sexta-feira, 3 de julho de 2015

Para além de Blatter

Texto que nos foi enviado pelo leitor Fernando Tenreiro, economista do desporto, e que muito agradecemos.

A Europa está no seio do turbilhão criado pelos eventos desportivos e defronta-se com interesses emergentes e processos económicos insuficientemente conhecidos que agora pretende melhorar.

Durante mais de 100 anos a Europa criou e desenvolveu o produto e a imagem mítica dos eventos desportivos e o mundo primeiro participava nos eventos europeus e depois aspirou a fazer os seus. O poder da Europa mantém-se pelo ‘conhecimento das coisas’ que sempre teve e que continua a manter. Se há países com princípios éticos, outros usam-nos com benefícios duvidosos e outros ainda não receiam subvertê-los. Nem todos aceitam eventos desportivos a qualquer preço, a contestação de multidões cresceu no Brasil e Blatter é a emanação má que a Europa oferece no momento que quer transformar um dos produtos por si criado.

As características económicas dos eventos desportivos são complexas e a sua importância económica cresce mais do que proporcionalmente à medida que a população mundial desfruta de um maior bem-estar material e acede a níveis de literacia desportiva que exige o seu consumo crescente.
A essência competitiva dos eventos desportivos são um bem privado e, no limite superior dos produtos desportivos, tem características de bem de luxo como são os lugares cativos para os consumidores VIP. Na gestão do evento os seus produtos são diferenciados, a federação discrimina os preços e extrai em cada segmento de consumo o máximo de renda económica que os consumidores estão dispostos a pagar.

Os eventos desportivos oferecem oportunidades de rendas económicas de curto prazo no momento da competição. Na fase de pré-evento há um período de incubação e investimento relativamente longo e no pós-evento há benefícios positivos que se formam também no longo prazo. Estes períodos longos de investimento e geração de benefícios são um outro produto económico com maturações das rendas económicas diferenciadas e, por este motivo, os investimentos para além do evento desportivo são deixados para os Estados que suportam as federações nacionais. As externalidades positivas tornam-se maiores na medida em que o investimento do Estado for mais conhecedor e determinado visando o bem-estar social e suportando a resolução das componentes que os parceiros privados não pretenderão assumir. Este foi o lapso do Euro2004 que organizámos com distinção desportiva mas que fomos incapazes de estruturar e desenvolver bem toda a componente de longo prazo. É comum a crítica ao evento nacional, os estádios vazios e a falência das autarquias que assumiram maior risco do evento.

O que aconteceu a Portugal com o Euro2004 é o paradigma de muito que se devia evitar. Fizemos 10 estádios e quase chegámos ao extremo da Grécia onde o desperdício foi imenso nos Jogos Olímpicos de 2004 e ficámos longe da virtude da Suíça e da Áustria que dominaram com eficiência económica o investimento no Euro2008 construindo apenas 5 estádios com uma capacidade média de 30.000 lugares.

As maiores federações europeias, mundiais e o Comité Olímpico Internacional são proprietárias de eventos que são únicos e diferentes, rodando-os por países dos cinco continentes e gerindo a restrição da oferta a fim de maximizar as rendas recebidas de diferentes produtos como sugere existir nas grandes empresas o prémio Nobel da Economia de 2014, o francês Jean Tirole. As diferentes plataformas de venda de bilhetes, de patrocínios e publicidade, de transmissão televisiva e informática, e a gestão dos espaços permitem gerir interesses concorrentes para a maximização das rendas de monopólio que se tornam ainda maiores em condições de ausência de informação e de custos de transacção elevados que afectam os consumidores dos bens gerados pelo evento. As rendas económicas surgem pela criação de monopólios cujo único vendedor é a organização desportiva europeia, mundial ou olímpica. Os poderes públicos têm um papel importante porque são o garante dos investimentos de longo prazo que as organizações privadas não assumem incentivando as federações nacionais a pressionar os políticos e os governos nacionais a assumirem as obrigações de longo prazo do evento desportivo.

Falta aos poderes públicos nacionais terem um melhor conhecimento das suas possibilidades de investirem com sucesso e da mecânica do projecto para serem bem-sucedidos em ambiente de concorrência e transparência de procedimentos. Nomeadamente os poderes públicos deveriam assumir a existência de um cabaz de eventos desejáveis para o seu país e um conhecimento exacto do produto, do seu processo de produção, das suas relações nas distintas plataformas envolvidas. A Alemanha, Reino Unido, França, Suíça e Áustria, por exemplo, dominam bem todo o processo de produção dos eventos desportivos enquanto outros países não o conseguem. Os países bem-sucedidos possuem uma governação de longo prazo incluindo estudos e desenvolvimento sustentado do seu desporto, processos, esses, que não são de hoje e que melhoram à medida que a sua experiência se enriquece.
Blatter é um filho da Europa, mesmo que Platini tenha com ele conversas de amizade que nunca mais serão esquecidas pelo eterno presidente eleito. A UEFA teve desde a presidência de Lennard Johanssen uma actuação pioneira de estudo e governance que serve o futebol e a União Europeia. Com as eleições a UEFA dividiu-se e a FPF fez bem em estar ao lado das posições assumidas por Michel Platini e Luís Figo.

Fernando Tenreiro,
Linda-a-Velha, 4 de Junho de 2015

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