é incompatível com obrigatoriedade. Também não se deve confundir com tarefa escolar. É necessário separar estes dois aspectos e trabalhá-los de forma diferente. A mestria na leitura alcança-se com esforço, com um trabalho que é essencialmente escolar. O prazer da leitura conquista-se pela descoberta das suas imensas potencialidades e do impacto pessoal que ela pode ter.

Começar, desde muito cedo, a ler para as crianças é a melhor estratégia para criar nelas o gosto pela leitura. Depois, quando a criança já sabe ler, deve-se deixá-la, à vontade, com os seus livros. Os pais não devem ter a preocupação de avaliar o entendimento que a criança tem do que leu. Como disse, uma coisa é o trabalho escolar e a mestria que se vai alcançando na leitura de palavras e de textos, outra é a leitura das histórias e dos seus livros. Se o primeiro exige uma avaliação, a segunda requer uma liberdade total.

- Há livros que costume recomendar? Quais?

Talvez fosse oportuno recomendar um livro para os pais. Trata-se do clássico e bem conhecido livro de Daniel Pennac Como um romance. Ele pode ajudar muito os pais nesta tarefa de desenvolver, nos seus filhos, o prazer pela leitura.

Para as crianças e adolescentes, como já disse, há muitos e bons livros. Eu recomendo os livros dos bons escritores. São uma garantia do encontro da criança ou do adolescente com o “mistério” da literatura, chave daquilo que podemos considerar o prazer da leitura. A poesia é, também, uma boa recomendação. Existem, actualmente, bons livros de poesia, dedicados à infância. Trata-se de uma forma literária que, contrariamente ao que por vezes se pensa, encontra grande receptividade, por parte das crianças.

Sem mencionar nenhum título, posso referir que há uma lista recomendada pelo Plano Nacional de Leitura que inclui bons livros, para as idades aqui em causa.

- Que livros são desaconselhados?

De uma maneira geral, eu desaconselhava os livros que são resultado de uma manipulação dos originais. Trata-se de versões que pretendem facilitar a leitura, mas que, ao fazê-lo, destituem o livro das suas características literárias, precisamente aquelas que podem levar ao prazer da leitura.

Professores em direcções sindicais


“Uma seita ou partido político é apenas um eufemismo elegante para poupar um homem ao vexame de pensar” (Ralph W. Emerson, 1803-1882)

Eis-me em cumprimento da promessa feita a João Filipe de Oliveira por ele ter manifestado a sua discordância sobre uma das questões por mim levantadas no meu post: Um comunicado da Fenprof.

Nesse texto, criticava eu “a situação escandalosa de titulares de cargos sindicais terem chegado ao topo da carreira sem o conveniente exercício docente e respectiva avaliação”. Volto ao assunto unicamente com a intenção de esclarecer possíveis dúvidas dos leitores sobre uma “pseudo-verdade”, na opinião do meu contraditor. Mesmo sabendo que “toda a verdade gera um escândalo” (Marguerite Yourcenar), prestei-me a manifestar publicamente uma opinião pessoal que defendi - e continuo a defender - num tempo em que a mentira corre o risco de se generalizar.

Lamentavelmente, cada vez mais me convenço de que quem escreve o que pensa corre o risco de passar por mentiroso, retrógrado e reaccionário; quem escreve o que lhe manda o partido ou o sindicato é detentor da verdade, progressista e revolucionário. Ora, pactuar com este statu quo implica, de certa forma, a sujeição a um sindicalismo com manifestações ruidosas, e pouco condizentes com a função educativa (embora alguns sindicalistas tenham deixado de ser professores durante mais ou menos tempo) porque acompanhadas de impropérios pouco dignos por maiores que possam ser as razões motivantes.

Para além disso, desconfio de um saber desprovido de experiência, como tal, unicamente baseado em teorias que levam “ sábios” a dizer estarem a par das necessidades das escolas, dos professores e, principalmente, dos alunos. Ou seja, quem não convive no dia-a-dia com aquilo que se passa no duro mister dos professores só estará habilitado a dar palpites, a exemplo dos treinadores de bancada. Exigindo uma solução para o problema, foi-me lançado o seguinte desafio: "Qual é a alternativa?”

