quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

A VELHA POLÉMICA SOBRE OS EXAMES


 

Numa altura em que a polémica sobre os exames ocupa as páginas nos jornais e navega, a todo o pano, na Net, julgo de interesse transcrever um dos meus posts  sobre este tema, publicado, aqui, no De Rerum Natura (10/Maio/2012):

Os Exames Nacionais do Ensino Básico na Crista da Onda

“Na verdade, a pedagogia que nivela tudo por baixo no intuito de esbater as diferenças tem como consequência tornar ignorantes milhões de pessoas e não privilegiar aqueles que podiam ir para a universidade e para escolas de excelência com professores respeitados e programas rigorosos; é por essa razão que há cada vez mais pessoas a quererem uma escola séria, mais rigorosa, com professores preparados e mais respeitados" (Francesco Alberoni, sociólogo italiano, em entrevista a um jornal português em  2010).

Não sou de mudar facilmente de opinião (embora sabendo a simpatia cómoda em alinhar com Maurice de Tayllerand-Perigord: “A oposição é a arte de estar contra, mas com uma habilidade tal que logo se possa estar a favor”) sem que me demonstrem por a + b estar errado na minha maneira de ver as coisas. Sem querer, de forma alguma, surfar na onda de outras opiniões de académicos que se têm debruçado  ultimamente sobre o assunto, como o Desidério Murcho e a Helena Damião, não podia deixar de trazer ao conhecimento de possíveis leitores, que me possam dispensar, porventura, a atenção da leitura dos meus posts, a minha contribuição, ainda que em simples dever de cidadania, sobre um tema tão polémico como os exames nacionais do ensino básico. De há alguns anos para cá.

Sabendo-se que no ensino superior universitário os exames finais e  intermédios (frequências) são regra , com escandalosas excepções, encontro razão em Séneca: “Um atleta não pode chegar à competição muito motivado se nunca foi posto à prova”. E não será a vida académica, quer se queira ou não, uma “corrida de obstáculos”, embora para uns tantos, mais do que devia, demasiado plana por haver alunos que  chegam ao ensino universitário com uma ignorância confrangedora, o que levou um notabilíssimo catedrático de Letras da Universidade de Coimbra,  Aníbal Pinto de Castro, falecido há poucos anos, a lançar o alerta, em cerimónia académica:“Não destruam. Não cedam. Não tenham medo porque a Universidade não pode ser uma instituição de caridade. Para isso há os asilos e a Mitra. Não pode ser um hospital de alienados” (Diário de Coimbra, 27/11/2005).

A propósito da minha posição pública  sobre os exames (não só aqui, mas igualmente em artigos de jornais), transcrevo, de um post aqui publicado no mês passado os dois parágrafos iniciais:

“Numa altura em que se continua a polemizar a medida do ministro da Educação, Nuno Crato, de estabelecer exames nacionais para os diversos ciclos do ensino básico, não confundindo eu a canção com os cantores, declaro, desde já, que excluindo à partida exames mal feitos que examinam a ignorância dos directos responsáveis pela sua elaboração, ser  a favor desta forma de avaliação que coloca os alunos em igualdade de circunstâncias.

Sem exames que avaliem convenientemente o nível da aprendizagem dos alunos só tarde e a más horas se virá a tomar o pulso à ignorância dos frequentadores do ensino superior em que se substituiu uma cultura e um conhecimento científico, cimentados em estudos  aturados, pela pedagogia do facilitismo para não criar traumas nas crianças e jovens”.( "A Polémica Sobre os Exames Nacionais", 26/04/2012).

Mas para que se não pense que é só de hoje a minha tomada de posição sobre esta  temática,  transcrevo excertos de um meu texto (aqui publicado), vai para meio decénio. Escrevi:

