sexta-feira, 27 de junho de 2008

Ainda a falta de pontualidade


Há cerca de um ano o nosso leitor Augusto Küttner de Magalhães fez aqui uma oportuna intervenção sobre a "pontualidade ou a falta dela" (aqui). Como, passado um ano, o tema continua oportuno, publicamos novo texto dele sobre o mesmo assunto:

Torna-se angustiante continuarmos a ser um dos países que tem mais telemóveis “per capita”, que anda supostamente a pretender agarrar a modernidade e o progresso, e não sabermos ou não querermos aplicar as regras mais elementares de boa convivência entre cidadãos. A pontualidade, ou melhor a falta dela, é algo entre nós bastante assustador, sendo-o tanto mais que é usual muitas pessoas conhecidas continuarem a chegar sempre atrasadas onde quer que seja com a maior das naturalidades e até se dizer abertamente sobre algumas figuras públicas: "Ah! Com ele é sempre assim, é só esperar mais um bocadinho". Claro que de modo algum se trata de uma faceta exclusiva dessas pessoas (dado que entre elas algumas são exemplarmente cumpridoras e até chegam antes da hora marcada), é algo transversal a toda a nossa sociedade. Também para as pessoas comuns, cinco, quinze ou cinquenta minutos de atraso não constituem nenhum problema, bem pelo contrário são uma perfeita normalidade.

Não é, porém, possível comportar-mo-nos assim civilizadamente. Talvez se se continuarem a distribuir computadores portáteis como símbolo do vanguardismo, juntamente com os mesmos poderia ir um simples relógio, grande de preferência, porventura uma hora adiantado para melhor sincronizar os que ainda não atinaram que as horas são para ser cumpridas. Esta falta de pontualidade, para além do total desrespeito pelas normas de boa conduta e pelos seus cumpridores, implica o eterno "desenrasca" e o tudo "à última hora". Como sabemos, trata-se de fazer as coisas sem planeamento, sem procedimentos adequados, porque se foi o tempo para assim fazer e tudo tem de ser feito de qualquer maneira, em cima do joelho e em cima da hora, a ver se resulta. O pior é quando falha ou quando surge algum contratempo. Por vezes miraculosamente até resulta, mas o pior é quando se torna necessário repetir a "proeza" e, como foi tudo atamancado, nem se sabe bem como foi feito e a coisa poderá, se repetida, correr menos bem, mal ou até muito mal.

Está chegada a hora de aprendermos algumas regras de boa conduta em sociedade, nomeadamente respeitar os outros e sermos por estes respeitados. Das pessoas mais importantes às mais desconhecidas, sem diferenças de género, dos mais jovens aos mais idosos, é necessário mudar velhos hábitos entranhados: fazermos programas, cumprirmos horários, sermos exactos. Isso não depende de quem nos governa, depende de todos e de cada um de nós, da nossa prática nos procedimentos do nosso dia-a-dia. É uma questão de ficarmos mais e melhor sincronizados. Basta querer e já não era sem tempo.

Augusto Küttner de Magalhães (Porto)

McGinn e a psicofoda

Aqui...

Física e Jazz


Informação recebida do Departamento de Física da Universidade de Coimbra (no cartaz John Coltrane):

Jovens Físicos de todo país reúnem em Coimbra
Projecto "Quark!" Mostra as “insuspeitas relações entre a Física e o Jazz”

Qual a relação da Física com a música Jazz? E porque é que há tantos físicos a gostar de Jazz? O que é o "Live physics & jazz"? A comunidade “quarkiana” responde no próximo sábado, dia 28 de Junho, num encontro que reúne no Departamento de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) estudantes de todo o país, incluindo os Açores, amantes da Física, bem como professores e investigadores e, ainda o Jazz ao Centro Clube.

A iniciativa encerra as actividades deste ano lectivo da "Quark!" – Uma escola de excelência para estudantes dos 11º e 12º anos de escolaridade, provenientes de todo o país, combinando formação à distância e presencial e que tem como objectivos promover a Física junto dos jovens portugueses. Atribui particular ênfase em assuntos de natureza extracurricular, baseada em demonstrações e experiências realizadas pelos próprios alunos. Este projecto conta com o patrocínio da Agência Nacional Ciência Viva.

A "Quark!" resulta da escola Olímpica da Física, que surgiu há uma década no Departamento de Física da FCTUC para preparar as equipas de estudantes que representam Portugal na Olimpíada Internacional de Física e na Olimpíada Ibero-americana de Física.

Mais informações sobre o projecto/Escola Quark! aqui.

Sessão de encerramento da edição 2007/08 do projecto "Quark!"
Anfiteatro do R/C do Departamento de Física da FCTUC

21h30: Apresentação do projecto "Quark!" e sessão formal de encerramento com a presença do Presidente da FCTUC, João Gabriel Silva.

22h00 – 23h00: Palestra “Miles Davis – tradição e modernidade” por José Miguel Pereira do “JACC -Jazz ao Centro Clube” seguida de debate sobre o tema “As insuspeitas relações entre a Física e o Jazz” por José António Paixão, José Miguel Pereira e Inês Ochôa

23h00-23h30: Concerto com a banda jazz “FUSE” (a contrabaixista, Inês Ochôa, é aluna do curso de licenciatura em Física da FCTUC)

23h30-0h30: Sessão de observação astronómica no terraço do Departamento de Física (Joana Marques, Secção de Astronomia e Astrofísica da Associação Académica de Coimbra)

Todos os eventos são gratuitos e abertos a todos os interessados.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Exames fáceis?

Depoimento que prestei ao "Jornal de Leiria", que me perguntou se concordava que os exames estavam cada vez mais fáceis:

Os professores e os pais convergem na opinião de que há um esvaziamento dos exames nacionais. Quanto aos alunos, basta ver o que dizem na TV à saída das provas. Eu fui ver alguns exames deste ano e parece-me que alguém anda a brincar com o esforço de professores e alunos. Teme-se o pior: pelo caminho que as coisas levam, qualquer dia o exame de Portumática do 9º ano - uma só prova para ser mais fácil - será escrever a palavra "batata", dizer se é nome ou substantivo (a ver se sabe as TLEBS), contar o número total de letras dessa palavra e, finalmente, traçar uma circunferência à volta do resultado. Claro que vai ter a cotação toda um aluno que conte três, pois contou correctamente sílabas em vez de letras, e que desenhe um quadrado em vez de uma circunferência, pois também é uma figura geométrica. Seria cómico se não fosse trágico!

CHICAGO, 1933: UM CONTO AMERICANO


“Um século de progresso” era o mote da Exposição Mundial que em 1933 e 1934 esteve patente na cidade de Chicago, Estados Unidos. É nessa cidade e nessa altura que se passa a peça “Um Conto Americano – The Water Machine” do dramaturgo norte-americano, natural de Chicago, David Mamet, que agora está exibição no Teatro Nacional de D. Maria II, em Lisboa, com encenação de Maria Emília Correia.

O enredo da peça é muito simples e pode contar-se, para quem ainda não a viu, em poucas palavras: um jovem operário, Charles Lang, inventa um revolucionário motor a água (esse motor não existe, pelo que essa invenção não aconteceu), querendo patenteá-lo e, com os rendimentos, ir viver pacatamente para uma casa no campo com a irmã, mas dois advogados, representando interesses tão poderosos como obscuros, perseguem-nos furiosamente (isto não aconteceu, mas podia ter acontecido)... O azar do casal de irmãos é atribuído no final ao facto de o jovem ter interrompido uma carta em cadeia. Neste “conto americano” e ao contrário da maioria dos outros contos, o mal ganha ao bem, advindo esse resultado de uma fatalidade. A moral da história é muito pouco moral.

