domingo, 27 de julho de 2008

A marcha dos pinguins

Centenas de filhotes de pinguins têm sido encontrados mortos nas praias do Rio de Janeiro nas últimas semanas. De acordo com Eduardo Pimenta, superintendente da agência de protecção ambiental da costa estadual, mais de 400 pinguins foram encontrados mortos nas praias do estado nos últimos dois meses. Os números da catástrofe podem ser ainda mais avassaladores uma vez que nem todos os pinguins que morrem nas praias são contabilizados.

A notícia surge pouco depois de um artigo de Dee Boersma ter feito a capa da edição de Julho/Agosto da revista BioScience. No artigo, a especialista em Biologia de Conservação da Universidade de Washington lança um alerta para o declínio das populações de pinguins. Estas estão a desaparecer mais rapidamente do que se podia prever, registando-se em muitas espécies um declínio na ordem dos 50 por cento nas últimas décadas.

Boersma conta como visitou Dumont d'Urville, a base francesa na Antárctica onde o filme «A marcha dos pinguins» foi filmado. Os pinguins imperador estudados no filme incubam os ovos no meio do inverno antárctico e os filhotes deixam o ninho no verão, em Dezembro, princípio de Janeiro. As alterações climáticas nesta zona do globo traduzem-se no facto de em finais de Setembro já não existir gelo numa altura em que as penas das crias ainda não desenvolveram a camada hidrofóbica que permite a sobrevivência da espécie nas águas geladas. Para além disso, nos últimos tempos o verão antárctico tem sido marcado por chuvas torrenciais que encharcam os filhotes. Como referiu este mês o National Geographic, as crias congelam durante a noite e muitos milhares estão a morrer.

Boersma estuda a maior colónia de procriação de pinguins-de-Magalhães em Punta Tombo, na costa atlântica da Argentina há cerca de 25 anos. Para além das alterações climáticas, a colónia é ameaçada por redes de pesca, turistas, e, principalmente, pela fome. As alterações nas correntes marinhas e a pesca desenfreada têm forçado os pinguins a deslocarem-se mais 60 km dos seus ninhos para encontrarem comida. Assim, de acordo com Boersma, a colónia, que tinha perto de 400 mil pares há pouco mais de vinte anos, está hoje reduzida a metade.

O padrão repete-se ou é ainda mais assustador noutros pontos do globo. Por exemplo, os pinguins da África do Sul, que utilizam dejectos de pássaros para fazerem os ninhos, diminuíram de 1.5 milhões de pares há um século para os actuais 63 mil pares devido à recolha do guano para fertilizante.

Nas Galápagos, onde existe a única espécie do hemisfério norte, um El Niño mais frequente está a empurrar a alimentação dos pinguins para longe da costa e a matar à fome a colónia. O número de pinguins decaiu para cerca de 2500, um quarto da população existente no arquipélago quando Boersma os estudou pela primeira vez na década de 70.

Muitas das espécies conhecidas de pinguins estão a ser afectadas, mais concretamente, de acordo com a União Internacional pela Conservação da Natureza, 12 espécies estão em algum tipo de perigo.

A organização lista três espécies como ameaçadas de extinção e sete como vulneráveis, o que significa que «enfrentam alto risco de extinção», e duas mais como «próximas da ameaça». Há apenas cerca de 15 anos, apenas entre cinco a sete espécies eram consideradas vulneráveis.

No artigo publicado este mês, Boersma alerta para o facto de os pinguins serem o proverbial canário na mina de carvão, isto é, podem servir de «sentinelas das mudanças radicais do planeta» e especialmente são sentinelas das «doenças» que afectam os nossos oceanos. A cientista considera que os 43 «pontos quentes» dos pinguins devem ser vigiados muito mais de perto já que as populações de pinguins permitem aferir a variabilidade e viabilidade dos ecossistemas oceânicos.

Boersma considera ainda que há uma necessidade urgente em determinar o impacto do crescente número de pessoas a viver em áreas costeiras nos habitats marinhos. De facto, a cientista considera que para além das alterações climáticas, a actividade humana está a hipotecar a sobrevivência dos pinguins devido a factores como a pesca comercial, os derrames de petróleo e o desenvolvimento desordenado das zonas costeiras. Isto é, «Este problema levanta uma questão, será que os humanos estão a fazer com que seja demasiado difícil que outras espécies coexistam?»

A cientista explica melhor o que pensa: «À medida que os peixes que os humanos tradicionalmente comem se tornam mais escassos, começamos a pescar o resto da cadeia alimentar e a competir mais directamente com organismos mais pequenos pela comida de que eles dependem», acrescentando que «Os pinguins são daquelas espécies que nos mostram que estamos a alterar profundamente o nosso mundo. O destino de todas as espécies é a extinção, mas há algumas espécies que se extinguem antes do tempo e estamos a encarar essa possibilidade com alguns pinguins».

Na opinião da cientista, o rápido aumento da população mundial, de 3 mil milhões de habitantes em 1960 para 6.7 mil milhões em 2005, com a perspectiva de um crescimento para 8 mil milhões em 2025 indica que:

«Nós esperámos muito tempo. É claro que os humanos mudaram a face da Terra e mudámos também a face dos oceanos mas não o podemos ver. Nós já esperámos demasiado tempo».

sábado, 26 de julho de 2008

A ORIGEM DA ESPÉCIE


Minha crónica no semanário "Sol" de hoje (a foto mostra o insecto encontrado):

A ciência é um imenso campo de surpresas. Aconteceu há pouco uma no jardim do Museu de História Natural de Londres. Uma criança de cinco anos, filho do entomologista Max Braclay, apanhou um bichinho vermelho e preto do chão e mostrou-o ao pai: Papá, o que é isto?

O pai, curador do Museu, não sabia, apesar de ter passado a vida a recolher insectos por todo o mundo, em sítio remotos do globo como a Tailândia e a Bolívia. O Museu alberga uma colecção de 28 milhões de espécies de insectos (vão passar para o Centro Darwin – Fase 2, um moderno edifício a inaugurar no próximo ano), mas não havia lá nada igual. Não era uma espécie vulgar de Lineu... Depois de uma “caça ao insecto” nos museus de todo o mundo, encontrou-se uma espécie parecida no Museu Nacional de Praga. Dava pelo nome de Arocatus roeselli e tinha sido recolhida em Nice, França. Depois de vários estudos – vai-se agora analisar o DNA – não se sabe ainda se é a mesma espécie ou se é uma espécie nova muito semelhante. A questão é que esse insecto não existia à latitude de Londres e, além disso, habitava um outro tipo de árvores. Quando se foi examinar melhor o jardim do Museu, estava todo povoado pela nova espécie (pode mesmo ser uma nova espécie, pois há quem conjecture que só dez por cento das espécies de insectos são conhecidas) Não era um insecto isolado, mas uma multidão deles e o que vale é que são inofensivos.

Qual é a origem da espécie? Não se sabe. Segundo Barclay (Time, 28/7/2008), a migração e adaptação do Arocatus pode dever-se ao aquecimento global ou pode dever-se à circulação acrescida de pessoas dentro da União Europeia. Qualquer que seja a essa origem, um mistério como este vem mesmo a calhar agora que passaram 150 anos sobre a primeira comunicação de Darwin sobre a origem das espécies, o que ocorreu um ano antes do seu livro mais famoso ter vindo a lume.

Esta história científica, cujo final deverá em breve ser desvendado, ensina-nos o valor da biodiversidade e a relevância do melhor conhecimento e preservação de todas as espécies.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

O que é um comunicador de ciência?

Hoje o Pavilhão do Conhecimento em Lisboa faz nove anos. Pediram-me, para um serviço de TV-Ciência Viva que hoje é inaugurado, um depoimento que responda à questão de cima. Ei-lo aqui:

Um comunicador científico é alguém que consegue fazer com que a ciência seja compreendida e apreciada por mais gente. Pode ser um cientista, que saiba de ciência e que não só goste de ciência como também goste que os outros gostem dela. Não quer a ciência apenas para si e para os que lhe estão mais próximos, mas também para os outros, para todos os outros. Quer que a ciência - o conhecimento do mundo e do homem - seja um bem comum e partilhado. Nem todos os cientistas têm que ser comunicadores de ciência, mas devem sê-lo aqueles que tenham gosto nisso e que o consigam fazer com gosto do público. Hoje em dia, essa actividade de comunicação é reconhecida como essencial para a ciência. A ciência para estar viva tem de estar viva no seio da sociedade.

Mas um comunicador de ciência não tem que ser um cientista. Pode também ser um jornalista ou um museólogo que saiba de comunicação e goste de comunicar ciência, servindo de intermediário entre os cientistas, os que fazem progredir a ciência, e os cidadãos, que são afinal os beneficiários últimos dela e que têm o pleno direito de saber os resultados da ciência assim como os métodos necessários para os alcançar. Sim, os métodos - onde entram à cabeça o rigor e o espírito crítico - são tão os mais importantes que os resultados pois estes são, pelo menos em parte, provisórios enquanto os métodos são, em grande medida, permanentes. São os métodos da ciência que permitem melhorar progressivamente os resultados. A ciência mais do que um conjunto de resultados é um conjunto de atitudes. A apropriação da ciência pela sociedade, incluindo tanto os resultados como as conclusões, é actualmente vista como essencial para a sociedade.

A boa colaboração entre cientistas e mediadores é fundamental para que o empreendimento de bem comunicar ciência tenha sucesso. Os cientistas podem aprender com os mediadores como se aproximar do público, tornando acessível o que parecia inacessível. E os mediadores podem aprender com os cientistas os conteúdos e as metodologias da ciência. O desenvolvimento da ciência e da sociedade depende da qualidade dessas relações.