“Só por absurdo, pode passar pela cabeça de alguém conceber um treinador de atletismo a adestrar um atleta para uma maratona olímpica sem que o resultado dos treinos seja sujeito à avaliação de uma cronometragem rigorosa. Pois é precisamente isto que acontece no nosso sistema educativo em que o aluno, por vezes, sai mal preparado por não terem sido avaliadas, em exames nacionais, as suas “performances” que atestem os conhecimentos adquiridos nos diversos e sucessivos patamares até ao 9.º ano de escolaridade. Desta forma, e a partir daí, é o aluno lançado nas pistas da exigente competição do ensino secundário (antecâmara de acesso ao ensino superior) em que corre o risco de cortar a linha da meta nos últimos lugares com os bofes do desânimo a saltarem-lhe da boca para fora. Outras vezes, nem sequer termina a prova, desistindo a meio e engrossando, assim, as percentagens do insucesso escolar. 
Ter a decantada avaliação contínua isenta de qualquer crítica, passando-lhe um cheque em branco em assunto tão sério, transforma a educação num embuste de proporções nacionais que pode servir para denegrir os que devem ser honrados e honrar os que devem ser denegridos”.
("A resistência do 'eduquês' aos exames nacionais", 10/08/2007).

Quanto a mim, tudo isto acontece num sistema educativo abrindo brechas por todos os lados por falta de alicerces de uma boa “instrução primária”, e em que o ensino secundário é, até ver,  o único pilar sólido,  e em que  o  próprio  ensino superior não pode deixar de ser posto em causa ao dar acesso a ignorantes vítimas das muitas reformas na Educação que, de há anos para cá, se têm sucedido em operações de simples cosmética, a exemplo do carmim para disfarçar  a brancura doentia que empalidece a tez de anémica donzela. Claro que para um  sistema educativo deste jaez, o segredo tem sido a alma do negócio, como soe dizer-se. Valerá a pena continuar a chorar sobre o leite derramado sem atormentar consciências  de tutelas passadas de um sistema educativo prenhe de maleitas, no qual o simples termómetro dos exames  foi dispensado para registar sinais febris?

Mas não serão os exames (os bons exames porque, como refere Jean Jaurés, “atingir o ideal é compreender o real”) uma forma  de evitar que se habite um edifício em ruínas para que os seus inquilinos  não entrem nele ignorantes e saiam dele igualmente ignorantes? Ou que, mesmo durante o seu arrendamento (em que as propinas tanto pesam nos magros bolsos das famílias), fiquem soterrados sob os escombros de uma permissividade criminosa de um ensino desaprumado de há alguns anos a esta parte?

Para finalizar, e a bem da verdade, é da mais elementar justiça dar o destaque devido a um post de Carlos Fiolhais, aqui publicado, praticamente um mês antes do meu último aqui citado, sobre este assunto, intitulado “Os Exames Prejudicam o Ensino da Matemática” (13/07/2007).  Transcrevo o seu parágrafo derradeiro: “Os alunos não sabem nada? Não estão preparados para a vida? Pois muito bem, a solução mais fácil - e também a pior - consiste em acabar com a maneira de se saber que eles não sabem. Se ignorarmos o problema, passa a não haver problema nenhum. Ah, como seria fácil o ensino em Portugal sem quaisquer exames…”

Pela sua contundência, entendo ser este um argumento essencial a ter em devida conta na defesa dos exames. Agora se persistirem na falácia de não diferenciarem os bons dos maus exames (como se ambos fossem coisas iguais) duvido que não venha a tornar-me personagem  das palavras de Eça: “Não é um vencido que se retira; é um enfastiado que se safa”!

12 comentários:

  1. Este assunto interessa-me e tenho vindo a mudar de opinião aos poucos por diversas razões pragmáticas:

    1) Opiniões cada um tem a sua. Há os que defendem acerrimamente exames e há quem seja contra eles. Neste momento citar opiniões seja de quem for não me interessa minimamente. Quero estudos, resultados concretos. Retém mais e melhor conhecimento e têm melhor desempenho os alunos que são avaliados com exames ou os que são avaliados de outras formas?

    2) Os exames prestam-se a todo o tipo de deturpações. Não só se pode passar o ano para "treinar" ao invés de aprender e consolidar conhecimentos como depois se pode copiar, usar telemóveis e mil e uma falcatruas para obter "uma nota" que em nada pode revelar o verdadeiro conhecimento sobre as matérias. Que tipo de exames queremos? Que tipo de exames são afinais mais eficazes para medir o real conhecimento? Não será preferível o modelo de prova oral ou trabalhos aplicados, diluídos no tempo, do que um único momento? Eu recordo-me que tinha um professor que TODAS as semanas nos fazia mini-provas orais surpresa sempre sobre qualquer parte da matéria e anotava sempre os resultados das respostas. No fim do ano possuía um registo contínuo do conhecimento a todo o tempo. Isso obrigava-nos a andar sempre com todos os conteúdos actualizados e na ponta da língua. Na universidade, fazer trabalhos sobre um dado tema e ter de os defender oralmente revelava-se sempre mais eficaz para se perceber afinal "o que aquele aluno sabe" do que um mero teste de cruzinhas. Por isso QUE exames queremos?

