segunda-feira, 21 de junho de 2021

A ÚLTIMA FRONTEIRA


 Meu texto no último JL, que é a primeira parte do prefácio do livro "O Cérebro em Acção", de David Eagleman, que acaba de sair na Lua de Papel: 

No pátio do Templo de Apolo em Delfos lia-se a inscrição “Conhece-te a ti mesmo” – gnóthi seauton, transliterado do grego. De certo modo toda a ciência – e, indo mais além, toda a filosofia – procura responder a este imperativo da Grécia Antiga.

A ciência é, em geral, o conhecimento do mundo, do qual o ser humano faz parte. Tanto quanto sabemos, nós, Homo Sapiens, somos a única parte do mundo que o pode conhecer nas suas várias escalas de espaço e de tempo, do muito pequeno ao muito grande, do muito antigo ao tempo de hoje. E somos a única parte do mundo que se autoconhece. O ser humano tem esta possibilidade de conhecer e de se conhecer, uma possibilidade que a vontade pode materializar. São várias as perguntas colocadas por nós e só em parte respondidas: Quem sou eu? Que relação tenho com o mundo onde eu sou? Que mundo é este onde eu sou?

Perante estas questões, o cérebro afigura-se como a última fronteira, o “santo dos santos”, do nosso conhecimento, o instrumento de conhecer, mas também um objecto, o mais complexo de todos, que importa conhecer. É a parte de nós próprios que, ligada aos sentidos, nos permite fazer representações do mundo e, em função das nossas experiências desde o início da vida até à actualidade, formar a nossa própria consciência, o nosso autoconhecimento.

Com o progresso da ciência, avançámos muito desde o tempo em que o médico belga Andreas Vesalius, em 1543, no seu atlas de anatomia De Humani Corporis Fabrica, mostrou o cérebro de um cadáver. Ou desde a altura em que, no final do século XIX, o médico espanhol Santiago Ramón y Cajal, revelou, com a ajuda do microscópio, as células do cérebro, os neurónios, e as suas ligações arborescentes.

Por muitos mistérios que ainda encerre, e eles são muito numerosos, sabemos que um cérebro não passa, fisicamente, de uma rede de neurónios envolvida por outros tipos de células, que lhes servem de “cola” e de apoio funcional. Hoje vivemos no tempo das Neurociências, um tempo no qual poderosos meios das ciências físicas, como as técnicas de Ressonância Magnética Funcional, permitem olhar para o interior do cérebro e observá-lo em funcionamento. Começámos, por estranho que isso pareça, a poder ler a mente de outra pessoa, sem falar com ela, nem ler nada que ela tenha escrito.

O astrofísico norte-americano Carl Sagan explicou, na sua obra-prima Cosmos (Gradiva, edição ilustrada, 2001), o que é um cérebro: “Cada um de nós tem talvez cem mil milhões de neurónios, comparável ao número de estrelas da Galáxia ou Via Láctea. Muitos neurónios têm milhares de conexões com os seus vizinhos. Há aproximadamente 1014 conexões semelhantes no cérebro humano.” Esta comparação astronómica justifica o conhecido verso de Emily Dickinson: “O Cérebro é mais amplo do que o Céu.”

E o que faz um cérebro? Sagan responde: “O cérebro faz mais do que lembrar. Compara, sintetiza, analisa, chega a abstracções. Somos capazes de imaginar, muito mais do que o conseguem os nossos genes. É por isso que a biblioteca do cérebro é dez milhares de vezes maior do que a biblioteca genética. A nossa paixão pelo saber, evidente no comportamento de qualquer criança que aprende a caminhar, é o instrumento da nossa sobrevivência.”

Como é que o cérebro faz aquilo que faz? Uma explicação simples e abrangente – a plasticidade do cérebro – é dada pelo neurocientista americano David Eagleman (nascido em 1971), professor na Universidade de Stanford, na Califórnia, também CEO da empresa Neosensory, que fundou para explorar a aplicação de órgãos de sentidos artificiais, e ainda director do Centro de Ciência e Lei, que se ocupa das implicações legais das Neurociências.

Ele é uma espécie de Carl Sagan das Neurociências. Não contente por ser um grande cientista, com trabalhos sobre a plasticidade do cérebro (o tema central deste livro), investigou a consciência humana do tempo (fez experiências de bungee jumping para perceber melhor a sensação de tempo numa queda livre) e a sinestesia (fenómeno que consiste na percepção de um estímulo de um modo diferente da habitual, por exemplo, a percepção dos números como cores). Na escrita de divulgação científica, Eagleman pede meças não só a Sagan, mas também a outro grande escritor já falecido: o neurologista anglo-americano Oliver Sacks, autor de bestsellers como O Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu (Relógio d’Água, 2004).

Eagleman revelou os seus extraordinários dotes de comunicador de ciência no livro O Cérebro. À Descoberta de Quem Somos (Lua de Papel, 2017), associado à série de televisão The Brain with David Eagleman (2015), que passou na PBS e na BBC. Tal como Sagan, Eagleman soube juntar a televisão e a edição impressa, mostrando que esses meios não são inimigos. É autor de outros livros, dois traduzidos para português entre os quais uma  Cogito Ergo Sum: Quarenta Histórias da Vida para Além da Morte, uma obra desconcertante de ficção, com base científica, que merece reedição.

