sábado, 26 de junho de 2021

OS SEGUIDORES DA MESMICE "OCEDEÍSTA"

Texto na continuação de outro.


Palavras do diretor para a Educação e Competências da OCDE, 11 de Fevereiro de 2017 (aqui)


"Muito se tem falado das rápidas transformações que a sociedade atual tem enfrentado, em grande parte impulsionadas pelos desenvolvimentos tecnológicos que vieram produzir alterações diversas na forma como vivemos. Atualmente a única certeza é a incerteza (...) [O] diretor para a Educação e Competências da OCDE (...) alerta para que as crianças que hoje frequentam o 1.º ciclo vão ter empregos ainda não criados, usar tecnologia ainda não inventada e resolver problemas sociais ainda não antecipados.

Perante este cenário, a escola não pode mais ficar para trás. Tem de ser capaz de se atualizar de modo a dar respostas que proporcionem uma educação básica relevante a todos os jovens, que os prepare para o seu futuro e não para o nosso passado. Muito do que os atuais adultos aprenderam no ensino básico serve de pouco para a experiência de ser cidadão do século XXI, nomeadamente ao que à matemática diz respeito."

As palavras acima reproduzidas, vindas no jornal Público de hoje (ver aqui), são da Coordenadora do Grupo de Trabalho da Revisão Curricular das Aprendizagens Essenciais de Matemática para o Ensino Básico. Poderiam, no entanto, ter sido (re)ditas ou (re)escritas pelo director para a Educação e Competências da OCDE (ver, por exemplo, aqui).

Em dois breves parágrafos, uma professora universitária, responsável por um documento curricular nacional, reproduz, aceitando, os principais slogans para a educação elaborados por uma organização com fins distintos dos que devem guiar a educação. Sublinho: os fins desta organização são económicos, não são educativos. E, portanto, submetem a educação escolar para todos, aos seus desígnios.

São slogans - é, efectivamente, de slogans que se trata - constantes na multiplicidade de documentos que têm vindo a ser publicados pela OCDE, especialmente depois de 2020, quando vislumbrou na pandemia "a grande oportunidade" para impulsionar a mudança, à escala global, do currículo escolar no sentido que há muito havia delineado. 

Poderes políticos, sociedade em geral, academias, escolas parecem ficar encantadas com esses slogans - obviamente concebidos para produzirem tal efeito - e a mudança curricular avança sem obstáculos de maior.

Vêem-se os países sucumbir, progressiva mas rapidamente, à vontade de uma organização para quem as crianças e os jovens não passam de "capital humano".

2 comentários:

Anónimo disse...

"Muito do que os atuais adultos aprenderam no ensino básico serve de pouco para a experiência de ser cidadão do século XXI, nomeadamente ao que à matemática diz respeito."

A Senhora Coordenadora do Grupo de Trabalho da Revisão Curricular das Aprendizagens Essenciais de Matemática para o Ensino Básico deveria tirar as devidas consequências dos grandes slogans educativos da OCDE que propala aos quatro ventos em Portugal.
Se, efetivamente, a matemática, juntamente com as outras ciências exatas e as humanidades, que constituíam as bases de construção dos conhecimentos escolares, são praticamente inúteis para os cidadãos do século XXI, então haja a coragem para fechar, desde já, as escolas EB 1,2,3 + JI + S, e abrir, imediatamente, com financiamento generoso da bazuca europeia, Centros de Coaching 1,2,3 + S + JI, por essas aldeias, vilas e cidades de Portugal, criando assim milhares de empregos para milhares de mentores e gurus, orientais e ocidentais, que nos ajudarão a dar um grande salto em frente e a diversificar as nossas atividades económicas.

Helena Damião disse...

Prezado Leitor Anónimo
A irónica distopia que se pode perceber nas suas palavras não está longe da realidade, mesmo da portuguesa. A escola pública, na sua função civilizadora, ou, se quisermos, humanizadora (de levar a construção que é a civilização, como um todo, construída pela humanidade a cada criança, naquilo que outras instituições como a família não chega) dissolve-se progressiva mas rapidamente.
Não falo de percepções ou opiniões pessoais, apoio-me, antes de mais, num relatório da UNESCO com data de 2016 com o título "Repensar a educação. Rumo a um bem comum mundial?" (https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000244670).
Nele, esta entidade supranacional apresentada uma das questões mais relevantes que se nos colocam, como sociedade, no século XXI: seremos capazes de manter a educação escolar como um bem público no novo contexto mundial? (Cf. sobretudo páginas 78 e seg.)
Cumprimentos,
MHDamião

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