quarta-feira, 5 de novembro de 2014

CIÊNCIA DILUÍDA




Minha crónica no Público de hoje:

O Diário da República é uma fonte permanente de surpresas. Foi há pouco nele publicada uma portaria (n.º 207-C/2014), que confere, com as assinaturas do Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Saúde e do Secretário de Estado do Ensino Superior, legitimidade terapêutica à homeopatia. Julgava eu que a Saúde e o Ensino Superior tinham outros problemas prementes para resolver, mas aqueles governantes não encontraram nada mais urgente do que conferir respeitabilidade legal a uma pseudo-ciência, isto é, a uma actividade que se faz passar por ciência sem o ser.

O que é a homeopatia? A mais disparatada das assim chamadas medicinas alternativas. A portaria esclarece que os “princípios teóricos” da homeopatia integram a “lei da semelhança” e a “teoria da dose mínima infinitesimal”. A primeira diz que uma doença se cura com o próprio elemento que a causa (à luz dessa lei uma dor de dentes talvez possa ser tratada com rebuçados e caramelos). E a segunda diz que o medicamento a administrar deve estar em dose tão fraca, tão fraca, que não reste praticamente nada da substância activa, o que se consegue com numerosas diluições sucessivas (uma gota de caramelo líquido teria de ser diluída numa quantidade de água equivalente a uma extensa albufeira). Mas, perguntará o leitor com o mínimo de cultura científica, como é que menos pode ser mais, como é que uma dose radicalmente diminuta pode ter algum efeito fisiológico? Pois tem inteira razão ao pensar que, após um tão grande enxaguamento, não restará quase nada do que colocou no início (a probabilidade de encontrar uma só molécula de interesse no fim é inferior à que o leitor tem de levar com um meteorito na cabeça), mas os homeopatas defendem, contra toda a evidência, que a água guarda uma espécie de memória da substância inicial. Os medicamentos homeopáticos são feitos a partir de estranhíssimos princípios activos, alguns potencialmente perigosos para a saúde, mas os danos são evitados uma vez que, após as ditas diluições, no fim não resta deles praticamente nada.

Este escriba, na companhia do bioquímico David Marçal, não hesitou em tomar, no lançamento do seu livro comum onde discutiram a homeopatia (Pipocas com telemóvel e outras histórias de pseudociência, Gradiva, 2012), uma embalagem inteira de um remédio homeopático. Tamanha sobredose seria de uma enorme insensatez caso se tratasse de um medicamento normal. Mas, como os comprimidos que tomaram não passavam de um preparado de água e açúcar, os experimentadores ficaram exactamente na mesma. Que continuam ambos vivos prova-o não só esta crónica mas também a recente publicação de um livro de Marçal (Pseudociência, Fundação Francisco Manuel dos Santos). O que não ficou na mesma foi a sua carteira pois tiveram de dispender, numa farmácia normal e em regime de venda livre, mais de duas dezenas de euros pela caixinha das pílulas mágicas.

Em Portugal e no mundo todos os dias se vendem e consomem inúmeras embalagens desse tipo. Terá o seu conteúdo algum efeito na saúde, já que o efeito na carteira é apreciável? De facto tem, mas não é significativo: trata-se do chamado efeito placebo, que consiste na percepção, subjectiva e transitória, de melhoras por parte de um paciente porque sabe que está a ser tratado. Os medicamentos convencionais têm de passar por um processo demorado de homologação, destinado a provar que o seu efeito é superior ao placebo. Os medicamentos homeopáticos não são submetidos a tais exigências, o que se percebe pois chumbariam em todos os exames desse tipo.

Um governo que regulamenta a homeopatia, limitando a sua prática a quem conheça as supostas “bases teóricas” da actividade, está a justificar o injustificável. Está a validar uma das pseudo-ciências mais grosseiras. O argumento que os governantes podem invocar de que a homeopatria é uma prática socialmente difundida não colhe, uma vez que, por esse raciocínio, teriam de regulamentar a bruxaria, o mau-olhado e todos os videntes que deixam recados nos pára-brisas das nossas viaturas.

O governo que tão bem trata a homeopatia e outras pseudo-ciências é o mesmo que está a atacar a ciência ao pretender desactivar metade dos institutos e laboratórios de investigação nacionais. Para quê, pensará ele, termos ciência se já há pseudo-ciência? Não deixa de ser irónico que os responsáveis directos pela diminuição drástica da ciência sejam todos médicos, tal como o Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Saúde. É médica a Secretária de Estado da Ciência e Tecnologia, é médico o Presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia e é médico o Presidente do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia. Acreditarão eles nos princípios da homeopatia? Julgarão eles que com menos ciência o país fica melhor? E que quanto mais diluída for melhor será? Se acreditam, estão, como os homeopatas, perfeitamente enganados. 