A ideia de plasticidade é que o cérebro é moldável: adapta-se à experiência do mundo, no sentido em que a passagem de sinais eléctricos nas conexões entre os neurónios é continuamente reconfigurada. O título Cérebro em Ação procura traduzir para português o título original Livewired, moldável em directo, que contrasta com hardwired, ou fixo. A ideia é explicada por Eagleman com um estilo que nos cativa:

“A nossa espécie conquistou com êxito todos os recantos do planeta porque representa a expressão mais elevada de um truque que a Mãe Natureza descobriu: em vez de pré-programar completamente o cérebro, o melhor é dar-lhe as peças básicas de construção e, depois, lançá-lo ao mundo. O bebé chorão acaba por parar de chorar, olha em volta e absorve o mundo que o rodeia.”

Nós fomos bebés chorões, que parámos a certa altura de chorar, uma actividade que prejudica a percepção dos sentidos, para passar a absorver com o maior cuidado o mundo que nos rodeia. Já que estávamos neste mundo, importava conhecê-lo… A tese essencial de Eagleman exposta no presente livro já estava em O Cérebro. À Descoberta de Quem Somos (o leitor faça o favor de o ler, se ainda o não fez!): a nossa interacção do mundo muda constantemente o nosso cérebro, preparando-o melhor para novas situações.

O volume que o leitor tem nas suas mãos porá o seu cérebro a pensar sobre situações reais que provavelmente nunca pensou serem possíveis, como, por exemplo, logo no início, a história de um jovem que, apesar de ter ficado sem metade do cérebro,  conseguiu recuperar quase totalmente a sua actividade normal.

No final da introdução, uma espécie de trailer dá-nos, sob a forma de perguntas, um rol de situações curiosas que nos vão intrigar: “Este livro mostrará como é que o nosso cérebro está permanentemente a reconfigurar os seus próprios circuitos e o que isso significa para as nossas vidas e para os nossos futuros. Pelo caminho, a nossa história será iluminada por muitas perguntas: porque é que as pessoas nos anos 1980 (e apenas nos anos 1980) viam as páginas dos livros como ligeiramente vermelhas? Porque é que o melhor arqueiro do mundo não tem um braço? Porque é que sonhamos todas as noites e o que é que isso tem a ver com a rotação do planeta? O que é que a ressaca de drogas tem em comum com um desgosto de amor? Porque é que o inimigo da memória não é o tempo, mas sim outras memórias? Como é que um cego aprende a ver com a língua ou um surdo aprende a ouvir com a pele? Seremos capazes, um dia, de conhecer os pormenores essenciais da vida de alguém a partir da estrutura microscópica inscrita na sua floresta de células cerebrais?”

(...)

1 comentário:

  1. Dir-se-ia que nada está pré-programado, mas que existem condições para as coisas serem. Não existem condições para o que não acontece. E o que acontece, ainda que não saibamos as causas, ou condições, é o que é susceptível de conhecermos, a partir da memória. São factos. Memória. Passado.
    A causalidade terá a ver com a nossa relação consciente, em diferido, descontínua, irregular, episódica, variável e nem sempre controlável, com tudo. A nossa consciência permite o nosso conhecimento, que é sempre “reportagem”, memória, desactualizada, daquilo que acontece. Digamos que o conhecimento está para a realidade assim como os factos estão para o devir. A consciência, ela própria, como facto, parece não existir. Mais lembra o comboio da realidade, ou fluxo, que não para em sítio nenhum e que estamos constantemente a perder. O passado não é senão memória, não tem lá nada que não seja registo de imagens, sons, etc.. Temos consciência muito esquiva do presente que logo se faz consciência de memória. Até o futuro, não existe senão na memória do que futuramos. Se não tivéssemos memória, teríamos alguma percepção do tempo? Ou, até, alguma representação da realidade?
    A ciência inventou um teatro e uma linguagem para representar a realidade, num tempo em que não havia fotografia nem filmes e isso trouxe as vantagens que são conhecidas.
    Assim como a literatura e o teatro e as artes, em geral, fixavam ou congelavam a realidade no presente e a filosofia procurava dar-se conta das realidades e suas razões, significando-as e explicando-as, as ciências criaram um método “intemporal” de observação e de consciência da realidade, enquanto fenómeno temporal.
    No que respeita ao cérebro, os incríveis avanços revelam-nos o que acontece, em termos de física de partículas, por ex., quando percepcionamos um objecto, movemos os olhos, voluntaria ou involuntariamente, reconhecemos esse objecto, pensamos sobre ele, decidimos tocá-lo e fazemos o movimento e registamos a memória disso ou, simplesmente, ignoramos, etc..
    Os neurocientistas e os cientistas da física de partículas, ou do que quer que constitua a vida, ao serem capazes de explicar como é que a matéria, ou o “plástico” que existia no momento do big-bang se foi reorganizando ao ponto de se tornar sensível (homeostático?) e de ganhar um critério de reorganização que já parece uma racionalidade diferenciadora entre dois ou mais termos, e como evoluiu, por selecção natural, para formas de reorganização, nomeadamente nervosa, capazes de memória e de sentimento e de consciência, etc., acabam por mostrar que a ideia de programa é ela própria a ideia das condições que existem para as coisas serem.
    E, neste momento, creio estarem criadas as condições para a filosofia ultrapassar algumas das discussões clássicas e, partindo de novos pressupostos, se interrogar sobre a realidade dos problemas e das soluções que eles devem ter.

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