terça-feira, 11 de novembro de 2014

Ainda a ciência diluída

Minha resposta a Paulo Varela Gomes no Público de hoje: 

Escreveu-me, em carta aberta, o meu colega da Universidade de Coimbra Paulo Varela Gomes (PVG), dando-me conta do seu desagrado com a minha última crónica, na qual critiquei a regulamentação da homeopatia e a “diluição” em curso da ciência nacional.

Relatou que lhe foi diagnosticado um cancro há dois anos e que tem recorrido a tratamentos homeopáticos, os quais considera terem beneficiado a evolução do seu estado clínico, que se revelou mais benigno do que tinha sido prognosticado. Fico feliz que assim seja e desejo que essa evolução favorável se mantenha. Mas, como decerto sabe, um caso particular não permite tirar conclusões. Será, no máximo, um ponto de partida para mais investigação e nunca um ponto de chegada. Quando observamos um efeito, para lhe atribuirmos uma causa específica temos que excluir as restantes causas possíveis. Por exemplo, PVG refere a “revisão radical da alimentação”. Pode ter sido um factor relevante, mas não sou médico e francamente não sei. Num caso específico, uma determinada causa ou conjunto de causas, consideradas ou não, poderá ser a razão das melhoras. Quando há melhoras num grande número de pessoas sujeitas ao mesmo tratamento, a causa será provavelmente o tratamento. E é precisamente para saber isso que se realizam ensaios clínicos. Nos ensaios clínicos os remédios homeopáticos não apresentaram até hoje uma eficácia superior à do placebo usado no grupo de controlo.

Bem sei que há muita gente notável e muitas instituições conhecidas que julgam que a homeopatia é mais do que comprimidos de açúcar. Mas isso não substitui a fundamentação científica. Na ciência não interessa o nome de quem faz uma afirmação, interessam as provas que apresenta. Os gurus que dizem que remédios homeopáticos curam o cancro não fazem ideia nenhuma do que é essa doença e estão, em geral, a aproveitar-se da aflição dos doentes. Tem sido a medicina que tem permitido grandes avanços na luta contra esse mal (sugiro o livrinho O Cancro, de Manuel Sobrinho Simões, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2014) e não a pseudociência.

Por último: PVG, doutorado em História da Arquitectura e professor num departamento de Arquitectura, nada disse sobre a “diluição” da ciência em Portugal. Sabe que dos três avaliadores que visitaram o centro de estudos de Arquitectura na Universidade do Porto nenhum era arquitecto? E que não sabiam quem era Siza Vieira? Não partilha a minha crítica aos actuais gestores da ciência nacional por a estarem a deitar por água abaixo?

Como vê, não segui o seu conselho para ficar calado. Até porque não podia deixar de lhe desejar as melhores melhoras, para que nos dê mais páginas brilhantes como as de Ouro e Cinza.

Com os cumprimentos do seu admirador.

Carlos Fiolhais
Professor da Universidade de Coimbra

6 comentários:

  1. Belíssimo texto de grande elevação e dignidade que me traz à lembrança palavras de António Sérgio: "Contestar a ideia de um certo homem, ou defendida por um certo homem, não é insultar esse mesmo homem". Parabéns, caro Professor.

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  2. Concordo com grande parte das críticas à homeopatia. Também me parece uma fraude, mas penso que nas críticas corremos alguns riscos. Um deles é o de elevar a ciência a um patamar de verdade absoluta a que ela não pode querer almejar. A ciência é o que é, feita por homens e mulheres limitados, com métodos em constante evolução e que deve apostar por uma forma de estar mais modesta e humilde. (Bem sei que aqui não gostam muito do Boaventura de Sousa Santos mas é mais ou menos isto que ele defende).

    Há pouco acabei de ler "O erro de Descartes" e muito do que o autor ali dizia, principalmente quando no fim advogava mudanças na medicina tinha a ver com isto. Por exemplo, pedia atenção para o facto de as chamadas medicinas alternativas terem muitas vezes uma visão holística sobre os problemas que tinha a sua razão de ser à luz da teoria da neurologia apresentada no próprio livro.