Porque é hoje necessário, indispensável mesmo, comunicar ciência? Porque a ciência, embora haja muitas outras actividades humanas, é uma das actividades mais enriquecedoras do homem. É a ciência que nos permite compreender o mundo onde vivemos. É a ciência que nos proporciona resposta a grandes questões da humanidade como "Quem somos?", "De onde vimos?", "De que somos feitos?", "Onde estamos?", etc. Com as respostas ou o começo de respostas obtemos conforto intelectual. Por outro lado, de posse de algum conhecimento do mundo, podemos viver melhor nele. Ninguém poderia viver bem num mundo que não compreendesse minimamente. Sabendo como é o mundo e como somos nós nesse mundo podemos gozar de maior conforto material. Einstein tinha razão quando disse que a "ciência é a coisa mais preciosa que temos"...

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Um cartunista criacionista



“Boneco rebelde”
é o título de um personagem de banda desenhada de 1939, que saiu da pena de um autor português de 17 anos, Sérgio Luiz. Infelizmente este autor pouco tempo teve para mostrar o seu talento pois faleceu passados quatro anos com tuberculose. Em homenagem a ele, “Bonecos rebeldes” é o nome de uma recente editora de banda desenhada, de José Manuel Vilela, que está a publicar esplêndidas edições de clássicos da banda desenhada como o "Tarzan" e o "Príncipe Valente".

Pois foi a “Bonecos Rebeldes” que editou recentemente um moderno clássico da banda desenhada, a “Geração Lasca. 50 anos de tiras” do desenhador norte-americano Johnny Hart (1937-2007). O título original era “Growing old with B.C.”, do nome "B.C." (iniciais de "Before Christ") da série em inglês, que saiu pela primeira vez em 1958, fazendo portanto cinco décadas este ano. Trata-se de uma série de tiras passadas no tempo da pedra lascada (o título português dado pelo tradutor Jorge Lima é particularmente feliz). Nelas há todo um conjunto de personagens originais, embora inspirados em amigos do desenhador (que é também co-autor de “O Feiticeiro de Oz”, uma série medieval em parceria com Brant Parker), que vivem situações de um humor por vezes absurdo que me divertiram imenso nas páginas de “A Capital” quando em Portugal havia esse vespertino. Os bonecos de Hart conheceram um enorme êxito, tendo sido publicados em mais de 1300 jornais de todo o mundo. O autor faleceu subitamente com um ataque cardíaco, a trabalhar na sua mesa de trabalho, quando o original do álbum retrospectivo da sua obra, agora saído em português, estava em produção adiantada. Não admira, por isso, que a família o recorde com saudade em depoimentos publicados no livro. Um neto com jeito para o desenho continua hoje o seu trabalho.

Tal como nos “Flinstones”, que são de 1960, e que a televisão tornou famosos, os bonecos humanos de Hart convivem alegremente com os dinossauros. Quando o cartune “B.C.” surgiu estavam na moda as bandas desenhadas pré-históricas, uma moda que se prolongou com o êxito alcançado junto do grande público e que me levou, nos anos 70, a criar um boneco dinossáurico (“Plunk”) amigo dos humanos que saiu primeiro a “stencil” no jornal dos estudantes do liceu e depois a “offset” no jornal dos estudantes da Faculdade. Apesar de simpatizar com o humor de muitas das tiras pré-históricas de Hart (um humor com certas semelhanças com o dos “Peanuts”, que está a conhecer uma edição sistemática em português) não posso, porém, deixar sem crítica algumas das posições pessoais do autor. Acontece que, numa altura avançada da sua vida e parece que por influência de canais evangélicos por cabo, Johnny Hart se tornou um cristão fundamentalista, o que o levou a defender posições criacionistas. Portanto, a convivência de humanos com dinossauros poderia ser para o autor mais do que um simples recurso humorístico...


Claro que qualquer artista tem direito à sua vida privada e às suas opiniões privadas. Mas o pior é quando põe a sua arte ao serviço da sua ideologia, o que em geral redunda em prejuízo da sua arte: nalguns cartunes do “B.C.” Hart passou definitivamente as marcas quando resolveu afirmar a superioridade do cristianismo em relação ao judaísmo - desenhou um candelabro judaico a transformar-se numa cruz cristã - ou até ridicularizar o islamismo - numa tira a palavra “slam” aparece ao alto e um personagem entra numa casinha de banho identificada por um crescente e diz: “É do meu nariz ou cheira aqui mal?”). Os protestos foram tais que o “Los Angeles Times” se sentiu obrigado a mudar alguns cartunes de Hart para as páginas de religião. A controvérsia marcou os últimos anos da vida de Hard, que tentou sem grande sucesso justificar-se. É caso para dizer: No melhor pano cai a nódoa!

quarta-feira, 23 de julho de 2008

"THÍASOS" OU A EDUCAÇÃO CLÁSSICA


Thíasos é o nome de um grupo de teatro universitário vocacionado para a representação dos clássicos, que está sedeado no Instituto de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

No ano em que se comemoram quinze anos de vida do grupo, falei com um dos responsáveis pelo seu surgimento, Delfim Leão, que é também encenador e actor. Na presente entrevista fala-nos da origem e percurso deste grupo, do trabalho desenvolvido e das pessoas que o constituem.


P: Comecemos pelo princípio, pelo nome do vosso grupo, o que significa Thíasos?
R: É um termo grego, que designa um grupo de adoradores de Diónisos ou, se preferirmos, os "companheiros de Diónisos", geralmente Sátiros e Ménades, que o acompanham na suas deambulações míticas. Sendo Diónisos o deus do teatro, o Thíasos acaba por ser também a "companhia teatral" por excelência.

P: Como é que o vosso Thíasos surgiu? Penso saber que o Delfim, ainda estudante, teve responsabilidade na sua criação…
R: Alguma terei tido, de facto, se bem que, inicialmente, nem eu nem os meus colegas finalistas fizéssemos ideia de que poderíamos vir a criar um grupo de teatro. Estávamos nos inícios dos anos 90. O nosso curso era muito unido, a ponto de termos criado já um grupo de música (o Carpe Diem), que, durante vários anos, deu espectáculos em Grego e Latim um pouco por todo o país, e ainda um jornal trimestral (o Sic Itur). Para comemorar um trajecto formativo que a todos nos envolvera muitíssimo, resolvemos realizar, no último ano, um congresso sobre O Amor desde a Antiguidade Clássica. Tínhamos pouquíssimos meios, mas com a adesão franca dos docentes e de outros colegas, conseguimos reunir cerca de 600 participantes. Entre os trabalhos do congresso, havia um espectáculo musical pelo Carpe Diem e uma apresentação parcial da peça O soldado fanfarrão de Plauto. A encenação esteve a cargo do Dr. Carlos Alberto Louro Fonseca, um docente já falecido que nos marcou muito a todos e teve um papel determinante neste despertar para o teatro. Entre as pessoas envolvidas na experiência, estavam três colegas de curso, que viriam a reencontrar-se alguns anos depois, como Assistentes, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra: eu próprio, o José Luís Brandão e a Luísa Ferreira. A partir de então, a pragmática teatral passou a fazer sempre parte da nossa existência profissional e lúdica. A agregação de outros colegas docentes e o apoio de todo o Instituto de Estudos Clássicos foram determinantes para que o Thíasos surgisse formalmente e se afirmasse, mas também é correcto distinguir o empenho entusiástico que o Doutor José Ribeiro Ferreira colocou nesse projecto e na criação do Festival Internacional de Teatro de Tema Clássico, que acaba de cumprir, este ano, a décima edição.

P: Os actores são estudantes, professores e funcionários da Faculdade de Letras de Coimbra, mas também aceitam pessoas de fora. Os únicos critérios que impõem são o gosto pelo teatro e algum tempo livre. Têm tido muitos candidatos?
R: Temos tido os candidatos necessários para garantir a manutenção do projecto nos moldes em que foi criado. A ideia é juntar, precisamente, todas as forças da academia, sem distinção de estatuto, e o Thíasos sempre funcionou dessa forma. Geralmente, estão envolvidas nas produções cerca de trinta pessoas e todos os anos é necessário substituir elementos que, entretanto, iniciaram a actividade profissional. Os docentes e funcionários ajudam a dar estabilidade ao núcleo central do grupo, mas há também antigos alunos que colaboram com o Thíasos há quase dez anos, contribuindo grandemente para firmar a sua identidade.

P: O grupo não se limita a encenar e representar as peças, faz também traduções e adaptações, trata dos cenários e dos adereços, concebe e executa os trajes… Há uma razão pedagógica para que assuma tantas tarefas?
R: Há, essencialmente, duas razões, ambas com incidência pedagógica. Em primeiro lugar, parece-nos muito importante que os elementos conheçam todas as frentes do espectáculo e alguns percorreram mesmo toda a “escola” – desde apoiar a logística do espectáculo, até trabalhar como actor, bailarino e, em alguns casos, traduzir a partir do original uma peça e testar as próprias ideias na encenação. Por outro lado, desenvolver todo o trabalho permite não apenas integrar pessoas que não têm apetência pela representação, como ainda ajuda a poupar recursos e estimula, igualmente, a própria investigação. Uma das linhas de investigação do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos corresponde, precisamente, à pragmática teatral, ao esforço para estudar e compreender o teatro antigo enquanto fenómeno cultural e lúdico no seu próprio tempo.

P: No que respeita à adaptação das peças, como espectadora tenho percebido que introduzem elementos contemporâneos, alguns deles populares, que obviamente não constam do original… Isso não incomoda os mais “puristas”?
R: O equilíbrio entre uma visão mais “arqueológica” do espectáculo ou uma abordagem mais livre e receptiva a fracturas é uma questão que se pondera sempre na altura de iniciar a dramaturgia e encenação. Cada produção é independente das restantes, mas a linha orientadora do Thíasos privilegia uma abordagem que procura aproximar-se do contexto de produção original. Ainda assim, há sempre um esforço de actualização, mais visível, de resto, na vertente “política” da comédia antiga. No entanto, também isso não deixa de estar de acordo com as características do teatro clássico, que não era um tipo de produção estática, dobrada à seriedade da palavra dita, mas antes um espectáculo em todas as frentes, com muita cor, canto e coreografias visualmente complexas. Não nos esqueçamos de que o termo theatron nos remete para a ideia de “ver” e que a orquestra (um ponto central na arquitectura do teatro antigo) ou o coro acentuam, na própria etimologia, a presença da música e da dança.