A Exposição Mundial de Chicago, que celebrava os progressos do início do século passado, está subjacente a todo o enredo, surgindo mesmo em cena com a ajuda de um guia do Pavilhão de Ciência, o “Hall of Science”, que, entre outras maravilhas, apresenta um “navio-foguete” que atravessa os ares. O guia louva efusivamente os benefícios da ciência, embora mencionando em paridade os malefícios: “Science is the greatest force for good and evil”. Os progressos do século são, afinal, os progressos da ciência, e num país e numa cidade dizimados pela Grande Depressão (que, começada em 1929, atingia por essa altura atingia o seu vale mais fundo), as novidades da ciência expostas na feira constituíam uma luz de esperança no futuro. E havia, de facto, algumas razões vindas da ciência para ter esperança: em 1933, reuniu-se em Bruxelas a 7ª Conferência Solvay de Física, com dezenas de actuais ou futuros prémios Nobel a discutir avanços promissores da física nuclear, e o Prémio Nobel da Física foi dado a dois talentosos jovens, o austríaco Erwin Schroedinger e o inglês Paul Dirac, que tinham ajudado a criar, poucoa anos antes, a teoria quântica, um ramo da Física que de facto mudou o mundo no século XX. Mas, por outro lado, foi nesse mesmo ano que Adolf Hitler subiu ao poder na Alemanha e que as suas ideias se começavam as espalhar, mesmo para além do Atlântico. Foi também o ano em que Franklin Roosevelt foi eleito Presidente dos Estados Unidos, tendo de enfrentar em primeiro lugar a Grande Depressão, com o “New Deal”, e depois o Terceiro Reich, com a entrada na guerra. Em Bruxelas estavam ainda unidos muitos físicos que a guerra mundial haveria de desunir (lembre-se a peça “Copenhaga” de Michael Frayn)

Apesar de a ciência parecer ter um papel central nesta peça, de facto a ciência é um pouco lateral à história. Para começar, o objecto de disputa – o motor a água - é tecnológico e não propriamente científico. Charles Lang faz um biscates na sua oficina e pouca ideia tem da ciência do seu tempo, numa altura em que a melhor tecnologia já se tinha de basear em conhecimentos científicos avançados. Fazia-se boa ciência nessa época, inclusivamente em Chicago, na Universidade de Chicago. E no “Hall of Science” distribuía-se mesmo um interessante “booklet” dedicado a divulgar as ciências básicas como a física e a química. Mas o rapaz era um inventor isolado, desligado dos círculos científicos e até da indústria mais avançada. O autor da peça assume a atitude um pouco “naif”, mas que ainda hoje está generalizada, de confusão entre ciência e tecnologia, entre conhecimento e aplicações práticas. Há que convir que, por vezes, a destrinça não é fácil, o que leva a situações nas quais o justo paga pelo pecador. Mas ela deve ser procurada, até porque a existência ainda hoje de numerosos inventores auto-didactas mostra que se pode buscar aplicações por tentativas avulsas sem ter afinal grandes conhecimentos sobre o mundo.

Mas há um outro argumento que serve para mostrar que a ciência, ao contrário do que acontece no chamado “teatro científico” (de que "Copenhaga" é exemplo), ligado de perto aos conceitos e às práticas das da ciência, é lateral à história: se substituirmos o pretenso motor a água por um mapa do tesouro ou por um tesouro qualquer, o enredo poderia ser exactamente o mesmo. Quer dizer, os mauzões dos advogados não perseguem o bom do rapaz por ele saber ciência demais ou poder vir a saber demais, mas simplesmente apenas porque ele se pode tornar rico – o tal sonho americano – prejudicando alguns dos ricos já existentes – que sabem como ninguém transformar os sonhos dos outros em pesadelos.

De qualquer modo, além de recriar bastante bem uma época histórica decisiva no século XX - a cenografia, usando toda uma parafernália de recursos, é excepcional – a versão de “Um Conto Americano” que está no Teatro Nacional conta de uma maneira sedutora uma história que, apesar de simples, pode ser vista de várias maneiras. Uma história que nos faz pensar. Confesso que, apesar disso, esperava mais da escrita de David Mamet, que não conhecia e tinha visto muito apregoada, mas em sua defesa há que dizer que a peça é do começo da sua carreira e que foi escrita originalmente para a rádio e não para o palco (o que resulta na telefonia pode não ser o que resulta num teatro, um problema que foi resolvido numa versão americana com a colocação de um estúdio radiofónico em palco). Um bom naipe de actores assegura uma boa representação, com Luís Gaspar e Paula Neves nos papéis principais de Charles e Rita Lang. Destaco uma grande senhora do teatro português, Lourdes Norberto, que faz um pequeno papel de uma emigrante polaca. A encenação vive da frequente mutação de cenários de cunho tecnológico, que não se poderá repetir noutro palco (chove mesmo a sério numa das cenas, pelo que a peça não é nenhuma seca!). O potencial espectador fará bem em ir ao Teatro Nacional porque um espectáculo desse tipo não se volta a fazer facilmente.

Uma palavra final sobre energias renováveis, um tema que é hoje mais actual do que nos anos 30. O motor a água da peça não é uma alternativa viável aos motores convencionais pela simples razão de ser fisicamente impossível. O dispositivo mais parecido é o motor a células de combustível que combinam oxigénio e hidrogénio para dar água (é um motor a água ao contrário). Mas remonta aos anos 30 a energia nuclear, uma das formas de energia que, embora não sendo renovável, tem ainda muito para dar a um planeta que é obrigada a diminuir o efeito de estufa. Em 1933 o casal Joliot-Curie fazia, em Paris, as primeiras experiências de radioactividade artificial, desencadeada por uma reacção nuclear. A energia nuclear começava então a ser uma hipótese plausível. Em 1939 era descoberta a cisão nuclear por Otto Hahn em Berlim. Onde foi construída a primeira pilha nuclear, baseada numa reacção em cadeia? Pois tal ocorreu em 1942, já durante a guerra, precisamente em Chicago, debaixo das bancadas de um estádio, por obra e graça de Enrico Fermi, um genial cientista italiano que estava na Conferência de Bruxelas e que, como muitos outros, foi obrigado a emigrar, demandando a América. Ele e os outros cientistas que emigraram, europeus ou americanos, esses sim, viveram, ao contrário de Charles Lang, o sonho americano (Albert Einstein também, emigrado para a América em 1933). E não houve cartas em cadeia que os tivessem impedido de vencer...

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Para que serve a avaliação?


Em comentário ao texto – Basta de exames fáceis, dizem eles!–, aqui publicado, interroga-se um leitor sobre qual será a finalidade de uma prova de avaliação.

Trata-se de uma excelente questão que, parecendo de resposta óbvia, tem desencadeado bastante discussão no campo da pedagogia.


Sendo o conceito de avaliação escolar muito amplo, restrinjo-me, neste texto, à avaliação que é feita ao desempenho dos alunos, através de testes, provas, ou exames, para verificar as suas aquisições académicas.

Mesmo sem entrar em deambulações históricas, devo referir que a avaliação - o modo de aferir se o que se pretende ensinar está a ser aprendido e em que medida o está - vem de tão longa data que se perde no tempo, mas foi a democratização da escolaridade que contribuiu para a sua formalização e lhe imputou muitas das regras pelas quais ainda hoje se rege.

O facto de muitos alunos passarem a acorrer às escolas requereu uma nova estratégia organizativa que assentava, essencialmente, em dois aspectos: (1) a sua distribuição por classes ou grupos homogéneos (a partir de critérios como a idade, o nível de conhecimento, o ritmo de aprendizagem) para rentabilizar o investimento feito no ensino e (2) o controlo regular das suas aquisições que permitia situá-los numa escala classificativa e, assim, decidir a sua passagem ou retenção em cada patamar. Este controlo poderia estender-se, ainda que indirectamente, aos professores, inferindo-se, pelos resultados dos alunos, a qualidade do desempenho docente.
Cedo se percebeu que tais resultados podiam indicar quem estava apto a exercer certas tarefas na sociedade, legitimando, assim, o surgimento de certificados.

É claro que, paralelamente, a esta dimensão estruturada e solene da avaliação, sempre existiu uma outra, mais espontânea e informal, destinada a acompanhar a evolução de cada aluno.

Nos anos vinte do século passado, três investigadores franceses – H. Pieron, Mme. Pieron e H. Laugier – resolveram estudar as provas a que os alunos eram sujeitos e perceberam que, do ponto de vista da confiança, deixavam muito a desejar. Efectivamente, identificaram discrepâncias importantes entre as classificações obtidas pelos alunos e as suas aptidões, nomeadamente as aptidões de ordem intelectual. Além disso, perceberam que se um professor corrigisse várias vezes a mesma prova atribuía pontuações diferentes, o mesmo acontecendo quando eram vários professores a corrigir a mesma prova. Os inúmeros estudos que se seguiram corroboraram estes dados e fizeram sobressair outros não menos inquietantes.

Perante tal cenário, surgiram duas atitudes opostas: uma, muito imbuída de ideologias alheias à pedagogia, acentuando a subjectividade, a aleatoriedade e, até, a perversidade das provas de avaliação, sustentava a sua redução ou, mesmo, eliminação; outra, continuando a sublinhar a importância das provas de avaliação na organização do ensino e da aprendizagem e, até, na motivação dos alunos, bem como a indispensabilidade da escola prestar informação acerca sua da valia à comunidade, concentrou-se no seu aperfeiçoamento.

De facto, esta última atitude, fez concentrar esforços que se traduziram na invenção de numerosos métodos e técnicas de planificação, realização e correcção de provas, evitando que nelas interferissem os factores parasitas que haviam sido identificados. Ainda assim, não se conseguiu, até ao momento, e possivelmente nunca se conseguirá, que os procedimentos avaliativos sejam absolutamente inquestionáveis, perfeitos. Isto não significa, contudo, que nos demitamos de avaliar, ou que avaliemos de qualquer maneira. Significa, isso sim, que devemos assumir a avaliação com as limitações e potencialidades que sabemos que tem.

Permito-me destacar uma das medidas mais interessantes que foram tomadas para aperfeiçoar a avaliação e, consequentemente, as provas de que se socorre: essa medida foi explicitar a sua serventia.

