sábado, 29 de dezembro de 2018

O trabalho do professor em sistemas educativos adversos: uma nota sobre um estudo realizado em Portugal

Imagem recolhida neste documento, pág. 23.

Em Outubro passado foi bastamente divulgada na comunicação social uma investigação sobre a condição docente, concretizada numa colaboração entre a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa e a Federação Nacional dos Professores (FENPROF).
O título é Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal (INCVTE), a coordenação é de Raquel Varela, professora dessa Faculdade.

Só agora tive oportunidade de ler o texto na integra, daí resultando uma apreciação bastante positiva. Faço apenas dois comentários:

1. A abordagem é acentuadamente sociológica, mas também histórica e psicológica, o que está de acordo com a composição da equipa de trabalho. Ganhar-se-ia em esclarecimento se se tivesse incluído, ainda que secundariamente, uma abordagem pedagógica (a referência a trabalhos realizados nesta área é pontual), no âmbito da qual conceitos como "condição docente" ou "mal-estar docente" encontraram sentidos precisos, tendo desencadeado investigação que faculta dados de grande interesse no respeitante a Portugal.

2. Se à altura da publicação do mencionado inquérito (início de um ano lectivo a decorrer, à escala nacional, sob a égide do "Projecto de Autonomia e Flexibilidade Curricular") os seus resultados, pelo seu carácter revelador, deveriam ser bastantes e suficientes para deixar em alerta o sistema educativo, com destaque para o Ministério da Educação, agora, no final do primeiro período, estou em crer que a sua pertinência aumenta. Do que me é dado perceber, os factores de risco nele apontados acentuaram-se, o ponto a que chegamos é crítico, sobretudo no que concerne aos professores que mais investem no ensino (ver, a título de exemplo, o artigo "O entulho das escolas" de Carmo Machado, publicado na revista Visão do dia 17 deste mês).

Deixo, finalmente, um apontamento do estudo, extraído da sua Introdução.
Na segunda metade do século passado, o cientista social norte-americano Wright Mills cunhou a distinção entre o que chamou de “perturbação privada” (private trouble) e “questão pública” (public issue). As ditas perturbações diriam respeito ao caráter do indivíduo e às relações imediatas dele com os outros. Estão, assim, relacionadas com seu próprio self e com as zonas proximais da vida social que lhe dizem respeito, mais diretamente. Já as questões transcenderiam os ambientes e os locais do indivíduo e da sua vida mais íntima. Remeter-nos-iam a um ambiente social historicamente determinado, composto pela interpenetração de um avassalador número de ambientes pessoais e locais, pela sua inserção numa estrutura de vida social histórica, numa perspectiva de totalidade. É para essas questões públicas que a atenção de qualquer investigação social se deve dirigir, para o mundo real dos fenómenos políticos e sociais mais amplos, para o universo dos eventos históricos de vulto, quando influem na vida de muitos e os millieaux roçam a sociedade em sentido mais amplo.
Este estudo pressupõe o reconhecimento da centralidade do trabalho para a formação social (...) com uma preocupação comum – perceber o reflexo sintomal do que é o mundo laboral do trabalho na educação em Portugal –, o presente estudo social pretende responder a algumas «questões públicas»: Por que uma grande parte dos professores, ao final do dia, sentem-se esgotados? Quais são as causas do sentimento de exaustão emocional entre os docentes? De onde advém o stress laboral na educação escolar? Como compreender e/ou explicar um mal-estar tão difuso e generalizado nas funções, estrutura e dinâmicas desta atividade vital?

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