    Mesmo o BSS não defende que todos os conhecimentos, científicos ou não científicos são equivalentes, mas uma posição modesta obriga-nos a olhar com humildade para todos os conhecimentos e a pedir razoabilidade e bom senso nas análises. No fundo, o que o Carlos Fiolhais faz neste artigo e pelo qual o felicito.

    Tiago Santos

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  3. ''Os gurus que dizem que remédios homeopáticos curam o cancro não fazem ideia nenhuma do que é essa doença (...)''

    Afirmações como esta nos artigos do Fiolhais e do Marçal aconselha-nos a todos a tomar a modéstia do Boaventura de Sousa Santos. Daquilo que se (mal)diz sobre as medicinas alternativas até ao que elas fazem, à sua fundamentação prático-teórica e ao seu valor, sobre isso pouco ou nada se fala e estes senhores revelam saber muito pouco do que estão a falar, revelando mais um sentimento de temor do que outra coisa. Todo o bom médico sabe os compromissos, erros e sacrifícios que a medicina convencional teve de fazer para ser hoje o que é, os (muitos) esqueletos no armário regressam sempre um dia para assombrar as conveniências do politicamente correcto, a medicina, tal como a ciência sabem que aguardam uma tremenda mudança de paradigma, no horizonte já é bem visível aquilo que os cientificistas insistem em crer como não inevitável. Agradeçam antes existirem indivíduos que guardam contra tudo e contra todos os saberes que não estão na moda... a Verdade sempre retorna ao seu curso.

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  4. Uma grande resposta.
    Só faltou dizer, a propósito da frase "Os gurus que dizem que remédios homeopáticos curam o cancro não fazem ideia nenhuma do que é essa doença", que o cancro é a própria antítese da própria homeopatia.
    Se para curar uma doença se usam doses infinitesimais do princípio activo que a causa (definição de homeopatia), como saber o que causou cada cancro para depois o curar?

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  5. E os animais? Tembém sofrem do síndrome de placebo? Ou será por interposta pessoa dos seus donos? É que a homeopatia é EXTRAODINÁRIAMENTE eficaz em veterinária. Recomendo o Prof. Doutor Meirelles.

    A homeopatia não tem , obviamente, a máquina de recursos das farmaceuticas para tornar eficaz até o mais perniciosa molácula. Por isso, nunca houve grandes ensaios clinicos para a homeopatia. Só a experiência real das pessoas e animais. Enfim... Portugal e as suas cabeças pensantes (já para não falar dos seus policymakers) sempre foram de um conservadorismo atroz. O conservadorismo não serve a ciência. Mas veja-se: enquanto o actual governo britânico alinhado com a supressaão das alternativas pricura banir a homeopatia do NHS, o governo suiço faz o oposto . Veja-se : The Swiss Government's Remarkable Report on Homeopathic Medicine in http://www.huffingtonpost.com/dana-ullman/homeopathic-medicine-_b_1258607.html

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  6. O texto anterior seguiu com gralhas...
    E os animais? Tembém sofrem do síndrome de placebo? Ou será por interposta pessoa dos seus donos? É que a homeopatia é EXTRAORDINARIAMENTE eficaz em veterinária. Recomendo o Prof. Doutor Meirelles.

    A homeopatia não tem, obviamente, a máquina de recursos das farmacêuticas para tornar eficaz até a mais perniciosa molécula. Por isso, nunca houve grandes ensaios clinicos para a homeopatia. Só a experiência real das pessoas e animais. Enfim... Portugal e as suas cabeças pensantes (já para não falar dos seus policymakers) sempre foram de um conservadorismo atroz. O conservadorismo não serve a ciência. Mas veja-se: enquanto o actual governo britânico alinhado com a supressão das alternativas procura banir a homeopatia do NHS, o governo suiço faz o oposto . Veja-se : The Swiss Government's Remarkable Report on Homeopathic Medicine in http://www.huffingtonpost.com/dana-ullman/homeopathic-medicine-_b_1258607.html

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