Em tal explicitação, muitos autores estão de acordo em lhe atribuir duas funções:
- a função pedagógica, que remete para o acompanhamento dos aprendizes, no sentido de apurar os conhecimentos e capacidades que têm à partida e como é que vão evoluindo, apoiando, assim, a regulação do ensino (trata-se da avaliação diagnóstica e formativa, na terminologia do famoso investigador Benjamin Bloom);
- a função social, que remete para o apuramento das aquisições que os aprendizes demonstram num determinado momento, como forma de validar decisões institucionais, como a transição no percurso escolar, a atribuição de diplomas, a selecção de candidatos. Além disso, constitui um indicador de qualidade no e do sistema de ensino (trata-se da avaliação sumativa, na terminologia desse investigador).

Estas funções podem afigurar-se antagónicas mas devem ser entendidas como complementares, ainda que distintas: a primeira tem como objectivo homogeneizar os alunos, acompanhá-los a par-e-passo para os conduzir às mesmas aquisições; a segunda tem como objectivo diferenciar os alunos, situá-los numa escala pré-convencionada.

Muitas vezes assiste-se ao elogio da primeira e à condenação da segunda. Quanto a isto é fundamental sublinhar que a sua relevância é equiparada, pois se a primeira informa sobre os processos de aprendizagem, a segunda informa sobre os produtos dela decorrentes.

A Quinta dos Animais

A Antígona acaba de anunciar uma nova tradução (de Paulo Faria) deste clássico cáustico de Orwell, que denuncia o tipo de manipulação política que hoje ainda é infelizmente corrente, e talvez até mais comum do que no seu tempo. Uma parte importante da manipulação política ocorre corrompendo a linguagem, o que se torna mais explícito no outro clássico de Orwell, Mil Novecentos e Oitenta e Quatro. Na selecção de ensaios que traduzi também para a Antígona, Por Que Escrevo e Outros Ensaios, escolhi alguns ensaios no qual Orwell explica lucidamente como ocorre a manipulação linguística, nomeadamente o muito estudado "A Política e a Língua Inglesa".

Ortografia e democracia

Na entrevista que o Miguel refere, o Gilberto Gil, actual ministro da cultura do Brasil, não compreende uma coisa óbvia: que os ajustes na língua são naturalmente feitos por quem a usa sem precisar de supervisão política. Isso acontece com a língua inglesa, que é muitíssimo mais importante do que a portuguesa no plano das ciências, da cultura, das artes, da tecnologia e da política.

O ministro é obviamente vítima da mentalidade antidemocrática, segundo a qual precisamos de comissões de sábios para supervisionar a língua, armados do Diário da República. Não precisamos disso. Precisamos apenas de implantar hábitos de discussão pública. De fazer como faz o Miguel no seu blog; de criar sites como o Ciberdúvidas; ou sites como a secção de linguística do Público.

Precisamos de cuidar todos da língua, mas não cuidaremos dela se o fizermos ditatorialmente, através de comissões de sábios, de Diário da República em punho. Pois se o fizermos, estaremos a matar o natural dinamismo da língua, a matar a sua democraticidade intrínseca; estaremos a imobilizar a língua e a dar a algumas pessoas um poder inusitado de impor a todas as outras pela força da lei as suas idiossincrasias.

Num processo genuinamente livre e democrático, manda na língua quem a usa, e não quem calha a estar armado do Diário da República.

Às vezes tenho a sensação de que não consigo realmente explicar esta diferença para mim óbvia. Vejamos: num país genuinamente democrático, como acontecem as coisas? As pessoas escrevem, discutem, pensam, articulam argumentos, procuram etimologias, etc.; algumas das opções serão mais adoptadas do que outras, acabando umas por ser consagradas em alguns dicionários, outras noutros. Isso fará subsistir por vezes alternativas, como “coisa” e “cousa” há uns anos ou, ainda hoje, “oiro” e “ouro”. Caso certos usos acabem por se impor, os dicionários acabarão por reflectir isso mesmo, passando a grafar certas ortografias como arcaicas. E é tudo mais orgânico, mais simples, mais democrático. E provavelmente melhor, dado que o processo de decisão foi gradual e resulta da própria prática das pessoas.

Caso este tipo de atitude existisse, poderíamos ter-nos livrado já do “p” de “óptimo”, que aparentemente faz imensa comichão aos autores do Acordo Ortográfico. Mas assim, com o Diário da República, tem o efeito oposto, porque já não estamos no tempo da outra senhora, em que apenas uma pequeníssima minoria da população usava a língua escrita.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Cérebro, Vida e Cultura


Seguindo-se ao seu 4º Encontro na Universidade de Coimbra e ao seu 5º Encontro na Universidade do Porto, o FORUM INTERNACIONAL DOS INVESTIGADORES PORTUGUESES, associação que reúne cientistas portugueses de todas as áreas espalhados pelo mundo, vai realizar de 18 a 20 de Dezembro próximo o seu 6º Encontro, no Instituto de Medicina Molecular da Universidade de Lisboa. O tema é "Cérebro, Vida e Cultura", encontrando-se aqui a página do Encontro, onde os interessados se poderão inscrever.

A Conjectura de Poincaré


Informação recebida da Sociedade Portuguesa de Matemática:

A LIVRARIA ESCOLAR EDITORA, a SOCIEDADE PORTUGUESA DE MATEMÁTICA e a GRADIVA têm o prazer de convidar V. Ex.ª a estar presente na sessão de lançamento do livro

A Conjectura de Poincaré de George G. Szpiro

que terá lugar no dia 24 de Junho de 2008, às 18h30m, na Livraria Escolar Editora da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Edifício C5, ao Campo Grande, em Lisboa.

A sessão contará com a presença do autor e a apresentação da obra estará a cargo de Jorge Buescu e João Pimentel Nunes.

Seguir-se-á uma sessão de autógrafos.

Basta de exames fáceis, dizem eles!


Nas entrevistas que se fazem aos alunos à saída dos exames nacionais, sejam elas para a televisão ou para os jornais, ressalta uma coisa surpreendente: a maioria, não arriscando escrever a esmagadora maioria, acha-os fáceis ou muito fáceis; e, mesmo, os que reconhecem não ter estudado ou ter estudado pouco, acham-nos acessíveis.

Este estranho "fenómeno" pode ter inúmeras explicações mais ou menos delirantes: uma é que, sem se darem conta, os jornalistas escolhem os alunos mais aplicados e conscientes; outra é que os alunos estudam muitíssimo e conseguem aceder a um grau de excelência que sustenta a confiança que evidenciam; outra é que o seu optimismo aumenta na mesma proporção do pessimismo dos professores…

Há outra explicação em que algumas associações de professores e especialistas teimam: os exames são, de facto, fáceis. Melhor: são cada vez mais fáceis. E porquê? Para se obterem resultados “agradáveis” e, assim, acreditarmos que a qualidade do nosso sistema de ensino melhora, quando, na verdade, piora. Eu própria, sempre que analiso um exame nacional, tendo a corroborá-la. Mas a tutela desmente-a sistematica e veementemente, alegando que provém de vozes suspeitas, que denotam má vontade, vozes que procuram uma conspiração onde reina a transparência. É certo que os argumentos de que a tutela se socorre não constam da docimologia (estranha palavra que significa estudo dos exames), mas admito que pode guiar-se por outra lógica, ainda que não vislumbre qual. Devo assinalar que este cenário não é exclusivo do nosso país, está bem identificado e caracterizado na literatura internacional.

O que eu de maneira alguma esperava e, certamente, a tutela também não, era que os próprios alunos adoptassem a última explicação que referi e, mais, dissessem "basta". Pelo que ouvi a vários entrevistados, não querem exames que defraudem as suas expectativas; querem exames que meçam o que efectivamente estudam.

Considerando que nos documentos macro-curriculares se frisa a importância de se atender às necessidades, motivações e interesses dos alunos, talvez seja legítimo concretizar esse propósito e rever a exigência dos exames nacionais, como eles, afinal, solicitam.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

NOVO SÍTIO DO MUSEU DA CIÊNCIA


Vale a pena visitar o sítio muito ampliado e melhorado do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, o museu recentemente distinguido com o prémio europeu de "museu de ciência e tecnologia do ano": aqui. A partir do dia 25 de Junho vai aqui estar o Museu Digital, o maior arquivo electrónico (mais de 19 000 peças) português de instrumentos científicos, história natural e etnografia, que inclui parte significativa do acervo histórico-científico da Universidade de Coimbra.

Bettina Brentano e a imagem corporal


Aqui no "De Rerum Natura" gostamos muito dos "posts" do Rui Baptista, que já se tornou um colaborador habitual. Aqui vai mais um, esperando que os leitores também gostem (na foto Bettina Brentano, que foi amiga de Goethe e de Beethoven):

A imagem corporal é o desenho que formamos na nossa mente do nosso próprio corpo”.

