terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

PREFÁCIO A “PARA LÁ DOS OMBROS DE GIGANTES”

Meu prefácio ao livro do físico Marinho Lopes, "Para Lá dos Ombros de Gigantes" (Edições Viriato), que está a ser lançado em várias cidades do país:
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É do físico inglês Isaac Newton a conhecida expressão “Se consegui ver mais longe foi porque estava aos ombros de gigantes”. A frase é correntemente interpretada como significando que a ciência é cumulativa: Newton baseou-se nos trabalhos das gerações anteriores, como os de Copérnico, Galileu e Kepler e, do mesmo modo, Einstein baseou-se nos trabalhos de Newton para chegar mais além. Um dia alguém subirá aos ombros de Einstein, já que o processo de construção da ciência não tem fim à vista. A ciência é um dos mais formidáveis empreendimentos humanos: consiste em conciliar a tradição – o que já se conhece bem sobre o mundo – com a inovação – o que se vai descobrindo, usando o método científico. O que se descobre tem sempre de respeitar aquilo que se conhece bastante beem.

O jovem físico português Marinho Lopes não só sabe bem o que é a ciência, em particular o processo de construção da ciência, como sente o ímpeto de o transmitir aos outros essa sua sabedoria, juntando-se a colegas seus no alargamento da cultura científica. Para isso serve-se de um blogue que alimenta desde 2007, Sophia of Nature, a Sabedoria da Natureza, com o subtítulo “Conhecimento é poder” (um aforisma do jurista e filósofo inglês Francis Bacon, um dos primeiros teorizadores da ciência quando esta, no século XVII, começou a surgir com a forma que tem hoje). Esse blogue, que cobre numerosos tópicos de física, de matemática e da especialidade científica do autor, que é a modelação físico-matemática em neurociências, contém um conjunto de textos bem escritos, que são úteis para quem se queira iniciar nos assuntos da física ou para quem queira complementar a formação de base que já possua.

O livro que o leitor tem em mãos é uma selecção de textos desse blogue, estando os temas ordenados por capítulos. A abrir o leitor encontrará um capítulo introdutório, intitulado “Criar ciência”, que explicita o processo de construção da ciência. A explicação dada por Newton  sobre o movimento da Lua em torno da Terra – a força de gravitação entre a Lua e a Terra - é o tema do capítulo seguinte, ao qual se segue uma explicação das marés – causadas afinal pela mesma força. Mesmo que o leitor já esteja familiarizado com a física básica, aprende sempre qualquer coisa como, por exemplo, o facto de a Lua se estar a afastar da Terra de uma distância de quatro centímetros em cada ano. Não só a Lua não cai sobre nós, como está, embora lentamente a fugir de nós, contrariando o senso comum. Seguem-se outros dois capítulos sobre astronomia: um, um pouco mais quantitativo (não muito, como bom divulgador, o autor evita a matemática), sobre medições astronómicas e o outro sobre movimentos celestes. Mais uma vez um leitor eventualmente mais sábio pode aprender alguma coisa, por exemplo, o surpreendente facto de que o Natal pode muito bem vir a ser no Verão, no hemisfério Norte, devido ao movimento de precessão do eixo de rotação da Terra. Segue-se uma apresentação das leis de conservação, que são importantíssimas em física  - por exemplo, a rotação da Terra em torno do seu eixo respeita a lei de conservação do momento angular -, e uma breve digressão sobre o pêndulo de Foucault, uma maneira engenhosa de medir, sobre a Terra, esse movimento. Dois pequenos capítulos sobre os balões de ar quente e sobre o fogo precedem uma discussão, maior e mais fundamental, sobre as quatro forças básicas da Natureza, que permitem as relações entre as partículas que constituem o mundo. O carácter dual da luz e da matéria, que está no cerne da  mecânica quântica, precede um capítulo sobre esta teoria. Por último, surgem alguns capítulos sobre temas avulsos, como a supercondutividade, os malefícios de algumas radiações, os sentidos que nos permitem percepcionar o mundo à nossa volta e o movimento browniano, isto é, o misterioso movimento de um pólen em suspensão na água que levou no século XIX ao ganho de confiança na hipótese atómica, trazendo á atenção dos nossos sentidos uma realidade até então invisível.

O autor, licenciado e doutorado na Universidade de Aveiro e a trabalhar actualmente como investigador na Universidade de Exeter, no Reino Unido (pertence a uma geração de portugueses que não conhece fronteiras geográficas), sabe do que fala, pelo que o livro está cientificamente correcto. Sem prejuízo do rigor, o Marinho Lopes faz um louvável esforço de simplificação com o objectivo de tornar inteligíveis conceitos e teorias que podem não ser de compreensão fácil para quem lhes seja estranho. Por exemplo, logo no início apresenta uma analogia divertida entre fazer ciência e cozinhar arroz. E serve-se de figuras esquemáticas sempre que necessário.

Eis pois uma obra de leitura leve que recomendo a quem tenha curiosidade por assuntos de física. Não poderá existir ciência se a sociedade, que a sustenta, não tiver a mínima noção do que ela é. Para levar a ciência a todos são evidentemente úteis tanto blogues como livros, que obviamente se somam a outros meios como a imprensa, a rádio e televisão, os museus e centros de ciência, etc. Todos os meios são úteis! Os cientistas têm particulares responsabilidades na transmissão dos conhecimentos e, acima do tudo, do extraordinário método que os proporciona. Eles são “enviados especiais” da Humanidade às fronteiras do conhecimento e a Humanidade quer também saber aquilo que eles sabem. O autor está de parabéns por  manifestar sob a forma, provavelmente mais perene,  de livro a sua paixão pela ciência, que já estava visível na Internet.

Coimbra, 31 de Dezembro de 2017
Carlos Fiolhais
Professor de Física da Universidade de Coimbra e divulgador científico


1 comentário:

  1. "Para levar a ciência a todos são evidentemente úteis tanto blogues como livros, que obviamente se somam a outros meios como a imprensa, a rádio e televisão, os museus e centros de ciência, etc."
    "Para levar a ciência a todos" os meios mais adequados e poderosos deveriam ser as escolas básicas e secundárias, através dos seus professores licenciados em Ciências, que, apesar dos tempos tristes que atravessam, não merecem o esquecimento a que são votados por um "etc" insignificante a fechar o rol das instituições que fazem divulgação científica.

    "Segue-se uma apresentação das leis de conservação, que são importantíssimas em física - por exemplo, a rotação da Terra em torno do seu eixo respeita a lei de conservação do momento angular -, e uma breve digressão sobre o pêndulo de Foucault, uma maneira engenhosa de medir, sobre a Terra, esse movimento." Sobre este pequeno excerto do artigo, cumpre-me esclarecer que os maiores pedagogos em ciência da atualidade não consideram importantíssima a Lei da Conservação do Momento Angular, de outro modo esta não teria sido banida, juntamente com o pêndulo de Foucault, por serem matérias de que os alunos finalistas mais preguiçosos não gostam!
    Para sairmos deste pântano cognitivo em que caímos, temos de nos agarrar novamente à Educação, agora com mais paixão do que na primeira vez!

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