domingo, 12 de abril de 2015

Galopim, Mestre das Pedras e das Palavras


Meu prefácio ao livro que acaba de sair na Âncora, "As Pedras e as Palavras", de Galopim de Carvalho: 

Não me ocorre nos tempos recentes, quem mais próximo tenha chegado da capacidade de comunicador científico do Professor de Ciências Físico-químicas Rómulo de Carvalho do que o Professor de Ciências da Terra António Galopim de Carvalho, os dois partilhando o mesmo nome de família (embora sem qualquer parentesco). Ambos se tornaram mestres das suas ciências e ambos se revelaram mestres das palavras, uma vez que para comunicar o conhecimento científico são precisas palavras. E não quaisquer umas, mas palavras exactas e compreensíveis. 

Este livro, se tal fosse preciso, prova-o uma vez mais. Mestre Galopim é o novo mestre Rómulo. Se um conhecia a fundo a ciência dos planos inclinados e dos tubos de ensaio, o outro conhece a dos minérios e dos martelos de geólogo. E, se um dominava em profundidade a língua portuguesa, o outro não lhe fica nada atrás. Ambos conhecem e transmitem nos seus escritos o valor da história: usando palavras sabiamente escolhidas e encadeadas, lembram-nos que as ciências assentam numa acumulação, numa edificação, numa tradição várias vezes centenária. “Se consegui ver mais longe é porque estava aos ombros de gigantes”, disse Isaac Newton. E é também por estar aos ombros do mestre Rómulo, que o antecedeu de poucos anos, que mestre Galopim consegue alcançar mais longe na vulgarização da ciência. Se Rómulo escrevia para sair impresso por caracteres de chumbo, Galopim escreve, na senda de Rómulo, na Internet (em particular, no seu blogue Sopa de Pedra, cujo título evoca os eu interesse pela gastronomia portuguesa para além de nos lembrar uma conexão interessante entre geologia e cozinha). Os dois comungam da paixão pela arte. Se o primeiro recorre à expressão poética, para alguns considerada o superlativo da língua, e não hesita em recorrer à expressão dramática e contista, o segundo escreve novelas de raiz auto-biográfica (como O Preço da Borrega) e, ademais, para além da arte das palavras, exercita a arte de expressão plástica (não valerá uma imagem mil palavras?). 

As Pedras e as Palavras, que o leitor tem entre mãos, é um título muito feliz, diria mesmo lapidar, isto é, digno de ser inscrito em pedra para sobrevivência longeva, que é justificado pelo autor logo no início de uma forma plenamente convincente: “foram dois universos fulcrais na minha passagem por este mundo”. Afinal as primeiras palavras escritas, as palavras que marcam o início da história humana, chegaram-nos através de marcas em pedra, na escrita cuneiforme sobre barro ou na escrita hieroglífica sobre rocha. E, ao longo da história, muitas palavras foram criadas e continuam a sê-lo pelos cientistas da Terra para designar a multiplicidade de pedras que encontramos a nossos pés. Como escreveu o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade: “No meio do caminho tinha uma pedra / Tinha uma pedra no meio do caminho”. É curioso que a palavra lápis que usamos hoje para designar o instrumento para escrever palavras sobre papel, tenha a mesma raiz que lápide, o que nos recorda que ele é feito de grafite, uma das formas minerais do sexto elemento químico da Tabela Periódica, o carbono. Lápis, como nos lembra o mestre Galopim, vem do latim lapis, pedra, e grafite vem do grego graph, escrita. 

Num sentido metafórico, tal como a superfície do nosso planeta é um conjunto muito numeroso e extremamente diversificado de pedras, também a linguagem, designadamente os poemas que poetas rabiscam em folhas avulsas de papel ou nos seus canhenhos, é uma composição de possibilidades infinitas. Se as pedras servem para construir casas, caminhos e pontes, também a linguagem serve para erguer contos, dramas e poemas. 

O que o leitor ávido de saber fica a saber neste livro, um aglomerado de palavras do melhor que mestre Galopim escreveu, é imenso, qualquer que seja a sabedoria dos leitores. Por exemplo, pegando na história do lápis, de entre tantas outras em que poderia pegar, trago à colação a história do lapis philosophorum, a “pedra dos filósofos”. O termo, que se deve ao grande naturalista sueco Carlos Lineu, serve para designar a grafite. Não sabia. Mas também se lhe chama, fiquei ainda a saber, “mica dos pintores”. 

Devo confessar que a minha experiência com pedras não foi a mais exaltante nos bancos escolares. Lembro-me de um professor de Ciências Naturais que, sentado na sua secretária perto da ardósia, mostrava de lampejo (se a memória não me atraiçoa mandava mesmo ao ar para deixar luzir numa fracção de segundo) um mineral da vasta colecção do liceu, pedindo que o identificássemos. Apesar do brilho ser fugaz, havia logo um aluno mais afoito que alvitrava tratar-se de “pirite”, sendo a pergunta seguinte referente ao sistema cristalográfico respectivo. O jogo consistia em encontrar a correspondência entre as pedras e as palavras, um jogo que eu sentia alguma dificuldade em jogar. Se tivesse sido, nesse tempo, aluno do mestre Galopim, poder-me-ia ter tornado num procurador e analisador de pedras, para lhes associar palavras, portanto, num aprendiz de mestre desse jogo. Agora será um pouco tarde. Mas resta-me o consolo de ler as curiosas palavras a propósito de pedras que abundam neste livro e, lembrando os meus tempos de escolar, imaginar o futuro que não tive. Não existiam nessa época já remota os livros de mestre Galopim, que ensinava por Lisboa. Fui, em Coimbra, para o curso de Física porque havia os livros de mestre Rómulo. E aprendi as Ciências Físico-Químicas, tendo desde cedo sentido o impulso de as espalhar, ensinando-as e divulgando-as. 