Shilder (1980)

O estudo sobre a imagem corporal é transversal a fronteiras da psiquiatria, da psicologia e de todo o conhecimento que ao corpo diga respeito até porque a preocupação exagerada com os actuais padrões do mundo da beleza feminina pode levar a distúrbios alimentares, como a anorexia nervosa ou a bulimia, que sem tratamento adequado, e em tempo devido, podem ter o desfecho trágico de uma morte anunciada.

Como docente, sempre que tinha que abordar esta temática com os meus alunos dava o seguinte e simples exemplo da distorção mental do corpo. Dizia eu, se repararem, as representantes do chamado belo sexo (e, porque não confessá-lo, alguns representantes do chamado sexo forte) quando recebem das mãos do fotógrafo o envelope que contém as suas fotografias, mesmo que favorecidas pelas luzes do estúdio, a primeira coisa que dizem ao vê-las é: “”Ai que mal que eu fiquei!”

Passado pouco tempo, há como que uma “habituação” entre a fotografia e “o desenho formado na mente do corpo” , e o fotografado reconhece não ter ficado tão mal quanto isso. Minha falecida mãe, tida como uma bonita mulher, a partir da idade de sexagenária só muito a contragosto se deixava fotografar sem que eu compreendesse o porquê da sua relutância. Hoje tenho como motivo possível o facto de a fotografia, em que se começava a notar o efeito da passagem dos anos, não corresponder já à imagem guardada da juventude.

Através de uma prosa que fui rebuscar entre os papéis que me merecem guarida, aproprio-me de um texto de rara beleza transcrito por João Bénard da Costa, homem de uma invejável e multifacetada cultura, da autoria da escritora alemã Bettina Brentano (1785-1859):

“Contava ela que no colégio em que andava não havia espelhos e, por isso, não fazia ideia como era. Até que um dia, tinha eu 13 anos, fiquei estarrecida quando, sentada com as minhas irmãs ao pé da minha avó, vi o grupo inteiro reflectido num espelho. Reconheci imediatamente todas, menos uma estranha rapariga com olhos de fogo, muito corada e com umas grandes tranças pretas. Nunca a tinha visto, mas fui logo atraída para ela. Em sonhos já tinha amado uma pessoa parecida com aquela. E havia qualquer coisa na expressão dela que me comoveu tanto que os meus olhos se encheram de lágrimas. E disse de mim para mim que tinha de seguir aquela criatura, prometer-lhe fidelidade e confiança. Se lhe fizer um sinal, sei que ela responde. Se me levantar, ela virá ter comigo. Nesse momento sorrimos as duas. Só nessa altura tive a certeza que, no espelho, tinha visto a minha própria imagem” (“Os filmes da nossa vida”, O Independente, 14 de Outubro de 1994; estes textos foram reeditados em livro).

Em jeito de remate certeiro, João Bénard da Costa deixa-nos a seguinte e valiosa análise: “Há quem interprete este passo como manifestação de narcisismo. Nada disso. Do que se trata é de espelhismos: fidelidade à imagem própria, como primeiro preceito corroborativo da verdade, da vida, da beleza e do amor”.

A leitura deste breve texto autobiográfico de Bettina Brentano prova-nos que uma boa peça literária pode cativar e perdurar mais do que a leitura de enfadonhas páginas de tratados sobre temas de natureza científica, mesmo para as pessoas que a eles se dedicam profissionalmente. Haverá uma outra maneira de definir a imagem corporal de uma forma tão intensa, tão duradoura e tão bela como esta?

domingo, 22 de junho de 2008

O valor do Montagnana de Suggia


"A melhor maneira de o conservar é tocá-lo (…). É muito especial pelo valor que tem e pela antiguidade, por ter pertencido a Guilhermina Suggia, possivelmente a primeira grande figura da música erudita portuguesa com grande projecção no mundo (…). Tem sido uma semana bastante esquisita, porque é uma oportunidade única de tocar um instrumento como este."

Bruno Borralhinho

“Eu, Guilhermina Augusta Xavier de Medim Suggia Carteado Mena, viúva, violoncelista, residente na Rua da Alegria, número seiscentos e sessenta e cinco, desta cidade do Porto, encontrando-me no uso pleno das minhas faculdades e livre de qualquer coacção, faço por este meio e meu testamento e disposições de última vontade, para que se cumpram e respeitem tais como passo e enunciar:
- O meu violoncelo Stradivarius juntamente com dois arcos, um Tourte e outro Voirin, que se encontram na posse da Embaixada Inglesa em Lisboa, será enviado pelo nosso Embaixador à casa Hills de Londres, a fim de ser por ela adquirido ou vendido pelo melhor preço que se obtenha e o seu produto entregue à Royal Academy of Music, que o aplicará, segundo o melhor critério, por forma que o rendimento daí obtido se destine à criação de um prémio denominado Guilhermina Suggia, a atribuir, anualmente, ao melhor aluno de violoncelo.
- Possuo outro violoncelo, Montagnana, que igualmente será vendido pelo melhor preço, quantia essa que lego ao Conservatório de Música do Porto – através da Câmara Municipal do Porto, se o dito Conservatório continuar a pertencer-lhe, ou do Estado, se porventura ele passar a ser nacional – a fim de, com o rendimento deste legado, se instituir, também, um prémio designado Guilhermina Suggia, a atribuir, em cada ano, ao melhor aluno de violoncelo do referido Conservatório (…).
Lego, ainda, ao mesmo Conservatório, a minha biblioteca musical – material de orquestra e literatura de violoncelo -, objectos esses a que será dada instalação condigna, para que, dessa forma, o culto, que eu toda a minha vida dediquei à arte musical, perdure e sirva de incentivo a todos – Mestres e Discípulos – que à Arte se dedicam.
- O meu violoncelo Lockey Hill lego-o ao Conservatório Nacional de Lisboa, como homenagem a meu pai, que foi aluno desse Conservatório (…).

Neste extracto do testamento da grande violoncelista Guilhermina Suggia (1885-1950), percebe-se claramente a preocupação em deixar uma herança a Inglaterra e Portugal – segundo dizia, as suas duas Pátrias – que viesse a constituir um incentivo ao estudo da música e à interpretação musical.

Ao que se sabe, Inglaterra aproveitou bem e de imediato a sua quota da herança, criando quase de imediato uma bolsa de estudo que já foi atribuída pela Royal Academy of Music a dezenas de jovens violoncelistas; Portugal demorou mais a compreender a importância e extensão do legado. Assim, a preciosidade, com mais de três séculos, que é o Montagnana, um dos violoncelos preferidos de Suggia, que a acompanhou pelo mundo fora, esteve até 2004 guardada e quase esquecida a embolorecer na cave da Câmara Municipal do Porto e, depois, num cofre-forte do Museu Soares dos Reis. A autarquia deixou-o sair em 2005 para ser exposto no Museu Romântico. Nesse ano foi tocado em vários concertos no Norte, por José Augusto Pereira de Sousa, Prémio Guilhermina Suggia de 1986, que também gravou o seu som em CD.

Finalmente, neste mês de Junho, pela primeira vez depois da morte de Suggia, numa co-organização Antena 2 e Centro Cultural de Belém, voltou à capital, para ser se tornar o centro das atenções em dois recitais da integral das suites para violoncelo solo de J. S. Bach, que, ao que se diz, ela interpretava magistralmente. O responsável pela iniciativa foi Bruno Borralhinho, que é membro da orquestra alemã Dresdner Philharmonie e do agrupamento Ensemble Mediterrain.

Este acontecimento, bastante noticiado, tem uma particularidade que passou despercebida e que aqui destaco por entender que constitui o cerne da própria Educação: o jovem Borralhinho pediu à Câmara do Porto autorização para usar o violoncelo de Suggia justificando que “a melhor maneira de o conservar é tocá-lo”. É verdade isto que ele disse: o conhecimento seja em que área for – artística, científica, filosófica… – é um bem muito frágil, mais frágil talvez do que a matéria de que o Montagnana é feito. A sua preservação e ampliação depende do valor que lhe atribuímos, sendo que essa atribuição precisa de ser ensinada e aprendida. Desta maneira, transmitir, actualizar e recriar o conhecimento é uma tarefa inacabada, que tem de ser constantemente retomada; de outro modo extingue-se.

Mais do que os três milhões de euros em que está avaliado, o violoncelo de excelente fabrico italiano, tem a sua valia no que representa para as pessoas que apreciam música e, em última instância, para o conhecimento. São essas pessoas que, como Bruno Borralhinho, têm responsabilidade de manter o conhecimento à luz do dia.

Imagens:
- Portrait of Madame Suggia, retrato a óleo datado de 1923, da autoria de August John, da Tate Gallery, em Londres in http://www.suggia.weblog.com.pt
- Fotografia de Nuno Borralhinho in http://www.suggia.weblog.com.pt

Documentos consultados:

- http://sol.sapo.pt/blogs/luardeagosto/archive/2008/06/08/Suggia_2E002E002E00_-a-violoncelista_2100_.aspx
- http://www.suggia.weblog.com.pt

GRANDES ERROS - INDIANA JONES E A BOMBA ATÓMICA



No filme "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal" Indiana Jones (Harrison Ford) depara com uma cidade fantasma no deserto. Em breve se apercebe que está no sítio errado à hora errada. Trata-se de um sítio de teste de bombas nucleares (o filme passa-se em 1957, no tempo da guerra fria) e a explosão vai dar-se dentro de poucos segundos... Como se vai salvar o arqueólogo para nos garantir o resto do filme? Pois mete-se dentro de um frigorífico revestido a chumbo. O aparelho é ejectado com a explosão mas Indiana Jones sai de lá são e salvo para ver o cogumelo atómico.

