quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Il(e)iteracia científica: um caso de estudo



Artigo recebido da jornalista Vera Novais (Observador):


Sabia os riscos que corria quando decidi escrever sobre os impactos que o consumo de leite tinha na saúde. E rapidamente decidi que não iria falar nem com aqueles que são contra o consumo de leite, nem com os profissionais que dependem da venda deste produto. Assumi, e assumo, que neste caso (como em outros) não tinha de ouvir dois lados da questão, tinha de ouvir apenas um: o lado da Ciência. Esta foi uma das críticas que recebi: parcialidade. Mas não foi a única.

Escolhi profissionais ligados à saúde ou à academia, sem qualquer relação com a indústria do leite e que, à partida, me dariam respostas isentas e baseadas nos conhecimentos científicos mais atuais. Continuo confiante de que assim o fizeram. Escolhendo como fontes estes profissionais de áreas distintas, deixei aberta a possibilidade de a informação dada ser divergente ou mesmo contraditória. Mas isso não aconteceu. O que me deixa também um pouco mais segura em relação ao trabalho que produzi.

Para não ficar só com a informação dada pelas minhas fontes, tentei procurar fontes alternativas, mas confesso que tive alguma dificuldade em separar o que era realmente credível do que aparentava ser. Walter Willet, por exemplo, foi um nome recorrente nas minhas pesquisas, mas as suas declarações não eram, no entanto, compatíveis com a informação que tinha recolhido junto das minhas fontes. Quem estaria errado (se é que alguém o estava): as minhas fontes ou o professor e investigador da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Harvard? O peso da instituição ecoava na minha cabeça, ao mesmo tempo que a minha campainha de alerta-contra-figuras-de-autoridade disparava.

As declarações proferidas pelo professor, que o site da faculdade classifica como “o nutricionista mais citado internacionalmente”, pareciam-me extremadas e as conclusões, tiradas dos artigos científicos, parciais. Mas o que sei eu? Ele é professor em Harvard. Não conseguindo garantir que não havia aqui algum enviesamento por parte deste investigador, fiquei-me pelas conclusões dos artigos de revisão e meta-análises que consultei. Outra das condições que assumi quando decidi escrever o texto era que me ia focar no impacto na saúde. Nada digo sobre os impactos ambientais da produção de leite ou sobre o bem estar animal que leva muitas pessoas a optar por não beber leite. Não que o tema não me interesse, apenas não era o meu foco. Não queria escrever sobre as questões que levam uma pessoa a deixar de beber leite — porque uma pessoa pode e deve fazê-lo se assim o entender —, mas sobre as alegações de saúde que são feitas para incentivar ou demonizar o consumo de leite.

Querer conclusões definitivas e não as incertezas da Ciência

Um texto que mexe com ódios e paixões acaba por também fazer mexer os dedos e não tardou a que os comentários começassem a chegar. Sobre quem argumenta que não bebe leite por questões ambientais ou éticas nada tenho a dizer, porque a decisão de cada um só a si pertence. Lembro, apenas, que esse não era o foco do artigo. Mas outros comentários demonstraram que ainda há conceitos de Ciência que não estão bem presentes na cabeça das pessoas. A começar pelos fatores que tornam algumas conclusões mais robustas do que outras.

Li todos os comentários (que já ultrapassaram uma centena e meia). Alguns mereceram um sorriso, outros um encolher de os ombros, mas pelo menos um deles deixou-me de olhos postos no ecrã, incrédula sobre o que estava a ler. Aí nasceu a necessidade de escrever este texto. O leitor criticava ferozmente o facto de eu ter escolhido médicos e nutricionistas no papel de especialistas de alimentação e saúde, mas não era o primeiro a dizer a tratar as minhas fontes como “supostos especialistas”. O que mais me marcou foi a interrogação do comentador: como é que eu podia informar os leitores corretamente se me limitava a dizer para que situações havia evidência científica ou não.

Aceito que “evidência” pode não ser a melhor tradução para “evidence”, em inglês, mas certamente que “prova” não será uma melhor tradução no contexto de resultados científicos. Fiquei sem saber exatamente como é que o leitor queria que fosse apresentada uma informação correta se esta não fosse baseada nas evidências científicas. Mas fiquei com uma pista. O leitor fazia referência a Harvard — talvez uma alusão à universidade de Walter Willet —, o sítio onde se apresentam conclusões, não evidências.