P: Ao longo de uma década e meia, quantas peças já representaram?
R: Cerca de dezena e meia. Geralmente, temos em cena duas ou três peças ao mesmo tempo, mas o usual é manter em cartaz a produção do ano anterior e conceber um espectáculo de raiz cada ano, que serve de ocasião, precisamente, para dar mais formação e integrar novos elementos no grupo.

P: Neste ano apresentaram as Vespas, numa tradução de Carlos Jesus, cujo enredo é actualíssimo. A ligação com o presente é um dos critérios de escolha das peças que levam à cena?
R: Não propriamente, nem isso é necessário. Por norma, o teatro clássico tende a ser intemporal e, por conseguinte, é sempre possível ao público fazer uma leitura da representação que, uma vez despida de alguns referentes de época mais datados, nos surpreenda pela evidente actualidade. Foi isso que permitiu aos autores clássicos continuarem a ser representados e apreciados ao longo de vinte e cinco séculos de existência.

P: Diria que a cultura clássica é sempre actual?
R: Sem dúvida. Constitui um património cultural que faz parte da nossa própria identidade e quem visita com frequência os autores antigos está constantemente a ser surpreendido pela sua espontânea modernidade. Os meios à disposição do ser humano conheceram grandes inovações, mas a humanidade em si continua basicamente a mesma e, pesem embora as inegáveis conquistas, em alguns aspectos até está pior. Mas o Mito das Cinco Idades de Hesíodo já dizia isso mesmo – há quase trinta séculos!

P: O grupo tem um autor preferido?
R: Não, pois já encenámos Ésquilo, Sófocles, Eurípides, Aristófanes e Plauto. Fizemos também algumas adaptações, como por exemplo da obra poética de Marcial, e já abordámos por duas vezes o grande clássico português – Gil Vicente. Todavia, entre os grandes autores dramáticos, ainda nos faltam Menandro, Terêncio e Séneca, de maneira que o Thíasos pode continuar a propor novos espectáculos durante várias dezenas de anos, sem nunca repetir nenhuma obra. Procuramos, sobretudo, intercalar, em termos de produções, a comédia com a tragédia, de forma a termos sempre em cena espectáculos com natureza bastante distinta.

P: Sendo muito débil a cultura clássica da nossa população e apostando o grupo na representação, não só em cidades onde há um público mais escolarizado, mas também em terras do interior, como têm sido recebidas as vossas peças?
R: Ao longo destes anos, as nossas produções já foram vistas por cerca de 25.000 espectadores. Se juntarmos as performances integradas no Festival Internacional de Teatro de Tema Clássico, então o número mais do que duplica. Há, portanto, uma receptividade bastante boa e que aumenta de ano para ano, fidelizando público. Em média, cada performance tem cerca de 200 espectadores, o que é um número bastante elevado para teatro. Se atendermos a que, por norma, distribuímos também um livro-bilhete com o texto representado, dá para ter uma ideia do esforço formativo que o grupo tem vindo a desenvolver junto da população em geral.

P: Desde há muito que apostaram também nos palcos internacionais. Nesse contexto, como são recebidos?
R: Até agora, demos por várias vezes espectáculos em Espanha, França e Itália. É certo que a língua é uma barreira, mas o retorno do público tem-nos mostrado que, apostando num espectáculo bem ritmado e expressivo, o resultado pode ser muito bom.

P: Além do teatro, o grupo dedica-se também à poesia… Quando e porque é que a poesia surgiu no vosso projecto?
R: No mundo antigo, o teatro, a música, a dança e a poesia são expressões artísticas extremamente próximas e conviventes. Assim, a aposta em recitais surgiu como uma expansão natural das actividades do grupo, sendo que alguns elementos se dedicam, em particular, a essa vertente. Seria incorrecto não reconhecer, porém, que a motivação para os recitais tem partido muitas vezes do Doutor José Ribeiro Ferreira (ele próprio poeta e leitor entusiasta da poesia), em articulação com iniciativas várias, em especial as chamadas Terças-feiras de Minerva.

P: Como professor e investigador, como encara o Delfim a tendência para afastar a cultura clássica dos currículos escolares?
R: A obsessão por valorizar estatísticas que disfarcem o insucesso decorrente de más políticas educativas leva a que os programas se concentrem excessivamente na actualidade mais recente ou nas tecnologias de informação e comunicação. Desta forma, tudo o que remeta para um passado mais remoto ou pressuponha uma aprendizagem mais exigente (as línguas clássicas, tal como a literatura ou a própria matemática) tende a ser desvalorizado ou mesmo suprimido. É um erro enorme confundir sucesso com facilitação excessiva ou o acesso rápido à informação com superficialidade na aprendizagem. A antiguidade clássica, na vertente cultural e linguística, pode, a par de outras matérias, dar um auxílio precioso na criação de estruturas identitárias estáveis e no desenvolvimento de métodos de trabalho e de reflexão. Também é necessário adaptar metodologias, matérias e objectivos, mas essa é a resposta que os classicistas estão dispostos a dar à sociedade, desde que a sociedade não seja impedida de aceder a este tipo de conhecimento fundacional.

P: Partilha a opinião de George Steiner de que uma civilização sem os seus clássicos não tem futuro?
R: Uma civilização que não tenha consciência do seu passado, das suas raízes linguísticas, do seu património cultural, em suma da própria natureza matricial, não pode obviamente ter futuro, pois está condenada a andar numa constante deriva identitária. Já Homero nos dizia isso, ao fazer Telémaco sair de Ítaca, em busca do pai. Não bastaria ao jovem ser Telémaco, para se afirmar como pessoa: precisava de ser Telémaco – o filho de Ulisses.

terça-feira, 22 de julho de 2008

O lugar único

Em consonância com esta época do ano, no seguinte texto, que antes foi publicado no Diário “As Beiras”, João Boavida sugere-nos mais uma vez a leitura e a viagem. Esta, pela mão daquela, não se concretiza apenas no espaço, mas também na memória...

"Um velho amigo e poeta – Rui Caeiro - enviou-me mais um livrinho, daqueles que não andam aí, em resmas, pelos sucessos do mundo: Pranto por Vila Viçosa.

Rui Caeiro é um poeta e prosador de qualidade, apreciado por uns tantos amigos exigentes. Que toda a vida andou à volta de livros, mas que a partir da reforma começou a colaborar com um entusiasmo adolescente com Victor Silva Tavares, no &etc. Lírico moderado e ácido quanto baste, tem livros de pensamentos, subtis, profundos e desencantados, que nos deixam suspensos de certas ressonâncias, mas nada carteseano, todo intuitivo. Na poesia é dum seco lirismo, que se disfarça, mas de cuja secura não convence porque andam, nas suas poesias, objectos cortantes pelo meio de campos abertos e luminosos ou cheios de papoilas berrantes. Estão a ver o estilo? O livro dos afectos, Sobre a nossa morte, não muito obrigado, Baba de caracol, O toureiro de Deus, Olhar o nada, ver a Deus, O que é isto? , Mis amigos, Sobre Deus, sobre o magno problemas de deus, Gatos e homens, e outros.

Quis agora ajustar contas com a sua terra natal: Vila Viçosa. Daí este “pranto”. E a palavra, só por si, é de morrer, pela beleza naquele título, pela saudade que não se quer dizer, mas se diz ainda mais, Se tudo aquilo de que se fala está já morto, que mais há a fazer que prantear? O que se pode fazer em relação à terra natal, a partir de certa idade, sobretudo se a vemos de longe através das memórias? Com o tempo a gente tem que acertar contas, bem o percebo. E a realidade de uma povoação, a da nossa infância, que estava no centro do mundo, que era o próprio mundo e, nesse sentido, não podia ser mais bela nem mais perfeita nem estar melhor situada; e tanto que nos parecia até não poder ter sido feita de outra maneira, de tal modo as coisas estavam dispostas e colocadas e dependentes umas das outras.

Terras da nossa infância, onde há outras assim? Aldeias encastoadas nas serras de Portugal; vilas, umas mais airosas a brancas, adormecendo ao sol do Sul, outras mais toscas a desembaraçar-se a custo dos cabeços; bairros, largos das cidades, onde crescemos, ficam, para o resto da vida, como os lugares que não podiam ser de outro modo. Os lugares únicos, os sítios insubstituíveis.

E onde as pessoas, aquelas pessoas que lá viviam, com as suas caras, os seus tiques, os modos como andavam e falavam, as suas demências, às vezes, estavam de tal modo ligadas às coisas que não eram possíveis noutros lugares. E se acaso, por uma estranha ocorrência, um dia as víamos noutro sítio, ou desempenhando funções diferentes, não as reconhecíamos, ou sentíamos que havia ali um profundo engano. E que era preciso emendar rapidamente, pois as próprias pessoas pareciam outras, embora na mesma pele, eram e não eram e isso não soava bem.

Enfim, já se sabia, fomos feitos também à imagem dos sítios, (casas, ruas, largos, sons de sinos, jogos, gritos e correrias) e que dessa ligação profunda não nos podemos libertar porque seria ficarmos sem rosto, sem alma e sem organização mental."

LIVROS DE VERÃO

Há uma estranha teoria segundo a qual o cérebro não funciona no Verão. De acordo com essa teoria, os miolos, derretidos com o calor estival, tornam-se inoperantes. Deve ser por isso que as livrarias nesta altura do ano só mostram títulos "light", alguns deles "extra light", e de "self-help".