25 comentários:

  1. Bom dia

    Mais um necessário artigo. Parabéns.

    Um abraço

    Augusto Küttner de Magalhães

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    1. Mais que necessário. O lobby das farmacêuticas e, em geral, das indústrias petro-químicas, agradecem.
      Haja grandes dominadores de todos os ramos da ciência como o C.F. e o mundo ficará bem imunizado contra os terríveis virus da dúvida e da incerteza.

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    1. É verdade: eu diria mesmo que foi um tiro de canhão para matar uma mosca. Na verdade, o que fica é uma espécie de obcessão doentia do Prof. carlos Fiolhais em relação à homeopatia. Porque será? E aqui está um bom tema para um post de psicologia cientista. Algum dos distintos bloguistas lhe pega?

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  3. Compreendo que o lobby da medicina necessite de muitos pacientes em mau estado e que as farmacêuticas precisem de vender muito, se possível, em monopólio. Os ciganos não gostam de dividir o produto do seu trabalho...

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  4. Uma ideia brilhante para o SNS: "medicamentos" genéricos homeopáticos :-)
    Será que também têm patentes?

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  5. E por que não aplicar o princípio da diluição homeopático aos pareceres "científicos" dos economistas? É que neste caso o "princípio activo" seria mesmo a diluição até chegar às doses infinitesimais. Seria não só altamente eficaz como benéfico para a sociedade. Fica a sugestão.

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  6. "A primeira diz que uma doença se cura com o próprio elemento que a causa" - Vacinas

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    1. Uma vacina não é uma cura. É uma prevenção.

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    2. Sem cinismo: não será antes uma preparação para cura futura? i.e., potenciar o sistema imunitário para curar no momento devido?

      Em segundo lugar, de tão semântica a sua observação, parece-me que o comentário ao qual 'respondeu' ficou sem resposta.

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    3. Uma vacina é inútil quando uma pessoa já está contaminada. Se pensa que isso é semântica, quando apanhar gripe no próximo Inverno, vacine-se a seguir.

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  7. Já uma vez alimentei esse negócio homeopático. Durante c. de 6 meses. Muitas dezenas de euros gastos. Melhorei, claro, com tanta diluição... Afinal, descobri agora que, quando se têm dores de estômago, o melhor remédio é a água: após a refeição, água morna; em qualquer altura, água à temperatura normal, tanta quanta a necessária até a dor ou enfartamento passarem. A água é o melhor diluente das gorduras e comidas pesadas. Não se esqueçam: dores de estômago? - Água!

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  8. Governantes diluídos até não restar uma "molécula" de bom senso!

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  9. Fora as vacinas! Abaixo os medicamentos!


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  10. A vulgaridade e ignorância tomaram conta do poder. Governo não tem consciência do que faz...

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  11. Para quando um artigo igualmente violento sobre a grande fraude científica das alterações climáticas/aquecimento global antropogenico?
    Porque razão o Prof. Carlos Fiolhais e o seu colaborador Prof. Marçal se revoltam tanto com a homeopatia, e parecem não se importam nada com essa gigantesca fraude que está a ter consequências gravíssimas em termos políticos, económicos e sociais?
    Será que aí já não se importam com a ciência?

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    1. A ser uma "grande fraude científica" / "gigantesca fraude", tal esforço interessaria ou beneficiaria quem? Ou é a necessidade de perseguir tudo o que se mexa? Tudo conspira? E toda a gente respira, acrescento, que se a água tem memória, também o ar a há-de ter! Estamos seguramente a inalar todos os ingredientes de que precisamos numa diluição muito maior, pelo menos razão externa para as "nossas" alucinações não deveremos ter!

      Paulo G.

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    2. Qual fraude científica? O que vai ter (e já está a ter) consequências gravíssimas em termos políticos, económicos e sociais são as alterações climáticas propriamente ditas!

