quarta-feira, 12 de julho de 2017

A EXTINÇÃO DA SOCIEDADE DE ESTUDOS DE MOÇAMBIQUE



O barbarismo da nossa época é ainda mais estarrecedor pelo facto de tanta gente não ficar realmente estarrecida”.
Teilhard de Chardin (teólogo e filósofo francês, 1881-1995).
Antes da independência deste país do Índico, a Sociedade de Estudos de Moçambique  era  ex-libris do meio cultural africano e de outras partes do mundo com instalações dignas, funcionais, de grande beleza arquitectónica e com um historial de valioso reconhecimento em Portugal : “Instituição de Utilidade Pública”, “Oficial da Ordem Militar de Santiago de Espada”, “Oficial da Ordem de Instrução Pública”, “Medalha de Ouro de Serviços Distintos da Cidade de Lourenço Marques” e, last but not least“, “Palmas de Ouro da Academia de Ciências de Lisboa” que a distinguiu  com uma das  25  medalhas de ouro por si atribuídas.
Foi, portanto, com natural orgulho da minha parte que a Educação Física  moçambicana entrou  nessa instituição pela porta grande, através de duas conferência por mim aí  proferidas: “Educação Física: Ciência ao Serviço da Saúde Pública” (1971) e “Os pesos e halteres e a função cardiopulmonar segundo o teste de aptidão do doutor Cooper” (1973). O impacto destas conferências fez com que eu fosse nomeado vice-presidente da respectiva Secção de Ciências e seu bibliotecário (1973) e, no ano seguinte, ascendesse à respectiva e honrosa presidência.
Na primeira das conferências supracitadas, “Educação Física, Ciência ao Serviço da Saúde Pública”  (publicada no respectivo Boletim, vol. 174, Jan./Dez 1973) para justificar o respectivo título fiz, inicialmente, a seguinte e provocatória pergunta: “Será a Educação Física uma Ciência?”
Em resposta, apresentei esta argumentação:
O polifacetismo e a complexidade de que se reveste hodiernamente a Educação Física, polifacetismo de natureza anatómica, envolvendo, como tal, o estudo morfológico dos órgãos e dos sistemas humanos e a complexidade de âmbito fisiológico, pelo respectivo conhecimento funcional; a aceitação da importância da máquina humana que Kant, na “Crítica da Razão” (1787), diferenciava das outras máquinas por estas palavras: “a máquina não pode reconstituir-se por si, se sofre uma avaria, o que, pelo contrário, podemos esperar da natureza organizada”; o conhecimento das leis que presidem ao funcionamento das máquinas simples (alavancas), no que diz respeito ao aspecto locomotor, e das máquinas complexas, no que se relaciona com as grandes funções orgânicas, conhecimento subordinado aos princípios da Mecânica, mas agravado pelas implicações neuropsicológicas a ele atinentes; o difícil domínio da Química relacionada com a contracção muscular; o importante papel que cabe à Educação Física na formação da juventude, denunciado pelo congressista norte-americano Woods Hutchinson ao afirmar, no encerramento do Congresso das Associações Americanas, perante membros responsáveis do governo “ser preferível uma campo de jogos sem uma escola a uma escola sem campo de jogos”; a avassaladora força da Educação Física, finalmente, e sem pretensões  de esgotar o assunto, bem pelo contrário, o contributo que a Educação Física  presta à Saúde Pública, facto tomado em conta em países que ministram cursos universitários de Educação Física, justificam, em absoluto, a escolha do tema e os parâmetros em que a mesma se vai desenvolver por a Educação Física ter assumido  no mundo hodierno foros de cidadania científica.”
Em Dezembro do ano passado, a Faculdade de Desporto do Porto (FADEUP), segundo  a primeira edição do ShanghaiRanking’s Global Ranking of Sport Science Schools Departements, divulgado recentemente pelo Center for World-Class Universities  da Universidade de Jiao Tong de Xangai, foi considerada a 23.ª melhor escola do Desporto do Mundo e a décima da Europa. Apraz-me registar que, por concurso público (1975), fui nomeado docente do respectivo  corpo docente inicial.
Com o fim da Sociedade de Estudos de Moçambique,criada em 1930 ( em cujas instalações passou insolitamente a funcionar, como sói dizer-se,  em passagem de cavalo a burro,  um  luxuoso estabelecimento   particular de ensino primário: o “Colégio Nyamunda”) jazerão,    em prateleiras carcomidas pela inexorável passagem do tempo, páginas em defesa da Educação Física e, concomitantemente,  das  actividades do malfadado CORPO e sua ligação relativamente a outras disciplinas científicas integradas na respectiva Secção de Ciências. 

 Algumas dessas disciplinas científicas de  parceria,  trinta e dois anos volvidos, com estudos universitários ministrados nos então Estudos Gerais Universitários de Moçambique.  Ou seja, a extinção da Sociedade de Estudos de Moçambique deveria pesar na consciência dos seus algozes  que, possivelmente, terão tido, como escreveu o imortal  Eça. “como cultura física , indigência igual à cultura mental”!



Na foto: Fachada da antiga Sociedade de Estudos, actual Colégio  Nyamunda.



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