Num prospecto, da Bertrand, intitulado "Viagens de Verão!" e subintitulado "... deixe-se levar por um livro..." é em vão que procuro, nas suas 24 páginas, por um livro de ciência para ler no Verão. Eu só queria um, mas para quem fez a selecção é pedir demais. O mais parecido que encontro é "A Verdade sobre os Alimentos" (de Jill Fullerton-Smith, Presença; guião de uma série da BBC sobre nutrição) e "Ghostwalk- Na pista de Newton" (de Rebecca Stott, Difel; ficção baseada na vida de Newton). Mas, se em vez de ciência, eu quiser pseudo-ciência e outros delírios, então a escolha é vasta: Deepak Chopra pontifica com "A Sabedoria do Mago" (Pergaminho) e "O Livro dos Segredos" (Estrela Polar), mas há também "O Poder Curativo da Água", de Maratu Emoto (Estrela Polar), "A Sabedoria de Oprah", de Lisa Ashton (Ésquilo) e "Mais Luz" de Alexandra Solnado (Pergaminho). Este último, com o o subtítulo "Pergunte. O Céu Responde", é particularmente delirante pois, segundo o prospecto, para "encontrar a resposta a uma questão que o assole, basta retirar dois símbolos do conjunto de caracteres aramaicos que acompanha este livro. Consoante o desenho traçado por estes símbolos, irá receber uma mensagem de Jesus acerca da questão colocada".

Não é este, porém, o livro que mais me surpreendeu. Este galardão é ganho pela obra "Goodlife! The Discount Book" (Livros do Brasil), assim mesmo com o título em inglês e tudo. Contém "ofertas especiais de grandes marcas" e promete "mais de 11 000 euros de descontos por apenas 25". Suponho que as páginas são para rasgar. Isso sim é que é literatura de férias!

Abelhas e conservação da Natureza


Os Estados Unidos, mais especificamente a Califórnia, são responsáveis por cerca de 80% da produção mundial de amêndoas. As amendoeiras são totalmente dependentes das abelhas para polinização e o sucesso da colheita do ano passado foi em grande parte assegurado por milhões de abelhas importadas. De facto, as abelhas são responsáveis por cerca de 30% dos alimentos produzidos nos Estados Unidos mas nos últimos anos os apicultores americanos têm tido dificuldade em encher de colmeias os camiões com que percorrem o país. Assim, esta e outras culturas estão em risco se não se travar o desaparecimento em massa de abelhas.

Até há uns anos, a varroose era o principal problema da apicultura ocidental, nomeadamente da norte-americana. A parasitose provocada pelo ácaro Varroa destructor, detectada em 1987 nos Estados Unidos, era só por si um problema preocupante para a sobrevivência das colmeias mas recentemente a esta adicionou-se uma doença misteriosa baptizada Colony Collapse Disorder, CCD, que tem devastado as abelhas nos Estados Unidos. Em 2007, alguns apicultores perderam 90% das colmeias embora a média nacional tivesse sido de 31%. Entre Setembro de 2007 e Março de 2008, desapareceram 36% das abelhas.

O desaparecimento das abelhas tem sido alvo de investigação intensiva por parte da comunidade científica. Em Setembro de 2007, a revista Science publicou um artigo de um consórcio de cientistas norte-americanos, com a entomóloga Diana Cox-Foster como primeira autora, que apontou como principal suspeito da CCD o IAPV (Israeli acute paralysis virus), um virus descoberto em Israel em 2004.

Os pesquisadores recorreram à sequenciação genética dos microrganismos encontrados nos intestinos de abelhas recolhidas em colmeias afectadas e colmeias «sãs» durante um período de três anos. O IAPV foi o único microrganismo presente em quase todas as amostras extraídas de colmeias afectadas.

Ian Lipkin, director do centro de infecção e imunologia da Universidade Colúmbia explicou na altura que este vírus «poderia ser a causa potencial» da mortandade mas ressalvou que poderiam existir outros factores associados e que «A nossa próxima etapa consiste em determinar se este vírus é a única causa do fenómeno de despovoamento em massa das colmeias». De facto, como revelou Jeffery Pettis, entomologista do ministério americano da Agricultura e outro dos autores do estudo na Science, «esta pesquisa revela uma boa pista , mas é pouco provável que o IAPV seja a única causa».

Uma das indicações de que outros factores estão em jogo provém das abelhas importadas da Austrália desde 2004 que mostraram terem sido infectadas pelo IAPV mas não desenvolviam o CCD. O facto de as abelhas australianas não serem infectadas pelo ácaro Varroa parece indicar que os pesticidas utilizados para controlar a varroose podem ter um efeito sinérgico não despiciendo na CCD.

Esse possível efeito sinérgico é corroborado pela investigação que se seguiu e que consistiu na introdução do IAPV em colónias saudáveis (num ambiente controlado). Ao fim de um mês, as colónias infectadas tinham declinado acentuadamente e muitas tinham perdido as rainhas. Mas a equipa de Diana Cox-Foster indica que estes resultados não apontam inequivocamente para o IAPV como único culpado já que detectaram dezenas de pesticidas, muitos deles tóxicos para as abelhas, na análise do polén, cera, abelhas adultas e larvas das colónias afectadas.


A Xerces Society tem uma lista de insectos polinizadores em risco de extinção apenas nos Estados Unidos. Como referem, «Para muitos animais, incluindo a maioria dos pássaros e mamíferos, existe e é acessível a informação básica que permite a identificação de espécies que precisam de conservação. No entanto, para os insectos que fornecem o serviço vital de polinização essa informação está muitas vezes escondida em ficheiros científicos ou não existe de todo».

Esta falta de informação não se restringe aos insectos polinizadores, na realidade não há grande informação sobre invertebrados em risco, apesar de os invertebrados corresponderem a cerca de 94% das espécies animais que partilham connosco o planeta Terra.

De facto, tal como em relação aos batráquios, pouco ou nada se fala na extinção e declínio de invertebrados ou quando se fala é apenas para referir a necessidade da erradicação de espécies nocivas ao homem. Mas a sua abundância reflecte o enorme impacto ecológico destes organismos francamente pouco atraentes e «vendáveis» para o grande público. Como refere a Xerces, é necessário educar a opinião pública para o valor extraordinário dos invertebrados embora seja pouco provável que se desenvolvam afinidades por uma minhoca semelhantes às que os pandas, por exemplo, despertam. Urge no entanto que todos percebam que os problemas de conservação da vida animal não se restringem a baleias, pandas, linces e afins.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

A “nota positiva” de Feytor Pinto


Ainda a propósito dos exames nacionais, divulgamos um texto da autoria de Maria do Carmo Vieira, professora de Português e Francês do Ensino Secundário, que foi publicado no semanário Expresso do passado sábado.

"Antes de me referir às palavras de Paulo Feytor Pinto, presidente da Associação de Professores de Português, sobre os exames do 12.º ano, recordo que a APP foi interlocutora privilegiada do ME na reformulação dos novos programas de Português. Da sua implementação em 2003, sem uma séria e honesta discussão, pelas limitações impostas, resultou a intensificação do nivelamento por baixo, do facilitismo e de uma cultura de ignorância, num espaço cuja função sempre foi a de preparar para a vida. Em nome da mudança, centrou-se o ensino nos alunos e assistiu-se ao esvaziamento de conteúdos programáticos, à subestimação da Literatura, agora em pé de igualdade com requerimentos, bulas, atestados médicos, publicidade..., ao apagamento dos clássicos, à interpretação de textos com verdadeiro e falso ou cruzes, à aceitação de erros ortográficos, à imposição da TLEBS, causadora de um caos indescritível no estudo da gramática, esta sim indispensável.

Nas suas afirmações, Feytor Pinto esquece que a leitura é um valor e que conhecer uma obra literária, discuti-la e dialogar com ela, no silêncio da leitura, não é um «papagueamento». Não esquecerá, no entanto, que defendeu junto do ME que se retirasse a literatura do secundário, dissociando-a do estudo da língua, e que só a polémica então suscitada o não permitiu.

Sabendo-se que mentores e apoiantes do programa do secundário incluíram o estudo aprofundado de «Os Lusíadas» no 12.º ano, retirando-o do 10.º, estranhámos a «nota positiva» de Feytor Pinto «à utilização no exame de um texto literário que não era do programa do 12.º ano», o que «impede o papagueanço e permite sentido crítico e criatividade». Na verdade, esse texto literário foi retirado do canto IX de «Os Lusíadas». Utilizando estratégias inovadoras, houve perguntas mastigadas, no sentido de orientar a resposta (veja-se o exame). Não posso, contudo, deixar de revelar dois exemplos flagrantes da pouca exigência que se pratica na Escola, retirados do vocabulário fornecido aos alunos e relativo ao texto camoniano: 1. Ilha angélica pintada: (...) pintura de uma ilha linda, que lembra um lugar habitado por anjos; 4. No estelante Olimpo: na brilhante morada dos deuses. Esquece igualmente o meu colega a importância extrema de memorizar, capacidade que se tem vindo a abafar desde o 1.º ciclo, porque considerada violência pedagógica. Por essa razão temos alunos de vários níveis de ensino que evitam consultar um dicionário porque não sabem o alfabeto de cor; idêntica situação relativamente à História, prejudicando a análise de textos que a exigem, o que acontece com «Os Lusíadas». Foi para não massacrar os alunos com a História que o episódio d’«O Velho do Restelo» foi retirado do estudo da epopeia, para além do nocivo espírito crítico perante o Poder. Assim se educa a obediência e a passividade, entretendo no facilitismo em ambiente de brincadeira.

Envergonhemo-nos pelo descalabro do Ensino e pelo futuro hipotecado dos nossos alunos e do país."

Maria do Carmo Vieira
(Expresso de 19 de Julho, Primeiro Caderno, página 36)

Ninguém lhe dá cavaco

O presidente Cavaco Silva promulgou o acordo ortográfico (notícia do Público). Felizmente, tanto no Brasil como em Portugal, é previsível que a generalidade das pessoas não irá adoptar a nova ortografia. Como já referi, há três razões principais contra este acordo ortográfico.

