segunda-feira, 14 de junho de 2021

Estudo e discernimento — contra o cancelamento da cultura

 

    Nunca como nos tempos que correm se precisou tanto de observar a máxima do sábio grego, gravada no templo de Apolo, em Delfos: μηδὲν ἄγαν (meden agan) “nada em excesso”. Em tudo  é necessária a moderação, como também diziam os romanos, in media virtus (no meio está a virtude). Na verdade, encontrar a mediania, evitar os excessos é tudo o que se deve propor em tempo de domínio da “cancel culture”.

A expressão “cultura do cancelamento” (tradução do inglês “calcel culture”) está a tornar-se num verdadeiro “cancelamento da cultura”. Com larga incidência nos Estados Unidos, tinha começado a ser usada há alguns anos, especialmente como combate ao racismo. Reapareceu nos últimos tempos, em força, com a grande ajuda das redes sociais, como boicote a tudo o que não seja “politicamente correcto”. Com base em qualquer frase, atitude ou discurso de alguém com relevância quer no mundo do espectáculo, quer da política, por exemplo, faz-se a campanha para banir essa pessoa ou esse grupo de toda a convivência, audiência ou serviço na sociedade.

Assim, algo que começou por uma justa causa pode estar a transformar-se num exagero que ameaça toda a liberdade de expressão, que ameaça a cultura linguística, que pretende acabar com qualquer acto cultural. De tudo se propõem novas leituras, à luz de uma actualidade que vê no passado uma ameaça, que julga os factos históricos com a justiça do presente, pretendendo apagar a história em vez de a interpretar com o que ela teve de bom e de mau. 

 

Este ataque chegou agora aos estudos da antiguidade greco-latina e das suas línguas, o latim e o grego.

 

Investigadores americanos, inclusivamente do Departamento de Clássicas (que abrange a história e as línguas antigas) põem em causa essas mesmas sociedades que investigam e o seu ensino, pois, segundo eles, o mundo antigo grego e romano, favorecia o “domínio branco”, tanto no passado como no presente.

 

Nesta discussão entram os professores da Universidade de Princeton, Daniel Padilla Peralta, ou Johanna Hanink, professora associada de Letras Clássicas, na Universidade de Brown, tradutora de grego antigo e moderno, especialista em tragédia grega, que vê na sua disciplina “um produto e um cúmplice da supremacia branca”. Na mesma linha de Padilla Peralta, Walter Scheidel, defendendo que o ensino do grego e do latim nos Estados Unidos devia reflectir melhor a sociedade, afirma que essas línguas e sua cultura “desempenharam um papel importante na invenção da branquitude (“blanchité”) e da sua dominação ininterrupta”.

 

    O grito de alerta chegou-nos pelo historiador francês Pierre Assouline que, na revista L’Histoire,  no número de Junho de 2021, publica um artigo intitulado Haro sur les “classics!” — l’ attaque d'universitaires américains plaidant pour la disparition des humanttés gréco-latines soulève la polémique.

 

    Jornais franceses (ver aqui e aqui) têm feito eco dessa polémica e entrevistado classicistas e historiadores, como Raphael Doan, Adrien Dalahay e Caroline Schwob-Blonce.

Caroline Schwob-Blonce sublinha que “uma coisa é estudar e outra é julgar; é preciso mantermo-nos distantes de uma lógica contemporânea de julgamento do passado, porque com uma tal moralização entramos num sistema de pensamento e de leitura única que é perigoso.”

“Os conceitos de raça, de branquitude, de género... são interessantes, mas não podemos pôr na boca dos antigos Gregos e dos antigos Romanos pensamentos que são nossos ou medos que são nossos”, diz Adrien Delahave (aqui). Como afirma este historiador, o passado é “uma história de fontes, “on a beaucoup plus de choses à dire sur les anciens Grecs et les anciens Romains parce qu’ils nous ont laissé beaucoup plus de sources littéraires, épigraphiques, archéologiques… »

 

