segunda-feira, 21 de junho de 2021

MATHEW COBB E AS IDEIAS SOBRE O CÉREBRO


Minha recensão no jornal I de quinta-feira passada:

Se compreendemos o mundo através do cérebro, é natural que o nosso cérebro, que evidentemente faz parte do mundo, tente compreender-se a si próprio, procurando saber o que é e como funciona. Por ser o objecto mais complexo do Universo – o número de neurónios é comparável ao número de estrelas na Via Láctea, estando cada um dele ligado aos outros por milhares de conexões –, o cérebro constitui a última fronteira da ciência. Nas últimas décadas, as Neurociências têm-se desenvolvido extraordinariamente, acumulando todo um manancial de dados sobre o nosso sistema nervoso, onde o cérebro é central. Mas os seres humanos, alicerçados na informação recolhida, precisam de metáforas para sustentar a sua compreensão. O paradigma do nosso tempo para o funcionamento do cérebro é o computador, a máquina multiusos que inventámos para que, através de algoritmos, um certo input dê origem a um certo output. O cérebro é uma máquina desse tipo, porque esse órgão associar certos outputs (pensamento e acção) a inputs (dados sensoriais) que está constantemente a receber. Mas o nosso cérebro – e de resto o dos outros animais, uma vez que todos eles têm uma origem comum na história natural – faz mais do que fazem os actuais computadores (por outro lado, também faz menos: por exemplo não joga xadrez tão bem). Uma diferença é que os algoritmos cerebrais estão sempre a ser reescritos, à medida que entram novos dados. Dados e algoritmos interpenetram-se. É isso que fazem, embora com óbvias limitações, os modernos sistemas de inteligência artificial. Se podemos dizer que o nosso cérebro é um computador, devemos acrescentar que é um computador muito especial, capaz de aprender a partir da sua interacção com o mundo. A evolução capacitou-o para triunfar.

No passado, já usámos outras metáforas para descrever o cérebro. Por exemplo, o francês René Descartes desenvolveu, no século XVII, uma analogia hidráulica na sua tentativa de compreender o que se passa na nossa cabeça. Na viragem do século XIX para o século XX, o espanhol Santiago Ramón y Cajal, laureado com o Nobel da Medicina em 1906 pela sua identificação dos neurónios como células do cérebro (há outras, como as glias, que suportam os neurónios) recorreu à imagem de uma rede telegráfica, para explicar que os neurónios eram os nós de uma rede onde se trocava informação. Cada tempo desenvolve, portanto, as suas metáforas, baseado muitas vezes em artefactos ou tecnologias comuns na época e são essas ideias ou visões do cérebro que fornecem o quadro para o desenvolvimento de novas investigações.

Acaba de sair sobre este fascinante tema o livro Uma História do Cérebro. O Passado e o Futuro da Neurociência, do prelo da Temas e Debates – Círculo de Leitores, ao qual, de resto, devemos tantos e tão bons ensaios de ciência (basta lembrar que é a editora de António Damásio, o neurologista português estabelecido nos EUA). É seu autor Mathew Cobb (nascido em 1957), professor de Zoologia na Universidade de Manchester, em Inglaterra (a Universidade onde trabalhou Alan Turing, um dos génios da computação do século passado). Doutorou-se em Psicologia e Genética na Universidade de Sheffield, porque queria perceber o comportamento sexual das moscas-da-fruta e tem investigado o olfacto, o comportamento dos insectos e a história das ciências. Este é o seu primeiro livro traduzido em português, mas outros seus livros de divulgação científica – destaco The Egg and Sperm Race: The 17th-Century Scientists Who Unravelled the Secrets of Sex (2007) e Life's Greatest Secret: The Race to Crack the Genetic Code (2020)  teriam decerto entre nós leitores interessados, até porque foram premiados ou foram finalistas de prémios. O livro que acaba de sair entre nós foi considerado por jornais britânicos de referência como um dos melhores livros de 2020, tendo sido finalista do prestigiado prémio Baillie Gifford de Não-Ficção. Curiosamente, Cobb é também autor de dois livros sobre a resistência francesa na Segunda Guerra Mundial.