A primeira é que qualquer legislação sobre a ortografia é tão absurda como legislar sobre a gramática ou o léxico. Imaginem o que seria uma besta de um político determinar que palavras são ou não são portuguesas.

A segunda é que este acordo ortográfico em particular é uma mentira política: apresenta-se como unificador da língua portuguesa, mas não o é, pois passamos a escrever de maneira diferente o que antes no Brasil e em Portugal se escrevia igual (os outros países de língua portuguesa sempre seguiram a ortografia e a gramática de Portugal).

A terceira é que a reforma ortográfica proposta é incoerente, introduzindo vez mais elementos ilógicos na língua. Só a título de exemplo: o princípio organizador das mudanças ortográficas é fonético e é por isso que no Brasil se continuaria a escrever "aspecto", porque pronunciam o "c", ao passo que em Portugal as pessoas seriam obrigadas a escrever "aspeto", porque não pronunciam o "c". Esta é a primeira incoerência. Mas, além disso, os brasileiros deveriam passar a escrever "Brasiu" e "Isabeu" em vez de "Brasil" e "Isabel", pois nestas palavras pronunciam o "l" como "u".

Historicamente, as sucessivas reformas ortográficas foram febres centralistas da Europa continental totalitarista, associadas à ideia de que era necessário ser "moderno". Mas podem ser bem feitas ou mal feitas. Os italianos conseguiram reformar bem a sua ortografia e fizeram da língua italiana escrita uma quase perfeita imagem da maneira como falam. Contudo, isso nunca se fez em Portugal, que sempre fez as reformas ortográficas mal, introduzindo tantas excepções e dessintonias entre a pronúncia e a ortografia quantas as que procurava eliminar. A parca capacidade cognitiva dos reformadores fazia-os introduzir distinções ortográficas tolas, como "coser" e "cozer", para distinguir ortograficamente significados diferentes, ao mesmo tempo que se declaravam preocupados com as criancinhas que poderiam ter dificuldades em escrever "philosophia". O resultado que tivemos foi este: ficámos apenas com sucessivas novas ortografias em Portugal, mas nenhuma melhor do que as anteriores, e todas cheias de coisas ilógicas e sem sentido.

Ora, o princípio crucial a ser seguido nestas coisas é o seguinte: se vamos mexer nestas coisas, ou o resultado é perfeito ou quase perfeito, ou mais vale estar quieto. Dado a falta de qualidade gritante dos estudos linguísticos no nosso país, é de esperar que qualquer nova ortografia seja tão idiota como a anterior, mas idiota por idiota, mais vale ficar com o que já temos escrito em milhares de livros que estão nas bibliotecas. Eu gostaria de ler Pessoa tal qual ele escreveu, mas não posso fazer isso sem ir a uma biblioteca especializada. Gostaria de ler Eça tal qual ele escreveu, mas não posso fazer isso. E porquê? Porque umas bestas infinitamente menos interessantes intelectualmente do que Eça ou Pessoa têm o poder, dado pelo estado (palavra que na mentalidade salazarista muita gente escreve com maiúscula majestosa), de me obrigar a ler como eles querem e não como Eça ou Pessoa escreveram. Isto é pura prepotência gratuita, dado que nenhuma genuína melhoria foi introduzida na ortografia. Basta ler as inanidades de Cândido de Figueiredo para se perceber qual era o calibre intelectual dos reformistas do passado, que não destoa do calibre intelectual de tolinhos como o Houaiss ou o Malaca Casteleiro.

Naomi arrasada

"She is conscientious enough to provide readers with facts that blow her thesis to smithereens, yet at the same time she is deluded enough not to notice the rubble of her thinking on the floor", escreve Jonathan Chait na sua minuciosa recensão do último livro de Naomi Klein, The Shock Doctrine. Vale a pena ler...

domingo, 20 de julho de 2008

Identidade


Agora que o futebol está a regressar, depois de uma curta pausa, transcrevemos do último "Destak" a crónica do médico psiquiatra José Luís Pio de Abreu:

Quando, em qualquer parte do mundo, me perguntam de onde sou e eu respondo com o nome do nosso país, já não deparo com aquelas expressões indiferentes ou perplexas que escondem a ignorância ou a dúvida.

Pelo contrário, o nosso interlocutor esboça um sorriso condescendente e exclama: ah, sim, futebol, bons jogadores. Afinal, já somos reconhecidos; temos direito à existência.

Mas se a conversa se alonga e falo da história, dos descobrimentos, logo os outros se perguntam sobre o último Mundial ou o próximo Europeu.

Os mais idosos ainda podem falar do Eusébio. Se falo da nossa língua, falada em todos os continentes e também no Brasil, acabamos por discutir a nacionalidade do Deco. Se falo dos nossos ilustres, do Prémio Nobel da Literatura, do Presidente da República, ou mesmo do Dr. Alberto João Jardim, atiram-me à cara com o Cristiano Ronaldo e o José Mourinho. Se falo do clima, das paisagens ou monumentos, o mais que posso partilhar é o Estádio da Luz ou talvez outro.

Foi a pensar no que somos e na identidade que temos, que andei por aí a vaguear. De facto, com hambúrgeres, MacDonalds, shoppings, franchisings e aquelas maravilhas arquitectónicas que tanto se podem ver aqui como em Berlim, já pouca coisa nos distingue.

Excepto uma coisa: a bandeira, ou as bandeirinhas todas iguais que apareciam nas janelas das casas. Só que agora já não se vêem.

Mas quando passei pela sede da Federação Portuguesa de Futebol, na Rua Alexandre Herculano, lá estavam ainda as bandeirinhas todas iguais em todas as janelas. Estavam ali como uma revelação: afinal, este país é um clube de futebol.

J.L. Pio Abreu

"Não há educação se não há verdade a transmitir"


Vale a pena ler

Título: O valor de educar
Autor: Fernando Savater
Edições: Presença (1997); Dom Quixote (2006)


Fernando Savater é um filósofo espanhol cujo nome passou há muito às fronteiras do país onde nasceu e vive. A sua carreira de professor catedrático e investigador na área da Ética, bem como a sua atitude interventiva em questões sociais e políticas justificam-no.
Além de se dedicar à escrita académica, é autor de inúmeros artigos publicados em jornais e revistas várias e de livros de divulgação. Entre os assuntos a que tem dedicado mais atenção encontra-se a educação.

Uma das obras mais consistentes que produziu nesta área tem por título O valor de educar, foi publicada entre nós há mais de uma década e republicada há dois anos. Com a clareza e objectividade necessárias ao entendimento de um público alargado, Savater investe numa reflexão corajosa sobre temas fundamentais que, na actualidade, opõem os teóricos e dividem as opiniões das pessoas comuns.

Dessa obra, seleccionei uma passagem que, apesar de não traduzir um problema educativo novo, traduz um problema educativo em aberto: o problema da verdade e do seu valor, que é, afinal, a base de todo o ensino e de toda a aprendizagem.

"Não há educação se não há verdade a transmitir, se tudo é mais ou menos verdade, se cada um tem a sua verdade, igualmente respeitável, e se não se pode decidir racionalmente entre tanta diversidade. Nada pode ser ensinado se nem sequer o professor acredita na verdade que ensina e no quanto é importante saber verdadeiramente. O pensamento moderno, com Nietzsche à cabeça, sublinhou com razão a parte de construção social que há nas verdades que assumimos e a sua vinculação à perspectiva ditada pelos diversos interesses sociais em conflito.

A metodologia científica e, inclusive, a simples prudência indicam que as verdades não são absolutas ainda que assim nos pareçam. São frágeis, passíveis de serem revistas, sujeitas a controvérsia e por fim perecíveis, mas nem por isso deixam de ser verdades, isto é, mais sólidas, mais justificadas e mais úteis que outras crenças que se lhes opõem. São também mais dignas de serem estudas, ainda que o mestre que as explica não deva ocultar a possível dúvida crítica que as acompanha (qualquer mestre recorda as verdades que aprendeu e que não o serão mais para os seus alunos).

A verdade esvoaça por entre as dúvidas como a pomba de Kant voa no ar que lhe oferece resistência mas que, ao mesmo tempo, a sustenta. Falando de voar, Richard Dawkins dá o exemplo da aviação como prova intuitiva de que nem todas as verdades são aceites como simples convenções culturais do momento; se não concedêssemos aos seus princípios mais veracidade que a que costumamos atribuir aos discursos dos políticos ou às prédicas dos curas, nenhum de nós subiria jamais a um avião. A busca racional da verdade, melhor dizendo, das verdades sempre fragmentárias (…), tropeça na prática pedagógica com dois grandes obstáculos inter-relacionados, a sacralização das opiniões e a capacidade de abstracção.

Em vez de serem consideradas propostas imprecisas, limitadas pela insuficiência de conhecimentos ou pela aceleração, as opiniões convertem-se em expressão irrebatível da personalidade do sujeito («esta é a minha opinião», «essa é a sua opinião») como se o relevante delas fosse a quem pertencem, e não o que as fundamenta. A velha e deselegante frase que os tipos duros de algumas películas americana, costumam dizer — «as opiniões são como os cus, cada um tem o seu» — ganha força, porque nem sobre as opiniões nem sobre os traseiros, pelos vistos, é possível existir qualquer discussão e ninguém pode desprender‑se de umas ou do outro, ainda que o queira.

A isso, junta‑se uma obrigação beatífica de «respeitar as opiniões alheias», que, se na verdade se pusesse em prática, paralisaria todo e qualquer desenvolvimento intelectual ou social da humanidade.

Para não falar do «direito a ter a sua própria opinião» que não é o direito de pensar por si mesmo e submeter a uma confrontação racional o pensado, mas sim o de manter a própria crença, sem que ninguém interfira com incómodas objecções.

