sábado, 6 de fevereiro de 2016

ALMEIDA SANTOS: MAIS QUE UM HOMEM E MENOS QUE UM HOMEM


Publicado inicialmente no “Jornal de Letras”, reproduzo mais um notável artigo de Eugénio de Lisboa que me trouxe à lembrança um livro do escritor e médico Fernando Namora, intitulado: “Deuses e Demónios da Medicina”. Como escreve  Eugénio Lisboa   sobre  o Dr. Almeida Santos: “Poucas grandes figuras desta terceira República terão sido tão controversas, tão admiradas e tão criticadas, tão amadas  e tão odiadas, quase sempre tão mal entendidas, na sua soberba complexidade”. Ou seja, Almeida Santos  assumiu, assim,  em vida a sua condição humana: nem Deus, nem Demónio. Transcrevo o texto de Eugénio Lisboa:

"Deixou-nos, no passado dia 18 de Janeiro, o Dr. Almeida Santos, figura inconfundível desta nossa democracia, agora em perda de carga. Poucas grandes figuras desta terceira República terão sido tão controversas, tão admiradas e tão criticadas, tão amadas e tão odiadas, quase sempre tão mal entendidas, na sua soberba complexidade.

É próprio destes dias de luto, que se seguem ao desaparecimento de um vulto de grandes dimensões, como este, proceder-se à sua quase canonização. Almeida Santos, para que a sua marca na História permaneça, não precisa destes pífios favores. Era uma lenda? Era. Mas era mais e melhor do que isso: era um homem em grande formato, dotado de excelsas qualidades e de óbvios defeitos. Pretender, de um político, virtudes imaculadas de vestal é desconhecer a massa de que se fazem estes animais magníficos e imperfeitos. Ortega y Gasset, no seu admirável ensaio “Mirabeau o el político”, estudou-os como ninguém, não os santificando nem os crucificando: apenas tentando compreendê-los. O seu relato conclusivo, repito, nem os hipertrofia nem os diminui: caracteriza-os. Sem evitar as asperezas da realidade, mas também sem com elas se deprimir. Segundo o grande pensador espanhol, há que distinguir entre os “ideais” e os “arquétipos”: “Os ideais são as coisas conforme estimamos que deveriam ser. Os arquétipos são as coisas conforme a inelutável realidade. Se nos habituássemos”, continua Ortega, “a buscar, de cada coisa, o seu arquétipo, a estrutura essencial que a Natureza, pelos vistos, lhes quis dar, evitaríamos formar dessa mesma coisa um ideal absurdo que contradiz as suas condições mais elementares. Assim, costuma pensar-se que o político ideal seria um homem que, além de ser um grande estadista, fosse também uma boa pessoa. Mas será que isto é possível? Os ideais”, conclui o autor de La rebelión de las masas, “são as coisas recriadas pelo nosso desejo – são desiderata - . Mas que direito temos nós de desejar o impossível, de considerar como ideal o quadrado redondo?” Esta quadratura do círculo não a conseguiu Almeida Santos, completamente, como o não conseguiu nenhum grande político antes dele: seria contra a própria natureza das coisas. Mas, se o autor de Rã no Pântano não correspondeu nunca ao modelo do puro “ideal”, menos ainda se situou no de puro “arquétipo”. Equilibrando-se, instavelmente, entre uma sincera busca de ideais e de princípios e uma necessária e conflituante rendição às asperezas da realidade e do compromisso, Almeida Santos seguiu o percurso normal de quase todos os políticos que fizeram história. Os que, como Herculano, visam um ideal quimicamente puro e rejeitam frontalmente o resignado arquétipo – acabam fatalmente em Vale de Lobos: grandes padrões de ética, mas políticos fracassados e amargurados (“Isto dá vontade de morrer!” e outras proclamações de igual gosto e ineficácia). O verdadeiro político não hesita em sujar as mãos, ao serviço de um qualquer objectivo. Mas, cuidado: suja-as por nós, para que alguns de nós, egoistamente, nos possamos gabar de as manter limpas. Digamos que evangelicamente se perdem para que outros se possam salvar.

Ortega considerava haver dois tipos de homens: os ocupados e os preocupados, ou seja: os políticos (sempre ocupados, sempre agindo ou fazendo) e os intelectuais (sempre preocupados, sempre interpondo ideias “entre o desejar e o executar”). Almeida Santos não cabia inteira e exclusivamente em nenhuma destas duas categorias: era um político (gostava de fazer, de actuar, de executar), mas era também um intelectual (gostava de sonhar, de visionar, de pensar, de interpor ideias). Era, como intelectual, um escritor, de abundante bibliografia. Tem sido dito que era mesmo um admirável escritor e um empolgante orador (o que muito lhe teria valido nos seus prélios de causídico). Dizia Étienne  Dumont, testemunhando sobre Mirabeau, que “a eloquência é o encanto dos homens reunidos”. Muitos se sentiram enfeitiçados pela palavra fluente, floreada, castiça do tribuno Almeida Santos. Permita-se-me observar, sem sombra de acinte, que, como o vinho, ele foi melhorando com a idade: inicialmente, a sua prosa – falada ou escrita – enrodilhava-se, um tanto ou quanto, em meu entender, numa “Ramalhal” abundância, com algum toque de mau gosto; porém, com o decorrer dos tempos, foi sabendo descascá-la até lhe dar o escorreito e a limpidez dos textos mais clássicos. O seu livro Nova Galeria de Quase Retratos contém peças admiráveis sobre Mandela, Afonso Costa, Mouzinho da Silveira, Miguel Torga, entre outros.