Spielberg e Lucas são mestres do cinema e muita gente achará a cena verosímil. Mas não é. O local existe mesmo e funcionou para explosões experimentais: é um sítio de testes nucleares no Nevada, não muito longe de Las Vegas (cerca de 100 km a norte da famosa "Strip" de Las Vegas). Trata-se talvez do sítio mais bombardeado do mundo: de 1951 até 1992, quando um tratado baniu os testes deste tipo, realizaram-se ali quase mil explosões, as primeiras aéreas e da partir de 1962 subterrâneas.

Mas o resto está errado, completamente errado. Não se pode escapar do centro de uma explosão nuclear dentro de um frigorífico ainda que blindado. O chumbo poderia atenuar os efeitos das radiações, mas é um bom condutor térmico. A temperatura atingida na explosão não dá qualquer hipótese a quem esteja lá dentro. Mas há mais coisas erradas: por exemplo, o frigorífico revestido a chumbo é muito pesado e a sua inércia impede que ele seja projectado à frente da onda de choque. Este tipo de erros (com importância física, mas sem nenhuma importância cinematográfica) faz-me lembrar um manual de defesa civil do território português dos anos 60 que dizia o que fazer a quem se encontrasse perto do local da explosão. O manual mandava agachar no chão, mas não falava no frigorífico...

Continua a brincar!


Em 11 de Maio passado fez 90 anos que nasceu e em 15 de Fevereiro passado fez 20 anos que morreu. Falo do físico norte-americano Richard Feynman que na foto está a tocar bongo (aprendeu no Brasil). Em sua homenagem recupero uma minha recensão de um livro seu, "Uma tarde com o Sr. Feynman", que foi publicada no "Público" em 1992 e que republicada aqui fica à mercê dos motores de busca:

O físico Richard Feynman é uma espécie de herói dos estudantes e cientistas mais jovens. A Gradiva é a responsável entre nós por esse fenómeno de mediatização de um físico claramente acima da média, tanto no talento como na excentricidade. Conseguiu-o com os dois volumes auto-biográficos “Está a brincar Sr. Feynman” e “Nem sempre a brincar Sr. Feynman”, prosseguindo agora a apresentação do interessantíssimo personagem com uma pequena colectânea de duas conferências e duas entrevistas.

A primeira palestra é uma reflexão sobre o “Que é a ciência” feita perante uma audiência da Associação Americana de Professores de Ciências. Trata-se de um discurso muito pessoal, descontraído, divertido mesmo, sobre a ciência e o seu ensino. É Feynman “himself”, no seu melhor. Um cientista que se interroga sobre o que é a ciência fica tão atrapalhado como a centopeia de um poema infantil:

“Uma centopeia vivia feliz
até que um dia um sapo lhe disse, a brincar:
Com tantos pés, nunca te enganas, meu petiz?
Cheia de dúvidas de tanto pensar
caiu distraída numa vala
sem saber como marchar”.


Mas acaba, humildemente, por chegar a uma definição:

A ciência é a crença na ignorância dos peritos”.

A segunda palestra é solene e formal, pelo menos tanto quanto o autor consegue. Trata-se do discurso de aceitação do Prémio Nobel que, apesar de recheado de alguns pormenores técnicos, permite traçar a rota sinuosa de uma descoberta científica, terminando de uma forma comovente:

“Que aconteceu à velha teoria de que me enamorei na minha juventude? Bem, direi que se tornou uma velha dama, muito menos atraente, e, consequentemente, os jovens de hoje, ao vê-la, não estão dispostos a lutar pelo coração dela. Mas posso fazer aqui o melhor elogio que merece uma velha senhora: foi uma boa mãe, que deu a luz algumas belas crianças.”

A primeira entrevista é transcrita da revista “Engineering and Science” do California Institute of Technology. Tem o fascínio do discurso directo de um improvisador nato. A certa altura, quando Feynman defendia, de improviso, que nada se aprende com escritores ou artistas, emenda de repente a mão e diz, sem snobismo:

“Espere, retiro tudo o que acabo de dizer (...) Existem homens em todos os campos com quem consigo falar tão bem como com qualquer cientista”.

A entrevista final, que aparece depois de um poema de Feynman (muito mau; o grande físico fazia poemas maus e pintava quadros péssimos; com a arte dele nenhum artista aprenderia muito!), foi feita pela revista norte-americana de ciência e ficção científica “Omni”, pertencendo a uma excelente série de entrevistas que aquele magazine tem realizado.

Os quatro textos são leituras indispensáveis a feynmanianos convictos, a todos aqueles que gostariam de subscrever o pano erguido pelos seus estudantes diante do hospital onde Feynman morria de cancro: “Dick, we love you!

Feynman morreu mas as aventuras dele continuam em livro. Uma obra do seu amigo Ralph Leighton ainda não publicada entre nós, “Tuva or Bust” (Addison-Wesley, 1991) conta uma viagem de Feynman que nunca se chegou a realizar, a um pais ignoto da Ásia Central. A república de Tuva, independente entre as duas guerras e anexada pela União Soviética, distingue-se apenas por ser o centro geométrico da Ásia, ter impresso bonitos selos de correio em losango e possuir uma capital com um nome formado só por consoantes. Feynman aprendeu “tuvês”, a língua de Tuva, tentou por todos os meios ao alcance de um cidadão anónimo ir a esse canto dos confins do mundo, chegou a fundar a Liga dos Amigos de Tuva mas, entretanto, foi obrigado a despedir-se de uma vida intensamente vivida sem ter concretizado os seus planos de viagem. Feynmanianos: havemos de combinar uma excursão a Tuva!

Título: "Uma tarde com o Sr. Feynman"
Autor: Richard Feynman. Introdução, apresentação, notas e tradução de A. M. Nunes dos Santos e C. Auretta
Editor: Gradiva, 1992.

sábado, 21 de junho de 2008

TOP TEN DOS POSTS MAIS COMENTADOS DO “DE RERUM NATURA”

Já ultrapassámos os 1500 “posts”. O “top ten” dos mais comentados (onde o tema da ciência e religião predomina) é o seguinte:

1- Criacionismo = Desonestidade Intelectual
Palmira Silva, 1/10/2007, 148 comentários

2- Sagan à Procura de Deus
Carlos Fiolhais, 3/10/2007, 138 comentários

3- Os espantalhos criacionistas
Palmira Silva, 30/10/2007, 138 comentários

4- Ciência e Religião em Roma
Palmira Silva, 16/1/2008, 119 comentários

5- Pensamento crítico
Ludwig Krippahl, 10/12/2007, 116 comentários

6- Ciência e Banha da Cobra
Desidério Murcho, 29/3/2007, 113 comentários

7- Porquê Deus se tenho a ciência? II
Alfredo Dinis, 17/12/2007, 106 comentários

8- Religião à Portuguesa
Desidério Murcho, 29/11/2007, 95 comentários

9- Lógica e Falácia correlação-causalidade
Jorge Buescu, 23/4/2007, 89 comentários

10 - Porquê Deus se tenho a ciência? I
Alfredo Dinis, 16/12/2007, 87 comentários

sexta-feira, 20 de junho de 2008

GRANDES ERROS: FAZER PIPOCAS COM TELEMÓVEIS



Têm circulado pela Internet, com milhões de pessoas a ver, alguns vídeos como este que pretendem fazer crer que se pode fazer pipocas com telemóveis. Não pode porque é fisicamente impossível! Aliás, basta fazer a experiência: num jornal fizeram a experiência com todos os telemóveis da redacção e nem uma pipoca saltou. Não é apenas uma questão de falta de potência das microondas, é também o facto de as frequências das ondas usadas nas comunicações não serem as mesmas que as que servem para excitar moléculas de água num forno. Se a radiação dos telemóveis tivesse esse efeito nem sequer poderíamos agarrar neles. O físico norte-americano Louis Bloomfield, autor do best-seller "How Everything Works" sobre o funcionamento de aparelhos comuns, disse isto mesmo à revista "Wired" (aqui).

Qual é então o truque? Pode ser edição do vídeo ou, mais provável, a colocação de uma fonte de aquecimento debaixo da mesa. Vídeos deste tipo colocados no YouTube ao mesmo tempo por poucos utilizadores (anónimos) têm normalmente por trás uma campanha de publicidade. É também este o caso. Já se sabe que foi a companhia Cardosystems, que vende equipamentos de "bluetooth", a responsável pela campanha, pois ela própria o reconheceu (aqui). Dado o número de pessoas que acreditaram nesta patranha, eu diria que a empresa não foi responsável: foi completamente irresponsável!