Faz-me pensar que as pessoas não lidam bem com as incertezas da ciência e com a evolução dos conhecimentos científicos. Querem afirmações definitivas. Mas, curiosamente, também acham que o jornalismo só é bom jornalismo quando ouve as duas partes — mesmo que essas duas partes sejam ciência versus pseudo-ciência, como alertava um dos leitores. Assumo que em muitos temas pode não haver consenso científico, mas quando se pretende debater resultados científicos não faz sentido dar voz a quem “acredita” e quem “não acredita”. E alguns dos leitores não acreditam, nem nos resultados científicos, nem nos médicos, nem nos académicos. As minhas fontes e os artigos científicos citados foram menosprezados e minimizados por alguns desses leitores, que depois me sugeriam como leituras e fontes alternativas, ou como prova daquilo que me diziam, documentários tendenciosos, sites duvidosos ou até as alterações do cardápio de uma universidade.

As pessoas não lidam bem com as informações que contradizem as crenças que têm e atacam-nas como podem, incluindo (como não poderia deixar de ser) com teorias da conspiração. A acusação é que os artigos de revisão e meta-análises são pagos pela indústria do leite para manipular a opinião pública.

Alguns dos leitores tinham a lição melhor estudada e citavam referências retiradas do site PubMed, uma base de dados para publicações na área da biomedicina e ciências da vida. Uma base de dados que as minhas fontes também usam. Mas o facto de estar alojado numa plataforma dos Institutos Nacionais de Saúde norte-americanos não lhe confere validade acima de qualquer dúvida.

Mais, alguns dos exemplos citados também não concluem aquilo que os seus leitores desejavam que concluísse. “Os povos que mais leite bebem são os que mais sofrem de osteoporose” ou “nos países onde o consumo de leite é mais baixo a longevidade é maior”. Ainda que esta associação até possa ser feita ou até possa ser válida (só vendo o estudo para o afirmar com certeza), há que lembrar que associação não é causalidade e que estes trabalhos não provam que é o consumo (ou não consumo) de leite que tem consequências diretas na saúde. Aliás, alguns dos artigos citados referiam isso mesmo, mas esta é uma parte que os comentadores do meu texto escolheram não referir nas suas argumentações. Outras vezes o argumento foi bem mais simples como: “Deixei de beber leite e sinto-me muito melhor”. Ou “eu, a minha família e amigos”, para aumentar a amostragem. Sim, há pessoas
que são intolerantes ao leite. Não, um exemplo de uma pessoa não serve para todas as pessoas. E sim, todas as pessoas são livres de beber ou não beber leite se assim o entenderem.

Felizmente, nem todos os comentários são maus e há quem veja Ciência, evidências e equilíbrio onde se pretendia que eles existissem. Estes são os leitores que espero que continuem a escrutinar o meu trabalho e que me alertem se alguma vez me virem desviar da rota.

Vera Novais

Referência:


15 comentários:

  1. O leite faz mal a muita gente no mundo que gostaria de o beber e não tem dinheiro para o comprar!
    Até os medicamentos, que são medicamentos, têm efeitos secundários negativos para a saúde!

    ResponderEliminar
  2. Há muitas maneiras de chegar a provas científicas, o que interessa é saber o que aí é levado em conta e o que de fora fica. Uma prova científica tem muito que se diga, e em geral, o importante é o que lá não é considerado, por dificuldades metodológicas.

    ResponderEliminar
  3. Muitos parabéns pelo texto, e por trazer para primeiro plano a forma mais correta de apresentar os assuntos: evidências.
    Os comentários vão ser sempre um dos ossos do ofício, porque no mundo mediático de hoje é muito fácil os textos "ferirem" sempre uma ou outra ideologia.
    Às vezes, ler as caixas dos comentários on-line, quase nos faz "perder a fé na humanidade". Espero, contudo, que no seu caso não a façam desviar um micrómetro do excelente trabalho de jornalismo (comunicação de ciência) que tem apresentado.

    ResponderEliminar
  4. Excelente texto. Só não o entenderá quem não o quiser entender. Vou partilhar. Obrigado, Vera Novais.

    ResponderEliminar
  5. Da mesma forma que eu acho que o leite e seus derivados (quando estudava na primária davam-me leite com chocolate e diziam que era um excelente alimento) é um dos venenos da nossa sociedade e espero que respeitem a minha opinião, da mesma que eu respeito quem diz o contrário porque de facto não existe provas nem de uma coisa nem de outra. O que eu critico no artigo é quando a jornalista diz "não tinha de ouvir dois lados da questão, tinha de ouvir apenas um: o lado da Ciência". Mas não existem cientistas/médicos que são contra o consumo do leite? Porque é que essas opiniões não foram escutadas.