E aqui estou hoje, aluno do mestre Galopim, através não só dos seus livros, mas também e sobretudo do seu extraordinário exemplo de devoção à ciência e à divulgação da ciência. A ciência de pouco pode se não for divulgada, já que ela não é dos cientistas mas de todos. Tal como a ciência de mestre Rómulo, a ciência de mestre Galopim é de todos nós, uma vez que os dois generosamente nos dão a sua ciência. Muito obrigado, mestre Galopim! 

Carlos Fiolhais
Coimbra, 3 de Novembro de 1914

4 comentários:

  1. Um excelente e caloroso prefácio, professor Fiolhais. Só preferiria que tivesse usado o termo "democratização", ao invés de "vulgarização" de ciência. Se calhar é mania minha, mas tendo a achar que "vulgarização", a par de outros como "popularização" ou "promoção", podem remeter para interpretações um tanto ou quanto "perversas" do objectivo último destas iniciativas. De resto, e como sempre, absolutamente irrepreensível.

    O Prof. Galopim é não só um exemplo raro de conhecimento, mas também - e sobretudo - de vitalidade e disponibilidade para partilhar o tanto quanto sabe. Quanto conhecimento não permanece acumulado mas permanentemente indisponível nas cabeças dos lentes e nas bibliotecas das academias? A vida de dedicação à divulgação e democratização do conhecimento científico do Prof. Galopim foi assim um constante remar contra a corrente, principalmente quando era um dos poucos a fazê-lo. Hoje, felizmente, há centenas de profissionais e também cientistas a título voluntário que se dedicam a aproximar o grande público da ciência.

    Vejo no Prof. Galopim um sentido de missão, de serviço ao público, que nunca dá por terminado. Há sempre mais uma escola para visitar, mais uma palestra para proferir, mais um livro para escrever, mais um artigo para publicar no seu blog (e, mais recentemente, no Facebook). Por vezes fico com a sensação que nos quer deixar o mais que possa e na maior diversidade de formatos e plataformas possíveis antes de nos deixar, por constatar o pouco que ainda há sobre as ciências da Terra, sobretudo em português. Mas não tenha pressa, professor. Estou certo que poderemos contar com a sua inestimável presença e contributo ainda por muitos e bons anos.

    Teve a felicidade de ver o seu contributo amplamente reconhecido nas mais diversas formas (coisa ainda rara, nos nossos dias), mas destaco a atribuição do seu nome a um centro de interpretação e uma a escola secundária por achar constituírem a mais justa e apropriada homenagem a um homem da ciência e da divulgação. Não me parecendo ávido de honrarias, acho que não enjeita o carinho patente nestes gestos. Até porque, como Homem de grande sensibilidade, certamente não lhe é indiferente que, a par da admiração que granjeia, seja "carinho" a palavra que melhor define o sentimento que um país inteiro nutre por ele.

    Bem-haja, Professor!

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  2. Parabéns por mais está obra professor António Galope de Carvalho.

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  3. Muito obrigado pelas suas bondosas e simpáticas palavra, Nuno Henrique. Não podia deixar de lhas agradecer e dizer-lhe que muito me sensibilizaram. Acertou ao dizer que tenho pressa em partilhar o que a vida e a profissão me ensinaram. Colocado contra-vontade na "prateleira" onde se arrumam e, muitas vezes, se esquecem os reformados, faço o que tenho gosto em fazer no muito tempo que essa condição me dá. Abraço.

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  4. Ora essa, Professor, não tem de quê, foram palavras sinceras.

    Ainda guardo algumas sebentas do ano propedêutico dos anos 70s que em boa-hora encontrei em muito bom estado quando estudava (final dos 90s) e usei como referência. Tinha ainda um livro seu de petrogénese, mas que acabei por emprestar e perder o rasto, infelizmente.

    Compreendo a sua desilusão e a perda resultante da sua academia o ter posto na "prateleira". Sempre admirei o modo simples claro com que os professores mais velhos explicavam topicos complexos em Geologia, nomeadamente os professores Vilela de Matos, Coelho Pires e Portugal Ferreira. O problema é que a maior parte das aulas era dadas pelos assistentes. Não eram maus docentes, de todo, mas quando tinha a fortuna de ter os professores mais velhos a leccionar, percebia que algo se perdia em tê-los enfiados nos gabinetes a lidar com problemas administrativos.

    Mas devo salientar que quem o quis pôr na tal prateleira, acabou por fazer um favor a todos nós, pois tem hoje mais tempo para se dedicar a aproximar o conhecimento científico do público. Há males que vêem por bem...

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