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  12. A minha avó já dizia, "bancos e seguradoras são os maiores vigaristas legais". Meu pai acrescentou, "os cientistas são a maior fraude do séc. XX, nenhum até hoje (séc. XX) conseguiu produzir uma única gota de água sequer". Basta ver a fraude em torno do pseudo-aquecimento global, se existe só se for nas cabeças dos cientistas da treta.
    Quanto à homeopatia, minha avó também dizia, "quem desdenha quer comprar",. O meu pai acrescentou, "só os medíocres empregam tanta energia naquilo que querem tanto denegrir".
    Porventura os cientistas em causa conseguirão prever o tempo para 2015 e suas colheitas? Não? Bem me parecia, mas minha avó que viveu sem nunca ter ido a uma farmácia, nunca foi a um médico, nunca tomou vacina, nunca entrou sequer num hospital ou "Centro de Saúde(!)" viveu até aos 100 anos. E conseguia prever até 5 anos, o tempo e as colheitas. Aliás era um fartote de riso lá em casa, sempre verificávamos os boletins meteorológicos com as previsões da minha avó, ela sempre acertava, já os ditos cujos, coitados, raramente acertavam uma pra caixa.
    A mim, nenhum cientista da treta ou não me demove de tomar homeopatia, enquanto eu a tomar e melhorar, tudo vai bem, o resto é conversa da treta.

    Paulo Tavares

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    1. A avó de que fala era mãe do seu pai ou sogra?

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  13. "...os homeopatas defendem, contra toda a evidência, que a água guarda uma espécie de memória da substância inicial."
    O trabalho do Prof. Bienveniste, que primeiro procurou demonstrar a existência dessa" memória" foram completamente desacreditados por meio duma campanha bem orquestrada, que recorreu inclusivamente a ataques pessoais. O trabalho do Prof. Bienveniste foi no entanto recentemente retomado por Luc Montaignier que, com a colaboração de uma equipa de insuspeitos colaboradores em diversos centros de investigação chegou, facilmente às mesmas conclusões. Para não lhe acontecer o mesmo que a Bienveniste, já se defendeu realizando as suas experiências em público, e deixando-as ser filmadas para um interessante documentário-testemunho que já passou na televisão francesa.
    Comentário adicional: parece que a matéria, à luz do conceito comum de" matéria", é essencialmente formada por espaço vazio, no entanto consegue tomar a forma de algumas cabeças bem duras... O Prof. Fiolhais, por outro lado, é formado por 80% de água. Consegue apesar de tudo constituir família, votar nas eleições e debitar opiniões acerca do que sabe e do que não sabe. Se lhe retirassem a àgua ficaria reduzido a uma massa que decerto não ultrapassaria, em altura, as canelas dum qualquer homeopata.

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    1. Pessoalmente, quando alguém começa a fazer "experiências em público" fico sempre um bocado de pé atrás, mas pode ser que seja defeito meu, pelo que não vou discutir esse ponto.

      Por outro lado, sugiro as seguintes leituras sobre o tema, por uma série de autores com a mesma proporção de água:

      http://www.sciencebasedmedicine.org/luc-montagnier-and-the-nobel-disease/

      http://www.badscience.net/category/complementary-medicine/homeopathy/

      http://www.1023.org.uk/whats-the-harm-in-homeopathy.php

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  14. Tal como tinha dito, o Prof. Montagnier começa a ser alvo de uma campanha de descrédito, pelo simples facto de se ter atrevido a demonstrar algo que pode explicar o funcionamento dos preparados homeopáticos. Os artigos que refere são a prova disso. Simples artigos de opinião publicados em blogs, com uma conversa fiada que só aparentemente têm que ver com o "método cientìfico" que tanto apregoam. Sugiro-lhe antes que passe os olhos pelo registo da experiência. Pois não é a isto que o cientismo oitocentista resume a ciência: à "observação" e à "experiência" ? Ora observe lá.

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  15. Ha pessoas que são tão inteligentes, tão inteligentes , mas que depois, nem sequer sabem compreender o pai deles.
    Ha uns 15 anos tive um problema de dores fortes localizadas num braço e durante tres meses so domia de costas. Um medico que eu recomendo a toda a gente receitou-me umas coisas para a inflamaçao, mas disse-me que ' é que voce quer? Nesta idade é assim. A falta de resposta na medicina convencional fui a osteopatia e hemopatia. Fiquei como novo outra vez . E ja la vao 15 anos. tinha 50 .. So nao achei piada foi que em 5 sessoes de osteopatia tive de pagar IVA à taxa normal. e no outro medico que nao me curou mas que é um dos melhores desta cidade.e que ainda é meu medico paguei zero de iva

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