ERRAR MUITO É DESUMANO


Minha crónica do "Público" de hoje:

Os exames nacionais aí estão de novo mas, infelizmente, a polémica com os maus enunciados também. Logo no primeiro exame, de Português do 12º ano, os alunos, os professores e as famílias ficaram baralhados com perguntas de escolha múltipla nas quais há ambiguidades. Este é um erro evidente na elaboração das provas: não é preciso ser especialista para se saber que uma prova deve ser clara e permitir respostas claras. Que se há-de pensar quando professores experientes hesitam sobre a resposta a dar e até acham que há mais do que uma alternativa aceitável? Já nem falo da TLEBS, a nova gramática que continua a ser usada em contradição com o prometido.

A avaliar pelos exames que têm saído nos últimos anos seria, de facto, uma surpresa que este ano não houvesse provas mal feitas. No ano passado, o Director do Gabinete de Avaliação Educativa (GAVE) do Ministério da Educação reconheceu culpas nos erros nas provas de Física e de Biologia, tendo os alunos sido compensados com a majoração do que fizeram nos itens restantes. Mas o responsável do GAVE, apesar de ter dado a mão à palmatória, continua no mesmo lugar e não se percebe, a avaliar pela primeira amostra deste ano, que os serviços que dirige tenham aprendido a lição. As correcções da prova de Português não saíram logo no final do exame, para esclarecimento e tranquilidade de todos. A Associação de Professores de Português não terá podido divulgar as suas correcções a tempo. E o inefável assessor de imprensa do Ministério, que é especialista em justificar o injustificável, não foi capaz de dar mais do que uma desculpa esfarrapada para o insólito atraso de dez horas.

Há também erros jurídicos associados aos exames. Lembro que, em 2006, os resultados nas provas de Física e Química do 12º ano levaram o Ministério a conceder, à margem da lei, novas oportunidades a um subconjunto de alunos. Que isso foi ilegal ficou claro, embora com insuportável atraso, dos acórdãos do Supremo Tribunal Administrativo e do Tribunal Constitucional. Muito me admira que o Ministério da Educação não tenha ainda reconhecido o erro crasso que cometeu ao violar a lei maior do país e recompensado os prejudicados. Errar é humano. Mas errar muito é desumano.

Em matéria de exames, há dois aspectos globais que são bem mais relevantes do que erros pontuais nas provas. Em primeiro lugar, toda a gente, excepto o GAVE, percebe que os exames estão, em geral, cada vez mais fáceis. Quem não sabe nada de nada pode sempre tentar a sua sorte em mal alinhavadas questões de “cruzinhas”, não precisando sequer de saber escrever. Este caminho para o abismo da ignorância tem sido denunciado por muita gente. Ainda recentemente a Sociedade Portuguesa de Matemática apontou o dedo ao facilitismo patente nas provas de aferição no básico. Mas o Presidente do GAVE, num insulto à inteligência, retorquiu dizendo que não existiam “perguntas demasiado elementares, mas sim de dificuldade diferente”. O que fazer a não ser, talvez, dar uma gargalhada?

O segundo aspecto é tão grave como o primeiro (apetece o trocadilho “tão GAVE”). Trata-se da linguagem tanto das provas como das “propostas” de correcção oficiais. É uma enormidade linguística e educativa que, num exame do 12º ano de Português, apareça uma frase como: “Para responder, escreva, na folha de respostas, o número do item, o número identificativo de cada elemento da coluna A e a letra identificativa do único elemento da coluna B que lhe corresponde”. Isto não é um exame sério do domínio da língua, é uma charada. Como fiquei sem saber para que serve este tipo de exames, fui ao sítio do GAVE: “Os exames nacionais são instrumentos de avaliação sumativa externa no Ensino Secundário. Enquadram-se num processo que contribui para a certificação das aprendizagens e competências adquiridas pelos alunos e, paralelamente, revelam-se instrumentos de enorme valia para a regulação das práticas educativas, no sentido da garantia de uma melhoria sustentada das aprendizagens.” Fiquei na mesma. Alguém me decifra o arrazoado?

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Elogio a Sócrates

"Meta-se com gente do seu tamanho e haja respeitinho por quem não tem nem idade, nem percurso profissional, nem posição social para gastar mais cera com tão ruim defunta." Era assim, sem mais nem menos, que João Bénard da Costa (na foto ao lado), Director da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema, terminava ontem o seu artigo no "Público" no qual reagia à despudorada atitude da ex-Ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, de vir criticar publicamente um seu subordinado hierárquico depois de este já não o ser, quando antes esteve muda e queda. Eu sei que a tentação para a auto-desculpabilização é muito grande, mas devia haver um período de nojo para ex-governantes, durante o qual se inibissem de se pronunciar sobre pessoas e "dossiers" que tutelaram.

Com tantas dificuldades, externas e internas, que o Primeiro Ministro José Sócrates tem tido, é altura de lhe dar uma palavra de conforto, de lhe fazer um justo elogio. Está finalmente à vista para todos que fez muito bem em substituir há alguns meses a anterior Ministra. As remodelações ministeriais são mesmo para se fazer quando é preciso!

Lembram-se do descalabro que foi para o erário público a exposição "espampanante" dos czares russos que esteve no Palácio da Ajuda (escrevi sobre o assunto em Ajuda à Rússia)? Pois leio no "Público" de hoje que o acordo com a Rússia a este respeito está já a ser desfeito pelo novo Ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, cuja atitude no caso da cinemateca no Porto também foi exemplar. Vamos ver agora como enfrenta as questões pendentes do património, tanto material como imaterial (por exemplo a digitalização das nossas bibliotecas históricas). O país não será nunca rico se não tratar bem as riquezas que o passado lhe legou.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Calendário do Google

Informação recebida do Observatório Astronómico de Lisboa:

É um utilizador habitual do Google? Usa todos os dias o Calendário do Google? Foi a pensar em si que o Observatório Astronómico de Lisboa decidiu disponibilizar, através de um Calendário do Google de acesso público, alguns dos dados constantes do Almanaque
(http://www.oal.ul.pt/index.php?link=almanaques ),
que é publicado anualmente em papel e neste site.

Neste momento está disponível a lista de Fenómenos Astronómicos que pode consultar na nova página de "Efemérides" (http://www.oal.ul.pt/index.php?link=efem )
e adicionar ao seu calendário do Google clicando simplesmente no botão que diz
"+Google Calendário".

Livros de Junho na Gradiva


Informação recebida da Gradiva:

George Steiner
Os Livros Que Não Escrevi

Poucos meses após o lançamento nos EUA, o novo livro de Steiner é uma confissão magistral de grande desassombro e ousadia. Steiner apresenta sete livros que gostaria de ter escrito e não escreveu, porque — admite — a emoção, a indiscrição ou a envergadura do projecto o impossibilitou de o fazer. Expondo-se com esta sinceridade desarmante, acompanhada da sua enorme erudição e clareza de raciocínio de sempre, revela uma outra faceta de si, não cessando de nos surpreender. Um livro portentoso.

«Obras de George Steiner», nº 6, 308 pp.

David Bodanis
O Universo Eléctrico - A verdadeira e surpreendente história da electricidade

Prémio Aventis para o melhor livro de ciência de 2006

Do autor de E=mc2, um relato fascinante do modo como as maravilhas da electricidade transformaram o mundo. Das águas gélidas do Atlântico às ruas de Hamburgo durante o bombardeamento na Segunda Guerra Mundial, e daí ao interior do corpo humano, uma inesquecível viagem de descoberta com um dos grandes divulgadores da ciência.

«Ciência Aberta», nº 172, 340 pp.

NOTÍCIAS GRADIVA

Filipe Duarte Santos na Springer Verlag

Direitos de tradução da obra Que Futuro - Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento e Ambiente em língua inglesa adquiridos pela grande editora de ciência mundial.

Em Julho Massa Crítica - O modo como uma coisa conduz a outra de Philip Ball. Prémio Aventis para o melhor livro de ciência

Filosofia e história da ciência no século XX


Informação recebida da Biblioteca Pública de Évora:

Lançamento do livro: "Filosofia e História da Ciência em Portugal no século XX" de Augusto Fitas, Marcial Rodrigues e Maria de Fátima Nunes.

Dia 19 de Junho de 2008, pelas 18 horas, na Biblioteca Pública de Évora.

A apresentação do livro, edição da Editora Caleidoscópio, estará a cargo do Prof. Doutor Pedro Calafate.