Este subjectivismo irracional convence mais rapidamente as crianças e os adolescentes, que se habituam a supor que todas as opiniões — isto é, não só a do mestre que sabe do que está a falar como também a deles que parte da ignorância — valem o mesmo e que não dar o braço a torcer é sinal de personalidade autónoma e que tentar convencer o outro do seu erro, com argumentos e informação adequada, é exemplo de tirania.

A tendência para converter as opiniões em parte simbólica do nosso organismo e para considerar tudo quanto as desmente como uma agressão física («feriu as minhas convicções») não constitui uma dificuldade apenas para a educação humanista como também para a convivência democrática. Viver numa sociedade plural impõe assumir que o que é verdadeiramente importante são as pessoas, não as suas opiniões, e que estas devem ser escutadas e discutidas e que não nos devemos limitar a vê‑las passar, sem as tocar, como se fossem vacas sagradas. O que o mestre deve fomentar nos seus alunos é a disposição para conseguirem estabelecer a não irrevogabilidade do que escolheram para pensar (a «voz da sua espontaneidade», a sua «autoexpressão», etc.) e sim, a capacidade de participar frutuosamente numa controvérsia razoável, ainda que isso «fira» os dogmas pessoais ou familiares de alguns dos seus alunos. É aqui que reside a alarmante falta de hábito de abstracção dos neófitos, cuja ausência também os professores de matérias essencialmente teóricas lamentam com amargura, mais tarde, nos estudantes universitários. Consiste numa dificuldade quase incurável para deduzir a partir de premissas, para conseguirem desligar‑se do imediato ou do anedótico, para não procurar, por detrás de cada argumento, a má vontade ou o interesse mesquinho do argumentador mas sim verem a debilidade do argumentado (…).

Aprender a discutir, a refutar e a justificar o que se pensa é o que constitui a parte irrenunciável de qualquer educação que aspire ao título de «humanista». Para isso, não é suficiente saber expressar‑se com clareza e precisão (ainda que seja primordial, tanto na escrita como oralmente) e submeter-se às mesmas exigências de inteligibilidade que se pedem aos outros, mas deve também ser desenvolvida a faculdade de escutar o que se propõe na construção discursiva. Não se trata de patentear uma comunidade de autistas, zelosamente enclausurados nas suas «respeitáveis» opiniões próprias, mas sim de propiciar a disposição para participar lealmente em colóquios razoáveis e em procurar, em comum, uma verdade que não tenha senhor e que procure não fazer escravos. É indubitável que tal disposição deve encontrar o seu primeiro exemplo na atitude do próprio mestre, seguro do que sabe, mas disposto a debatê‑lo e, inclusive, a modificá‑lo no decurso de cada aula com a ajuda dos seus alunos.

Deve ser uma das principais tarefas fomentar o espírito crítico sem fazer concessões ao simples afã de levar a melhor (tão característico e estimulantemente lúdico na idade adolescente). Também é saudável que o professor não se antecipe aos adolescentes no zelo subversivo, ensinando-os a refutar coisas que ainda não mostrou sob o seu aspecto positivo, por exemplo (…) expor as doutrinas filosóficas a partir dos seus erros.

Há professores tão inconformistas que não se conformam com ser apenas professores e querem também ocupar o papel de jovens rebeldes, em vez de deixar aos seus alunos essa iniciativa (…). Deve ser potenciado naqueles que aprendem a capacidade de perguntar e perguntar-se: essa inquietação, sem a qual nunca se consegue saber verdadeiramente alguma coisa, mesmo que se consiga repetir tudo."

sábado, 19 de julho de 2008

O regresso de Carlos Queirós


Novo post de Rui Baptista sobre professores e futebol:

“Os processos da ciência são característicos da acção humana, porque se movem pela indissolúvel união do facto empírico e do pensamento racional” (J. Bronowski )

Começo por destacar o papel desempenhado pelo treinador de futebol brasileiro Otto Glória, formado em Educação Física, na estruturação da equipa e conquistas de títulos nacionais do Sport Lisboa e Benfica (1954-59) e na obtenção do 3.º lugar no Campeonato do Mundo de Futebol (1966), que o 2.º lugar conquistado no Campeonato Europeu de Futebol (2004) quase fez cair em injustificado esquecimento.

Na recente nomeação de Carlos Queirós para seleccionador nacional de futebol, no êxito internacional de José Mourinho e no excelente percurso de Jesualdo Ferreira no Futebol Clube do Porto, encontro motivo para me debruçar sobre o papel de professores de Educação Física no treinamento de equipas de futebol.

Anos atrás, Carlos Miranda, director de A Bola, deixou escrito que Carlos Queirós era um caso de predestinação comparável ao de Mozart (que aos quatro anos já tocava cravo e aos cinco ensaiava os primeiros passos da composição). Esta era uma acha mais na fogueira de uma controvérsia que está longe de estar extinta.

Quase se pode dizer que se nasce poeta e escritor, mas não se nasce médico, advogado ou professor. Daqui encontro justificação para na proliferação de licenciaturas, a que se tem assistido na Universidade Portuguesa, não haver cursos universitários de Poesia e os melhores escritores não serem licenciados em Letras (v.g., José Saramago e António Lobo Antunes, o primeiro habilitado com o curso das antigas escolas industriais e o segundo médico de formação). Idêntico princípio pode ser aplicado no domínio do futebol: “nasce-se” predestinado para a prática de um futebol de eleição (Carlos Queirós, José Mourinho e Jesualdo Ferreira não passaram da mediania como praticantes), mas não se nasce treinador de futebol; e é esta confusão que tem e continua a alimentar os “mentideros” do futebol nacional. Mas esta discussão tem raízes profundas.

No mundo das actividades corporais da Grécia Antiga chega-nos a polémica entre práticos e teóricos. Segundo Galeno (célebre médico grego, tido como pai da medicina desportiva moderna), os treinadores troçavam das teorias dos professores de ginástica e dos médicos sob o pretexto de não se ter o direito de discutir sobre coisas desconhecidas quando se não tem a prática do ofício.

Escrevi na década de 60: “Severiano Correia, treinador e antigo jogador de futebol, defende este princípio quando subscreve, no jornal ‘A Bola’, parte da entrevista de Balmanya, então treinador do Bétis de Sevilha, e em que este ‘se mostrava sumamente surpreendido com o facto do Sporting, além de ter um treinador, também utilizar um preparador físico [julgo que se tratava do professor de Educação Física e treinador de atletismo de renome internacional Moniz Pereira, hoje doutor honoris causa pela Faculdade de Motricidade Humana], sistema que não compreendia, uma vez que o técnico deve ser o único responsável por toda a orientação da equipa’” (Tribuna, Lourenço Marques, 5.Março.64).

Reacendia-se, assim, uma polémica protagonizada novamente por treinadores e professores de Educação Física. Ao ler um dia nos jornais que numa reunião do Sindicato Nacional de Treinadores de Futebol fora levantada a questão da legitimidade dos professores de Educação Física orientarem a preparação técnico-táctica das equipas de futebol ( a preparação física era já então matéria de consenso), não pude deixar de tomar posição: “Claro que a partir desta premissa é pertinente a conclusão de considerar exercício ilegal de profissão o facto de um licenciado em Educação Física treinar uma equipa de futebol ”(Jornal Novo, 15.Janeiro.77).

Em artigo publicado no Jornal de Coimbra (28.Agosto.91), com o título “Futebol, uma ciência sem cientistas”, escrevi: “Contrariando os que defendem a vantagem dos antigos jogadores de futebol – agora treinadores – serem os seus teorizadores, evoco a evolução de outros domínios do Conhecimento que ao ascenderem ao estatuto de pré-ciência (ou mesmo ciência) impuseram uma formação académica superior aos seus agentes”.

Assim, numa fase que chamaria de empírica, o treinamento do futebol esteve entregue a práticos, antigos jogadores alguns apenas com cursos reduzidos de treinador de fim-de-semana, merecedores do nosso respeito porque cabouqueiros do actual futebol português e de que é da maior justiça destacar o nome de José Maria Pedroto, jogador e seleccionador da Selecção Nacional de Futebol e treinador do Futebol Clube do Porto na conquista do primeiro título europeu nacional. Numa fase pré-centífica apareceram os bacharéis (antigos instrutores de Educação Física) meios práticos, meios teóricos, vg., Henrique Calisto e Hernâni Gongalves. Na fase científica surgem os chamados teóricos (por vezes em sentido depreciativo), os licenciados em Educação Física Jesualdo Ferreira, Nelo Vingada, Norton de Matos, Carlos Peseiro, Carlos Queirós, José Mourinho, etc.

Está novamente o nome de Carlos Queirós nas páginas dos jornais justificando a opinião categorizada de Joseph Blatter, secretário-geral da FIFA, quando disse em título de entrevista que “Carlos Queirós e os seu jogadores praticam o verdadeiro…futebol do futuro” (A Bola, 23.Junho.91). Figo e Cristiano Ronaldo assim o vieram confirmar.

Em Portugal é tradição passar-se do oito ao oitenta, do mais negro pessimismo à mais cor-de-rosa esperança, do acorde dorido da guitarra portuguesa à alegria contagiante do Bailinho da Madeira. Seja como for, o messianismo é carga demasiado pesada para os frágeis ombros humanos, ainda que fortalecidos por valioso diploma académico e escorados em provas dadas entre as quatro linhas de dois campeonatos mundiais de futebol de sub-vinte e ao serviço do reputado Manchester United.

Razão teve Otto Glória a quem se atribui a frase (há quem a atribua a Cândido de Oliveira): “O treinador de futebol quando ganha é bestial, quando perde é uma besta!”. Não é a bola redonda e o futebol sujeito à sorte ou aos azares da fortuna? Seja como for, Carlos Queirós merece bem um voto de confiança a longo prazo pelo seu passado de grandeza. Como diz o ditado, “Roma e Pavia não se fizeram num dia”.