    3) Qual é o objectivo disto tudo afinal? Garantir que o conhecimento seja transmitido e aferir que o está a ser. Por isso, intuitivamente parece lógico que o tempo das aulas deverá ser dedicado à transmissão eficaz e motivadora do conhecimento e que qualquer método de aferição não deve interferir com o processo, o que claramente não se passa hoje. Por isso é deixar-nos de "opiniões" ou "inventar a roda", mas ver as várias práticas implementadas pelo mundo fora e adoptar as que funcionam.

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  2. Obrigado pelo seu "apport" em questão tão polémica como esta. Aliás, eu próprio dou conta desse facto com o título do meu post: “A velha polémica sobre os exames”.

    Relembro-me, a propósito, do sofrimento das chamadas orais (uma espécie de avaliação contínua) feitas no liceu e com nós nos tentávamos esconder atrás do colega da carteira da frente.

    Como nos ensina o provérbio "não há bela sem senão". As provas orais tinham o inconveniente, com a ânsia que implicavam no aluno mais nervoso, de provocarem as chamadas brancas. Seja como for, algo de errado se passa no “Reino da Dinamarca” (sistema educativo nacional) quando, como o acontecido recentemente, e relatado na revista “Sábado”, foram feitas perguntas a 100 alunos universitários de Lisboa com respostas demonstrativas de uma ignorância confrangedora no que tange a questões que, pela facilidade de resposta, estavam (ou deviam estar) ao alcance de alunos médios do final do básico ou do secundário.

    Já escrevi que chegará o dia (se é que já não chegou!) em que os jovens, e não só, ao lhes ser perguntado qual foi o nome do primeiro rei de Portugal, responderão: "Um momento, vou ver ao google!".

    Vive-se, actualmente, aquilo a que eu chamo a cultura googliana (em que os livros se enchem de poeira nas prateleiras das bibliotecas caseiras) e que tanto jeito dá a ignorantes para botarem figura no café perante os amigos embasbacados com tanta e elevada sapiência!...

    A propósito ocorre-me aquela história do indivíduo que chega ao café, e para impressionar os amigos, diz: "Eu sou como o Sócrates (o filósofo, não o político...): ‘Só sei que nada se’!" De pronto, respondem-lhe os amigos: "Todos nós somos como o Sócrates, todos nós sabemos que tu não sabes nada"!

    Temo mesmo que, em tempos vindouros, o cérebro humano se desloque para a polpa dos dedos que manuseiam o teclado dos computadores, Pessimismo meu? Oxalá assim fosse! De uma coisa não abdico como, por exemplo, não fazer exames com respostas do tipo cruzinha em disciplinas como o Português, por exemplo.. Aliás, moda que teve início nos meus tempos de cadete do curso de oficiais milicianos, em Mafra, em início da década de 50, em testes chamados, ao tempo, do tipo americano. Países há em que os exames que ora se criticam ou defendem existem, por exemplo nos Estados Unidos.e, salvo erro, Bélgica. Como diziam os latinos, “nil novi sub sole”, embora se diga que a história não se repete. Seja, não se repete embora se adapte aos tempos em que decorre.

    “Last but not least”, por vezes, o mal não está tanto na canção mas mais nos cantores. Ou seja, não tanto nas provas de exame mas mais em quem as elabora, por vezes, até com erros de palmatória!

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  3. Errata: Na penúltima linha do penúltimo § do meu comentário, corrijo "nil novi sub sole" para "nihil sub sole".

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  4. Escrevi, em tempos, que, por vezes, as gralhas não pousam, ousam. Desta vez, nova gralha ousou pousar no meu comentário (16 de janeiro às 17:34). Nele, a máxima latina, por mim citada, está amputada da palavra "novi". Assim, a frase correcta é: "Nihil novi sub sole".