Contactos:
Caleidoscópio - Edição e Artes Gráficas
Rua de Estrasburgo, n.º 26 - R/C Dto.
2605-756 Casal de Cambra
Tel.: 219 817 960 Fax: 219 817 955
www.caleidoscopio.pt

Avenida Mira Fernandes em Mértola



Informação recebida da Câmara Municipal de Mértola

Dois novos livros na colecção "Ciência a Brincar"


Informação recebida da Bizâncio:

Título: Ciência a Brincar 8
Subtítulo: Descobre o Património!
Autores: Constança Providência e Carlos Fiolhais
Colecção: Ciência a Brincar
Ciência / Infanto-Juvenil

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«Através das várias questões e experiências expostas neste livro esperamos que as crianças percebam porque é que os carros fazem mal às florestas e aos monumentos, o que é a humidade e porque é tão importante controlá-la, como é que as forças naturais conseguem destruir o nosso património (a força da água que entra em fissuras e congela, ou a força dos sais que estragam paredes, ou a força das sementes, que germinam nas paredes ou nos telhados, ou a enorme força da Terra quando treme), porque ouvimos os ruídos do andar de cima e como eles poderiam ser reduzidos, porque se pintam de branco as casas no sul do nosso país, que luz entra através de um vitral, como são iluminadas as salas de aula ou ainda as simetrias dos azulejos nalguns dos nossos monumentos."



Título: Ciência a Brincar 9
Subtítulo: Descobre a Vida!
Autores: Sofia Araújo, Sónia Martins e Ana Godinho
Colecção: Ciência a Brincar
Ciência / Infanto-juvenil

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"A vida parece um fenómeno misterioso, mas a ciência conseguiu decifrar grande parte do mistério. Hoje sabemos que todos os seres vivos, plantas ou animais, têm nas suas células, uma molécula muito fina e comprida que se chama ADN. Este volume abre as portas à ciência da vida. As crianças a partir dos cinco anos poderão descobrir a vida, dos organismos mais pequenos e mais simples aos mais complicados, realizando as experiências que as biólogas Sofia Araújo, Sónia Martins e Ana Godinho propõem. Elas sabem o que é a vida e sabem transmitir bem o seu saber. Essas experiências permitem responder a questões como: «Os micróbios comem?», «As minhocas têm nariz?» e «Consegue ver-se o ADN?». Para chegar às respostas é preciso observar uma banana a apodrecer, dar a cheirar verniz das unhas a uma minhoca e extrair o ADN do morango. O povo diz que «é de pequenino é que se torce o pepino»: com a ajuda deste livro os pequeninos até poderão torcer os pepinos para lhe tirar o ADN... «Ciência a Brincar» internacionalizou-se. As experiências deste livro foram realizadas em escolas do Porto e de Edimburgo. A vida é a mesma em todo o lado. E a descoberta da vida é igualmente excitante em todo o lado. Quem não acredita, faça o favor de experimentar!"

Avaliação dos resultados das provas de aferição 1º e 2º ciclos - Matemática

Transcrevo informação que recebi da Sociedade Portuguesa de Matemática (declaração de interesses: sou sócio da SPM e concordo com o que é aqui dito):

"Os resultados hoje divulgados das provas de aferição do primeiro e segundo ciclos de Matemática podem parecer, à primeira vista, indicar uma melhoria no nível dos alunos de 2007 para 2008. Seria excelente que isso acontecesse. A forma como as provas são construídas, porém, faz com que os seus resultados não sejam comparáveis de ano para ano, não sendo portanto possível tirar conclusões definitivas com base apenas nestes últimos números.

A SPM tem ressaltado repetidamente a necessidade de se construírem provas fiáveis, isto é, com dificuldade e critérios semelhantes, de forma a se ter uma medida realista dos níveis alcançados pelos alunos e da evolução do sistema de ensino. Infelizmente, o Ministério não tem sabido, ou não tem querido, fazer testes comparáveis. Os critérios têm mudado, as durações das provas têm mudado, a dificuldade das questões tem também mudado.

Não é credível que as negativas tanto no 4º quanto no 6º ano tenham caído este ano para menos de metade, por os alunos terem melhorado extraordinariamente as suas capacidades matemáticas de um ano para o outro. Estas variações podem ser, afinal, uma indicação de haver um número exagerado de questões demasiado elementares, como de resto indicava o parecer da SPM sobre as provas de aferição, divulgado a 20 de Maio de 2008. Reiteramos, portanto, a avaliação feita nessa altura, e remetemos para o parecer, disponível no site da Sociedade: http://www.spm.pt/files/Afericao2008.pdf.

Ressaltamos ainda que, em testes com resultados comparáveis, como o Programme for International Student Assessment – PISA, os estudantes portugueses têm exactamente a mesma classificação: 466 pontos em 2003 e 466 pontos em 2006."

O Gabinete do Ensino Básico e Secundário

da Sociedade Portuguesa de Matemática

Ensaio sobre a cegueira acordista

Um artigo imperdível do tradutor João Roque Dias, "Afinal, Ensaio Sobre a Cegueira não é apenas um romance".

Mas faltou dizer o seguinte: o que provoca as imensas diferenças linguísticas entre Portugal e o Brasil (os restantes países de língua portuguesa seguem a norma portuguesa), diferenças que não são principalmente ortográficas, é o isolacionismo dos dois países. Portugal está-se nas tintas (uma expressão desconhecida no Brasil) para o Brasil, e vice-versa. Os livros não circulam, as ideias não circulam, os intelectuais não publicam nos dois países, os jornais não são lidos por uns e outros apesar de estarem disponíveis na Internet. Portugal não quer saber do Brasil e o Brasil não quer saber de Portugal. Esta é uma realidade má para ambos os países, mas nada há que os governantes possam fazer, e sobretudo não vão conseguir mudar isso com tolices ortográficas. Faz parte da mentalidade isolacionista dos dois povos.

O Brasil é um mercado imenso quase completamente fechado ao exterior. Às vezes dá-me a impressão que o mundo poderia acabar e nós no Brasil só saberíamos disso umas semanas depois, o que até é agradável (a imensa crise do petróleo, depois da crise prolongada provocada pela guerra do Iraque, que afecta os EUA e a União Europeia não afecta o Brasil, que se alimenta da sua produção petrolífera autónoma). O isolacionismo brasileiro até faz sentido: aqui, estamos entregues a nós mesmos e o resto do mundo não nos diz realmente respeito.

Mas no caso português o isolacionismo é pura e simplesmente risível. Mas está entranhado na mentalidade nacional. E é isso que explica as derivas linguísticas mais tolas, e nada poderá inverter esse estado de coisas excepto uma maior abertura de ambos os países à produção linguística uns dos outros. No caso da filosofia, estamos numa boa posição: como não se usa terminologia modernaça (mouse para rato, tela para monitor, etc.), não se notam muitas diferenças. E como a maior parte das diferenças estão no linguarejar informal, também não se nota em textos académicos de alta qualidade. Ao ler um texto brasileiro de filosofia de alta qualidade, só depois de alguns parágrafos nos apercebemos de que se trata da variante brasileira; e o mesmo acontece aos brasileiros quando lêem boa prosa filosófica portuguesa. O problema está na linguagem corrente, avacalhada até mais não no Brasil e em Portugal.

Ideias perigosas


No livro “Grandes Ideias Perigosas”, recentemente saído em Portugal, mais de uma centena de cientistas, desafiados pelo sítio “Edge” de John Brockman, o norte-americano “apóstolo da Terceira Cultura”, lançam outras ideias, tão ou mais perigosas do que as 23 ideias subjacentes às questões de Steven Pinker, por remarem de algum modo contra correntes maioritárias. Quer se concorde ou não com as respostas dadas, não há dúvida de que as questões são intelectualmente estimulantes. Pinker, além de ter redigido a Introdução, é um dos autores que apresentam as suas ideias perigosas favoritas. Trata-se no seu caso de uma generalização da questão 1: “Os grupos humanos podem diferir geneticamente nos seus talentos e temperamentos médios”.

Segundo ele, as diferenças entre géneros são “razoavelmente fortes”, ao passo que as diferenças raciais e étnicas “são-no bastante menos”. Lembro que 2005 o Reitor da Universidade de Harvard, Lawrence Summers, se viu obrigado a demitir-se por ter expresso, ainda que de forma suave, essa ideia. Apesar de Pinker e (poucos) outros o terem defendido, o clamor de indignação foi tremendo e talvez não tenha sido uma simples coincidência o facto de ter sido escolhida uma mulher para lhe suceder. A discussão foi muito ideológica e pouco científica. É sabido que estes assuntos têm uma incontornável carga ideológica. Mesmo assim não pude deixar de me admirar com a contestação feroz que o psiquiatra Pio de Abreu foi alvo por ter escrito, no seu livro “Quem nos Faz como Somos” (Dom Quixote, 2007), que os cérebros masculino e feminino são à partida diferentes. Pinker, que tem três dos seus livros traduzidos na Brasil e, salvo erro ou omissão, ainda nenhum traduzido em Portugal (a edição entre nós tem por vezes razões que a razão desconhece), conclui o seu depoimento sobre a sua ideia perigosa do seguinte modo:

“Mas a perspectiva de realizar testes genéticos para procurar diferenças entre grupos no campo das características psicológicas é, ao mesmo tempo, mais provável e mais incendiária [do que a clonagem de seres humanos], e a comunidade intelectual da actualidade está mal preparada para enfrentá-la”.