GRANDES ERROS: DIA FORA DO TEMPO


À minha caixa de correio vai parar todo o género de disparates. Agora chegou o anúncio do "Dia Fora do Tempo" (sic, é no próximo dia 25 de Julho, portanto não é fora do tempo) de uma tal Fundação Casa Indigo, em Lisboa:
"Estamos quase a concluir o ano do Mago Lunar Branco.

No dia 26 de Julho começará o ano da Tormenta Eléctrica Azul.

O dia 25 de Julho é o Dia Fora do Tempo, o qual temos previsto celebrar com grande entusiasmo e energia o processo evolutivo da humanidade.

É importante, pois, alinharmo-nos na Terra com o Sol e Sírio.

Multidões de pessoas em todo o mundo farão a Meditação da Ponte Arco-íris e se prepararão para o recebimento do novo ano galáctico, alinhando-se com a natureza e sua constante transformação, assim como com o seu verdadeiro ser.

É sem dúvida um momento de grande intensidade energética, e no qual os Seres de Luz trabalham para o bem da humanidade, e para nos alinharem com a harmonia do Universo.

É um dia em que se concentra toda a energia do ano, um dia de arte e cultura, porque TEMPO É ARTE...
Vem festejar connosco e une-te a nós na celebração do Novo Ano Galáctico: Tormenta Eléctrica Azul."
Quem será o responsável por tantos dislates? Indo ao sítio da referida Fundação, cliquei "Quem Somos" e encontro este perfil:

"Tereza Guerra, Kin 212: Humano Auto Existente Amarelo

Tereza Guerra é licenciada em Filosofia pela Universidade de Lisboa. Possui pós-graduações na área em Educação, Psicologia e Filosofia. Adquiriu o grau de Mestre em Ciências da Educação pela Faculdade de Ciências de Lisboa. Actualmente encontra-se a concluir a sua Tese de Doutoramento sobre o tema: Educação de Crianças Índigo.
A sua experiência profissional é de 22 anos no Ensino da Filosofia e também na Área da Formação de Professores. Há cerca de 28 anos que desenvolve e investiga sobre a Educação e Formação de Crianças e Jovens, com publicações nestas áreas. Nos últimos anos tem-se ocupado em desenvolver aptidões nas áreas da Psicologia Transpessoal, Método de Controlo da Mente, Desenvolvimento Consciencial e Pessoal, possuindo Mestrado em Reiki e Cura Quântica."

A acreditar nas habilitações e na experiência profissional, é de ficar preocupado, muito preocupado, com o ensino da filosofia e a formação de professores que se fazem entre nós.

Pickle Surprise


Esta é uma Veggie Tale a que cheguei via Pharyngula.

GrandPa John, na realidade John Clayton, devota-se neste e em outros vídeos a «demonstrar» cientificamente que «Deus existe e a Bíblia é a sua Palavra». Confesso que a electrocussão do pickle não me convenceu embora me tenha divertido tanto que resolvi procurar mais «provas». Achei especialmente delicioso o vídeo «Miracle Cures and Electric Fields» onde Clayton «mostra» que a calvície não pode ser curada com uma maquineta eléctrica e isso mostra que apenas a Bíblia é inerrante. O manual e a maquineta são obra de Noble Eberhart, que escreveu em 1911 um «Working Manual of High Frequency Currents». Como nota de ironia, Eberhart, com inúmeras «obras» publicadas, em campos tão diversos como ozonoterapia e fisioterapia, era filho de um clérigo e dirigia o departamento de Terapêutica Fisiológica na Universidade Loyola de Chicago, uma das 28 universidades jesuitas dos Estados Unidos.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

EU GOOGLO, TU GOOGLAS, ELE GOOGLA


Minha crónica no "Público" de hoje (na foto Larry Page e Sergey Brin, os fundadores da Google):

Sim, eu sei que o verbo não está no dicionário de português. Mas vai estar. Será dicionarizado em português, tal como já foi em inglês: to google entrou em 2006 no Oxford English Dictionary e no Merriam-Webster Collegiate Dictionary. Só não sei é se, com o acordo ortográfico, não vai ser grafado “guglar” e conjugado “eu guglo, tu guglas, ele gugla”. Espero que não, pois pareceria a voz de um perú.

A origem do termo é curiosa. Vem da palavra googol, que foi criada em 1938 por uma criança de oito anos quando o seu tio, matemático, lhe pediu para dar um nome ao número um seguido de cem zeros. A variante Google surgiu em 1998 quando um dos primeiros investidores num projecto de Larry Page e Sergey Brin, estudantes da Universidade de Stanford, na Califórnia, EUA, passou um cheque de cem mil dólares, por lapso, a Google Inc. Era mais fácil criar uma empresa com esse nome do que pedir a emissão de novo cheque (no burocrático Portugal, o cheque teria sido devolvido). A palavra googol era apropriada pois a nova empresa pretendia organizar a informação mundial tornando-a universalmente acessível e útil e o número de bits na Internet cresce desalmadamente, aproximando-se do googol...

A Google, que faz este ano dez anos, ao longo dos quais conheceu um crescimento vertiginoso, nasceu de uma ideia inovadora dos dois jovens: inventaram um algoritmo para classificar páginas da Net de acordo com os links para elas. Hoje quase não se pode viver sem a Google: não só se googla (o verbo surgiu pela primeira vez num “email” de Page na época do cheque: Have fun and keep googling) como também se enviam “emails” com o Gmail, se lêem “blogs” no Blogger, se vêem vídeos no You Tube, etc. O que era um mero exercício académico transformou-se de repente num negócio global. Os cem mil dólares foram um óptimo investimento.

Qual o papel das bibliotecas no mundo da informação dominado pela Internet e pelo Google? As bibliotecas de hoje e ainda mais as do futuro querem estar em todo o lado, à disposição de qualquer pessoa, a qualquer hora. Assim, não admira que algumas das melhores bibliotecas mundiais tenham assinado em 2006 um acordo com a Google para digitalizarem parte dos seus fundos históricos. É serviço público. Trata-se de colocar à disposição da humanidade o que é património da humanidade e espero que as instituições públicas não deixem essa tarefa apenas em mãos alheias.

Sobre o futuro das bibliotecas, Robert Darnton, director da Biblioteca da Universidade de Harvard, publicou em 12 de Junho de 2008 na The New York Review of Books um artigo com o qual me identifico:

Aumentem a biblioteca, encham-na de materiais impressos. Reforcem as salas de leitura. Mas não pensem que se trata de um armazém ou de um museu. Ao mesmo tempo que fornecem livros, a maioria das bibliotecas universitárias funcionam como centrais nervosas que emitem impulsos electrónicos. Adquirem bases de dados, mantêm repositórios digitais, dão acesso a jornais electrónicos e afinam sistemas de informação que chegam aos laboratórios e gabinetes. Muitas delas estão a partilhar a sua riqueza intelectual com o resto do mundo ao permitir que a Google digitalize as suas colecções impressas. Portanto, longa vida à Google, mas não contem que viva tanto que substitua o venerável edifício com as colunas coríntias. Como cidadela da aprendizagem e como plataforma de aventura na Internet, a biblioteca universitária merece ainda estar no centro do campus, preservando o passado e acumulando energia para o futuro.

Devo aqui fazer uma declaração de interesses: participei num acordo recente que a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra celebrou com a Google para tornar acessíveis através do “Google Pesquisa de Livros” muitas edições próprias daquela biblioteca, como por exemplo edições da Crónica de D. Manuel de Damião de Góis, as Rimas de Luís de Camões e as Obras Médicas de Pedro Hispano (único papa português, sob o nome de João XXI). Pode ser pequeno, mas é mais um passo para aumentar a presença da língua e da cultura portuguesa na Net.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

AS "CARTAS ITALIANAS" DE VERNEY


Luís António Verney (1713-1792), autor de “O Verdadeiro Método de Estudar” (Nápoles, 1746), nasceu em Lisboa e morreu em Roma. Estudou no Colégio de Santo Antão, em Lisboa (a cargo dos jesuítas), no Colégio da Congregação do Oratório em Lisboa (situado onde hoje fica o Ministério dos Negócios Estrangeiros) e na Universidade de Évora (também dos jesuítas). Formado em Artes em Évora parte para Roma em 1736, onde se vem a doutorar em Teologia e Jurisprudência. Depois de um curto regresso a Portugal e decerto insatisfeito com o ambiente intelectual que aqui se vivia fixa-se definitivamente em Roma, tornando-se um dos nomes cimeros da galeria dos “estrangeirados” do nosso século das luzes. As suas ideias, muito críticas do pensamento jesuítico no qual em larga medida foi educado, contribuíram decerto para as grandes reformas educativas do tempo do Marquês de Pombal.

As suas “Cartas Italianas” não são muito conhecidas e merecem sê-lo mais. Foram transcritas do original manuscrito pelo Professor de Direito da Universidade de Coimbra Luís Cabral de Moncada e publicadas em “Um Iluminista Português do Século XVIII: Luiz António Verney” (Coimbra, Arménio Amado Editor, 1941). A tradução em português veio agora a lume na editora Sílabo com prefácio, tradução e notas de dois professores da Universidade do Minho, Ana Lúcia Curado (especialista em estudos clássicos e editora de “A Antiguidade e Nós. Herança e Identidade Cultural”, 2006) e Manuel Curado (especialista em ciências cognitivas, autor de “Luz Misteriosa: A Consciência no Mundo Físico”, 2007, “O Problema Duro da Consciência”, 2003, e “O Mito da Tradução Automática”, 2000, e editor de “Questões Actuais da Bioética”, 2008, “Porquê Deus se temos Ciência?”, 2008, “Mente, Self e Consciência”, 2007, e “Consciência e Cognição”, 2004). Trata-se de um acontecimento editorial, pois, conforme escrevem os tradutores, logo a abrir o prefácio: “O universo da cultura portuguesa é mais vasto do que o da língua portuguesa. Ao longo dos séculos, muitos autores lusos utilizaram outras línguas para se expressarem”. Como que a dar razão aos tradutores, acaba também de sair, num belo volume da Imprensa da Universidade de Coimbra, a “Metafísica” do mesmo Luís António Verney, com introdução e tradução do latim de Amândio Coxito e com fixação do texto latino por Sebastião Tavares de Pinho e Andria Patrício Seiça (número VI da “Portugaliae Monvmenta Neolatina”).