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  5. Concordo. E dou mais umas achegas.

    Estou farto de ouvir e ler os que criticam os exames afirmando que eles hierarquizam e seleccionam os alunos (acharão que se deve dar a todos os alunos o mesmo valor?) argumentando que fomentam o “culto da nota”, como se a nota (em si) fosse coisa má, quando ela é, afinal, desde que os exames sejam equilibrados e bem feitos, a medida da aprendizagem. E uma medida uniforme, como convém à objectividade.

    Outros argumentam que as crianças e os jovens ficam complexados com a diversidade das notas, ou com a hierarquização que elas determinam. Mas nunca vi nenhuma criança nem nenhum jovem ficar complexado porque no salto em altura, na sua escola, uns saltam mais alto do que outros. A criança aceita como justo e natural que se ela salta, digamos, 90 cm e outro colega consegue saltar 110 cm, o colega deve ficar acima, na tabela. E a mesma criança achará, e considerará justo, que outra criança que apenas salte 82 cm ficará abaixo dela. O mesmo se aplica em várias outras actividades que envolvem crianças. E daí não resultam criancinhas traumatizadas. Concorde-se ou não, a vida é um conjunto sucessivo de provas. E dizem que a escola deve preparar para a vida.

    No que toca aos exames, acham alguns que a criança fica complexada pela hierarquização das suas capacidades(não da sua origem social, entenda-se). E logo que se fala em exames, surge um coro de pregadores fervorosos, na defesa dos coitadinhos que vão ficar traumatizados porque os exames vão revelar diferenças de capacidades, ou de preparação, de criança para criança. E não havendo exames, todos ficam lado a lado e as diferenças de capacidades “ficam a salvo”: escondidas por baixo do manto da permissiva ignorância. Os alunos ignorantes ficarão ao nível dos sabedores e estudiosos. É como pensar que deitando fora o termómetro se deixa de ter febre!

    Guilherme de Almeida

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  6. Na mensagem acima, entro como "Anónimo" por uma razão simples: o sistema só me deixa "postar" nessa situação. Nas outras alternativas não funciona. Para contornar esse problema assino no final do "post".

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  7. O senhor Guilherme falou muito bem! Um dia ainda iremos ouvir pessoas argumentar que não deve haver avaliações sequer... Coitadas das crianças, onde já se viu sujeitá-las a testes?!

    Eu conto que em breve esta medida do fim dos exames seja revertida. Ou que eles expliquem porquê parar nos de 6º ano. Afinal, se os exames são assim tão maus e traumatizantes, porque é que deixam ficar os de 9º, 11º e 12º?

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  8. Embora tardio, por razões de respostas a outros comentários, aqui e no meu post, "Ainda a velha polémica sobre os exames", não posso deixar de agradecer o contributo dado pelo leitor Guilherme de Almeida nesta temática.

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  9. De igual modo, e pelas mesmas razões, só agora agradeço ao anónimo do comentário (17 de Janeiro de 2016 às 15:55). Como eu costumo dizer, os comentários, quer favoráveis ou desfavoráveis, ajudam-me (e julgo que aos leitores dos posts) a perspectivar os assuntos de uma maneira abrangente e democrática permitida pelo direito de resposta que deverá (ou deveria) sempre obedecer a regras de uma polémica isenta de ataques "ad hominem".

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  10. O que me parece pouco sensato é partirmos do princípio que, não havendo exames, a escola se vai relaxar e despreocupar-se com a busca da excelência. Quem classificava aqueles exames são os mesmo professores que realizam e corrigem testes de avaliação(ou outros instrumentos similares). Por norma, quando nada sei sobre determinado assunto, não me ponho a disparatar.

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    1. Em devido tempo, responderei ao seu comentário contra-argumentando-o. Obrigado pela oportunidade que me concedeu.

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    2. Com o pedido de desculpa pelo atraso, informo "jads" (22/01/2016) que publiquei a minha resposta ao seu comentário,sob a forma de post, no passado dia 29 de Janeiro, intitulado: "Ana Benavente, os Exames Nacionais e os Fautores da Tradição".

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