quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Dois poemas maravilhosos:


Eugénio De Andrade
Poema do livro Obscuro Domínio:
Escrito no muro

Procura a maravilha.

Onde a luz coalha
e cessa o exílio.

Nos ombros, no dorso,
nos flancos suados.

Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.

Ou a sombra espessa.

Na laranja aberta
à língua do vento.

No brilho redondo
e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.

Procura a maravilha.

Federico García Lorca

Tenho medo de perder a maravilha

Tenho medo de perder a maravilha
de teus olhos de estátua, e o acento
que de noite me põe em plena face
a solitária rosa de teu alento.

Tenho pena de ser nesta imagem
tronco sem ramos; e o que mais sinto
é não ter a flor, polpa ou argila,
para o verme de meu sofrimento.

Se tu és o meu tesouro oculto,
se és a minha cruz e minha dor molhada,
se sou o cão do teu senhorio,

não me deixes perder o que ganhei
e decora as águas do teu rio
com folhas do meu Outono alienado
 

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