É um verdadeiro prazer ler as “Cartas Italianas” de Verney, tanto pelo seu conteúdo (que é aliás o mais variado, Verney discorre sobre os mais díspares assuntos) como, ou talvez sobretudo, pelo português escorreito em que estão escritas. Para o leitor confirmar o que acabo de dizer, transcrevo no "post" anterior (aqui) parte da Carta 2, onde Verney faz o “Diagnóstico cultural da vida intelectual dos portugueses”, que não nos é muito favorável. Como dizem os tradutores ainda no prefácio: “Não existem máquinas do tempo para voltar à Lisboa de Setecentos; o melhor que temos para compreender esse período são as descrições dos seus actores maiores”. E Verney é, de facto, mesmo não tendo cá estado muito tempo, um dos nossos actores maiores dessa tão interessante época. Verney, que recebeu ordens presbiterais e chegou a ser arcediago da Igreja de Évora, critica abertamente os autos de fé, então comuns, embora não chegando ao ponto de pedir o fim da Inquisição. É particularmente cáustico para com os jesuítas, incluindo um dos mais avançados, Inácio Monteiro, que tal como Verney emigrou para Itália (mas Ferrara em vez de Roma). Critica o modo de funcionamento da justiça em Portugal, o peso da Igreja Católica no Estado, a violência das praxes académicas, a necessidade de médicos nas zonas pobres do país, etc., assuntos que não terão perdido por completo a actualidade, passados dois séculos e meio.

Só em parte as ideias de Verney tiveram efeito entre nós. O epitáfio que Verney escreveu para si próprio fornece uma explicação teológica: “Deus não quis que eu iluminasse a nossa nação e eu me conformo com a Sua vontade”.

- Luís António Verney, “Cartas Italianas”, Edição de Ana Lúcia Curado e Manuel Curado, Edições Sílabo, Lisboa, 2008.

DIAGNÓSTICO CULTURAL DA VIDA INTELECTUAL DOS PORTUGUESES

Enviada de Roma com data de 1 de Janeiro de 1753, a carta II das “Cartas Italianas” do iluminista “estrangeirado” português Luís António Verney (1713-1792), autor de “O Verdadeiro Método de Estudar” (1746), tem o título de cima. Dirigida a um “Amigo do Coração”, que não se sabe quem é (o embaixador português em Roma?), Verney, em italiano com laivos de latim, criticar o baixo nível cultural dos portugueses, denunciando em particular a falta de progresso no estudo das ciências. Vale a pena ler um pequeno extracto, que espero abra apetite para o resto da edição que acaba de sair na Sílabo editada por Ana Lúcia Curado e Manuel Curado, professores da Universidade do Minho:

“Eu também concedo que os nossos têm um engenho muito belo e facilidade para as ciências, e muitos se aplicam e estudam muito. Concedo mais que muitos têm ânimo flexível para ouvirem as novidades literárias e julgam sem paixão ou preocupação. Que outros amam o bom gosto, etc. Mas tudo isto está muito longe da perfeição que tu lhe atribuis: e tão longe que medeiam muitas léguas. Onde aquela tua proposição, “A nossa nação tem e sempre teve sujeitos de grandes luzes em toda a matéria e que sabem dar às coisas o seu justo valor”, é falsa. E não menos falsa é estoutra: “Temos sujeitos, e não são poucos, que na Poesia, na Retórica e mais Belas Letras, e ainda Ciências, têm todo o bom gosto e aplicação. E aquilo que nos dão os nossos livros, dão os italianos e franceses que nos são bem familiares”. Se eu falasse contigo agora uma tarde nesta cidade, eu te mostraria evidentemente a falsidade desta proposição em todas as suas partes; mas por carta não é tão fácil. Contudo, direi alguma coisa.

Mas primeiro deves-me conceder três coisas sem as quais não me é possível que argumentemos com efeito me bom sucesso e sem dúvidas. 1. Que eu tenho muito mais notícia de livros e dos melhores autores do que tu tens, e talvez nenhum lá tenha. 2. Que ninguém pode julgar se os autores de uma nação são bons ou não sem conhecer perfeitamente o que fazem os autores das outras nações cultas porque da comparação de uns com outros é que se deve inferir se fazem bem ou mal. 3. Que os estudos de Belas Letras e Ciências florescem em grau perfeito nas nações estrangeiras, em “proporção reservada”, quero dizer, uns mais em umas regiões que outras. Se me negas estas três proposições, não estás capaz de argumentar comigo nestes pontos. Se mas concedes, facilmente te convencerei.

Primeiramente essa presunção que vocês lá têm de lerem com toda a familiaridade os autores franceses e italianos é falsa e sem o mínimo fundamento porque os autores que vocês lá conhecem são os dozinais. Os melhores não vão para lá, ou porque muitos são proibidos por alguma razões, ou porque todos os livreiros sabem de certo que lá não se compram, e se não compram os livros bons, como hão-de comprar os que são de língua estrangeira e não comuns? E é tão geral esta opinião entre os estrangeiros que nenhum livreiro se cansa em os mandar para lá, fundados no mau êxito que têm experimentado. E mil vezes tem sucedido que o revisor dominicano retém os livros por lhe parecer que são nocivos. E isto é público cá por fora. Onde neste particular estás totalmente enganado.

Vamos adiante e comecemos pelas Ciências. Que progresso têm feito os nossos (principalmente depois das Academias Régias que abriram os olhos ao mundo) nas Matemáticas? Que obra tem composto que mereça ler-se? Na Filosofia Moderna, que coisa têm feito mais do que ditar uma Filosofia Gassendiana, que traz o Tosca muito esfarrapada e que é a mesma que ensinam os Filipinos neste Reino? Lê as obras do padre João Baptista da Congregação, e verás uma misturada de Gassendiana com Peripatética que merece compaixão. Mostra-me lá os outros que tenham mais notícia senão do sistema de Descartes, ou Gassendi, que já tem ranço. E como poderão esses senhores saber o justo valor a uma obra de Filosofia Moderníssima, que é a Ecléctica, de que eles não têm a mínima ideia? Se a aprovam, é porque ouvem dizer que é boa, mas não porque têm princípios para julgar se o merece”.

- Luís António Verney, “Cartas Italianas”, Edição de Ana Lúcia Curado e Manuel Curado, Edições Sílabo, Lisboa, 2008.

Sobre a Natureza das Coisas


David Takayoshi Suzuki, jubilado em 2001 da Universidade de British Columbia, é sem dúvida o mais conhecido divulgador de ciência do Canadá. Suzuki escreveu 43 livros, alguns de divulgação científica para crianças, mas é sem dúvida a sua contribuição nos mass media que o tornaram recipiente de 22 doutoramentos honoris causa.

A sua extensa lista de contribuições para a divulgação de ciência nos meios de comunicação de grande audiência iniciou-se há quasi há quatro décadas com o programa semanal «Suzuki on Science». Em 1974, fundou o programa «Quirks and Quarks» que transmitido pela CBC Radio One de 1975 a 1979. Durante os anos setenta, foi o anfitrião do programa Science Magazine passando a apresentar a partir de 1979 o programa homónimo deste blog, The Nature of Things, uma série da CBC transmitida nas televisões de quase 50 países. Suzuki foi igualmente o anfitrião da série da PBS The Secret of Life. Os episódios da série de 1985 «A Planet for the Taking», foram vistos por quase dois milhões de telespectadores e mereceram-lhe uma medalha do programa ambiental das Nações Unidas. Em 1997 produziu para o Discovery Channel «Yellowstone to Yukon: The Wildlands Project».

Nas últimas três décadas, Suzuki tem concentrado os seus esforços de divulgação em questões ambientais e, concordando-se ou não com algumas das suas posições, pessoalmente não posso deixar de concordar com a reflexão que o cinquentário de graduação lhe mereceu, especialmente com os dois últimos parágrafos, que transcrevo.

«I began speaking out on television in 1962 because I was shocked by the lack of understanding of science at a time when science as applied by industry, medicine, and the military was having such a profound impact on our lives. I felt we needed more scientific understanding if we were to make informed decisions about the forces shaping our lives.

Today, thanks to computers and the Internet, and television, radio, and print media, we have access to more information than humanity has ever had. To my surprise, this access has not equipped us to make better decisions about such matters as climate change, peak oil, marine depletion, species extinction, and global pollution. That’s largely because we now have access to so much information that we can find support for any prejudice or opinion.

Don’t want to believe in evolution? No problem – you can find support for intelligent design and creationism in magazines, on websites, and in all kinds of books written by people with PhDs.

Want to believe aliens came to Earth and abducted people? It’s easy to find theories about how governments have covered up information on extraterrestrial aliens. Think human-induced climate change is junk science? Well, if you choose to read only certain national newspapers and magazines and listen only to certain popular commentators on television or radio, you’ll never have to change your mind.

And so it goes. The challenge today is that there is a huge volume of information out there, much of it biased or deliberately distorted. As I think about my grandson, his hopes and dreams and the immense issues my generation has bequeathed him, I realize what he and all young people need most are the tools of skepticism, critical thinking, the ability to assess the credibility of sources, and the humility to realize we all possess beliefs and values that must constantly be reexamined.

With those tools, his generation will certainly leave a better world to its children and grandchildren 50 years from now.»

UM CAMINHO CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO HUMANISTA?

Entenda-se este texto não como um elogio acrítico a uma nova escola de iniciativa privada, mas como uma reflexão acerca da estrutura curricu...