Como o verdadeiro animal político que gosta de se ocupar (Mirabeau desentranhava-se em actividade imparável mesmo quando se encontrava encarcerado…), Almeida Santos era um trabalhador incansável: abatia tarefas, como quem respira: grande legislador, governante extremamente operoso, escritor abundante, viajante intemerato, político e intelectual doublé de infatigável homem de negócios – e o mais que aqui se não diz…Era formidavelmente trabalhador, era fecundo, era generoso. Recebia muito e dava muito. Os gestos da sua abertura aos outros (sem falar nas defesas pro bono de presos políticos), em Lourenço Marques, onde se estabeleceu, como advogado, em 1953 e, depois, em Lisboa, eram conhecidos e não foram poucos. Um exemplo só: numa manhã de sábado perdida, na baixa laurentina, junto à loja de discos do João Reis, ia Almeida Santos a passar, atira-lhe o Rui Knopfli, sempre gavroche e provocador: “Ó António, pagas-me a edição do meu livro de poesia?” Sem hesitar, com um sorriso galhardo, Almeida Santos  saca do livro de cheques e da caneta: “De quanto precisas?” Generoso, a seguir à independência das colónias, ajudou meio mundo a recomeçar vida em Portugal. Alguns – vários – dos que vieram pedir-lhe ajuda tinham-no, antes, profusamente caluniado. E continuaram a fazê-lo, com vigor acrescido, depois de devidamente atendidos. A gratidão pesa. Escoicinhar alivia.

Generoso, pois. Mas também pragmático, homem de negócios, com tudo, de menos bom, que tal encargo acarreta. Corajoso e eloquente oposicionista, era muito capaz de jantar com o diabo e de conviver com o inimigo. O seu “charme”, com laivos de casticismo, era, para muitos, irresistível. Abatia, como disse, horas imensas de trabalho, com um sorriso sereno, de quem se não cansa e muito menos se descompõe: fazia-o com aquela aparente “força fácil” de que falava o Eça.

A literatura incriminadora dos políticos é abundante e contundente. Diz-se deles cobras e lagartos, porque são capazes de passar por toda a folha, para chegarem onde querem chegar. Ortega não ilude o problema e fala, com aguda perceptividade, naquela, digamos, “falta de escrúpulos” que faz parte do equipamento de todo o político. Falta de escrúpulos que ele logo avisa não dever confundir-se com “imoralidade”. Eu cito: “Não acusemos, pois, de imoralidade o grande político. Em vez disso, digamos que lhe falta o sentido de escrúpulo. Mas um homem escrupuloso não pode ser um homem de acção. O escrúpulo é uma qualidade matemática, intelectual: é a exactidão aplicada à valoração ética das acções. Se se examina com cuidado a vida de Mirabeau, de César, de Napoleão, vê-se que a presumida maldade não é senão a falta de escrúpulo anexa a todo o temperamento activista e, portanto impulsivo.” Seja dito que só em parte pequena isto se aplica ao político (por isso algo) “imperfeito” (embora grande) que foi Almeida Santos: mas não poderia ficar imune – como político – ao escalpe analítico do grande filósofo.

Pela parte que me toca, fiquei a dever a Almeida Santos testemunhos vários da sua generosidade e amizade. E não me pesa a gratidão que sinto.

Muitos que regressaram de África, a seguir às independências, têm acusado o autor de Pela Santa Liberdade de ser o principal responsável pelos terríveis problemas que acompanharam o processo da descolonização. É injusto e é, sobretudo, falso. Essa responsabilidade situa-se muito a montante: deve-se fundamentalmente à teimosia de Salazar e à inacção de Marcelo Caetano. Almeida Santos limitou-se a apanhar os cacos de uma política míope e tonta. E fê-lo com enorme empenho, certeira eficácia, muita energia e um grande coração".

1 comentário:

  1. “Nem Deus nem Demónio”. Eis o Homem! Se amado, Deus. Se odiado, Demónio. Ou talvez o contrário seja a verdade... Onde há muitos, há erro... Mas compreendo a falha dos dois e a falha dos grandes Homens suspensos no vazio dessa cruz de mãos dadas à direita e à esquerda. Uma triste dependência independente. Pendente, o Homem, não importa o tamanho, vibra pelas naturais cordas do amor e do ódio balançando ao sabor da sua simbologia e, por isso, sem terra de repouso. Ingarantido, incoerente, inconsistente, frágil, o Homem criado e procriado ainda se tenta erguer pelo seu pé, em pleno desmame ventral, tropeçando no riso e no choro por um caminho herdado de escombros à procura da Mãe eternamente perdida. Pela palhinha do estábulo, rodeado de bestas e anjos, bebe o céu negro de estrelas e paraísos mirrados pelos magos do deserto.
    “Nem Deus nem Demónio”, Deus ele próprio, resolvido e Uno, órfão de Pai e Mãe, infamiliar, afastado do cálice e da festa, resta-lhe o calvário e a expulsão da Humanidade que o matou. Talvez porque o Homem sozinho, apenas Homem, por muito grandioso que se torne, perca a sua Humanidade se “nem Deus nem Demónio” e não seja mais reconhecido como humano. A pior solidão de todas – o regresso inteiro ao animal que resta, sem glória, nem flor, nem céu. Apenas chão.
    F.C.

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