sexta-feira, 19 de abril de 2019

Finlândia, versão dois: Portugal

O jornal El País publicou ontem uma entrevista ao Ministro da Educação de Portugal, obtida no Forum Education & Skills, realizado, entre 22 e 24 de Março, no Dubai. Num tom manifestamente elogioso, a entrevistadora, Elisa Silió, compara o nosso país a Espanha, catapultando-o para um elevado patamar de sucesso comparável ao que configurou o "milagre finlandês".
"Portugal converteu-se num referencial mundial na melhoria educativa e pedagogia inovadoras. É a nova Finlândia (…). A imprensa internacional descreve Portugal como a “estrela emergente em educação” pelos seus resultado na relatório PISA (…). É o país que se destaca também na autonomia de escola, na inovação pedagógica, na gratuitidade dos manuais e na intensa formação de professores." 
Eis o mais relevante da mencionada entrevista:
"Diferentemente de Espanha, há um consenso político... A espinha dorsal do sistema educativo tem 30 anos. Há um consenso político e social sobre a necessidade de aumentar a sua qualidade para haver igualdade de oportunidades e sirva de alavanca do crescimento económico e democratização cultural (…). 
Isso é fruto de muitas iniciativas, não de um dia. Sim, o sistema gratuito de pré-escolar, o plano nacional de leitura, o programa de matemática o de enriquecimento curricular... As crianças do 1.º a 4.º têm, por dia, duas horas gratuitas e voluntárias de actividades extra-escolares para aprender um instrumento, outra língua ou ir a um clube de ciência. Além disso, temos 130 escolas de intervenção prioritária, de zonas deprimidas, que recebem recursos extra. 
Diz o director do PISA, Andrea Schleicher, que os professores de Espanha “trabalham como uma cadeia de produção”. O modelo português é o oposto. Deixamos que as escolas trabalhem 25% do currículo nacional com a sua própria estratégia. Podem fundir-se disciplinas — História e Geografia, ou Matemáticas e Física —, trabalha-se experimentalmente ou organizam-se projectos anuais (…). Não há que ser impositivo, as escolas viram que se confia nelas e têm respondido muito bem. 
Autonomia com controlo. Especialistas da universidade e inspectores visitam uma escola durante uma semana e fazem um relatório. Não para classificar mas como uma espécie de auditoria para apoiar o projecto pedagógico. 
Portugal apresenta uma grande brecha entre classes sociais nos resultados académicos. Sim, há diferenças notáveis e devemos trabalhar isso. Portugal vem de uma ditadura em que a educação não era tema central. Muitos adultos têm ainda grandes carências de qualificação e é preciso formá-los. 
Surpreende-os a redução do índice de abandono precoce? (…) em Portugal passou de 44% para 12,6% [a média europeia é de 10,6%] (…) Há que fazer um trabalho com cada aluno. 
As subvenções para os colégios com contratos de associação tendem a desaparecer no seu país. Havia 79 colégios que consumiam 140 milhões de euros por ano, a lei diz que devem existir onde a escola pública não cumpre a sua função. Retirámos a subvenção a 49 (…). Não negamos a sua importância, só cumprimos a lei (…). 
Em Espanha há o consenso de que as crianças estudam demasiadas coisas mas com pouca profundidade. Vocês tomaram medidas. Reduzimos o currículo sem o mudar substancialmente. Não é uma revolução (…), damos coerência às melhores práticas internacionais. Um antigo ministro da Educação, Guilherme d’Oliveira Martins, e um grupo de académicos elaboraram um relatório sobre os valores, capacidades e habilidades que os alunos devem demonstrar no final da escolaridade obrigatória. Agora avaliam-se também nas provas nacionais também as expressões artísticas e psicomotoras que se haviam descuidado em detrimento do Português e da Matemática. Muito meninos não sabiam dar cambalhotas. 
Portugal avançou na inclusão de crianças com necessidades especiais nas escolas regulares. A ONU criticou a Espanha pela sua demora a este nível. 97,5% destes alunos já estavam nessas escolas. Começámos em 1992, antes de quase todos na Europa. Agora criámos um diploma legal para a inclusão (…) O importante é que possam estar cada vez mais nas aulas para facilitar a sua transição para a vida laboral. Estamos capacitando os profissionais e damos-lhe apoio, não é apenas uma tarefa dos professores de educação especial (…)."