    ResponderEliminar
  6. Como agora se diz, há muitas maneiras legítimas de ganhar a vida. Há jornalistas que enveredam por histórias de lana caprina, como as de investigar se a cabra tem o corpo coberto de pelos ou de lã, se o óleo de girassol é melhor do que o azeite extra-virgem, se o leite é um veneno ou um alimento... enquanto outros profissionais, como professores do liceu, educadores de infância e médicos ensinam às criancinhas e aos jovens a roda dos alimentos que tem por trás de si mais de um milhão de anos de evolução da espécie humana, incluindo os tempos mais recentes da ciência moderna. Aos jornalistas e sociólogos que gostam da temática alimentar, mas não encontram, assim à mão de semear, casos de estudo com pés e cabeça, deixo o meu conselho amigo:
    - Dediquem-se à pesca!

    ResponderEliminar
  7. Há manias e modas que surgem e que acabam por ganhar muitos adeptos. Contra o leite há muito boa gente que diz o pior: nem vê-lo na alimentação. Cada um tem o direito de se alimentar como quiser, mesmo em oposição ao conhecimento seguro (científico) que se tem sobre o assunto. Os vegetarianos exacerbados dizem que não comem proteína animal. Mas eu queria ver o que lhes acontecia se eliminassem mesmo toda a proteína de origem animal: carne, peixe, leite e ovos...

    ResponderEliminar
  8. o leite como a maior parte dos alimentos de hoje em dia, mesmos os de origem vegetal que à partida deviam ser naturais, já perderam esse direito. e seguindo a cadeia alimentar como ela é conhecida, se os animais que produzem o leite já são alimentados à base de produtos (contrafeitos) o resultado final por si só já levanta muitas questões...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. "que à partida deviam ser naturais,". Nada é natural nos humanos a começar pelos sapatos e a acabar nos alimentos vegetais cultivados, pois a agricultura foi inventada (inventada, não é natural) há uns dez mil anos. Quanto á carne, pior, a pecuária é mais recente.

      Eliminar
    2. Caro anónimo de 23 de fevereiro às 10.53,

      Parte-se do princípio de que todas as individualidades, com assento neste fórum de discussão, estão aqui de boa-fé e de peito aberto às balas! No nosso areópago virtual, quando se fala em leite, referimo-nos ao produto natural puro, completamente livre de quaisquer contaminações - como aquelas introduzidas através dos animais alimentados à base de produtos contrafeitos -, ou aos derivados diretos dessa nobre matéria-prima, apenas sujeitos a tratamentos físico-químicos e biológicos que não interferem na qualidade do "leite", enquanto alimento adequado ao consumo humano. É evidente que qualquer produto alimentar avariado, chame-se-lhe leite, vinho, mel, sementes de quinoa, batatas fritas ou chocos grelhados com batatas a murro, faz mal à saúde, se for bebido ou comido!

      Eliminar
    3. O anónimo de 23/02 às 16:13 tem noção que o leite "puro" tem efeitos mais nocivos na saúde que o leite pasteurizado, certo? Lá porque uma coisa é processada antes de ser vendida, não quer dizer que fique estragada. Aliás, regra geral, acontece o exacto oposto.

      Eliminar
    4. Caro anónimo de 24 de fevereiro às 7:01,

      Não pretendo mais do que esclarecer, rigorosamente, quais são as "condições iniciais", como dizem os nossos amigos físicos, que subjazem à nossa diatribe em torno do artigo sobre o leite, de Vera Novais. Quer dizer, "leite", natural ou pasteurizado, tem de ser entendido, à partida, como um alimento livre de contaminações que, só por si, prejudicam a saúde humana. Por exemplo, se se pretender estudar o valor nutritivo da batata, não vamos começar pelas batatas podres.

      Eliminar
    5. O leite, tal como qualquer outro tipo de alimento, terá que passar por controlos de qualidade. Não há nada que sugira que o leite "podre" seja uma coisa mais frequente que outras comidas "podres", por isso estar a isolar o leite nessa conversa parece-me exagerado, só isso.

      Eliminar
  9. Tendo em conta que o artigo inicial apenas se debruça ao facto de o leite fazer bem ou mal independente de questões ambientais e éticas, considero-o positivo apenas neste âmbito. Achei muito negativo a maioria dos comentários dos especialistas entrevistados que apresentam afirmações não científicas para se tomar leite, muito pelo contrário.

    ResponderEliminar

1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.