Antes de prosseguir entendo conveniente chamar a atenção para as duas alíneas seguintes: a) os cemitérios estão cheios de gente que se acha insubstituível; b) a permanência dilatada de dirigentes sindicais em exclusividade de serviço, sem o desejável arejamento de novas ideias e inovações na acção, conduz, muitas vezes, a uma espécie de desajustamento com as novas realidades do sistema educativo que não parou no tempo, mais ou menos distante, em que exerceram funções magistrais.

Como tal, a alternativa está em não eternizar as pessoas com dispensa total de serviço docente na direcção dos sindicatos num regime democrático em que a própria vigência no cargo mais elevado da hierarquia do Estado – Presidência da República - tem um prazo devidamente limitado no tempo. Num outro exemplo, que se verifica em profissões em que são delegadas atribuições de natureza pública (pelo reconhecimento da responsabilidade e independência determinadas pela assunção da responsabilidade pelos próprios actos), a duração do exercício de bastonário é determinada nos próprios estatutos. Discordarão desta medida em prol do prestígio da profissão docente e dos seus agentes, devidamente titulados como professores, todos aqueles que, por desconhecimento de causa ou com intuitos políticos, pretendam continuar a proletarizar um mister com a enorme responsabilidade e ingente tarefa de preparar a juventude portuguesa para o futuro competitivo e impiedoso da União Europeia e, até, de um mundo globalizado em competição laboral com a China, a Índia e, mais recentemente, o Brasil.

Segundo notícias que circulam com certa insistência, fala-se do nome de Mário Nogueira (na figura), professor do 1.º ciclo do ensino básico e dirigente mais categorizado do maior sindicato de professores, a Fenprof, para substituir Carvalho da Silva (dirigente sindical que “contrapõe a palavra mobilização à palavra confrontação”, como se leu no Público de 31 de Outubro passado, e com um currículo académico invejável: um doutoramento em Sociologia) na direcção da CGTP.

A verificar-se esta ocorrência que ganha crédito com o polémico apoio de Carvalho da Silva a António Costa para a presidência da Câmara Municipal de Lisboa, mesmo que “num acto só seu”, como o dirigente da CGTP fez questão de frisar em entrevista recente à Rádio Renascença, restará aos sindicalizados na Fenprof chorar a perda do seu inspirado e inspirador líder... Aqui fica a dúvida sobre esta passagem de testemunho. A respectiva confirmação, ou não, perspectiva-se no horizonte de um futuro próximo.

Não quero terminar sem reconhecer ao comentário de João Filipe Oliveira o mérito corajoso de ter iniciado uma discussão que muito ganhará em ser alargada. “Alea jacta est”: a decisão será agora atravessar o Rubicão para a margem desta polémica ou permanecer na paz podre da indiferença. Como disse alguém, não fazer é deixar que outros façam por nós!

OS SUBSTITUTOS



Já estreou entre nós "Os Substitutos", filme de ficção científica realizado por Jonathan Mostow e com Bruce Willis no principal papel. A acção passa-se em 2054, quando cada pessoa possui um robô que a substitui completamente na sua vida diária.

O rumo das letras

Depoimento que dei ao Jornal Universitário de Coimbra A Cabra, para preparação dum artigo da autoria de Vasco Batista e João Ribeiro, intitulado O rumo das letras, publicado em 20 de Outubro passado.

P: Actualmente encaram-se os cursos de letras como segundas opções?

R: Penso que podemos dizer que sim, que os cursos de Letras, de Humanidades, de Ciências Sociais e Humanas são, no presente, menos requeridos do que os de Ciências Físicas e Naturais e de Tecnologias. Haverá duas razões para tal, as quais, parecendo muito diferentes, estão interligadas. Uma é a desvalorização que, no plano social, fazemos dos primeiros. Entendemos que, em geral, esses cursos são teóricos, muito abstractos e centrados em saberes distantes da nossa realidade, como é o caso das Clássicas ou da História. Ora, nós queremos resolver problemas concretos do nosso quotidiano e entendemos que saberes das letras não nos podem ajudar, pelo menos no imediato; entendemos que aqueles que nos ajudam são os saberes científicos e técnicos. A outra razão é que esses cursos não parecem ter utilidade para a entrada no mercado de trabalho e, nessa medida, não os entendendo como uma mais valia em termos de enriquecimento pessoal, nem como uma possibilidade de, como humanidade, mantermos viva uma parte da nossa cultura, consideramo-los como um investimento sem retorno.