Perguntar não devia ofender, mas ainda ofende. No posfácio, o biólogo inglês Richard Dawkins interroga-se de uma forma que para muitos será radical sobre a perigosa questão da clonagem (a questão 23 de Pinker):

“Pergunto-me se, volvidos 60 anos da morte de Hitler, poderíamos ao menos aventurar-nos a perguntar qual é a diferença moral entre criar seres humanos com melhores capacidades musicais e obrigar uma criança a ter lições de música. Ou o porquê de ser razoável treinar corredores de velocidade e saltadores, mas não criá-los. Posso imaginar algumas respostas, e são boas; provavelmente acabariam por persuadir-me. Mas não terá chegado a altura de deixar de ter medo de colocar, sequer, a questão?”

Boa pergunta! Boa pergunta?

- John Brockman (coordenação), “Grandes Ideias Perigosas” (prefácio de Steven Pinker e posfácio de Richard Dawkins), Tinta da China, 2008.

As 23 perguntas perigosas de Steven Pinker

Na sua Introdução ao livro ”Grandes Ideias Perigosas” (coordenação de John Brockman e posfácio de Richard Dawkins), recentemente publicado pela editora Tinta da China de Lisboa, o psicólogo canadiano, professor da Universidade de Harvard, Steven Pinker, coloca 23 questões perigosas, algumas delas muito perigosas, que aqui apresento de forma numerada como desafio ao leitor. Se o leitor se sentir provocado por estas questões, julgo que Pinker terá alcançado o seu objectivo: inquietar.

  1. "Terão as mulheres, em geral, um perfil de aptidões e emoções diferentes do dos homens?
  1. Será que os acontecimentos descritos na Bíblia foram fictícios – não só os milagres, mas também os que envolvem reis e impérios?
  1. Terá o estado do meio ambiente melhorado nos últimos 50 anos?
  1. Será que, na sua maioria, as vítimas de abuso sexual não sofrem danos que duram para o resto das suas vidas?
  1. Será verdade que os americanos nativos praticavam o genocídio e devastavam a paisagem?
  1. Os homens terão de facto uma tendência inata para a violação?
  1. Será que a taxa de criminalidade diminuiu, na década de 1990, porque 20 anos antes as mulheres abortavam crianças que teriam evidenciado propensão para a violência?
  1. Serão os terroristas suicidas pessoas bem-educadas, mentalmente saudáveis e movidos por razões morais?
  1. Serão os judeus asquenazes, em média, mais inteligentes do que os gentios porque os seus antepassados foram objecto de uma selecção com fins reprodutivos que visava a astúcia, necessária na agiotagem?
  1. Será que a incidência das violações diminuiria se a prostituição fosse legalizada?
  1. Terão os afro-americanos, em média, níveis de testosterona mais elevados do que os dos brancos?
  1. Será a moralidade apenas um produto da evolução do nosso cérebro, sem qualquer realidade inerente?
  1. Ficaria a sociedade mais bem servida se a heroína e a cocaína fossem legalizadas?
  1. Será a homossexualidade um sintoma de uma doença infecciosa?
  1. Seria consistente com os nossos valores morais dar aos pais a possibilidade de praticarem a eutanásia em recém-nascidos com deficiências congénitas que os condenam a uma vida de dor e invalidez?
  1. Os pais exercem algum efeito no carácter ou na inteligência dos filhos?
  1. As religiões mataram mais pessoas do que o nazismo?
  1. Reduzir-se-iam os riscos do terrorismo se a polícia puder torturar suspeitos em circunstâncias especiais?
  1. Teria África mais hipóteses de sair da pobreza se acolhesse mais indústrias poluentes ou se aceitasse ficar com o lixo nuclear da Europa?
  1. Estará a inteligência média das nações ocidentais a baixar porque as pessoas menos inteligentes estão a ter mais filhos do que as mais inteligentes?
  1. Seria melhor para as crianças indesejadas se existisse um mercado de direitos de adopção, sendo os bébés atribuídos às ofertas mais elevadas?
  1. Salvar-se-iam mais vidas se instituíssemos um mercado livre de órgãos para transplantes?
  1. Deveriam as pessoas ter o direito de se clonar a si mesmas, ou de melhorar as características genéticas dos seus filhos?”

terça-feira, 17 de junho de 2008

UM ASTRONAUTA NA CATEDRAL


Nos anos 70 esteve na moda um livro intitulado "Eram os deuses astronautas?" do suíço Erich von Daeniken, segundo o qual as antigas civilizações seriam o resultado de invasões de extraterrestres. É pseudociência, claro. Mas o que faz a figura de um moderno astronauta na Porta de Ramos da Catedral de Salamanca conhecida por Catedral Nueva, que apesar do nome foi construída entre 1513 e 1733 em estilo gótico?

É simplesmente uma "brincadeira" dos escultores que fizeram a restauração dessa porta no ano de 1993, quando foi organizada uma exposição sobre as "Idades do Homem". Que é insólito para quem visita a Catedral lá isso é...

Desvendando o arco-íris


Os cursos de física leccionados por Walter H. G. Lewin estão entre os mais procurados pelos estudantes (e não só) do Instituto de Tecnologia de Massachusetts - MIT. Este pequeno resumo explica porquê. Vale a pena assistir a todo o curso de mecânica e ondas e ao de electricidade e magnetismo, disponíveis na íntegra no MIT OpenCourseWare. Para além de física clássica, Lewin contempla nas aulas uma série de tópicos interessantes: estrelas binárias, buracos negros, colapso de estrelas, supernovas, observações astronómicas e até uma incursão pela mecânica quântica.

Embora todas as aulas sejam simplesmente espectaculares, a aula sobre pêndulos é sem dúvida uma das minhas favoritas. É magistral e inesquecível a forma como Lewin explica que o período de uma oscilação é independente da massa, pendurando-se no pêndulo, ou demonstra a conversão de energia potencial em energia cinética, enviando a bola através de um anfiteatro repleto para despedaçar uma placa de vidro presa à parede oposta. É especialmente fabulosa a demonstração do princípio da conservação de energia:

«Acredito tanto na conservação de energia que estou disposto a arriscar a minha vida pela causa. Se estiver errado, esta terá sido a minha última aula».

O professor fecha os olhos dramaticamente e deixa o pêndulo cair. A bola oscila de um lado para outro, mas não atinge o seu queixo por escassos centímetros. «A física funciona!», grita Lewin, «e eu continuo vivo!»

Existem mais universidades que disponibilizam na rede cursos básicos de várias áreas. O objectivo destes cursos abertos é essencialmente a divulgação da Universidade e a atracção de mais estudantes, dentro e fora dos respectivos países. Funciona. No MIT, por exemplo, 20% dos novos estudantes dizem ter optado pela universidade depois de assistirem a algumas aulas virtuais gratuitas.

Cada universidade tem uma página através da qual é possível assistir a milhares de aulas das mais diferentes áreas do conhecimento. Refiro apenas aquelas com mais visitantes: Universidade Yale, Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Universidade da Califórnia em Berkeley, Universidade Stanford e Instituto de Tecnologia de Paris.

Esta forma de publicidade das escolas, para além de as beneficiar na angariação de novos alunos, é uma forma que pode ser tão eficaz como as aulas de Lewin o são na divulgação de ciência e na formação científica do nosso Mundo global. Como refere Lewin no vídeo que se segue (1h15mn sobre a beleza do ensino da física) o conhecimento é a beleza oculta em fenómenos que a todos nos maravilham como sejam o pôr do sol ou o arco-íris.


O «psíquico» das colheres


Este sketch, da série «A bit of Fry and Laurie», é quase tão eficaz a desmistificar charlatães como Uri Geller quanto o fantástico Randi. Simplesmente hilariante!

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Soneto de José Anastácio da Cunha


Como falei aqui do matemático e escritor setecentista José Anastácio da Cunha, vale a pena transcrever um soneto dele, que Aquilino Ribeiro classificou como "gema rara". A destinatária Margarida era uma senhora com quem Cunha viveu maritalmente em Valença do Minho. Na foto um grande pinheiro manso de Benagouro, Vilarinho da Samardã, Vila Real, que provavelmente já existia no século XVIII.


Copado, alto, gentil Pinheiro Manso;

Debaixo cujos ramos debruçados

Do sol ou lua nunca penetrados,

Já gozei, já gozei mais que descanso...


Quando para onde estás os olhos lanço,

Tantos gostos ao pé de ti passados

Vejo na fantasia retratados,

Tão vivos, que jàmais de ver-te canso!


Ah! deixa o outono vir; de um jasmineiro

te hei-de cobrir, terás cópia crescida

De flores, serás honra dêste outeiro.


E para te dar glória mais subida,

No meu tronco feliz, alto Pinheiro,

O teu nome escreverei de Margarida.


UM CAMINHO CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO HUMANISTA?

Entenda-se este texto não como um elogio acrítico a uma nova escola de iniciativa privada, mas como uma reflexão acerca da estrutura curricu...