sexta-feira, 25 de junho de 2021

O DESCOBRIMENTO DOS BRASILEIROS


Meu artigo no último As Artes entre as Letras:

No próximo ano irão-se completar 200 anos desde que o Brasil é um país independente, assim como vai fazer 100 anos que Gago Coutinho e Sacadura Cabral realizaram o primeiro voo entre Portugal e Brasil. Mas, para isso, houve que descobrir o Brasil. No passado dia 22 de Abril fez  521 anos que  a armada capitaneada por Pedro Álvares Cabral chegou a Porto Seguro, revelando um território, a que chamaram “ilha de Vera Cruz”, até então desconhecido dos europeus. Muito provavelmente houve outros, como o espanhol Vicente Yañéz Pinzón, que pisaram um pouco antes o solo brasileiro, mas foi a viagem de Cabral que ficou na história, pelas consequências que teve.

Sabemos o essencial dessa descoberta ou “achamento” do Brasil por um extraordinário documento da pena de Pêro Vaz de Caminha, escrivão da armada.  Esse documento, que hoje, por determinação da UNESCO, é Património da Humanidade, permaneceu ignoto até ser descoberto na Torre do Tombo em 1773, tendo a sua primeira publicação ocorrido apenas em 1817, no Rio de Janeiro. Depois disso tem havido numerosas edições. Uma das mais recentes  deu-se no volume 4, Primeiros Relatos de Viagens e Descobrimento, das Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa, direcção de José Eduardo Franco e minha, no Círculo de Leitores. Foram autores da introdução Alexandra Pelúcia e João Paulo Oliveira Costa, ambos historiadores da Universidade Nova de Lisboa.

Mas a mais recente edição do texto de Caminha acaba de sair na editora Guerra & Paz: Carta de Achamento do Brasil, um volume da colecção “Não ficção. História”, apoiado pela Câmara Municipal de Santarém, a cidade onde jaz Pedro Álvares Cabral. Tem a enormíssima mais valia de uma apresentação de 26 páginas de Onésimo Teotónio Almeida, o professor de Estudos Portugueses e Brasileiros na Universidade de Brown, Providence, nos Estados Unidos, que tem o significativo título (o autor é exímio em títulos) de “A Carta do Deslumbramento com o Brasil”. Em comparação com a edição atrás referida, a linguagem desta nova edição está num português mais moderno, ainda que fiel ao original. “Deslumbramento” é a palavra certa para descrever o tom com que Caminha fala dos habitantes de Vera Cruz, os índios tupinambás e tupiniquins, que ainda não tinham chegado ao Neolítico. Deu-se um curto-circuito no tempo! Caminha e seus companheiros tinham chegado a uma terra diferente, povoado por criaturas que, até por andarem nuas, faziam lembrar Adão e Eva. O olhar europeu não é agressivo nem sequer crítico, mas sim maravilhado e cândido.

Escreve Onésimo de um modo muito claro: “A carta de Caminha é algo inteiramente novo e, repita-se, um documento único na história da humanidade. Estou consciente de que me restrinjo à “humanidade europeia” (e especificamente ocidental), mas na minha vasta ignorância não tenho notícia de nada que se lhe assemelhe. Nem Marco Polo revela tal candura perante o inesperado, o maravilhoso descoberto.” E mais adiante: ”Não houve apreensão de naturais para levar para o reino; pelo contrário, optou-se por deixar ali dois degredados que, em castigo dos seus crimes, ficaram incumbidos da missão de viver com os índios, aprender sobre os seus costumes e colher informações sobre o que pudesse existir naquelas paragens. (…) Temos um Pedro Álvares Cabral politicamente correcto com quinhentos e tantos anos de avanço sobre nós. Conhecem um documento mais moderno? Terei todo o gosto em descobri-lo.”

Vale a pena cotejar a apresentação com o original: vejamos como o escrivão vê os índios em três passagens: “Quando o batel chegou à boca do rio estavam ali 18 ou 20 homens pardos, todos nus, sem nenhuma coisa que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos e setas.”(…) “Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as nós as olharmos bem, não tínhamos nenhuma vergonha.” (…) “Entre todos estes que hoje vieram, não veio mais que uma mulher moça, a qual esteve sempre na missa e a quem deram um pano com que se cobrisse, pondo-lho em redor de si. Mas ao sentar-se não fazia memória de o estender bem para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior quanto à vergonha.”

Há outros dois textos escritos em terras de Vera Cruz por altura do seu “achamento”. Um em italiano, traduzido decerto de um original português entretanto perdido, concorda bastante com o de Caminha. E uma carta de Mestre João para D. Manuel, contendo informação técnica e não referindo os indígenas. Mestre João é o espanhol João Farras, “físico e cirurgião” do rei de Portugal: a sua carta certifica que ele foi o autor das primeiras observações astronómicas na América do Sul.

Tem havido alguma discussão sobre o termo “descoberta”.  Onésimo lembra uma coisa óbvia:  descobrir não é criar. Se é certo que a descoberta foi recíproca, não é menos certo que os navegadores é que se deslocaram ao Brasil. Como os índios estavam numa fase anterior à escrita, os relatos escritos foram apenas os dos descobridores europeus. O historiador inglês David Wootton no seu livro A Invenção da Ciência (Temas e Debates) diz que a palavra “descoberta” surgiu na língua lusa, a partir do  étimo latino. O termo começou a ser usado em português em 1484, tendo aparecido em 1551 no título de um livroa História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses, de Fernão Lopes de Castanheda. Em francês só apareceria em título de livro em 1553, em inglês em 1563 e em alemão em 1613. Os portugueses descobriram novas terras, novas espécies, novas culturas e até… novo céu: Mestre João o fez e Pedro Nunes o disse. E descobriram a palavra “descoberta”!

Vale a pena ler ou reler a carta de Pêro Vaz de Caminha, muito bem apresentada por Onésimo Teotónio Almeida. A leitura evidencia o que o apresentador diz: foi um encontro pacífico, com os descobridores europeus espantados com indígenas que pareciam vindos do Génesis, antes do pecado original. Repare-se na influência dos índios sobre os navegadores: Como os primeiros não tinham vergonha, os segundos perderam a sua…

 

 

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