7 comentários:

  1. Nem consegui ler tudo, um vómito!
    A realidade ...... os mais desprotegidos vão pagar caro tais estratégias . As humanidades foram postas a um canto da mesa a ver se caem e desaparecem. E em breve, com o fim dos exames do secundário ( que virão! ) os alunos de meios desfavorecidos jamais entrarão num curso de uma universidade prestigiada. Só tretas, só papéis e cruzinhas , até para mudar um aluno de lugar é preciso preencher papéis, os alunos com deficiência estão para lá como qualquer outro em turmas enormes, pois só os papéis interessam. Que revoltante falta de vergonha!

    ResponderEliminar
  2. "Agora avaliam-se também nas provas nacionais também as expressões artísticas e psicomotoras que se haviam descuidado em detrimento do Português e da Matemática. Muito meninos não sabiam dar cambalhotas."

    Esta opinião artística e surrealista - e tudo! - do Ministro da Educação de Portugal só pode ser para inglês ver.
    As provas nacionais propriamente ditas deixaram de existir há muito tempo. Os ditos "exames nacionais", que avaliam uma matéria lecionada sempre em doses minimalistas, nunca valem mais do que 30 % no cálculo da nota final obtida na disciplina, tanto para alunos das escolas estatais como para alunos dos colégios particulares, onde as notas corruptamente inflacionadas são a regra!
    No futebol, Portugal pode ser melhor do que a Finlândia, mas na economia, ou na educação, a Finlândia está noutro campeonato. Os finlandeses são ricos e os portugueses são pobres, logo as respetivas políticas educacionais são muito diferentes.

    ResponderEliminar
  3. Mas, afinal, quem é que dita e define o que "deve ser" ou o que "é" ensinado nas escolas públicas, de modo que quem quer aprender possa escolher o que lhe convém, de acordo com os seus critérios pessoais, descontando o facto de haver obrigatoriedade de frequência do ensino (mas não haver obrigatoriedade de aprendizagem)? Por que há-de ser o mercado (o poder do dinheiro) a "impor" os valores e a moralidade e, consequentemente, os comportamentos e as opções de toda a gente, ou seja, a eliminar as escolhas?

    ResponderEliminar
  4. Isto nem merece comentários.
    É uma verborreia.
    A educação formal em Portugal está em falência, essa é que é a verdade.

    ResponderEliminar
  5. E nada como um almoço em família para sabermos novidades dos muito mais novos.
    Cortaram tantas horas a História que em alguns casos nem dá para ter duas aulas por semana. Contudo, (re)inventaram uma disciplina, Cidadania e Cia, com conteúdos que se abordam na História, mas em que os professores aproveitam para desenvolverem conteúdos da própria disciplina , nos casos Português e ET, deixando a tal cidadania na gaveta . E , já agora, que conhecimentos têm os "generalistas" para darem formação em cidadania ?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ex.mo Sr. Anónimo de 22 de abril, às 13:48,

      Eu, apesar de ser dos "muito mais velhos", também sei que na escola inclusiva os conhecimentos e os conteúdos estão a ser substituídos pelas habilidades (skills). Quer dizer, os professores, ideal e proximamente, serão todos generalistas, ao contrário do que acontece com os enfermeiros que, tendencialmente, são todos doutores especialistas.
      Relativamente à classe única dos professores e educadores de infância, os sucessivos governos deram sempre mais importância à quantidade do pessoal do que à qualidade do ensino. Agora, chegados à situação atual, em que os professores e educadores de infância são mais do que as mães, o Estado, sem dinheiro para pagar a tantos doutores especialistas, vai a pouco e pouco, transformando-os em generalistas, para que a despesa com pessoal possa diminuir!

      Eliminar
    2. Muito interessante o que diz. A questão é que não há quem queira ser professor, nem generalista nem dos outros. Um mês para arranjar um professor de História, numa escola de elite, na segunda cidade do país para um horário de 20 horas é bastante revelador.

      Eliminar

1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.