P: É por isso que as médias são em geral bastante baixas na Universidade de Coimbra?

R: Não é uma característica distintiva desta universidade, está presente em todas as universidades do país, pois o modo de pensar social que referi está longe de ser regional. Por outro lado, nem todos os cursos de Letras, de Humanidades, de Ciências Sociais e Humanas exigem a mesma média de entrada.

P: A Universidade de Coimbra vive de um estatuto adquirido pelo seu passado ou ainda faz jus à sua fama?

R: Essa pergunta tem sido recorrente nos últimos dias, devido à publicação do ranking das universidades. É muito difícil responder... Uma coisa é certa: a Universidade de Coimbra tem investigação de ponta em alguns sectores. Outra coisa é certa: há sectores que estão apostados em melhorar, em chegar a um nível de excelência.

P: Que estratégias deveriam ser adoptadas pela Universidade de Coimbra para atrair estudantes e adequar-se às novas exigências dessas áreas?

R: Não lhe sei responder de modo preciso sem pensar mais demoradamente sobre o assunto. Nem me parece que alguém saiba. Toda e qualquer medida que se tome nesse sentido não passa só pela Universidade. Há um modo de pensar que, como referi acima, me parece estar instalado e que vai no sentido de desvalorizar as áreas de que falamos. O que não significa que a Universidade deva abster-se de fazer qualquer coisa para atrair estudantes e reforçar as suas equipas de investigação. Isso pode ser feito e está, de facto, a ser feito em vários núcleos. Estou a lembrar-me concretamente do excelente trabalho que o Instituto de Estudos Clássicos tem desenvolvido no sentido de divulgar o saber clássico, de modo que as pessoas o conheçam e o valorizem… por este caminho poderão captar alunos e permitir que se perceba que esse saber é importante também em termos sociais.

DE RERUM NATURA - BIG BANG


O nosso blogue tem crescido nos últimos meses tanto em número de textos (atingimos um recorde em Outubro) como em número de visitas. A partir de hoje, a equipa do De Rerum Natura está reforçada com um conjunto de novos autores, alguns dos quais já nossos colaboradores (ver ficha ao lado). Procurou-se diversificar as áreas, passando a abranger estudos clássicos, engenharia e medicina. Esperamos continuar a merecer a atenção dos nossos estimados leitores. Da parte deles contamos não só com o aumento de comentários mas também com o envio de textos sobre assuntos que caibam no âmbito do manifesto do blogue. Obrigado!

Assim se faz História

Atenas sentiu entre 2000-2004 um crescimento estrutural inegável, impulsionado pela abertura ao público do metro (pela altura da XXVIII Olimpíada) – um projecto que era aguardado com expectativa pelos gregos, mas que levantara inúmeros obstáculos à sua consumação, dadas as características geológicas e climatéricas, a acrescentar ao plano do traçado urbano extremamente denso da cidade.

Mas o grande triunfo desta construção, que a torna simultaneamente única, é o facto de os trabalhos das escavações e perfurações do solo terem trazido à luz do dia mais de 50000 vestígios arqueológicos, que permaneciam escondidos debaixo da moderna Atenas.

Na verdade, desde as primeiras fases do projecto que nele estiveram envolvidas equipas multidisciplinares de arqueólogos, paleontólogos e historiadores que procederam ao reconhecimento dos materiais e vestígios que a todo o momento das obras surgiam do subsolo.

Várias vezes, a evidência obrigou a adaptações do projecto, de modo a que se preservassem as notícias do passado que apareciam à luz do dia.

Hoje estes vestígios – vasos, túmulos funerários, estátuas, objectos de uso diário, frisos e até o que é identificado como a Escola Aristotélica, O Liceu - surgem, em alguns casos numa profundidade atordoante, como gala fascinante de uma cidade, aos olhos dos seus habitantes ou dos turistas atentos.

Em expositores variados, vitrines em diversos recantos de muitas estações, o passado convive com o progresso tecnológico e com a modernidade.

Assim, se faz História.

ESTE É UM CAMINHO QUE A ESCOLA PÚBLICA NÃO PODE RECUPERAR

Compare-se a letra inequívoca da Lei com a fotografia (muitíssimo perspicaz) de Tiago Miranda. O título da notícia (ver aqui ) alude ao ...