Também jornais italianos (ver aqui, aqui e aqui) fazem eco desta decisão da Universidade de Princeton e de outras universidades americanas de não incluir o estudo das línguas clássicas como obrigatório, mesmo para os alunos que vão ingressar nessa área. Num artigo do ilGiornale, de 21 de Abril de 2021, com o título “ Così l'università di Kamala Harris cancella i "classici" “, podemos ler que “a universidade símbolo dos afro-americanos, na qual estudou a vice-presidente Kamala Harris, desmantelou o seu departamento de estudos clássicos”, facto que o Washington Post classificou como “um sinal de declínio moral e uma estreiteza do ponto de vista intelectual”, pois temos de “distinguir entre civilização e filosofia ocidental e crimes do ocidente”. O mesmo jornal italiano, no dia de hoje, 14 de Junho, afirma num artigo assinado por Gerry Freda, que “Negli Stati Uniti la manìa del politicamente corretto e la conseguente caccia, in ambito universitario e culturale, ai "germi del razzismo" hanno fatto l'ennesima vittima: il latino e il greco.”, pois na opinião do professor da Univ. de Princeton,  Padilla Peralta “são idiomas da autoridade”(aqui).

 

Apetece exclamar, como Cícero, “O tempora, o mores!” Até onde nos levará esta cultura da anti-cultura, este esquecimento dos saberes ancestrais, num mundo feito de pressas, de máquinas e de robôs, de afastamento dos livros e do papel do professor, de falta de tempo para reflectir, para pensar, para aprender com espírito crítico, sabendo distinguir o bem do mal, em liberdade, em autonomia, sem imposições, sem apagamento da história e dos seus valores?

 Isaltina Martins

 

 

3 comentários:

  1. O maior erro humano, desde sempre, que sobreleva, hoje não menos do que antigamente, sobre todos os erros (não esqueçamos que errar é humano) é que não há erro humano, o que há é homens que erram. Quando alguém erra, não é a humanidade que erra. A humanidade nunca erra. Porquê? O que é a humanidade? Só os indivíduos é que erram. Vai ser revolucionário admitir que, uma vez que as teorias da verdade, do conhecimento, doutrinas da salvação, da felicidade e do prazer, da sabedoria e do estoicismo, não foram capazes de resolver os problemas de sempre, nem, vistas bem as coisas, identificar esses problemas, vai ser revolucionário admitir que, dizia, a aposta deve ser na teoria do erro, em sentido amplo, de modo a incluir a mentira, a falsidade, enfim, todos os vícios humanos, e não apenas a condição de ignorância e a estupidez e, tentar substituir ou, talvez, converter as teorias do conhecimento em teorias da ignorância e do erro, ou do desconhecimento. Fará toda a diferença. Talvez começássemos a compreender que as razões pelas quais se busca ou deixa de buscar o conhecimento e a formação e os saberes não são as melhores razões mas aquelas que, desde sempre, se apresentam como tais, ao colocarem o homem contra o homem e a humanidade con-tra a humanidade. Actualmente, já há sinais, que muitos percebem como enigmáticos, de reconhecimento de que o homem, individualmente considerado, é o único e verdadeiro centro de conhecimento, de sentido, de dignidade e de valor. Nada, nem ninguém, transcende este imperativo. Aliás, é por ser transcendente que este imperativo demora tanto a ser entendido e continua a ser confundido com o “inimigo”, na concepção do homem lobo do homem. Qualquer indivíduo que se atribua uma dignidade e direitos naturais que não esteja disposto a atribuir e não atribua de facto aos outros, quaisquer que sejam as determinações sociais relativamente a isso, não poderá deixar de admitir que os outros se atribuam a si mesmos nessa medida. Mas isto é um erro. E é para nos defendermos dos indivíduos que erram que a civilização faz sentido e o conhecimento é tão importante.

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  2. Há erros coletivos, logo, a humanidade erra. Em contextos de guerra, há indivíduos que cometem atrocidades que, em outros contextos, seriam impensáveis. A humanidade convoca o indivíduo, fá-lo pensar que tem opções, engole-o. O individual é um produto do coletivo. A gota de água que encerra o oceano inteiro. De tempos a tempos, surge um indivíduo singular e essa singularidade, essa imprevisibilidade no ser, faz evoluir ou regredir a tal da humanidade.

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    1. Teremos imenso a aprender sobre o erro e uma teoria do erro, ou dos erros, ajudar-nos-ia a esclarecer se há erros colectivos e, havendo, em que diferem dos erros individuais. E não parece correcto inferir, do facto de haver erros colectivos, que a humanidade erra. A ideia de que a humanidade possa errar parece inconsistente com a ideia de erro, pelo menos com a ideia de que a natureza não erra. Mas, se a natureza não erra e se o homem é natureza, o que é, então, o erro?

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