O título História do Cérebro não é inteiramente revelador, pois a obra não trata da evolução do cérebro ao longo da história natural, mas sim da evolução das nossas ideias sobre o cérebro. O original é precisamente The Idea of the Brain. É uma história não do cérebro, mas sim da ciência do cérebro. O livro segue uma ordem temporal, estando estruturado em três capítulos: “Passado”, “Presente” e “Futuro”. O “Passado” vai até 1950, encontrando-se nele secções sobre as primeiras noções do cérebro desde que o médico flamengo Andreas Vesalius representou a  sua anatomia na obra De Humani Corporis Fabrica (organizei uma sessão sobre esse livro na Biblioteca Joanina na qual Maria de Sousa falou sobre o cérebro: V. Meu Dito, Meu Escrito, Gradiva, 2014). Alguns títulos dessas secções são “Forças: séculos XVII e XVIII”, “Eletricidade: séculos XVIII e XIX”, “Evolução: século XIX”, “Neurónios: séculos XIX e XX”, “Máquinas: 1900 a 1930” e “Controlo: 1930 a 1950”. Já no “Presente”, convenhamos que um pouco alargado, o autor trata da moderna noção do cérebro como um computador: algumas secções são ”Memória”, “Circuitos”, “Computadores”, “Química” e “Consciência”, sempre de 1950 até hoje. No capítulo sobre o “Futuro”,  o mais curto,  o autor apresenta uma síntese das questões atuais. Segundo ele, o estudo do cérebro encontra-se num impasse, apesar da profusão de dados, designadamente as imagens do funcionamento interno do cérebro obtidas por uma técnica designada pela sigla inglesa fMRI (em português, Imagem por Ressonância Magnética Funcional). É preciso um novo enquadramento. São numerosas as notas bibliográficas no final (mas só raramente são dadas as edições disponíveis em português) e há, ao contrário do que infelizmente é costume entre nós, um muito útil índice remissivo (foi por aí que fiquei rapidamente a saber que nem Damásio nem Egas Moniz constam desta História do Cérebro.)

Para apresentar as sucessivas ideias do cérebro, o autor parte de uma citação do médico dinamarquês seiscentista Nicolaus Steno, que acumulava a sua actividade pastoral de bispo católico (foi beatificado pelo papa João Paulo II em 1988) com a actividade científica em anatomia e geologia. No seu Discours sul l'Anatomie du Cerveau (Paris, 1669) escreve: “Sendo o cérebro na verdade uma máquina, não devemos esperar descobrir o seu artifício através de outras vias diferentes daquelas usadas para descobrir o artifício de outras máquinas. Resta pois fazermos aquilo que faríamos com qualquer outra máquina: quer dizer, desmantelá-la peça a peça e considerar o que estas podem fazer separadamente e em conjunto.”

Ora reside aqui o busílis da questão. Os neurónios podem fazer coisas em conjunto que não podem fazer separadamente. Fomos percebendo ao longo do tempo que as capacidades do cérebro, das quais a mais relevante é a consciência, são “propriedades emergentes”: o todo é maior do que a soma das partes. Por outras palavras, a atitude reducionista preconizada pelo  bispo não funciona. Esse é também um erro comum de alguns caminhos da ciência: se na mecânica de Newton se partia do simples para explicar o complexo, nas modernas ciências da complexidade, que só se tornaram possíveis com o advento do computador, a totalidade não pode ser explicada pela redução aos seus elementos. Um cérebro é muito mais do que um conjunto dos neurónios, que enviam sinais eléctricos de uns para os outros numa confusão de disparos. O segredo do cérebro está na interacção entre as suas unidades. Recomendo um livro actual que  explica bem como funciona o nosso cérebro: Cérebro em Acção. Nos bastidores do cérebro em constante mudança, do neurologista norte-americano David Eagleman (Lua de Papel, 2021, com prefácio meu).

Que tipo de computador é o cérebro? Para Cobb mais do que novos dados precisamos de novas metáforas. Escreve ele: “Os cientistas ficam muitas vezes entusiasmados quando percebem que as suas opiniões foram moldadas pelo uso de metáforas e compreendem que novas analogias poderão alterar a forma como entendem seu trabalho, ou até permitir-lhes imaginar novas experiências.“ Pode ser, conclui, que “uma nova tecnologia por imaginar venha a mudar todas as nossas perspectivas fornecendo uma nova metáfora radical para o cérebro; ou que os nossos sistemas computacionais nos forneçam um alarmante novo vislumbre, ao tornaram-se conscientes; ou que novo enquadramento venha a emergir da cibernética, da teoria do controlo, da teoria da complexidade e dos sistemas dinâmicos, da semântica e da semiótica; ou que venhamos a aceitar que não há teoria a ser descoberta, porque os cérebros não têm uma lógica global.”

De que eu gostei mais neste impressionante livro de 503 páginas? Do estilo envolvente do autor, que conta histórias e controvérsias científicas. Quem não sabe fica a saber que a ciência é um confronto permanente de ideias. E do que gostei menos? Da tradução, que, embora não prejudicando a fluência da leitura, está demasiado colada ao inglês original. Encontrei até a palavra “compreensível” quando devia ser “abrangente”. Este é um livro compreensível, pois se percebe muito bem, e é também abrangente, pois trata de vários assuntos, integrando-os harmoniosamente através da história das ciências, que é um excelente meio de apresentar as ciências. Uma História do Cérebro é o melhor guia que conheço para quem queira saber o que o nosso cérebro, ao longo dos tempos, tem vindo a aprender sobre si próprio.

 

 

 

 

 

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